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História

"Meu primeiro e único emprego"

História de: Ilce Fogarolli
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/03/2005

Sinopse

Dona Ilce, uma das mais antigas funcionárias da CTBC, começa sua carreira ainda nos anos 1940 na, antes, Empresa Telefônica Teixeirinha. Após a mudança de direção desta, vai presenciando de seu posto de atendente e secretária as transformações do que viria a se tornar a CTBC — atual Algar Telecom — durante 54 anos de trabalho. Se relembra com carinho dos colegas e chefes e agradece, de forma singela, as numerosas homenagens que recebeu pela sua trajetória.

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História completa

P/1 – Entrevista com a dona Ilce Silva Fogarolli, em Uberlândia, 23 de Novembro de 1999. Dona Ilce, embora a senhora já tivesse respondido algumas questões para o Luziano eu queria que a senhora por favor repetisse o seu nome e o seu local de nascimento.

 

R – Ilce Silva Fogarolli. Nasci em Vargem Grande do Sul, no Estado de São Paulo.

 

P/1 – Nome do seu pai e sua mãe, dona Ilce?

 

R – Papai: Elias Fogarolli. E mamãe: Maria Conceição Silva Fogarolli.

 

P/1 – Como a senhora poderia descrever hoje o seu pai e a sua mãe? Como eram os seus pais?

 

R – Ah, os meus pais eram maravilhosos. Papai, um trabalhador que e lutou muito na vida. E mamãe também uma dona de casa — naquela época era dona de casa —, uma dona de casa excelente, sabe? E somos quatro filhos, todos foram criados bem. Não com estudos superiores, que na época a gente não tinha condições, papai não tinha condições, mas nós todos fizemos o ginásio e entramos para a vida ativa de trabalho.

 

P/1 – Em que cidade isso?

 

R – Aqui em Uberlândia mesmo. E eu vim para cá com sete anos, então nunca mais saímos daqui.

 

P/1 – A atividade do seu pai?

 

R – Era comerciante. Primeiro ele viajou muito de caminhão, desbravando esse sertão de Goiás aí. Depois ele se estabeleceu aqui, foi trabalhar na Casa Galeano, uma casa antiguíssima aqui, que era de um irmão da mamãe e de outro sócio. Era Casa Galeano, secos e molhados daquela época, que se falava, na Floriano Peixoto. E daí ele continuou nesse ramo de comerciante.

 

P/1 – Como era a casa da sua infância, dona Ilce?

 

R – A minha casa era muito simples mas muito acolhedora, né? Tínhamos muitos amigos, muitos parentes, a família da mamãe é muito grande aqui. Então foi uma casa sempre acolhedora e gostosa. Recebia sempre todo mundo, os parentes, os amigos com a maior alegria possível.

 

P/1 – A senhora poderia descrever um pouco como era fisicamente essa casa?

 

R – A casa era pequena, nós tínhamos uns três quartos, uma sala... Naquela época [havia] sala, cozinha e banheiro, né? Não tinha dois banheiros, era um banheiro. Sala, cozinha, banheiro, e tinha o quintalzinho. Mas depois a gente mudou também. A gente mudou diversas vezes e moramos em diversos locais aqui em Uberlândia mesmo. Foi até eu começar a trabalhar. Eu comprei um apartamento aqui e nós fomos morar. Levei papai e mamãe para morar conosco. Quer dizer, a família mudou toda para o apartamento. Já era casa própria, né?

 

P/1 – A senhora tem irmãos e irmãs?

 

R – Tenho. Tenho uma irmã e dois irmãos. Dois moram em São Paulo e um mora aqui. Nessa época vivíamos todos juntos porque... Muito mais tarde, eu comecei a trabalhar com dezenove anos na empresa telefônica. A gente vivia tudo em comum até adquirir idade. Depois um foi para Goiânia trabalhar com o tio, o outro ainda era estudante, que era uma diferença maior de dez anos com o mais novo da mamãe, depois ela teve um com diferença de dez anos. Também, esse era menorzinho, né? Depois crescemos, todos foram tomando o seu rumo e eu fiquei.

 

P/1 – Em que local era essa sua casa de infância?

 

R – Era na Rua José Andraus, entre João Pinheiro e Cipriano de Del Fávero. Lá que nós morávamos. Depois nós moramos em outra rua, ali na Coronel Antônio Alves Pereira, depois mudamos para a Rua Santos Dumont, depois Floriano Peixoto e depois fomos para o apartamento aqui na Santos Dumont também.

 

P/1 – Nessas andanças o que era mais importante no convívio da casa? Como era um dia típico da casa da senhora quando a senhora era criança?

 

R – Bom, a gente estudava, né? Tinha que levantar cedo, ia para a escola, voltava, almoçava, aí ia para a lida ajudar a mamãe. Na época a gente não tinha empregada, então a gente ajudava a mamãe e ainda estudava. A gente fazia o ginásio de manhã. Quer dizer, depois que a gente saiu do primário, fomos para o ginásio, então a gente fazia o ginásio na parte da manhã. Chegava em casa e depois do almoço, fazia a lida da casa, ajudava a mamãe em tudo e, depois, à tarde, a gente começava a estudar. E quando era pequena às vezes saía com a mamãe para cá, uma visita aqui, um parente ali. A vidinha foi assim. Mas foi boa.

 

P/1 – Sobrava tempo para brincar?

 

R – Sobrava e muito. Sobrava tempo, sim.

 

P/1 – Que tipo de brincadeira a senhora gostava?

 

R – Olha, pra falar a verdade jogava “ticam” na rua. O “ticam”, naquela época... Eu acho que vocês nem conhecem isso, esse jogo.

 

P/1 – Como era isso?

 

R – Um jogo de bola, sabe? Tinha uma linha assim, no meio, e ficava uma parte de cá, uma parte de lá. Era menino contra menina e jogavam as bolas assim. Parecia até que era tipo de vôlei antigo. Não tinha rede nem nada, não. Era só um traço no chão. Então a gente jogava “ticam”, jogava “maré”... “Maré” também. O senhor conhece? (risos)

 

P/1 – Não, eu gostaria que a senhora descrevesse, por favor.

 

R – Jogar “maré” era assim: a gente fazia uns quadrados no chão com giz na calçada e então pulava com um pé só, entende? Então era muito interessante. E aprendia de andar de bicicleta... Andava de bicicleta, né? Eram uns jogos muito interessantes. Pique, esconder dos amigos... Era muito bom. Tive uma infância boa.

 

P/1 – A senhora falou do seu pai, do lado desbravador do seu pai, caminhoneiro. Ele contava histórias em casa?

 

R – Contava histórias. Ele viajava muito e, em uma ocasião, eu fui com ele, ele me levou. Eu estava de férias e ele me levou para Rio Verde de caminhão. As estradas de chão ainda. Aí era chuva, era sol, tudo. Eu acho que eu fiquei lá com ele uma semana, até ele me levou em Rio Verde. Depois a gente passou em Rio Verde, Jataí, Estado de Goiás e mais uns lugares lá que eu não me lembro o nome. Foi uma viagem boa, interessante. Fiquei hospedada no Hotel do seu Leduc, um descendente de francês que tinha um hotel lá em Rio Verde. Foi muito bom. Passei umas férias ótimas. De vez em quando ia para Vargem Grande passar férias porque lá moravam os meus nonos. Os pais de papai moravam lá e os meus tios, então a gente sempre ia para lá passar as férias.

 

P/1 – Sempre no caminhão do pai?

 

R – Não, para Vargem Grande a gente ia de trem. Naquela época a gente ia pela Mogiana de trem.

 

P/1 – Quanto tempo demorava a viagem até lá?

 

R – Ah, demorava o dia todo para chegar em Vargem Grande. Bem dizer, a gente saía cedo daqui e chegava tarde lá, porque passava por Ribeirão Preto, depois cortava ali, Casa Branca... Era uma viagem longa, mas muito gostosa.

