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História

Meu irmão, El Cid

Sinopse

A casa com forro de palha, chuveiro gelado e feito com lata e as frutas colhidas nas árvores do quarteirão marcaram a doce e dura infância de Wilson. A transição para a cidade grande e o espírito fervoroso de sua grande inspiração, o irmão mais velho, levaram-no a almejar o melhor. Sua história, marcada pelos árduos trabalhos desde cedo, como engraxate, vendedor de frango e queijo e no conserto de fogão, capta as lutas que teve de enfrentar para alcançar seus objetivos, tendo sempre como ponto de referência e guia, seu irmão, Omilton Visconde.

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História completa

P/1 – Senhor Wilson, por favor, poderia nos dizer o seu nome, data e local de nascimento?

 

R – É Wilson Antônio Visconde. Data de nascimento: 21 de outubro de 1940, na cidade de Pedregulho, São Paulo.

 

P/1 – O nome de seu pai e sua mãe, por favor?

 

R – Egídio Visconde e Carmen Schiavotelo Visconde.

 

P/1 – E de onde vieram os seus avós?

 

R – São italianos. No momento não me lembro de que cidade da Itália vieram não. Os dois avós, paternos e maternos são italianos.

 

P/1 – E seus pais se casaram aqui?

 

R – Aqui no Brasil.

 

P/1 – E quantos irmãos e irmãs o senhor tem?

 

R – Além de mim, claro, três irmãos e uma irmã.

 

P/1 – O senhor se lembra de sua casa de infância?

 

R – Perfeitamente.

 

P/1 – Como é que era a casa, como é que era a vida de vocês?

 

R – Bem, eu diria assim, num momento de reflexão, para poder voltar a mente aos quatro anos de idade... Porque eu me lembro desde os quatro anos de idade. Morávamos na fazenda, chamada Fazenda Limeira, município de Pedregulho, com os meus avós paternos, o João Visconde. Era uma colônia de café, lavoura de café. A nossa casa tinha que subir uma escada, era casa de madeira. Nós tínhamos que subir uma escada, isso eu me lembro assim, fumacento na infância, mas eu me lembro direitinho. Nossa família já era completa, já existia o Omilton, Ulisses, Eu, Osvaldo; a Cilene ainda não. A gente lembra vagamente, como crianças as lembranças são diferentes, né?  A gente lembrava dos cavalos, a gente não via a vida ainda dura, não sabia o que era esforço, o que era trabalho, isso até os quatro anos de idade. Mas era uma vida muito simples, vida mesmo de colonos italianos, desde o tempo da imigração...

 

P/1 – De quem era a fazenda?

 

R – Era de meu avô paterno, João Visconde. E como eu dizia, município de Pedregulho. Deveria ter uns 30 quilômetros da fazenda, cada vez em quando nossos pais levavam a gente pra passear em Pedregulho. A gente praticava umas artes em cima da charrete, a gente já apanhava no caminho mesmo, de vara verde (risos).

 

P/1 – O Senhor estava falando do tempo da imigração. Era qualquer referência à imigração que o senhor tinha lembrança?

 

R – Não, não! Não da imigração. Hoje, com a minha idade, é que eu estou aliando a infância com a atualidade.

 

P/1 – Certo.

 

R – Com os conhecimentos que a gente vai adquirindo, e sabedor também que os avós eram italianos. Vieram para o Brasil, naturalmente para serem, digamos assim, para plantar café.

 

P/1 - Mas eles vieram contratados pela imigração? 

 

R – Não, não!

 

P/1 – Conte um pouco deles. Pagando a passagem...

 

R- Justamente. Então, a gente conviveu lá, digamos assim, uns quatro anos. A minha mãe, então, era líder. A Carmen disse que ia botar _____________. Ela era nossa líder, porque até então o Omilton tinha seis anos, eu tinha quatro.

 

P/1 – Naquela época, como ela era, como ela agia? O Senhor se lembra, como mãe, como pessoa?

 

R – Minha mãe sempre foi dinâmica, ela sempre quis o melhor pra gente. Ela já sabia da existência de cidades maiores. Ela sempre pensou em nós, sempre querendo melhorar nossa vida, tanto é que dali uns tempos nós mudamos para Igarapava, que é próximo a Pedregulho. E estando e m Igarapava, o mercado de trabalho era um pouquinho melhor. Foi onde, então, a gente começou a ter algumas atividades, essas que já tinha citado aí, de fazer vendas a domicílio.

 

P/1 – Mas o senhor poderia falar de novo? Porque a gente tem no papel, a gente precisaria disso gravado, as atividades...

 

R – As atividades?

 

P/1 - Que o senhor praticava.

 

R – Ah, sim! Naturalmente o campo de trabalho não era assim, tão divulgado. Tinha que se fazer o que se oferecia no momento. Isso foi em 44, 46. Frente de trabalho não existia, então uma família que morava numa fazenda e ia pra cidade, não tinha muita escolha. A primeira coisa que se oferecia era ser engraxate, então todos nós, os irmãos, engraxavam na praça pública de Igarapava. E meu pai, como era de lavoura, lenhador, adquiriu um caminhão e puxava lenha para a Usina Junqueira. Nós engraxávamos de Sábado e Domingo, nos dias de semana nos ajudávamos o nosso pai a carregar caminhão de lenha, no mato. E fornecíamos à Usina Junqueira, que existe até hoje.

 

P/1 – Existe? Fazenda de cana?

 

R – É, é de cana. Naquele tempo as caldeiras eram movidas à lenha, então tinham os fornecedores de lenha, meu pai era um desses fornecedores. Ele usava a gente, hoje é crime criança trabalhar, mas naquele tempo não. (risos) A gente trabalhava bastante.

 

P/1 – E como vocês se sentiam fazendo esse trabalho? Era um trabalho pesado, né?

 

R – A gente não sabia discernir, né? A gente...

 

P/1 – Fazia e pronto!

 

R – Fazia e pronto! (risos) Achava que só existia aquilo no momento, até então. Os mais velhos, como o Omilton e minha mãe, que era muito dinâmica também, começaram a antever coisas melhores. Naturalmente a gente foi lutando para ter essas coisas melhores, demorou um pouquinho, não foi uma coisa meteórica, não. É uma coisa do dia a dia, até hoje. Então...

 

P/1 – Como é que era para vocês: era pesado, era chato, vocês gostavam desse trabalho de lenha? Era divertido, como é que era?

 

R – A gente não sabia o que era bom. A gente pensava que aquilo era a única coisa boa que existia.

 

P/1 – Mas vocês se divertiam também?

 

R – É claro, é claro que a gente fazia o que o corpo permitia, né? A gente não era nenhum super-homem. Em vez de jogar um monte pra cima, jogava um graveto. (risos) Mas já ajudava, de alguma forma, os pais da gente. Eu pensei que fosse envolver só a história do Omilton, e eu estou contando uma saga da família. É claro que a diferença de um para o outro é de um ano e meio, então a gente praticamente conviveu quase tudo igual até uma certa idade, até que cada um tomou seu destino, seu rumo. Claro, com exemplo dos mais velhos, por privilégio que nós tivemos, o Omilton, como irmão mais velho, de nos encaminhar.

 

P/1 – Vocês brincavam ou brigavam muito?

 

R – Os dois.

 

P/1 – As duas coisas...

 

R- Brigavam e brincavam, como criança normal... Ah, então fomos para Igarapava. Uma casa muito modesta, muito simples, mesmo porque as condições financeiras daquele momento não permitiam que se alugasse uma casa melhor do que a que nós morávamos. Estou mais pensando no Omilton do que propriamente em mim, eu quero amarrar isso pensando no que o Omilton passou. O que ele passou e nós passamos também. Naturalmente, ele, por ser o mais velho, teve outra visão de futuro, e ele não nos abandonou, nos ajudou e foi um grande exemplo.

 

P/2 – Desde pequeno ele já tinha essa vontade de crescer, ir para um lugar maior, proporcionar um maior bem-estar para a família?

 

R – Desde pequeno. Isso ele herdou da minha mãe, que era dinâmica, conforme eu já disse. Ele herdou isso da minha mãe, é o primeiro filho, provavelmente captou todos os entusiasmos da minha mãe. Nós morávamos numa casa muito simples, na periferia da cidade de Igarapava. E meu pai, por ser lenhador, nós tínhamos uma lenhadora ao lado da casa. Tínhamos o turno de trabalho de fazer a metragem dessa lenha e passar para o consumidor, mas uma rentabilidade muito mínima. A casa que a gente morou era realmente muito simples, inclusive, é bom mencionar, o forro era de palha...

 

P/1 – E o chão?

 

R – O chão era cimentado, aquele tipo vermelhão, e o forro era uma palha quase que transponível, tanto é que quando ventava muito, caia aqueles pozinhos. Se a gente dormia de boca aberta, enchia a boca de terra, aquela coisa preta. O chuveiro era uma lata de 20 litros no qual a gente punha água... Com uns furos embaixo, então formava aquele chuveiro. Não era elétrico não, era frio. Então, aí veio, naturalmente, a idade escolar. Todos nós fomos para a escola, o Omilton sempre se destacou nos estudos, desde pequeno. Ele cursou naturalmente esse grupo escolar, passou para o ginásio estadual. Eu me lembro perfeitamente, como se fosse hoje, que ele usava uma roupagem de brincar aqui. Era o uniforme do ginásio. A gente até admirava ele, porque ele ficava todinho arrumadinho. Minha mãe sempre foi caprichosa para arrumar as roupas da gente. A gente se servia do Omilton como exemplo, procurava proceder como ele. Ele sempre tomava as iniciativas, quer dizer, era um exemplo para a gente. E tudo foi passando, a cidade ainda continua a ser pequena pra gente. A minha mãe também contribuía muito, ela costurava “para fora”, para ajudar a subsistência da família. Nós fazíamos algumas vendas domiciliar. Disso eu já comentei... Meu pai trazia da roça...

 

P/1 – Queijo, né?

 

R – Queijo, frango, nós vendíamos. Minha mãe costurava, a gente foi amealhando alguma coisa, foi melhorando um pouquinho, mas ainda não era o suficiente nem para o Omilton, nem para a minha mãe. O Omilton sempre teve uma visão bem maior do que isso. Nós fizemos isso de 44 a 53, essa vida de engraxates, vendedores ambulantes de queijo, frango. Uma passagem muito interessante. O Omilton sempre se destacou da gente, ele sempre andava bem limpinho, bem arrumadinho dentro daquelas possibilidades. A gente era um pouquinho mais relaxado, mas sempre admirava ele. Ele frequentava um bar lá em Igarapava, e nesse bar tinha jogo de sinuca. Bilhar ou sinuca, acho que é a mesma coisa. E o Omilton gostava de praticar esse esporte, mas não profissionalmente, claro. Ele gostava, ele era um exímio jogador de bilhar, tanto é que tinham as pessoas em volta que assistiam ele jogar e apostavam nele. E ganhavam as apostas sem que ele soubesse que isso estava ocorrendo, mesmo porque nem malícia ele tinha. As pessoas pagavam até o tempo para ele jogar, porque ele jogava tão bem que ganhava as partidas, e as pessoas, paralelamente, que estavam ali assistindo, faziam um tipo de aposta. Um dia um desses cidadãos deu até um relógio para ele, ele deve ter até hoje esse relógio, eu lembro até da marca: Tissot. Essa pessoa deu um relógio para o Omilton de presente. O Omilton falou: “Mas por que estou ganhando esse presente?” “É porque eu quero te dar, você é um garoto esperto, tal...” Mais tarde ele veio saber que foi porque  essa pessoa ganhou o relógio e mais alguma coisa apostando no taco dele. (risos)

 

P/1 – E ele tinha um apelido por causa disso?

 

R – Nós é que colocamos o apelido: Taco de Ouro. (risos). É interessante que no final da entrevista aqui, nós comentamos que, numa última viagem que nós fizemos aos Estados Unidos, tudo isso veio à tona, então está se tornando até fácil relembrar essas coisas... Mas ainda não era o suficiente...

