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História

Meu Santos de 35

História de: Mário Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/04/2013

Sinopse

Mário Pereira foi jogador do Santos Futebol Clube na década de 1930. Conta sobre os feitos do time no Campeonato Paulista de 1935 e sobre sua trajetória, desde os campos de várzea até a equipe da baixada santista. Curiosidades do futebol e lances memoráveis também marcam a entrevista.

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História completa

P/1 – O nome do pai do senhor?

 

R – José Pereira.

 

P/1 – A data de nascimento dele?.

 

R – A dele não sei. Eu sei que meu pai veio de Portugal, sob a tutela do irmão mais velho, do tio Joaquim.

 

P/2 – E a cidade dele, o senhor se lembra?

 

R – Ah, essa cidade... Escrevia as cartas pra lá, pro meu pai. Porque meu pai era analfabeto, mal sabia assinar o nome, mas tinha uma capacidade de fazer, negócio de... Tinha dois bancos de carpinteiro, fazia gaiola com torre de matriz, uma no meio. Eu tenho gaiola ainda, dessas aí que eu to falando, (riso) Representa a cúpula de igreja que tem aquela torre. Ele fazia a gaiola com isso aí e mais em volta ele pegava bambu, cortava bambu, punha pra secar, ele mesmo fazia as varetas todas, tudo isso.

 

P/1 – A profissão dele qual que era?

 

R - Bom, a profissão dele... Ele era o seguinte: ele foi estivador, ele era estivador e tinha um bar ao mesmo tempo. Trabalhava noite e dia. Na estiva ele trabalhava carregando saco, “lombando” saco de 60 quilos. Eu tenho a fotografia dele aí.

 

P/1 – E ele era proprietário do bar aqui também?

 

R – Ele era proprietário. Ele tinha, aliás, ele tinha 105 da Salviano Silveira e o 81. Oitenta e um era o bar na frente e, nos fundos, a residência.

 

P/2 – O senhor lembra o nome do bar?

 

R – Ah, isso eu não me lembro.

 

P/2 – E a cidade dele?

 

R – A cidade dele era, eu escrevia as cartas pra ele, era Beco do Cuibem, Funchal, Ilha da Madeira. Funchal, Portugal.

 

P/1 – Era ilhéu então. Meu sogro é da Ilha da Madeira. Funchal então.

 

R – Beco do Cuibem era a rua lá. Numa ocasião, numa excursão que eu fiz, eu fui por intermédio da Casa Faro e fui procurar esse negócio. E num supermercado que tinha lá eu perguntava, perguntava, mas que nada! Demoliram tudo lá. Destruíram a rua toda, alargaram, porque tudo tem o progresso, né? É como aqui em São Paulo, essas coisas.

 

P/1 – E é muito bonita a Ilha, né?

 

R – É, a Ilha da Madeira. Então, eu fui no Monte Giron e lá de cima uma coisa que eu ficava,  assim, apreciava, era um morro alto. E nas encostas do resto dos morros tinham as portuguesas com aquelas cobertas todas, com aquelas... De longe, lá de cima do Monte Giron, nas encostas de morro, elas com a enxada, carpindo e trabalhando lá na lavoura deles lá. Isso aí ainda está na minha visão, parece que eu estou vendo, porque era assim. Por causa do sol elas se cobriam todas e aquelas... Baita daquelas saias compridas também, enxada na mão, nas encostas do morro assim. Eu via lá de cima.

 

P/2 – Foi uma excursão do Santos?

 

R – Não, isso foi numa excursão particular que a Casa Faro promovia aqui em Santos. Casa Faro, não sei se vocês não conhecem, né? Naquele tempo tinha um Banco e tudo, era ali atrás da prefeitura, na rua... Ali perto da prefeitura. A prefeitura vocês não conhecem aqui em Santos?

 

P/1 – A prefeitura eu conheço.

 

R – Conhece? Então, ali do lado do Correio. Tem o Correio ali.

 

P/1 – Tem, do carioca?

 

R – É isso, eu conhecia tudo. Tudo quanto era bar também, porque eu saía ao meio dia da repartição, chegava às 5 horas da tarde em casa. Corria todos os bares, mas eu era do bloco do “eu sozinho”. Mas ainda chegava aqui em casa, depois, muitas vezes, eu comprava uma carne lá, vinha fazer um churrasco numa churrasqueira que eu tenho de pedra aí, lá no fundo. Umas pedras grandes onde tem uma roseira, uma rosa louca.

 

P/1 – Senhor Mário, e a mãe do senhor?

 

R – Helódia França Pereira.

 

P/1 – A data de nascimento dela?

 

R – Ah, isso aí já não sei.

 

P/2 – Ela era portuguesa?

 

R – Meu pai eu sei que ele veio sob a tutela do irmão Joaquim que era tutor dele e ele era menor, né?

 

P/1 – Certo, e a mãe do senhor, Dona Helódia, veio também da Ilha ou não?

 

R – Ela também era de Portugal.

 

P/1 – E atividade dela?

 

R – Atividade, ela era doméstica. Também, com cinco homens e cinco mulheres, 10 filhos... (riso)

 

P/2 – Dez filhos? E o senhor é o quê? O caçula?

 

R – Não, não. Era Maria, Alzira, Luiz, o Luiz está vivo com a perna cortada, Luiz, espera um pouquinho que eu quero dar a soma dos 10: Luiz, eu, Joaquim, Constantino... O Constantino também jogou bola muito bem, ele jogou no Santos também. Tanto que ele tem um monte de medalha, mas o Constantino também já foi embora, só está o Luiz e eu né? E das mulheres morreram tudo. Alzira... Morreu tudo. Ah, não! Tem a Marina, que é Advogada. Minha irmã Marina, mora aí no Boqueirão.

 

P/1 – Nome da esposa do senhor?

 

R – Isa Adurens Pereira.

 

P/1 – Isa Adurens?

 

R – Adurens. Pronuncia-se: A, D, U, R, E, N, S, Pereira.

 

P/1 – A data de nascimento dela?

 

R – É 4 de janeiro de 1921. Eu tinha mais 7 anos que ela, porque eu sou de 14.

 

P/1 – E a data de casamento do senhor?

 

R – Casamento, data de casamento... Espera um pouquinho aí.

 

P/2 – Depois a gente pega com ela.

 

P/1 – A cidade, ela é nascida aonde?

 

R – É santista.

 

P/1 – Em Santos. A Dona Isa é doméstica também, trabalha?

 

R – Aliás, ela foi professora. Ela era professora em dois colégios, mas antes de casar eu disse assim pra ela: “agora você...” Porque os homens do tempo antigo o lugar de mulher é em casa, trabalhar em casa ou então professora. Era a única profissão pra trabalhar fora de casa. Porque eram os hábitos daquele tempo, era isso. Então ela foi professora. Ela lecionou no colégio de freiras, ela trabalhava em dois lugares e lecionou no... Que, aliás, uma dessas grandes artistas que está sempre na televisão, ela também tinha uma irmã que era professora de dança. O colégio era de Dona Eucília Rodrigues Dias, depois passou pra outro e depois desse outro passou pro Milton Teixeira, o colégio.

 

P/1- E o nome dos filhos do senhor? O senhor tem quantos filhos?

 

R – Eu tenho o Mário Luiz Pereira.

 

P/1 – É o mais velho?

 

R – Não, não. O mais velho é o José Armando Pereira, que morreu. Esse é falecido, que é pai desses três moleques aí, desses três que eu mostrei.

 

P/1 – A data de nascimento do José.

