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Meu avô paterno

História de: Pai Zé
Autor: Marinaldo
Publicado em: 10/01/2020

Sinopse

Meu avô paterno, chamado de "Pai Zé" pelos filhos, parentes e amigos, foi um homem que nasceu em uma cidade da serra paraibana no início dos anos 1900 e migrou para São Paulo na segunda metade do século. Esta história expõe sua vida na roça e depois na capital paulista.

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História completa

Meu avô paterno, o Sr. José, amava observar as estrelas. Mantinha consigo um livro chamado “Cosmografia” cujo conhecimento ele compartilhava com aqueles que ao seu redor tinham sede de saber e também com aqueles que não sabiam ler.

 

“Pai Zé”, como era chamado, viveu 69 anos. Morreu em janeiro de 1973. Só três anos adiante, em 1976, é que eu, Marinaldo, filho de João e Maria, viria ao mundo. Não conheci, portanto, este meu avô em carne e osso, mas o reconheci em mim quando me disseram que ele gostava de livros.

 

UM HOMEM QUE QUERIA SABER

 

Nascido em 1903, em Guarabira, cidade fundada em 1694 no estado da Paraíba, o Sr. José cresceu em uma década que ficou conhecida na história como “Belle Époque”. Era um período de grande transformação cultural, social, artística, tecnológica e política no Brasil e no mundo.

 

Quando ele tinha cinco anos de idade, em 1908, uma parte da região onde morava passou por um processo de emancipação, ao que daí surgiu a cidade de Caiçara. Dentro deste município localizava-se uma vila chamada Serra da Raiz. É nela onde situava-se uma fazenda de nome Engenho Flores, principal local de trabalho e vida de meu avô.

 

A referida fazenda, que segundo meu pai João (que lá viveu) tinha por volta de 20 quilômetros quadrados, passou a existir no século 19. Ela pertenceu a um tal tenente Brasiliano Costa e depois, na primeira metade do século 20, passou para as mãos de sua filha, Naíde Costa Maia.

 

Posteriormente, na década de 1970, o empreendimento fechou as portas e hoje só as abre para o público em visitações agendadas. Nela cultivava-se cana-de-açúcar, mandioca, feijão, milho, algodão; e fabricava-se rapadura, entre outras atividades e negócios.

 

Neste ambiente, em algum momento de sua vida, provavelmente enquanto plantava e colhia, o Sr. José descobriu em si mesmo uma vontade de saber. E esta vontade era tanta que aprendeu a ler em um lugar onde não havia escola, expectativa e nem esperança para estudantes.

 

“Ele tinha uma cartilha de ABC com todas as letras do alfabeto, as de fôrma e as de mão, as maiúsculas e as minúsculas”, conta minha tia, Edite, “ia com esta cartilha até às casas das pessoas mais sabidas e pedia-lhes que lhe ensinassem a ler e escrever”.

 

Não demorou, contudo, para que meu avô aprendesse também a calcular. E não contente em aprender, ele começou a ensinar, “o pai levava aquela cartilha e outros livros na cabeça, debaixo do chapéu, e os lia para os vizinhos, parentes e amigos. Transmitia para os demais todo aquele conhecimento”, conta Edite. Além disso, ele mantinha dentro de sua própria casa uma sala de aulas onde recebia e ensinava as pessoas.

 

Pai Zé devorava as manchetes e as notícias dos jornais que semanalmente chegavam à pacata Serra da Raiz. Estudava livros de aritmética, astronomia e também uma bíblia, que provavelmente lhe teria sido dada por algum parente seminarista. Mas nem só das flores do conhecimento era a vida na serra paraibana.

 

VIDA NO ENGENHO FLORES

 

Entre o final dos anos 1920 e início dos anos 1930, o Sr. José casou-se, em Serra da Raiz, com Francisca (1909), minha avó paterna também chamada de Mãinha, que era seis anos mais nova. Desta união nasceram sete filhos, os meus tios Ciço (1941) e Zuca (1938); as minhas tias Irene (1932), Edite (1935) e Leoniza (1937); a minha madrinha Mariinha (1940); e o meu pai, o Sr. João (1939).

