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História

Meu pai foi o cara da minha vida

História de: Rubens da Silva Couto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 14/01/2022

Sinopse

Infância na Comunidade Quilombola do Cercado. Educação. Mudanças e moradia em casas alheias para estudar. Racismo. Dificuldades de morar no quilombo. Formas de subsistência da sua família. Mudança e Trabalho. Retomada aos estudos e formação acadêmica. Casamento, filhos e separação. Trabalho do seu pai à frente da comunidade. Organização da vacinação dos quilombolas contra Covid-19 e retomada das suas origens. Organização da comunidade.

 

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História completa

P/1 - Oi, bom dia. Tudo bem, Rubens?

 

R - Bom dia, tudo bem.

 

P/1 -  A gente vai começar a entrevista, fica tranquilo, tá bom? E fazer umas perguntas basiquinhas no começo, para a gente dar uma esquentada. Então, gostaria que você me dissesse o seu nome completo, sua data de nascimento e o lugar onde você nasceu.

 

R - Certo. Então, me chamo Rubens da Silva Couto. Nasci no ano de 1982, no dia oito de janeiro, aqui no município de Paracatu, Minas Gerais. 

 

P/1 - Muito bem. Qual o nome dos seus pais, Rubens? 

 

R -  O meu pai é falecido. Joaquim da Silva Couto. Minha mãe, também falecida, Angélica Borges Couto. 

 

P/1 - Sim. Eles nasceram aqui em Minas mesmo? 

 

R -  O meu pai sim, é daqui de Minas. A minha mãe, não. 

 

P/1 - Sim. Você sabe de onde sua mãe veio, onde ela nasceu? 

 

R - A minha mãe nasceu em Brasília. 

 

P/1 - Ah, legal. Você sabe como eles se conheceram? Você sabe alguma história deles assim? Você conta pra mim, por favor? 

 

R - Sim, sei. Então, a história… Como meu pai conheceu minha mãe se deu da seguinte maneira: meu pai é quilombola da comunidade Cercado, fazenda Cercado e quando... Assim a vida lá é muito difícil e tal e tinha um fazendeiro lá na região, não sei se era confrontante das nossas terras ou se comprou parte das terras, mas determinado momento, ele chegou até o meu avô, pai do meu pai, vendo que ele tinha muitos filhos e tinha uma certa dificuldade em criar todos, ele pediu para o meu avô que desse para ele uma criança para ajudar ele, pra ele criar, né? E aí o meu avô se prontificou em dar meu pai para esse fazendeiro. Como que foi isso? Meu avô tinha muitos filhos, e o fazendeiro pediu para escolher um. Entre todos esses filhos, só tinha uma menina mulher, mas ele não se interessou em levar essa menina mulher. Meu avô acho que especificou para ele que a menina não, mas dos outros qualquer um fosse. Então, ele pediu que colocasse as crianças em fila para ele escolher um… Disse que meu pai tava não sei em que posição, mas ele olhou e falou: “Eu quero aquele menorzinho lá, da perninha torta.” Meu pai tinha as pernas bem tortas. E assim meu pai veio para cidade para morar na casa de fazendeiro. Aí meu pai estudou e trabalhou aqui em uma fábrica de medicamentos fitoterápicos. Ele aprendeu a fazer medicamentos e tal. Estudou até a quarta série. Através disso, ele morando na casa desse fazendeiro, ele ficou conhecendo a minha mãe, que tinha um certo parentesco longe com esse fazendeiro, mas era amigo também. Frequentava a casa desse fazendeiro, ele ficou conhecendo a minha mãe. Mas não foi por aí que ele se casou com a minha mãe. Quando adulto, ele voltou pra fazenda desse criador dele. Ele já tinha ajudado a criar os filhos, os filhos do fazendeiro já estavam maiorzinhos, não precisava mais ajuda do meu pai dentro de casa. Meu pai voltou para a roça, para trabalhar de vaqueiro na fazenda desse fazendeiro que criou ele. Lá na nossa região mesmo. Lá ele se casou com uma mulher da comunidade, uma quilombola também. Com ela, teve seis filhos. Aí, ele ficou viúvo dela, mas ainda tinha o vínculo com esse fazendeiro, ainda trabalhava com eles lá. Após ele ter ficado viúvo da primeira esposa, ele veio a casar com a minha mãe. Com a minha mãe, teve dois filhos: Eu sou o mais velho e tem outra irmã. Somos um casal. Através desse casamento, levou a minha mãe para conviver na roça lá com ele. Em determinado tempo, a minha mãe teve um AVC e adquiriu uma paralisia. Depois ela teve uma outra crise, repetiu esse AVC e faleceu. Ainda era pequeno, três anos de idade. A minha irmã tinha um ano de idade nessa ocasião. Meu pai criou a gente na roça até um certo ponto. Aí, teve a interferência da família da minha mãe para tomar a gente do meu pai, para trazer para cidade, porque eles não viam meu pai com condições de criar, de educar, de dar a gente um meio de sobrevivência. Mas meu pai resistiu toda luta deles. Eu recordo que tivemos aqui no fórum. Tem uma tia minha aqui, casada com um japonês e ela não tinha filhos, inclusive não teve filhos, ela queria de toda maneira tomar eu e minha irmã do meu pai e isso foi uma briga que veio parar na Justiça. 

 

P/1 - Nossa!

 

R - A Justiça concedeu ao meu pai o direito de criar os filhos, né? Porque o meu pai era negro e eles são muito brancos. 

 

P/1 - A família da sua mãe. Essa família. Ah, entendi. 

 

R - São brancos e não aceitavam esse casamento. Desde quando meu pai casou com a minha mãe eles eram contra esse casamento, não aceitavam. A princípio, eles não aceitavam nem namoro, isso foi o que meu pai relatou. E eu vi isso depois que eu nasci, essa resistência da família da minha mãe em não aceitar o meu pai na família como negro. Isso teve vários episódios no decorrer da vida, que falo depois. Mas enfim, fomos criados pelo meu pai até um certo ponto. Quando eu precisei estudar, lá na roça não tinha uma escola adequada perto de casa, era muito difícil naquela ocasião. Meu pai, sem condições de me subsidiar lá na roça também. Ele, em contato com uma senhora que era irmã de igreja dele, ela também não tinha filhos, morava só, o meu pai me deu pra essa senhora, pra mim fazer companhia, morar com ela, e aí eu vim para cidade. Ele ficou lá na roça com os outros filhos maiores, né? A gente pequeno... Era meio difícil para mim.

 

P/1 - Você tinha quantos anos, Rubens, você lembra?

 

R - Eu vim para cidade com 4 anos de idade, para ficar na casa de uma senhora aqui e começar a estudar. Lá na roça, meu pai sem esposa, os outros filhos já maiores, foi mais fácil criar. O caçula do primeiro casamento dele foi morar com a nossa avó, mãe do meu pai. Os outros maiorzinhos ele foi “espinicando” menino para casa de um e outro. A penúltima do primeiro casamento dele também veio para cidade, pra morar na casa de familiares desse fazendeiro que criou ele. Foi um período difícil que ele passou, viúvo de dois casamentos. Através daí, eu vim para cidade, comecei estudar. Essa senhora me colocou na escola. Eu estudei aqui o prezinho, a primeira e a segunda séries. Mas eu era muito custoso, ficava muito na rua, ia jogar bola, brincar na rua e essa senhora tinha muita preocupação de que pudesse acontecer alguma coisa comigo. 

 

P/1 - Aí era só você e ela na casa, Rubens? 

 

R -  Era só eu e ela. Porque ela tinha um filho só, esse filho se casou, mudou e ela ficou sozinha, e eu fazia companhia. Mas aí ela foi tendo uma certa preocupação com o meu comportamento e quis me devolver pro meu pai. Foi onde o meu pai me apanhou de novo, me retirou da casa dela. Eu já estava cursando a 3ª série e voltei para a roça. Aí, lá na roça eu me adaptei mais. O meu irmão caçula do primeiro casamento, que morava na casa da avó dele, já tinha aprendido a cuidar da casa, fazer almoço. E pai tinha trago ele para morar junto. Não me recordo se tavam as duas irmãs minha também morando ou se tinha uma só delas, mas tinha uma…

 

P/1 -  Que são essas duas daquele primeiro casamento que ele teve, que já eram bem mais velhas que você, já eram adultas. 