 

R – Espera um pouquinho aí... Do José...

 

P/1 – Depois o senhor dá. Depois do José abaixo dele é quem?

 

R – É José Armando, Mário Luiz.

 

P/1 – Mário Luiz, abaixo dele?

 

R – Ele é engenheiro na Prefeitura de Cubatão. O José Armando faleceu. Ele era assim com o Ermírio de Moraes.

 

P/1 – E abaixo do Mário?

 

R – Abaixo do Mário o Carlos Eduardo Pereira, que é médico vascular.

 

P/1 – E abaixo do Carlos Eduardo?

 

R – São três filhos.

 

P/1 – Ah, são três filhos?

 

R – Eu tinha falado três filhos, né? Ou falei mais.

 

P/2 – Não, que o senhor falou que tinha 10 irmãos eu achei que...

 

R – Eu não falei o número, né? É isso aí: José, Mário e Carlos. Eu tinha... Bom, isso não convém, isso é coisa íntima minha. Eu, com o avanço das coisas ruins das mulheres, eu pedia  a Deus e rezava que me mandasse filho homem, não me mandasse filha mulher. (riso)

 

P/1 – E o senhor foi ouvido então?

 

R – Fui ouvido.

 

P/2 – Alguns jogam bola? Dos filhos do senhor?

 

R – Não, ninguém deu pra jogar bola. Nem José, nem Mário, nem...

 

P/1 – O Mário é engenheiro que o senhor falou?

 

R – É engenheiro da Prefeitura lá.

 

P/1 – De Cubatão, né?

 

R – De Cubatão. E o José era engenheiro formado pela POLI e ele lecionava quando ele estava lá, dava aula pros colegas dele, pra estudar. Esse foi chefe da CODESP aqui em Santos.

 

P/1 – O senhor estudou até quando, até...

 

R – Ah, eu me formei contador no José Bonifácio. Eu até tenho fotografia aí também, mas não sei onde está.

 

P/1 – Ainda tem a escola José Bonifácio.

 

R – Ah tem, a Instrutiva José Bonifácio, é isso aí.

 

P/1 – É 2º grau, né?

 

R – É.

 

P/1 – Atividade profissional do senhor?

 

R – Bom, eu inicialmente comecei trabalhando no Leão Azam que era, aliás, eu tenho... Acho que foi no meu casamento, eu tenho uma peça de cristal dali.

 

P/1 – Ah, uma daquelas ali em cima?

 

R – É isso. Um negócio que tem uma alça pra pegar. Veja lá que bonito aquilo. Esse era do meu patrão. Eu comecei trabalhando nele, varrendo o escritório.

 

P/1 – Era uma casa comercial?

 

R – Era uma exportadora de café.

 

P/1 – Ah, de café?

 

R – É, exportadora de café. Eu trabalhava ali na Praça.

 

P/2 – E o senhor entrou lá com quantos anos?

 

R – Eu, isso aí mais ou menos... Você viu a peça lá?

 

P/1 – Vi sim.

 

R – Bonitinha, né? É de cristal. O Leão Azam era o Raimundo Azam.

 

P/1 – E o senhor trabalhava de ajudante?

 

R – Eu ajudava e fazia o serviço de agências de navegação. Eu trabalhava com... Não sei como era o nome daquilo, eu que preenchia tudo, já datilografava também, né? Varria o escritório, porque antigamente era assim: você fazia tudo, eu ia nos bancos todos.

 

P/1 – Era tipo um office boy?

 

R – É, office boy e auxiliar de escritório ao mesmo tempo.

 

P/1 – Esse foi o primeiro trabalho do senhor?

 

R – Esse foi o meu primeiro trabalho.

 

P/1 – E depois?

 

R – Depois eu fiz concurso pra Fiscal de Rendas e me aposentei como Fiscal de Rendas. Trabalhei 48 anos, cheguei a ser chefe. (riso)

 

P/1- Da Prefeitura ou do Estado?

 

R – Do Estado, Agente Fiscal de Rendas.

 

P/1 – Trabalhou durante 48 anos?

 

R – Quarenta e oito anos. No Estado eu tenho nove quinquênios, com mais três anos, com mais dois anos, eu fazia 10 quinquênios. Graças a Deus, me aposentei com um bom vencimento.

 

P/1 – Então o senhor trabalhou só nesses dois locais?

 

R – Trabalhei pouco tempo no Leão Azam, que era do Vidal, que o Vidal também foi presidente do Santos, se não me engano. Ele que contratava, arrumava jogador. O Raul trabalhou no escritório dele, não sei quem outro trabalhou também, eles arrumavam emprego.

 

P/1 – O senhor tinha comentado que chegou a trabalhar na secretaria do Santos?

 

R – Também, primeiro trabalhei na secretaria do Santos.

 

P/1 – Ah, então antes de trabalhar no Leão Azam, o senhor trabalhou na secretaria do Santos?

 

R – Na secretaria.

 

P/1 – Qual era idade mais ou menos nessa época, o senhor lembra?

 

R – Eu não sei.

 

P/1 – Era meninote ainda?

 

R – Era moço, justamente eu estava no juvenil do Santos nesse tempo.

 

P/2 – Devia ter então uns 16, 17, 18 anos?

 

R – É isso aí, 16 a 17 anos.

 

P/1 – Bom, e os locais onde o senhor já morou? O senhor sempre morou aqui em Santos, não?

 

R – Eu também tenho uma coisa gozada, eu morei no número 11 da Rua Araguaia ali perto do campo do Santos, num bequinho que tinha ali. No 33 era o Chalé onde eu morava na Alexandre Herculano e o 66 onde moro hoje. Engraçado: 11, 33 e 66, números repetidos. Na Rua Araguaia número 11, eu morava próximo da mãe do Plínio, aquele grande piadista, como é, Metropolo Dias. Aliás, ele lecionou também, lecionou piano pro meu filho mais velho, pro Zé Armando, esse que morreu e que era engenheiro das Docas também.

 

P/1 – Mas o senhor sempre morou em Santos?

 

R – Sempre morei em Santos. Aliás, eu trabalhei no meu princípio, eu trabalhei ali em São Paulo, no Estado, mas ainda não tinha sido distribuídos pelo Estado todo né? Os fiscais estavam tudo em São Paulo. Nós fizemos uma prova, depois fizemos outra de seleção pra uma reclassificação e eu trabalhei, morava ali na rua... Ali perto da Ladeira São João, numa subida onde tinha aquele bar muito conhecido, você não lembra, que era o melhor chopp que tinha ali. Trabalhei na rua, morei na rua ali perto, não me lembro.

 

P/1 – Senhor Mário, o senhor participa atualmente de alguma instituição assim, de terceira idade ou de algum clube, alguma instituição religiosa?

 

R – Não, não participo. Eu contribuo pra umas casas aí de caridade e a minha mulher também. Ela enche a garagem de lata, lata de cerveja , lata de refrigerante, porque tem uma sobrinha, que era casada com um sobrinho meu, que toma conta desses autistas aí, a Casa dos Autistas, ela que é a... Como é o nome dela? Tereza! Que vem ser esposa do meu sobrinho Manequinho, mas se separaram já. E a Isa gosta muito de fazer essas coisas, né?

 

P/1 – O senhor não é sócio do Santos?

 

R – Eu sou remido, eu sou sócio remido. Acho que tem outro nome... Sócio laureado, tem laureado. Eu tenho aí tanta história, aliás, eu to aí se não me engano, eu to aí com uma senha, que eles me davam uma senha todo ano pra quando eu quisesse, mas eu não ia no jogo.