 

P/1 – A origem do seu nome, Dona Ilce, a senhora sabe? Fogarolli, de onde vem?

 

R – É italiano. Papai era filho de italiano. O nono era italiano mesmo. Mudou-se para cá, emigrou-se para cá com a minha avó, com a nona, e formaram família em São João da Boa Vista, aquela zona ali, São João da Boa Vista. Ele tinha um armazém de secos e molhados lá em Vargem Grande e os irmãos do papai trabalhavam em lavoura de café, de batata. Aquela região é muito rica nisso. O senhor conhece aquela região?

 

P/1 – Conheço.

 

R – Pertinho de Poços de Caldas. Aquela região era muito rica e eles trabalhavam lá.

 

P/1 – E Fogarolli era de que região da Itália?

 

R – Já estou ficando velha, esquecendo. Eu ainda vou me lembrar e depois eu te falo.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – A mamãe, não, era daqui. Era de Igarapava. Eu não sei se ela nasceu em Igarapava ou Uberaba, eu não me recordo, mas o meu avô, o pai da mamãe, era chefe da estação aqui, então ele se mudava muito. Moraram em Uberaba, em Igarapava, em Vargem Grande. Quando eles moraram em Vargem Grande foi que mamãe ficou conhecendo papai e casou-se lá. Mas eles voltaram para cá. O meu avô morreu aqui, voltou para a estação daqui.

 

P/1 – Sua escola, Dona Ilce, a senhora se lembra da primeira escola?

 

R – Muita coisa da infância a gente lembra, outras, não. Me recordo bem do grupo que eu estudava, o Grupo Doutor Duarte.

 

P/1 – Aqui em Uberlândia?

 

R – Em Uberlândia. Grupo Doutor Duarte. Me lembro muito do lanche gostoso que eles serviam lá...

 

P/1 – O que vinha nesse lanche?

 

R – Um mingau de fubá delicioso que eles faziam. A gente trocava as merendas, levava merenda e tinha essa merenda para os mais carentes. Então a gente trocava as merendas porque a gente adorava o mingau de fubá que faziam lá nesse grupo. Uma delícia! Então a gente ficava naquele jogo, né? “Ah, eu cedo o meu, você me dá o seu.” Depois de lá eu estudei um ano na escola normal Professor José Inácio, fazendo um curso para poder entrar no ginásio. No ginásio a gente tinha que fazer um exame de seleção, admissão ao ginásio. Fiz o exame de admissão, entrei no ginásio e fiquei cinco anos. Depois saí e não estudei mais. Comecei fazer um curso de inglês com o professor Nelson Cupertino, antigo aqui. Um dos melhores professores daqui, mas acho que o trabalho não dava muito tempo para gente fazer muito estudo. Mas também era um pouco de falta de perseverança: eu teria que ter continuado para melhorar o nível da gente, mas na época a gente era criança, não pensava muito, né?

 

P/1 – Foi por isso que a senhora parou de estudar? Para começar a trabalhar?

 

R – Foi. Eu parei de estudar. Não tive condições de estudar fora, aqui em Uberlândia só tinha escola normal Professor José Inácio e tinha o Liceu de Uberlândia, que lecionava contabilidade, mas eu nunca tive ideia de ser professora e também não queria contabilidade. Papai não tinha condições de mandar a gente para fora para estudar, então eu fiquei aqui e fui trabalhar porque precisava ajudar a família também. Comecei a trabalhar com dezenove anos. Eu tenho uma tia que trabalhava na Empresa Telefônica Teixeirinha, ela era chefe de escritório lá. Ela ia se casar então ela pediu para eu aprender o serviço para ficar no lugar dela, tomando conta do escritório da empresa. 

 

P/1 – Em que ano era isso?

 

R – Em 1941, e em novembro de 1942 eu comecei a trabalhar.

 

P/1 – Foi o seu primeiro emprego?

 

R – Meu primeiro e único emprego. 

 

P/1 – Não era muito comum mulheres trabalhando, né?

 

R – Não, não era. Não era comum, tanto que tinha certas restrições, tinha pessoas que não viam bem moças trabalhar fora. Mas cada um é cada um. A gente precisava trabalhar e era emprego bom que eu tive, um emprego onde a gente era muito respeitada. Eu trabalhei lá e não era só eu de mulher: tinham as telefonistas também e tinham mais pessoas no escritório, que foram colegas de escritórios minhas. Minha tia saiu e eu entrei em 1942. Continuei trabalhando até constituir a CTBC.

 

P/1 – Como a senhora reagia a esse preconceito que havia na época?

 

R – Engraçado... Eu reagia muito bem. Acho que eu era superior a isso na época. Mesmo nova, eu era superior. Se quisessem falar falavam, mas a minha consciência era limpa, reta. Eu achava que não tinha importância isso. Já tinham mais moças que trabalhavam aqui em escritórios, em lojas. Já tinham pessoas na época. Essa minha tia trabalhou muitos anos lá, depois ela saiu para casar e eu entrar.

 

P/1 – Em que consistia o trabalho que ela lhe ensinou? Como a senhora descreveria esse trabalho?

 

R – Ela tomava conta de todo o escritório, confeccionava as contas telefônicas... Naquela época que eu entrei tinham quinhentos telefones automáticos, só. O resto eram todos semiautomáticos, desses de manivela. Naquela época era tudo à máquina. Você fazia os recibos à máquina, fazia os recibos à mão dos interurbanos. Naquela época tinha interurbano, que a gente tinha um convênio com a CTB, Companhia Telefônica Brasileira, então falava nos telefones da CTB. Mas a gente é que fazia a cobrança junto com as mensalidades, que cobrava dos telefones da cidade. Então aquilo tudo era feito tudo manual. Tudo! Os impressos... A gente mandava fazer os impressos e vinha tudo, você punha a data, o dia, os minutos que a pessoa falava, a cidade com que falava... Tudo e o preço. E aquilo ali era tudo somado à mão. Na época eu acho que nem máquina de calcular não tinha, em 1942. Não sei, não me lembro. Então era tudo feito à mão: os recibos de mensalidade e esses recibos de interurbano. Qualquer serviço que tivesse, que fosse feito em qualquer aparelho, era tudo cobrado assim, tudo manual. Éramos três no escritório, quando entrei. Eu entrei para ser a chefe do escritório. Naquela época falava chefe do escritório, mas eu tinha mais duas auxiliares para ajudar. Primeiro foi aqui na João Pinheiro, na esquina com a Machado de Assis, onde tem o prédio hoje da CTBC mesmo. Foi lá que eu comecei a trabalhar. Depois o Senhor Tito Teixeira, que foi o pioneiro dos telefones aqui. Nós já tínhamos a concessão aqui da Tupaciguara, que naquela época era Tupaciguara. Você lembra? Você conheceu pelo mesmo de nome? Hoje eu não sei como se chama onde era a Tupaciguara, não sei qual nome é. A Tupaciguara era Monte Alegre, Canápolis, Ituiutaba, sabe? Tudo isso com linhas físicas. Depois foram trocadas. Tudo linha física. Então para você falar era aquela gritaria! Choveu não pode falar, interurbano demorava dois, três dias. Para você falar de São Paulo, por exemplo, você pedia ligação e ficava esperando: “Ah, só amanhã.” Mas eles não tinham condições financeiras para aumentar a empresa. E a cidade crescendo e não tinha... Só tinha quinhentos números, que era serviço da Ericsson. Quando foi em 1954, eles constituíram uma sociedade e foram atrás do seu Tito para comprar a companhia dele. Ele relutou muito e tudo mas, no fim, acabou porque ele não tinha capital para melhorar. Aí, em 1954, foi constituída a Companhia e eles compraram o acervo da Teixeirinha. Aí eles foram lá em casa, os quatro: o seu Alexandrino Garcia, Elvio Cardoso, Francisco Caparelli e Aristides Freitas. Eles foram lá em casa pedir pra eu continuar lá, porque quem entendia do serviço de escritório era tudo eu. Quem fazia as compras de material era eu também, quando precisava. Tudo. Então a gente fazia de tudo na época. Era chefe de escritório mas a gente fazia de tudo. Eu precisava trabalhar e não ia sair, lógico. Aí continuei trabalhando com eles e começou a expansão. Parece que foi em 1957 que foram inaugurados mais mil telefones com a Ericsson, aí eles começaram a vender ações da CTBC, constituíram a empresa e começaram a vender as ações. A primeira ação quem comprou foi o Wolfgang Kantif, da Ericsson, não sei se era alemão. A primeira ação ele comprou para a filha dele, Sílvia, me lembro do nome dela. A primeira venda de ações foi ele que comprou. Eles começaram, foram felizes. Depois a Companhia já começou a melhorar, foi mudando as linhas, aumentando as concessões, melhorando a tecnologia. Em 1957 eles inauguraram mais mil telefones automáticos.