 

R - Eram adolescentes ainda naquela época. E aí, o pai buscou os filhos de novo e a gente revezava as atividades de casa. Buscava água num córrego que passava lá, apanhava lenha, cuidava da casa, né? E o pai trabalhava na roça, cuidando…

 

P/1 - É isso até que eu ia perguntar. Seu pai trabalha com roça do quê?

 

R - No primeiro momento, ele era vaqueiro pra esse fazendeiro lá. Depois, ele largou de trabalhar de vaqueiro e foi cuidar da parte da terra dele. Fez no enxadão, fez mutirão, troca de dias de trabalho com uma vizinhança, com os outros familiares, conhecidos. Aí a gente ajudava desde pequeno. Tinha que ajudar a plantar, ajudar a colher…

 

P/1 - Ah, vocês ajudavam também na roça? Achei que era só na casa. Vocês ajudavam em casa e também ajudavam na roça.

 

R - Sim. Ajudava na roça também. Na época, tinha muito pássaro, então a pequena lavoura que ele plantava, a gente tinha que vigiar, levantar muito cedo para tá vigiando os passarinhos nessa roça, para não deixar pássaro comer. Quando plantava, iam os passarinhos, pegavam a semente no chão e a gente tinha que vigiar para que os pássaros não comessem… Aí, quando começava a germinar, a gente tinha que estar vigiando pra pássaro não arrancar os brotos… Quando brotava. 

 

P/2 - Nessa época você ainda estudava? 

 

R - Então, estudava, porque lá já tinha a escolinha. Eu voltei, comecei a estudar lá, dar sequência. Eu reprovei no terceiro ano aqui da cidade porque tava muito levado, e eu voltei a repetir o terceiro ano lá na roça. Então, quando não estava estudando, período de férias, tava cuidando de lavoura ou quando chegava da escola também tinha que ir para essas atividades da roça, ajudar. Lá meu pai plantava amendoim, arroz, mandioca,milho… Plantava muita coisa pra nossa sobrevivência. E tinha plantio de manga, o quintal era muito bem plantado. Tinha laranja, plantio de banana, tinha basicamente de tudo. Plantava horta…

 

P/1 -  E vocês viviam desse plantio. O que vocês comiam, se sustentavam, era a partir do que a terra dava?  

 

R - Era a partir disso, do que a terra dava. O meu pai criava porco também, gado. Então, a gente tinha muita coisa, muita fartura lá na roça. O que não produzia lá, ele vinha na cidade e comprava. Às vezes trabalhava, vendia uma vaca, um bezerro, um boi pra fazendeiro. Era assim que surgia o dinheiro. Porque não tinha outra renda. Ou, às vezes, trocavam mercadorias com os vizinhos. Tinha lá café e não tinha rapadura, que usava para adoçar, açúcar a gente quase não via lá na região, isso era raro, então trocava as mercadorias e a gente sobrevivia muito bem. Não faltava nada.  

 

P/1 - Então, a gente tava falando da instituição, da educação. Você tava contando que voltou lá para a roça, tinha repetido o terceiro ano e você deu continuidade. Como é que foi essa questão da educação?

 

R - Então, eu dei continuidade. Lá só tinha até a quarta série. Então, lá estudei até a quarta série. Quando eu passei para o 5º ano, o meu pai me trouxe e me deixou na casa de uma irmã da minha avó aqui na cidade, pra que eu desse continuidade aos estudos. Aqui estudei a quinta e a sexta série. Fui custoso demais também. A quinta, eu reprovei. Na sexta série, comecei a matar aula demais. Não ia pra escola, ia descobrir as tecnologias, ia jogar videogame. Na época descobri isso, para mim era uma coisa fantástica, era uma descoberta. Aí eu consegui matar 30 dias de aula consecutivos. 

 

P/1 - Nossa! E aí, como é que foi isso?

 

R - Eu tinha uma professora de português, que na casa dela trabalhava uma parente minha e eu não sabia desse detalhe. Eu era muito inteligente na escola, me saía super bem nas matérias. Aí, num determinado dia, a professora de português, comentando lá na casa dela com a empregada, que tinha um aluno que na escola colocava a carteirinha, pulava a janela e ia embora. Matava aula, não assistia às aulas. Quando falou do aluno, quem que era, falou para uma prima minha, que é prima mais distante. Ela falou: “Uai, esse menino é primo meu. Eu conheço ele.” E aqui, eu ficava na responsabilidade de dois irmãos. Meu pai alugou uma casa nessa ocasião. Os meus irmãos trabalhavam, ajudavam a pagar esse aluguel e eu ficava nessa casa.  Um dos meus irmãos era casado, morava minha cunhada, eu e mais dois irmãos. Enfim, minha prima falou para os meus irmãos, meu irmão falou para o meu pai e meu pai, sabendo disso, falou: “Olha, vou te levar para roça de novo porque lá junto comigo a história é diferente. Lá você estuda, lá você tem que ser obediente.” E assim fez comigo, me levou para roça novamente. Só que o que acontece?  Lá na roça, essa escola que eu estudei até o quarto ano, não prosseguiu com os demais anos, parou no quarto. Nessa ocasião, tinha surgido aquela escola Polo, a cada ano inseria uma série a mais. Numa região próxima entre Ribeiros tinha a escola que já tinha quinto ano; eu já tava no 6º. Então, nesse ano que o meu pai me levou pra roça, eu perdi o ano letivo porque lá não tinha sexta série. Eu já tava cursando a sexta série, aí eu fiquei esse ano esperando… Acho que foi por volta do mês de agosto, por aí que eu perdi o ano aqui. Eu saí aqui do 6º ano, fui para roça novamente com meu pai. Enquanto eu não estava estudando, meu pai arrumou um serviço para mim. Eu tinha 13 anos de idade. Tinha um ônibus que fazia a linha rural lá, trazia o pessoal para cidade, e eles precisavam de um cobrador, e o meu pai arrumou para mim trabalhar de cobrador nesse ônibus e eu fui. Ali era um serviço muito pesado, eu lembro que foi o primeiro emprego meu, o primeiro serviço que eu fui remunerado. E aí, trabalhei até o mês de janeiro; era período de férias ainda do ano seguinte. Entrei no mês de novembro, dezembro, não me recordo bem, mas eu trabalhei três meses de cobrador. No ano seguinte, eu retornei para escola. Um período muito difícil para mim estudar, que era muito distante a escola. A prefeitura disponibilizava um ônibus que levava os alunos de toda região para essa escola do Entre Ribeiros. Precisava pegar esse ônibus 4 horas da manhã. O ônibus fazia um percurso muito longo até chegar na escola, pegando crianças de várias regiões. A gente começava a estudar às 8 horas da manhã. Chegava na escola por volta de sete e meia, tinha um lanchezinho. E lá eu estudei a 6° série. Quando eu estava na sétima série, tive um probleminha de saúde, precisei vir para cidade para tratar. Perdi alguns dias de aula. Foi quando retornaram as aulas do meio do ano, no mês de agosto. Na oportunidade, participei da exposição aqui. Tive que vir tratar, mas não era nada que me impedisse de ir na festa. Fui na festa de exposição. Cheguei na escola com um atestado, contando que eu tinha participado da festa, mas eu já tinha copiado toda matéria que eu perdi. Mas uma determinada professora de inglês, me viu contando da exposição e não concordou. Eu estava com a matéria copiada, cheguei até a professora dentro da sala e falei: “Professora, preciso que me explica a matéria porque vai ter prova e eu não consegui entender.” Ela virou pra mim assim: “Não sou obrigada a repetir matéria para você. Você perdeu a aula, foi para cidade festejar e eu não vou parar matéria dos outros alunos para voltar atrás para te explicar, não.” Como assim? Só que eu era muito custoso na sala, ela assimilou tudo isso, que eu era muito atentado e não quis me repetir a matéria. Eu acabei xingando essa professora dentro da sala, alterei com ela...

 

P/1 - Aí você tava contando da história da professora que ela falou que não queria, você xingou ela e aí?

 

R - Xinguei ela e tal. Falei para ela: “Olha, professora, eu vou abandonar a escola para mim não te ver mais nunca.” Porque ela me falou algumas coisas, eu xinguei ela... A gente entrou em uma discussão, e assim eu abandonei, saí da sala. “Eu vou deixar de estudar porque eu não quero nem ver sua cara mais.”

