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História

"Meu papel era fazer com que essas crianças, esses adolescentes tivessem uma passagem mais confortável pelo Colégio".

História de: Alessandra Pio Silva
Autor: Núcleo Colégio Pedro II
Publicado em: 01/09/2022

Sinopse

Alessandra Pio, carioca, cresceu no lar dos patrões da sua mãe, a quem chamava de “avós” e estudou em um colégio de freiras que lhe deu uma boa base curricular. Com a morte dos avós, mudou-se para a baixada fluminense com o pai e a mãe, mas sempre cercada da presença da tia, que ela considerava também sua mãe. Alessandra conta sobre sua identificação com a educação e a pedagogia e fala sobre a seu laço profissional com o Colégio Pedro II: da aprovação no concurso público, sua atuação como técnica, sua participação ativa no NEABI (Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas) em prol de uma luta antirracista na instituição, do encontro com pessoas e da vivência de momentos marcantes até sua saída, ao tornar-se doutora.

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História completa

P1 - Então, Alessandra, é um prazer enorme ter você aqui conosco, contando um pouco da sua história de vida. E a gente queria que você, inicialmente, se apresentasse com o seu nome, idade, falando, onde que você nasceu. R - Então, é um prazer meu também, né, voltar aqui para uma situação inusitada com esse. Meu nome é Alessandra Pio. Eu estou com 46 anos. Trabalhei 17 anos aqui no Colégio Pedro Segundo. Eu nasci aqui no Rio, no centro do Rio e eu sou... fui criada no bairro do Flamengo durante muito tempo com meus avós emprestados e uma parte também da infância lá em Campo Grande. Então eu sou bem geminiana até na forma de crescer, não é? Cresci entre 1000 talheres na Praia do Flamengo e entre pipas e bolinhas de gude, lá no Subúrbio de Campo Grande. P1 - E quando você pensa nessa menina, na sua infância, o que você pode dizer dessa Alessandra? R - Confusa, sempre, muito confusa. Tadinha... Ela acha que a confusão passou... , mas eu era uma criança confusa por conta dos lugares, né? Eu sempre fui muito versátil para me adaptar, então eu conseguia me adaptar com os com os meus avós dizendo “Não é esse copo!”, “Não... Olha o guardanapo antes de beber a água!”, “não, não é aí”, “não é assim que senta”, “não, esse é o garfo de sobremesa”. Aquela tensão para almoçar, né? Então eu tinha que me adaptar a isso. O tom de voz, esse tipo.... Para uma criança, eu achava isso muito tenso. E perceber o que eu podia fazer nesse espaço, o que eu podia fazer no meu espaço, que eu sempre senti que era meu, né? O meu espaço do subúrbio, da Baixada, que depois os meus pais se mudaram para a Baixada Fluminense. Aí eu podia andar descalça, aí eu podia brigar e me descabelar com os meninos por causa da bola do jogo, da... era outra situação. Então, às vezes, eu confundia um pouco os limites, né? E eu me sentia um pouco falsa, porque nunca parecia de verdade o que o que estava acontecendo: era um personagem para cá, um personagem para lá, não é? Foi a primeira coisa que eu botei para fora na terapia foi isso. P1 - Em relação à sua adolescência? Mudou alguma coisa? R - Ah.... Mudou bastante. Aí meus avós já tinham falecido, aí a gente já tinha mudado o status econômico, o que foi um baque, assim, na família. Aí é.... Eu, tive que trabalhar cedo. Eu trabalho desde os 14 anos. Então eu comecei a viver a minha vida. Então a minha adolescência passou muito rápido, que eu me vi muito adulta. Eu sentava para discutir com a minha mãe as contas, o que a gente ia pagar, o que dava para pagar, o que não dava. Tive que mudar de escola, eu estudava em uma escola muito boa, né, que meus avós pagavam quando eu era menor, que era uma escola de freiras, horrível, mas era boa em conteúdo, de qualidade, aquela coisa, qualidade curricular. Mas deu uma base escolar muito boa, não é? Com ela que eu sobrevivi muito tempo, mas a minha adolescência foi curtíssima, não curti essa coisa de ser rebelde, não dava tempo, tinha que trabalhar, não dava para ser rebelde. P1 - E as amizades? R - Poucas e muito bacanas. Quando eu era bem pequena, eu tinha minha amiga de fé de fazer besteira, né? Aquela que morre, mas não conta que foi você, tá? Parceira de guerra. E quando me mudei, tive os meus amigos. Sempre muitos meninos. Não é? Porque eu acho que eu cresci... Eu não sei explicar bem essa coisa.... e até a presença dos homens é, assim, mas agradável para quem é hétero, não é? Mas também tinha a coisa da parceria. Os meninos são... eram mais parceiros comigo que as meninas, então, nada lá.... Essa adolescência que passou, então a gente tinha os meninos. A gente era fã de Legião Urbana, tinha o fã clube... Então a gente tinha muito violão na esquina... Foi quando eu me dediquei um pouco ao violão. E a gente trocava a partitura, aquela coisa... E aí trabalhando meus colegas de trabalho, né? Sempre muitos colegas de trabalho, as amizades foram marcando época dos amigos tais, o grupo tal, né? A gente vai passando assim de fase em fase. P1 - De como que era essa constituição familiar? Era você e quem mais morava junto? R - Olha, depende. A minha infância tinha a presença marcante desses avós, que na verdade eram os patrões das minhas mães, né? (A minha mãe, minha mãe biológica mesmo, está aqui até hoje, e a minha tia, que era a minha, minha segunda mãe, né?), com quem eu convivi até um determinado tempo da vida e muito, mas muito intensamente. Então eu vivia com eles. Parecia que eles que mandavam na nossa família, parecia e era, na verdade. E depois, quando eu fui mais para o meu seio familiar, eu, minha mãe, meu pai, aí éramos nós 3. A minha irmã nasceu morta. Um ano..., nem um ano direito depois de mim, então fomos nós 3 e só e os primos, que eu chamo de irmãos, não é? Que são do Sul, são todos de Porto Alegre, e viviam vindo. Então a gente tem uma relação de irmãos. Essa minha irmã que veio para o Rio, já há uns 30 anos mora aqui, que é a irmã que eu tenho, não é? Eu sempre falo “ah, minha irmã e tal”, é ela que veio do Sul para cá, terminar a faculdade, mestrado, doutorado, fez tudo aqui. E os outros continuam em Porto Alegre. E depois disso, só eu e minha mãe, não é? Meus pais se separaram. Separaram, voltaram, separaram, voltaram.... Nessa coisa, sempre só eu e minha mãe. E depois eu sempre quis morar sozinha, então, depois de um tempo... É um núcleo, mas cada um na sua, né? Cada um na sua casinha, no seu quadradinho. P1 - Alessandra, e quanto a sua relação com a com a educação, com a escola, como que foi isso? R - Eu, eu... Sempre tive vontade de dar aula, eu não sabia que era dar aula, né? A coisa vai, você vai percebendo como aquilo é. Então eu passei por várias formações, como boa geminiana, não é? Eu antes de me definir mesmo, vou pegar pedagogia, educação... eu passei pela comunicação social, pelo direito... Direito eu fui até a metade aqui na UERJ, não é? Por letras... E queria muito fazer história, mas o que eu percebi é que todas essas passagens elas tinham educação como elo, não é?, o que eu queria era sempre transformar aquilo em conhecimento para fora. Queria sempre expandir coisas, então eu falei “então vamos largar isso tudo e focar na educação.”