Busca avançada



Criar

História

Metamorfose: do Pupa à agricultura familiar

História de: Yuri José Gonçalves de Almeida
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/04/2019

Sinopse

Yuri José Gonçalves de Almeida nasceu no dia 04 de fevereiro de 1987, no bairro dos Freitas, zona rural de São José dos Campos (SP). É sociólogo e agricultor. Sua família se mudou para os Freitas assim que veio ao mundo, chegaram de Santana, bairro urbano, para tentar um empreendimento social na zona rural, uma creche, um espaço de acolhimento tocado por voluntários. Não há quem não conheça a Dona Natália e o Seu Wilson na região. Em sua infância e adolescência, pôde vivenciar a transformação da zona rural para a zona “periférica” da cidade. As brincadeiras nos rios, as caças às rãs e as fogueiras foram dando lugar à urbe pobre, a sujeira do rio e a violência do tráfico. As enchentes sempre estiveram e ainda continuam por lá... Yuri cresceu refletindo sobre as questões de seu meio, a desigualdade social, a relação entre a cidade e o campo, a religião e o ceticismo, o que lhe levou ao curso de Ciências Sociais. Depois de tempos difíceis, contestação, negação, depressão, ele se encontrou com a permacultura, filosofia de vida (“muito mais do que uma técnica”), que o levou a criar o Pupa, projeto social reconhecido e vencedor de prêmios, uma ação que envolveu acolhimento, bioconstrução, formação e auxílio aos moradores do entorno. 

Tags

História completa

Meu nome é Yuri Almeida. Eu tenho 32 anos e sou nascido aqui no Bairro dos Freitas, na zona rural ou periférica de São José do Campos, São Paulo.

 

A minha família veio viver aqui quando eu tinha um mês, então assim, o meu nascimento foi o momento em que eles resolveram vir para cá, morar para cá. Vieram de um bairro próximo, Bairro de Santana, aqui na cidade, que era um bairro urbano. Eles queriam ter uma vida mais na roça, porque os meus pais vieram da roça, então queriam ficar um pouco mais no campo. E na época, aqui era uma zona rural, como a gente chama.

 

Meus pais se conheceram aqui em São José, eles têm uma diferença de idade, mas são casados há 42 anos. Se conheceram aqui na região. O que é interessante, porque São José cresceu muito rápido, a cidade era muito pequena, são poucas as pessoas que nasceram realmente aqui. E os dois são daqui. Os dois da zona norte, da zona rural de São José. Pelo que sei, eles moravam no mesmo bairro e o meu pai já era divorciado, é o segundo casamento dele, daí o meu pai tem sete filhos e com a minha mãe, ele tem três. Até onde eu sei, a minha mãe era amiga da irmã mais nova do meu pai. E eles foram se conhecendo, ele estava divorciado e eles se conheceram aqui no Alto da Ponte, aqui, ali perto do Paraíba ali, e se casaram. Depois e tiveram três filhos e eu sou o filho do meio dos dois.

 

O meu pai cresceu na roça. Ele é daquelas pessoas que andavam não sei quantos quilômetros para estudar, sabe? Do Jaguari até o centro de São José todos os dias, indo e voltando a pé para estudar... e é superlonge. Acho que ele sempre gostou dessa vida, sempre trabalhou na roça desde cedo, é uma pessoa que trabalhou desde os sete, oito anos de idade. E acho que a minha mãe gostava também porque ela já era do Alto da Ponte, que era uma zona urbana, mas com uma vida muito rural, ainda mais na década de 60, final da década de 50, 60. Então, eu acho que eles já tinham um carinho por essa região. E a minha mãe é uma pessoa muito espiritualizada também, ela diz que sentiu um chamado por aqui, uma coisa mais… Então, eles vieram morar aqui. Eles já tinham uma chácara, acho que a chácara aqui é de 1979, 1980. Eu nasci em 87, e em 87 que eles se mudaram pra cá.

 

Minha infância teve dois momentos. Minha infância foi passando por uma transição, do mundo rural para uma periferia, história desse bairro. Esse rio, que hoje enche aqui, é onde eu nadava. Até os nove, oito anos eu podia nadar, depois a minha mãe não deixava mais. Aí depois, a gente ia em lugares mais longes para nadar. Até os meus… sei lá, quando eu fiz 14 anos, eu já não tinha mais nenhum lugar para nadar no bairro. A gente andava trilhas e, hoje em dia, já não existe mais. Já faz uns 20 anos que não tem mais nenhum ponto para nadar. E aqui, até antes mesmo de eu nascer, era um lugar que as pessoas vinham. Se hoje você vai para São Francisco Xavier e tal, tinha aqui no Freitas a pontezinha, onde é a creche aqui, era um poço, um lugar de nadar das pessoas. Isso antes mesmo de eu nascer.

 

Nesse primeiro momento da minha infância, a gente tinha cavalo, tinha uma plantação de milho, tinha um caseiro, meus pais trabalhavam fora, tinha um caseiro que cuidava e, como eles trabalhavam muito, eu sempre fiquei com o caseiro, andava muito a cavalo, ficava andando atrás do caseiro para cá e para lá, na roça. E daí, vai transitando, né? Conforme vai enchendo o bairro de gente, aí vai passando para outras coisas... Um pouco mais velho, a gente caçava muita rã, a gente pescava traíra aqui no fundo, quando o rio era ainda limpo. Daí têm esses conhecimentos da roça, a mãe de um amigo, ela cozinha rã, então caça rã, leva pra ela que ela sabe fazer. E aí, vamos caçar camarão de água doce, que é o Pitu; leva pra fulana, mãe do fulano que sabe fazer. Nós fomos ficando um pouco mais velhos e nós mesmos passamos a fazer. Levava uma panela de arroz, fazia fogueira no mato e cozinhava para nós mesmos.

 

E aí foi transitando... Depois, soltando pipa, depois foi começando a ter aquela violência no bairro, uma coisa surgindo nesse sentido, e foi transitando para essa vida mais semelhante com a periferia do que uma vida da roça. Não tem mais lugar para nadar, então você tem é que soltar pipa mesmo e se inteirar com aquelas histórias; começam umas histórias meio: “Fulano matou não sei quem, tem um corpo não sei onde”, uma coisa que sempre foi muito presente aqui. Apesar da minha casa nunca ter tido chave, sempre teve o portão aberto, a porta aberta. Até hoje é assim, se você quiser entrar na casa da minha mãe, é só abrir e entrar. A gente nunca teve chave, mas o bairro sempre permeou essa questão da violência, sempre esteve no imaginário, mas a partir de um certo momento... Antes, eu acho que a coisa era um pouco mais simples. Era uma coisa mais de roça: “Fulano correu com a foice atrás do ciclano”, e depois virou uma coisa: “O traficante… e a polícia…”, mudou um pouco a configuração. Acho que antes, o bairro era bruto, era uma coisa meio brutal assim, mas mais simples. Depois, veio uma complexidade, uma ganância, uma coisa diferente. Mudou bem a energia da história.

 

A minha mãe é uma pessoa que se aposentou cedo. Ela era órfã, ela é órfã, e a partir dos 15 anos, os pais dela morreram num espaço de 20 dias. Morreu a mãe e depois morreu o pai em 20 dias, isso que seis meses antes, tinha morrido a irmã mais velha. Então, morreu todo mundo numa época, e ela foi internada em Petrópolis para ser enfermeira. Ela foi cedo para lá e virou enfermeira cedo. Não sei, com 16 anos, ela já trabalhava no hospital e com 42, 44, ela já se aposentou. Algo do tipo. Ela fez Assistência Social bem nessa época, dessa transição, então ela resolveu transformar a chácara em um projeto social. Essa transição é bem marcante para gente. Eu quase estudei no projeto social, começou com uma escolinha. Quando começou aqui o prezinho, eu fui para a primeira série. Meu irmão mais novo já estudou nesse projeto. Então, acho que tem essa crise mesmo de ser um lugar que começou a ficar esquisito, mas ela estava fazendo Assistência Social e a minha mãe é uma pessoa muito forte, uma pessoa que engloba todo mundo, ela é uma irmã mais nova de 11 filhos e é ela que cuida de todo mundo, sabe? Desde criança, ela é aquela pessoa que… A família do meu pai tem 11 filhos também e a minha vó tem 101 anos, tá viva e quem cuida da minha vó e dá as cartas da minha vó é a nora, minha mãe. É uma pessoa que domina tudo. Ela é muito forte, todo mundo confia nela. Então, ela criou esse projeto aqui, e eu acho que foi essa razão: “Ah, será que é um lugar legal? Vamos ajudar o lugar”.

