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Meu pai me ensinou a rezar

História de: Cacique Alberto (Francisco Alves Teixeira)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/11/2014

Sinopse

Francisco Alves Teixeira ou Cacique Alberto, como prefere ser chamado, nasceu em 20 de agosto de 1948 na Mata Queimada, em Caucaia, região metropolitana de Fortaleza. Casou-se aos treze anos com a índia Tapeba Raimunda, com quem teve 12 filhos. Depois, casou outras duas vezes. Neto do cacique Perna-de-Pau, muito lembrado na memória dos Tapeba, ele recebeu do pai a designação de cacique ainda quando criança, mas que se confirmou quando ele tinha 18 anos. Segundo ele, a luta dos índios passa pela demarcação de 5.000 hectares de terras dentro do município de Caucai. Seu depoimento conta sobre as dificuldades e aprendizados de quem viveu muitas experiências e que hoje tem o dever de ensinar e guiar seu povo frente às demandas da vida moderna. Essa história relata ele fala dos aprendizados que vivenciou para ser um líder para a sua comunidade.

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História completa

Eu me chamo Francisco Alves Teixeira e nasci em 20 de agosto de 1948 na comunidade do Trilho, na Mata Queimada, em Caucaia, região metropolitana de Fortaleza. Eu nasci numa sexta-feira e tinha uma doença. A mamãe achava que eu não ia escapar. Fizeram a promessa e, hoje, me chamam de Francisco. Mas o meu nome era para ser Alberto. Sou cacique Alberto da tribo Tapeba. Eu tenho quatro irmãos: três machos e uma fêmea. Papai era um cacique, o chefe da tribo. Todos andavam no trilho dele. Ele só mostrava um pé. Era só um rastro. Naquele tempo, a organização era melhor do que é hoje. O cacique e o pajé só andavam num rastro, no trilho. Se passavam 50 índios, você só via um pé. A imagem que eu tenho do meu pai e que nunca saiu dos meus olhos, do meu raciocínio, nem da minha cabeça, é de que ele era um homem grande, quase dois metros de altura, um homem muito gentil com todo mundo. Todo final de mês ele estava na casa do povo dele todinho, ensinando coisas, rezando - era um grande rezador. Eu me lembro muito dessas coisas dele. O que ele tinha não era dele, mas do povo. Ele era assim, desse jeito. Era muito unido com os filhos, com as primas, primos, com o sogro e todo esse pessoal.

A nossa casa era uma cabana de palha, com cama de talo, forrada com ramos. Casa, não, uma cabana de palha, que é onde vivíamos debaixo, com toda a família: pai, mãe, os tios, vizinhos, primos, primas, avô, avó. Todos moravam encostados. Era uma comunidade boa. Não tinha desavença, não tinha intriga e todo mundo trabalhava e ia vender juntos. Quando chegava, partia o dinheiro. Um tanto para um, outro tanto para o outro. Desse jeito que convivíamos. Brincávamos o Toré, que são os rituais, com toda a família, com os avós, com todos os primos e toda a família, unida. Eu fui uma criança que não tive adolescência como esse pessoal de hoje em dia. Eu só trabalhava. Eu não tenho vergonha de dizer isso. O meu pai me batia? Não, ele não batia. O que eu quero dizer que eu não tive adolescência é porque eu vivia trabalhando. Com oito anos eu já trabalhava, já ia para a roça. Nunca tive uma adolescência. Eu trabalhei até os meus 12 anos com o meu pai e com 13 eu coloquei uma mulher dentro de casa. E dei conta do recado até os 20 anos. Ela produziu 12 filhos meus. Eu passei 20 anos com outra, que teve dois filhos meus. Ela é viva. E eu mantive a minha vida que Tupã me mandou. Eu estou há oito anos com essa pessoa e é aquela vida de berço: fica quem quer e quem não quer, não pode ficar. Ninguém é obrigado a ninguém.

A ruindade que eu tenho para lhe dizer foi quando eu fui para a escola e o meu cabelo batia na cintura. A Letícia cortou o meu cabelo para eu poder estudar. E, de lá pra cá, eu nunca mais quis saber de estudo na minha vida. Eu fiquei com muita raiva. Eu não quis. O meu cabelo era muito bom e eu não queria que cortassem. E ela cortou. Quer dizer: a discriminação naquela época já era grande demais. Por outro lado, eu achei que eu fui ruim para o meu lado, porque eu não quis estudar. Amei mais o cabelo do que os estudos, mas Tupã me perdoa.

Naquela época, eu me lembro que o meu pai curou uma pessoa. Eu era um menino muito sabido, não saía do pé do meu pai - que Deus o tenha num bom lugar. Eu era um menino muito ativo, só andava mais ele. Chegou uma pessoa lá em casa e pediu para o papai curar uma doença venérea que ele tinha. Ele disse: “Vitor” e eu no pé dele. Na hora do papai almoçar, eu estava colado com ele; se o papai ia mijar, eu ia com ele - eram dois machos, entendeu? Ele chegou e eu ouvi – os meus ouvidos eram abertos. Ele disse: “Vitor, eu vim aqui para tu curar uma doença venérea que eu tenho”. Ele sentou: “Senta aí, Eduardo”. Eu vi quando ele puxou o pênis para o lado de fora, estava inchado, cheio de porqueira em cima. Eu me lembro que eu era um menino, tinha uns dez anos de idade, e ele disse: “Vamos embora para o mato”. Lá, ele tirou os espinhos do cardeiro, tirou a capa de cima, tirou a baba e fez um rolinho e deu para ele tomar a baba do cardeiro. A baba do cardeiro é o xique-xique. Se ele tiver um espinho no pé, ou se quebrou um dente, você passa a baba do cardeiro, e ele coloca para fora. Com três dias, pode estar no pé do osso, ele coloca para fora. Só Deus do céu que bota dedo nisso aí - a baba do cardeiro, do xique-xique. Era uma doença venérea e o papai o curou com o cardeiro - quando urina ele coloca a baba para fora. Sai o líquido todo pelo pênis.