. Eu gosto desse contato, com os jovens essencialmente, não é? Por mais que eles pareçam chatinhos, eu adoro essa galera, né? Me dou muito bem com eles. A troca que a gente tenha no profícua. Então eu fui estendendo isso e por aí que eu fui... e aí assim, não é, que eu comecei a focar em pedagogia e pedagogia, óbvio, eu ia acabar trabalhando em alguma escola. P1 - E como que foi essa escolha pelo Pedro Segundo? Como isso aconteceu na sua vida? R - Foi muito por acaso, não é? Eu, ao contrário das minhas amigas que estavam estudando escondido, revelo isso assim mesmo: estavam estudando escondido para a prova do Pedro Segundo, que todo mundo achava muito importante. “O Pedro Segundo vai ter concurso”, e a gente estava se formando, na verdade, por conta de greve, a gente se formou em 203, e colou grau em 2004. Então, em 2004 foi o ano do concurso que nós fizemos. Era um concurso para pedagogos e técnicos em assuntos educacionais, que o técnico para assuntos educacionais é para qualquer licenciatura. Então imagina o fervo, não é? Toda licenciatura e eu não sabia. Aí, uma amiga minha falou: “vamos fazer concurso para lá!”. Para lá onde? “Pedro Segundo”. Aí uma dizia, “É o Pedro Segundo, aquele que é ali no Humaitá”, outra dizia “Não, é o Pedro Segundo, que aquele que é ali em São Cristóvão”. “Estranho isso... Onde é isso?”. Internet não era uma coisa tão intensa na vida da gente que a gente pegasse o celular e... “Pedro Segundo”, colocasse e soubesse. Aí eu me liguei que o Pedro Segundo era aquele que a gente estudava lá na história da educação. E era uma instituição histórica e tal. E eu falava, “ah... vou fazer...”, “ih! já passou as inscrições... ”, mas o meu namorado, na época, tinha feito a inscrição para mim. Então eu falei “ih, tô inscrita, então eu vou fazer”. Fiz, passei bem, não é? Eram... acho que 3 vagas, conseguir passar, as minhas amigas não passaram. Para... para ... É... é que foi uma coisa interessante, assim, a parte da prova, a prova exigiu demais no ensino pedagógico e não parecia, né, que exigiria porque estava falando em outras questões técnicas, mas foi muito bacana, porque só pedagogo entraram, então são as minhas amigas, As Meninas Superpoderosas. Né? The Partners, a gente era bem aguerrida na questão da educação, que eram as 3 pedagogas: eu, Viviane e Cristina. A Carla também passou, não é? Então era também fazia parte da equipe e tal. Mas foi uma amizade muito grande por questões ideológicas. As 3 tinham uma relação ideológica com a pedagogia muito, muito intensa. P1 - Você já iniciou aqui em São Cristóvão? R - Foi. Nós 3 viemos para o mesmo lugar, aqui em São Cristóvão II, num momento que a gente não sabia, mas era um momento tenso para a instituição, que era onde estava sendo reorganizado a estrutura de SOE, o setor de orientação educacional, e o STA, que era o técnico em avaliação. E a gente não sabia que isso era uma questão nevrálgica da instituição, que pegaram esses 2 e uniram, formando o SESOP, que era o setor supervisão e orientação pedagógica, que teria técnicos concursados para isso. O daqui foi meio que modelo na época, Carmem que era a nossa chefe geral, dizia que era um modelo, porque eram todas novas estavam ali para essa situação. Então foi uma experiência tensa, louca. Impensável, insuportável, maravilhosa, foi tudo. P1 - Que tipo de impacto é... essa experiência nova, de estar em uma instituição com o Pedro Segundo, acabou causando na sua vida, na rotina que você tinha e até mesmo na, digamos assim, nas expectativas que você tinha em relação à educação? R - Nossa... É... É, mexeu tudo. Porque aí você vira o profissional, não é só um profissional da educação, você é profissional do Pedro Segundo, o Pedro Segundo, tem isso, não é? Ele... Ele toma conta de você, então é muito específico ser pedagogo aqui. E as experiências, inclusive porque eu concursei também para a prefeitura de Caxias. Eu trabalhava aqui e lá. Eu entrei aqui em 2004, 2005 entrei em Caxias, então era uma correria a minha vida e era bom para eu poder equilibrar essa realidade federal, elitizada, porque o Pedro Segundo pode tentar democratizar o jeito que ele quiser, mas existe uma expectativa social de uma elite educacional aqui. Pode não ser interna, mas é a externa. Então era uma realidade bem diferente. Isso mudou minha rotina porque eu comecei a pesquisar a partir dessa realidade. Então meu mestrado é dessa realidade, meu doutorado, dessa realidade, a proposta de pós DOC é dessa realidade. Isso moldou a profissional não é? Fosse pelos embates, fosse pelas conquistas, pelas alianças, pelas formas de lidar com a educação, porque o Pedro Segundo não é uma instituição que compreenda o que é a pedagogia, o papel do pedagogo. O Pedro segundo educacional por ele mesmo. A pedagogia é uma outra coisa. Então aqui dentro existe essa atenção que a gente tinha que lidar sempre, não? É, foi uma relação tensa o tempo todo. P1 - Sim, e com relação à sua proposta de trabalho, do que você conseguiu realizar como Técnica em Assuntos Educacionais? Até onde foi o sonho, um ideal e o viável? O que que você acha que você conseguiu realizar? O que você aprendeu a fazer e que isso foi importante nessa tua jornada como profissional? R - Nossa, Eloísa... É... durante muito tempo, eu tentei ser muito técnica. Inclusive a gente pecou, a gente nossa na nossa equipe, não é? Inicialmente meio que judicializando tudo. Porque a gente queria provar que estava fazendo certo, que era o melhor a ser feito. Então a gente buscava na LDB, na Constituição, a gente era leitora assídua do conselho nacional de educação, do conselho estadual de educação, a gente lia tudo. E aí eles diziam “não, a gente vai fazer desse jeito”; a gente “não é bem assim...”, ou “Nós podemos ir porque existe acesso, possibilidade de tchu tchu tchu, tcha tcha tcha...”