 

P/1 – Pra assistir jogos?

 

R – É, porque eu não gosto, por exemplo, de assistir jogo. Existe essa “brigaiada” toda, né? Parecemos uns canibais. Então a gente vai toda armada, vai com dinamite, você vê aquelas brigas, invadem campo. Eu sou contra essas coisas todas, então...

 

P/1 – Da violência?

 

R – Violência, eu não.

 

P/2 – Senhor Mário, então vamos entrar direto agora no nosso assunto aí que é a bola. O senhor começou jogar bola assim desde pequeno?

 

R – Ah sim, eu comecei no Juvenil Paulistano que era de um banqueiro de jogo, do João Bruno, acho que está aqui, posso pegar a fotografia dele?

 

P/2 – Está aqui ou em outro lugar a fotografia? Ou está no álbum?

 

R – Esse não sei se... Ah, então, está aqui. Por exemplo: Isso aqui foi quando eu fui homenageado pela várzea também de Santos viu, porque eu joguei em muito time de várzea aqui, está tudo aqui, dentro disso aqui. Isso aqui é do Santos, mas eu tenho, quando eu fui homenageado pela Várzea Santista. Isso aqui foi quando acabou o jogo do Santos, né? Como eu já expliquei, essa foto.

 

P/2 – Mas então, vamos voltar ao tempo, Sr. Mário. Então o senhor começou a jogar no...

 

R – No juvenil da Várzea. Aí teve um jogo desse Juvenil Paulistano, que era da várzea, contra o time do Santos, o juvenil do Santos, num festival aqui no campo do Santista, onde está o colégio todo do Milton Teixeira. Como é o nome daquilo lá? Você conhece aqui? O colégio do Milton Teixeira aqui, do lado do isolamento, que é Guilherme Álvaro, o nome agora que deram Guilherme Álvaro. Antigamente era Isolamento, depois é que passou pra Guilherme Álvaro e ali do lado tinha um vasto campo do Santista.

 

P/1 – É o São José ali?

 

R – Não, não, ali do lado do Guilherme Álvaro que antigamente era Isolamento, tinha um campo do Santista e nesse campo ali pegado ao Isolamento, Milton Teixeira comprou e construiu os dois colégios em frente. E no campo, propriamente onde era o campo do Santista, um time de várzea, então transformou num grande colégio.

 

P/2 – E aí o senhor começou, o senhor gostava de jogar em qual posição?

 

R – Então, deixa contar. Eu me perco muitas vezes, eu vou tergiversando como diz o outro. Então teve um jogo do juvenil, desse meu juvenil que o banqueiro era proprietário, o Juvenil Paulistano que era da várzea santista, um jogo com o juvenil de Santos num festival que teve aí. Porque lembra daqueles festivais que começava às 8 horas da manhã, não é do teu tempo, e acabava às 6 e pouco da noite? Então, nesse jogo do meu Juvenil Paulistano contra o juvenil do Santos, o Ramon Platero era treinador do Santos e o Santos naquele tempo tinha infantil, juvenil, tinha uma meia dúzia de classes de jogo. Então nesse jogo o meu juvenil da várzea, o Juvenil Paulistano, nós malhamos o juvenil do Santos. Aí eles me convidaram, o Ramon Platero disse assim: “Ei menino, você tem que sair desse time aí e  vai jogar lá, vai lá pro Santos.” As expressões dele, porque ele era gringo, como se diz, ele era uruguaio o Ramon Platero, ele dizia assim: “Ei menino, você tem que jogar lá no Santos, não sei o que.”; eu disse: “Eu vou jogar, mas o dia que tiver jogo no meu juvenil aqui no Paulistano...”, esse juvenil Paulistano da várzea que eu gostava, né, “eu tenho que jogar”, porque eles não queriam. Queriam que eu saísse de uma vez do meu time que eu gostava. Porque esse banqueiro, o senhor João Bruno, ele teve até um filho que foi goleiro, Pedro Bruno, que jogou no Santos também depois. Ele tinha carta, a gente saía, ia de carro de praça e ia jogar, tudo já uniformizado e tudo. Ele dava camisa, ele dava tudo pro time. Uma ocasião ele mandou fazer uma chuteira, eu não sei, joguei essa chuteira fora, mandou fazer uma chuteira de bico fino.(riso)

 

P/2 – De bico fino?

 

R – É, e com grampo de madeira (riso) sabe? Uma chuteira gozada, quando eu quis enfiar aquilo no pé, não dava. Eu tinha uma baita de uma... Eu era moleque, andava descalço. A chuteira de bico fino me apertava, eu arrancava a chuteira, jogava fora e jogava descalço no campo. Era assim.

 

P/2 - O senhor gostava de jogar em que posição?

 

R – Eu era meia-direita, mas eu era armador, jogava atrasado. A minha parte no Santos era assim.

 

P/2 – O senhor sempre jogou de meia-direita?

 

R – Meia-direita sempre. Sempre de meia-direita.

 

P/2 – Mas o senhor chutava com os dois pés?

 

R – Chutava com os dois pés. Isso eu tinha de bom, de pé. E eu tinha um hábito de quando eu treinava pênalti, de acertar a trave, (riso) pra brincar, pra calibrar, chutar onde eu queria.

 

P/2 – O senhor treinava de chutar exatamente a trave?

 

R – Chutava e batia a bola na trave, acertar a trave. Agora, o Ciro... Eu tinha um chute forte também, sabe? Quando a gente treinava, eu me recordo dessa também, eu de propósito mesmo, a bola no peito do pé, você dá uma força na bola muito grande. Então o Ciro disse assim: “Mário, você chuta de fora da área!”, porque naquele tempo não tinha luva, né? Machucava a mão dele pra pegar a bola.

 

P/1 – O senhor tinha chute forte?

 

R – Eu tinha o chute forte e chutava com os dois pés.

 

P/2 – E o senhor começou a jogar no primeiro time do Santos?

 

R – É, do juvenil. Foi mais ou menos no fim de 30 e princípio de 35, né, que eu passei pro primeiro time. Que eu jogava no juvenil e passei, no princípio de 35. Porque em outubro de 35 foi a decisão Santos e Corinthians, em outubro. Eu tenho uma fotografia que dá a data e tudo.

 

P/2 – Foi dia 17 de novembro de 35, foi a final.

 

R – A final. Então foi, estou fazendo confusão.

 

P/2 – O Campeonato começou bem antes, o Santos teve 12 jogos. O Santos jogou 12 vezes: ganhou nove, empatou duas e perdeu uma.

 

R- Aqui tá, olha aí. Aqui está. Campeonato Paulista de 35, sexagésimo aniversário. Então está aqui: Araken... Não, aqui está em ordem alfabética. Naturalmente não. É Araken, Augustinho, Badú, Biruta, Delson. O Delson quando fizeram essa reportagem também, esse livro que é aí, ele jogou umas partidas, mas ele se machucou depois. Figueirinha, Figueira, Ferreira, Jango, Junqueirinha.

 

P/2 – Junqueirinha foi artilheiro do time e o senhor ficou...

 

R – Não, espera um pouquinho... Mas foi o Martelete, Mário Pereira, Neves, Moran, Paulinho, Raul, Saci, Sandro, Logú, Ciro, José Carlos Tavera, artilheiros.

 

P/1 – O senhor fez 5 gols?

 

R – É, isso, 5 gols. É isso mesmo, 5 gols. Araken 4.

 

P/1 – Delson 4.