 

Na época, meus pais tinham bastante dinheiro, então eles criaram o projeto para 25, 30 crianças bancando do bolso. Meu pai estava muito bem. E esse projeto ficou uns cinco anos assim, até que… tivemos uma outra transição, meu pai faliu. Ele não tinha mais nada, só que o projeto já conseguia caminhar por conta mais ou menos própria, assim, com trabalho voluntario, mas sem injeção de dinheiro. Nessa transição, eu acho que foi essa a resposta que a família deu e eles estão até hoje aqui, né? Minha mãe mora aqui. Meu pai mora aqui, eles são super envolvidos com tudo aqui. Você pode perguntar em qualquer lugar aqui da Dona Natalia, Seu Wilson, todo mundo sabe quem é.

 

Essa história tem vários pontos. O primeiro é essa vivência de roça, que eu acho que é uma coisa muito importante. O segundo é uma vivência social, porque eles vieram e fizeram uma grande casa. E eu sempre achava muito esquisito, porque começou a vir essa galera, esses barracos, aqui e tal, e sempre teve uma inquietude para mim do tipo: o tamanho da minha casa e o tamanho da casa dos meus amigos. A família do meu pai tinha uma grana, então nós visitávamos os meus primos, naqueles condomínios, aos fins de semana, e durante a semana, eu brincava com as crianças daqui que eram os filhos das empregadas deles, né? E a gente… então tinha essa discrepância muito grande, eu sempre achava esquisito. Tinha uma casa do meu primo que tinham dez quartos, moravam duas empregadas. E aí, eu chegava na casa de um menino que a mãe era empregada e que eles eram em dez, e tinha um quarto de madeira. E a gente ia lá brincar. Eu almoçava com eles e o menino vinha pra cá e não entendia também porquê que a casa da minha mãe era tão grande: “Nossa, essa casa é tão grande, né? Minha casa é tão pequenininha. Minha casa não tem banheiro, é lá fora e tal…”; A minha mãe sempre deixou a gente livre, ela nunca teve preconceito: “Meu filho não pode não”, era a molecada em casa e eu na casa deles, até por causa do projeto social também. Então, eu acho que essa vivência rural, depois essa vivência de realidades, e essa inquietude com essa realidade... A história dos meus pais de querer ter um projeto social e ajudar as pessoas, eu acho que é uma coisa que me influenciou muito, sempre permeou minha vida e essa transição também, porque tem essa história, o meu pai tinha grana e depois não tinha mais.

 

Eu lembro que ele me dava uma mesada que era um absurdo para a época, tipo, 100 reais, em 1995, tipo… é como se uma criança de sete, oito anos ganhasse 500 reais hoje, assim, por mês de mesada. Eu lembro que dava para comprar tudo que eu queria e eu ainda guardava. E ele me deu uma grana assim, por um tempo. Eu lembro que quando ele faliu, ele me pediu emprestado, eu tinha algo em torno de uns dois mil e quinhentos reais guardados numa gaveta nessa época. E eu lembro que ficou marcado para mim. Ele me pediu emprestado, eu falei: “Pai, mas você vai me devolver?” “Vou”, só que ele tava ferrado, estava cheio de gente perseguindo-o, ele estava devendo para Deus e o mundo, perdeu tudo que tinha, só tinha a casa, não tinha mais emprego. E ele: “Não, filho, eu vou devolver”. Eu lembro da felicidade dele ter descoberto, ele falou: “Você tem dois mil guardados?” “Tenho. Você quer emprestado?” “Quero. Me empresta, né? Eu vou devolver. Eu não vou te dar mais a mesada, mas vai marcando aí”. Eu lembro que chegou a uns quatro mil reais assim, aí eu entendi: ele não vai me pagar mais. As coisas mudaram. Não vai rolar. Perdi essa grana. E eu ficava cobrando, devia ser ruim para ele, né? Ele ali, cheio de dívidas, cheio de gente cobrando e eu cobrando ele: “pai, e os dois mil que você pegou? E mais os seis meses que você não pagou?”. Isso ficou marcado para mim, de eu sentir vergonha quando percebi o que tinha acontecido. Não, a gente não tem mais nada, cara, eu não posso ficar cobrando ele, ele já me dá comida e casa, sabe? E a gente chegou numa situação que a casa era boa, mas eu estava mais ou menos na mesma situação que a galera dos meus amiguinhos, tirando a casa, porque foi uma época em que em vez dele pagar a creche, a gente comia as doações da creche também. Era uma época que a minha mãe falava: “Vai na creche e busca uma bolacha”, tudo que eu queria: “Vê se tem na creche. Pega um arroz lá porque não tem em casa”, então a gente pegava as coisas… a doação também era pra gente. Foi uma virada. Então, eu acho que isso também foi muito importante. A gente até discutiu em família, porque os irmãos têm uma personalidade diferente. Meu irmão mais velho é uma pessoa que busca uma grana, ele busca uma vida luxuosa, sabe? E eu acho que esse colapso no momento da vida de cada um, significou uma coisa para cada um. O meu irmão mais velho foi rico jovem, ele já era casado, ele tinha dinheiro, então ele não quer perder, então ele tá sempre buscando isso, né? E eu não sei, pra mim foi muito diferente. Pra mim foi uma aceitação: talvez não precisasse de tanto, sabe? Pra que eu ficava guardando esses dois mil reais?  Não ia usar para nada. Comprar figurinha? Tem essas crianças com fome, uma coisa meio que criou uma relação diferente. Eu acho que esse momento foi muito crucial, essa mudança familiar e, ao mesmo tempo, aqui também virando uma periferia e chegando uma galera, e em seguida começaram alguns amigos a morrer... Você começa…

 

A partir dos meus 12, 13 anos, começou a morrer uma galera que eu conhecia aqui, tipo, de 30, 35 amiguinhos que a gente era de criança, já morreu uns 15 ou 20, metade morreu. E a partir dos meus 13 começou a morrer um que tinha 15, 16 e foi assaltar o Habib’s, o policial matou, outro não sei o quê, outro a polícia entrou e matou. Então começou a ter uma coisa assim também. E as próprias influências... Minha mãe nem sabe, mas quantas vezes eu fiquei na boca aí até de madrugada com a molecada, vi arma, peguei arma - “Que legal isso aqui!” - moleque, você tá andando, eles fazem isso. “Isso aqui é crack, isso aqui é maconha, isso aqui é cocaína”… então é uma transição, e você permear esses lugares assim, eu acho que foi uma experiência… Depois, eu tentei várias  experiências na vida, de viajar para vários lugares, mas eu acho que essa experiência com as pessoas daqui, sabe, foi a experiência mais profunda de todas. Eu fui para a Bolívia, fui para o Peru, Machu Picchu, sei lá, fazer mochilão, Bahia, mas parece que é mais verdadeiro aqui, que é o dia a dia com as pessoas.

 

Quanto à minha formação, eu fiz Ciências Sociais. Eu entrei na faculdade com 17 anos, sempre fui bom aluno, desde moleque, só que eu não sofria muito bullying porque eu também andava com a molecada aqui, então, tipo, conseguia ser bom aluno e também não ser fora da sociedade. Eu sempre estudei em escola pública. Eu estudei na primeira turma do Colégio da Embraer aqui, que é um colégio superforte hoje, reconhecido e tal, e quando abriu esse colégio, eu prestei, passei, estudei na primeira turma lá, que foi uma coisa fundamental para me humanizar também, abrir possibilidades. Nesse colégio, eu vi que toda profissão podia ser legal e que eu podia fazer o que eu quisesse, que tudo podia ser interessante, eles sempre estimularam isso, tipo: “Meu pai é advogado, faz Direito”, aí Contabilidade, já têm as empresas da família, meus irmãos, cada um tem uma empresa, também tenho uma, você pode trabalhar onde você quiser. E aí, nesse colégio, falaram: “Esquece isso aí, vai fazer o que você gosta de fazer”. E eu gostava da área de Humanas, e não lembro muito bem porque que eu escolhi Ciências Sociais, eu não sabia o que era, eu descobri lá. Fui com 17 anos e descobri lá, e me encantei, gostei muito do que eu descobri lá.