. A gente fazia textos embasando as propostas. E aí, no final... Aparecia um professor que sabe lá, de não sei onde, com uma ideia ou outra bem doida, e era aquilo que era feito. A gente fala “ah gente, vamos parar de nos estressar, né? Eu, hein? Vamos fazer o que for mais gostoso para a gente fazer” e esses ser mais gostoso de fazer foi fluindo, então eu passei a atender os alunos de uma forma muito mais tranquila para mim. Eu gostava de conversar com eles do jeito que eu conversaria com qualquer outro colega meu, né? De uma forma mais natural, de uma forma mais, mais livre, mais espontânea, prazerosa, então aí... pena que isso já tinha passado acho que uns 8 anos, não é? Mas isso mudou bastante, me deu uma certa leveza, porque fazendo a pesquisa... O meu mestrado, ele, ele saiu exatamente dessa angústia: Caramba, a gente vai para trabalhar e fazer tanta proposta legal e nada funciona porque, por mais que sejam interessantes, por mais que sejam legal, nunca flui. Tem um troço que é a gente não conseguir escuta, não é? É... é uma, uma passagem icônica que eu coloquei, inclusive apresentando o meu lugar profissional no Pedro Segundo na minha, na minha dissertação de mestrado, que é sobre os técnicos em assuntos educacionais, que eu... eu falei sobre uma fala de.... De outra Heloísa, Helô de inglês, já faleceu a Helô lendo o nosso relatório, que era um momento de rediscussão do projeto político pedagógico do Colégio. Então a gente fez um relatório que a gente leu tudo o que o pessoal tinha contribuído para fazer o relatório. Quando a Helô leu parte do relatório, ela tinha mania de botar os óculos assim quando ela estava falando e... “Que eu estou pasma, porque é estranho, esse relatório está muito bem escrito e dizem que foi escrito por técnicos.” A gente ficou se rasgando de ódio. Eu já levantei a mão falando um monte de coisa, a gente já tinha uma fama, né, complexa, a gente arranjava barraco em tudo quanto era reunião, mas aquela foi icônica porque ali surgiu o tal do preconceito: “técnicos, nem ler direito, sabem. Técnicos não interferem no processo pedagógico. Técnicos não entendem disso.”. Esse Colégio tem uma estrutura, e ela é feita de alunos e docentes. Os técnicos não entram. Então isso me levou a pesquisar, então para que que serve? Por que que me chamou? Porque foram me chamar, não é? Fizeram edital me chamando: “Alessandra, seu perfil de sua formação, a sua disponibilidade, seu conhecimento. Vem cá, ó, passou. Passou, mas agora eu não quero não...” Então essa angústia me levou à dissertação de mestrado, onde eu fiquei pesquisando em todos os SESOP’s o que era, afinal, nosso trabalho. E... o resultado, me levou a essa questão que você falou, sabe? Qual era o papel que eu tinha, eu tinha essa angústia, eu queria fazer alguma coisa. Então o meu papel era mais simples do que eu pensava: Meu papel era fazer com que essas, essas crianças, esses adolescentes, tivessem uma passagem pelo Colégio um pouco mais confortável. Então... e eu também, né, queria uma passagem mais confortável. Então foi nessa relação que eu fui remodelando, assim, o que era para ser feito. Num dia que descobri não, mas.... P1 - De muitas tentativas, né? R - Exatamente, exatamente. P1 - Alessandra, você foi a primeira coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas do CP2. Na época da NEAB. Depois NEABI, não é? R - É, depois NEABI... P1 - Conte um pouco como que isso aconteceu. R - Nossa, vamos tomar um chope, e a gente conversa, né? É... resumindo assim, porque eu acho que foi a fase mais impactante da minha presença no Colégio, porque foi uma fase que juntou a minha perspectiva pessoal da militância com o trabalho, ficou bem doido isso para mim na minha cabeça. Foi uma... Essa era uma reivindicação antiga de professores negros na instituição. Eu lembro de Glória que era de matemática no Pedrinho, é... Tinha outra professora, professor Arthur, de história, professor Adão, de ciências, a própria Eliete, que era do... técnica do que trabalhava lá no sindicato, enfim, havia uma reivindicação há muito tempo, professora Vera Maria não foi receptiva a criação de um NEAB. Não é? Porque aquela questão da resistência da branca, de acreditar que um núcleo de negros é um racismo está sendo exercido. Algumas pessoas acreditam em racismo reverso, fazer o quê? Mas o professor Choeri nem, nem se comenta. Que eu acho que nessa época, ele nem abria para a discussão do projeto, do NEAB. A Vera pelo menos ouviu, não é? A Vera ouviu. Foi um pouco mais receptiva, mas o professor Oscar, e aí, nossa, a gente tem várias críticas a todos os Reitores, obviamente, não é? Todo dirigente tem críticas, senão não tem graça, várias críticas. Mas uma coisa que o Oscar teve, ele sempre foi muito receptivo a tudo que a gente levasse. Ele ouvia, fazia contrapontos e acabava de alguma forma considerando algum ponto. Então foi aí que o NEAB saiu. O que é que ele fez? Ele fez uma reunião: “Olha. Está aqui a portaria. Está criado o NEAB. Agora vocês façam aí os encaminhamentos, grupo de trabalho para fazer eleição.” Então, fizeram a eleição. Eu fui eleita. Foi unanimidade, com diferença de um. Eu gosto de dizer, né, para pontuar, porque todo mundo sabe quem foi esse voto que não foi em mim (adora fazer intriga, não é? Louca). Mas é interessante assim: foi um acordo daquele grupão de que eu poderia ser útil naquele momento. Então, a nossa proposta era: vamos a todos os campus, todos os Campos, campi, P1 - Campi. R - Vamos a todos os campi e isso foi meio difícil para mim. Foi um momento complicado, porque foi ver o racismo fora. Eu já sabia lidar com o racismo meu cotidiano do dia a dia no meu campus, eu já estava satisfeita com o jeito que a gente jogava. Mas, nossa, encarar racismo em cada campi. E chegar e ver o diretor falando “NEAB? Você é coordenadora? Coordenadora de quê?” “NEAB - Núcleo de Estudos Afro-brasileiros" “Ah coisa Afro... Tá. Quem faz essas coisas aqui...” – aí vinha a mãozinha. Essa mãozinha se repetiu em vários, em vários campi e sempre tinha alguém que lidava com isso. Eu falava “gente, mas olha, a gente está em 2014, a gente tem aí uma lei de 11 anos, falando que a escola é obrigada a lidar com isso, o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana, e a gente levava lei, levava... Eu fiz um compiladinho de um livro do NEAB que está lá na página do NEAB pra gente entregar às direções e sempre vem algum professor que se identificavam com a “causa”, como ele dizia. E isso era muito doído, porque a gente entendia, então, que dependia da boa vontade de alguém, do envolvimento de alguém. Então, durante um tempo, essa situação... a gente chamou as pessoas que lidavam com isso e