 

R – Delson, Saci, Sandro, Raul, Logú, Zé Carlos Tavera. Isso aqui o Guilherme Gonçalves... Ele operou de apendicite e morreu na operação. Guilherme Gonçalves foi presidente do Santos também.

 

P/2 – Eu posso dar uma olhadinha aqui, que eu queria fazer umas perguntas pro senhor. Então em 35 foi seu primeiro Campeonato Paulista?

 

R – Isso.

 

P/2 – Como é que era? Completamente diferente de hoje, né, um Campeonato Paulista?

 

R – O futebol naquele tempo... Aqui, por exemplo, o futebol, quem inventou esse carrossel, o carrossel holandês, e quem comandava o carrossel holandês era o ...

 

P/2 – Era o Rino Smichers, o técnico lá da Holanda?

 

R – Bom.

 

P/2 – E aí tinha o Cruyff, né?

 

R – O Cruyff que era um grande jogador, né, que existiu o carrossel holandês. Então eu quero explicar o seguinte: que o jogo no meu tempo era um e depois passou outro. Porque antigamente no nosso tempo era assim: um beque... Um goleiro, dois beques, três halfs e cinco na linha. E eu, por exemplo, como meia direita, eu jogava um pouco atrasado, era a única coisa que tinha. Agora não. São 11 de beque, 11 na linha. Parece um bando de gafanhoto correndo pra lá, correndo pra cá. Todo mundo corre, não é verdade? É completamente diferente o futebol de hoje e de antigamente.

 

P/2 – Eu vou tentar aqui ajudar o senhor a lembrar um pouquinho desse Campeonato. O Santos começa ganhando do Palestra aqui na Vila de 1 a 0?

 

R – É Palestra x Itália, né? Palestra x Itália. Não era Palmeiras, não.

 

P/2 – O senhor lembra alguma coisa desse jogo?

 

R – Palestra Itália.

 

P/2 – Dessa estréia de vocês ganhando, o senhor já era titular do time, ou o senhor veio a ser titular no decorrer do Campeonato?

 

R – Eu não sei, sei que se não me engano o Moran, eu não sei se ele foi antes de mim ou depois, o Moran. Eu competia com ele, mas eu o substituía e depois fiquei no lugar dele. Nicolau Moran, o Fininho, o apelido dele era Fininho, porque ele era magrelo, era alto também.

 

P/2 – Porque o Santos ele veio ganhando. Aí ele perde pro Corinthians da Vila, né? Foi a única derrota dele no início do Campeonato. Depois ele recupera até terminar de estar ganhando lá de 2 a 0 na final, né?

 

R – Isso foi quando, essa partida de quando é?

 

P/2 – Qual partida?

 

R – Esse jogo aí, de que...

 

P/2 – Corinthians, que o Santos perdeu? Foi o quarto jogo.

 

R – Bom, mas aqui nós perdemos, mas lá nós ganhamos de 2 a 0, na volta.

 

P/2 – O senhor lembra da final como é que foi, o clima?

 

R – Bom, o clima da final foi o seguinte: tinha aquela arquibancada de madeira no campo do Corinthians. Como os juizes sempre atuavam a favor do Corinthians, porque o Corinthians é danado, os estivadores todos de Santos aqui no Rio foram tudo pra lá e foram com uma torcida dispostos a, se acontecesse a mesma coisa nessa parte da parcialidade do juiz, né, levaram gasolina, querosene, tudo isso pra tocar fogo lá. Porque os estivadores eram danados, né? (riso) Isso que estou falando é verdade, viu! Não é mentira não. Porque existia o mal hábito dos juizes no Rio, era Artur Cirtrin, quem mais o juiz...

 

P/2 – Edson?

 

R – O João Edson, também era um encomendador de resultado que era danado, fazia o que queria, vivo pra burro. O Edson... O Edson isso aí vou contar (riso) eu não estou ligando que vai constar ou que não conste. O Edson, numa ocasião... O João Edson está vivo ainda?

 

P/2 – Acho que não.

 

R – Mas o João Edson, não sei qual foi o jogador do Santos que caiu e ele, nessa, estava pro Santos, porque o Modesto Roma também entrou no mercado. Modesto Roma também era o que tomava conta do Santos, né? E o juiz, antes de começar o jogo, ele ia lá pensão do Modesto Roma, lá na praia do José Menino, depois do Canal 1, que ele tinha, não sei se ainda tem aquela casa lá. De modo que o João Edson chegou num jogo que aí ele estava de acordo com o Santos, que era o Modesto Roma, que também entrou meio. Quando o Santos começou a passar, a entrar no mercado, ele começou a ganhar campeonatos, porque o juiz... (riso) O juiz era, eram dois bandeirinhas e mais o juiz que entravam tudo na panela. E era assim. Então, muitos jogos depois, muitos campeonatos, ficaram na base do tutu como diz o outro, né?

 

P/2- O senhor ia contar a história que o jogador caiu?

 

R – Ah, então! Teve uma falta que ele deu e ele chegou, se não me engano foi pro Cláudio, o Cláudio jogava no Santos nesse tempo, era ponta direita do Santos. Ele estava chamando atenção do jogador, estava falando o seguinte: “Fica deitado aí, fica deitado aí” que era pro tempo passar (riso) Essa é uma passagem que eu sei desse tempo por causa dos juizes. Agora, depois o Santos tinha uma máquina também, né? Tinha jogadores bons. Sem jogador bom não adianta nada, porque o juiz... Tem juiz que encomenda, porque você vê, por exemplo, nesses campeonatos que houve aí agora nesses últimos...

 

P/2 – O da Portuguesa lá.

 

R – São Paulo. Do São Paulo, esses jogos agora aí é uma vergonha, porque o juiz precisa saber analisar. O juiz, o time que ele prejudica... Outra coisa que o juiz faz, por exemplo, quando ele está do lado do time, pode bater a falta com a bola andando, fora do lugar, né? Onde ocorreu não foi isso? E você vê e aí ele manda por a bola aí pra ponta: “Põe aqui e tal”, aí ele vai, apita. Depois que o time voltou todo pra fazer marcação. Do lado que ele estiver a favor, pode fazer fora de lugar, bola andando, aquelas coisas todas que a gente vê. Porque eu, por exemplo, eu assistindo jogo aqui na televisão, acho que o melhor lugar pra gente assistir jogo não é no campo, é na televisão. Quando o doutor canhão da televisão não está... Não é imparcial também. Porque eu percebo isso também nos televisionamentos, ouviu? Porque tem estação que é uma... Por exemplo, o Juarez... Juarez o quê?

 

P/2 – Juarez Soares?

 

R – Juarez Soares. Esse também é um espertalhão danado, pra fazer comentário e tudo. Quando ele não se simpatiza com o juiz, ele também tesoura o juiz que é uma beleza. E menciona aquilo que ele viu e que também nós vimos na televisão, quando é parcialidade.

 

P/2 – E senhor Mário, eu queria voltar um pouquinho lá no Campeonato de 35, na final. O senhor lembra do jogo, o senhor disse que teve um beque que já chegou dando a falta no senhor?

 

R – Ah sim, José Carlos. Eu pulei numa bola no meio do campo, ele já veio e me deu uma no corpo. Eu era moleque, me jogou lá longe e eu “bumba” no chão. E o juiz apitou a falta.

 

R/2 – Quer dizer, já deu um aviso...

 

R – Logo, logo. Pra me meter medo, mas não adiantava nada, porque eu era moleque escolado também.

 

P/2 – E no primeiro tempo o Santos já fez 1 a 0, né? Que foi o gol do Raul.