 

P/1 – E todo o dinheiro vocês davam direitinho para sua mãe?

 

R – Para minha mãe. E naturalmente a minha mãe distribuía pelas despesas normais de uma casa. Gozado é que se a gente ganhava, punha tudo na mão da mãe ou do pai. No Sábado ou Domingo pai dava 50, naquele tempo não sei como...

 

P/1 – Dinheiros...

 

R – Dava “dinheiros” para gente tomar um picolezinho no Domingo. A gente ganhava e não ficava com nada, punha na mão dos pais para fazer a distribuição certa, para tomar um picolé no Domingo... Até então a gente não tinha clube, não tinha nada disso. Foi quando em 52, o Omilton já tinha 14 anos. A escala é 14, 12, 10, 8 e 7, nossa escala de cima para baixo. Não querendo voltar a história, mas meu avô materno, José Schiavotelo, já morava aqui em  Ribeirão Preto. E a minha mãe e o Omilton sentiam essa vontade, também, de vir pra cá, porque meu avô se deu muito bem aqui. A gente ficava sabendo de tudo o que ocorria. E o Omilton e minha mãe tiveram a ideia de seguir os passos do meu avô, mas como a gente não podia vir todos, o Omilton veio na frente, veio abrir o caminho. Com 14 anos veio para Ribeirão Preto, inclusive ele ficou morando na casa dos meus avós, até que ele conseguiu arrumar um emprego em uma camisaria. Acho que ele já ganhava o suficiente para pagar um aluguel, aí veio a minha mãe, para confirmar o que ele estava dizendo por carta. A minha mãe também sentiu essa firmeza no Omilton, chegou de retorno para Igarapava e disse: “Vamos todos para Ribeirão Preto.” Era inclusive a ideia contra a do meu pai, porque meu pai, por ser lenhador, não via isso, então ele deixou que nós viéssemos todos e ele ficava em Igarapava, continuando no mesmo trabalho de fornecedor de lenha lá da Usina Junqueira. Naturalmente ele mandava também recursos, a parte dele. A gente também, com os empreguinhos que arrumamos aqui, completava o necessário. Então quando mudamos para Ribeirão Preto... Tenho até o endereço: travessa (da?) Rua Rio de Janeiro, número 90.

 

P/1 – Que Bairro?

 

R – Campos Elísios. Uma travessinha, não era nem calçada, nem nada, mas foi o que se ofereceu naquele momento, então viemos todos para cá. Nós mudamos exatamente no dia 13 de Julho de 1953 para Ribeirão Preto, todos entusiasmados, íamos mudar de Igarapava para a cidade grande, Ribeirão Preto. O campo de trabalho melhor, nós não íamos ter aquele tipo de vida, porque desconhecia-se aqui também. O Omilton já estava empregado nessa Camisaria Ema, ele arrumou pra mim, para trabalhar na Camisaria Ema junto com ele. E o Ulisses foi trabalhar em um mercado, despencador de banana. O Osvaldo era mais novinho, e a Cilene não tinha condição ainda de contribuir com alguma coisa. Aí foi passando o tempo, minha mãe costurava “para fora”. Ela era calceira, costurava para um alfaiate, pra completar as despesas, né? Foi uma vida muito sacrificada. Então a gente começou a vislumbrar coisas melhores, pois estávamos morando na cidade grande e a gente começou a ter vontades e aquela vontade de progredir, ver as pessoas andando de bicicleta, a gente queria ter uma bicicleta. O tempo foi passando, a gente foi mudando de emprego, para melhor, no caso. Não sei se eu devo falar do Omilton ou da gente também... Nós começamos a dispersar, o Ulisses começou a trabalhar numa pastelaria, posteriormente ele arrumou para mim em uma outra pastelaria e eu saí da Casa Ema. O Omilton continuou na camisaria, eu saí para ganhar um pouquinho mais, para fazer três receitas, né?

 

P/1 – E o senhor foi trabalhar onde?

 

R – Na pastelaria também. Entregava pastéis em bares... A gente tinha até um rendimento melhor do que estava tendo antes. E assim sucessivamente, fomos melhorando. E voltando a repetir, o Omilton sempre com uma visão mais avançada. O Omilton, depois da Camisaria Ema, que nós trabalhávamos, ele foi trabalhar num mercado: Frutas Bandeirantes. Hoje não existe mais, era uma distribuidora de frutas importadas. Depois das frutas ele trabalhou no Café Pinguim, ele servia café no balcão. Existia um café aqui na rua General Osório mesmo, aqui na que nós estamos. Hoje lá é uma casa lotérica, é perto das Lojas Americanas, perto do Pinguim. O Omilton, para melhorar o rendimento, recebeu uma oferta pra trabalhar no Café Pinguim, para servir café no balcão.

 

P/1 – O Café Pinguim é esse...

 

R – Não, lá é choperia. Ele trabalhava no café, um pouquinho mais para cá.

 

P/1 – Mas era a mesma empresa?

 

R – Não, tinha o mesmo nome porque era vizinho, um vendia chope, outro café. Quer dizer, não tinha problema de nomes idênticos, era cada um uma atividade.

 

P/1 – Era vizinho àquela esquina do Pinguim mais antigo?

 

R – Um pouquinho para cá, hoje é uma lotérica. Foi onde, então, que a vida se transformou. O Drogadada − não sei se existe até hoje − era uma grande farmácia, com rede e matriz em São Paulo, isso com várias filiais no interior do estado de São Paulo, inclusive aqui em Ribeirão Preto. O gerente da Drogadada, senhor Franklin de Almeida, tomava café todo dia no Café Pinguim. Por coincidência ele gostava que o Omilton servisse o café pra ele, por coincidência. Ele via no Omilton qualidades diferentes, melhor do que servir café no balcão, e fez uma proposta para ele trabalhar na farmácia, de entregador. Entregador de medicamentos a domicílio, o Omilton. E foi assim que ele começou com medicamentos, posteriormente ele subiu de posto dentro da própria Drogadada, começou já a fazer aplicações de injeções a domicílio.

 

P/1 – Era Franklin, então?

 

R – Franklin.

 

P/1 – Esse José Aparecido de Almeida é parente?

 

R- Não, não. Esse trabalha até hoje com o Omilton, esse rapaz. Esse senhor Franklin, me parece, já até faleceu, porque o Omilton, nessa altura, tinha o quê? 17, 18 anos? Ele devia ter uns 40 anos. Então já faz bem... Algum tempo. O senhor Franklin viu nele qualidades e o convidou para trabalhar na Drogadada. A falta de profissionais naquela época era tanta, que a pessoa só tinha que ter a qualidade de ser honesta e trabalhadora, ele não precisava preencher currículo nenhum. Tinha que ser honesto e trabalhador, então o senhor Franklin da Drogadada viu isso no Omilton. Então começou a ascensão do Omilton, como o Franklin achou ele no Café Pinguim, o supervisor do laboratório ex Pan Química fez o convite para o Omilton trabalhar nesse laboratório. Hoje não existe também...

 

P/1 – Só um minutinho, voltando um pouquinho atrás, na Drogadada ele fazia o quê?

 

R – De início era entregador de medicamentos a domicílio, posteriormente ele passou a atender no balcão e fazer aplicações de injeção a domicílio. Naturalmente sem curso, sem nada. É claro, isso foi capacidade que ele adquiriu. E trabalhando lá dentro, com os outros profissionais mais antigos, ele era interesseiro, então ele aprendeu rapidamente tudo isso. Aí então um supervisor do laboratório ex Pan Química − estou repetindo − viu também nele qualidades para ser vendedor e propagandista de laboratório, então fez um convite irrecusável, claro. Ele tinha aquela vontade de crescer, e as coisas estavam seguindo um curso que ele queria. Ele foi pra esse laboratório, se saiu muito bem nesse laboratório, tanto que nesse ínterim, enquanto ele trabalhava na Drogadada, eu ainda consertava fogão, o Ulisses trabalhava na distribuidora de medicamentos, o Osvaldo já estava mocinho, também começou a ter alguma atividade. A minha irmã, por sua vez a única mulher, a gente protegia, não deixava trabalhar, não. (risos) Depois de muitos anos ela quis trabalhar, mas a gente não deixava ter atividade nenhuma, para ficar em casa, ajudando a mãe, mesmo porque o meu pai ainda não morava aqui com a gente, ele morava lá em Igarapava, então minha mãe precisava de uma companhia, e é justamente a única irmã que a gente tem. Daí para cá a carreira do Omilton foi um pouquinho mais veloz, mas foi baseado em muito sofrimento.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Ah, da vida que nós tínhamos em Igarapava até chegar aonde ele chegou foi bastante sofrida.

 

P/2 – Sofrida, o senhor fala em que maneira? Ele às vezes tinha que trabalhar sem comer? Tinha uma roupa só... Sofrida em que sentido?

 

R – Puxa vida, você me pegou de surpresa. Sofrida é aquela metamorfose de você sair de uma cidade pequena e vir para uma grande, aqui era um painel, um painel de vontades. Você via as pessoas mais bem arrumadas, via as pessoas de bicicleta. Nós nunca tivemos uma, então, você queria ser igual, ter uma vida comparativa. Numa cidade pequena não tem vida comparativa, todo mundo é igual. Você muda para uma cidade maior, tem uma vida comparativa, você está vendo que existe prosperidade e que a gente está nesse contexto, por que não?  O Omilton sempre falava: “Por que não?” Até o fim: “Por que não, que eu posso fazer isso ou fazer isso... Precisa trabalhar, vamos trabalhar, vamos conseguir.” Esse foi o exemplo que ele sempre deu para nós. Justamente, o Omilton sempre enfrentou desafios e venceu, ele foi um vencedor.  A prova é que, ao final da entrevista... Obviamente que esta entrevista esta sendo baseada na vida dele, vocês também já, indiretamente, está acompanhando, e eu, a que ponto ele chegou... Então logo a resposta está aí, né? (risos) Aí então ele já estava assim, num posto mais elevado, mas nunca deixou de pensar nos irmãos, nunca. Ele foi o nosso líder. Eu posso até dizer que ele foi o nosso pai, como exemplo. Nós tínhamos o pai, coitado, lavrador, não tinha muitos recursos. Ele não podia atender às nossas necessidades, mesmo porque a profissão dele não ajudava. O Omilton passou a ser esse líder nosso, passou a ser o nosso pai. Os convites eram sucessivos ao Omilton, ele era um grande profissional. Ele estava no laboratório Pan Química, era de pouca expressão naquele tempo. Ele recebeu um convite, comparativo a quando estava na Drogadada, recebeu da Pan Química, posteriormente recebeu da (Lilly) do Brasil, é um laboratório multinacional que vocês devem conhecer, e ele ficou naquele impasse: “Quem eu vou pôr no meu lugar na Pan Química?” Ele pensou em mim, chegou em mim eu tinha o quê, 19 anos, ele 21? Ele: “Wilson, você quer enfrentar o laboratório?” Eu falei: “Oh, Omilton, você é que sabe, você é que está fazendo a avaliação. Você acha que eu posso ser capaz?” Ele falou: “Eu acho, é só você ter vontade e disposição para isso, como eu tive.” “Oh Milton, se você acha que eu tenho capacidade, vamos lá...” “Eu pretendo pôr você na Pan Química, no meu lugar, porque eu estou recebendo um convite de um grande laboratório, multinacional, e eu não gostaria de abandonar os amigos lá da Pan Química, isto porque eles foram muito bacana comigo. Me admitiram sem fazer teste nenhum, confiaram no meu trabalho. Eu vou delegar isso aí para você”. Então eu fui no lugar dele... Foi em 61, e ele foi para a Lilly do Brasil. Nós mantínhamos contato, só que no Lilly ele teve que mudar para Bauru, porque a região que estava vaga do Lilly era em Bauru.

 

P/1 – Fale uma coisa, a Pan Química ainda existe?