formou um grande grupo para discutir as questões. Como a gente ia levar isso para a escola? Porque o currículo precisa ser modificado e o currículo até hoje não modificou. A gente tem um outro plano, a gente olha aquele plano e o Pedro Segundo ignora solenemente a lei 10.639 e 11.645. Depende do um Departamento de colocar um parágrafo, colocar alguma coisinha. O departamento de história se empenhou muito nisso. Eu acho que depois de um tempo filosofia, não lembro. Alguns foram começando... P1 - Artes também. R - Artes também... alguns foram começando. É o Wilson... nossa um parceirão de trabalho. Música, o Stepheson foi também parceirão de trabalho. Então a gente tinha os ganchos, não é, para começar a lidar e de repente a gente descobriu qual a melhor forma de fazer o colégio lidar com as questões de combate, de racismo institucional? Era de baixo para cima, dos alunos, para cima. Então a gente fez um grande circuito em todos os campi. A gente foi a todos eles. Foi uma coisa exaustiva, eu emagreci, eu... Eu fiquei... Nossa gente... Foi... Foi uma loucura. E eu ia dormir exausta, doída, rindo, sabe, porque todo dia era um negócio magnífico e alunos chegam “Uau, eu conheci o fulano”. Já saudoso hoje, né? O Janu, o Januário Garcia que foi... Fez exposição, conversou com a molecada, mostrou fotografia de dos 100 anos da abolição. “uau, já tinha movimento negro nessa época!” Eles ficaram assim, foi muito legal! Então, a partir disso, os alunos começaram a se movimentar, fizeram frentes negras. Eles começaram a perguntar: Professor, mas, não tinha nada de negro nisso aí que você está falando, não?” E os professores ficavam meio, né? Então, os alunos foram responsáveis pela maior resolução que a gente teve e foi... Foi magnífico! Então essa minha passagem pelo NEAB, ser primeira, eu acho que foi uma parte meio de desbravamento, de enfrentamento. Porque juntou, eu falo muito sobre isso na pesquisa que eu era uma técnica. “Então como você é uma técnica e coordena um Núcleo que é de estudos? Isso não pode!”. Então havia reuniões que brigavam para participar, a minha estadia aqui, junto com Diretorias (e aí, ainda bem que eu tive, né, companhias como Helô, como Fátima, ótima! Andréa era outra técnica estava junto, aí foi possível ser, ser mais legal), mas era tenso porque não era o meu lugar, né? Eu fui convidada até a preocupar uma sala que na verdade era um, vão que tem aqui em baixo dessa escada, né? Eu acho que.... A Helô até soube na época, então esse tipo de comportamento institucional leva a gente a entender assim, é uma instituição que ainda precisa dar muitas voltas. O racismo aqui não é velado, né? Pessoal “Ah o racismo velado”. Velado para as pessoas que não sofrem o racismo. É um racismo intenso . Então foi difícil de ser primeira, começar a abrir caminhos, mas também foi muito realizador, porque aí não gostou que realmente é possível a gente trabalhar com a nossa realização pessoal, nossa realização espiritual, que eu acho que é de tensão de vida profissional. Foi muito, muito bom para mim. Me mostrou muita coisa. Eu conheci todos os diretores. De repente, eu conheci coordenadores de chefes de departamento, então a gente tinha alianças muito importantes e aí o NEAB começou a ser elo de comunicação entre um campi e outro... tinha aluno que vinha de Niterói para um evento não sei aonde, não é, a gente começou a ver essa mobilidade... Foi muito legal. Foi bem realizador. Foi impactante, estranho, mas foi também muito realizador. P1 - É, eu acompanhei essa sua trajetória, não é, inclusive circuito que você fez em todos os campis... R - Louco... P1 - Que foi uma coisa assim, sensacional. Foi uma revolução, na verdade, não é? É... E eu acho que... É... Isso você poderia começar como uma marca dessa sua trajetória, no Pedro Segundo? R - Eu acho que o circuito foi uma marca, inclusive até internamente, no grupo, ele dividiu o grupo. Porque tinha uma expectativa de que o NEAB começasse... Fizesse um evento pequenininho, trazendo alguém para dar uma palestra. Eu falei: “não, gente, a gente não é um NEAB da UFRJ, a gente é um NEAB de um colégio de Educação Básica. Pode ter mestrado, pode ter graduação, pode ter tudo, mas nosso foco é o aluno de educação básica. Eu quero que a gente comece a trabalhar Fanon a ponto de dar Fanon na educação infantil. Como é que a gente faz isso? Eu não sei, vamos pensar, é esse o nosso trabalho”, eu achava. Então as ideias não eram é... É... Unânimes, obviamente, não é? Em nenhum grupo. Então, a gente teve uma cisão grande ali na elaboração do circuito teve muita, muita discussão e teve uma cisão. O que é um NEAB de educação básica? Eu levei essa discussão inclusive para a associação Brasileira de pesquisadores negros. O nosso foi o primeiro NEAB a estar vinculado ao consórcio de NEAB’s, não é? Então foi o primeiro NEAB de educação básica e teve resistência lá! Como é que não ia ter resistência aqui? Então aquele bando de intelectual negro de pernas cruzadas: “Então porque os NEAB’s eles são núcleos de pesquisa stricto sensu e.... tchu, tchu, tchu...” Não senhor! NEAB’s são núcleos de fortalecimento para que a gente consiga aplicar a lei 10.639. E muito buchicho, e furdúncio, uma loucura. Acaba que a gente conseguiu. Então, já é uma aliança a mais que gente tem e isso fortaleceu muito a gente também. A Nilma ainda era ministra. A Nilma deu muita força pra gente. A Nilma é... é no evento que teve no CEFET falou no CEFET “Olha. Vocês têm vizinho aqui. Vocês precisam se o se se ajudar.” E a gente já tem uma relação muito bacana com o Beto Borges, que na época dirigia o NEAB lá. O nosso, nosso único mestrado em relações raciais é no CEFET. A gente criou aqui cursos de extensão para começar a ver se os professores se interessavam. Tinha um curso, mitologia, Yorubá que está até hoje. Mas não tinha muitos professores, tinha muitos, tinha muitos alunos, dependendo do horário. Mas o forte mesmo eram as prefeituras. A gente tinha aluno da prefeitura de Itaboraí vindo para cá, de Itaipuaçu! E a gente começou “nossa gente precisa se organizar melhor”. Daí que a gente começou a pensar em transformar a extensão EREREBÁ na pós e já tá aí, eu acho que na quarta turma, não é? P1 - Alê, a educação antirracista ela configura se como uma... Como um importante mecanismo para enfrentar o racismo estrutural, a exclusão escolar e o trabalho infantil são problemas crônicos da nossa sociedade. Você vislumbra que o colégio Pedro Segundo, como... Possa se tornar uma instituição propulsora de uma educação antirracista? R - Nossa, é meu sonho porque o