 

P/1 – Eu queria voltar um pouquinho, dona Ilce, para que a senhora me contasse. Nesses primeiros momentos que a senhora foi trabalhar na Teixeirinha, como era a cidade nessa época? Como era a Uberlândia de quinhentos terminais de telefone?

 

R – Não tinha muita coisa ainda, mas tinha bastante, a cidade já era bem grande, né? E a Teixeirinha era — a gente fala — no Fundinho, a cidade mais antiga, o começo da cidade. A Teixeirinha era lá. Depois, com o movimento, abriram essas avenidas todas, ela mudou-se aqui para a João Pinheiro. Já era uma avenida boa, com muitas residências boas e tudo... A cidade era bem grande já, tinha muito movimento, era muito grande, mas o serviço estava pequeno para a cidade.

 

P/1 – Esses terminais estavam instalados prioritariamente em casas comerciais ou em residências?

 

R – Eram mais comerciais do que residências, mas tinha também muita residência, viu?

 

P/1 – Essas dificuldades de ligação ocorriam apenas no interurbanos ou ocorriam também nas ligações locais devido a chuva?

 

R – Não, local era um serviço até muito bom. Na época do Seu Tito era muito boa, mas os interurbanos, via CTB, é que eram dificílimos. E as nossas ligações para cá, para Monte Alegre, Tupaciguara, Canápolis, eram boas. Quer dizer, às vezes dava algum defeito por causa das linhas, que eram físicas. Não entendo muito não, mas eu sabia que era linha física. Às vezes a gente precisava gritar muito, não ouvia... Não eram boas as ligações, não, mas se falava, se comunicava. Mas na cidade o serviço era bom, os quinhentos telefones automáticos eram muito...

 

P/1 – Já os interurbanos eram...

 

R – Pela CTB, né? E naquela época o serviço da CTB era precário ainda. A pessoa ficava quase o dia todo no escritório para fazer uma ligação para São Paulo e às vezes não conseguia.

 

P/1 – E como as pessoas reagiam a esse…?

 

R – Ah… Ficavam bravas demais! Iam atrás da gente: “Dá um jeito, vê se a gente fala!” Porque a gente tinha um entrosamento muito bom com o escritório da CTB mas a gente não podia fazer nada porque tinha que esperar mesmo.

 

P/1 – Dona Ilce, me descreva o Seu Tito Teixeira. Como era ele? Como foi a sua relação com ele? Como ele era como comandante dessa pequena companhia telefônica que prestava esse serviço aqui na região?

 

R – O Seu Tito era uma pessoa muito simpática, muito viva, muito alegre. Era atuante na sociedade e tudo, sempre impecável no vestir, gostava muito de um terno de linho branco. Quase não parava, saía muito. O serviço ficava todo por conta da gente, ele tinha bons funcionários então ele saía bastante. Às vezes ia ver uma linha ou outra, e a gente tomava conta. A central era pegada ao lado com o escritório, e a central automática era junto ali também.

 

P/1 – Onde era?

 

R – Na João Pinheiro. O escritório na frente. A gente tinha uma parede de vidro. então a central era ali, as linhas telefônicas. De modo que tudo ficava João Pinheiro. Mas ele era uma pessoa excelente. Muito atuante, sabe? Aquela pessoa boníssima, muito educado para tratar a gente. Era um pouco explosivo mas era muito educado para tratar com a gente. Nós tivemos um relacionamento muito bom, tanto comigo como com as outras funcionárias e com os funcionários que trabalhavam nas linhas interurbanas, na central. A gente teve um relacionamento muito bom, só que durou pouco. Só estive com ele doze anos. De 1942 para 1954, doze anos.

 

P/1 – A senhora se recorda quantos funcionários a Teixeirinha tinha nessa época que a senhora esteve com eles?

 

R – No escritório éramos quatro: eu e mais três moças no escritório. E tinha umas oito telefonistas, mais ou menos, porque elas revezavam, o serviço de telefonista tinha que ser revezado. E tinha também a central, que tinha o Agostinho, o Luiz Márcio... Depois entrou o Cid Bonvini, que mexia com a central. Cid Bonvini foi um empregado também antigo, se você encontrasse com ele também ele daria boas informações para o senhor. Não sei se ele mora hoje, mas ele morava em Batatais. Na central eu acho que tinha uns quatro ou cinco funcionários. Não era muito grande o número de funcionários, não.

 

P/1 – E esses quinhentos telefones permaneceram quinhentos telefones durante muito tempo?

 

R – Durante muito tempo. Até ser constituída a CTBC, e depois ainda passaram-se uns anos e eles até...

 

P/1 – A constituição da CTBC deu-se um pouco em função da precariedade desses serviços...

 

R – Eu creio que foi porque a foi cidade crescendo e precisando de mais telefones. Acho que foi isso mesmo que eles pensaram.

 

P/1 – E também com gestões por parte da Associação Comercial que, na época, pretendia fazer com que esses serviços melhorassem exatamente para que a economia se desenvolvesse.

 

R – Isso mesmo, entrava a Associação Comercial. Acho que mais por isso que eles constituíram essa sociedade, né?

 

P/1 – De todo modo, a Senhora se recordaria dessa primeira fase do seu trabalho, essa proximidade da Associação Comercial, esse tipo de pressão pública, digamos assim?

 

R – Não, não. A pressão pública não era assim, notória na época não, sabe? Mas acho que todo mundo da cidade sentia que estava precisando melhorar o serviço. E interurbano mais ainda, porque na cidade o serviço funcionava bem na época dele, mas o interurbano, principalmente, era um serviço que não funcionava bem. Estava muito aquém da cidade.

 

P/1 – Como um funcionário que tratava com o cliente, diretamente, no caso de todos vocês da Teixeirinha, reagiam a esta constatação: “Precisamos melhorar mas não melhora”? 

 

R – Mais na parte de interurbano, porque a cidade necessitava, né? Muito comércio, aumentando o comércio, tudo, então eles necessitavam de um serviço melhor para São Paulo e Belo Horizonte. Aqui o serviço era mais para São Paulo. Belo Horizonte quase a gente não tinha contato. Mais era São Paulo.

 

P/1 – Como o seu Tito Teixeira absorveu essa transição?

 

R – Ele não gostou, coitado. Tinha aqui o serviço dele, ele criou tudo aquilo, então ele ficou magoado. Achou que ele botaram a faca no peito e fizeram ele vender a Teixeirinha. Ele falava assim: “Tive que vender, botaram a faca no peito.” Mas, de fato, mesmo a gente que trabalhava lá via que não tinha um capital para melhorar. Então ele chegou à conclusão de que tinha que vender, aí vendeu. E eu entrei no acervo da Teixeirinha.