 

R – Ah sim, o Raul. O Araken deu uma bola no meio, assim, pra ele e o Raul tinha umas pernas meio tortas, né? O desgraçado “bumba”! Botou a bola no gol do Carlos. Não, José! Era José, Raul e Carlos. Do José que era goleiro do Corinthians. Depois o segundo gol...

 

P/2 – Foi do Araken.

 

R – Foi do Araken. Foi um passe em que eu dei uma atravessada, a bola caiu atrás do Brito, viu, nas costas do Brito. Ele deu uma chicotada, um sem pulo, que o goleiro nem viu, o José. Agora, do Brito, estou lembrando de uma coisa. Esse Brito também era desgraçado, ele também metia o pau. E ele era chofer de caminhão, ouviu? Uma ocasião ele foi no hospital, ele sofreu um acidente, ele contou uma história que justamente é o que estou falando. Ele, o meu filho trabalhava no hospital e atendeu ele, esse mais novo, o Carlos. Aliás, ele estava fazendo a residência naquele tempo, que ele era moleque. Então meu filho perguntou pra ele, porque ele disse pro meu filho que jogou no Corinthians e meu filho perguntou pra ele assim: “E um tal de Mário Pereira, você conheceu?”, “Conheci”. Disse pra ele perguntar o que é que eu era, que ele dava ponta pé mesmo (riso). E foi isso que eu falei pro meu filho, que ele era um cavalo desgraçado. Ele chutava até a sombra da gente, dele mesmo. E ele sofreu um acidente, foi pro hospital e meu filho também ajudou a atendê-lo. E veio essa conversa e justamente o que eu tinha falado pro meu filho que ele era. Era cavalo,  a expressão quando a gente... O jogador é estúpido, é bruto, a gente chama de cavalo. E metia o pé mesmo.

 

P/2 – Quer dizer, apesar da zaga corintiana andar de ferradura, conseguir ganhar aí de...

 

R – Com tudo isso nós ganhamos, né, de 2 a 0.

 

P/2 – Como é que foi a festa lá no campo, o senhor foi carregado?

 

R – Bom, então, a festa tem uma história. Tinha aquele bar da estação, também era de trem que a gente vinha, né? Ia e vinha de trem. Tinha a Estação da Luz e na Estação da Luz tinha aquele bar lá. Então a torcida do Santos tudo, tudo bebido já, era bebum, como diz o outro. E começaram arrumar briga lá dentro, quebraram aquilo tudo lá, o bar lá da Estação. O proprietário do bar da Estação da Luz moveu uma ação contra o Santos pra cobrar as perdas e danos que teve lá, porque eles quebraram tudo, pintaram e bordaram. Também foi aquilo de estivador, foi só nego valente, neguinho. E fizeram, quebraram tudo na Estação da Luz, um bar. Isso é uma lembrança que eu tenho triste. Depois pegamos o trem, voltamos porque foi um trem especial. Quando chegou na estação em Santos, uma festa de novo. O povo estava todo nas ruas.

 

P/1 – Descia no Valongo?

 

R – É, ali no Valongo. Como é o nome da estação.

 

P/1 – Valongo.

 

R – É, do Valongo. Do lado da igreja do Valongo. Me puseram nas costas, eu vim de cavalinho de lá da estação! Subimos ali na Itororó, que era a sede, subiram as escadas e me puseram em cima de uma mesa de bilhar, porque a sede tinha bilhar, né, mesas. Até o Seu Muniz! Seu Muniz era zelador lá na...

 

P/1 – A sede era na Rua Itororó?

 

R – Rua Itororó, 33, se não me engano.

 

P/2 – E aí foi festa a noite inteira?

 

R – Foi aquela folia toda. A turma saiu pra rua depois também. É exemplo do que se está vendo agora, nessas festas de decisões de Corinthians e Palmeiras, ou São Paulo. Essas coisas. Tem essas torcidas organizadas, que pra mim acho que devia acabar isso, porque está... Você viu o que aconteceu no quebra-quebra, num jogo em São Paulo? Numa decisão recentemente que malharam, mataram, bateram num dos torcedores, não sei de que time. Não foi? Lembra? Que isso passa na televisão uma imagem triste, que não devia. Porque isso aí só serve pra instruir as outras torcidas que ainda existem. Eu acho que na parte de torcidas uniformizadas, os chefes deviam ser cadastrados e tudo e impor a responsabilidade, porque eles é que organizam, eles são presidente de torcidas organizadas. Isso aí está errado. Porque afinal o esporte, né, o futebol, nos campos, é uma distração. Não é verdade. É uma espécie de lazer, e não um campo de batalha, de brigas. É pedrada, é garrafada, é dinamite, é tudo isso. Eu sou contra isso aí, pôr isso que não vou mais a campo de futebol. Há muito tempo. Havia muita violência. E eu acho que as televisões não deviam transmitir, só filmar pra formar um processo pra punir os faltosos. Porque é isso aí: esporte não é guerra, não é briga, não é?

 

P/2 – Como era a torcida lá nos anos 30, era diferente?

 

R – Ah bom, eu me recordo, por exemplo, quando eu era menino, era uma coisa bonita, você sabe disso? Por quê? Porque o pai da minha esposa, a Isa, ele era torcedor do Santos também e ele morava na mesma rua, na Itororó, ali, perto da sede do Santos. Naquele tempo o que usava muito sabe o que era? Alegria era jogar as palhetas. Porque usava muita palheta, você sabe disso? Naquele tempo se usava. Você conhece palheta, aquele chapéu de palha? Eu tenho uma em cima que eu comprei quando fui pra Portugal também (riso), só pra tirar sarro do português. Português que gosta muito de palheta, né? E naquele tempo era bonito, jogava, porque as arquibancadas eram de madeira e era, assim, junto do campo. Jogavam palheta dentro do campo na alegria quando marcava um gol. Isso era uma coisa alegre naquele tempo que eu acho que é...

 

P/2 – Bonito, né, chapéu voando.

 

R – Era bonito. Jogava as palhetas pra dentro do campo, que usavam muita palheta.

 

P/2 – E aí como é que fazia, tinha que tirar de dentro do campo pro jogo voltar?

 

R – Aquilo acabava... Muitos tornavam a pegar e estragavam, perdiam a palheta.

 

P/2 – E senhor Mário, no Campeonato de 35 o senhor marcou cinco gols. O senhor lembra de alguns desses gols? Em que time que o senhor marcou, em que circunstâncias, foi de falta?

 

R – Aquela fotografia que eu tenho... Não tinha uma fotografia aqui? Que foi contra o Clube Atlético Paulista.

 

P/2 – Essa aqui ó.

 

R – Não, essa aí foi quando eu pulei pra cabecear, pra cruzar pra...

 

P/2 – Então vamos achar.

 

R – Essa aqui, por exemplo, eu era estudante. Aí! Então, essa aqui do Clube Atlético Paulista, olha aqui.

 

P/2 – Esse é um gol do senhor?

 

R – É. Esse é um gol meu.

 

P/2 – Como é que foi a jogada?

 

R – Espera um pouquinho... Vinte e dois do 10 de 35. É contra o Clube Atlético Paulista, que esse Clube Atlético Paulista também fazia parte do Campeonato.

 

P/2 – E o senhor mandou a bola aqui no ângulo?

 

R – No ângulo.

 

P/2 – Foi fora da área ou dentro da área?

 

R – Isso aí não sei, mas acho que foi fora da área.

 

P/2 – A bola sobrou e o senhor...