Pedro Segundo é modelo. Tem escola que fica esperando o Pedro Segundo fazer alguma coisa para imitar, não é? Então, imagina o Colégio Pedro Segundo pegar uma causa como essas... Eu... e eu provoquei os alunos do ensino médio na época, porque.... Discriminaram um casal de alunos gays e houve o beijato. Mas discriminaram um grupo de meninas negras então teve nada. Eu falei a comoção de vocês é bem seletiva, não é? Será que vocês são racistas? “Que isso, Alê, pelo amor!!!!” Mas é preciso pensar que o racismo ele não é atacar a casca de banana no outro. Então, o racismo ele está muito impregnado. Por que que que você age dessa forma? Já parou para pensar? Já se perguntou? Então eles começaram a pensar sobre isso. Meu sonho é que de repente, alguns professores que têm atitudes racistas repetidas vezes, inclusive, foi o que me causou muito sofrimento na pesquisa doutoral, quando eu comecei a entrevistar os alunos, né que tinham saído, sofreram racismo. Foi, foi... foi muito tocante para mim. Mas que são pessoas de esquerda, são pessoas militantes politizadas. Que estranho, né? Não, não é estranho, é porque o racismo ele é assim, ele não é... O racismo não é só para os ignorantes. Então eu sonho com o Pedro Segundo que agarre isso para trabalhar. Porque o racismo é muito louco, não é? A gente é só as pessoas negras estão combatendo uma coisa que foi criada por gente branca. Como é? Que que que acontece na situação dessa gente vai ficar sempre enxugando gelo. Então, é preciso educar para as relações raciais. Então, quem lida com as relações raciais? Quem vive. Vivendo em sociedade está lidando, então a gente educa crianças negras e não negras o tempo todo. A questão indígena o tempo todo. O apagamento indígena é uma loucura na nossa educação. Então, eu acredito muito no Pedro Segundo se decolonizando a ponto de chegar a ser antirracista, né? Porque os estudos decoloniais estão aí. Na Maré e tal é bonitinho, não é? É... É um engajamento, é militante, é fofo, é bonito. Só que atravessar isso e chegar a ser antirracista é um enfrentamento. Porque é muito enfrentamento, a questão do status, de poder, de hierarquia. E o Pedro, segundo ele é hierárquico, ele é de estamentos, de classe, ele é dividido, não adianta. Então como é que a gente trabalha isso tudo? Vai dar um trabalho danado. P1 - Estrutural, né? R - E muito estrutural, tem muita estrutura microestrutura aqui dentro, coexistindo. Existe uma hierarquia só de técnicos? Os técnicos mais importantes, os técnicos que chegam, as esferas do poder, os técnicos que lidam não sei com o quê... Os técnicos que tem reconhecimento. Professores? A mesma coisa. Então, dentro disso tudo a gente precisa brigar para ter uma educação antirracista. Como, não é? Eu tive uma questão séria lá no Centro com uma professora que dizia estar trabalhando exatamente para antirracismo, sendo racista com vários alunos. E aí, para convencer o professor era difícil porque a professora colocava sempre o doutorado, o pós-doutorado “eu estudei Guerreiro Ramos” e... Meu pai do céu, como é que a gente convence, não é? É muito, muito difícil. O poder está mexendo aí dentro. Mas é meu sonho um Pedro Segundo antirracista racista porque se o Pedro segundo conseguir ser antirracista, a escola da tia Cotinha vai da noite para o dia. P1 - História da educação muda... R - Muda a história, imagina isso, imagina um registro desse em 2158: “então em 2023 o Colégio Pedro Segundo....” Olha... nossa! Vai ter um capítulo inteiro, com certeza. Capítulo inteiro sobre. P1 - Isso. Você falou um pouco aí da invisibilidade das discursividades indígenas. Como que os NEAB’s se tornaram NEABI’s? Como que esse "I" entrou: R - E é um. É uma. Questão delicada, Elô, porque assim, da mesma forma.... Aí é uma postura minha, não estou falando da questão da minha postura da mesma. Da mesma forma que eu acho importante a gente ter pessoas negras representando “quais são suas reivindicações? Qual, quais são suas causas? Como é que você... ?” não é? Então a gente fala como quer ser representado, como nós sentimos o racismo e tal. E a questão indígena, a gente demora a ter esses representantes, então a gente demorou a ter coragem de colocar o “I”. Porque a gente não quer falar pela causa indígena, mas a gente também não quer apagar a causa indígena, então, fica uma discussão. Não, bota, não, não bota... Quem é que sabe? Quem estudou? E não, não tem ninguém para falar sobre isso. Era bem difícil, mas a gente tem a Martinha, que é uma servidora técnica e que tem um conhecimento bem bacana sobre questões indígenas. Ela é também remanescente indígena e deu coragem para gente, inclusive colocar disciplina no Ererebá, não é? De questões indígenas e colocar o izinho também. A Suellen também é uma professora de história nossa, que que lida também com festões indígenas. Bom já só nos sérios, já estamos falando com seriedade. Vamos colocar o “i. Não é? Para não ficar NEABi e cadê que que tem de Indígena? O que vocês estão falando? Então foi uma... foi um avanço. Mas tem ainda muita coisa. Até para a gente aprender também, não? P1 - É, com certeza. É.... a sua pesquisa de doutorado, estudou as trajetórias de estudantes negros em escolas de prestígio e suas estratégias para obter sucesso e dar continuidade aos estudos de instituições de nível superior. Fala um pouco do tema de sua pesquisa relacionando ao Pedro Segundo. R - É, foi uma pesquisa... Eu... Eu tirei o plural, né, ela é em escola de prestígio. Foi só aqui a pesquisa. E foi uma pesquisa longitudinal que foi acompanhar o mesmo grupo, a mesma coorte que entrou em 2005. O edital de 2004 disponibilizou as vagas, o pessoal se inscreve e tal, participa do sorteio 2005, eles começam. Então, foi acompanhando de 2005 até elas concluírem o ensino Médio. P1 - Desde o Pedrinho? R - Desde o Pedrinho. Lá 2005, classe de alfabetização. Houve até aquela... que me confundiu a cabeça toda no meio, a passagem do ensino médio para 6 anos, né? Da, da educação básica para 6 anos. Que a classe de alfabetização começou a ser o primeiro ano. Então, o segundo era terceiro. Terceira, quarta era quinta... que me bagunçou completamente. Eu fiquei quase 8 meses coletando o dado errado. Foi o fim, não é? No final deu tudo certo. Então é... a questão que eu queria, né?, Aí vem a megalomania de quem começa a fazer doutorado. A gente vai mudar o mundo quando essa pesquisa, não é, para começo de conversa... E aí eu queria pegar todos eles. E descobrir onde todos eles estavam, o que todos eles tinham feito? Óbvio.... Que mais de 492 alunos, mas eu juro que eu