 

P/1 – Voltamos a esses quatro cavalheiros que foram à sua casa convidá-la a ficar. Como foi essa conversa, Dona Ilce?

 

R – Ah, foi uma conversa amistosa porque a gente já se conhecia, eu conhecia os quatro. A gente conhecia pessoas notórias da cidade, então eles pediram pra queria continuar, não queriam que ninguém saísse porque a gente conhecia o serviço. Eu precisava trabalhar, não podia me dar ao luxo de falar: “Não vou continuar.” Eu sabia que ia melhorar o serviço, poderia até eu melhorar. Eu falei: “Não, não tem problema nenhum. Continuo do mesmo jeito.” Continuamos e aí começaram as novidades. Logo eles instalaram mil telefones, o escritório ficou maior, vieram os guarda-livros, foram criando mais repartições, foram criadas mais seções no escritório... E eu sempre dirigindo o escritório, atendia o povo, atendia um, atendia outro... Depois que eles... Não sei a data certa, não me recordo... Quando teve uma eleição, uma eleição que durou até de madrugada, quando o Seu Alexandrino ficou como presidente da Companhia. É, ele ficou com a maioria das ações e tomando conta. OSeu Alexandrino foi um homem sempre dinâmico, né? Ele tinha uma visão de negócio enorme, aí foram aumentando as concessões. Bom, já tinha em Goiás só em Itumbiara. Como, até hoje, Goiás é só Itumbiara. Isso mesmo. E Guaiatuba também tinha. Depois Guaiatuba... Depois eles começaram a melhorar o serviço, compraram em cidades, aí quando Seu Alexandrino começou a criar a CTBC, chamava gente para viajar para vender telefone só no fim de semana, que era para não perder tempo, né? Então era assim: “Dona Ilce, amanhã nós vamos lá conhecer o prefeito de Tupaciguara, com o prefeito disso, disso. Então amanhã cedo nós podemos ir para lá? Aí a senhora arruma tudo.” Então a gente arrumava tudo. Era máquina de escrever, relatórios, recibos... A gente ia, ficava numa prefeitura, montava um escritório numa prefeitura de qualquer cidade que a gente ia e a gente ia vender os telefones. Aí já estava tudo anunciado, a prefeitura já elaborava um serviço, né? Então a gente ia para lá, ficava o dia todo e voltava à noite para casa. Ou de jipe ou de caminhonete, sabe? E quantas vezes nós fazíamos isso! Quantos anos nós fizemos isso para vender telefone! Canápolis, Tupaciguara, aquela zona toda. Ituiutaba, Capinópolis... Então a gente saía sempre de fim de semana. Você não sabe! E, às vezes, feriado ele queria que a gente fosse também. Não... Ele era fogo! Mas foi bom que nós trabalhamos e melhorou tanto o serviço, né? O Seu Alexandrino era notável.

 

P/1 – Vendia os telefones e as linhas já estavam instaladas?

 

R – Não, aí começava o serviço. A gente vendia os aparelhos todos e aí começava o serviço naquela cidade.

 

P/1 – Entre a venda e a instalação definitiva demorava quanto tempo?

 

R – Demorava. Demora um pouco, né? Não me recordo, mas eu acho que demorava um pouco, tinha um espaço de tempo para poder fazer o serviço todo. Puxaram as linhas da cidade, que esse era o serviço local. Não era interurbano, era local. Eu não tenho certeza de quanto tempo demorava isso, não.

 

P/1 – Mesmo com essas novas cidades entrando no sistema, a senhora ainda mantinha contato com as pessoas que compravam os telefones?

 

R – Tinha! Quer dizer, o serviço todo era controlado aqui de fora. Mantinha contato, sim. Quer dizer, a gente ia para a cidade, vendia, depois a gente arrumava um supervisor para ficar de lá da outra cidade. Por exemplo Canápolis, Ituiutaba. Tinha cidades que a gente ficava até de um dia para o outro, porque era uma cidade maior, como Ituiutaba, para poder vender os telefones. Aí foi melhorando, criando departamentos aqui. Eu já não era chefe de escritório mais, era gerente.

 

P/1 – E já tinha uma equipe para trabalhar com a senhora nessa época?

 

R – Ah, já tinha uma equipe, aí foi criando outro, entrando gente mais capacitada. Eu gerenciava assim, ao meu modo. Eu tinha muita facilidade para contatar as pessoas, atender uma pessoa, mandar fazer um serviço, falar isso... “Tá precisando disso, tá precisando daquilo.” Organizava, tudo eu fazia. Até comprar material. Quem comprava era eu e o Seu Alexandrino, mas eu fazia os contatos, os preços... E o Seu Alexandrino, então: “Olha, Dona Ilce, é isso. Vamos fazer isso assim.” E isso com Ericsson, com Siemens. Quer dizer, tudo isso eu fazia, fazia de tudo a bem dizer. Então eu fazia o que estava ao meu alcance. Porque depois foi criado o Departamento Jurídico, o de Contabilidade, então foi aumentando o serviço, aí nós fomos criando... O Acyr Vilella foi um contador que nós tivemos, que já faleceu, ele era um contador muito inteligente, trabalhou muitos anos conosco depois que o Doutor Sátiro entrou. Ele não entrou no começo da CTBC, entrou mais tarde. Aí o Sátiro entrou na Contabilidade também, depois entrou o Geraldo Caetano, e foi aumentando. Muita coisa a gente esquece. Eu tenho uma memória boa, mas muita coisa a gente esquece.

 

P/1 – Ah, está com uma memória ótima. Mas, quando a senhora se deu conta que alguma coisa tinha mudado no seu serviço, não eram mais aquelas três pessoas?

 

R – Não, mas aquilo mudava dia a dia. Depois, ainda com a CTBC, a gente ainda batia recibo à máquina. No começo a gente ainda fazia todo o serviço à máquina, então tinha mais funcionários, aumentaram os telefones, aumentaram os interurbanos, depois a CTBC melhorou as linhas. Quando passou para junto — eu não sei como se fala —, ao invés da CTBC ter o escritório aqui nós ficamos com as linhas juntas, lá no prédio da CTBC, os interurbano. Depois fechou-se o escritório da CTB, aí nós ficamos interligados com a CTB mas no próprio...

 

P/1 – Como era o seu convívio com o Senhor Alexandrino Garcia?

 

R – Ele era muito bom, uma pessoa excelente, e o que era preciso ele falava, entendeu? Ele tinha um relacionamento muito bom com toda a turma do escritório, com os outros funcionários, porque foram aumentando os funcionários da central, da rede, foram criando o Departamento de Redes, essas coisas todas. Enérgico, mas muito... Como se diz? Qual o termo próprio para isso? Ele sabia lidar com os funcionários, sabia lidar com as pessoas. Depois, mais tarde, o Luiz formou-se, entrou também o Luiz no escritório. Mas o seu Alexandrino era admirável! Ele tinha uma visão para negócio! Depois foram aumentando as concessões. Por exemplo: São Paulo, Igarapava, São Joaquim da Barra, Orlândia, Franca. E ele ia atrás, subia em poste para ver linha, não deixava só o empregado. Ele ia na frente, trabalhava e sabia o que ele estava fazendo. Tudo ele entendia. Engraçado, né? Tudo... Tudo ele entendia, do serviço todinho, do que precisava. “Não, vou fazer isso aqui, a oficina tá aqui, vamos fazer isso assim.” O Seu Alexandrino era notável. Uma pessoa que deixou saudade, viu? Nós ficamos muitos anos aqui embaixo. Tinha o Luiz e tinha outro filho também, o Seu Walter Garcia. Ele era dono da Intermáquinas aqui, mas sempre ele estava no escritório da telefônica. Eu sei que depois foi aumentando, os aparelhos foram aumentando, foi tudo melhorando.