 

P/1 -  Que idade você tinha nisso, Rubens? Você lembra, mais ou menos? 

 

R - 17 anos.

 

P/1 - Ah, já era mocinho. Sei. 

 

R - Eu já tava com 17 anos, Nisso, eu já estava cursando a oitava série. E aí abandonei a escola e fui trabalhar…  Eu já tinha uma certa dificuldade porque o meu pai não tinha condições de me subsidiar uma vestimenta. O que eu usava era ganhado, porque minhas irmãs trabalhavam na cidade em casa de família e o que elas ganhavam de roupa usada das pessoas, dos patrões, elas levavam para roça e eu aproveitava. Mas aí eu comecei a vaidade, né? Rapaz com 17 anos, queria namorar, queria andar bem vestido, então eu já carregava essa vontade de trabalhar e a escola acabava me atrapalhando um pouco. Porque eu trabalhava só no período de férias para ter um salariozinho, porque lá na roça já não se produzia mais. Meu pai já não tinha mais condições de produzir. Aproveitei esse gatilho aí que tive problema com a professora, abandonei e fui trabalhar numa carvoaria na vizinhança. Por lá fiquei um tempo, acabou o serviço lá. A madeira que cortava era Pinus, a área foi invadida por uns sem-terra e o INCRA regularizou, loteou esse terreno e a gente saiu. Esse pessoal saiu com essa carvoaria e foi para outra região e eu fui também. Trabalhei até um determinado tempo, tive um acidente de trabalho e cortei um pedaço de uma ponta do dedo. Quando retornei, tava me limitando muito. Eu me recuperei, mas ficou muito sensível esse dedo e eu dependia dele. Toda hora tava machucando. Eu fui, resolvi largar esse serviço na carvoaria e fui trabalhar por ali. Trabalhei em colheita de abacaxi, colheita de café….

 

P/1 - Ah, você continuou lá e trabalhando sempre lá. 

 

R -  Na roça? Não. Aí eu vim pra cidade. Aqui, eu fichei minha carteira no condomínio dos Produtores Rurais na Entre Ribeiro. Fui trabalhar em safra. Era um contrato periódico. Venceu o contrato, a gente entrava em outro trabalho e por aí vai… Eu comecei a namorar e morava aqui na cidade, junto com meus irmãos. A gente dividia as tarefas. Algumas, era minha irmã que fazia, por exemplo lavar minha roupa. Ela reclamava muito disso “que roupa suja!”, que eu trabalhava em roça e eu chegava, ia sair, vestir uma roupa, daqui a pouco, já vestia outra, e a gente tinha um conflito por causa disso. E eu namorando, contava isso pra namorada. Ela era mais velha que eu, já tinha sido casada, tinha uma filha e aí ela: “Vamos casar. Vamos arrumar uma casa para gente. Aí, você se livra dessa situação. Eu cuido de suas coisas tudo direitinho, suas roupas, cuido de você e você sai dessa vida com seus irmãos. Ao invés de você dividir aluguel com eles, eu trabalho, você trabalha e a gente paga aluguel.” E assim eu fiz. 

 

P/1 - Isso você já tinha que idade?

 

R - Eu tinha 19 anos, por aí. Tudo isso surgiu na mesma ocasião que ela engravidou e fez essa proposta. Eu achei que seria uma responsabilidade minha de assumir uma família, à partir do momento que ela tinha engravidado, eu devia ser responsável por criar o filho e assumir ela também. E assim eu fiz ainda muito novo. A gente alugou casa, comprou algumas coisinhas, ganhou outras.

 

P/1 - Isso na cidade, continuava por aqui mesmo.

 

R - Aqui na cidade. A partir daí, eu não voltei mais pra roça. E a gente alugou uma casa aqui e ela gestante. Na verdade, a casa aluguei depois que a minha filha nasceu, porque num primeiro momento a gente ficou com medo de alugar uma casa. Eu resisti um pouco. Falei: “Como que eu vou alugar a casa? Eu não tenho um trabalho fixo, eu trabalho safra, chega num período que às vezes eu fico desempregado, como que a gente vai fazer?” Aí, a mãe dela cedeu um cômodo nos fundos da casa para gente morar, até que minha filha nasceu, a gente morou lá nos fundos. Aí lá dividia as contas da casa, as despesas da casa. Porém, chegou um determinado momento que isso não foi dando mais certo de eu morar junto com a sogra, com as cunhadas, com a família e eu fui querendo meu espaço, né? E aí a gente alugou uma casa. Ficamos morando de aluguel um determinado tempo. Mas tinha um conflito entre nós, ela com diferença de idade maior e ela achava que isso poderia ser uma brecha para que eu fosse querer arrumar uma menina mais nova e não sei o quê. A gente sempre tinha conflito com isso. Ela já tinha tido casamento conturbado no passado e via em mim uma possibilidade dela ter o novo conflito no casamento de novo. Ela acabava criando situações e a gente brigava. Um determinado tempo, eu surtei com essas discórdias e abandonei a casa e saí. Fui trabalhar de novo em roça. 

 

P/1 -  Aí você voltou para a roça depois disso. Entendi. 

 

R - Voltei pra roça de novo, trabalhar em roça e larguei ela. Fui pagar pensão pra minha filha e a gente se separou. Depois, saí dum serviço na roça, vim para cidade. Tirei carteira de habilitação e fui trabalhar aqui como entregador de motocicleta. Entregador de gás, trabalhei entregando cerveja. A partir daí nunca mais parei nesse serviço aqui na cidade, não voltei para roça, direto pra roça. Em determinado tempo, surgiu uma oportunidade para trabalhar prestando serviço pra Cemig, a companhia energética aqui de Minas. Fazer leitura de medidores de energia na zona rural. E aí, entrei nessa empresa e fiquei uns 10 anos.

 

P/1 - Quando você entrou você tava mais ou menos que idade?

 

R - Eu estava com uns 22 anos, por aí. 23 anos, mais ou menos, nessa data. Não me recordo.

 

P/1 - Sim, mas mais ou menos. E aí você ficou 10 anos trabalhando pra Cemig. 

 

R - Sim. Fiquei 10 anos prestando serviço pra Cemig. Trabalhei em diversas áreas: fazendo leitura, com corte e ligação, na manutenção de rede, construção e manutenção. Quando resolvi largar esse trabalho, tinha voltado novamente para o serviço de leitura rural. O serviço de leitura é bem complexo porque a gente anda demais. Então eu andei muito aqui no município de Paracatu, quase o Noroeste de Minas todo. Grande parte do Noroeste de Minas, eu conheço. Trabalhei em Uberlândia também, na parte lá do triângulo. Aí saí desse serviço, resolvi trocar minha habilitação pra carteira profissional. Troquei de categoria e fui trabalhar de caminhão. Trabalhei na usina de caminhão e, da usina, fui trabalhar numa mineradora que tem aqui, é uma mineradora que trabalha com mineração subterrânea. Trabalhei lá um determinado tempo, aí trabalhei com um caminhão fora de estrada lá. Fiquei lá por um período de quase três anos anos, aí saí de lá, voltei trabalhar com caminhão. Entrei numa terceirizada daqui da Kinross e, trabalhando nessa terceirizada, deixei um currículo na empresa Kinross. Num período de 4 meses que eu trabalhava nessa empreiteira lá, a Kinross me contratou e estou até hoje. Nesse período que eu prestava serviço para Cemig, tem um período que saí de uma empreiteira de leitura e fui trabalhar em uma que fazia corte e religação, lá em Brasilândia de Minas. E, nessa ida minha pra Brasilândia de Minas, conheci uma pessoa e comecei a namorar. Desse namoro, surgiu o casamento. Eu saí dessa empreiteira. Ela perdeu o contrato com a Cemig aqui, mas ela é de Uberlândia. Quando ela perdeu esse contrato, ela tinha algum serviço aqui em Paracatu ainda para terminar. Aí, entrou uma outra empresa para prestar o serviço lá em Brasilândia, eu até passei para a empresa, mas não me adequei e pedi pra sair, para retornar pra outra empresa que trabalhava antes, porque ela ainda prestava o serviço aqui em Paracatu. 