 

R – Não. Existem os produtos dela, foram feitas fusões, aquelas coisas todas. O nome “Laboratório Pan Química” não existe, mas os produtos dele existem até hoje em outros laboratórios, porque foi esmiuçando os produtos...

 

P/1 – E a Lilly ainda existe...

 

R – A Lilly existe. Você toma Tylenol para dor de cabeça? Até hoje. (Louzone)? Então...  Aí o Omilton mudou para Bauru para representar o Lilly, e eu fiquei aqui na Pan Química. Eu sou o terceiro da família: é o Omilton, Ulisses, Wilson, Osvaldo e Cilene. O Omilton, acho, não via muito interesse no Ulisses, na época, em trabalhar em laboratório. Ele viu em mim, acho que ele ficou penalizado em me ver trabalhar com fogão, e o Ulisses já trabalhava na distribuidora de medicamentos que se chamava “De Moraes”. Ele não estava tão necessitado, já ganhava bem, o Ulisses. O Omilton quis me ajudar, então me levou em São Paulo... Eu fui muito acanhado, porque aquilo tudo para mim era uma novidade extraordinária.

 

P/2 – O senhor já conhecia São Paulo?

 

R – Não.

 

P/2 – A primeira vez foi com o Omilton?

 

R – Foi com o Omilton. Ele me levou a uma loja aqui, a Regional Clipper, era a única loja que vendia terno. Eu nunca tinha usado um terno em minha vida, ele foi lá e escolheu o terno e a gravata, me vestiu... Quando eu limpo as unhas, aquelas coisas todas (risos)... Comprou lá um conjunto, um terno, eu fiquei até bonitinho, na época. (risos). Eu tenho foto disso. “E vamos para São Paulo”, cheguei lá, o Omilton falou: “Olha, esse aqui é meu irmão, eu pretendo pôr ele no meu lugar. Nós não somos iguais, mas eu boto fé nele. Vocês preparem ele que ele vai ser capacitado a exercer o que eu exercia.” O gerente da Pan Química: “Oh, se você está falando, tudo bem, não tem problema, está empregado já.” A palavra do Omilton era tudo, ele era uma pessoa exemplar, então, se ele estava botando fé em mim, naturalmente a minha preocupação dobrou, eu tinha que...

 

P/1 – Fazer jus...

 

R – Fazer jus a essa representação dele, e por ser irmão dele, não podia decepcioná-lo de jeito nenhum. Foi onde eu tomei aquela vontade ferrenha, mesmo, de vencer, junto com ele. E foi muito bem, tudo isso. O Omilton me deu, também, um grande prazer, de o primeiro filho dele ser meu afilhado. O Miltinho, não sei se vocês conhecem. O Júnior, do Omilton, foi o primeiro neto.

 

P/2 - ---------------------------------------

 

R – É? Bacana... O Omilton me deu essa grande alegria também. Já me arrumou o trabalho no laboratório. Saí daquela dificuldade que ele já tinha saído, ele já tinha pulado para uma melhor. Depois me dar o filho para batizar, foi um orgulho muito grande a oportunidade. Até hoje, sinto orgulho do meu afilhado, claro. Daí para frente, naturalmente, a mulher dele, uma grande senhora , a (Mercia Maria Gê?) começou a comandar e viver com ele no dia a dia. Daí para frente ela vai naturalmente narrar para vocês coisas que aconteceram depois, eu estou só falando, creio eu, antes deles se casarem... Porque a gente conviveu junto. Mas quando ele foi pra Bauru, já separamos, eu fiquei aqui, o Omilton em Bauru. De Bauru, o Omilton voltou para Ribeirão Preto. Ficou muito pouco tempo em Ribeirão Preto, representando o laboratório Sintofarma, justamente. Ele saiu da Lilly aceitando um convite de gerenciamento da Sintofarma, aí a carreira dele foi meteórica. De representante comercial, vendedor, propagandista, para receber um convite pra gerenciar um laboratório, no qual esse laboratório também subiu bastante no conceito da classe médica após a ida do Omilton lá. Isso também pelo dinamismo dele, pelo trabalho dele, aquela visão que ele teve desde pequeno. O Omilton era um espírito de luz. Eu até vou voltar ao início da entrevista, ao 18 de Janeiro de 1938, porque ontem fazia 62 anos, nasceu um espírito de luz, o senhor Omilton Visconde... ( pausa )

 

P/2 - ___________________________

 

R – É, eu não vou me emocionar porque já faz dois anos. Não é que eu não sinta falta dele, eu não vou me emocionar a ponto de verter lágrimas. A gente lembra com muita saudade, mas eu sinto a presença dele aqui. Eu tive um grande privilégio de ser irmão dele, tenho esse privilégio, porque eu ainda sinto ele aqui, junto com a gente. Ele deixou para nós um grande exemplo,______________. Ele se foi materialmente, mas continua espiritualmente entre nós. Quando a gente está quase querendo jogar a toalha, quando a gente está quase com aquela vontade, aquele desânimo, a gente lembra da existência dele e recebe um ânimo, uma injeção de ânimo. Lembra da vida dele, de como ele chegou a esse ponto... A gente, então, acorda. A gente quer relevar tudo isso para frente. Por mais dificuldades que possamos ter, a gente quer sempre andar naquela linha que ele nos determinou. Foi um exemplo de gente. Eu não sei se vocês assistiram um filme antigo, uma história épica, El Cid?

 

P/1 – Eu assisti, mas já faz tanto tempo...

 

R – Faz tempo. Eu só lembro de um tópico, só de uma passagem, faz muito tempo realmente. Até o protagonista foi...

 

P/1 – Charlton Heston!

 

R – Charlton Heston! Quem ele era no filme? Era um soldado, não sei se na época ele era romano, só sei que ele tinha uma armadura, era um comandante de uma cavalaria. Naquele tempo não sei se era de extermínio, não sei por que eles estavam lutando, se era pelo bem ou pelo mal, só sei dizer que era uma história bem bonita, comovente. Ele era o líder desse exército, sempre cavalgava na frente. O seu cavalo era o mais bonito, ele era todo charmoso, todo muito bem vestido com aquela armadura. Só que ele era mortal... Num desses combates ele foi ferido de morte. Os soldados e os assessores − não sei como se falava naquela época − não queriam mostrar aos soldados que ele havia falecido. Então o quê é que fizeram? Puseram uma lança por dentro dele para segurar ele sentado em cima do cavalo, como se estivesse vivo e comandando os soldados, para o soldado não perder aquela força de lutar. Então ficou só a imagem do El Cid, só lutava de ver ele cavalgando, mas o cavalo  estava andando já a esmo, porque ele estava morto, estava preso por uma lança interna presa na cela do cavalo... É muita pretensão querer fazer essa comparação, mas o Omilton foi para nós isso. Ele foi o nosso comandante em tudo. Até hoje, na falta dele, tudo o que se faz se pensa no Omilton. Não tem um dia que a gente não pense no Omilton, não por saudade, a gente já está numa idade de reflexão, a gente já está numa idade sabedor de que isso existe para acontecer. Um dia a gente vai deixar de existir. A gente sente aquele impacto na hora que parte, mas depois a gente aprendeu que isso acontece. Não é um consolo, a gente gostaria que ele estivesse aqui, que a gente estive brigando com ele, xingando, ele me xingando. Queria que ele estivesse aqui, mas como ele não está, estou prestando essa homenagem para ele. A minha admiração por ele até hoje é imorredoura, só vai morrer o dia que eu morrer, essa minha admiração. Se existir outra vida, eu quero ter o privilégio de tê-lo como irmão. Eu acredito que possa até acontecer isso numa outra vida. Eu gostaria de ter esse grande privilégio de ser irmão dele outra vez. É quase que impossível, mas é um desejo, fazer o quê? Então, do Omilton, se eu começar a falar muita coisa, vou começar a ficar emocionado. Se vocês quiserem perguntar alguma coisa específica...

 

P/1 – Vamos perguntar. Como é que era o relacionamento dele com a sua mãe?

 

R – Nossa senhora, esqueci de mencionar isso! Eu só disse que os dois eram muito dinâmicos, né? Olha, eu acho que até hoje não cortaram o cordão umbilical. Acho que quando minha mãe faleceu, separou por algum tempo, mas já estão ligados lá em cima outra vez, de tanta afinidade que os dois tinham. Nem por isso a gente sentia diferença  no tratamento da mãe, não. Naquele tempo não tinha esse ciúmes que tem hoje não, de um filho ser mais privilegiado do que outro. Não! A gente até admirava isso, servia pra gente também de exemplo.  A gente admirava aquele relacionamento, queria ser igual até nisso, tanto é que nesse filme de aniversário do Omilton, que teve há dois anos atrás... Minha mãe já é falecida há 15 anos, né? 86, é, vai fazer 15 anos agora, dia 28 de Julho. Fizeram aquele videoclipe, e aparece a todo o momento a fotografia da minha mãe. Não foi o Omilton que pediu, foi o Miltinho que introduzia toda hora. Sabendo a afinidade que os dois tinham, então passava a imagem da minha mãe toda hora, como se fosse um entremeio, um assunto ao outro, a fotografia da minha mãe lá no videoclipe. Vocês vão ver isso.

 

P/2 – Fale uma coisa, senhor Wilson, em que época da vida do senhor Omilton sua mãe morreu? O que ele estava passando, qual laboratório ele estava? Qual a dificuldade que ele teve nesse momento?

 

R – Em 1986 o Omilton já tinha adquirido o laboratório de Biosintética. Naturalmente ele deve ter tido alguma dificuldade nessa transição, essa dificuldades eu não tenho conhecimento não, só sei dizer que quando minha mãe morreu ele chorou copiosamente. Claro, né, como todos nós. Mas ele, por ter essa afinidade, acho que até exageradamente... Exageradamente, não, ele ficou inconsolável. Mas o tempo vai passando, vai apagando algumas coisas... Apagando não...

 

P/1 - Atenuando!

 

R – Vai atenuando, não é isso? Mas ele sempre sentiu a presença da minha mãe também, e isso deu um alento pra ele, um conforto. Agora, dificuldades, todos nós tivemos. Mas a gente... Não é por orgulho não, mas o Omilton impôs em nós, nos irmãos, vencer, vencer e vencer! Em qualquer circunstância não, honestamente, claro. Hoje, com a experiência que a gente tem, ele me faz lembrar aquele ditado chinês: Ele não te dava o peixe, te dava a vara para você pescar. É mais ou menos isso, não sei se estou sendo correto.

 

P/2 – Tem alguma palavra ________!

 

R – É! Ele fazia assim, ensinava a gente a trabalhar: “Você tem que fazer isso, isso e isso para você chegar onde você quer!” Então é por isso que me faz lembrar isso: “Tome a varinha e vá pescar. Não vou te dar o peixe, vá lá você!” Ele ensinou isso pra gente, nós nunca fomos de nos queixar um para o outro de situações. Para exemplificar, digamos que eu estaria passando uma situação adversa, eu não teria coragem de chegar nele e pedir ajuda. Nós íamos ferir os nossos princípios, nós somos todos assim. Nós tínhamos a seguinte maneira de pensar: se ele venceu todas as dificuldades para não ter essa que nós estamos tendo, por que eu tenho que usá-lo para resolver o meu problema, que eu criei?  Se eu criei um problema, vou ter que resolver, como ele resolveu vários problemas dele mesmo... Tanto é que ele resolveu tão bem que chegou nesse ápice da vida. Então ele sempre foi um exemplo de qualquer maneira que vocês possam pensar, tudo... Dizem, né, a gente tem defeitos e virtudes ao longo de uma vida. A gente tem virtudes e defeitos, claro! Mas quando parte para o outro lado, os defeitos somem, todos, a gente só lembra das qualidades, não é isso? É lógico isso? É como um grande pintor, enquanto ele pinta os quadrinhos dele, ele não vale nada, está __________, não vale nada. Aí morreu, fica imortal através das obras deixadas. Eu também vou comparar o Omilton com isso: ele deixou uma obra muito grande, um patrimônio moral para a família muito grande. Para nós ele está sempre vivo no coração. Para mim, particularmente, ele está aqui. Às vezes está até dando um beliscão, um cutucão: “Você está falando muita besteira...” (risos)

 

P/2 – Ficou um pedacinho dele...