 

P/1 – Dona Ilce, esse Seu Alexandrino que entendia de tudo era muitíssimo diferente daquele seu Alexandrino que foi convidá-la para na Teixeirinha, porque ele não entendia nada de telefonia na época.

 

R – Não, ele não entendia nada.

 

P/1 – Como era esse processo de aprendizagem dele?

 

R – Ah, eu acho que aquilo já era inato a ele. Porque ele estava com os empregados: “Vamos fazer isso e aquilo.” Não sei, ele sabia de tudo. Ele tinha uma disposição! Depois, quando foi criado a oficina, que lá fazia... Quer dizer, ao invés de comprar, fazia tudo lá. E quem comandava a oficina? Era ele.

 

P/1 – Fazia o quê, Dona Ilce?

 

R – Esses centros que usavam nas outras cidades pequenas eram centros assim... Ainda tinham aqueles centros semiautomáticos, ou mesmo automáticos... Eram centrinhos semiautomáticos, mas ele entendia de tudo, da fabricação de tudo, das linhas, dos conectores que tinham. Tudo ele mandava fazer: “Olha, isso aqui não precisa comprar, isso vamos fazer aqui mesmo”. Ia lá, explicava para o Sebastião Gomes para ele fazer. Ele entendia tudo, entendia das linhas, quando estava funcionando: “Isso é assim.” Eu não sei, aquilo era natural dele.

 

P/1 – E estava sempre presente?

 

R – Sempre presente, sempre.

 

P/1 – Ele não era uma pessoa de escritório?

 

R – Não, de escritório, não. Ele era mais de ação. Ficava uma parte lá, mas ele era mais... Por exemplo, se precisava comprar uma coisa, era ele que decidia. Depois foi modificando, as linhas foram melhorando, o serviço, a tecnologia foi melhorando.

 

P/1 – E o seu trabalho? Como acompanhou esse processo, esse desenvolvimento?

 

R – Eu sempre chefiando o escritório, sempre mandando. Mas depois, mais tarde, quando foram criados os departamentos, cada um tinha a sua parte. Então eu ficava mais na parte de recebimentos. Tinha o guichê, porque antigamente as contas eram todas pagas no escritório mesmo. Então a gente ficava no guichê. Por exemplo, eu tinha a minha hora de ficar, a outra ficava um pouco para poder revezar, mas tudo ali. Entravam no guichê o dinheiro, o cheque para pagar. Iam pagar as contas telefônicas lá. Depois, mais adiante, o serviço foi melhorando e passou para o banco, tudo, mas o mais era todo recebido lá. O departamento financeiro ficava por minha conta e tinha a venda de ações também. Começaram a vender as ações, vendiam as ações, tinha aquele processo, a pessoa que olhava as ações... Aquilo tudo era ali no escritório. Então a gente estava a par de todo o serviço, um pouquinho de cada coisa a gente entendia. Eu ficava mais assim... Quer dizer, eu trabalhava mas também orientava muito o escritório no meu serviço de atendimento. Por exemplo, se uma pessoa queria ir lá fazer uma reclamação, ia falar comigo. Todo mundo queria reclamar comigo, porque a gente ia, olhava, ia na central: “Vê isso assim, às vezes é um serviço rápido, você pode atender a pessoa.” Então isso tudo a gente fazia. Então toda e qualquer pessoa que chegava lá: “Não, eu quero falar com a dona Ilce.” Que a gente dava sempre um jeito. Ou as outras funcionárias também: “Não, faz assim, assim, assim.” A gente dava sempre um jeito de atender os assinantes, porque sempre o seu Alexandrino falava: “Assinante em primeiro lugar.” E era mesmo. A gente fazia todo o possível. A não ser quando era um serviço grande, por exemplo, de uma chuva. Naquela época costumava entrar água nos cabos embaixo, que era subterrâneo, aí ficava mais dias com defeito, o povo reclamava e tudo. Mas aí a gente explicava e entendiam. Eu trabalhei bastante, viu?

 

P/1 – E sempre colado no público, né, Dona Ilce?

 

R – Sempre, sempre atendendo as pessoas. E [pessoas] das mais variadas opiniões, porque cada um é cada um. Um ficava bravo, o outro era educado. A gente atendia todo mundo da mesma forma, procurando resolver o problema da melhor maneira possível. Quando eu fiz 25 anos de serviço, fizeram uma festa para mim. Que maravilha! Colocaram o meu retrato lá.

 

P/1 – Em que ano foi isso?

 

R – Eu entrei em 1942, né?

 

P/1 – Em 1967.

 

R – Em 1967? É, 1967. Fizeram uma festa tão bonita!

 

P/1 – Como foi essa festa, dona Ilce? Descreve para nós.

 

R – Foi uma festa surpresa, né? Convidaram todos os meus parentes, as pessoas mais notórias da sociedade, a prefeitura... Tudo. Foram em casa na véspera e fizeram uma serenata dentro da minha casa, na porta do meu quarto. Me acordaram assim. Aí cantaram, foi aquela alegria! No outro dia teve uma missa, depois teve um coquetel no escritório. Foi tudo ali no escritório mesmo. Ganhei uns presentes maravilhosos! Da CTBC ganhei um colar de ouro lindo! Dos funcionários ganhei uma pulseira de ouro maravilhosa! Que coisa linda! E o retrato na parede, que até hoje não sei se ainda está pendurado lá. Já deve ter descido.

 

P/1 – Onde está, Dona Ilce?

 

R – Estava aqui na CTBC, aqui embaixo. Mas teve uma ocasião que ele tinha caído. Eles foram fazer uma limpeza e tiraram, mas ficou lá. Depois, com mais anos de serviço eu ganhei um fim de semana na pousada, ganhei um fim de semana em Salvador, lá naquele Club Mediterranée. Foram muito bons. O Seu Alexandrino... Eles eram ótimos para a gente e como eu era a mais antiga às vezes tinha um privilégio maior.

 

P/1 – Ou privilégio ou sabedoria no trato do principal ativo da Companhia, que sempre foi o cliente.

 

R – Não, nesse ponto eu acho que eu não devo ter muita reclamação de clientes, não, porque todo mundo que ia eu atendia com a maior boa vontade e procurava sempre atender o mais rápido possível, então eu fui criando aquele negócio. “É a Dona Ilce, vou falar com a Dona Ilce.” Quantas pessoas hoje, por exemplo, encontram comigo: “Oh, Dona Ilce, há quanto tempo eu não vejo a senhora! A senhora lembra que me ajudou a ter esse telefone? Foi a senhora quem me ajudou a comprar essa linha.” Eu falei: “Eu não lembro.” A gente não lembra, o que a gente faz a gente não lembra, a gente faz lá. Mas isso era parte do meu serviço, não fazia nada. Era parte do serviço. Mas foi muito bom, foi uma época muito boa a do trabalho. Eu trabalhei até…  Fiquei 54 anos entre a Teixeirinha e a CTBC.

 

P/1 – Dona Ilce, esse tipo de relação com as pessoas, a senhora transmitia de algum modo para os seus subordinados?

 

R – Todos eram assim, todas as moças que trabalhavam, porque sempre eu que colocava, eu que admitia, na época. Todas elas, ninguém tinha queixa de serviço na telefônica naquela época, ou queixa de funcionário. Não era só eu, não, mas você sabe, sempre tem uma pessoa. É como ir a uma loja, sempre tem uma pessoa que você conhece lá e você quer ir direto nela. Vem outro vendedor e você fala: “Não, eu quero ir com aquela.” Como a gente estava lá há muitos anos, desde o começo, então achavam que falando comigo o serviço saía, né? E, ao contrário, falando com todos o serviço saía da mesma maneira.

 

P/1 – Essa forma de atender o público marcou na Companhia por conta de jeito especial de atender as pessoas, né?