 

P/2 - Antes da gente chegar em Brasilândia, você falou que trabalhou na Cemig na parte rural, certo? E aí nesse período você falou que foi muito difícil. Você criou alguns vínculos? Quais eram essas dificuldades?

 

R - As dificuldades era mesmo a logística, sabe? E sobrevivência também, porque eu saí de casa muito cedo e na zona rural não tinha lugar certo para mim fazer uma refeição, fazer um lanche, então, eu andava sabendo aonde eu ia chegar para fazer o trabalho, mas aonde eu ia achar o que comer ou beber, talvez, eu não tinha certeza disso. Era pela solidariedade mesmo dos moradores. Manutenção, eu ia de motocicleta, então a manutenção era difícil. Às vezes, furava um pneu, eu tinha que me virar para remendar. Mas até que eu consegui me adaptar a esse trabalho, criar meus próprios mecanismos para me virar, sair de uma situação de emergência,  isso foi um sofrimento. Foi um período que eu precisei ir me adequando, mas com o tempo de trabalho isso foi tranquilo. Tinha animal que corria atrás da gente -  vaca, cachorro. A gente recebia algumas abordagens do cliente também, às vezes, com bastante estupidez, nervoso porque a conta tava cara ou isso ou aquilo. A gente sozinho lá pro mato, já recebi ameaças, já tive fazendeiro que me encantou num canto da estrada com arma, me ameaçou. Já foi confundido com bandido, com ladrão. O cara passou um período lá que entrou ladrão na fazenda dele, rendeu eles lá com arma e tudo e o cara ficou traumatizado com isso; eu cheguei na fazenda e adentrei para chegar até o padrão, ele me cercou de carro, sacou a arma e enfiou em mim querendo saber quem era eu, que que eu estava fazendo lá, porque eu não sei o que estava chegando. Era uma fazenda que tinha um portão eletrônico. Eu chamei no interfone, um funcionário me atendeu, abriu o portão, eu entrei e ele veio para cima de mim. Ele não sabia do que tinha acontecido, de que forma que eu entrei. Ele me abordou lá. Então assim, passei por diversas situações. Acidentes, me machuquei, muitas coisas aconteceram, mas enfim era um serviço que eu me identifiquei, eu gostava muito. Eu saí mesmo num determinado momento que não deu mais. A empresa mudou um pouco a direção e a direção entrou com outra política de trabalho e criou uma situação que não me atendia. A gente resolveu cancelar esse vínculo. E a partir daí, eu não voltei mais pra esse trabalho, resolvi procurar outras profissões.

 

P/2 - Nessa mesma época, como é que você fazia para se alimentar, já que você só ficava na estrada? 

 

R - É o seguinte: eu já conhecia… A partir de um ano de trabalho, comecei a conhecer os moradores, então na zona rural ainda.. E em todos os lugares tem muitas pessoas boas ainda. Cada região tinha uma particularidade. Tinha pessoas que já me deixavam bem à vontade: “quando você vier fazer a leitura para cá, para essa região, você pode vir almoçar aqui com a gente”. Então, eu programava minha rota para que naquele determinado horário mais ou menos eu chegasse naquela fazenda e almoçar. Aonde eu não tinha esse recurso, eu levava um pacote de bolacha, eu levava um pão com salame, alguma coisa do tipo. Teve uma ocasião que eu comprei marmita térmica para carregar minha comida; mas isso não deu certo. A comida perdia, ia batendo na garupa da moto, virava uma coisa irreconhecível, não dava para comer. Mas, sobrevivia dessa maneira. Época de manga, chupava. Época de goiaba, comia goiaba, lá pro mato tinha muita…

 

P/1 -  Aí você pegava no próprio mato e comia ela colhida do pé.

 

R - Às vezes, articum. O que achava no mato. Tem guariroba, uma frutinha. No tempo das frutas, eu passava muito bem. Caju, tudo que a gente achava... A gente ia em muita fazenda que estava desabitada, mas tinha lá um quintal, uma plantação, a gente pegava e comia. A gente se virava.

 

P/1 - Muito bem. Aí a gente vai voltar sobre essa questão da vida adulta, mas a gente gostaria de fazer umas perguntas sobre a sua infância. Fazer um retorno lá na infância. Você tinha uma pergunta específica, a Márcia vai te fazer uma pergunta.

 

P/3 -  Primeiro você falou bastante da escola, que você conseguia ir bem na escola, mas ao mesmo tempo você era custoso. Você tem alguma história, alguma cena que você lembra bem pra gente entender bem como é que você fazia, brincava, enfim? As artes que você fazia…

 

R - Tem uma bastante interessante. Eu tive um problema com essa arte que eu fiz. Eu, lá nessa escola que a gente saía de madrugada, tinha todo o cansaço, então a gente tinha que descontrair bastante para não sentir tanto o desgaste. A gente acabava driblando com as aventuras que a gente aprontava. A gente tinha uma professora de matemática muito rígida. Muito boa professora, mas muito rigorosa. Ela não aceitava nenhuma bagunça na sala. E, normalmente, quando a pessoa é assim, os alunos têm uma certa rejeição pelo professor. Então, todos os alunos tinham uma rejeição por essa professora. Lá, os espaços que eram feitos de sala de aula eram um barracão, outra série estudava dentro da igreja. Nossa sala era dentro da igreja. E a gente já combinava de fazer alguma arte quando essa professora vinha, quando era o horário dela. Tinha uma caixa de marimbondo lá em cima do telhado e eu jogava bola de papel e assanhava esses marimbondos. Era jogar uma coisa nele e eles baixavam, vinham cá no chão. Aí, a gente combinou um dia. “Rubens, você tem coragem?” “Tenho sim.”  Fiz uma bola de papel. Quando a professora chegou dentro da sala, colocou o material dela na mesa e começou a dar aula, eu joguei o papel, acertei em cheio a casa de marimbondo. Os marimbondos desceram e os alunos correram tudo para fora, gritando. Eu fui pra sair, a professora veio em mim, me catou pela camisa, me segurou. Ela ia me dar pancada mesmo, acho que ela ia me bater, aí eu tentei fugir dela, mas ela tinha me segurado bem. Eu saí arrastando ela e ela era bem fortinha, aí eu falei: “Ela vai me machucar.” Ela não ia me soltar. Eu peguei uma cadeira, uma mesa que tava na minha frente, puxei a mesa e joguei entre eu e ela. E eu puxando para frente. Ela não teve outra saída a não ser me soltar, porque ela embaraçou na mesa e ela ia cair. Ela soltou, mas falou assim: “Olha, você não assiste mais às minhas aulas enquanto seu pai não comparecer aqui na escola pra gente ter uma conversa. Você tá expulso” e me mandou pra diretoria. Meu pai era muito rígido. Eu, com medo dele ir na escola e isso dar um problema para mim, virei pra ela e disse: “Eu não tenho pai.” “Nenhum responsável por você?” “Não, eu sou sozinho. Fico na casa de um e outro, eu não tenho pai. Não tem ninguém que cuide de mim.” E continuei estudando normal, não me barraram de entrar na sala. Eu... Aí tinha dado ruim para mim, né? Eu peguei e baixei um pouco as proezas. (risos)

 

P/1 - Além dessas proezas que você tava contando agora, teve um momento que você falou que apareceu a vida eletrônica do videogame, que era uma coisa que te interessava. Aí é uma coisa que a gente queria saber um pouco mais também, quais eram as brincadeiras, além dessas proezas que você tinha nessa época, que você lembra. 

 

R - Sim. Nesse período dessa proeza na escola, eu já era maiorzinho. Já não estava aqui na cidade, tinha voltado para roça. Esse período do videogame e tudo foi no meu quinto ano,  foi quando eu vim estudar a quinta série aqui na cidade. Tinha um primo que tinha um Super Nintendo, a gente jogava Super Mario, tinha um joguinho de futebol, Street Fighter, eram alguns jogos desse tipo que eu jogava. Os videogames, colocavam lá na televisão e o joguinho, a gente locava ali por hora. Pagava tantos centavos ali, tantos reais, na época, para ficar uma hora ou meia hora. Era como as lan houses hoje, que você paga pra utilizar um computador em um determinado tempo, né? Funcionava desse jeito. Então o joguinho mais gostava era o Mortal Kombat, esse era meu meu favorito, que hoje eu esqueço, até já esqueci o nome dos personagens porque aí eu fui para a roça de novo e perdi o acesso a essas coisas, essas tecnologias. Fui trabalhar depois e ver as responsabilidades de adulto, não brinquei mais desse tipo. 