 

R – Ficou, em todas as pessoas que se relacionaram e tiveram alguma coisa em comum com o Omilton, esses outros aí. Eu estou falando como irmão, acredito que meus irmãos que já estiveram aqui tenham dito qualquer coisa semelhante, ninguém está inventando. Nós não entramos assim, em contato um com o outro para dizer “o quê é que você falou...” Você mesmo disse: “Você vai falar o que bem entende. Solte o seu palavreado, fale tudo o que você entende, tudo o que você pensa sobre tudo o que aconteceu.” Mas entremeio isso, tem muitas coisinhas que  a gente possa ter esquecido. Quando você me perguntou: “Mas sofreu de que jeito?” Eu não achei uma resposta correta para te dar, mas eu acho que todos nós sofremos bastante. O Omilton, para chegar onde chegou, sofreu muito. Todos nós, nas suas devidas camadas... Sofreu sim. É claro que não existe nada sem sofrimento, só se ganhar na Sena, né? Acaba todo o sofrimento... (risos) Mas isso já é uma brincadeira, não tem nada a ver com o nosso assunto. O que interessa mais, mesmo, é essa saudosa ausência do Omilton. Eu acho que vocês vão publicar tudo isso, vai sintetizar tudo o que a gente falou, não é isso? É claro, muitas coisas vão selecionar os dados... Eu estou me sentindo a vontade de falar algumas coisas que talvez nem vão ser editadas. É só pra vocês fazer o elo, depois fazer... O trabalho de um autor é isso, né?

 

P/1 – Agora, por favor, me diga uma coisa, aquela viagem que vocês fizeram aos Estados Unidos, o que significava toda aquela viagem, como é que foi isso? Como é que aconteceu uma viagem tão bonita com os quatro irmãos?

 

R – Nossa senhora! É indescritível, mas eu vou tentar.

 

P/1 – Por que aquela viagem?

 

R – Por que aquela viagem? O Omilton, por ser uma pessoa muito dinâmica, ele era muito ocupado, era elétrico. O Omilton hoje tem uma grande empresa, vocês sabem disso. Ele tinha ciência do funcionário mais simples até o alto escalão, se importava com todos, era uma pessoa totalmente ocupada e voltada para o trabalho, e isso nos separou por algum tempo. Ele morava em São Paulo, a vida lá é muito mais dinâmica do que aqui, aqui a gente pode programar uma saída, pode saber a hora que vai chegar. O Omilton se envolveu com São Paulo, São Paulo tomou conta dele e ele de São Paulo. Isso provocava certa distância no convívio... Não uma distância, a gente se comunicava por telefone, mas não convivia junto: “Ah, o Omilton está bem? O Wilson tá bem? Então está tudo bem, não preciso ver, estou sabendo que está tudo bem.” Pela dinâmica do trabalho dele, houve então esse espaço. A gente só se via em casamento... Uma coisa não muito cristã de se falar, mas também em velório. Casamento e algum aniversário esporádico. Ele vinha em Ribeirão Preto e a gente vivia aqueles dois, três dias felizes. Batia um papo muito rápido, porque ele tinha que conversar com todos, não tinha um tempo específico para cada um.

 

P/1 – Mas ele vinha aqui nas datas para Ribeirão? Vinha para cá quando tinha aniversário...

 

R – Vinha!

 

P/1 – Casamento...

 

R – Casamento? Vinha. Ele nunca faltou, mas ele vinha num Sábado e voltava no Domingo, precisava trabalhar...

 

P/1 – E vinha de carro?

 

R – Vinha de carro. Naquele tempo era de carro. Ele nunca deixou de comparecer num evento social assim, um aniversário, qualquer coisa assim, mas ele vinha já com as horas contadas, já com o retorno programado. O Omilton virou uma máquina. Eu estou te dando essa resposta para chegar nessa viagem.

 

P/1 – Na viagem, exatamente...

 

R – Né? Eu não posso dizer diretamente o porquê da viagem. Naturalmente a família do Omilton foi se desenvolvendo. Os filhos deles, hoje, vocês devem conhecer, o Marcelo, o Henri e o Miltinho. Os meninos cresceram dentro desse ambiente saudável, do pai e da mãe. Naturalmente o Omilton foi delegando atribuições para eles, a ponto de que já começou a sobrar algum tempo para o Omilton. Começou a sobrar algum tempo para ele, e nesse tempo que sobrou para ele, ele voltou para a infância, nosso convívio da infância. Aquele convívio simples, humilde, ele quis resgatar isso, para nós. Era um desejo meu conhecer os Estados Unidos, claro. Quem não quer?  De todos, né?

 

P/2 – O Senhor nunca tinha ido, foi a primeira vez?

 

R – Não, nem os outros! Os outros foram através dele, foram isoladamente. O Ulisses foi já umas duas vezes com o Omilton. Acho que foi até a negócio, não sei... Mas especificamente para férias, para descansar, comentar sobre a nossa infância, foram os quatro juntos. Só não foi a minha irmã porque é mulher. Eu queria que ela fosse: “Mas o quê é que tem?” O Omilton: “Oh, como Wilson? Como ____________. Trazer a Lena aqui?” Eu falei: “Mas por que não? Nós podemos conviver com ela como quando a gente era criança. Anjo não tem sexo! É a minha irmã!” (risos) “Mas e na hora de tomar um banho?” Eu falei: “O quê é que tem? Vira as costas! Ela vai se sentir a vontade e nós também, não vai ter impedimento nenhum.” É brincadeira isso, claro, estou ilustrando. Mas a gente até que gostaria que ela estivesse lá sim. Aí ele me falou: “Mas então, como é que a gente faz? A gente vai fazer umas saídas noturnas, como é que fica?” (risos) Eu falei: “ Mas não vai ter muitas consequências isso não, ela também sabe da existência de tudo isso, não vai ter nada, né?” Mas então, esse passeio que nós tivemos de 15 dias nos Estados Unidos foi um resgate...

 

P/1 - Da infância!

 

R – Não que ele devia isso para nós.

 

P/1 – Um resgate do viver!

 

R – Do viver! Tanto é que nós temos uma fita gravada sobre essa viagem. Até, ainda hoje, eu ouvi essa fita. Cada vez em quando eu ouço essa fita, só para ouvir a voz dele. Eu digo que eu sinto ele aqui, mas a gente ouvindo a voz é melhor, né?  Através de uma gravação, é a voz dele, no qual ele fala sobre essa viagem, para nós mesmos. Como eu te disse, não é um resgate, é ele sentindo a possibilidade de fazer isso pela sobra de tempo que ele adquiriu após os filhos. Também já estar capacitado para resolver alguns problemas em parte dele, porque o Omilton foi um líder até no fim, ele delegava algumas coisas, mas ele metia o bico em tudo. Ele não dava 100%: “Oh, você vai fazer isso, não quero nem saber o quê você está fazendo. Nem você, nem você.” Ficava cutucando. Os próprios filhos dele falavam: Ô pai, dá um tempo! Vai passear com os seus irmãos, deixa a gente um pouquinho livre.” E o Omilton levava isso na esportiva, claro, mas nunca desatencioso. O Oilton sempre foi muito ligado à empresa dele, tanto é que virou tudo isso aí graças a esse empenho dele.

 

P/1 – Mas ele era uma pessoa com tantas ocupações. Era de fácil convívio ou era daqueles executivos que você não consegue falar?

 

R – Não! O Omilton era muito acessível. Ele achava tempo para tudo, para tudo! Era interessante. Agora, você, um pouquinho de tudo isso que ele fazia, mas ele não deixava de atender ninguém não, o Omilton não era assim.

 

P/1 – Ele chegava a dar atenção, né?

 

R – Dar atenção. Era muito caridoso também, muito caridoso. Vou voltar uns anos atrás, quando o Omilton viajava aqui por Ribeirão Preto, ou na Pan Química, as estradas eram todas de terra ainda, ele viajava num fusquinha, muito velho por sinal. Ele oferecia carona para andarilho, e teve a desfeita de, uma vez, um andarilho dizer: “Não senhor, eu prefiro ir a pé, é minha profissão andar a pé.” Isso quem contou para nós foi quem estava com o Omilton, outro representante que viajou de carona com o Omilton. Contou pra nós morrendo de rir, achando engraçado: “O teu irmão parou para dar carona para um andarilho  e o andarilho desfez da carona dele!”

 

P/1 – Não anda de fusca!

 

R – Não! É, não anda de carro! Ele é andarilho! Andarilho é andarilho, tem que andar. (risos) Ele falou: “Mas eu sou andarilho, se eu pegar uma carona do senhor, não sou andarilho.” Mas é porque ele era caridoso, o Omilton.

 

P/1 – Solidário.

 

R – Solidário. Nesse tempo ele não tinha, assim, tantos recursos. Ele viajava em dois para dividir as despesas da gasolina. Eu estou lembrando de coisas anteriores aqui, depois vocês vão ter que fazer um monte de corte. Isso é verídico, gente, não é invenção não!  O Omilton era muito caridoso, sempre enfiou a mão no bolso e deu a moeda para um mendigo, naquele tempo.

 

P/2 – Ele tinha algum envolvimento com alguma instituição de caridade, de alguma obra assistencial ou de alguma coisa desse tipo?

 

R - Se não tinha financeiramente, tinha com a presença dele. A senhora dele pode até ilustrar isso e contar para você, essa área eu não vou entrar não, mas o Omilton sempre foi caridoso. Haja visto que hoje...   (pausa) Você vai dar uma desligadinha no timer?

 

P/2 – Não, pode continuar falando.

 

R – A fita é grande? Porque a minha já acabou. Você escutou o “clique”? (risos)

 

P/1 – Mas fala uma coisa, o senhor falou que escutou ele falando dessa viagem. É um vídeo sobre a viagem, né? Eu vi esse vídeo.

 

R – É, mas depois no fim teve um encerramento. No último dia...

 

P/1 – É outro vídeo?

 

R – Não, não, é o mesmo! Aquela viagem... Até a gente era amador, não sabíamos filmar...

 

P/1 – Mas eu vi inteiro e não vi esse final...

 

R – Ah, não, mas no final nós sentamos na sala do apartamento dele lá em Miami, então nós fomos discutir nossa viagem, contar...   (pausa) Está gravando?

 

P/1 – Esá! Foram discutir a viagem, contar...

 

R − Nossa senhora, esqueci! No fim dessa gravação, Marina... Agora você vai prestar mais atenção porque eu vou te lembrar eu até poderia ter trazido essa fita...

 

P/1 – Está muito saltado, eu acho que andaram editando a fita...

 

R – Ah, inverteram!

 

P/1 – Uma hora vocês estão em Nova York, outra hora vocês estão em New Orleans...

 

R – E voltou para Nova York. É, a montagem não foi perfeita não. É o final da segunda fita, é numero um e dois!

 

P/1 – Ah não, só tinha uma!

 

R – Tem a um e dois, foi o Omiltom que me deu as fitas...

 

P/1 – A que veio para minha mão era só uma.

 

R – Então vê lá a número dois.  No volume dois, no fim, foi quando a gente já estava sentado na sala do apartamento dele, os quatro irmãos. O Omilton fez uma palestra com a gente referente a viagem. A felicidade de ele estar junto da gente ele expressou, e nós expressamos o nosso contentamento de estar com ele, nos Estados Unidos, através dele, da Mercia... Ele usa até umas palavras muito bacanas, sensíveis. Agora, com a ausência dele a gente fica até mais acanhado. A gente parece que vê toda hora essa fita, e ouvir a voz dele e as palavras que ele usa é muito bacana, muito sensível mesmo. Eu gostaria de trazer essa fita, mas vocês não tinham um videocassete para ouvir aqui. Mas a Mercia deve ter essa fita, a segunda, viu! Não esqueçam.

 

P/1 – É, eu vi uma só.