 

R – De todos os funcionários.

 

P/1 – Isso mudou de algum modo em todo esse tempo que a senhora conviveu na CTBC? Para melhor, para pior? Como a senhora avalia isso?

 

R – Eu acho que quando o serviço é muito, quando vai melhorando, o serviço vai aumentando... Às vezes pode ter algumas falhas, é lógico, eu acho que em todo lugar tem. Mas eu acho que, no geral, a CTBC tem um ótimo atendimento, sempre deu um ótimo atendimento ao público.

 

P/1 – Eu queria que a senhora me contasse um pouco da relação com as telefonistas, porque as telefonistas também eram personagens muito especiais.

 

R – Nossa, excelentes! Especiais! Sem elas... A gente tinha um relacionamento bom demais lá porque eram todas funcionárias que a gente conhecia, escolhia bem. Naquela época eram elas que faziam as ligações. Mas, olha, nós tivemos telefonistas maravilhosas, viu? De serviço exemplar. Todas elas muito bem... E tinham também as monitoras que ensinavam o serviço, que faziam um estágio assim... A gente mandava, às vezes, fazer um estágio fora para aprender um pouco, né? Então elas eram monitoradas por um grupo muito bom, trabalhavam por revezamento, entende? Era serviço a noite toda que elas trabalhavam. Era o serviço noturno e diurno. E nós tínhamos muitas telefonistas. Hoje ainda tem no serviço lá.

 

P/1 – E como era o trabalho dessas monitoras e das telefonistas? Quantas horas elas trabalhavam por dia?

 

R – Seis horas.

 

P/1 – Se revezavam quatro vezes ao dia?

 

R – É, é isso mesmo. Tinha o período da manhã, o período da tarde e o período da noite, que elas não podiam trabalhar mais do que isso.

 

P/1 – A senhora disse que tinham telefonistas excelentes. A senhora se lembra de alguma em especial?

 

R – Deixe-me ver se eu lembro. Tinham umas mais antigas, tinha uma Dona Iolanda que eu me lembro, antiga. Iolanda. Eu não me lembro mais dos nomes, tinham tantas telefonistas boas que a gente não... Tinha a Iolanda, depois tinha a Maria Ramos... Ah, eu não me recordo mais o nome delas, não, mas tinha.

 

P/1 – No começo a senhora disse que fazia a seleção das pessoas, tanto das escriturárias como das telefonistas. Quais eram os critérios que a senhora usava?

 

R – A gente naquela época não tinha tanto, não era como hoje. A gente sabia que a pessoa era boa, tudo, tinha vontade de trabalhar. Não tinha nem currículo naquela época, a gente colocava porque conhecia a pessoa. Elas faziam inscrição para telefonista, eu acho que naquela época passavam por um teste pequeno, mas não tinha nada demais para a gente aceitar, admitir uma funcionária naquela época. A pessoa ia lá: “Eu já trabalhei nisso e naquilo” e a gente aceitava, né? No geral a gente se dava bem porque eram pessoas boas, trabalhadeiras. Tivemos muito boas telefonistas. E todos os funcionários. Por exemplo, da central, tivemos funcionários bons da central, tanto que o serviço sempre foi muito bom, nunca tinha reclamações, nunca se via em jornal reclamações do serviço da CTBC, nem nada.

 

P/1 – Quando a senhora pensou pela primeira vez em deixar a empresa?

 

R – A gente vai ficando... Quer dizer, já tinha idade para poder sair, né? Eu tinha medo até de sair, de ficar sem trabalhar. Mas quando eu pensei mesmo em sair foi logo em 1997, no começo do ano. Eu falei: “Não, já está na hora de eu sair porque já está tudo aumentando.” Por exemplo, serviço tudo moderno, digitação, tudo. E eu não aprendi a digitar, não aprendi. Depois eu falei: “Gente, já está na hora de eu dar lugar para os mais novos, para essa gente nova que está aqui.” E eu também já estava, assim… Não cansada, porque eu adorava o serviço que eu fazia, mas eu estava cansada de horário, da apreensão de horário. A responsabilidade está na pessoa e não no cargo que a gente ocupa, então eu tinha aquela responsabilidade de chegar na hora, de nunca sair fora da hora. A gente nunca saía do horário, a gente sempre chegava na hora e tudo. Eu tinha aquela responsabilidade, então aquilo parece que vai estressando a gente depois de muitos anos de serviço também, porque a gente não falhava. Quando a gente precisava, por exemplo, por causa de uma doença e tudo, é que a gente falhava. Mas às vezes mesmo com dor de cabeça, com isso, com aquilo, a gente ia para lá porque lá já chegava e distraía, né? Mas aí eu falei: “Já está na hora.” Foram todos saindo, né? Todos os antigos saíram, ficamos eu e o Sátiro. Eu era mais velha ainda que o Sátiro no serviço lá. Eu falei: “Olha, Sátiro, eu acho que eu vou sair. Eu estou precisando dar lugar para esse povo aqui.” Mas foi bom eu mesma querer sair. Aí eu conversei com o Doutor Luiz, falei: “Eu vou parar de trabalhar.” Foi bom porque eu não tinha mesmo... Aliás, eu podia até ter aprendido digitação, a mexer com o computador, mas eu achei que não, falei: “Já está na hora, eu já trabalhei bastante.” Resolvi. De uma hora para outra eu falei: “Não, resolvi, eu vou sair.” E ainda fizeram um almoço lá para mim. Os funcionários fizeram um almoço.

 

P/1 – Nessa época, Dona Ilce, o que a senhora estava fazendo, especificamente, quando resolveu sair?

 

R – Eu já estava na Algar, eu tinha saído. Quer dizer, mudei: da CTBC fui para Algar. Mas ainda estava na tesouraria, mexendo com dinheiro. Eu mexia com dinheiro. Até o dia em que saí eu mexi no escritório com dinheiro.

 

P/1 – A senhora nunca chegou a dizer ao seu Alexandrino que gostaria de parar de trabalhar? Ou já?

 

R – Não, no tempo do seu Alexandrino, não. Nunca.

 

P/1 – Ele provavelmente não iria deixar.

 

R – Mas eu também nem pensava em sair na época, né? Ele faleceu, coitado e eu não pensava em sair. Foi uma época muito boa quando ele foi diretor porque o escritório dele também era lá na Algar, lá em cima. Então era mesmo lá a oficina. Tudo era feito na oficina. Você ainda foi do tempo da oficina, do Sebastião, não? Acho que não, né? Acho que não. Era tudo lá. Então ele chegava, limpava a garganta, seu Alexandrino chegando. A gente falava com respeito. Mas eu tinha muita liberdade. Quer dizer, com todo respeito a gente tinha liberdade, porque a gente trabalhou muitos anos, né? Eu que olhava as coisas dele particulares, as contas, tudo. Então a gente sempre tinha um contato maior. Nós tivemos, graças a Deus, um relacionamento muito bom com o Luiz também. Depois o Luiz entrou, era mais novo, e com todos que entraram depois eu tive um relacionamento bom. Até com o Seu Mário Grossi. O seu Mário Grossi já trabalhava lá quando eu saí, já estava.

 

P/1 – Já estava lá quando a senhora saiu?

 

R – Já estava quando eu saí.

 

P/1 – Como foi essa transformação de CTBC crescendo, tornando-se um grupo grande, como a senhora acompanhou tudo isso vindo desde o início?