 

P/1 - Mas você contou até que depois, quando você tinha 17 anos, logo em seguida dessa época, você queria estar bonitinho, arrumadinho, queria roupas diferentes e tal. Como foi esse período?

 

R - Então, esse período foi logo depois dessas proezas minhas na escola, né? E uma das professoras veio me elogiar, falou: “Rubens, você é um rapaz bonito, cara.  Você tem uma cor muito bonita, uma pele muito bonita. Você é um menino muito inteligente”. Ela fez esse elogio perto de umas meninas. As meninas olharam: “Olha!” Então, ela encheu minha bola e aquilo despertou um certo interesse na escola. Aí, eu comecei a namorar as meninas na escola e eu me senti na necessidade de estar mais bem apresentado, mais bem vestido. E poxa, como é que eu faço? A escola tava me impedindo de me manter desse jeito. Achei que eu tinha que largar a escola para trabalhar. Tive essa ideia na ocasião, que não foi a melhor escolha que eu fiz. Naquele momento, sem pensar muito, sem ter muita responsabilidade, sem ter uma perspectiva de futuro ainda. Era o momento que eu queria viver e achava que aquilo era bom para mim. Acabei abandonando a escola e fui mesmo trabalhar para me manter e arrumar as namoradinhas.

 

P/1 -  Aí você contou para gente que tinha feito técnico em Administração. Como é que se deu, que momento da sua vida isso aconteceu pra você?

 

R -  Então, a partir do momento que eu abandonei a escola e achei que tinha que namorar, acabei adquirindo família. Foi onde tive a minha primeira filha e foi um relacionamento, uma união que não deu certo. Eu separei e fui trabalhando por aqui, por ali. Igual nesse período que eu trabalhei nessas empreiteiras da Cemig, eu tive em Brasilândia de Minas, conheci outra pessoa, me casei. Mas comecei a ver que as oportunidades de trabalho estavam ficando um pouco limitadas. Foi aí que eu comecei a enxergar que eu precisava estudar. Nesse período, retornei. Eu estava morando em Unaí, prestava serviço para Cemig. Aí surgiu um projeto do governo, aquele EJA. Era onde tinha um curso integrado com ensino médio. Eu tinha parado na oitava série, até quando eu fui amigado com a primeira mulher, que é a mãe da minha filha, eu voltei a estudar. Eu trabalhava e estudava à noite aqui na cidade. Eu terminei o ensino médio fundamental. Terminei a oitava série e foi ficando difícil. Eu larguei de novo, aí após estar casado, já no segundo casamento, eu vi a necessidade de ter que estudar novamente. Porque aí meu trabalho também exigia que eu estudasse. Aí eu voltei a estudar, surgiu um projeto do governo onde tinha um curso técnico integrado com ensino médio, eram integrados os dois, as duas coisas; o curso técnico junto com conclusão do ensino médio. Eu me matriculei, isso lá em Unaí. Chegou um determinado momento, que fui surpreendido por bandidos que tentaram me render dentro de casa. Eu resolvi abandonar tudo lá e vim embora para Paracatu novamente. Graças a Deus aqui tinha também o curso, consegui transferir e a empresa me transferiu para cá também. E aqui eu terminei de estudar.

 

P/1 - Porque você escolheu Administração? O que é que veio na sua mente para escolher Administração?

 

R - Então, naquela ocasião foi a oportunidade que me surgiu. Fiz, tomei gosto. Eu queria até fazer o superior, mas até o momento não tive como terminar, ainda não surgiu uma possibilidade e condição. Mas ainda sonho em fazer um curso superior. 

 

P/1 - Então vamos falar sobre o retorno a essa comunidade. O que que acontece para te trazer para esse trabalho que logo vai reverberar um pouquinho mais, lá na frente. Então você volta a ter esse contato com a comunidade. Como acontece, como se dá isso, esse momento na sua vida? 

 

R - Então, o meu contato com a comunidade não foi totalmente dissolvido. A gente estava sempre indo passear nas folgas de trabalho. A gente estava sempre indo enquanto meu pai era vivo. Hoje ele é falecido. Faleceu em 2005. Até aí eu tinha um contato muito estreito com a comunidade e com ele, porque a comunidade ainda tinha algumas atividades, ainda tinha muitas pessoas que estavam morando lá. Então, a gente tinha ainda esse convívio. Mesmo não residindo lá, a gente ia sempre, a gente tava dando suporte da maneira que precisava. A partir do falecimento do meu pai, eu abandonei a comunidade. Eu não sentia mais vontade de participar, de dar continuidade no trabalho que ele teve lá. Meus irmãos até queriam, mas eu não tinha mais motivação a partir do momento que eu não via mais meu pai lá na casa. Aquilo... Toda vez que eu voltava lá na na casa, que eu chegava lá… Isso até hoje, eu tenho esse sentimento, eu me sinto muito mal. 

 

P/2 - O seu pai sempre morou na comunidade?

 

R - Sempre morou. 

 

P/1 - Como era a comunidade?

 

R - A comunidade era o lugar onde a gente nasceu… Eu nasci e cresci lá, né? Até certo ponto, mesmo com essas saídas e voltas, era a referência que eu tinha. Era meu pai, eram as amizades, os parentes, as crianças que a gente cresceu junto, até determinado ponto. É onde eu gostava de viver e é o que eu quero hoje, resgatar isso, eu quero voltar para lá um dia.

 

P/3 - Isso que eu ia te perguntar. Toda vez que você saía e vinha pra cidade, desde criança, como eram essas mudanças pra você? É justamente sobre isso que você tá falando agora. 

 

R - Isso era difícil para mim porque... Desculpa…(se emociona)

 

P/1 - Imagina.

 

P/3 - Quer uma água?

 

R - Sim. (PAUSA) É difícil, porque nas casas dos outros, principalmente na casa dessa dona… Eu vou contar aqui, depois eu volto na hora que eu tiver mais tranquilo. Ela me colocava para fazer trabalho, pra lavar vasilha na beira da rua. A casa não tinha muro. Eu tinha muita vergonha disso, ela me forçava… Eu tinha um certo receio de pessoas idosas, eu não gostava de gente velha. E ela era uma senhora bem velhinha. Eu tinha que andar na rua com ela, de mãos dadas, e os colegas, os meninos criticavam: “É sua namorada, essa velha?” Isso me aborrecia muito. E eu não estava junto com meu pai, era ruim. Lá tinha um bar, na época, perto… Eu vou ser forte, voltar lá e contar isso sem…(choro)

 

P/3 - Se não quiser contar, não precisa, não. Eu perguntei porque eu percebi que era uma coisa importante. 

 

P/1 - Sim. E você foi falando, a gente não quis te cortar. 

 

R - Não, é… Eu via meus irmãos, mais rapazinhos já. Eles moravam lá na roça com meu pai. Eles iam lá no seu Henrique, eu morava bem pertinho. Lá da casa da dona Maria eu via meus irmãos e ela não deixava eu ir lá. (choro) “Você não vai, você não pode sair na rua. Vai fazer alguma coisa, vai caçar uma vasilha pra você lavar.” Ah, difícil demais. Meu pai vinha na cidade, ia me visitar, depois voltava pra roça e eu lá. Difícil demais, um período doloroso pra mim (choro) Eu acho que foi um período muito difícil, teve muito conflito. Quando a minha mãe faleceu, os parentes da minha mãe queriam tomar eu do meu pai. Eu não queria ficar com eles, eu queria viver com o meu pai, minha irmã também. A gente era muito ligado com o meu pai e a perda dele para mim… É o que eu falei com vocês, eu não gosto de ir lá. Eu não vou lá na roça, dentro da casa eu chego, a primeira imagem que vejo na casa é ele chegando, me recepcionando. Porque nesse período que eu trabalhava fazendo leitura na roça, quando eu trabalhei aqui no município de Paracatu, a cada 15 dias eu passava lá. Eu podia estar muito apertado de serviço, muito atarefado, mas eu tirava um tempo pra passar lá. E ele ficava lá sozinho nessa época. Tinha um irmão meu, mais velho, que faleceu. O segundo acima de mim, que morava lá com ele. Tem um impacto muito grande. A gente às vezes não tem consciência do que tá acontecendo naquele momento, mas assim, traz algum desequilíbrio pra gente. Eu ainda tentei e hoje eu tento... Isso é da minha origem, é da minha criação, ou seja, acho que até da origem, do meu sangue, sei lá, esqueci a palavra técnica. Dos meus ancestrais, essa questão do caráter, porque assim, nesse período que eu fiquei na casa de um e outro, eu tive muitas más amizades. Em um determinado tempo, eu tive amizades aqui em Paracatu. Perdi vários desses amigos. Tive muitas más influências e graças a Deus, hoje sou um pai de família, tenho uma responsabilidade, tenho um endereço, um trabalho. E a questão do caráter tá escrevendo da ancestralidade mesmo, porque eu venho de uma família humilde de pessoas de muita responsabilidade mesmo, pessoas muito honestas, embora humildes. Então, eu não perdi essa referência. 