 

Eu não sabia o que era Antropologia que foi a área que eu segui mais. E eu descobri a Antropologia - nunca tinha ouvido falar! - e é um pilar das Ciências Sociais. Então, eu cheguei muito imaturo, muito assim, sem saber o que eu estava fazendo. E no fim, gostei muito, é uma coisa que permeia a minha vida toda, eu leio muito ainda sobre Sociologia, Filosofia, Antropologia, Economia, Educação, eu ainda estudo muito e gosto de estudar. Mas eu tenho horror a carreira acadêmica. Horror à carreira acadêmica porque eu cheguei muito imaturo, eu fiquei maluco, daí eu desliguei da família, um pouco porque eu fiquei incomunicável com as pessoas , eu virei um radical, anarquista doido, fui preso por manifestação, quebrei a diretoria, quebrei os bancos da faculdade, eu fui preso uma vez, fugi da polícia outra, então eu virei um doidão da radicalidade política, assim, de esquerda, marxista, sei lá o quê.

 

Era muito novo, eu fiquei maluquinho de tudo. E aí, essa foi a primeira fase e a segunda fase foi entrar em depressão. Entrei numa depressão profunda, síndrome do pânico, pensei em suicídio e tudo mais, porque você muda tudo, e não tem mais base. Aí, eu neguei toda base… eu entrei na faculdade, eu odiava a ONG, eu falava: “Que assistencialismo? Tem que fazer revolução”, coisa de idiota, né? Aí, tipo… comecei a brigar com a minha mãe por causa disso, tinha umas coisas… até que eu entrei em depressão mesmo, profunda, eu não tinha mais… eu estava sem perspectiva, mesmo, estava terminando a faculdade sem perspectiva do que fazer. E aí, você procura a mãe, né? Não tem mais nada para fazer. E a minha mãe é aquela pessoa que cuida de todo mundo, pode cuidar de mim também um pouquinho, né? Eu voltei para cá. Fazia muitos anos que eu não pisava na ONG, eu vinha na casa da minha mãe, é só atravessar o portãozinho, e eu não vinha. “Não, não quero saber desse negócio, não quero, não quero”.

 

Eu vim e fiquei um mês na casa da minha mãe em depressão, dormindo no quarto 20 horas por dia, e não sabia o que fazer, não sabia para onde eu ia, se eu ia terminar a faculdade, se eu não ia. E aí, depois que eu estava um mês, eu já tinha desistido, na verdade, da faculdade nessa semana, falei: “Não vou voltar mais, não aguento mais, se eu for lá, eu vou acabar me matando”, aí a minha mãe falou: “Filho, você tem que ir ver as crianças, só assim, um pouquinho, vai lá brincar um pouquinho, você vai ver que bom que é”. Eu já não tinha mais para onde ir, pensei: “Não tenho nada para perder”, tinha varado a noite, assim, não tinha conseguido dormir, ela falou: “Vai cedo, agora, vamos lá”. Aí, eu entrei no berçário dos menorzinhos - assim, eu tinha uma barba desse tamanho e um cabelo horrível, sabe? E eu pesava 100 quilos nessa época, estava pesando quase 100 quilos, 90 e… agora, eu tô com 70. Então, eu era um ser meio assustador, para as crianças principalmente. Aí, eu cheguei, entrei lá na sala, as crianças ficaram tudo com medo, uma correndo para o canto, chorando para a tia, tal… e uma se aproximou, veio brincar comigo, a Vanessa, eu lembro até hoje, ela já tem uns 14 anos, sei lá. E ela veio, brincou assim, aí aceitou, ela quis brincar comigo assim. Comecei a brincar, todo mundo começou a brincar, daqui a pouco, as crianças gostaram, na hora que elas foram embora, eu chorei, fiquei muito triste, nossa! Daí eu falei: “Quer saber?”, não tinha mais nada, sabe, aquele sonho, revolução, não sei o quê, falei: “Não, a vida é mais simples, sabe? Eu vou cuidar de criança”. Então, eu pedi para a ONG, e eu tinha um projeto de educação, que eu já estava abandonando. Eu falei: “Eu posso passar um mês aqui?”, ainda dava para voltar para a faculdade, fazendo isso, trocando fralda. “Eu troco fralda, faço o que precisar fazer”. Os pais acharam superesquisito: “O quê que esse maluco tá fazendo aqui no berçário?”, um gordinho, barbudo, cabeludo, esquisito… e era uma época que eu só andava descalço, ia no shopping descalço, em qualquer lugar eu ia descalço, no banco, reunião aqui. Eu tinha essa pilha, eu não queria mais andar de sapato. Então, é isso, eu tava lá, descalço… Eu fiquei esse mês com as crianças, e isso me deu um pouco de força, voltei, passei o último semestre lá, aí voltei para cá para trabalhar.

 

Quando eu voltei para trabalhar, já abri um projeto mais focado com as crianças de uma idade maior, já trouxe três doidos comigo da faculdade, que estavam perdidos na vida, eles vieram pra cá, das Ciências Sociais. A gente abriu um projeto nessa mesma sala, o primeiro desde que eu vim, em 2009. No final de 2009, começo de 2010. Assim fui ficando por aqui, e comecei meus projetos. Chamava Semeando Luz, era um projeto de contraturno escolar para 60 crianças, de seis a 12 anos. Eles ficavam no período inverso da escola aqui com a gente. E aí, a gente fazia atividades, dos amigos que vieram, uma era pedagoga, tinha se formado em Pedagogia lá e o outro tinha se formado em Ciências Sociais também, mas ele era músico. A gente fazia um projeto com música, e nesse momento já me interessava com alguma coisa de horta, não manjava nada, mas tinha uma hortinha com as crianças, compostagem, música, reforço escolar.

 

Durou seis meses, e percebemos que é muito difícil trabalhar com criança assim, por muito tempo, quatro horas. A gente não conseguiu dar conta. Esse projeto já estava em crise, e a última chance era com a gente, porque ninguém mais queria tocar porque as crianças eram muito agitadas, assim, a escola era considerada a pior escola da cidade, na época, e o contraturno era aqui. Você tentava acolher, mas eles eram muito loucos. E aí, esse projeto já estava em decadência, mesmo porque o modelo dele não era muito bom. Assim, chegamos à conclusão de encerrar, e isso se desdobrou em um monte de outros projetos. Eu fiquei desse período até o ano passado trabalhando direto. Foram nove anos trabalhando aqui. 

 

Até o meio de 2011, eu trabalhei na ACEL, essa entidade, Associação Cristã Estância de Luz, que tinha esses projetos no contraturno, creche, projeto de assistência social, projeto de terapia já existia. Depois eu fiz esse projeto, peguei a parte administrativa e a formação de professores. Eu falava sobre questões ambientais, questões sociais para ambientar os professores sobre a realidade do bairro. Eu estudei bastante a história do bairro, a história da cidade, esse tipo de coisa, para ambientar as pessoas onde elas estão trabalhando e com quem estão trabalhando. Eu fazia esse tipo de formação.