 

R – É que acontece o seguinte: hoje em dia, por exemplo, o sujeito só procura chutar. Porque você vê, o camarada vai chutar uma bola, tem um monte de gente na frente, não é verdade? Está diferente o futebol de hoje do de antigamente.

 

P/2 – Eu queria que o senhor me descrevesse essa foto aqui, senhor Mário.

 

R – Qual é?

 

P/2 – Esse lance aqui. Vamos mostrar aqui pro senhor, Mário, uma foto da final num lance...

 

R – Que eu to pulando aí, cortando de cabeça.

 

P/2 – É. Vamos achar. Eu queria que o senhor descrevesse esse lance aqui.

 

R – Agora eu vou dizer uma coisa pra você também: eu não vou dar pra você, eu empresto. É isso que você quer?

 

P/2 – Não, depois nós vamos querer fotografar essa foto, mas ela não vai sair daqui não. Eu queria que o senhor contasse esse lance pra gente, quem que está na foto...

 

R – Então, aqui é o Saci, aqui é o Raul e aqui se não me engano é o José, que você vê...

 

P/1 – Esse é do Corinthians?

 

R – Espera um pouco. Cadê meus óculos? Esse jogador, esse aqui acho que é o Brandão. Esse não é um preto?

 

P/2 – É.

 

R – Então esse é o Brandão. Esse era um tocador de saxofone também, o sujeito era músico também e ele não era estúpido. Brandão. E esse aqui é o Munhoz. Esse aqui é o Brandão, esse aqui é o Raul, esse sou eu, esse é o Saci. Deixa ver se eu já não escrevi isso aqui: Saci, eu, Brandão, Munhoz, Raul e o de boina é o Raul que é esse aqui. É o center four, o irmão do Armandinho.

 

P/2 – O Raul que fez o primeiro gol do jogo né?

 

R – É, e o Araken fez o segundo, do cruzamento que eu fiz pra ele. Então, está aqui decisão, jogo da decisão: 2 a 0 em 35, campo Corinthians. Saci, eu, Brandão...

 

P/2 – Que está de frente, né?

 

R – É isso e o Munhoz, esse aqui.

 

P/2 – De costas?

 

R – O Espanhol. Chamavam ele de Espanhol.

 

P/2 – Eu to vendo aqui, vocês usavam um cinto no calção?

 

R – Ah, sim, era uma faixa. Era diferente, era uma faixa engraçada (riso). Era uma faixa e tinha umas presilhazinhas que corria uma faixa aqui e amarrava.

 

P/2 – Preta.

 

R – Preto e branco.

 

P/2 – E a chuteira também não era muito diferente de hoje, né?

 

R – A chuteira... Bom, de fato. Porque a chuteira agora você vê elas são muito mais macias e tudo. Antigamente elas eram mais endurecidas, era um couro mais forte. Porque você vê agora, pra você perceber que o jogador ele é... A chuteira cai do pé, eles repõem de novo, dá uma apertadinha no cadarço e pronto, né! São mais macias e tudo. Antigamente eram mais endurecidas.

 

P/2 – E cada um só tinha uma chuteira, ou tinha muitas?

 

R – Ah, não. Hoje tem um quilo de chuteira, tem tudo em quantidade, mas antigamente era aquela e aquela mesma que tinha, porque a gente se habituava.

 

P/2 – E o campo do jogo, era um campo careca ou ele era bem gramadinho?

 

R – Não, era bem gramado também. Era bem gramado, bem gramado.

 

P/2 – E tem outra foto que eu gostaria que o senhor descrevesse aqui pra gente também, que é o senhor sendo carregado no próprio campo do Corinthians.

 

R – Isso, quando terminou o jogo. Esse aqui como é que eu falei... Que esse aqui é o Capitão Porfírio da Paz, que ele assistiu o jogo também.

 

P/2 – Quem está carregando o senhor?

 

R – Aqui. Eu me recordo desse aqui. É o Figueiras. Esse aqui vinha ser irmão de um funcionário que foi meu colega, que foi meu chefe até: Evaldo de Andrade Figueiras. Esse aqui, Esaltino, era conferente de carga e descarga, fazia embarque de frutas, de banana, pra Argentina. Ele trabalhava pra uma exportadora.

 

P/2 – Ele está segurando o senhor. São dois, né?

 

R – Esse aqui não me lembro o nome dele, mas esse aqui é o Esaltino e esse aqui é o Figueiras.

 

P/2 – De preto, esse que tá segurando a bandeira, é o bandeirinha mesmo?

 

R – Esse o bandeirinha do jogo na ocasião.

 

P/2 – De calça comprida?

 

R – É. Pra você vê, né? É porque isso aqui é o campo, né? Esse é bandeirinha. Como eram diferentes as coisas. Bandeirinha agora anda de calção também.

 

P/2 – Foi emocionante pro senhor, garoto, 21 anos...

 

R – Olha, a alegria que estou demonstrando aqui sorrindo e cumprimentando o pessoal, então.

 

P/2 – E aqui vamos falar de seus companheiros de time, que nós temos essa outra foto aqui do time campeão.

 

R – Olha aqui, esse é o Ciro que era goleiro, o Neves, esse é o Raul, o Araken, o Agostinho, o Martelete. Esse era mau pra chuchu, esse também metia a perna, viu?

 

P/2 – Vai contando aqui quem era e a posição de cada um, pra gente entender.

 

R – Deixa eu completar aqui: esse é o Janguinho, esse sou eu, esse é o Junqueirinha, esse é o Saci, o Ciro, Neves.

 

P/2 – Era o goleiro, conta um pouquinho do jeito de cada um.

 

R – O Ciro é o goleiro, o Ciro era natural de Bica de Pedra, que ele vem de Bica de Pedra. Ele foi um ótimo goleiro sempre. O Neves também, um grande jogador também, um grande beque. Também jogou, ele veio da Portuguesa de Desportos pro Santos. O Raul era aqui de Santos, era santista e o Araken...

 

P/1 – O Raul jogava em que posição?

 

R – O Raul era o center four  né? Era o center four. O Araken era o meia-esquerda. Como eu já falei, ele foi apelidado de “le danger” na França, né, quando o Santos foi jogar lá na França. O Agostinho era o beque; Martelete, o Jango era gaúcho o irmão dele. Não! Esse é o Ferreira, Ferreira irmão do Jango. Os dois eram gaúchos, vieram... Porque o Santos também, o Santos teve uma partida, até eu joguei nessa partida, no Campeonato Brasileiro contra o selecionado gaúcho. Ele parou aqui em Santos e fez uma partida com Santos aqui. Eu joguei nessa partida. Nós metemos o couro nesse time aqui, demos de 5 a 1 ou 5 a 3, uma coisa assim. E aí nessa ocasião foi quando esses gaúchos aqui, o Ferreira e o Jango, os irmãos que eram lá do Sul, eles foram contratados pelo Santos. O Santos, nessa ocasião, ele tinha também um ponta-esquerda que fazia parte da seleção. O Santos depois contratou ele também. Porque era o time gaúcho, tinha Vanderlino, Artigas e Vanderlino, que os dois depois vieram jogar no Santos também. Porque o Santos contratou depois uma porção de jogadores gaúchos que pertenciam a seleção gaúcha e que passaram aqui quando foram jogar no Campeonato Brasileiro, que se realizava no Rio.

 

P/2 – Aí tem o senhor aqui depois.

 

R – É, eu estou aqui, né? Ainda tinha cabelo nesse tempo. O Junqueirinha e o Saci.