 

P/3 - Mesmo do seu pai também.

 

R - É, mesmo do meu pai. Porém assim, a gente tem as limitações da gente e tudo. Acho que ainda tô no caminho certo e tem possibilidade da gente dar a volta por cima de todas as dificuldades que a gente passou e quem sabe um dia resgatar essas origens, trazer de volta essas pessoas que saíram, igual a mim, que saí da minha comunidade. A gente poder resgatar, trazer essas pessoas de volta para comunidade, viver…

 

P/3 - Se você depois puder retomar isso...

 

P/1 - Não, isso é muito bom. A gente vai por essa linha. Quando a gente puder voltar, então a gente vai…Já tá? Então ótimo, só continua essa… Você falando do resgate.

 

R - Então, eu tenho muita vontade de voltar a reviver o passado, as origens. Reunir as pessoas, os familiares. Nós somos uma família grande, temos uma parentela muito grande. É uma raridade os que casaram fora, mas lá é mais família com família, casaram lá dentro da comunidade. Tem casamento de primos com primos. Uma família ligada na outra. Sempre um parentesco muito grande, mas cada um do seu lado. A falta às vezes de políticas públicas voltadas pra essa comunidade, voltada para esse povo quilombola, nos levou a essa condição de ter que se ausentar do território, em busca de melhores condições de vida. Foi chegando um período em que a terra não era mais tão produtiva, dependia de um certo tratamento. Às vezes plantava, já não conseguia colher mais como era antes, então foi tendo prejuízo e aí a gente viu a necessidade de sair, buscar emprego fora, buscar renda. A gente não conseguiu mais viver da renda da região. E isso aí acabou nos prejudicando, porque nós gostamos das nossas origens, nós gostamos do nosso povo, do nosso meio. Era um ambiente muito saudável. A gente vivia muito bem lá, se virava com tudo. Sentia alguma coisa, tinha pessoas que faziam os remédios lá. Inclusive, meu pai fazia remédios, garrafadas. Vinha para a cidade pessoas de longe, Brasília, quando sabiam que ele fazia um remédio para determinada doença. Ele fazia e as pessoas iam lá depois, agradecer. A princípio, ele não cobrava dinheiro disso, mas as pessoas davam a ele uma gratificação: “Tô te dando isso porque é um medicamento que sarou minha esposa, sarou meu filho, sarou meu pai dessa enfermidade.” E lá na região, outros recursos também eram o benzimento, até hoje tem uma senhora lá que benzia. Além de benzedeira, ela era parteira. As pessoas que nasciam lá na roça, era ela que fazia esses partos.  Nós temos muita riqueza de cultura lá na região, mas tamos precisando de reunir esse povo novamente.

 

P/1 - E como tem sido esse trabalho? A gente sabe que você tá começando, se envolvendo com esse trabalho... 

 

R -  Então, o meu pai, na ocasião, foi um grande multiplicador pra comunidade. Através do estudo que ele tinha, ele deu aula, alfabetizou a maior parte da comunidade, os descendentes que sabem escrever, sabem ler. Então eu vim me interessar por isso hoje, que conheço os direitos que temos, sei que temos oportunidade de um dia voltar a resgatar isso. Hoje tem políticas públicas que dão uma devida atenção para esse povo quilombola que somos. Eu tomei interesse mesmo em assumir a causa. Hoje, estou trabalhando para regular a comunidade, porque estamos sem diretoria. Eu vim tomar conhecimento disso a partir desse programa de vacinação, que saiu através dessa covid. Saiu um projeto de lei para vacinar os povos indígenas, quilombolas e eu vim tomar conhecimento disso. A nossa comunidade, como estava sem uma diretoria para representar, pra correr atrás de documentação, para reunir esse povo, eu tomei a iniciativa de reunir o pessoal, de divulgar dentro da nossa comunidade. Até então, era somente a questão da vacina, mas o pessoal me exigiu, falou: “Rubens, você trabalhou muito bem nessa questão da vacina. Você conseguiu alcançar o maior número de pessoas, conseguimos vacinar todos os quilombolas”. Quase todos, um ou outro que ficou foi por uma particularidade ou outra, mas acredito que 96% desse povo foi vacinado. E através daí eu fui muito incentivado a assumir a diretoria da comunidade. Estou trabalhando para regularizar essa documentação. Temos aí o COMPIR, que é o Conselho da Promoção da Igualdade Racial, que é um parceiro forte que está nos incentivando, nos auxiliando, nos ajudando muito nessa luta. E estou aí nessa caminhada e quero colher frutos desse trabalho, quero ver a comunidade unida novamente e o que a gente puder alcançar de direitos, eu vou em busca. Vou batalhar o que eu puder para que tenhamos novamente a comunidade reconhecida, que a gente resgate a cultura, resgate esses povos, que a gente resgate nossas terras, porque parte dessas terras foram vendidas ou invadidas. Então, eu quero regularizar isso novamente, se Deus quiser. 

 

P/3 - Qual é a nossa comunidade?

 

R -  A nossa comunidade se chama Cercado, Comunidade Cercado. Lá hoje tem o nome de Associação dos Remanescentes de Quilombo da Fazenda Cercado. 

 

P/1 - Isso é na cidade de Paracatu mesmo.

 

R - É no município aqui de Paracatu.

 

P/1 - No município de Paracatu, que fica a uns 50 quilômetros do centro, mais ou menos. 

 

R - Aproximadamente 54 quilômetros do centro da cidade.

 

P/1 -  Eu queria perguntar como é isso para você, porque você trabalhava com uma outra coisa. Você tinha uma relação com a comunidade, mas você foi trabalhar com outras coisas e nesse momento a vida está te trazendo todo esse trabalho que você tá contando agora. Isso é bem diferente do que você fez até agora. Como é isso para você?

 

R - Então, para mim é o seguinte: é uma oportunidade talvez de crescimento, de ter um reconhecimento para nossa comunidade e ajudar as pessoas futuras. Pode ser que não impacte no meu trabalho, na atividade que eu exerço atualmente, mas eu, vendo a opção de colher frutos, posso até migrar do meu trabalho para comunidade um dia. Mas primeiro tenho que ter uma garantia de que eu posso subsidiar, tratar da minha família e viver disso. Eu quero ter parceiros, buscar parcerias com o poder público. Mas a gente sabe que é um trabalho a longo prazo, não é curto prazo, então eu ainda continuo nas minhas atividades atuais, no meu trabalho. Pretendo continuar até que a gente tenha uma noção exata do que vai ser isso. Mas, acredito que vamos ter resultado e sei que se tiver bons resultados, um dia eu tenho que voltar a dedicar meu tempo integral para essa comunidade, para esse povo e trabalhar mesmo duro para ter o nosso espaço.

 

P/3 - Você fala de retomar toda essa origem e depois essa organização da comunidade. Se você puder descrever um pouco, Rubens, muitas das pessoas estão fora desse espaço físico. Onde a comunidade começou? Explica um pouco pra gente como que que você consegue fazer esse trabalho de recompor, porque uma parte tá fora, outra parte tá lá. Não sei se você entendeu minha pergunta.

 

P/1 - É isso que eu ia falar. Eu vou até complementar a pergunta dela. Como a comunidade se envolve com isso? Você tem uma proposta, a gente percebe que tem uma movimentação da comunidade, mas como ela não gera… Como elas entendem essa questão? 