 

R – É o final. No começo tem o passeio, no final tem essa palestra lá na sala. Depois viemos embora, já estávamos até trocados, com as malas até aparecendo nessa despedida. Acabou a fita e o filme e viemos embora. Dali a um mês ele mandou essa fita pra nós.

 

P/1 – Depois dessa viagem vocês viajaram juntos novamente?

 

R – Marina, havia sido programada uma viagem para a Europa no ano seguinte, ou seja, em 97. Nós fomos para lá em 96, outubro de 96; Miami, NovaYork, New Orleans e Orlando. E já nessa gravação da fita o Milton falou: “O ano que vem nós vamos para a Europa, vamos conhecer a nossa origem.” Ele já conhece, ele queria levar a gente. “Nós vamos lá em (Chera?)” Você me perguntou de que lado da Itália meus avós vieram: (Chera?)! Eu não sei nem se estou soletrando direito esse nome, eu não sei se é na Baixa Calábria... O Omilton falou: “Eu vou levar vocês aonde eu já fui e os parentes bateram a porta na minha cara. Acho que estavam pensando que eu fui pedir dinheiro emprestado para vir embora para o Brasil.” (risos) Ele falou: “Nós vamos lá o ano que vem.” Ele falou nessa fita aí.

 

P/1 – Aí era 96. O ano que vem era 97...

 

R – Noventa e sete, mas aí acho que houve um imprevisto e ele, não sei se por questão climatérica lá na Europa, falou: “Gente, nós vamos em 98.”... Deixa eu ver se estou sintonizado... Foi quando ele veio a falecer, faleceu em 98. “Nós vamos em 98.” Ele já tinha tudo programado, já estava providenciando alguma coisa, fazendo um roteiro. Aí, infelizmente, aconteceu o inevitável, ele se foi. Mas ele ia começar a viver, Marina. A Mercia e os filhos: “ô pai, vai passear, vai descansar, viaje com os seus irmãos.” E juntando a vontade que ele tinha de fazer isso, foi um prato cheio para ele. Então a gente ia começar a viver, usufruir daquilo que a vida ofereceu para ele, justamente. E nós fomos ceifados de tudo isso com a falta dele, infelizmente. Não é pela viagem, não. Volto a repetir, gostaria que ele estivesse aqui, brigando comigo, me xingando, trocando palavra com ele, uns tapas... Eu queria que ele estivesse aqui.

 

P/2 – Falaram para nós perguntarmos, porque o senhor lembra muito disso, das broncas que ele dava no Osvaldo.

 

R – Nossa senhora!

 

P/1 – Ah, então fala disso aí: por quê?

 

R – O Omilton sempre foi assim, diferente. Diferente não, não é o termo. Irmão não é diferente, irmão é tudo igual.

 

P/2 – Especial.

 

R – É, o Omilton sempre quis o melhor para a gente também, não era só pra ele não. Ele dividia as coisas boas com a gente. Só que as ruins ele não tolerava não (risos). Ele não aceitava as ruins, nem corrigia, já ia com tudo em cima da gente. É aquele ditado, o Osvaldo, por ser o mais novo... É o caçula dos homens, vocês vão falar com ele, ele vai lembrar disso também. O Omilton, socialmente também, aqui em Ribeirão Preto, logo se engajou na sociedade. Já conhecia o gerente da Drogadada, já visitava médicos, farmácias, então ele já se tornou conhecido, era uma pessoa muito bem apessoada, bonito igual eu, assim!  (risos) Muito mais bonito, ele já estava ficando refinado, sabe? Andava bonitinho, bem arrumadinho, então ele tinha orgulho de que os irmãos também fossem igual. Ele queria ver todos nós igual, e o Osvaldo, por ser o caçula, acho que ainda não tinha arrumado uns empregos efetivos, o que aparecia ele pegava. Um dia ele me aparece lá com um carrinho cheio de doce para vender. (risos) Bicicleta, adaptado um baú cheio de doce, de Muzambinho, até, doces de leite Muzambinho. Parou lá na porta todo contente, dizendo para nós que havia arrumado uma atividade, que ia ganhar alguma coisa. O Omilton chegou lá fora: “Vai entregar isso imediatamente, se não eu te arrebento aqui!” “Mas Omilton...” “Vai entregar isso, arruma outra coisa, o quê é isso?” Nossa senhora! Foi o que eu te falei, já estava empertigadinho, já estava se introduzindo na sociedade. Não sei se naquele momento ele não desejava aquilo para o Osvaldo. Só que o Omilton sempre incutiu um negócio na cabeça: “Nós temos que trabalhar!” Ele tinha um ditado: “Cobra que não anda não engole sapo!” Essa era a frase dele. Não sei onde ele leu isso, mas falava isso pra gente. Nunca parado, sempre em movimento, então ele agitava a gente para a gente melhorar. E agora, no fim, que a gente ia usufruir de tudo isso, infelizmente esse acontecimento... Mas o Osvaldo não foi uma vítima, ele foi... Por ser o mais novo, demorou um pouquinho mais para chegar no Omilton, porque hoje o Osvaldo tem 57, para 62 é uma diferença de 5 anos. A minha e do Omilton já é 3, do Ulisses é mais um e meio, é um degrauzinho assim, né?

 

P/1 – Mas ele, por ser caçula, era um caçula problema?

 

R – O Vado? Ah, eu acho que...

 

P/1 – Os caçulas sempre são um pouco mais difíceis...

 

R – É, porque a gente vai melhorando a atividade da gente, os mais novos a gente vai esquecendo de dar aquela força, e eles, às vezes, fazem alguma coisa por si, e não é muito correta, então ele levava mais bronca do que os outros. Eu também levava umas boas broncas do Omilton, nossa senhora!

 

P/2 – Por quê?

 

R – São coisas que eu não sei se valem a pena lembrar, mas ele criticava a gente construtivamente, claro. “Não, você não deve fazer isso!” “Mas eu acho que eu devo fazer!” A gente entrava às vezes em discussão. Só que hoje, com nossa idade, a gente vê que ele tinha razão. Mas hoje é que eu estou vendo que ele tinha razão em tudo àquilo que ele me dizia. No momento eu queria fazer tudo aquilo que tinha que ser feito. Eu achava que, no meu conceito, eu vou fazer. “Não, você não vai fazer porque não vai dar certo.” “Como é que você sabe que não vai dar certo?” “Eu já convivi com isso daqui e sei que não vai dar certo. Você não vai fazer isso.” “Mas eu vou!” “Então faça, só que não vai dar certo.” Uma discussão que eu saia até... Que extrapolava às vezes. Eu estou só maneirando. (risos) Mas o gênio dele era bom, ele queria ver o melhor pra gente...

 

P/1 – Ele era muito alegre ou era mais sisudo?

 

R- O Omilton, deixa eu recapitular... Ele tinha uns altos e baixos, tinha uns momentos alegres e uns momentos também de seriedade, sisudo, né? Quando ele estava, digamos assim, remoendo alguma coisa que ele estava bolando fazer, ficava sério, mas ele sempre participou de brincadeiras também.

 

P/1 – Ele gostava de sair, gostava de programa, gostava de dançar?

 

R – Gostava muito de dança, nossa! Ele deve ter fotos, era dançarino. Eu não vou falar muita coisa, senão a Mercia pode ficar sabendo, puxa vida! Não é assim não. (risos) O Omilton era um galãzinho, viu? Galã com galinho! (risos), mas não vá contar isso para a Mercia, eu gosto muito da Mercia, nossa senhora... (pausa) É uma brincadeira, isso é próprio de uma pessoa jovem, descomprometida, de ter esses ímpetos. Ele gostava do “Baile Branco” da faculdade de medicina aqui. O Omilton sempre andou bem arrumadinho, bonitinho, por isso que eu dava uma “filadinha” nos ternos dele para eu dar uns passeios por aí... (risos) O Vado também, a gente sempre ia ao guarda-roupa: “O Omilton está aí? Ele está viajando? Vamos pegar um terninho dele!” (risos).

 

P/1 – Batia a altura com vocês?

 

R – Tudo lá em casa é “tampinha”, minha filha! O mais alto é o Vado, que vocês vão ver. Na verdade é um pouquinho assim mais alto.

 

P/1- Vocês todos têm mais ou menos a mesma altura?

 

R – A mesma altura, mesmo pé... O sapato meu e do Omilton é igualzinho, só troca o pé, o sapato é o mesmo (risos). O Ulisses é um pouquinho mais rechonchudinho, ele sempre foi o mais gordinho, ele tem o apelido de “gordinho” até hoje. O Ulisses é especialista em pôr apelido. O Ulisses, como é que fala... É o satírico da família, só tira sarro da gente. Põe apelido em todo mundo, e pega, viu? Mas ele é alegre, o Ulisses é muito bonachão, muito bacana também. Todos são bacanas...

 

P/1 – Você também é muito alegre, né?

 

R – Meio reprimido, viu, Marina.

 

P/1 – Precisei pôr uma camisa de força para você falar, porque estava voando...

 

R – Não, então... Porque se eu tivesse sido mais ou menos assim, preparado, né? Eu quis buscar muito lá no fundo e algumas coisas ficam meio complicadas. A gente não tem capacidade de, sei lá, fazer muita coisa, fazer uma sequência. Eu até tinha escrito algumas coisas aqui para lembrar vocês, agora, antes de vir para cá.  Não foi nada premeditado, mesmo porque não sabia como é que ia ser feita esta entrevista. Até pretendia gravar uma fita e dar para vocês, conforme gravei. Mas o que gravou aqui, gravou só parcialmente também, não adiantou nada. Essa fita deve ter um rolo de 500 metros. (risos) Eu trouxe os nomes aqui, e já vi que vocês já anotaram aí, meus irmãos já devem ter passado para vocês os amigos dele aqui.

 

P/1 – Tem uma turma aí no seu papelzinho...

 

R – Não, aqui, por exemplo eu pus aqui “Café Pinho”, porque eu quis, meus irmãos podem...

 

P/2 – É um tópico?

 

R – É um tópico, justamente. Vocês podem ter esquecido disso, eu acho que aqui foi um degrau da vida dele, foi o degrau do meio, digamos assim. Foi daqui, do Café Pinho, servindo café no balcão, que ele recebeu a proposta para trabalhar na Drogadada. Foi nessa época que ele entrou na área de medicamentos...

 

P/1 – Ah, espera um pouco, desculpe, era “Café Pinho” ?

 

R – Café Pinho!

 

P/1 – Eu entendi “Pinguim”, eu falei: “ não era da mesma rede...”

 

R – É Pinho, você tem razão! Eu fiz confusão com...

 

P/1 – Ah... Então é Pinho, não Pinguim...

 

R – É, eu estou lendo aqui: Café Pinho. Mas está gravado, você vai ver. Chamava Café Pinho: “p”, “i”, “n”, “h”... A ascensão dele... Ascensão, não, eu não digo ascensão porque sem batalha... A ascensão foi dele mesmo. Não foi porque ele serviu café, foi porque ele era realmente capacitado, era uma pessoa muito esforçada, digna de ocupação existente. Isso não é porque é meu irmão, eu falo com a boca cheia, tenho orgulho até hoje. Mesmo ele não estando presente eu falo dele para os meus amigos, falo com muito orgulho de tudo o que ele fez. Como se eu estivesse sentindo, convivendo com ele isso...

 

P/2 – Fale alguma coisa especial que aconteceu, um fato com o senhor e com ele só...

 

P/1 – Uma coisa marcante...

 

R – Ah, na infância, sim! Está aqui, eu até escrevi aqui... Não, eu não escrevi...

 

P/2 – Aquela coisa que o senhor sempre lembra, que é uma coisa só de vocês dois...

 

R – Vamos tirar os óculos que eu não raciocino de óculos (risos) Interessante, né? Tira o reflexo... Não, não! Divergência a gente teve muita, sim. Divergências, mas construtivas. Dele para mim, ele me corrigindo de algumas coisas que eu não poderia ter feito certo, mas eu não saberia, no momento, avaliar como ele. Então eu recebi muitas críticas nesse sentido. Eu não sabia avaliar como ele. Ele estava enxergando que tinha alguma coisa errada, e eu não estava enxergando, é uma divergência lógica. Só que agora, com esta idade, que a gente passa uma régua e vê que ele estava certo. Mas particularmente...