 

As formações pegavam todos os funcionários, porque na creche tem esse conceito também, todo mundo é educador, a faxineira, a cozinheira também. As crianças estão aí o tempo todo, então, a formação não é só do professor, ela é para todos os funcionários, o jardineiro, todo mundo. E depois fui para a captação de recursos também. Fui fazendo de tudo um pouco. A minha mãe já estava meio cansada, ela sempre carregou tudo nas costas, e ela é mãe, né? E mãe, como é que é? Ela acolhe, mas ela é brava. Ela também educa. Ela é como se fosse mãe de todas as crianças e de todos os funcionários. Então, até às vezes, é meio assustador, você vê umas broncas dela que você fala: “O que é isso, cara? Essa mulher vai sofrer um processo”, mas ela não tem coragem de demitir ninguém também, entendeu? Ela cuida e se a pessoa tá com problema, ela dá dinheiro, ela vai na casa, ela pega a família, ela põe, ela arruma outro trampo, ela… “Meu filho tá preso, Dona Natália”, “Põe ele para limpar o jardim, não tem problema”, e aí, o menino vai lá e tá fazendo vários furtos e furta todas as casas do lado, mas não tem coragem com a Dona Natália, ninguém tem coragem de mexer., entendeu? Nunca sumiu um prego da casa dela. Todos os ex-presidiários que não tinham onde trabalhar, trabalharam em casa, eu cresci com todos eles aqui, todos! Por isso que nunca teve chave na porta. Quando veio gente de outro bairro tentar assaltar a casa da minha mãe, os próprios traficantes daqui já expulsaram os caras: “Aí ninguém mexe”.

 

A minha mãe estava cansada, muita coisa, e ela mudou para a cidade numa época, daí eu fiquei morando na casa dela e assumi a coordenação de tudo. Ela tinha muita essa expectativa de que algum filho seguisse seu trabalho. Ela foi com essa fala: “Eu vou embora, agora você toca”, e eu fiquei por… Ela voltou rápido, nem um ano, na verdade, na semana seguinte ela já estava vindo de novo, só que ela parou de controlar tudo e vinha pontualmente. E aí ela deixou na minha mão e não queria muito saber como que estava a grana, deixou tudo para eu fazer. E eu fiquei uns anos assim. Até quando começou o PUPA eu ainda fazia esse trabalho, e conforme o PUPA foi crescendo, eu fui indo só para o PUPA. Mas eu fiz essa coordenação por um bom tempo e foi nesse tempo que a minha mãe saía... A gente estava com conflito com a Prefeitura, e aí eu fiz um estudo de licitação pública, de política pública, onde que isso tinha sido aplicado e tal e juntei todos… Essa era a minha formação, né, fazer bagunça, baderna. Nós juntamos todas as creches conveniadas, fizemos uma revolução, saiu no jornal, fechamos por um dia tudo, fizemos uma greve. Convenci uma galera tipo completamente avessa à greve a fazer greve, foi muito legal, “tiozinho” chama todo mundo de vagabundo, sabe, os caras fechando as creches lá, os “tiozinho” do espirita, católico, evangélico, das creches…

 

Eu entrei para coordenar, depois fui captando recursos e teve uma época em que eu achei que não era por aí... Eu fui acolhido pela minha mãe, fui acolhido pela instituição, eu era muito grato a isso e estava doando todo o meu tempo a isso, mas eu descobri que não, não estava bom. Tudo certo, eu já tô bem, agora vamos seguir, qual que é o caminho? E então veio a ideia do PUPA.

 

Aqui já tinha o núcleo de terapias, a creche, tem isso e tem aquilo, vamos abrir uma área de meio ambiente. Eu não sabia exatamente o que eu queria, mas tinha o conceito da permacultura, resolvi tentar uma frente de meio ambiente nesse bairro que tanto precisa. Nesse ponto você resgata aquela história da infância, o rio que você nadava e que não nada mais, aquela coisa toda, e vamos para essa área ambiental.

 

Eu já captava recursos, eu fiz um curso, captava para outros projetos. E não consegui no primeiro momento, porque a gente foi para a final em alguns editais e a devolutiva na hora que eles visitavam era: “Vocês não têm know-how na área. A ONG não fez nada disso, a equipe técnica também não, pouca coisa, então, vocês precisam construir know-how, o projeto é excelente, mas não tem know-how”. Com essa devolutiva, em 2011, eu comecei a fazer algumas coisas aqui, então, vamos começar a fazer pequeno. Você já queria pedir um milhão para fazer um negócio que você nunca fez, eu falei: “Pô, os caras têm razão, né, que bom que a gente não ganhou porque…”, e aí, eu comecei a fazer e fui procurar os saberes do bairro: quem são as pessoas daqui que já sabem alguma coisa?

 

Aí, tinha o seu Mushi, que inclusive, estava aqui hoje, um japonesinho, ele deve ter uns 90 anos agora, que tava ali, que tinha umas plantas, um conhecimento muito doido de plantas. Eu fui atrás dele, mas ele não quis, meio tímido, tal: “não sei ser professor, não quero”. Não quis, mas ele veio em tudo que aconteceu aqui, ele vem até hoje, ele vem de curioso, mas não queria estar no foco, ele quer estar ali no cantinho, sabe? E outro era o Biscuit, e o Biscuit é uma figura, um hippie, é um mestre, o cara é uma referência de vida, assim, em todos os sentidos. Pra mim, é tipo um segundo pai. E o Biscuit tem várias casas, ele construiu, ele é autodidata, ele é nascido no bairro também, ele tem… agora, ele deve estar com uns 55 anos e aprendeu a construir por necessidade. Eu preciso fazer uma casa para mim, ouvi falar que tem pau a pique, ele aprendeu e fez uma casa. Ele era hippie, viajava por aí, dai, ele falou: “Não vou ter aposentadoria, nunca trabalhei de carteira assinada”, então ele foi comprando uns terreninhos e fazendo casa, herdou do pai dele, foi fazendo casa, falou: “Vou encher de casa de aluguel”, e pensando nisso, ele aprendeu a  construir casa de tudo quanto é jeito. Hoje, ele é um dos principais construtores de bioconstrução, assim, do estado de São Paulo. É uma referência. Ele estava no programa da Regina Casé, ele tem documentários, tem um monte de coisas. E ele brilhou nesse sentido a partir do projeto aqui, né? Porque ele saiu do cara hippie lá, que construía, para um patamar de um grande construtor. Foi o que a gente construiu também nessa troca.

 

O Biscuit, eu já sabia que ele tinha umas casas meio esquisitas, então falei: “Bom, talvez…”, cheguei, conversei com ele, falei: “Biscuit, você conhece a permacultura?” “Nunca ouvi falar”, falei pra ele, comentei com ele: ‘Queria fazer algumas coisas lá e tal…” “beleza, quando você for fazer me chama”, acho que ele não sentiu em princípio, muita firmeza, assim, falou: “A ideia é legal, mas…”, daí ele até me convidou: “Se quiser ir na obra… você quer aprender? Vai na obra. Se quiser ser meu ajudante, até te pago”. Eu não estava tão animado na época, falei: “Beleza”. Eu precisava me formar mais, comecei a fazer cursos por vários lugares, quando acabaram os cursos, não tinha mais cursos de permacultura, porque na época não tinha tanto, fiz em todos os lugares, todos que tinham, todo final de semana, até porque eu tinha voltado para cá e os meus amigos aqui não tinham mais nada a ver comigo, eram amigos que estavam em outra vida, eu não tinha amigo, então ficava muito solitário, eram as crianças e em casa. Por isso saía todo final de semana, fiz toda a formação possível que dava. Chegou em 2011, veio esse: “Falta o know-how para conseguir o financiamento”, e essa coisa de não ter mais curso e essa solidão, também; sempre fui muito sociável, tinha um monte de amigos na faculdade, tal. E eu lembro que eu estava nessa sala do lado, já tinha conversado com o Biscuit, ele já tinha se mostrado animado para fazer alguma coisa. Eu estava procurando um curso novo para fazer: será que tem algum que dá para eu ir e voltar? E na minha cabeça, já estava passando: “pô, tá na hora de começar a fazer aqui, parar de fugir do propósito, começa a realizar, você tem que fazer no dia a dia, não é fazendo curso” Estava vindo essa cobrança para mim, mas ao mesmo tempo, não conseguia financiamento.

