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História

Meu primo Vicente

História de: Baptista Theophilo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/10/2016

Sinopse

Nesta entrevista, Batista conta a respeito de sua origem humilde e italiana e como foi crescer no Brás. Sua infância foi muito sacrificada, tendo ele que trabalhar desde os 8 anos, exercendo diversos ofícios como engraxate, vendedor de jornais, vigia, entre outros. Mas a criança, ao crescer, virou contador e depois dono de seu próprio armazém. É essa a história que Batista, em seguida, nos conta. Por fim, ele nos fala um pouco da história das importadoras da região e sobre os produtos que vendia.

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História completa

Eu sempre fui o filho mais velho. Sempre fui o primeiro da família. Lutei que nem um cachorro, andava de tênis, ia à escola muitas vezes com tênis sim e outro, não, amarrava o dedão para dizer que estava machucado e que não podia colocar, e era mentira, porque eu gastava um, jogava futebol na rua, moleque, né? E gastava, jogava fora um e ficava com o outro. Nós fomos muito pobres, não fomos família rica. Meus pais vieram em navio de terceira categoria, e morava a minha avó morava na rua do Lucas. Minha avó, minhas tias, minha outra tia, não lembro. Era tudo casa de gente pobre, dormia em casa em colchão de espiga de milho, tirava as espigas, fazia o colchão e dormia. Eu, meus dois tios, eu morava junto com o meu tio, né? É isso aí. Na minha casa morava eu, minha mãe, minhas irmãs e meu pai.


Eu trabalhei em diversas coisas quando criança. Vendia jornal lá na praça Antônio Prado, na XV de Novembro. Eu chocava bonde todo dia para ir até a Paula Souza, onde tinha a Light lá.. Não era que lotado, nada. Tinha até o cara dura. Cara dura era um bonde normal, que o pessoal ia lá e tinha um bonde pequeno para os que não podiam pagar, então, pagavam o que tinham. Eu chocava aquele lá. O cobrador vinha aqui, a gente dava a volta para o outro lado, cobrador ia lá, a gente voltava para o mesmo lugar. A minha vida foi uma vida dura… tinha o bondinho de carvão que pegava no Largo do Pari também. Eu pegava o bonde lá no Largo do Pari, que eles paravam lá, traziam o carvão, aquele carvão para alimentar as caldeiras do gás, e vinha com ele, descarregava a mercadoria no Largo do Pari, melancia, uva, laranja, abacaxi, melancia era cada melancia desse tamanho, assim. Chegava o trem, né, encostava lá o vagão, abria, o cara ia lá, abria, a gente tirava as melancias lá e punha no caminhão para levarem para os armazéns. Levava lá para a Santa Rosa, passava aqui, aí ele parava no Pari aqui, era só virar a esquina e tava na Santa Rosa. E eu ganhava, assim, levava melancia a vontade para casa, muito boa. Santa Bárbara se chamava a melancia. Isso eu nunca vou esquecer, viu? Se eu tiver morto e lembrar… vou lembrar da melancia. Eu era moleque… tinha também aqueles encostos de bebedores de água de rolo, sabe qual é? Você não conhece,, né? Ia três, um, dois, e três. Quando era mais ou menos dez e meia, onze horas da noite, eu tirava a roupa, tudo, ficava pelado, ia tomar banho onde os burros bebiam água, era água limpa, água boa, lá no Largo do Pari. Eu, mais os meus amigos que iam com a gente, minha vida não foi ruim quando eu era moleque, não, só que eu era muito sacrificado, né?


Eu também ficava nos armazéns tomando conta. Os comerciantes iam almoçar nos restaurantes que tinham lá perto, e falava: “Você dá uma olhada lá, depois, você…” “Tá bom”, era arroz, feijão, grão de bico, lentilha, o que tinha, enchia um saquinho e me dava. Minha mãe então, já sabia o que tinha que fazer no dia seguinte, fazia uma coisa, fazia outra.

 

Depois, eu comecei a trabalhar na praça São Vito, onde tem o viaduto, lá. Você sabe onde é a praça São Vito, né? De lá para cá, depois que eu fui crescendo, o Mercadão foi crescendo comigo, era para ser estação de ônibus lá, onde tem hoje e acabou ficando o mercado. Mercado Municipal de São Paulo. Eu também fui engraxate junto da venda dos jornais. Meu pai me fez uma caixinha de engraxate pequena e eu punha lá uma lata de marrom, uma lata de preto, escova muito boa, tinta e o pessoal queria tinta, a gente passava tinta, não queria tinta, passava graxa, bastante graxa, Jóquei principalmente, as polainas, no Jockey Clube também engraxei muito. Ganhei dinheiro, viu, eu ganhei, graças a Deus, minha mãe não pode falar que eu não ajudei, eu ajudei muito. Eu e a minha irmã mais velha. O meu tio trabalhava na Gazeta e ele que me arrumava lá os jornais, então na Gazeta, eu limpava na hora, porque era o primeiro a sair, né, e depois eu pegava o Estadinho. O Estadinho era o jornal que dava mais dinheiro, eu entrava no Fasano, lá no Fasano, eu vendia uma média de 30, 40 jornais no Jockey Clube, dois mil réis cada prata e eu pagava 20 centavos, 25, 30. E ajudava também os outros, né, que tinha encalhado lá, a gente ajudava, ia lá, vendia, tal. Eles me davam sempre mais cinco mil réis, né? Dois mil réis, cinco mil réis. Como eu falei, tinha os bondes, né, pegava o bonde, vinha nos bondes, vendendo jornal também, pro pessoal chamava nos bondes, eu corria, pulava, eu sabia subir e descer nos bondes, andando na rua Boa Vista, rua Libero Badaró, avenida São João e ia embora. Você vê como eu lembro do caminho? Não tinha Banco do Brasil, não tinha bando de estado, não tinha Banco Itamarati, não tinha Banco do Estado do Rio Grande do Sul. Aí que eu comecei a entrar no comércio.

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