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Meu primeiro salário

História de: Marcos Kirst
Autor: Marcos Kirst
Publicado em: 13/06/2018

Sinopse

Se o primeiro emprego é inesquecível, o primeiro salário cria uma expectativa gigantesca, onde a imaginação aproxima-se do limite. O desfecho, porém...

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História completa

Acabou o ginásio. Hora de trabalhar de dia e estudar à noite. Quinze anos, carteira profissional de menor. Salário idem. Sonhos adultos: fim da mesada curta, Independência financeira, decidir onde, como, quando e quanto gastar. E eu já tinha planos. Meu primeiro emprego foi no escritório de uma fábrica de sapatos. Foi meu pai que arranjou a vaga. O cargo era auxiliar de escritório porque ainda não existia office boy. O salário era a metade do mínimo, mesmo assim muito mais do que os trocados que ganhava em casa para ir ao cinema, comprar algumas revistas e cigarros clandestinos. Em breve, tudo iria mudar. Faz isso, faz aquilo, leva este pacote para o fulano, traga o talão de notas, vá ao banco pagar duplicatas, passe no correio, compre selos, datilografe essas cartas (“é só copiar, o modelo está naquela pasta”), leve essas caixas para o depósito, separe esta papelada e arquive na pasta AZ – era uma dura rotina para pôr tudo em ordem porque o escritório havia ficado caótico desde que o último auxiliar havia desaparecido. Descobri depois que tinha dado um desfalque na firma. Devia ser mixaria porque o dinheiro que eu via passar só dava pra comprar selos, jornais e maços de cigarro para todos os fumantes que enevoavam o escritório: o gerente, o contador, o cara do departamento pessoal, a moça de óculos que emitia notas fiscais em 6 vias com letra impecável. Eu era puro entusiasmo.

 

Desde o primeiro dia, entrei em contagem regressiva rumo à prosperidade. Sabia exatamente o que iria fazer com toda aquela dinheirama: comprar um par de sapatos e uma camisa que estavam na vitrine da loja mais elegante da cidade. No mesmo dia, iria imediatamente até outra que vendia câmeras fotográficas das mais afamadas marcas como Olimpus, Nikkon, Yashica, mas que também oferecia uma maquininha Kodak Instamatic 155X que cabia no meu salário. Era a primeira geração das câmeras descartáveis. Cartucho de filme 35mm e flash encaixável em formato de cubo para 4 fotos noturnas. Pra mim, uma Leika. O pagamento era no dia 10. Só eu sei como foi difícil chegar até lá, nem dormi direito na véspera. Apareci antes da hora no escritório. O pagamento era feito em dinheiro vivo dentro de envelopes. O contador e o rapaz do departamento pessoal iam conferindo e pagando os operários que vinham até o escritório numa lenta romaria que durou quase o dia inteiro para não atrasar a produção. A turma da administração ficou para o fim do dia, certamente o mais longo da minha existência até então. Fui chamado à sala do patrão, um senhor de cabelos grisalhos e fala alemoada que morava numa casa enorme ao lado da fábrica. Entrei um pouco assustado, mas decidido a assinar meu primeiro holerite e mudar de vida. Tu estás começando agora e acho que vais melhorar como o tempo (verdade!). Mas ainda és muito novo (verdade!) e desperdiça muito material de escritório, dá muita despesa para firma (mentira!). Por isso, neste mês só posso te pagar a metade do salário. Se melhorar no próximo... Minha primeira e inesquecível decepção trabalhista. Cinquenta anos depois, não lembro direito, mas acho que só comprei a camisa. Minha vida ficou sem registro e sem flash por muito tempo.

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