 

Estava começando a surgir uma ideia e passou o Biscuit, assim, do jeito dele, descalço, sem camisa, veio buscar o neto, cumprimentou: “Opa”, e passou entrando aqui, fora do portão, ele pulou o muro… Biscuit é meio doido, né? Eu estava ali, me cumprimentou e foi. E aí, em um segundo, fechou uma ideia na minha cabeça, falei: “Vamos conseguir know-how, eu vou pegar o Biscuit, vou organizar um curso igual aos cursos que faço fora, a gente vai organizar aqui…”. Em um segundo fechou a ideia. As pessoas vão dormir na sala, tem a cozinha industrial, a gente cozinha para eles, a gente abre um curso, o Biscuit dá o curso, porque eu não sei dar curso ainda, e organizo tudo. A gente vai criar o know-how desse jeito.

 

Corri atrás do Biscuit na mesma hora falei: “Biscuit…”, quando eu fui falando foi surgindo a ideia; ele: “Massa, legal”, era mais ou menos essa época, fevereiro, assim, ele falou: “Tá bom, 15 de março”, “Sério?” “É, 15 de março eu tô aqui, a gente vai fazer um aquecedor solar de baixo custo com garrafa PET”, “Legal”. Voltei e comecei a divulgar. E pra achar o Biscuit depois? O cara não tem celular, o cara foi para uma obra longe, chegou no dia do curso, eu não tinha conseguido falar com ele mais, eu só falei com ele nesse dia.

 

Chegou no dia da formação, tinham 20 pessoas aqui, de várias  cidades do estado, o curso era gratuito e aí, eu ainda falei assim: “Vai ser no domingo isso”, só que eu queria que as pessoas dormissem aqui, ia fazer uma fogueira, queria que… Para o sábado, eu falei que ia ter uma coisa de horta orgânica e eu não sabia quase nada disso, pensei que, em último caso, iria atentar arrumar alguém que era o seu Mushi, mas ele não queria de jeito nenhum, o problema é que eu já tinha divulgado, porque o Biscuit me animou e eu divulguei. Então pensei: “Bom, eu mesmo faço lá alguma coisa na hora, a gente cria o espaço…”, era de graça, né? A gente ia oferecer tudo para as pessoas, então era mais uma experiência, ajudar no projeto, a gente estava… mas foi chegando o dia, no estava conseguindo falar com o Biscuit, falei: “Me ferrei, vai vir uma galera aqui, eu não falo com esse cara, ele sumiu…”; daí começou a baixa autoestima – “eu não vou saber fazer esse negócio de horta, vai ser uma merda, cara!”

 

Chegou o dia, no sábado de manhã, era sábado e domingo. Eu aqui correndo atrás, alojando as pessoas: “Falta papel higiênico, eu preciso de uma tolha”, fazendo tudo ao mesmo tempo, 20 pessoas. Eu já estava de saco cheio, não conseguia começar porque cada hora chegava um, cada hora um pedia uma coisa. Eu fui ficando nervoso. Finalmente, fizemos uma roda bem aqui fora. “Vamos começar, vamos nos apresentar…”, daí tocou a campainha de novo, falei: “Puta merda, cara, que merda”, o Biscuit ia vir só no domingo, se viesse, porque que eu nunca mais tinha falado com ele. Fui atender a campainha, cheguei, tá um cara baixinho, Ademir, eu não conhecia ele ainda. “Opa, posso participar? Meu nome é Ademir, eu moro aqui no bairro”. Eu já tava de saco cheio, não estava curtindo a coisa, pensei: “Que saco que esse cara chegou”. Falei: “Entra, vai”, tentei ser simpático, “Vamos, já começou”. Já estava surtando - “Entra aí”. No caminho, meio sem vontade, falei: “Quem que te falou do curso?”, “O Biscuit”, “Ah, o Biscuit vem?”, “Como assim? Vem. Ele vem amanhã”, aí já deu um alivio, né? Graças a Deus, que bom! Agora vamos ver o que nós vamos fazer com essa horta. Até o meio do caminho fui pensando o que eu iria fazer, e naquele papo qualquer, que você tem que ter com alguém quando você tá perto, que você tem que falar alguma coisa, eu perguntei: “E você faz o que da vida?” “Eu trabalho com agricultura orgânica, sou agricultor há uns 30 anos”, daí eu arregalei o olho e falei: “Quê?” “É, o Biscuit falou que você ia fazer uma horta, eu me interessei, eu sou certificado, trabalho numa rede, produzo tomate, produzo não sei o que, morango, mel…” “Sério??” , “Sério” “Cara, espera aí, então, antes de chegar na roda, vamos fazer o seguinte, você topa dar a vivência? Porque…”, eu expliquei rapidinho para ele: “Era para ser o… ele não veio, a gente ia fazer uma coisa colaborativa, pô, de repente, você…” “Não, mas o Biscuit, na verdade, falou mais ou menos isso pra mim mesmo, falou - Vai lá, porque talvez os caras precisem de um apoio técnico”. Então, o Biscuit já estava articulando. E o Ademir chegou e deu um puta de um curso pra galera,

 

A galera curtiu muito. Depois, no domingo, chegou o Biscuit. No final, essas 20 pessoas falaram: “Mano, vamos fazer mais, vamos fazer, vamos instalar, na próxima, a gente faz horta de novo e instala um negócio”. Eu fiz do mesmo jeito. Nessa, o Ademir não veio, mas veio um outro cara, tudo foi tudo dando muito certo. Na segunda formação já vieram 30. E aí, na segunda… a gente levava as pessoas para conhecer as casas do Biscuit, que são aqui. E a galera: “Pô, mas se ele é construtor, tem que ter curso de construção”, e a gente construiu aquela casinha que tá ali no fundo. Fizemos um programa: Fundação Telhado Verde”, ao longo do ano foram nove cursos, nessa parceria com o Biscuit. E ao longo do ano, eu escrevi um projeto para construir um espaço aqui, que é o PUPA.

 

Escrevi para o instituto Embraer, que financiava a escola que eu estudei. Inclusive, foi uma grande propaganda para eles: “Um aluno formado nosso já captando recursos…”, os caras colocaram isso em tudo quanto é lugar. Mas foi legal, eles apoiaram muito a gente, várias vezes. A gente ganhou três anos seguidos o projeto de financiamento deles, daí no Edital só podia ganhar três, mas eles gostavam tanto do nosso projeto que eles falavam: “Não, agora é cinco”, mudou. A gente ganhou cinco seguidos, daí eles falaram: “Iuri, agora não vai dar mais”, “Não, tudo bem, a gente já tá fazendo um monte de coisa”, “Agora não tem mais jeito da gente continuar porque muitas vezes...”, “Não, não tem problema, a gente já tá estruturado”. E aí, depois desse tempo, tinha criado know-how, eu registrei tudo isso, escrevi o projeto e foi financiado, deu certo o plano. E quando financiou, a gente foi construir o PUPA, uma outra etapa, já.

 

O PUPA foi construído aqui mesmo. Essa casa já tinha. Desde que eu era criança, já tinha essa casa, era o meu vizinho. Ali no fundo, aquela sala de pau a pique onde estão as pessoas. E apareceu pra gente construir esse núcleo de educação ambiental. Era uma coisa vinculada a permacultura.