 

P/2 – Tinha alguns desses jogadores que eram mais próximos, tinha mais intimidade com o senhor, mais amizade?

 

R – Bom, isso aí... Porque a minha passagem jogando no Santos, ela foi uma passagem rápida.

 

P/2 – Foi?

 

R – Foi relativamente, porque eu sofri contra o... Não sei contra que time foi de São Paulo, acho que foi o Estudantes. Eu levei, foi o Paulo que me deu, pôs as  mão nas costas e me deu um chute por trás. E o resultado está aí. Porque depois eu fui operado do menisco e tudo. Ele me deu um pontapé pôr trás numa bola que eu pulei. Ele me pôs as mãos nos ombros e me deu um ponta pé por trás. Irmão do Luisinho que jogou no São Paulo.

 

P/2 – Ah, irmão do Luisinho, atacante do São Paulo?

 

R – É, aquele atacante do São Paulo.

 

P/2 – É isso.

 

R – E esse camarada, eu estava esperando um jogo de velhos que ele viesse um dia aqui pra tirar a diferença, você sabe disso? (riso) Eu estava esperando. Mesmo assim, desse jeito, num jogo de velhos essas coisa todas eu não esqueci não viu (riso). Mas não deu mais, agora não dá também.

 

P/2 – Mas o que é que aconteceu depois? Foi no campeonato seguinte, foi em 36 que o senhor machucou?

 

R – Não, eu machuquei em 35.

 

P/2 – Ah, em 35?

 

R – Foi em 35 ainda.

 

P/2 – Mas a ocorrência desse machucado é que o senhor saiu depois do Santos, não pode mais jogar? O que é que foi?

 

R – Também não deu mais, porque eu levei uns tempos, demorou muito pra operar e eu também tinha aqui no Clube Regatas Santista, que eu levava os meus filhos pra jogar bola e... Bom, agora já estou fazendo uma misturazinha aqui.

 

P/2 – Bom, o senhor começou então no primeiro quadro aí, no profissional não, no primeiro time do Santos em 35 e foi campeão paulista, primeiro título do Santos. No ano seguinte o senhor estava ainda jogando no Santos?

 

R – Eu não tenho muita lembrança.

 

P/2 – O senhor teve outro time depois do Santos?

 

R – Não, não. Eu só joguei no Santos. Eu tive foi, que obtive uma lembrança... Vocês recordam-se daquele Carlito Rocha que era do Botafogo, que entrava com o cachorrinho no campo?

 

P/2 – O Biriba.

 

R – O tal de Biriba. Então, eu tenho uma lembrança que ele queria que eu fosse lá pro Botafogo, mas eu não fui, porque eu era muito agarrado a Santos. E eu não era habituado assim a fazer viagens, essas coisas todas. E eu era bairrista, era de Santos, que nem um caipira que está num lugar só e não quer sair, né? E aquilo é a vida dele pra sempre.

 

P/2 – Senhor Mário, naquela época era amador, não ganhava nada pra jogar bola?

 

R – Bom, é como estou falando pra você: eu também trabalhava na Secretaria, ganhava 300 mil réis e tinha uma ajuda de 300 mil réis de ajuda de custo, que o Santos me dava. Mas não tinha contrato de profissional nem nada, porque quando eu fiz contrato de profissional foi quando estava no hospital, viu! Que um diretor do Santos, eu estava no Godói Moreira, quem me operou foi no Godói Moreira, na Brigadeiro Luiz Antônio que era o hospital. Então, o Penteado que era secretário geral do Santos, ele foi lá com um contrato que era pra autorizar a minha operação. Você vê? Isso também me deixou uns tempos meio queimado, mas isso já passou, passou. Enquanto eu não assinasse o contrato, contrato de 10 mil, 10 mil quanto era? Qual era o nome do dinheiro naquele tempo? Era 10 mil.

 

P/2 – 10 contos?

 

R – Não sei se era contos, em 30 e pouco. Dez mil, eu sei que era um valor de 10 mil. Então eu senti que ele não autorizaria a operação se eu não assinasse o contrato. Eu disse assim: “Eu vou assinar o contrato”, isso é uma coisa que eu estou falando baixo, até que eu não queria que constasse.

 

P/2 – Não, então a gente, dá uma pausa aí na...  Porque o senhor fisicamente tá uma perna muito forte, não é uma perna de...

 

R – Eu tenho porque eu todo dia eu faço esse exercício. Não ando na praia, não. Eu faço isso aí com a ponta dos dedos, isso assim: direita com esquerda. Eu não me levanto sem me aquecer deitado na cama, depois ao contrário, ponta dos dedos aqui e aqui e depois eu me massageio com as minhas próprias mãos, compreende? Me aperto todo, eu cutuco aqui a nuca também, esfrego a careca e faço isso, faço isso aqui assim, olha.

 

P/2 – Pra ativar a circulação?

 

R – Por causa da coluna. Tanto que você vê, eu ainda tenho tudo aqui mais ou menos endurecido por causa disso, desses exercícios que eu faço antes de levantar. Eu faço respiratório, eu faço isso assim, olha, (exercício respiratório). Tudo isso deitado, porque se não, se eu fizer de pé, se eu quero mesmo levantar a mão, isso, aquilo, eu fico muito cansado. E tem uma coisa, tenho um problema também de garganta (riso) que isso aí eu ando escondendo. De vez em quando eu cuspo sangue. Então eu tenho alguma veia, qualquer porcaria internamente aqui, que naturalmente me... E quando eu faço qualquer esforço, me dá o sangue, uma coizinha de nada. Mas como eu tomo três pílulas todo dia pra gripe (riso), pra seguir o exemplo do médico, assim... Não é, doutor? Eu tenho um filho que é médico, tenho neto que é médico.

 

P/2 – O senhor tem neto que é médico?

 

R – É, tenho. É o Marcelo. É são paulino, um dos são paulinos, desgraçado. Que eu digo assim: “Não vou dar minhas medalhas pra ninguém de vocês, ninguém é santista! Todo mundo é corintiano.” (riso) Eu fugi do médico. Eu já disse assim pro médico: “Eu não gosto de médico, o senhor vai me desculpar, o médico só sabe dar remédio pra gente tomar, eu estou com saco cheio de tanto...”(riso)

 

P/2 – E senhor Mário, deixa eu lembrar de uma coisa aqui que a gente não te falou: naquela época o jogador de futebol aqui em Santos, em 35 quando o senhor jogava, ele tinha esse prestígio de hoje ou era uma pessoa meio comum, andava na rua sem ninguém ficar assediando?

 

R – Bom, de fato. Eu, quando namorava a minha esposa, que era aqui no... Que ela era professora do jardim de infância no colégio, qual era o nome daquele colégio? Bom, então, eu ia lá esperá-la quando ela saía do colégio pra ir com ela pra casa. Estava namorando ainda. A molecada atrás: “Aí, Mário Pereira! Aí, Mário Pereira” tinha um que depois de muito tempo, ele ficou homem tudo, ele acabou sendo até funcionário, trabalhou também no Estado comigo. Ele entrou como auxiliar de Fiscal de Renda. O apelido dele era macaco holandês porque ele era meio louro, assim, um tipo de nego aço, né? Moreno, assim. “Aí, Mário Pereira”, eu era conhecido, eu era muito conhecido em Santos, não só por causa do futebol. Porque na Repartição eu sempre trabalhei no expediente que eu não queria ser Fiscal de rua, porque quando eu trabalhava na rua, comerciante de quem esteve lá, é verdade que eu não dava moleza pro comerciante. Eu dizia: “Olha, meu amigo, o senhor sabe aquele ditado ‘quando um não quer dois não briga’, se o senhor... “É porque o senhor devia, e eu não quero mais saber dessa conversa” e saía fora. Tanto que eu fiquei a vida toda aqui em Santos, só fui removido daqui pra São Vicente. Depois de São Vicente voltei pra Santos, aí me aposentei como chefe. De modo que tinha essas coisas todas, a vida é assim mesmo.