 

P/1 – Alguma coisa engraçada? Alguma coisa que era só do relacionamento de vocês dois?

 

R – Dos dois? Nós sempre fizemos as coisas coletivamente.

 

P/1 – Ah, tá.

 

R- Assim, pessoalmente, eu e o Omilton, ou eu e o Ulisses, ou o Ulisses e o Omilton, o Osvaldo, eu não tenho lembrança nenhuma assim não. A única coisa que vocês me fizeram lembrar foi uma coisa muito interessante, isso aí ainda foi em Igarapava, estou retroagindo a história. Vamos voltar lá em Igarapava. O Omilton, por ser o mais velho e muito inteligente... Nós também puxamos ele na inteligência, mas não pra... (risos) Ele passou a não acreditar no Papai Noel antes de nós (risos). Vocês entenderam o que eu quis dizer? Ele aprendeu primeiro do que nós a não acreditar que existe Papai Noel (risos). Então de uma feita, lá em Igarapava, os quatro irmãos dele – que estão no meio – ainda acreditavam em Papai Noel, ele não, ele via o meu pai e a minha mãe comprarem os presentes de Natal. Eu não sei como ele via, ele não ia junto, era perspicaz. Naturalmente nossos pais sabiam o que eu ia ganhar, o que ele ia ganhar e o que o outro ia ganhar, não é isso? Os pais sabiam. E o Omilton, muito vivaldino, o que ele fazia? O que ele fez numa noite de Natal lá em Igarapava? Naquele tempo era bem original, os presentes ficavam bem em cima do fogão à lenha. A mamãe punha lá uma toalha e nós púnhamos os nossos calçados – A gente quase não usava calçados também, andava com o pezão no chão –, mas tinha que ser uma botininha, né? No dia do aniversário ou do casamento a gente tinha que ter uma botina. Então, todo mundo punha sua botina em cima do fogão. E, nas festas de Natal, todo mundo ia dormir cedo para logo chegar o outro dia e ver o que tinha ganhado. O Omilton, muito safardana... Eu vou usar esse termo carinhoso, que hoje se tornou carinhoso, porque se eu falasse naquele tempo, eu apanhava (risos). Mas hoje nós nos divertimos a esse respeito, a gente comentou isso nessa viagem e deu até risada sobre isso. Ele levantava de madrugada e ia lá trocar os presentes.

 

P/1 – Ah, mas com que critério?

 

R – Com que critério? Safadeza dele (risos). Ele achava que aquilo que ele ganhou, digamos, não era o que ele queria, ele queria aquilo que eu ganhei, suponhamos. Pegava o meu e trocava com o dele. Às vezes não era nem o meu, era o do outro irmão. Ele fazia isso, trocava o presente. Aí no outro dia todo mundo levantava e ia pegar os seus presentes, minha mãe olhava para ele e fazia assim: “Uuuuuhhhh!” Como que bem diz, “eu sei o que você fez, seu safado!” Mas não falava para não tirar aquela fantasia da gente de que Papai Noel existe. Isso foi um fato coletivo, não foi um particular entre eu e ele; não foi comigo, talvez, que ele trocou o presente, eu nem lembro disso. Mas ele fazia fez isso uma vez só, depois minha mãe deu um couro nele  que ele nunca mais fez (risos). Nós apanhávamos muito de nossos pais...

 

P/1 – Do pai?

 

R – Do pai! É, da mãe também... Acho que até falta um pedacinho de orelha aqui, não falta? Deixa eu ver! Uma das duas falta um pedacinho. Nós éramos arteiros...

 

P/1 – Não, isso é brincadeira!

 

R – Não, minha mãe...

 

P/1 – Sério?

 

R – Pregou o dedo nas orelhas da gente. Naquele tempo, minha filha, era na chibata! Nós fomos educados de outra forma, tanto é que talvez isso que a gente estava comentando antes... O que nós fazíamos com os nossos filhos antes... Está certo que nós estamos vivendo uma época diferente, tem que mais é ser feito isso mesmo, mas naquele tempo... Nós não precisávamos de castigo na rua, a gente já tinha recebido dentro de casa mesmo. Eu esqueci de uma coisa, eu pretendia fazer uma sequência, mas eu estou vendo que vocês estão morrendo de frio e eu também... Vocês devem estar cansadas, uma sequência...

 

P/1 – Abre a porta, vem um ar quente...

 

R – ____________________ trabalhou na Camisaria Ema – aqui eu mencionei –, ex-Pan Química, Lilly, (Vadel?), Sintofarma e Biosintética. Depois eu vou fornecer estes nomes aqui para ver se alguém já forneceu ou não. Eram amigos dele, esses amigos de baile, trabalharam juntos na Drogadada. Aí eu pus os nomes dos existentes, porque alguns também já partiram, então não adianta mencionar os que já partiram. O Omilton também, depois vocês vão fazer todas essas montagens, vai dar certo. Pelo nosso pai todos teriam sido lavradores. Vocês vão estar com ele amanhã, vocês vão ver, é uma pessoa muito simples, até hoje. Somando a idade que ele já está, 86 anos... Eu gosto dele muito, não estou metendo o pau nele não, poxa! Amo meu pai, minha mãe e meus irmãos. E hoje, nós, com todas as surras que nós levamos dele... O Omilton também não escapou não, ele era o mais velho, apanhava em nome de todos, às vezes (risos). Vocês vão entrevistar meu pai, vocês vão ver que ele é muito simples. Com o agravante da idade, ele vai, às vezes, narrar até coisas, digamos assim, muito... Autêntico demais, coisa que até não precisava dizer ele vai dizer. Isso que você me perguntou ele às vezes pode ter uma resposta, eu não tenho. Coisas assim, acontecimentos a dois, no caso. Dois: eu, você; você ou eu.

 

P/1 – Certo!

 

R – Ele talvez deva falar. Mas ele era muito enérgico, meu pai não era... Mas muito enérgico! Mas apanhava mesmo. Mas isso aí... A gente nem por isso é traumatizado, nem tem revolta e nem deixou de gostar dos nossos pais.

 

P/1 – Como é que chamava o chicotinho que ele tinha para bater em vocês? Correia...

 

R – Correia de ventilador de caminhão!

 

P/1 – Pois é, tinha um nome, não?

 

P/2 – Não, ele falou que era...

 

R – Rabo de Tatu!

 

P/2 – Rabo de tatu, é!

 

R – Rabo de Tatu! Ficava pendurado atrás da porta da cozinha, é um...

 

P/1 – Mas tem um nome, não?

 

R – É chicote, rabo de tatu, tudo uma coisa só.

 

P/1 – Não, um apelido...

 

R – É arreio?

 

P/1 – Não, é porque ele falou: “Psicólogo, nada! Psicólogo era aquele chicote...”.

 

R – É, justamente. Hoje qualquer coisinha, qualquer deslize de uma criança: “É, vou levar ao psicólogo!” Que levar no psicólogo coisa nenhuma! No nosso tempo era porrete, apanhava mesmo...

 

P/1 – Vocês sentiram assim, na casa de seus pais, sinais da cultura italiana em alguma coisa?

 

R – Quando os meus tios, irmãos da minha mãe e irmãos do meu pai vinham nos visitar, a gente sentia esse clima, porque eles conversavam inclusive em italiano.

 

P/1 – Mas o que mais tinha de referência à Itália na vida de vocês, cotidiana?

 

R – Não, as expressões, né?

 

P/1 – Comida, expressões?

 

R – Comida era aquela macarronada de Domingo; só, também. De Domingo matava um franguinho e dava para a família inteira. Nós éramos em sete, e dava para a família inteira. E macarrão. Refrigerante? Só no natal! (risos) Naquele tempo não era tão divulgado, só tinha Coca-Cola. Então, para nós, a gente sabia quando era Domingo porque tinha frango e macarronada...

 

P/1 – Nem Coca-Cola?

 

R – Não, não tinha nada

 

P/1 – Não era Tubaína?

 

R – Tubaína era um derivado da ________.

 

P/1 – Era um xarope.

 

R – Um xarope doce com gosto de guaraná, sei lá. O guaraná é a própria planta, né?

 

P/1 – Guaraná tinha?

 

R – Mas a gente não era subnutrido, porque a gente morava em cidade pequena e  tudo fartura, frutas... A gente andava dois quarteirões já estava na periferia da cidade, estava no meio do mato. Igarapava é uma cidade pequena, só andava dois, três quarteirões já estava no mato. Você passava uma cerca e já estava no mato. Então a gente comia muitas frutas silvestres, todos nós. Naquele tempo era marolo, nós chamávamos de araticum. Hoje eles vendem na rua e chamam marolo. Nós aprendemos, em italiano é araticum. Araçá, uma goiabinha do mato, fruta do lobo... A gente comia tudo o que aparecia, tudo o que era bonito na árvore a gente comia. Se fosse veneno também... (risos) Então nós temos os anticorpos de tudo eu acho, só para artéria é que nós não tivemos um antídoto, sei lá, se existisse. Mas a gente vivia muito o oxigênio, no mato, a vegetação... Nós éramos criados pelos pais, tudo bem, mas assim, fazendo uma comparação com antigamente, a gente era uns animaizinhos (risos). O pezinho da gente era rachado, eu passava feijão-pagão para eliminar a dor no pé. Nós éramos, olha...

 

P/1 – Dor como? Por quê?

 

R – Porque rachava no inverno...

 

P/1 - E ficava seco.

 

R – Ressecava a pele, fazia aquelas brechas. O único remédio naquele tempo era sebo ou feijão-pagão; feijão cozido só. Eu não sei se está valendo a pena eu dizer tudo isso, mas são fatos pitorescos, é a existência da gente. Vocês nasceram em cidade? Quem nasce no mato, até chegar nesse ponto, tem muita história pra contar, porque...

 

P/1 – E tinha luz?

 

R – Não, na fazenda não, era lamparina a querosene, no outro dia amanhecia com o nariz todo preto. Você respirava, né? Aquilo ficou aquela coisa preta pregada aqui (risos).  Chuveiro elétrico também não tinha, vaso sanitário também não, viu? Não era vaso sanitário também não, isso aí meu pai que é especialista de contar essas histórias. Vocês perguntam para ele... Mas se é importante isso, para saber a origem de uma pessoa, tipo o Milton, porque uma pessoa, ela se destaca por quê?  Hoje o político se destaca porque ele faz uma coisa de vulto. Um cantor que se expressa bem faz uma vendagem (sic) de discos absurda. Mas muitas dessas pessoas não têm uma história para contar, ou não é uma história muito significante a ponto de ser contada. Às vezes as pessoas vencem por caminhos tortuosos, então o orgulho que a gente tem de contar essas pequenas coisas, tipo, sem muita importância, é simplesmente por causa do Omilton, por se tratar de uma pessoa que chegou ao ponto que chegou e ter uma história dessas para contar, porque ele mesmo, pessoalmente, não está aqui para contar, vocês estão usando os irmãos. Usando não, estão pedindo para que os irmão façam essa divulgação, então estou me sentindo à vontade para lembrar dessas coisinhas. Mas a ascensão do Omilton, do início até o fim, a palavra sobre o sofrimento que eu te falei é tudo isso, essa falta de conforto. Mas também a gente não conhecia outro tipo de coisa. Então, a ascensão dele...

 

P/2 – Não foi assim um sofrimento...

 

R – Foi uma saga, foi uma vida que veio lá do zero. Hoje os filhos da gente começaram da metade para a frente, porque nós facilitamos a vida deles. Agora nós... Não por culpa de nossos pais, é pela situação do momento, daquele tempo, porque os tempos mudaram. Nós tínhamos a obrigação de nos fazer. Os pais simplesmente botavam a gente no mundo, um ato de amor. Naquele tempo punham no mundo por pôr, né? (risos)

 

P/1 – Vinha em um acidente né?