 

A permacultura é um conceito criado na década de 60, 70, por dois australianos, permaculture, em inglês, seria algo como cultura permanente. Tem vários modos de entender essa cultura permanente. Tem gente que entende como uma cultura que possa permanecer no planeta ao longo das gerações. Eu, até como antropólogo, sociólogo, penso em construção cultural permanente, e uma cultura no sentido mais amplo, vai da Arquitetura… toda a sua relação com o meio, não só com o meio, relação homem–sociedade, homem–natureza, sociedade–natureza e como a gente se relaciona. Então, construção permanente, porque as coisas mudam e a gente precisa construir essas relações permanentemente. E aí, a permacultura tem três princípios éticos para essa construção cultural: cuidar das pessoas; cuidar do meio, da natureza, que essa tradução é ruim, cuidar do meio talvez seja alguma coisa legal, porque na verdade, a gente tenta não separar homem e natureza, o homem é parte da natureza, então cuidar das pessoas e cuidar da natureza deveria ser só uma coisa, mas é cuidar das pessoas; cuidar da natureza e partilhar os excedentes. Seriam três dimensões: social, econômica e biológica natural, ecológica. Eu não gosto de usar o termo ecológica também porque acho que ecológico é tudo, né? Então, a partir desses três princípios éticos, tudo tem que respeitar esses três princípios éticos, essa construção cultural, as técnicas e tal. Pessoal confunde muito permacultura achando que são técnicas. Não, permacultura é um conceito muito amplo, mesmo, muito profundo. E vai lançar a mão de diversas técnicas, de diversas coisas. E aí, onde você identifica tecnicamente a permacultura? Onde você vai ver? Na bioconstrução, por exemplo, construções com terra, construção com materiais recicláveis, energias renováveis, produção própria de energia, saneamento, saneamento ecológico, também ecovilas ou comunidades que se juntam em torno do tema da sustentabilidade, relações sociais, é uma coisa que a gente sempre puxou muito no PUPA, até porque, no primeiro grupo do PUPA, só tinha sociólogo, vieram todos os depressivos das Ciências Sociais comigo para cá, então, a gente tinha essa pegada social muito forte, cultural. Esse conceito de permacultura, a gente construiu muito aqui. A gente sempre pensou sobre isso, a gente nunca foi muito na onda assim… eu fui ler o Bill Mollison anos depois porque a gente gostou da ideia: construção de cultura com essa ética, uma ética social e ecológica e econômica. A gente já fazia isso, então a gente demorou até para ler os textos que eram mais biológicos e tal, a gente foi dando uma dimensão bem cultural, social. Permacultura seria isso, você vai reconhecer em várias  técnicas, e inclusive no trato com as pessoas, na forma social de se organizar, forma como a gente se organiza nesse bairro, ou em qualquer lugar, não é só ecovila, todo mundo fazendo ciranda, não, não é só isso. Também é aqui, com a boca de tráfico, com o esgoto caindo ali, com a criança passando fome lá, com o pai alcoólatra, com o boteco ali, com os evangélicos que têm uma resistência, com o candomblé que é do outro lado da rua. Esse tipo de relação, como que a gente dialoga? O que para mim é o maior desafio, porque técnica para produzir energia tem aos montes, técnica para fazer uma casa tem aos montes, agora como que a gente valoriza isso socialmente, é o mais difícil.

 

A ideia do PUPA era construir um espaço onde tivesse todas essas técnicas, mas que as pessoas fossem fazer outras coisas lá, coisas que elas já querem fazer, porque eu não queria convencer ninguém a vir fazer uma aula de pau a pique, a pessoa não quer pisar no barro, beleza, mas quer fazer o quê? Zumba? Então, vai ter aula de zumba, na sala de pau a pique num banheiro que não vai para o rio, isso tá tudo claro, e a gente explica tudo isso para as pessoas. Você vem fazer uma terapia de Reiki, você vai nesse lugar… A ideia é que isso permeasse na entidade. Todas as atividades. Já pela frustração que a gente tinha desde o movimento estudantil, de que você não convence ninguém, o que você valoriza, as pessoas não valorizam em geral, então você vem falar… é difícil o diálogo.

 

Então, a gente faz as coisas que as pessoas queriam fazer, e conseguia trazer pessoas para outros temas que a gente queria oferecer também. Conseguimos aproximar as pessoas para conviverem no ambiente que é permacultura e não só reaprender uma cultura num ambiente. Então, era um espaço onde tudo dialogaria com a permacultura. As crianças sabiam que o esgoto ia para o rio, mas o do PUPA, não, coisas desse tipo…

 

A inserção do projeto no bairro sempre foi muito difícil. A minha mãe ajuda muito, porque ela tem muita força, mas sempre foi difícil. Eu achava que era uma coisa daqui, mas é de qualquer lugar. Eu achava que aqui era um pouco pior, é até um lema que a gente usa na obra: a enxada do outro é sempre mais leve. Você olha alguém fazendo um trabalho ali, aí você acha que a enxada dele é mais leve, por isso que ele tá trabalhando mais rápido que você. Aí, você vai querer trocar, você vê que não é. Tem outras coisas ali. Então, a gente sempre achava que aqui no Freitas era terrível, Freitas é difícil. Eu mudei para um bairro cheio de músicos, hippies, lá em Monteiro, tal, e é mais difícil, cara! É um saco. É mais difícil ainda porque eles são… nossa senhora, mais desconectados da realidade. Apesar de parecer, eu não sou muito desses místicos, hippies, assim, eu sempre fui bem… então, é um aprendizado. Eu, saindo um pouco hoje, eu percebo. Não é esse bairro que é difícil, é o mundo!

 

Então, essa inserção sempre foi muito difícil, primeiro, acho que tem uma questão cristã, evangélica, que imagina também? Você tem uma creche, aí de repente, chegam seis malucos, por que como é que foi o PUPA? Só para contextualizar, depois que a gente conseguiu ganhar o financiamento, tinha eu e o Biscuit, eu ia fazer a parte técnica, mas eu já tinha um salário pela ONG, o Biscuit era o mestre de obras e a gente arrumou o Piva, um arquiteto de bioconstrução, muito experiente aqui da cidade. E ele veio voluntariamente, porque eu não sabia que ia ter que ter um responsável pela obra e a gente ficou desesperado, não tinha orçado isso, e aí, ele chegou e falou: “Não, vamos melhorar esse projeto que vocês fizeram, vou fazer um negócio profissional e não vou cobrar nada, porque eu acredito na permacultura”. E eu e o Piva a gente trabalha até hoje, assim, como o Biscuit. E depois a gente até conseguiu uma verba para ele, mas ele fez na moral, assim, ele continua fazendo isso. E ele fez o projeto, a gente construiu junto e aí veio uma ideia também, dessas ideias que você não sabe nem de onde surgem, estava difícil de arrumar uma verba para ajudante, e estava difícil de arrumar ajudante, porque os ajudantes do Biscuit… o Biscuit também é como minha mãe, então todos os ex-presidiários, alcoólatras, os caras ameaçados de morte, os ajudantes dele é tudo essa galera. Só pode pagar no final do mês, senão, o cara não volta mais, o cara gasta tudo em droga, gasta tudo em bebida, ele tem todo um esquema assim. E assim, era só essa galera, ia vir essa galera, e ele estava com problema na época: “Tem o Jorginho, mas o Jorginho não tá conseguindo mais trabalhar porque ele caiu no alcoolismo de um jeito que não tem jeito. Tem o fulano, mas o fulano tá com cocaína, bicho, difícil, que ele fica entrando com cocaína e aqui é creche. Tem o fulano, mas às vezes, ele aparece louco de crack”, só o Biscuit consegue lidar com tudo isso, entendeu? E aí, a gente: “Não, tá difícil, vamos ver o que a gente consegue”, e então veio a ideia: “Vamos abrir um programa de estágio, estágio em construção, a gente pega a grana que seria…”, na verdade, isso a Embraer não pode saber, “A gente pega a grana que seria de dois ajudantes e aluga uma casa, equipa tudo lá, paga água, luz, internet, mantem toda alimentação dessa galera e dá uma ajuda de custos”. Então, tinham seis vagas, a pessoa ficava um mês aprendendo a construir, sendo ajudante, com contratinho lá, tudo legal, e ela depois… ela ficava nessa casa sem nenhuma despesa e tinha 200 reais de ajuda de custos, para ela tomar uma cerveja no final do dia, se ela quisesse. E cara, se vocês virem, até tem um manifesto que eu participei da permacultura, tem muita exploração na permacultura, tem gente que paga 500 reais para ficar um mês trabalhando para o cara. E chega lá, o cara falar “Cava uma fossa pra mim”, sabe, dá uma cavadeira na mão do… o cara aprende, sabe, tem calo na mão... Então aqui era um negócio que era muito legal, você não tinha nenhum gasto e você aprendia, o Biscuit é um mestre. O Biscuit é um mestre de ensinar e ele consegue por quem nunca pregou um prego pra fazer tudo na obra, ele não ficava só virando massa, a gente fez tudo, todo mundo. Gente que nunca mexeu com nada fez de tudo. “

 