 

R - Um grande gatilho para que a gente buscasse reativar, buscar essa caminhada pra que ela continuasse foi esse período difícil que nós estamos passando, que é a pandemia. Essa pandemia trouxe essa oportunidade de vacinar esses povos, os povos quilombolas, e a partir daí eu vi uma janela de opção para que nós pudéssemos resgatar essa nossa cultura. Através daí, junto com o COMPIR, que é um parceiro muito forte para para estar atendendo essas comunidades aqui, os quilombolas, eu tive conhecimento de que já tinha um trabalho feito pelo INCRA, de delimitação dessas terras. Através disso, eu criei um grupo de WhatsApp, reuni essas pessoas que se vacinaram. Mostrei para eles a possibilidade que tinha da gente resgatar essas terras que se perderam por vários motivos, grileiros ou pessoas que compraram, uns venderam por suas necessidades, tiveram que sair do território. Muitas pessoas já se ausentaram por questões de sobrevivência, precisaram se ausentar da comunidade. Hoje residem poucas famílias na comunidade, mas nós temos lá ainda a terra. Não é a terra toda, completa, mas tem um trabalho aí do INCRA de delimitar esse terreno. Não sei exatamente se é o INCRA, nós temos uma certidão de reconhecimento como comunidade quilombola, fornecida pela Fundação Palmares. Então assim, já tinha todo um trabalho por trás, mas que estava parado, tava tudo quieto. Eu vim tomar conhecimento, ainda estou conhecendo muita coisa, ainda não sei falar com muita propriedade. Estou buscando conhecer para poder motivar as pessoas a regressar, buscar opções, buscar políticas públicas que subsidiam, que dão a nós condições. Nós temos uma comunidade referência aqui, que é a Comunidade São Domingos, que saiu o projeto para construção de casa e tal, então é uma comunidade que está com a diretoria atualizada e tem os projetos direto voltados para ela. Nós estamos tendo uma intermediação do COMPIR pra gente buscar alguns benefícios. Outros, a gente não consegue acessar por questão de legalidade mesmo da associação, que está sem uma diretoria registrada. Hoje eu tô buscando regularizar isso. Mas assim, o pessoal tá motivado, tá acreditando. Eu criei um grupo do WhatsApp, tô mantendo esse pessoal informado, pedi a eles para manter no grupo pra gente estar unido em busca de oportunidades. E o que tem de resultados eu vou mostrando, divulgando para eles. 

 

P/1 -  É isso até que eu queria te perguntar. Como é que se dá essa questão, porque tem algumas pessoas que estão na comunidade, como você estava contando, e  tem gente que tá muito distante da comunidade, por diversos motivos. Esse trabalho que... Você tá contando do WhatsApp, mas como é que as pessoas conseguem se mobilizar para começar a acontecer? Você falou que foi a partir da vacina, mas como é que isso tá acontecendo agora com a comunidade e com as pessoas até distantes, porque tem essa questão espacial?

 

R -  Então, o que acontece: Hoje nós temos uma situação, que é a questão financeira, para estar regularizando essa comunidade, então essa semana nós estamos aproveitando a semana da Consciência Negra, para poder estar trabalhando eventos. A Consciência e Arte aqui de Paracatu, criou um evento aí na cidade, que é a Semana da Promoção Municipal da Igualdade Racial, e aí tem alguns eventos. A gente vai estar trabalhando nesses eventos, expondo produtos, artesanatos, comidas típicas da comunidade, para estar levantando recurso para regularizar essa documentação, que tem custos em cartório para estar registrando estatuto, uma nova ata. A gente está fazendo a modificação no estatuto, porque o que tem lá hoje da comunidade, tem o nome de comunidade quilombola e tudo, mas tem algumas cláusulas que não estão voltadas realmente pra esse povo quilombola. Ele é um estatuto que atende muito bem a associação rural, à comunidade rural, mas tem muitas muitas brechas lá que não estão nos atendendo. Então, nós estamos buscando apoio para estar adequando esse estatuto à nossa realidade, às nossas necessidades, e as pessoas estão informadas. Essas pessoas que estão mais distantes, estão acreditando que um dia poderão voltar, poderão ter essas terras. O INCRA tem esse projeto aí já em andamento para estar restituindo essas terras pra gente. Nós acreditamos muito que isso um dia vai acontecer, que, de fato, nós teremos essas terras novamente e teremos projetos para construir casas e repovoar essa comunidade. Ainda temos muitas pessoas no local, algumas famílias estão lá, residindo na comunidade e precisam também de um apoio. 

 

P/2 - Você fala sobre esse desejo de repovoar essa comunidade. E existem algumas famílias que já estão lá e algumas que estão aqui na cidade, que querem retornar. Como é a relação entre esses grupos e como você está fazendo pra lidar com eles, que têm pensamentos diferentes?   

 

R - Sim. Eu tenho tentado uma conciliação entre as pessoas, porque tem um certo conflito. As pessoas que estão lá hoje na região se sentem os únicos donos, únicos posseiros. Eles têm uma certa dificuldade em aceitar as pessoas que saíram. Alguns, não são todos, mas tem algumas pessoas mais antigas, do pensamento um pouco mais fechado. Eles não estão muito abertos à realidade atual. Eles têm uma certa resistência quanto a isso. Mas apenas um, que é inclusive um membro da chapa que a gente formou, veio com esse questionamento para mim: “Olha, Rubens, nós não podemos admitir que pessoas que saíram, quando surgir algum benefício, venham querer participar.” Eu falei para ele: “Olha, esse é o principal objetivo meu, é mudar isso. É quebrar essa essa barreira porque sabemos que todos têm direito. Cada um que saiu da comunidade tem seus motivos, tem suas particularidades, seus porquês, e a intenção hoje é unir essa comunidade para um bem comum, porque nós somos um só povo. Nós somos uma só origem, então nós não temos porque criar conflitos, divisões entre os povos”. Mas eu vou conseguir lidar bem com essa situação. Eles já estão bem, já aceitaram, já flexibilizaram bastante nessas questões aí.

 

P/3 - Rubens, você disse lá no começo que o trabalho na lavoura, o que vocês produziam era suficiente. Tinha alguma coisa que precisava comprar, mas tinha como, existia fartura. Tinha a troca de produtos ou a venda de animal pra comprar alguma coisa. Como que você imagina agora… Quer dizer, tudo é projeto, mas se isso já é um pensamento seu em relação ao trabalho, à sobrevivência. As pessoas voltariam a trabalhar na lavoura? Você imagina isso ou ainda não é o momento?     

 

R -  Então, eu imagino que é possível, mas ainda de uma maneira mais rentável, porque hoje nós temos tecnologias que nos auxiliam muito. Hoje lá tem sinal de telefone, tem energia, água canalizada. Hoje nós temos acesso à tecnologia. Acredito que teríamos uma condição de sobreviver até melhor que antes. Temos muita tecnologia a nosso favor. Naquele tempo, era muito difícil. Adoecia uma pessoa lá na região, as pessoas tinham que vir para cidade a cavalo. Não tinha um meio de locomoção. A pessoa que tinha uma carroça era rica, considerado um cara com uma boa condição, porque tinha uma charrete. (risos)  Lembro do meu pai contar muitas histórias que vinham trazer pessoas doentes ou buscar um remédio aqui na cidade a cavalo. É possível sim a gente sobreviver, numa condição até melhor que naquele prazo, basta a gente acreditar e também contar que a gente tenha incentivos, que a gente tenha políticas voltadas para isso. É lógico que as pessoas não sairão de onde estão, com uma garantia de que estão bem, que estão sobrevivendo, pra voltar pra roça, voltar para comunidade sem uma perspectiva de como irão viver, né? Nós temos que trabalhar isso, buscar primeiro condições, projetos voltados para sobrevivência desse povo. 

 

P/1 - Até falando sobre os projetos, que você tava falando do aporte financeiro para que isso aconteça, você contou em algum momento que as pessoas vêm para cidade vender e acabam divulgando também o artesanato, a culinária do local. Qual é esse artesanato, qual é essa cultura, qual é essa culinária da comunidade? 

 

R - Então, hoje bem poucas pessoas, mas ainda tem algumas que fazem variedade de tranças. Outros fazem bordado, pintura de quadros. Tem pessoas que trabalham fabricando produtos tipo sabonete de plantas, sabonetes medicinais, cremes. E fora as quitandas, que tem boas quitandeiras ainda aqui. Então basicamente é isso.