 

R – Às vezes foi em um acidente. A gente começou do zero, então o que deixa a gente a vontade é saber que o Omilton chegou a esse ponto vindo lá do comecinho, passando por tudo.

 

P/ 1 – E ele contava essas raízes para todo mundo? Ele se orgulhava, como é que é?

 

R – O Omilton? Contava!

 

P/1 – Ou ele omitia?

 

R – Não, ele não tinha orgulho de nada, o Omilton sempre foi uma pessoa muito simples, quem não conhece ele pode até ter outra imaginação, porque é aquele conceito que eu acabo de expressar agora, o conceito de uma pessoa se submeter teoricamente. Existem pessoas que podem até fazer uma má ideia, deve ter feito alguma coisa errada, não existe nada que se possa vencer de um dia para o outro, né?  Então o orgulho que nós temos de divulgar tudo isso lá do fundo, para saber que essa ascensão dele foi por méritos, foi por trabalho, foi vindo lá de baixo... Por isso que ele nunca abandonou, ele nunca deixou de olhar pra trás, nunca. Ele não dava carona para mendigo? Mendigo não, é andarilho, né? Ele não dava carona, ele se sentia na obrigação de ajudar aquela pessoa. Esse Almeida aí vai ter muita coisa para falar do Omilton.

 

P/2 – E sobre a vida profissional dele, o senhor tem alguma coisa a acrescentar, que o senhor saiba? Talvez até desse momento atual, depois que ele comprou a Biosintética. Ele como empresário, o que ele representava para a indústria farmacêutica...

 

R – O Omilton sempre teve muito prestígio na indústria farmacêutica, a partir da Sintofarma. Antes, como profissional, não como executor, como profissional, aí, após gerenciamento da Sintofarma ele começou a ter contato com pessoas ligadas a mais tempo no ramo. Ele, por perspicácia, por inteligência, também foi ocupando esse espaço. Naturalmente ele se saia muito bem, porque pela origem dele, pela perspicácia, pela dedicação, pelo trabalho, ele ampliou a mente dele, vislumbrou coisas muito superiores àquilo que ele estava vivendo, e chegou. Com trabalho e com admiração também. Ele é uma pessoa que, neste ramo, se ele estivesse entre nós, fisicamente, não existiria um lugar mais alto. Ele já chegou no final, tanto é que ele já estava se dedicando a si mesmo, a algum lazer, porque ele atingiu o máximo que podia atingir. A preocupação dele sempre foi a família, os filhos. Deixou tudo, tudo numa plataforma que nem sobe, nem desce mais, chegou no máximo. O relacionamento dele profissional, tanto na política... Assim, ele na indústria farmacêutica e a política que interfere na indústria farmacêutica, ele tinha outro relacionamento. Ele era visto como uma pessoa muito importante no ramo, haja vista que a Mercia esteve muito recentemente em Brasília assistindo a uma homenagem ao Omilton, não faz muito tempo.

 

P/1 – Quem a fez, então?

 

R – Não sei se foi o governo...  Foi o governo federal, porque foi em Brasília. Não sei do que se trata, a gente respeita muito a Mercia, a gente, às vezes, não quer fazer pergunta pra ela sobre o Omilton, porque ela sofre muito. Todos nós estamos sofrendo, só que ela, como companheira, talvez esteja sentindo muito mais a falta. Todos nós estamos sentindo, mas ela, ao modo dela, como esposa... E a gente, para não ficar remexendo uma coisa, se bem que tudo é saudade, poderia até desabafar, fazer bem. Mas a gente está evitando de... Ela vem em casa, eu vou na casa dela, a gente procura ter um relacionamento normal, sem tocar no assunto, entendeu? Justamente. Isso não quer dizer que a gente está desprendido, que a gente esqueceu, absolutamente. Particularmente, sem gravar aqui, quando o Omilton faleceu, eu ia três vezes por dia no cemitério, não me conformava... Até hoje. Essa noite, ainda, eu sonhei com ele, foi aniversário dele ontem... Dia 18 de Janeiro, alguém já deve ter falado alguma...

 

P/1 – Ele está aqui ou está em São Paulo?

 

R – Quando ele faleceu?

 

P/1- Enterrado.

 

R – Aqui, aqui em Ribeirão Preto. A princípio ele pretendia até ser cremado, mas até nisso ele foi magnânimo. Ele, sabedor de que a gente o amava, provavelmente... A Mercia também tem família aqui. Ele, acho que nos últimos momentos decidiu, últimos momentos não, até para morrer o Omilton era uma pessoa de espírito de luz. Ele sabia, sabia como todos nós sabemos! Ele sabia quase que exatamente...

 

P/1 – Sabia? Como assim?

 

R – Não apareceu na gravação, mas lá em Miami houve esse comentário, ele falando pra nós: “Oh, meus irmãos, vocês são sabedores do meu problema cardíaco, eu já sofri duas cirurgias, a minha vida é de risco. Eu, de um momento para outro, vou deixar de existir, sem chances. Eu já não tenho mais nem chances de fazer uma cirurgia, por ultramoderna que seja que me revigorara e vai melhorar o meu estado de saúde, referente à circulação.” Outro tipo de doença ele não tinha, só de circulação mesmo, isso é uma genética também, porque minha mãe também faleceu em virtude disso. Eu também já tive um infartozinho, embora não tenha sido tão grave... Todos nós já passamos por esses exames e todos nós temos propensão, por genética dos antepassados, é o problema que nós temos. O Omilton, nessa viagem de 15 dias lá... Isso não foi gravado, mas ele nos preparou da partida dele, ele só não foi muito exato, claro né. Também, isso não existe. Mas ele já vinha preparando nós e a Mercia, só que a gente sempre tira de letra: “Não, o que é isso, bobagem!” Bobagem...

 

P/1 – Bobagem, não caiu a ficha...

 

R – Mas ele estava preparando nós.

 

P/2 – Acho que ele já estava pressentindo...

 

R – Estava, estava...

 

P/1 – Mas ele estava bem de saúde?

 

R – Estava, o Omilton, até na última hora – a Mercia deve ter dito pra vocês – o Omilton morreu escovando os dentes.

 

P/2 – É, ela falou...

 

R – Ele caiu, simplesmente. Estava escovando os dentes. Estava... Não vou dizer em plena saúde, porque a saúde não era plena, mas foi assim, não foi doente em um hospital, internado.

 

P/1 – Morreu de ______, morreu de ________.

 

R – Morreu como um guerreiro mesmo, que nem o El Cid que eu mencionei para vocês. Vocês vão procurar saber da história do El Cid. Eu não sei falar em inglês não, mas o produtor desse filme é o Cecil...

 

P/1 – B. DeMille!

 

R – B. DeMille, é isso? Esse é o produtor do filme do Ben Hur, dos Dez Mandamentos... Três filmes espetaculares, né? Então eu me lembrei, até nos momentos de reflexão da gente, eu lembrei de mencionar isso, sem pretensão de fazer uma comparação, mas é uma história. Porque o Omilton, pra nós, foi um El Cid, pra nós, particularmente. Talvez não foi para o mundo, mas foi para nós, para mim...

 

P/2 – O senhor acha que a Biosintética tem os produtos dela direcionados... Mais voltados para o mercado _____________, tem alguma coisa a ver com esses problemas de família, em relação à mãe de vocês, que já tinha problemas de coração? A família já tem essa tendência, o senhor acha que tem alguma coisa a ver o senhor Omilton ter dado preferência para produtos (radiológicos?)?

 

R- Rejane, é uma bela pergunta, que merece uma boa resposta. Você fez uma pergunta até muito oportuna. Eu conheço a linha da Biosintética, antes de ser do Omilton. Não era nada realmente direcionada à área cardiológica, não era. Você me aguçou a mente e me deu uma clarividência da coisa.

 

P/2 – É exatamente isso o que eu senti.

 

R – Mas pode ter essa absoluta certeza que realmente foi por esses motivos sim. Sabedor do risco em família, por genética, ele se especializou, o laboratório Biosintética se especializar só em produtos cardiológicos, foi. Não que ele tenha feito algum comentário com a gente. Você percebeu isso, você me alertou o que eu já havia pensado, e conhecendo o Omilton como ele é, a gente conheceu a sensibilidade dele como irmão. Então, você despertou uma resposta lógica que eu posso garantir que sim. Ele, sabedor do problema dele, procurou eliminar os problemas futuros, não da família dele, de todos os sofredores desse mal. Eu não sei se vou usar a expressão certa, mas a magnitude dos pensamentos, a nobreza do coração do Omilton, só pode ter ocorrido isso, a preocupação em salvar as pessoas. Ele ia partir, ele sabia que ia partir por isso, mas deixou uma cura para os eventuais sofredores no futuro. Eu reafirmo isso, essa pergunta sua foi muito... Dentro de uma lógica existente, mesmo. Não que ele tenha comentado, mas é uma verdade, tanto é que ele eliminou todos os produtos secundários.

 

P/2 – Então ele teve essa preferência...

 

R – Cem por cento!

 

P/ 1 – Mas tem ___________ também, tem outros, né?

 

R – Tem, mas...

 

P/1 – Menores.

 

R – Não é por serem menores, é um segundo plano, porque também depender somente... Um laboratório na mão do Omilton tinha que ser dinâmico, tem que fabricar.

 

P/2 – Sempre inovando...

 

R – Sempre inovando e, às vezes, dois ou três produtos não são suficientes para dar aquele crescimento de âmbito nacional que o laboratório precisa, então vai incrementando produtos para andar paralelamente. Naturalmente, para dar receita para se manter 2700 funcionários, que deve ter.

 

P/1 – Nossa, tudo isso?

 

R – Eu não dou essa certeza não, mas parece que eu já ouvi qualquer coisa, entre diretos e indiretos. Indiretos, mas na área, não de consumidores, só na área de produção.

 

P/1 – Ele não fez farmácia?

 

R – Não! Marina, Marina e Rejane, naquele tempo o currículo estava escrito na testa de cada um. Hoje, para ser um simples funcionário você precisa fazer um currículo, precisa fazer currículo por seleção, dado a falta de emprego, não é? Naquele tempo bastava você ter uma boa presença, uma boa aparência. Também ter uma má presença, uma má aparência também era defeito, era um meio de selecionar, naquele tempo eles não exigiam nada de escolaridade. Minha filha, eu estava estudando torneiro mecânico, consertando fogão lá no quintal, peguei uma pasta e no outro dia fui propagar. Qual foi meu currículo, minha referência? Foi o Omilton. Agora, dei uma trupicadinhas lá, dei umas esquivadas, mas eu me sai bem, tanto é que eu trabalhei 30 anos no ramo de medicamentos. Trabalhei até com o Omilton, né? Mas aí cada um segue um caminho, cada um seguiu um desvio. Depois, quando estava...

 

P/2 - ______________________________!

 

R – Quando a gente estava se reencontrando, aconteceu o pior, né? Mas isso acho que não tem nada a ver não.

 

P/2 – E essa época que o senhor trabalhou com o senhor Omilton?

 

R – Ah, então...

 

P/2 – Onde foi, como?

 

R – Foi em 1984, quando ele adquiriu o laboratório Biosintética.

 

P/2 – Ah, então conta um pouquinho...