 

Nos anos 1940 e 1950, as nove pessoas desta família trabalhavam nas roças do Engenho Flores juntamente com outros mais de cem indivíduos de outras famílias locais em troca de uns trocados no final do dia.

 

“O Engenho Flores tinha muitas roças familiares e a nossa era administrada por Mãinha”, diz meu pai João, “ela comandava as atividades na base da cantoria. Subia a colina conosco logo atrás, todos nós capinando o mato e ouvindo-a entoar cantos sobre Jesus e Nossa Senhora”, relembra.

 

Enquanto isso, o meu avô José ajudava o administrador do Engenho Flores, o Sr. Jacó, em múltiplas tarefas. E porque havia aprendido a calcular, ele fazia a contabilidade da produção de cada trabalhador e estipulava quanto cada um deveria receber como pagamento. Além disso, registrava no livro da fazenda as atividades ocorridas cotidianamente no lugar, “e quando não estava fazendo isso, ele estava capinando o mato com os outros”, explica meu pai.

 

Na mesma fazenda, o Sr. José tinha outras atividades sendo uma delas ligada ao negócio de rapaduras. Serra da Raiz havia sido, no passado não muito distante, uma das maiores produtoras deste doce na Paraíba. No século 19 funcionavam na região mais de 15 engenhos do tipo, incluindo o de Flores. O meu outro avô (da parte de minha mãe) o Sr. Jorge, que nasceu no município chamado Bananeiras a 42 quilômetros de distância, trabalhava na produção do melaço da rapadura, o que era feito em grandes tachos. Já o meu avô paterno embalava o doce pronto, na palha da própria cana, para que este pudesse ser comercializado nas mercearias.

 

Fora da fazenda, Pai Zé era taipeiro e marceneiro. Ele construía casas com a técnica denominada “taipa”, que consiste em preencher gradeados de madeira com barro amassado. As portas e janelas, era ele quem as serrava e instalava. Produzia também os móveis (mesas e cadeiras). No final, meu avô rebocava tudo com barro e finalizava com uma ou duas mãos de cal. Em muitas destas empreitadas, ele era acompanhado de meu pai.

 

A técnica da taipa, entretanto, não duraria muito mais tempo. Por volta dos anos 1950, as construções de alvenaria desenvolvidas com tijolos e argamassa começariam a chegar na vila. O único colégio do Engenho Flores fora construído desta forma (foto). Meu pai chegou a trabalhar no telhado desta edificação. Era outro estilo de arquitetura, mais robusto, mais austero, menos orgânico.

 

Seja como for, em 1959, Serra da Raiz deixou de ser vila e passou a ser cidade. Mas isso era o de menos, já que os ventos da emancipação atingiram outras áreas muito mais profundas da família e da comunidade. Na época, o filho mais velho de Pai Zé, o meu tio Zuca, partiu para Brasília em busca de novos desafios. Na volta, ele convenceu meu pai e os outros a viajarem também. Não demorou e todos eles cortaram as raízes que lhes prendiam à Serra, e criaram asas. “Voaram” todos para São Paulo.

 

No começo, meu pai ia e vinha. Ele viajou muitas vezes para a capital brasileira, paulista e paraibana. Já em janeiro de 1969, depois de ter se casado com minha mãe na igreja matriz Paróquia Nosso Senhor do Bonfim, ele disse ao meu avô que iria para São Paulo e voltaria em um ano. Meu avô, porém, não quis esperar. Tão logo meu pai virou as costas, o Sr. José vendeu a casa e as quatro cabeças de gado que meu pai mantinha na fazenda, pegou Mãinha e partiu para selva de pedra, aqui chegando em fevereiro do mesmo ano.

 

OUTRA VIDA EM SÃO PAULO

 

Em São Paulo, a vida era completamente diferente. O Sr. José passou a morar em uma casa na avenida Mutinga, em Pirituba. Empregou-se em uma fábrica de rações chamada Granjeiro, na Vila Anastácio, onde exercia várias funções, dentre as quais a de ensacar produtos.