No fim, veio seis doidão de Araraquara que estavam em depressão também e eles já travaram as vagas e ficaram todos, entendeu? Eles não quiseram ir mais embora. Então, era para ficar um mês, mas a gente chegou, todo mundo era anarquista, né? E aí, a gente já trabalhava com autogestão. Então... Meus amigos, ainda, falaram: “Como assim, não sou mais estagiário, você tá louco? Vamos derrubar essa hierarquia”, e aí -  eu estava doido para fazer isso também - falei: “Demorou”, e virou um coletivo, a galera da ONG demorou para entender: “Aqui todo mundo decide em consenso o quê que vai ser desse negócio”, uma loucura porque tinha nome, tinha verba de um monte de gente no meio, enfim… mas rolou, e a gente construiu assim, e depois que a gente terminou de construir, a gente falou: “Mas o que vai ser esse espaço?”. Porque o projeto era construção, o que ia ser a gente ainda estava construindo. Então, no meio, a galera: “Depois que ficar pronto, vai fazer o quê?” “A gente ainda vai ver o que a gente vai fazer, vai ter atividades”, e a galera falou: “A gente vai ficar e vamos nós mesmos fazer as atividades, não vai ter essa grana, mas a gente dá um jeito, a gente arruma outro trampo, a gente vai todo mundo morar aqui mesmo…”, nas casas do Biscuit, ele tem 12 casas de aluguel, então, uma delas era a que morava a galera do projeto, eles já ficaram com essa casa, depois alugaram outras e foi ficando, essa galera tá por aí, tá tudo joseense, isso foi em 2012, estão tudo por aí. Cada um num trampo, filho, família, tudo em São José.

 

E então a gente fez assim, só que imagina? Era uma galera muito diferente, ainda mais para esse bairro. O Biscuit já tinha preparado o bairro, porque antigamente ele tinha um espaço aqui que se chamava Gavião Maneiro, e nessas casinhas moraram muitos músicos, muitos hippies das antigas, teve show do Almir Sater, do Alceu Valença, tudo aqui no Freitas, no Gavião Maneiro, que o Biscuit era envolvido. Blitz, um monte de coisa, quando eu era criança, tinha essas coisas. Então a galera já era um pouco acostumada. Ele é o líder do bairro, ele reforma tudo, tá caindo a casa, ele vai lá e reforma da senhorinha, de graça, ele é um cara que todo mundo respeita. Isso ajudou um pouco, e a minha mãe, que todo mundo conhece e respeita, ajudou um pouco, porque senão, não teria rolado, o pessoal tinha expulsado a gente daqui. Eu era nascido aqui, todo mundo me conhecia também, mas ia ser difícil, viu! Ia ser difícil se não fosse essa galera.

 

Então, a aceitação foi muito complexa. Imagina, com essa galera? A gente chamava um grupo de maracatu, tem três igrejas evangélicas do lado, nossa, loucura. E aconteceram muitas coisas assim, tipo, uma das coisas que me desanimou um pouco de ter um trabalho social tão intenso foi isso, o tanto de ataque que você sofre, sabe? Muitos ataques. Eu quase apanhei na rua duas vezes, tipo, caso de mulher que sofria agressão do marido, que não falava nada, que começou a vir em oficinas aqui e começou a conhecer as meninas super feministas e largou do marido. Eu nem conhecia a pessoa, porque passavam centenas de pessoas aqui. E a moça tomou coragem, largou o marido e o cara ficou um mês nesse bar aqui, cara, seguindo todos os meus passos, e um dia, ele quase me pegou. O cara é grande, bicho, mas grande mesmo. Entendeu? Me pegou ali na rua e falou tipo: “Pô, não sei o que, como é que vocês fazem isso?”, “Mas quem que é a sua esposa?” “Ela me largou por causa de vocês”, “Mas eu nem conheço ela”, “Essa galera aí, não sei o que, e agora você vai ver…”. Só que estavam mais dois meninos do PUPA comigo, e um deles sabia da história. E já falou: “Não cara…”, e teve umas fases do PUPA que veio uma galera de outras periferias de São José morar aqui, uma galera do rap, sabe, muita gente que passou aqui, que veio conhecer a permacultura, mas uma galera da permacultura popular, do rap, tinha um menino que veio que ele era meio sinistrão, assim… e ele trabalhava comigo e o cara já virou e falou: “Toma cuidado com o que você tá falando que você não tá falando com a sua esposa, que você batia nela, bicho. Você pode bater na gente aqui” – o cara era muito grande – “mas depois…”,

 

Eu fiquei mal um tempo, sabe? Eu falei: “Puta merda, por quê?”, sabe, tipo… você tá… Essas coisas foram minando um pouco. Então, para mim, sempre o mais difícil foi isso. Tinha época dos evangélicos que vinham aqui fazer tipo um protesto. Porque também a ONG sempre teve um centro espírita, então, na hora que começou o maracatu, bicho, nossa senhora! Batucada?! Porque centro espírita não tem essas coisas, mas… então, tinha de tudo, e boatos e aquela coisa de lugar pequeno, e a gente ficava nessa… tentando aqui e lá, lá e cá, até traficante começar a se sentir à vontade de ficar aqui também e querer tipo, vender as coisas, porque você abre demais para acolher as pessoas, e não vou tirar o cara porque ele é traficante, e de repente, os caras estavam passando… vendendo aqui no portão e a polícia chegava, os caras ficavam aqui dentro escondidos. E aí, você vai conversar e o cara já muda o tom: “Espera aí, nós somos parceiros, mas se eu quiser ficar aí, eu fico”, você vai fazer o quê?”, “Tudo bem”. Nessa hora, você chama o Biscuit porque o Biscuit tem respeito. O Biscuit chega e fala: “Não, você não vai ficar, cara”.

 

Essa coisa sempre foi o mais complexo, a relação com o local, com os preconceitos e até nas técnicas, porque, por exemplo, das pessoas conviverem no PUPA, eu vi muitas vezes isso, a gente achava que o pau a pique era uma excelente técnica para esse bairro, porque o cara aqui, ele constrói como? Ele contrata um pedreiro, a família, contrata um pedreiro e não sabe fazer, mas todo mundo daqui é do ralo da vida, né, então o cara faz as coisas pra ele, não sabe fazer, eu aprendo, não tem quem vai fazer pra mim, então tem que fazer uma casa, eu vou fazer, nunca fiz casa, vou fazer agora. Chama um pedreiro: “Quero fazer a fundação”, o cara começa a fazer a fundação para ele, ele sacou como é, paga a diária para o cara: “Tchau”, e ele termina. Chama o pedreiro, agora vai assentar tijolo, assenta, ele vai vendo, olhando, o pedreiro vai mostrando mais ou menos, sacou como é: “Eu tô sem grana”, ele termina. Normalmente, fica com uma casa horrível porque a primeira casa de todo mundo não é boa, mesmo, e com conforto térmico péssimo e o cara gasta uma grana de material. Se ele faz isso de aprender e fazer na raça, se ele aprendesse as técnicas… Uma casa de construção ecológica, ela é o mesmo processo de uma casa convencional, só que 80% do custo dela é mão de obra e 20% é material. Da casa convencional, é meio a meio, é 50% mais ou menos de mão de obra e 50% de material… 60% de material, depende do tipo da casa, 60 e 40, mão de obra é 40%. Então, se o cara já vai fazer mesmo, ele vai dar um jeito de fazer, ele vai ter que aprender, bom, a gente pode ensinar esse cara a fazer pau a pique, não gasta material, e ele pode fazer uma coisa muito melhor. Sempre foi a nossa ideia, e sempre foi ideia do Biscuit. E cara, é difícil, sabe por que não emplaca? Porque aqui ou em qualquer outro lugar que eu já fui nesse sentido, mas aqui, vamos falar daqui, ninguém quer parecer pobre, entendeu? Então, o cara vinha ali, estava com o acabamento legal, tinha telhado vivo, não sei o que, tal, tal, tudo legalzinho. O cara olha, acha tudo legal, você fala: “É pau a pique, ele deixou um vidro para mostrar, você não tem interesse?”, explica sobre esse 80%, 40% que eu falei e tal… Ele fala: “Muito legal, mas em casa, eu vou fazer direitinho de bloco mesmo”. Você vai ver o direitinho de bloco, é um horror! Mas ele tem que mostrar que ele tem dinheiro para comprar bloco. Aí, você fala: “Tem a tinta de terra”, tinta de terra é uma coisa supercara e dá um acabamento superlegal, pode ser na casa de bloco, inclusive, mas ele tem que mostrar que ele tem dinheiro para comprar a tinta látex azul cintilante, entendeu? Da Coral. É uma coisa muito arraigada nas pessoas, então, ela veio, ela reconheceu, ela achou bonito, ela achou legal, ela viu que é possível, ela pisou o barro, ela fez tudo, só que pra gente o que emperrava no final é porque se você fizer isso, você é pobre. E eu entendi quando um cara falou mais ou menos nessas palavras pra mim. Ele falou: “Você que tem cara de rico e que quer ser pobre é uma coisa, mas eu que sou pobre, eu sou pobre”. É legal quando você tem cara de rico e quer ser pobre, daí não tem problema, sabe? O cara falou isso pra mim. Todo mundo acha bonito, mas o pobre não é bonito. É bonito se você tem e abre mão, é bonito, mas você não ter não é bonito. Então, uma cara falou isso pra mim uma vez aqui, até um cara que trabalhava aqui, que eu tava enchendo o saco dele pra ele fazer de pau a pique, tava construindo, não tinha grana para comprar material, tinha que ajudar, fazer mutirão para levantar bloco, eu falei: “Vamos fazer…”, e ele falou isso pra mim.