Eu nunca queria rezar na minha vida, mas hoje eu já rezo porque o meu pai disse que, quando eu fosse um cacique - eu tinha dois anos de idade quando ele me disse que eu ia rezar e ia ser um cacique muito forte. Deus me perdoe, mas eu não quis chegar a cacique, mas acabei aceitando. Porque para rezar tem o pajé, mas o cacique também reza. Eu cheguei na idade de rezar. O papai rezava muito: ele rezava no dente, quando ele caía. Assim, não doía mais. Ele passou isso para os filhos.

Papai é quem fazia os partos e eu olhava. Ele nos mandava cobrir a mamãe com a camisa dele. Aí, pegava um talho daquele ali, lascava e cortava. E com a mesma linha, com a mesma palha, tirava e amarrava o umbigo com a cordinha fininha. Assim, quando a mamãe paria, ele me ensinava como cortar o umbigo. Eu aprendi muita coisa com ele. Quando a mamãe acabava de ter o filho, se fosse dentro da água, ele dava uma folha do mangue, passava a menstruação e deixava a menina no pé duma moita e ia pescar. Quando ele vinha de tarde, levava a menina, colocava na maca e ia embora. Quando chegava em casa ele dava a folha da castanhola e a menstruação voltava. Ele me dizia tudo.

Eu fui cacique com dois anos e eu nem sabia ainda. Eu só fui assumir depois que o meu pai morreu, com 84 anos. Eu já tinha uns 17 para 18 anos. Ele me escolheu e disse ao povo, que me aceitou. Eu não sabia, porque ele tinha outra família e os meus outros irmãos por parte de pai.

A tomada das nossas terras foi a pior desonestidade que eu já vi na minha vida, durante esses 66 anos e quatro meses. Com isso, acabou o lago, não tem mais um peixe, não tem mais camarão, não tem mais caranguejo - que é miúdo. Acabou-se tudo. Ficamos com a discriminação, sem terra, sem moradia e sem escola boa. Foi uma vida miserável. Hoje já está melhor porque nós temos acesso e os políticos sabem - a polícia já conhece. Queira ou não queira, ela tem que respeitar a generosidade, porque ela sabe que tem uma lei que nos ampara. Então, eu acho que não é bom como era antigamente, quando éramos libertos - brincávamos, gritávamos, pulávamos, jogávamos. Ninguém mais faz isso. Eu andava nu e a toalha era o vento. Hoje não tem mais isso.

A violência contra o meu povo nasceu através dos posseiros, que eu acabei de lhe dizer nesse instante, matando, batendo para que os índios saíssem de dentro dessa área. A violência começou ao nos colocar para ir embora. Aí começou a violência. Em 2009, enquanto principal liderança da comunidade do Trilho, vivenciei a entrada policiais a mando de oficiais de justiça que derrubaram as nossas casas, na tentativa de expulsar o meu povo Tapeba dessa localidade. Eu vi pessoalmente a polícia batendo nos meus filhos, levando a minha filha presa dando de mamar no peito. Já era quase a mesma coisa: dente por dente, olho por olho. Estávamos morando na ponte e queriam tomar as nossas casas. Levaram a minha filha presa porque eu falei mais alto. Colocaram-na dentro do camburão e a levaram presa dando de mamar a uma criança. Isso foi há uns cinco ou seis anos, mais ou menos.

Eu me lembro de uma reunião muito boa que eu avisei para o meu povo quando eu organizei eles todos. Colocamos numa mesa redonda e conversamos. Esse povo todinho que está hoje aí, que você passou lá na Lagoa I, na Lagoa II. Eu chamei todas as lideranças e colocamos tudo nos eixos. Reuni todos, pois o meu pai mandou que fosse em todas as casas. Quando ele morreu, avisou todos. “Alberto, vá à casa de todos, não deixe uma”. Fui. O meu caminho foi aquele. A minha tendência era aquela e eu avisei todo mundo. Chamei, coloquei num quadro só, e hoje o povo está aí. Eu tinha que dizer porque o cacique era eu mesmo. Eu tinha que chegar e dizer a eles: “Você é índio, você é índio, você é índio e você é índio”. Aí, você diz: “Como é que você sabia?”. Porque eu tinha aquele dote, eu sabia com quem eu estava falando e sabia quem era do meu sangue. Fui e chamei os mais de 5.000 índios.

A luta de hoje é uma luta meio dura. Ninguém tem a lei nem a confiança no político. Ninguém não tem a confiança na justiça. A casa não têm que ter medo do bandido tomar. Então, a coisa hoje se torna muito difícil, porque enquanto não tivermos essa terra e uma justiça boa, a coisa se torna difícil. Eu espero que alguém no Congresso, que toque no seu coração e que assine esse documento para deixar a vida dos índios em paz. Para nos dar uma maior dignidade e ter sossego na vida. Que dê trabalho para nós, porque até a terra ser homologada, ele tem tudo na mão dele. Tem escola, tem comida, tem roupa, tem rede, tem cama. Tem tudo isso. E por que? Porque vai tirar da mãe-terra. Por isso, eu digo que nós queremos ser brasileiros e mostrar que nós somos trabalhadores também.

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