 

P/1 - Isso se mantém ainda na comunidade. Apesar dela não ter todas as pessoas lá, ainda existe. O artesanato ainda tá lá, a culinária ainda tá lá...

 

R -  Sim, tem pessoas lá que fazem ainda… Perdeu muita coisa, porque antes lá tinha engenho que moía cana, fabricava rapadura. Tinha muitas outras coisas. Plantava mandioca, fazia farinha e muitas coisas mesmo, mas hoje se perdeu bastante. Ainda assim, até aqui na cidade, onde estão essas pessoas, elas ainda mantêm essa cultura de fazer essas quitandas, fazer bordados, algumas coisas desse tipo.

 

P/2 - Os trabalhos medicinais mesmo que o seu pai fazia, eles se mantiveram ou se perderam ao longo do tempo também?     

 

R - Em relação às plantas medicinais, esse trabalho de fazer medicamentos fitoterápicos, essa medicação que ele fazia através das plantas medicinais, isso se perdeu porque era só o meu pai na região que fazia. Com a morte dele, ninguém deu sequência a isso. E também era um conhecimento muito específico dele, ele estudou as plantas, tinha livros que ele estudava sempre. Isso era uma coisa particular dele e nenhum filho, nenhum parente conseguiu dar sequência nisso, que para mim era uma coisa muito importante que nós perdemos, porque salva vidas. A medicação é muito importante, principalmente para um povo que vive em comunidade. Em uma situação de emergência, precisa de um medicamento ali, às vezes artesanal, que resolve o problema. Até se for um caso de procurar um recurso, um médico, um hospital, pode preservar uma vida ali no primeiro momento, até que consigam tratamento mais adequado.

 

P/1 - No meio da história você contou do casamento, que você teve uma outra filha. Como aconteceu esse encontro com a sua esposa e aí esse retorno para comunidade, toda essa história confluiu para esse momento que você chegou agora. Como é que aconteceu isso?

 

R - Olha, em relação à família, a mãe da minha filha, a gente viveu muito pouco tempo junto, então eu tive pouca convivência com a mãe, mas eu cuidei da filha, tá sempre próxima de mim. Após eu me casar, a minha esposa também não viveu, meus filhos não viveram nada dessa realidade que eu vivi. Duas histórias diferentes, meus filhos não conhecem, não sabem ainda. A minha filha sabe em partes, mas ela não viveu nada do que eu vivi. Ela já viveu na cidade, já viveu as tecnologias, nunca passou pelas coisas que eu passei. E meus filhos pequenos também não, mas um dia eles irão sim conhecer, vão reviver essas histórias, se Deus quiser. 

 

P/1 - Você tem quantos filhos agora, desse segundo casamento?

 

R - Dois filhos.

 

P/1 - Aí você tem dois agora e mais a menina, que era desse outro casamento que não deu certo. Essa primeira tá com a mãe e esses dois pequenos que estão com vocês lá. 

 

R - Sim. Hoje eu tenho 14 anos de casado. Não é fácil. 15 anos de casado agora, no final do ano. O outro relacionamento foi bem breve, bem rápido e foi conflituoso. Eu tive que me separar, mas hoje vivo bem com a minha esposa, graças a Deus, e os meus filhos. 

 

P/2 - E quais são os seus sonhos?

 

R - Meus sonho é um dia me formar, fazer uma faculdade, e poder dar um suporte muito bom para comunidade, ver a minha comunidade resgatada, ver as nossas origens lá de novo, ver esse pessoal lá. É meu sonho ver onde eu nasci ter algum progresso. 

 

P/1 - A gente vai se encaminhar pras perguntas finais. Você tem alguma coisa a mais sobre a comunidade que você queria perguntar, que tem uma relação pra gente não perder...

 

P/2 - É que você falou lá no início sobre a dificuldade que a família da sua mãe tinha com seu pai e aí sobre a vontade deles cuidarem de você e da sua irmã. Após esse  momento, você manteve vínculo com a família da sua mãe? Como que foi essa relação?

 

R - Pois é. A partir do momento que o meu pai não abriu mão para que eu fosse criado pela família da minha mãe, eles também nos abandonaram. Até porque, só tinha uma tia minha que residia aqui em Paracatu, uma irmã da minha mãe. Minha avó residia em Brasília e os tios, uns em Anápolis, outros em Curitiba. Era cada um prum lado. Tinha um tio meu, irmão da minha mãe, que casou em Paracatu também, mas ele faleceu. Eu não sei exatamente se foi antes ou depois da minha mãe, mas o falecimento de um e do outro foi bem próximo. Ficou uma prima minha, filha desse tio meu, que eu só vim conhecer depois de adulto. Então, não tive nenhum contato com a família da minha mamãe. Depois de um determinado tempo, quando fui estudar o 5º ano, meu pai me trouxe para cidade e me deixou na casa de uma irmã da minha avó, uma tia da minha mãe. A partir daí que eu tive um contato. Não é com a família primária, que é a minha mãe, minha avó e meus tios, mas é tia da minha mãe, primos da minha mãe, aí eu tive um convívio com esse pessoal que fui conhecer mais pessoas da família do lado da minha mãe, mas eu tive pouco convívio com eles.

 

P/1 - Tem alguma pergunta que eu não te fiz, tem alguma coisa que você queria me contar e a gente não perguntou? Ou alguma coisa que você gostaria de contar que não foi perguntada sobre a sua vida, sobre o que você acha, o que você quer? Alguma memória? 

 

P/2 - Ou acrescentar mesmo do que você já falou.

 

R - Então, eu queria falar o que eu vivo atualmente. Vivo feliz com a minha profissão, enfim, embora não estudei, não me formei, sou um cara realizado. Tenho uma experiência de vida bem bacana. Conheço muitas pessoas, tenho muitas amizades. Sou muito grato por isso, feliz por esse conhecimento que tenho. Gosto do conhecimento que eu tenho da minha cidade. Embora eu nasci na roça, cresci lá, andei, andei, mas eu adquiri muito conhecimento. Eu tive a oportunidade de estudar um pouco, isso me engrandece muito. Eu sou muito grato por isso. Enfim, sou muito grato pela referência que eu tenho do meu pai, da minha família. Isso é uma coisa que é muito nobre para mim, a referência do meu pai. Eu acho que foi uma coisa muito boa que ele fez, foi segurar e defender, não ter deixado eu sair de perto dele quando a família da minha mãe quis me tirar de lá, porque talvez eu não seria a pessoa que eu sou hoje. Não sei, o futuro talvez poderia ter sido melhor, eu poder dar uma condição melhor hoje, ou talvez pior. Mas enfim, eu gosto do que eu vivi, gosto da maneira que eu vivi. Embora teve muitas dificuldades, fiquei para casa de um, pra casa de outro, tive muitas referências de criação, além da do meu pai, mas a que eu realmente trago para mim, é a referência da criação do meu pai, da origem, do meu pai, da minha mãe. Meu pai foi o cara da minha vida.  

 

P/1 - E me conta, como é que foi contar a sua história prum acervo de um museu, a sua história de vida pro Museu da Pessoa?  

 

R - Então, pra mim foi uma surpresa muito grande poder estar hoje contando sobre a minha vida, sobre a minha pessoa pro Museu da Pessoa. Pra mim foi uma novidade, jamais imaginaria que a gente fosse poder falar um pouco do passado da gente, que a gente fosse poder deixar registrada essa história. Isso para mim é muito importante, porque vai enriquecer muito a nossa comunidade, vai enriquecer a nossa história. E quem sabe isso traga alguns gargalos, algumas melhorias de vida, talvez alguma oportunidade de crescimento, alguma visão para o futuro dos novos que vem por aí. Talvez, através de conhecer essa história surjam ideias, surjam oportunidades, não sei. Isso um dia, futuramente, pode ser útil para meus netos e bisnetos, pra parentes da comunidade, ou até para outras comunidades conhecerem como que foi a nossa história, como se deu a nossa vida dentro da comunidade num quilombo.

 

P/1 - Em nome do Museu da Pessoa, da Kinross, por todo esse projeto que a gente tá construindo juntos, e esse resgate das memórias, a gente gostaria de agradecer a sua participação, Rubens. Muito obrigado.

 

R - Ok, disponha. 

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