Busca avançada



Criar

História

Meu amigo, você acredita em milagre?

História de: Delson da Costa Matos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/10/2015

Sinopse

Delson nasceu praticamente ao mesmo tempo da formação do Bairro Fercal, uma das primeira cidades operárias do Distrito Federal, e com isso ele viu Brasília crescer. Hoje o depoente contribui para o resgate e fortalecimento das tradições festivas religiosas cultivadas por seus ancestrais no mesmo bairro. Veja como a história de Delson tem sido uma profissão de fé e fortalecimento do que no nosso país se entende por sincretismo da cultura com a religião.

Tags

História completa

Eu nasci em 2 de setembro de 1951, neste bairro, aqui em frente à minha casa. Na época era parteira, se não me engano foi a minha própria vó. Então nasci antes mesmo de Brasília. Aqui é um bairro da Fercal, chamado Rua do Mato. Na época não existia a cidade que é hoje, a Rua do Mato se chamava Vão do Buraco e era uma das maiores comunidades rurais do município de Planaltina, que fazia parte de Formosa, Goiás. Aqui na comunidade tem uma igrejinha que tinha uma novena que começou por volta de 1800 e alguma coisa, na época da escravidão. Meu bisavô por parte de pai era escravo e casou com minha bisavó Coleta. Ele morreu e a gente chamava aqui de Coleta. Era uma família muito grande, a maioria homem, se eu não me engano, 18 homens. A fazenda era dos Gomes Rabelo, e os Coleta eram agregados e trabalhavam para o fazendeiro. A família Gomes foi casando e foi ocupando dentro. Aqui era uma mata muito grande e tinha uma estrada carreira no meio da mata onde passava carro de boi para ir para Planaltina. Foram fazendo casa na beira da mata, fazendo casa, foi virando um vilarejo. Aí o pessoal de lá de baixo, do Vão do Buraco, falava assim: “Ah, ele mora na Rua do Mato”. Era pouca distância, mas, por causa da rua de dentro da mata, pegou o nome Rua do Mato.

  Quando eu era criança, a gente morava na roça. O meu pai era vaqueiro responsável pela criação de gado da Fazenda Currais que fica também no Morro Canastra. Depois tinha a Fazenda Lajinha. O que eu lembro é que tinha um quintal muito grande, pomar. Quando chegava próximo às chuvas, a gente ouvia cantar aquela três-potes que de manhãzinha cantava no fundo do quintal. Realmente daí a pouco começava o tempo chuvoso. Na mudança de estação a gente tinha uns sinais da natureza. Naquele tempo era interessante, porque os proprietários não pagavam muito em dinheiro, não. Era tipo assim: de cada três reses que dava, uma era do meu pai. Assim ele trabalhou muito tempo. Quando chegou certa época, ele já tinha um gadinho bom, vendeu o gado e comprou um sítio numa localidade chamada Brocotó aqui pra baixo. Ele mudou pra lá, mas isso já foi cá bem na frente, que foi depois de Brasília.

  Minha juventude era dividida porque eu estudava em Planaltina, só vinha aqui nas férias, vinha pra cá pro nosso leito. Na minha criancice ainda lembro das Folias do Divino que tinha muito na região. E uma novena muito tradicional que foi criada por nossa bisavó Coleta, a novena da Nossa Senhora da Conceição, no dia 8 de dezembro. E o núcleo rural que tinha mais gente era aqui na Rua do Mato. Então vinham as pessoas de mais longe, vinham até de carro de boi, a cavalo, e acampavam lá onde hoje é a igreja, ficavam os nove dias da novena acampados. No último dia, aí o pau quebrava, era forró, era leilão, era desse jeito.

  Acontece que vindo de longe essa tradição, aqui na nossa região era constante, não vinha padre. Eu só fui ver padre quando fui estudar, nunca tinha entrado numa igreja. Então nós fazíamos nossas próprias rezas aqui na região, tinha a novena e tinha as folias. Primeiro a devoção, que é a parte religiosa, depois a diversão, que era a parte da festa... Inclusive eu era criança e paguei uma promessa e, falar francamente, eu tenho crença no Divino Espírito Santo mesmo, sou devoto. Porque tem várias fases na minha vida que eu tenho como testemunho da fé nesse Divino Espírito Santo.

  Depois eu encontrei com o Divino Espírito Santo em 74. Eu entrei numa briga, fui esfaqueado e fiquei internado no hospital uns 40 dias mais ou menos, porque a faca tinha raspado o pulmão. Quando eu saí, o médico falou: “Meu amigo, você acredita em milagre?”. “Doutor, hoje em dia a gente acredita em tudo.” Eu falei: “Por que, doutor?”. “Porque se você acreditar em milagre, pode ter isso como milagre, porque eu fiz a minha obrigação de cirurgião, mas não dava nada pra você e você conseguiu.” Aí quando encontrei uma mulher que eu tinha um caso, ela falou: “Delson, como é que tá, você sarou?”. “Sarei.” “É o seguinte, eu fiz uma promessa pra você, você tem que cumprir.” “Promessa? Que promessa?” “Eu prometi que quando sarasse você ia lá na Trindade e colocava a sua foto na imagem do Divino Espírito Santo.” “É mesmo?”. Quando estava bom, fui lá cumprir minha promessa.

  Meu filho mais velho era um cara jovem, disposto, um cara demais, trabalhador; não tinha coisa ruim pra ele, não. Aí no final de semana, saíram ele e os primos dele, com mais três namoradas, cada um com uma, o carro cheio. De lá pra cá o carro capotou. Rapaz, os outros não tiveram nada, ele foi atirado, ele tava sem cinto, atirado muito longe, caiu dentro de uma grota...

Ele tava praticamente morto na UTI. Nós fomos um dia visitá-lo, o médico falou: “Olha, gente, vocês podem ir preparando de hoje pra amanhã, porque não passa de hoje, não. Teve uma pneumonia, é grave a situação dele, não tem jeito mais não”. Minha mulher entrou e eu saí. No Hospital de Base lá no segundo andar, eu olhei assim, saí, conversei com o Divino Espírito Santo. Fui embora. Quando foi no outro dia de manhã, entramos na UTI, cadê ele? Não tá na UTI. “Cadê?” “Não sei. Deixa eu procurar aqui.” Procuraram, nada, não achavam o nome dele, falei: “Tá lá, né?”. Vem uma pessoa lá do fundo. “Quem é que você tá procurando?” Falei o nome dele. “Tá ali na enfermaria.” “Enfermaria?” Quando cheguei lá, quem tava entubado todo magro... Respirando normalmente e numa cadeira de rodas. Só que ele não tava reconhecendo ninguém, mas estava sentado normalmente. Então eu sou devoto do Divino Espírito Santo por causa disso.

  Nós criamos em 2005 o Grupo de Folia Cavaleiro Divino. Nós criamos pra resgatar a folia tradicional. Às vezes a gente fica preocupado com o futuro nesse local que a gente nasceu. Temos nossas raízes fincadas aqui, então a minha preocupação é preservar esse pouco da nossa tradição, essa semente que nós perdemos no passado, como essas pequenas coisas da tradição da região e a questão da natureza aqui, da preservação do que nós ainda temos. Eu penso assim: se existe em todo esse mundo, existe sim uma cidade que pode conviver com a natureza que nós temos, sem perder as empresas que trabalham aqui na exploração de minério e que são importantes pro desenvolvimento da cidade. Então essa importância não deve ser desprezada, mas tem que haver uma conciliação entre natureza e desenvolvimento.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+