 

Agora, o trabalho resumia-se a oito horas em um ambiente fechado, o que era muito diferente da roça, na qual era possível enxergar os horizontes, observar a natureza, ler a paisagem.

 

O costume de ler, contudo, persistia. Quando via um papel jogado em um canto, logo o pegava para tentar decifrar o que estava escrito.

 

Nas horas vagas ele passava a maior parte do tempo em casa, talvez matutando sobre sua existência, sobre o passado e o presente.

 

Se em Serra da Raiz o Sr. José estava acostumado a ver a dona do Engenho Flores, a Sra. Naíde, subir e descer as alamedas de sua fazenda a bordo de um cabriolet puxado por dois cavalos, agora ele precisava acostumar-se às asfaltadas ruas paulistanas apinhadas de carros motorizados.

 

O ar da capital paulista não podia competir com o ar limpo da serra Paraibana. E a taipa, que era comum por lá, aqui já fora quase toda substituída pela alvenaria. Ademais, não havia agora nenhum açude por perto para relaxar o corpo. Até as pessoas daqui eram diferentes. Elas vestiam-se de outro jeito e, mais do que isso, elas tinham sapatos que separavam seus pés do solo e assim as desconectavam da Terra.

 

Aos 69 anos, o meu avô, o Pai Zé, não precisava mais trabalhar. Ele poderia ter se aposentado. Mas como ninguém lhe ensinara a viver a vida de outra forma mais agradável, ele continuava trabalhando. Um dia, em janeiro de 1973, dentro da fábrica de rações, um infarto investiu sobre ele, e ele sentiu como se o peso de um caminhão tivesse sido colocado sobre seu peito. Foi levado às pressas para Pinheiros onde morreu em um posto de Saúde.

 

LEMBRANÇAS

 

Uma das lembranças mais felizes que a minha tia Edite tem acerca de Pai Zé é a da engenhosidade dele ao construir carrinhos de madeira que tinham apenas uma roda, mas que proporcionavam muitas bem-aventuranças para a família ao longo dos anos 1940.

 

Meu avô punha os seus sete filhos, que na época eram todos crianças, dentro desse tipo de veículo rudimentar e depois os empurrava-conduzia pelas veredas de Serra da Raiz. Era um passeio turístico vila adentro e alegria afora, algo certamente inesquecível para o meu pai, madrinha, tios e tias.

 

Meu pai, por sua vez, recorda-se de que meu avô não ia muito à igreja. Todavia, enquanto o padre rezava a missa em latim no templo, o Sr. José lia a bíblia em Língua Portuguesa para os moradores locais, o que do ponto de vista dele era bem mais interessante.

 

Enfim, como disse no início deste artigo, nunca conheci meu avô paterno em carne e osso. Mas houve uma oportunidade em que a minha mãe conectou-me a ele, como você poderá saber em seguida.

 

Desde há ao menos uns dez anos eu tenho instalado no meu smartphone um aplicativo astronômico chamado Stellarium. Esta maravilha da computação conta com mais de 600 mil estrelas e mais de 1 milhão de objetos de céu profundo catalogados, tudo disponível na palma da mão. Este aplicativo é como se fosse um livro de “Cosmografia” ampliado. Em uma noite sem nuvens, eu posso abrir este sistema no meu celular, aponta-lo para o céu e descobrir o nome de qualquer coisa brilhante acima das nossas cabeças em um piscar de olhos.

 

Há não muito tempo atrás, em uma noite de inverno, era exatamente isso o que eu fazia ao lado de minha mãe, que reconheceu nesta prática algo que o meu avô paterno fazia com frequência, “Pai Zé era quem gostava de fazer isso”, ela disse, “ele apontava para o céu e nos dizia os nomes dos astros”. Foi aí que, apesar de não tê-lo conhecido, me dei conta de que de alguma forma eu herdara dele o gosto pelos livros, pelas estrelas e pela natureza das coisas.

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