 

R – Quer dizer, eu acompanhei assim, dentro das minhas possibilidades, né? Eu acompanhava aquilo, a gente vibrava com tudo. Que a gente vibra. Ver a empresa crescer, parece que você faz parte dela. Tudo o que acontece é como na vida particular: se tem uma coisa boa, uma parente fica bem, um filho nasce, um sobrinho nasce, então é tudo... Lá era a mesma coisa, aquilo era a minha segunda casa, eu vivia mais tempo lá do que em casa, passei a maior parte da minha vida lá dentro da CTBC, mais do que em casa, a bem dizer, né? Passei a maior parte. E foi uma vida boa porque eu não me casei. Não me casei por opção. Mas eu me dediquei. Quer dizer, fiquei com os meus pais porque todos os meus irmãos casaram e eu fiquei só, então eu fiquei com os meus pais. Eu trabalhava assim, por exemplo, de manhã e de tarde. Quando, no começo, às vezes até domingo e feriado, a gente saía para trabalhar. Mas, na maior parte do tempo, a gente tinha um trabalho normal, num horário certinho e tudo. Mesmo assim eu acho que passei mais tempo dentro da Companhia do que na minha casa. Quer dizer, dava uma assistência em casa, mas passei a maior parte da vida dentro da Companhia. Aquilo ali era uma segunda casa para mim, uma segunda família. A gente tinha um bom relacionamento com a família do seu Alexandrino, com a Dona Maria, com a esposa do Doutor Luiz, tudo gente que a gente conhece, conhecia há muitos anos. Então eu senti demais quando eu parei de trabalhar, eu senti muito por causa daquele hábito de você levantar cedo, tomar banho, tomar café e ir para o escritório, então é um objetivo que a gente tem. Depois você fica sem objetivo. Ficar dentro de casa fazendo o quê? Aí eu fiquei mal, passei uns dois, três meses sem saber o que fazer. Depois eu viajei, fiquei uns dois meses fora e voltei — porque estava de férias. Voltei, fui me ambientando mais, comecei a fazer uma hidroginástica, comecei a andar um pouco. Quer dizer, tinha mais tempo para ler, mais tempo para ver uma televisão, para sair, fazer uma visita. Depois foi bom, acostumei.

 

P/1 – Acostumou? Melhorou?

 

R – Melhorei. Agora já estou acostumada, já fiz minha outra vida fora do trabalho, que está mais ou menos estabilizada.

 

P/1 – Já deu tempo para acertar?

 

R – Já deu tempo para acertar.

 

P/1 – Como a senhora vê a Companhia hoje? A senhora deve olhá-la com olhos completamente originais, porque a senhora tem uma história que as outras pessoas não têm.

 

R – Não, mas tem muita gente que tem uma história boa lá dentro da Telefônica, tem outros funcionários, também antigos lá, que têm umas histórias. Eu, porque tive mais contato. Quer dizer, todos tiveram contato com a diretoria, com tudo. Mas você fala o que eu vejo hoje. Ora: hoje a gente tem orgulho de ter trabalhado numa companhia que cresceu tanto. Isso eu posso falar, eu me orgulho. Trabalhei na CTBC quantos anos? Trabalhei na Algar, né? Quer dizer, isso é um orgulho para mim que eu vejo hoje. E espero que sempre cresça, que melhore, que fique tudo.

 

P/1 – A senhora, quando começou a trabalhar na Algar diretamente com o Doutor Luiz ou com o Seu Alexandrino, a Companhia já tinha uma configuração, digamos assim, maior? Já era um grupo?

 

R – Já, já era um grupo.

 

P/1 – Nesse sentido, a sua relação com as pessoas, aquela velha e antiga relação com as pessoas que a senhora tinha com o cliente, com o assinante, ela ficou mais distante, ficou mais próxima?

 

R – Não, não ficou, eu continuava atendendo do mesmo jeito, porque eu sempre fiquei ali na frente do escritório, então eu atendia todo mundo. Não modificou em nada. Eu sou assim, tenho essa facilidade de conversar com as pessoas, de dirigir e tal. Não sou boa em outras coisas. Eu falei: “Cada um tem sua limitação, né?” É como eu falo sempre para os meus irmãos: “Gente, a família nossa, a família do papai, nós não nascemos para ser patrão. Preferia a gente ser um bom funcionário, um bom empregado, porque nós não temos essa capacidade de ser patrão na vida.” Foi uma família sempre classe média que viveu sempre trabalhando tudo, mas nunca atingindo altos níveis de progresso. Tudo certinho, mas tudo mais humilde. Então eu falo sempre: “Não adianta, gente. Tem gente que nasce para ser patrão, outro nasce para ser funcionário.” Senão não teria vida, né? Não teria empresa sem funcionário, né?

 

P/1 – De todo modo, mesmo sabendo disso, a senhora como funcionária foi muito benquista.

 

R – Fui muito benquista, isso eu posso garantir. Tanto por eles como pelos funcionários e como pelo público também, que me conhece até hoje. “Ô, Dona Ilce!” na rua, né? Que eu sou mais conhecida do que, como se diz, níquel de tostão, é? 

 

P/1 – A senhora acha que essa homenagem que a senhora recebeu aos 25 anos, e depois o título de Comerciária do Ano, tudo isso é resultado disso?

 

R – Deve ter sido, né? Mas isso eu fazia tão naturalmente. Quer dizer, é porque eu gostava de fazer, eu adorava o meu trabalho, sabe? Adorava! Gostava de ir para o escritório cedo trabalhar, gostava demais! Tanto que, às vezes, a gente trabalhava até à noite, porque tinha pouca gente no escritório no começo, então a gente tinha que bater os recibos para ficar pronto no dia de recebimento. Então a gente trabalhava à noite, fora do horário, sabe? A gente ia numa boa, era uma coisa que a gente fazia com prazer. Quer dizer, um trabalho você fazendo com prazer é bom, não é? Acho que foi por isso que eu fiquei 54 anos lá trabalhando. Aquela estatueta ali, ganhei da Prefeitura quando fiz 25 anos de serviço. Mas foi muito bom, viu? Foi muito bom enquanto durou.

 

P/1 – A senhora acabou se tornando uma figura pública, embora sem cargo. 

 

R – É, sem cargo. Não, isso eu não sei. Quem pode dizer isso é o público mesmo. Não eu, eu sou suspeita.

 

P/1 – Mas, Dona Ilce, a senhora não é suspeita para descrever como foi essa homenagem da Comerciária do Ano.

 

R – Comerciária do ano, foi... Ah, ganhei tanta placa, né? Placa... Isso me deixava sem graça, porque eu sou meio assim.

 

P/1 – Eu queria retomar aquele momento em que a senhora foi tentada a sair da empresa e não quis. Se a senhora quiser retomar a conversa.

 

R – Foi o que eu contei. Uma pessoa de fora, chamada Bandeira, viu meu serviço, acho até que gostou do modo que dirigia o escritório e me convidou para ir trabalhar com ele em Brasília. Aí eu falei: “Não, eu não vou, definitivamente. Primeiro porque eu não vou deixar a CTBC. Segundo porque eu não vou deixar os meus pais também, já estão de idade, não vão fazer uma mudança.” E, terceiro, porque eu tinha medo de ir, né? Eu falei: “E se não der certo?” Eu ainda precisava trabalhar, porque a gente fica com aquela casa, né? Eu falei: “Não, eu não vou, definitivamente. Eu gosto de trabalhar aqui. Agradeço muito, foi bom para mim você ter me dado essa oportunidade, foi muito bom, porque até você elevou minha autoestima ao achar que eu posso dirigir um escritório lá na Novacap [Companhia Urbanizadora da Nova Capital], mas eu agradeço.” Agradeci mas não comentei com ninguém, acho que ninguém sabe disso lá na CTBC.

 

P/1 – E outra coisa é estar muito próxima do público, junto às pessoas com as quais a senhora trabalhava e trabalhou desde a Teixeirinha até a CTBC e a Algar.