 

R – Ah, você não está querendo saber muito, não? (risos) O Omilton fez o exército, ele foi convocado para o exército em 1957, e serviu aqui em Pirassununga, aqui no estado de São Paulo, a 115 quilômetros daqui. Até então ele já tinha as experiências de trabalhar em farmácia. Ele saiu da Drogadada, foi prestar o serviço militar. Quando ele retornou, retornou no emprego, de tão qualificado profissionalmente que ele era. E, de uma feita, eu fui passar um Domingo com ele lá em Pirassununga. Ele estava “durango”, sabe? Fumava, como fumou muitos anos. Eu fui fazer uma visita domingueira lá para ele. Tiramos fotos, levei cigarrinho para ele... Ele estava em dificuldades, não perdeu o emprego, mas perdeu todos os... O salário, não recebia nada, só retomou quando voltou, então a gente fazia umas cotizações aqui, entre os irmãos, a mãe, e levava cigarro para ele. Eu tinha um dinheirinho, eu paguei até o almoço pra ele, mas eu me lembro disso com um sentimento de carinho. Não, eu não estou cobrando o almoço dele, não! (risos) Eu acho bacana em função do que ele chegou a ser hoje, a gente fala isso a título de coisas pitorescas. Então eu fui lá fazer essa visita, nós almoçamos juntos, eu entreguei aquele pacote de cigarro para ele e ele ficou todo contente, mas no próprio exército ele se sobressaiu muito, tanto é que ele tinha uma função lá, não era simplesmente um soldado, ele se tornou cabo-enfermeiro em Pirassununga. E ele já tinha... Começou a ter um pequeno salário por essa atividade. Quer dizer que, até lá no exército ele se destacou. Você vê que a carreira dele foi bastante assim, não foi acidentada, foi uma sequência de coisas interessantes que levou ele a esse ramo de medicamentos. Imagine vocês se nós tivéssemos seguido a carreira de nosso pai? Coitado! Não quer dizer que isso seja indigno, mas é uma vida sofrida, muito sofrida. Nós nem culpamos ele, não temos esse trauma. Eu tenho raiva de quem fala que tem trauma. Trauma você cria para poder se desculpar de alguma coisa se você não tem argumentos para se defender. Então você fala: “Ah, eu estou em pane!” (risos) Mas isso não existe. Se a gente parar e refletir, a gente acha uma saída pra tudo, né? É o caso do Omilton; o Omilton achava saída pra tudo. Ele se especializou em aplicação de injeção, curativos, tudo lá no exército. Saiu com honras de cabo, e se ele continuasse no exército, passaria facilmente a um escalão até maior.

 

P/2 – Por que ele saiu?

 

R – Porque acabou o tempo de prestação de serviço no exército. Ele optou por voltar. O que foi muito feliz, porque ele voltou para o emprego anterior, que era o que ele gostava de fazer. E daí foi se desenvolvendo dentro dessas áreas de medicamento, e virou essa potência aí, está deixando esse exemplo pra gente. Eu falo dele com muito orgulho, até esqueço que ele já partiu, mas falo mesmo. Eu falo de boca cheia, tudo o que se refere ao Omilton. Vocês nunca, em outras oportunidades que... Não sei se vai ter... Vou falar uma coisinha que desabou na pessoa dele. No meu conceito e no conceito, eu falo até por muitas pessoas, com muita admiração. Ele se foi muito cedo, mas deixou perpetuando coisas muito bacanas para nós. É aquilo que nos dá o ânimo de continuar essa luta, mesmo envelhecendo, porque os anos são... Não tem como retroagir, está indo para a frente. Eu queria que se arrumasse uma genética diferente, que a gente nascesse com 200 anos e fosse voltando, aí a gente escolhia uma idade para parar (risos).

 

P/1 – No zero anos, por exemplo.

 

R – No zero não, aos 20, 22, 25 anos. Naquele tempo os homens com 18 anos eram homens, já donos das suas ações. Hoje não, hoje um adolescente... Com 30 anos tem cabeça de um adolescente. Sei lá, não sei se eu estou errado nessa afirmação, mas é outra cabeça. Valorizar a vida, a gente precisa valorizar tudo. A gente precisa ter um ponto de partida, de exemplo para poder vencer as dificuldades, conhecendo as dificuldades para sair delas, orientar os nossos filhos. Isso o Omilton soube fazer muito bem, os filhos do Omilton são muito bem orientados. Ele teve a maior felicidade, também, de encontrar a Mercia, como esposa, que também é uma pessoa que deu muito apoio para ele como mulher, como mãe de seus filhos, zelosa de tudo, que cercava o Omilton. Entre irmãos às vezes a gente fala das qualidades dele, fala dos defeitos também, mas o Omilton nunca dirigiu uma palavra referente a, sei lá, qualquer desentendimento com a Mercia na educação dos filhos. Haja vista o que esta aí, os três estão seguindo direitinho a risca o que foi predeterminado. O Milton deixou tudo planificado, planilhado (sic), tudo. Eu acho que daqui mais uns 15, 20 anos, eles vão seguir uma planilha que o Omilton já deixou pronta. O Omilton não parou no tempo, ele fez um seguimento da vida dele para perpetuar mesmo. Não tem como voltar, deve ter tudo isso tão bem feito, que não tem como voltar. Então, se vocês tiverem mais algumas perguntas para fazer, podem fazer...

 

P/1 – Olha, aquela última conversa dele com vocês, na viagem, que não foi gravada, que ele previa a morte dele... Não sei por que foi interrompida nesse ponto nossa entrevista... Ele previu assim, com todas as letras?

 

R – Ah, previu!

 

P/1 – E ele fez recomendações para vocês?

 

R – Ele sempre se preocupou, falou: “Gente, vocês sabem da nossa genética. Nossa mãe já se foi, eu também fui acometido do mesmo problema, só que com a mamãe foi fatal, porque foi de um dia para o outro. Eu ainda tive assim, recursos, sofri duas cirurgias, uma em 82 e a outra em 87.” Ele sofreu duas cirurgias, tomava muito medicamento. Sabia o que fazia, ele sabia da gravidade do caso dele. Chegou a dizer para nós assim: “Olha, meus irmãos, eu estou...” Qual foi a expressão que ele usou... Deixa eu ver se eu lembro exatamente as palavras. “A minha circulação é periférica, meus vasos principais já estão todos comprometidos. Eu estou vivo por circulação periférica. As principais artérias...” – eu estou repetindo, né – “estão comprometidas, então minha vida é uma vida de risco. Eu posso estar aqui agora com vocês, cheguei com vocês, posso não voltar com vocês.” Então onde entram aquelas palavras de conforto da gente, mesmo sabendo da gravidade, porque ele não estava escondendo, estava falando uma coisa que estava acontecendo, ele era super-realista, não tinha medo de nada, tanto é que deixou tudo na mais perfeita ordem, tudo planificado, porque ele sabia disso. Eu sou um cara imprevidente perto dele, eu estou sabendo que eu posso correr o mesmo risco e não estou dando importância; estou fumando, não tomo os medicamentos certos. Por orientação dele, teria parado de fumar já, estou desobedecendo ele, se ele estivesse vivo, estaria me puxando a orelha. Essas coisas que existiam entre nós, assim, essas rixas, essas divergência, e nisso daí, só.

 

P/1 – Mas ele fez alguma recomendação moral para a vida de vocês? Como ele sempre foi o orientador de vocês...

 

R – Não, moral não, porque o Omilton, ele respeitava até os problemas da gente, até ele respeitava a gente.

 

P/1 – Eu quero dizer assim, uma mensagem... Uma hora que você fala “vou morrer logo, então...”.

 

R – Não, ele... Foi o que eu disse para vocês. Todas as vezes que surgiram os erros para a gente cometer, foi nesse vazio de convivência que nós tivemos.

 

P/1 – Sim, mas nesse momento que ele fala isso, os irmãos reunidos na viagem, ele fala mais alguma coisa? Fala do risco de vida e tal...

 

R – Mas Marina, é o seguinte; por não ser um assunto muito agradável – porque não foi agradável – a gente diversificava a conversa, partia para outras pra poder dissipar esse mal-estar que podia até... A gente, sabendo da realidade, queria também não ouvir ela. É aquilo, né? Eu estou ouvindo, mas não quero ver. Então a gente não queria sentir aquele mal-estar de saber que o que ele estava falando era uma realidade, queríamos enganar a gente mesmo, então dispersava o assunto. Ele também entrava na da gente, dispersava também, mas o principal ele já tinha dito, não é? O principal ele já havia dito, não precisava agora ficar...

 

P/1 – Remoendo.

 

R – Falando, esmiuçando aquilo. Ele fazia a gente sofrer, ele percebeu isso, então parou também de falar. Agora, essa despedida gravada, isso aí foram coisas bonitas que ele falou,  “Que nós somos irmãos, sempre nos amamos, poxa vida, precisou passar tanto tempo para a gente descobrir isso, para a gente pôr isso em prática, através desse encontro que nós estamos tendo aqui. Eu estou muito feliz de estar aqui com vocês.” Nós, da mesma forma, ficamos muito feliz em estar com ele lá. Ele deu a palavra para cada um de nós: “O que vocês sentiram da viagem?” Todos nós falamos alguma coisa em agradecimento em poder estar lá com ele, aquela coisa bonita, aquela vontade que eu tinha em conhecer os Estados Unidos, ele me proporcionou isso. Esse sonho, depois, esse sonho foi magoado com a falta dele, mas tudo bem, a idade que a gente tem já serve pra amenizar um pouquinho, saber que a realidade existe. Mas ele está fazendo muita falta, faz. Só a presença dele para nós já era uma força, não precisa nem ter contato, assim. O meu irmão, Omilton, era uma pessoa ilustre, bacana, era uma pessoa de coração bom, uma pessoa solidária, ele é o meu irmão. Que bonito, é o meu irmão! Olha que privilégio ter um irmão como o Omilton, que bonito! É onde a gente não tem raiva dos pais, sabendo das pancadas que nós levamos quando criança. Minha mãe gerou uma pessoa tão bacana, tão bonita, no bom sentido, né?

 

P/1 – A gente já está indo para o final da entrevista. Tem alguma coisa que a gente não conversou e você gostaria de acrescentar?

 

R – Ah, Marina, se você fizer um retrospecto do que eu falei, já saiu...

 

P/1 – Já falou de tudo!

 

R – Falar da pessoa do Omilton, esse é um manancial inesgotável. Tudo o quem você me perguntar dele eu vou repetir, porque talvez eu tenha gravado mil vezes, quantas vezes for necessário. O que eu poderia acrescentar? Que eu estou sentindo a falta dele? A perda lamentável que nós tivemos, mas ao mesmo tempo já havia uma resposta, que ele está aqui presente, para mim, no meu conceito, no meu coração, na minha cabeça, ele está aqui. Só não estou pegando na mão dele, não estou afagando a mão dele como irmão, mas ele existe e vai sempre existir enquanto eu estiver vivo. Para todos nós, eu estou falando em nome de todos. O que ele legou para nós é inesquecível, desde lá de baixo até agora, e quando a gente é tudo criança... A gente tem uma idade que todos se igualam. Aquelas desavenças normais, briga de irmão, isso existia. Você me fez essas perguntas, eu não soube te responder, mas é claro que cinco irmãos juntos... Sempre tem aquela briguinha de que o outro pegou a coxa do frango, que o outro ficou com a asa. “Ah, tá, tá...” Aquelas briguinhas, domésticas. Isso é irrelevante, eu acho, são coisas que acontecem em uma família de cinco irmãos. Tudo isso perdeu importância pela idade que nós temos hoje. Zerou, hoje a gente dá pouca importância para essas coisinhas. Naquele tempo era importante brigar por causa de um prato maior do que o outro (risos). Foi o que eu disse para você, quando a gente deixa de existir, quando um de nós deixou de existir, tudo zerou, ninguém tem defeito, tudo é ótimo. Pelo contrário, nós agora estamos mais preservando um ao outro. Até nisso o Omilton foi um bom exemplo. A perda dele foi tão lamentável que a gente está se valorizando mais, está até convivendo mais com os outros irmãos, nós estamos convivendo mais com minha irmã, com meus outros irmãos, a gente está se juntando mais. Não estamos esperando acontecimentos extraordinários para se encontrar, até isso ele nos legou, que é a vontade de juntar a família, está vendo. E antes daquele afã de prosperar, de trabalhar, de trabalhar, a gente estava esquecendo, estava se distanciando muito. E hoje não, estamos todos juntos, solidários, como ele deixou dito: “Se ajudem uns aos outros!” Então estamos aí.

 

P/1 – Muito obrigada pela entrevista, foi ótima!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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