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História

Meu caneco de plástico azul

Sinopse

A história do meu caneco de plástico azul, que tinha gosto de felicidade

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História completa

Lá pelos anos de 1971, eu vivia com meus pais e meus irmãos na roça. Contava com apenas três anos de idade.Tudo de bom que acontecia em nossas vidas de criança, acontecia na casa de vovô Rubem e vovó Maria. Vovô, não era desses avôs que se apegam muito aos netos e lhes dão muita importância, Era um homem que havia colocado doze filhos na face da Terra e os colocava para trabalharem na terra dura e seca do sertão baiano, que só via chuva, uma ou duas vezes no ano. Dizia, que tinham que plantar para comer e que para comer, teriam então, que trabalhar e plantar. Sua descendência era italiana e pronunciava algumas vezes, palavras que não conseguíamos compreender.

 

Minha avó, dona Maria, era uma pessoa completamente alheia às situações do cotidiano, não gostava dos afazeres domésticos e sempre estava se sentindo mal. Gostava mesmo era de ouvir novela de rádio num cantinho da sala, onde ninguém pudesse importuná-la. Mas, o que vovó mais adorava na vida, era viajar!. Isso sim, para tanto, vovó sempre dava um jeitinho de convencer meu avô a mandá-la para uma viagem a lugares que ela considerava importante para se restabelecer dos seus mal estares. Essas viagens eram quase constantes.

 

Quando vovó estava em casa, gostávamos de dormir, meus irmãos e eu, na casa dela, porque eu, particularmente, adorava me sentar no chão, junto aos seus pés, para ouvir novela de rádio junto com ela. Como casaram-se ainda muito jovens, meus avós, tinham três filhos que eram da mesma idade que eu e meus dois irmãos, ou seja, tios e sobrinhos com a mesma idade. Por isso, dividíamos tudo, desde roupa até calçado, incluindo aí até as escovas de dentes. Não era hábito essa coisa de escovar os dentes todos os dias e se era, na roça, ninguém ligava muito para isso.

 

Minha mãe, era instruída e tentava transmitir seu conhecimento para meu pai e meus avós, mas quando virava as costas, tudo ocorria, conforme os hábitos deles. De todas as coisas que usávamos juntos, a única coisa que eu não permitia que ninguém tocasse, era meu caneco azul de plástico. Era de um azul claro muito lindo!. Gorduchinho em seu formato e com uma alça bem larga, onde podia encaixar toda minha mãozinha. Parecia, que ele me conhecia e às vezes tinha a impressão de que ele me olhava, do lugar onde estava, lavado, limpinho, escorrendo toda água, emborcado no escorredor. Café com leite era o que eu mais gostava e meu caneco também, pois vez ou outra, quando eu cheirava o plástico do meu caneco, podia sentir em sua composição, impregnado em seu corpo gordinho, o cheiro do café com leite quentinho que vovó com muita preguiça fazia. Gostava de beber bem devagarzinho, enquanto as outras crianças, engoliam em três ou quatro goles, para correrem de volta para o terreiro. Observava meu caneco azul com paixão.

 

Com o passar dos anos, fomos para a escola e nessa época, a merenda era mingau de aveia, cozido bem cedo, no fogão à lenha. Na hora de merendar, corria eu depressa para a fila, com meu velho e conhecido caneco azul de plástico, já meio arranhado e gasto de tanto ser lavado. Cansado de tanto café com leite quente, água fria, suco e mingau de aveia. Roto, de um azul desbotado, mas por mim amado, mesmo ele já um tanto disforme.

 

Meu caneco azul de plástico, se perdeu pela vida, perdi seu paradeiro, nem sei onde foi parar meu companheiro. Cresci, trilhei outros caminhos, mas não me esqueço nunca!. Do meu caneco de plástico azul.

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