acreditava que eu. Juro. Então, é... eu peguei esses alunos e acompanhei pelo menos os dados registrados de todos: como entraram, é... boletim, notas, tudo até sair. E o que me ajudou a fazer uma análise, e que é uma questão para a gente discutir internamente, não é, que eu não vejo como a gente chega lá discutindo isso no Pedro Segundo, porque o SESOP, não é SESOP, é SOEP não pratica isso. A gente tem um sistema interno que dá todas as informações para a gente acompanhar como os alunos estão, como as turmas estão, como eles evoluem ou como eles distorcem nota, tudo isso, de um campus para outro. “Nossa, porque que biologia nesse campo só tem notão e no outro campus só tem 4,3,2,1, o que está acontecendo?” E isso a gente não discute. Isso é essencial para a gente discutir para aprimoramento, até porque é uma instituição só e tem que dar oportunidade para quem está em São Cristóvão, para quem está no Centro, têm que ser a mesma. Como a gente não discute, a gente só vai descobrir se a gente analisar. Então, foi o que eu fiz, eu analisei toda essa trajetória com o apoio de uma pesquisa externa que teve em 2005, de 2005 a 2008, que era PUC, UFMG, UFF, se eu não me engano... Várias instituições grandes, potentes fazendo um estudo longitudinal, com uma avaliação que era muito parecida com a provinha Brasil. Então dava para a gente dizer que houve uma proficiência feita, uma prova, não é, um estudo de proficiência, no início, no meio e no final daquele primeiro segmento. No final da pesquisa, eu consegui entender. Os dados da para mostrar para a gente que eles entram muito parecidos, com a proficiência muito próxima. Eles entram mais, é, homogêneos e é a escola que faz com que os grupos se separem. A gente, vai começando a ter alguns que potencializam, que melhoram, não é proficiência em matemática, em português e outros vão caindo ou ficam estagnados. E esses grupos são os grupos não brancos da escola. Então dá para a gente inferir, eu não tive mais tempo de pesquisa, não tinha mais como ir adiante. Dá para a gente inferir que existe uma possibilidade de que alunos não negros sejam mais estimulados que alunos negros dentro da instituição, mesmo tendo o mesmo nível de proficiência. Ou seja, não é uma questão cognitiva, não é aluno pobre, preto, sabe menos. A gente tem um estudo que de sua proficiência. Esse projeto se chama Geres. Então, é... e tem dados aí disponíveis. O problema é que a gente usa pouco, não é, dado quantitativo. E aí ao final, eu fiz as entrevistas, então, para ver não é, “como é que você conseguiu chegar ao final? Como foi essa sua estadia?” E a gente vê o peso maravilhoso que o Pedro Segundo tem, né? Aqui: “a olha era chato, o professor me apelidou de mucama e teve isso, teve aquilo, eu fui assediado, eu sei o quê, mas, pô, mas essa escola, né?” Então quer dizer, todo meu sofrimento não é nada perto da possibilidade de que eu acredito que eu vou conseguir estudando no colégio Pedro Segundo. Então, isso foi quase unânime. Eu só tive 2 casos assim, mais difíceis mesmo que foram... Nossa, não sei como aquelas meninas aguentaram permanecer. Aliás, elas não permaneceram, não é? E... E... foram casos extremos. P1 - Fica aquela mágoa, né? R - Aquela coisa. Fica, é uma questão muito séria. E é....A questão do julgamento, não é? Teve uma pesquisa da universidade de Howard. Howard é uma das universidades de negras, históricas, nos Estados Unidos, maravilhosa... Que saiu aqui no Brasil e teve outras pesquisadoras, como Marina... Marília Pinto de Carvalho, Eliane Cavalheiro, que foram fazer pesquisas para ver: “ué, que estranho, é isso mesmo?” A avaliação leva em consideração a cor. Por exemplo, um aluno branco que questiona muito, e indaga tudo, pergunta tudo: “nossa, que politizado!” Não é? “Olha como ele indaga, olha como participa” um aluno negro com a mesma postura: “ele fica me peitando! Ele fica fazendo isso... ele fica encarando...” Então, é uma outra percepção de postura. E isso tira a possibilidade desse aluno em um conselho de classe, por exemplo, que é um COC, onde tudo é jogado fora e é avaliado empatia... julgam caráter... não sei, porque aquele momento que.... Para dizer “esse aluno eu não dou um décimo!” “Nossa, mais outro que não quis nada, também...” “Não. O outro tem uma postura mais humilde”. Então, é.... é um momento em que a gente precisa ter cuidado porque o racismo opera de uma forma muito contundente nesses momentos decisivos. Até... até mesmo a minha postura, não é? Eu posso dar o meu próprio exemplo: eu sou a negrinha petulante. Por quê? Porque eu sei o que eu posso, eu sei onde eu estou, falo o que eu acho que deve ser dito. “Raio, gente, lá vem ela...” “Por que que você sempre tem que....?” Ué, gene, eu só estou perguntando! Então as minhas perguntas, elas são mais ofensivas. Por quê? Porque eu deveria ser mais humilde. A expectativa é sobre o corpo negro é a humildade, a subserviência... são qualidades esperadas dessas crianças, então por isso elas acabam sendo prejudicadas, porque o próprio colégio dá a elas insumos para que elas sejam críticas. Elas são atrevidas mesmo. Pedro Segundo dá essa potência, o Pedro Segundo, ensina para isso, para mudar o mundo. Mas a gente tem é a questão desse julgamento foi uma pena, assim, eu não conseguir tudo o que eu queria, óbvio que eu queria coisa demais, não é? Com doutorado... e por isso que eu até em outro, estou fazendo agora outro doutorado em psicologia para tentar primeiro acalmar os meus ânimos, né? Com tudo o que eu não consegui e segundo, para ver se a gente tem uma outra forma de perceber o racismo nesses momentos; para ver se a gente consegue agir antes. Porque, por exemplo, hoje eu não saberia... “Ah, vamos, então, Alessandra, já que você percebeu isso, vamos dar um curso, vamos fazer um curso de extensão com esses professores.” Mas, eu vou falar o quê? Eu não sei o que dizer... é... porque, como não agir assim, né? Não sei. Então estou tentando viabilizar um processo antirracista para essas questões que a gente sabe que vão acontecer, sabe onde. O que me angustia é isso, eu sei onde, quando vai rolar um racismo que vai tolher direitos desses alunos, eu só não sei fazer isso me desespera. Me deixa muito enlouquecida. Mas isso é terapia, né? Tenho que fazer terapia. P1 - Bom, Alessandra, você gostaria de citar alguém que tenha sido importante na sua trajetória do Pedro Segundo? Por quê? R - Nossa e eu... Eu tenho medo de esquecer aqueles nomes, assim, mas a primeira pessoa que eu lembro é o Célio generoso, que já faleceu também, que era técnico, homem negro, aqui no