 

P/2 – E senhor Mário, como é que o senhor acompanhou esse surgimento aí do super time do Santos no fim dos anos 50? O senhor acompanhou o surgimento do Pelé?

 

R – Ah, sim. No tempo do Pelé, quando ele veio como menino pra cá praticamente... Porque eu tinha um cunhado que ele era despachante e ele tinha posses, ele tinha até uma perua. Eu fui assistir tudo quanto era jogo com ele, porque ele era louco pelo Santos também. E nós íamos de perua. Eu assisti tudo quanto foi jogo pelo interior, tudo quanto esses jogos do Pelé, tudo. E até em Bauru nós íamos pra assistir jogo. Araraquara, em todos os lugares. São Paulo, tudo nós íamos ver os jogos do Santos fora. Viajei muito. Que lugar também que nós fomos uma ocasião? Ah, Ribeirão Preto! Eu fui também assistir futebol lá, do Santos.

 

P/2 – E como é que era, o senhor podia descrever um pouco do time jogando?  Realmente o time jogava bem futebol?

 

R – É, o time jogava muito bem, haja visto que você vê que essa diferença que eu falo do juiz que acontecia muito, pra gente ganhar, é porque o time era bom. É verdade que o Santos teve outros quadros ótimos também, depois no tempo do Pelé também tinha. Na verdade, é que no nosso tempo muitos trabalhavam e jogavam. Depois da era Pelé era só jogar, jogar, jogar. Não tinha emprego, não tinha outra obrigação. Então a pessoa tinha mais tempo pra se preparar fisicamente, fazer ginástica, fazer isto, piscina, essas coisas todas. Eu digo que é completamente diferente do passado a época atual.

 

P/2 – Senhor Mário, pra finalizar aqui essa nossa primeira conversa, o senhor lembra assim de algumas passagens engraçadas aí relativas ao Santos, com o senhor ou com outras pessoas?

 

R – Essa parte aí eu não tenho assim não, partes engraçadas assim.

 

P/2 – Ou histórias interessantes que ocorreram, o senhor se lembra?

 

R – Agora por ora assim não me passa pela cabeça, porque eu mesmo, a minha cabeça tem um... Eu esqueço tudo.

 

P/2 – Mas o senhor está com a memória boa.

 

R – Não de coisas... De certas coisas. Eu tenho pra algumas coisas, não sei se é, o que é que é.

 

P/2 – Você quer perguntar alguma coisa pro senhor Mário?

 

R – Se vocês não me ajudarem... Não me “puxar a língua”, como diz o outro.

 

P/2 – Senhor Mário, o senhor se lembra dessas viagens de trem quando o senhor ia jogar em São Paulo. Por que vocês iam de trem ou iam de carro?

 

R – É, nós viajávamos mais de trem mesmo, era de trem.

 

P/1 – Saía no Valongo, né?

 

R – É, pegávamos o trem. Porque primeiro que era mais barato pro Clube, né, tudo isso, o trem.

 

P/2 – E demorava muito o tempo da viagem?

 

R – Não demorava muito não. Porque o trem parava onde? O trem parava, às vezes, parava no alto da Serra, não sei se era 45 minutos ou 1 hora também de trem.

 

P/1 – Até a Estação da Luz?

 

R – É, até Estação da Luz.

 

P/1 – E naquela época, senhor Mário, vocês faziam concentração? Como é que era essa viagem?

 

R – Não tinha nada de concentração. Era diferente o profissionalismo. Não era assim um profissionalismo... Porque o... Não me recordo. Teve uns jogadores que o Santos contratou, não me recordo quando foram aquelas contratações dos primeiros jogadores que o Santos contratou. Eram estrangeiros, vieram jogadores de fora. Não me recordo mais o nome daqueles jogadores. Quem sabe nesses livros aí tem. Não sei se foi em 32, mas isso foi antes de eu jogar. Em 32, 33, nesses livros aí, o que vocês quiserem.

 

P/2 – No álbum de ouro?

 

R – Isso, no álbum de ouro.

 

P/2 – São dois, né?

 

R – É.

 

P/2 – Depois a gente dá uma olhada nisso. Senhor Mário, eu queria então agradecer o senhor aí, por essa entrevista, de nos atender aqui.

 

R – Eu é que agradeço, porque vocês estão relembrando minha vida, o “eu”, o meu “eu”, como diz o outro. Eu sempre fui muito introvertido, muito fechado, ultimamente a gente fica velho, dá pra falar, começa a ficar velho.

 

P/2 – Mas foi muito bom! Fizemos uma viagem aí no tempo e a gente vai voltar a  conversar com o senhor outras vezes, porque o senhor faz aí uma parte da história do Santos.

 

R – Bom, eu fiz parte mesmo do 1º Campeonato, mas eu também, eu louvo muito antes do Campeonato de 35, porque antes de 35 o Santos teve grandes times. O Santos, por exemplo, tinha... O Santos teve uma ocasião que tinha Tufí e Athié como goleiros, que foram grandes goleiros. Um era reserva...

 

P/2 – Athié Jorge Coury?

 

R – É, Athié Jorge Coury e Tufí. Tufí Nelsen uma coisa assim, Tufí, Bilú e Davi, Hugo, Júlio, Alfredo, Almar, Camarão, Siriri, Araken, Evangelista. Teve grandes jogadores também. Um grande time, esse time que eu cantei agora ele foi inaugurar o campo do Vasco lá em 1900 e lá vai pedrada, antes de mim, e ganhou de 5 a 3 do Vasco naquela ocasião. Isso está aí. Em São Januário, quando foi inaugurado São Januário, 5 a 3. A taça era enorme, ficou em exposição na Casa Lenque, ali na Rua General Câmara, ali perto do Largo do Rosário. Eu me recordo eu era moleque.

 

P/2 – Ia lá vê a taça?

 

R – Eu passava, ia na cidade e via lá.

 

P/2 – E aí o senhor já sonhava em jogar no Santos quando moleque?

 

R – Não, eu adorava o meu time da várzea, o Juvenil Paulistano que eu tinha, sabe disso? Tanto quando eles foram me convidar pra jogar no juvenil do Santos e depois passar pro Santos, eu disse assim: “Eu vou jogar lá, mas o dia que jogar meu time...”, porque o Santos não queria que eu jogasse, eu já falei isso aí, né? Porque eu gostava da várzea, eu adorava esse meu time. Porque o senhor João Bruno, João Careca, que ele foi banqueiro aqui tudo, me mandava, a gente ia de carro de praça. Quando ia lá em Cubatão nós íamos de caminhãozinho, aquela festa! Já tudo uniformizado e tudo. Então eu adorava esse meu time da várzea, foi onde que eu comecei.

 

P/2 – Então está legal senhor Mário, eu te agradeço aí novamente e...

 

R – Vocês, pra fechar, eu, se não fui eficiente, não fiz assim uma matéria, ajudar vocês na matéria aí... Se não fui bastante suficiente, vocês me desculpam por alguma coisa.

 

P/2 – Não, foi ótimo, Ajudou muito a entender o Campeonato de 35 e a nossa pesquisa também.

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