 

R – Era um revezamento tão bom que a gente nunca teve nenhuma discussão, nada! A gente tinha um revezamento que precisava fazer isso e tudo seguia na maior serenidade possível dentro do escritório. A a gente se dava bem com todo mundo. Depois foi crescendo demais a CTBC, foram criados departamentos. Então naquele tempo era uma família mesmo. Lógico que de vez em quando tinham divergências entre um e outro, de opiniões e tudo, mas nunca foi nada sério.

 

P/1 – E a transição do seu Alexandrino para o Doutor Luiz?

 

R – Foi muito boa, todo mundo aceitou muito bem porque o Luiz era novo, chegou cheio de ideias e tudo, mas o cabeça mesmo era o seu Alexandrino, ele que era o cabeça. O Luiz chegou cheio de ideias novas e tudo, trabalhava muito também, e ainda chegou na época vender telefones nessas localidades próximas daqui. Tivemos um bom relacionamento com o Luiz.

 

P/1 – E outra coisa sobre a qual falávamos é como a senhora observa a CTBC conhecendo a empresa da forma como a senhora conhece. O que a senhora sente, o que a senhora vê, como é a sua relação?

 

R – Eu quero que a Companhia cresça mais, melhore mais e continue prestando esse serviço maravilhoso porque é um serviço particular, é uma empresa particular que dá um serviço de empresa estatal ou, às vezes, até melhor. Eu vejo a Companhia com os melhores olhos. De vez em quando eu vou lá, a gente ainda tem contato com o Luiz, com a Dona Maria, esposa do seu Alexandrino, e eu continuo como se fizesse parte ainda. Eu espero que tudo de bom aconteça na empresa.

 

P/1 – A senhora não se dá conta de que faz parte?

 

R – Acho que ainda faço parte. Não acho que eu faço parte mais, não. Eu faço parte assim. Eu acho que eu faço parte porque tudo o que passa, tudo o que acontece, a gente... Quer dizer, eu sinto, eu fico sabendo e sinto. Se é uma coisa que não está bem eu sinto, se é uma coisa que melhora eu vibro também com isso. Isso é fazer parte ainda, né? Com certeza.

 

P/1 – Dona Ilce, há alguma coisa que a senhora gostaria de ter dito e não disse?

 

R – Não, eu acho que eu até falei demais, né?

 

P/1 – A senhora falou tão bem!

 

R – Falei demais.

 

P/1 – Eu só queria que a senhora lembrasse um pouco mais dessa sua homenagem que a senhora recebeu como comerciária do ano, parece que houve um poema do seu Tito Teixeira para a senhora.

 

R – Não. Poema? Não. Isso eu não estou sabendo, não. Eu não estou sabendo, mas não posso ter esquecido isso. Não, não deve ter tido, não. Quer dizer, eu acho que eu não merecia tanto assim, não, ser Comerciária do Ano. Não, não foi Comerciária do Ano. Você está enganado. Eu recebi homenagem como uma das... Não foi comerciária, foi?

 

P/2 - Num dos jornais constou como Comerciária do Ano eleita pela Associação Comercial, pelo Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, pelo SENAC [Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial] e houve um jantar, então a senhora fez um discurso de agradecimento.

 

R – Mas eu não estou tão velha assim. Quer dizer, eu lembro da solenidade, isso eu lembro. Do jantar eu lembro. O que mais?

 

P/1 – Onde foi, Dona Ilce?

 

R – Olha, eu não sei. Palavra de honra, eu não estou me lembrando dessa passagem. Eu sei que eu recebi uma homenagem, mas era aquela das mulheres de negócios. Mas essa aí eu não estou lembrada. Tem alguma coisa lá na CTBC disso? Palavra de honra, eu não estou lembrada muito disso, não. Eu estou lembrada da festa de 25 anos na empresa lá,ue foi a festa dentro da empresa. A minha memória está fraca.

 

P/1 – A senhora foi mais homenageada do que imagina.

 

R – Pois é, eu não me recordo assim. Eu não acho que eu merecia tudo isso, não, porque a gente faz... Eu fazia com carinho e com amor. Eu trabalhava, eu tinha que me dedicar ao trabalho. Se eu gostava do trabalho? Gostava do ambiente, gostava das pessoas... Eu não acho que merecia, eu ficava sempre muito sem graça em receber isso. Sei que a última que eu recebi foi lá no Cine, foi lá que eu recebi uma estatueta bonita, essa das mulheres de negócios. Foi lá no Cine, lá no Center Shopping, no Cine Center, foi quando eu recebi também uma homenagem lá muito bonita. E outra aqui no teatro Rondon também. Fui homenageada outra vez quando eu recebi aqui no Teatro Rondon uma placa muito bonita. Não sei, ou foi lá ou foi... Foram tantas homenagens, eu não merecia mesmo, não. Eu sou um pouco desligada, eu acho que o que a gente tem que fazer, a gente tem que fazer bem feito. Quer dizer, o povo atualmente acha que eu merecia, né? Por isso que fizeram isso, mas eu recebi isso com muito carinho, achando que não merecia tanto, mas foi bom ter merecido, foi bom ter sido lembrada.

 

P/1 – É aquela consciência tranquila à qual a senhora se referiu lá atrás, no início da conversa.

 

R – É.

 

P/1 – Dona Ilce, como é o seu dia a dia hoje?

 

R – Hoje eu faço hidroginástica três vezes por semana, ando um pouco, dou ajuda dentro de casa também, que eu tenho uma funcionária que trabalha comigo há muitos anos, mas também dou uma ajuda que eu gosto muito de ajudar em casa, o servicinho de casa às vezes. Eu leio um pouco, assisto um pouco de televisão. Pouco, não assisto demais, não, gosto mais de cinema. Gosto muito de cinema, gosto de sair, gosto de fazer visita. Tem muitos parentes aqui, tenho umas tias com as idades bem avançadas, mais do que a minha, então eu vou fazer uma visitinha de vez em quando. A minha vida é boa. Viajo um pouquinho, que eu tenho minha irmã que mora em São Paulo, então eu vou sempre para lá, vou para Goiânia. Quando eu posso eu vou. É que agora não tem mais aquela: “Ai, vou viajar tal dia, tem que comprar. A gente vai no ônibus à noite.” Para aproveitar o tempo porque tinha que voltar, né? Eu nunca passei férias aqui em Uberlândia, eu sempre passei fora. Todas as férias que eu tirei sempre passei fora, nunca passei férias aqui. Gosto muito de viajar. Não viajei mais porque não deu, mas adoro conhecer outros lugares. É tão bom, não é? Mas é isso, eu preencho a vida assim. Está bem preenchida a minha vida hoje.

 

P/1 – Que bom, Dona Ilce.

 

R – Agora aprendi a ficar sem horário. A minha irmã fala: “Por que você não vem passar o dia aqui?” “Ah, talvez eu vá.” Eu posso, eu não tenho nada, emprego. Aí ela falou: “Então vamos.” Isso é bom, viu? Depois de ter uma vida assim, de trabalho, é muito bom a gente poder fazer as coisas que a gente não podia fazer. A gente fazia, mas tudo com uma certa restrição por causa de tempo, por causa de ter que trabalhar no dia certo. Mas que era bom. Até era melhor, viu? Porque você saía... A gente era mais nova, saía de noite para aproveitar, voltava de noite, ia trabalhar cedo... Ainda trabalhava, né? Como é bom! Mas agora já acostumei, agora a minha vida está ótima, graças a Deus! Graças ao meu trabalho.

 

P/1 – O que a senhora achou dessa entrevista, dona Ilce?

 

R – Achei ótima, sinto não ter mais facilidade de expressar as coisas como eu gostaria de expressar melhor, né? E, às vezes, alguma coisa que a gente esquece, porque tanta coisa que já se passou... A gente esquece. Mas gostei, achei vocês muito simpáticos.

 

P/1 – A senhora também é muito simpática.

 

R – Obrigada.

 

P/1 – Muito obrigado.

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