Campus Centro. Que ele falou uma coisa assim que eu cheguei que me marcou e eu só fui entender algum tempo depois, porque ele se olhou para mim, com aquele jeitão dele, não é? Ele era muito brincalhão, e ele olhou para mim primeiro dia eu chegando, ele fumando, ele fumava horrores, fumando cigarro, soltou uma pra fora, falou assim: “Negrinha! Olha, se passa a petulância em não fica com esse jeitinho de Neguinho de ONG que isso não vai dar certo aqui dentro! Trata de ser falsa!” E eu ria, adorei, né? E fiquei assim. “Mas, gente, primeiro conselho?” E ele “Primeiro e único!” E é o maior conselho! Então cada confusão que o pessoal sabia que eu tinha arranjado lá vinha ele: “Negrinha de ONG!!” E nossa é muito emocionante para mim, lembrar dele. Porque sempre que eu ficava chateada, eu não precisava falar. Ele aparecia lá e ele “já sei que deu problema”, então era uma pessoa para me ajudar a lidar com as questões, não é? E é a Ana Arnoud do jeitão dela foi muito importante para a gente chegando, porque ela garantiu que a gente conseguisse trabalhar porque tinha uma resistência impensável, né? É, é.... Nosso pessoal ali em São Cristóvão II era muito bacana. P1 - Ana Arnoud era diretora de São Cristóvão II. R - Ana Arnoud era diretoria no tempo que a gente entrou em 2004, se aposentou já há um tempão. A Marise era diretora, acho que era diretora pedagoga, não tinha essa de visão, era diretora, diretora substituta, diretor adjunto, um negócio assim. A Marise de história também foi uma pessoa super querida. Ana, Ana Oliveira, uma professora de história... nossa, apesar de vascaína, muito boa pessoa e fortalecia, assim, nos nossos processos. Vários outros professores foram super parceiros. Eu sei que eu vou esquecer um monte de gente, mas como eu comecei aqui, né? Foi minha célula... Aí a gente tinha um grupo meio subversivo, não é? Que sempre tinha ideia de projetos e tal que era a Paulinha Geografia, a Paulinha de Sociologia é... até o professor Daniel, que eu brincava com ele: “já descobriu que é preto? Então vamos!” Daniel, é, é, é.... Está vendo? Eu sabia que eu esquecer um monte de gente, porque tem mais gente, mas era Ana Arnoud junto que era bem do contra, ela era bem do contra, tudo era do contra, adorava... Tudo era... A gente já fazia esperando... “Vai Ana, fala. Eu sei que você vai dizer, que vai colocar para baixo” E ela falava tudo, mas sempre tinha um projeto muito sério. Ana era muito séria que era o que a gente percebia que faltava um pouco, não é? Não é que falta seriedade dos professores, não, longe disso, a gente tem equipes maravilhosas aqui dentro, mas faltava aquele engajamento para perceber avaliação enquanto processo. Então ela trabalhava desde o início, uma avaliação que dá um trabalho desgraçado, mas que era avaliação formativa. Então, a gente acreditava muito nela. E aí as direções, né? Eu tive umas direções que me salvaram. Tive várias vezes na fogueira, óbvio, porque eu nunca tive muito problema, é de mostrar que eu discordava e já discordei de tudo, o que eu podia e até o que eu não podia, evidentemente. Então eu já tive na fogueira várias vezes, então eu já fui salva por pessoas assim, muito bacanas que... “viu? Alê eles vão acabar contigo, aí. Vem para cá!” Então, Andréia lá do centro foi uma dessas pessoas. E nossa minha equipe do SOEP, a minha última equipe lá no centro também foi magnífica, não é? Eu vim agora, visitei, almocei com eles ontem, cheia de saudade, não é? A gente sempre tinha uma forma muito, muito equipe de resolver as coisas. Aqui em São Cristóvão foi aprendizagem, meu grupinho, que a gente entrou foi realmente essencial. Foi muito aprendizagem junto que a gente teve. Então, Pedro, segundo, é, é o meu laço profissional eterno. Porque eu saí da faculdade e vim para cá, então a minha dissertação é sobre o Pedro Segundo, a minha tese é sobre o Pedro Segundo, a minha forma de entender a pedagogia tem os embates com o Pedro Segundo, para eu poder me fortalecer e assim “eu continuo acreditando nisso, porque eu lembro que o Pedro não fazia assim, assim, assim, eu não gostava e dava errado. Continuo por aqui, então.” Então, até o que não dava certo me ajudou, né? Então, é, é o Pedro Segundo, é muito. Eu é sempre assim ou você é do Pedro Segundo, ou você é ex alguma coisa do Pedro Segundo, não é? É isso, eu lembro de uma, de uma passagem muito emblemática para mim. Eu estava num grupo de terapia coletiva e era o momento de cada um se apresentar, de dizer de onde é. Então começou com uma menina do lado quando eu falei “Ah, meu nome é Alessandra, eu sou pedagoga, eu trabalho no Pedro Segundo...” Eu estava tentando continuar a falar, um senhorzinho começou a se levantar.... Bota a perna para cá, levanta, põe a mão no peito: 3 × 9 27, 3x 7... Pedro Segundo!!! 74 anos de idade. Então, assim, aquela cena fala tudo sobre o Pedro Segundo, sabe? Você pode fazer o que você quiser. Passar, o que for. Ele vai ficar ali de algum jeitinho, não é? É esse jeitinho que ele está aqui comigo. Os embates, as coisas, alianças, é sempre assim. A amiga do Pedro Segundo, Fulano do Pedro Segundo... Tem uma mãe que eu morro de vergonha, que a mãe de um menino que ela disse: “só você que conseguiu dar jeito no meu filho”, não lembro do filho, não lembro da mãe, não lembro de nada. E ela manda sempre para o meu e-mail parabéns, e pararará e que Santa Rita... ela me deu uma estátua de Santa Rita que ela mesma pintou, e foi lindo. E eu peço perdão porque eu não lembro do nome da mãe, nem do aluno, mas é que era aquela situação que disse: “Vou ser mais leve para mim” que vale para ele também. Então o aluno era um filho da mãe, perturbava todo mundo, levava 10.000 advertências. Eu falei, “cara, deixa eu colar contigo, então que realmente esse colégio que faz a gente fazer advertência para caramba, não é? Bora sair daqui, vamos embora andando no pátio”, Ele entendeu nada? Eu estou precisando respirar. Comecei a desabafar também: “Ai, muita coisa para resolver, o problema, não sei o quê...” Conversava todo dia, a gente começou bater papo, aí ele descobriu que eu amava Legião Urbana, né? Que uma vez legião, sempre legião, amava Legião Urbana. Ele “ah! Eu duvido tu saber essa”, eu mandava a letra para ele. Ele “ahhhh...”. Fizemos amizade, não é? Não lembro o nome dele, tadinho do bichinho emagreceu, ficou maravilhoso. Ela disse que ele passou para outro lugar e assim aí fica sempre para ela eu sou Alessandra do SOE, já não era SOE quando eu entrei, mas eu era Alessandra do SOE. Encontro gente em mercado lá na Tijuca, que já me mudei e tal, mas morando na Tijuca: “Alê!” eu “pronto, quem será?”, “eu não sei o que lá do Pedro Segundo”. Tudo tem a ver com alguma coisa do Pedro Segundo, do momento, pessoas que visitaram a escola naquele momento do circuito que falavam “Ah, a menina do negócio de preto lá do Pedro Segundo”. Então é essas questões ficaram assim... Não vão sair, né? Para eu dar aula hoje, eu utilizo os conhecimentos que eu adquiri aqui. Então é uma relação com qualquer outra. Deu muito certo, deu muito errado, deu muito tudo, mas funcionou para formar, né? Tinha que ter isso tudo. P1 - Com certeza... Como que foi essa decisão de sair do Pedro Segundo? R - Eu tomei a sua decisão na primeira briga que eu tive aqui, deve ter sido em 2004 ainda, né? Que eu sou rápida! Então a gente entrou e disseram que a gente não poderia participar do conselho de classe, peguei o edital e tcha, tcha, tcha, tcha.... “Não, porque aqui não tem necessidade dos técnicos participarem também”. “Mas a gente foi concursado para trabalhar exatamente...”, e tanto fez que participou conselho de classe. A gente mudou o conselho de classe, a gente levava os índices que eu falei que são disponíveis no SIAAC, no sistema, levava para discutir. Era chato no início, depois os professores passavam: “E aquela tabelinha que vocês faziam?” Então, ela começou a ser interessante. E a gente usava aquilo para discutir estratégias de grupo, porque a gente era uma equipe. Então, é... Quando as coisas começavam, começaram a dar muito errado e que eu entendi: “Olha, esse colégio é assim. Ele tem cento e tantos anos na época, eu só tinha 27, 28. Falei quem é que vai mudar, né, colega?” Sou eu, então vou mudar. Mentira. Fiquei naquela cachaça dizer que estava horrível e pesquisando colégio e tal, tal, tal, até eu consegui fazer o doutorado que eu dizia: “eu quero dar aula e eu já dei 15 anos, na época eu tinha de magistério na educação básica, já tenho essa experiência, não quero mais. Eu quero agora magistério superior”, falei, mas aí eu tenho que terminar o doutorado. Então eu foquei no projeto do doutorado. Quando eu saí do Doutorado eu já estava com não sei quantas inscrições de concurso aí, a pandemia que atrasou um ano o meu plano, mas eu defendi tese com muita inscrição, já feita. P1 - Mas o objetivo seu no doutorado é no sentido de expandir pesquisas, de trabalhar no ensino superior. É na perspectiva de formar os professores? R - Exatamente. A minha perspectiva é colocar lá dentro da universidade gente que saiba o que é escola. Porque a gente na escola, que é uma coisa que deixa a gente, muito zangada, aqui no Pedro Segundo acontece menos, porque “nós somos”, não é? Então vem estagiário para ficar quietinho observando, não é, então é uma outra coisa. Mas geralmente vão pesquisadores para a escola municipal tal para observar e depois sai um artigo dizendo que está tudo errado, que o professor da aula errado, e a cadeira estava errada, a parede está pintada, está tudo errado naquela escola, mas “obrigada tá, gente! A pesquisa foi ótima”. Tá contribuindo em quê? Que parceria é essa? Eu falei, “Não. A gente precisa de gente que saiba o que é a escola como escola funciona. Então esses meus 22 anos de escola, eu estou levando para formar os alunos passam por mim, então é uma necessidade que eu tenho de falar com ele sobre o que é vivo, não é? A escola não é um quadradinho cheio de ratinho de laboratório que você vai, observa, aponta, e escreve sobre. Você precisa estar lá, você precisa conhecer cotidiano, você vai se formar, você vai trabalhar lá! Então é preciso conhecer isso e também para formar alunos que conheçam a escola e a necessidade de educadores antirracistas. Mesmo que eu não seja concursada, específica de disciplina, de educação das relações raciais, eu sou da área de história da educação. Então eu sempre coloco lá a luta do movimento negro por educação, movimento educador.... movimento negro-educador através da história, sempre colocando coisas para eles entenderem o processo de resistência e como resistência forma a gente, né? Resistência que me formou também. Então é preciso ter esse diálogo com gente que veio mais frescas, não é?, porque geralmente o setor de educação tem uma mentalidade um pouco mais resistente, infelizmente. P1 - Poderia ser o contrário, né? R - Pois é, não é? P1 - Alê, você teria mais algum assunto, alguma coisa de falar sobre o Pedro Segundo, sobre sua trajetória, quê que a gente não tivesse abordado? R - É, eu vou lembrar disso amanhã, com certeza, né? Rapaz, não falei aquilo.... Com certeza. E eu fico triste não ter lembrado o nome de todas as pessoas bacanas que passaram. Amém que eu esqueço o nome de todo mundo que me perturbou, esqueço que eu faço questão de esquecer, né? Que a gente feliz não enche o saco, então você feliz e deixar para lá. Mas é... É... eu acho que é da importância, não é? Aquilo que você falou, assim, “já pensou se se você acha que o Pedro Segundo vai se tornar...?”, eu acho que a importância do Pedro Segundo socialmente é tão, é tão grande, ela... Ele tem um impacto muito grande sobre a vida das pessoas. Um aluno que saiu jubilado logo no quinto ano, ele fala com os olhos cheios d'água por ter sido jubilado do Colégio Pedro Segundo, né? Então, o impacto que ele causa muito grande, então ele precisa pensar em impacto antirracista que vai conseguir fazer isso. É difícil a gente fazer isso... Imagina... Tem um movimento de professores antirracistas na rede municipal de Duque de Caxias. E daí? Aposto que se o Pedro Segundo tivesse saía no RJ TV. Sabe? Então é um outro tipo de relação assim. E aí é importante o Colégio pensar nessa relevância social que ele tem e usar isso... P1 - A favor, né? R - Exatamente. Eu acho que vai, nossa, vou estar já com a minha dentadura substituta vendo isso, mas eu vou ficar super feliz, com certeza. P1 - Alê, me diga 1,2 ou 3 palavras que possam resumir o Pedro Segundo para você. R - Expectativas, busca e raiva. Esse jogo cíclico, né? Se alimentando, cada raiva, você cria novas expectativas, e após você vai... se retroalimentando... E que é uma questão, né? A raiva alimenta também. Não é raiva de querer matar ninguém, não... É a... “Não acredito. Vou fazer de novo”. Isso é a resistência. É muito bacana esse colégio. Ele é bacana, até quando ele é insuportavelmente chato, é bacana demais você. P1 - Bom, terminar hoje, não é, como é que para você foi essa experiência de estar aqui? De bater esse papo aqui com a gente... R - Ah, foi bom! Só faltou salaminho, aquelas coisinhas, né? Da mesinha...

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