 

O Freitas é um bairro rural, pra você ter uma casa regularizada, ela tem que ter 20 mil metros de terreno. Esse bairro foi loteado como se fosse urbano, então ele é um dos… em São José são cento e… a última vez, eu acho que eram 101 bairros irregulares nesse modelo, em São José. A cidade cresceu muito rápido, a galera não tem dinheiro para comprar um terreno regularizado, compra um irregular em lugares como aqui. Na minha infância, que eu falei, eu acho que o bairro tinha 280, 300 moradores, hoje tem em torno de cinco mil. Foi assim que cresceu. Então aqui, basicamente, tudo é irregular. É um problema grave da cidade de São José, não só, mas São José em especial, que eles não sabem como solucionar, porque imagina, isso aqui é só um, têm cinco mil pessoas em um só bairro irregular. Lógico que tem outras muito menores de 500, 300 pessoas, mas são milhares de pessoas, milhares. Talvez, centenas de milhares, eu não sei exatamente. Como é que se regulariza tudo isso? Porque não é só regularizando, como é que você regulariza essas casas todas penduradas? Aqui nunca esteve em pauta como regularizar, porque isso é uma coisa que ninguém sabe. A questão é: as pessoas estão aqui, elas vão continuar construindo, elas precisam de um lugar para morar, então já que estamos aqui, a gente vai trabalhar daqui pra frente, sabe? Tá aqui, precisa de uma casa e vamos fazer da melhor forma possível, porque é essa a situação. A gente sempre acha um problema grande demais que é a regularização fundiária de São José dos Campos. Aqui não vai virar urbano, não vai… Nessa questão, então, nunca teve muito problema, porque aqui, na verdade, construir um barraco de Eternit com dois metros de altura, quente, na beira do morro, ou construir uma mansão é a mesma coisa. Tá tudo irregular.

 

Diante desse contexto, a gente sempre buscou uma qualidade técnica de construção, de qualidade, conforto térmico, impacto ambiental e tal. E sempre uma questão de saneamento também, foi uma coisa que a gente sempre falou. Essa questão do rio... O rio sempre esteve no imaginário, mesmo, a gente estava até falando disso, sempre esteve nesse imaginário. O Biscuit uma época ficou doente, muito doente, é uma história boa também, e ele estava para morrer mesmo, acabou não morrendo. Quando ele estava no hospital, ele escreveu num guardanapo um projeto para salvar o rio, cara, a gente ficou superemocionado. Nessas condições!

 

O saneamento sempre foi uma coisa que a gente pensou, porque é muito ruim, né? Também inunda, e quando inunda, inunda esgoto. Minha mãe já teve que sair de casa várias vezes. Na creche, semana passada, a gente tirou as crianças no colo, com água na canela. Fazia um mês que eu não vinha aqui, eu vim bem no dia. E foi bom, porque eu já estava acostumado, faz anos… Eu já tinha passado duas vezes por isso, de tirar criança na hora da enchente. Mas de levantar as coisas ali, inúmeras vezes! Dezenas de vezes. Tirar os computadores, colocar em lugar alto, de noite, resgatar gente com bote, sabe, eu já fiz isso também aqui. Os bombeiros não sabiam onde era o rio, eu fui no bote com eles. A enchente sempre foi… sempre rolou aqui na casa da minha mãe. Desde a minha infância, só que foi piorando, porque começaram a fazer casas mais na beira do rio, todo mundo põe um muro. O próximo que faz, fala: “Opa, já tá enchendo”, ele já aterra um metro mais alto. Aí, a gente tá aqui há tantos anos, a gente é o ralo do bairro, entendeu? Porque é antigo, todo mundo aterrou em volta, todo mundo fez um muro mais alto e a gente ficou no fundo, não inundava quando construímos, não íamos construir onde inundava, né? Mas foi piorando, foi piorando… e cada dia está pior.

 

Hoje, a gente tem cisternas com bombas, na hora que inunda, o rio enche, ele fica mais alto fora, porque a gente faz o muro, só que o que cai dentro, fica lá dentro, não consegue sair, porque os escoamentos vão para o rio, os escoamentos de água e chuva, eles vão para o rio e ele fica com uma válvula para não voltar, porque antes voltava e transbordava por todos os canos das casas. Inclusive no esgoto que não funciona, que tem uma rede de ligação que vai direto para o rio. Mas é o que tem ali, a creche, a gente tirou 70% nesse projeto do PUPA, conseguimos 70% dos banheiros, tirar com esgoto alternativo, mas aqui é muito difícil de fazer porque você cava 20 centímetros e encontra água, e fazer um tratamento dentro do rio é difícil, é um projeto de engenharia caro, então os outros 30% a gente não consegue fazer sem ter tipo, sei lá, 150 mil reais, não consegue fazer com tamborzinho, essas coisas que a gente sempre fez. Agora, inunda, inunda legal, então você vai dando um jeito, tipo, agora vai construir uma nova cisterna, com uma bomba que joga, na hora que inunda, trava todos os canos para nada voltar e começa a encher aqui essa bomba, fica jogando por cima do muro, com jatos aqui de dentro e aí, só que em geral, acaba a força, com chuva assim, acaba a energia. E quando acaba a energia, quantas vezes a gente fica com balde, muitas vezes, muitas vezes... Já pensamos em desistir, de ver outros lugares, mas não tem, num bairro irregular. Por que a Prefeitura mantém um apoio? Quando a gente teve problema com a Prefeitura, eu cheguei… Os caras estavam sendo muito canalhas com a gente, assim, e tudo parou quando eu falei: “Então tá bom, eu vou fechar”, o cara ficou desesperado. São 210 crianças, é um bairro com cinco mil pessoas e não tem nada num raio de 15 quilômetros onde a gente possa fazer uma obra pública, porque é tudo morro, não tem nenhum terreno regular. Vai demorar anos para conseguirem resolver esse problema. “Tá bom, então tá bom”, o cara falou pra mim: “Nós, da Prefeitura que ajudamos você a desenvolver o seu projeto”, “Não, Artigo tal, da Constituição… ensino infantil, responsabilidade da Prefeitura. Eu ajudo você a resolver o seu problema e eu vou fechar, não tô gostando de te ajudar desse jeito, você tá muito arrogante”, e aí, mudou tudo. Você tem essa desassistência, essa irregularidade para todos os lados, né? E a enchente tá nesse meio, você vai vendo, se você for olhar agora, eu te mostro aqui do lado, tem uma casa construindo na beira do rio, o cara já tá no segundo andar, para você ver o aterro que ele fez. Ele já sabe, ele já aterrou, então esse daqui já vai prejudicar um pouquinho, tem mais água vindo pra cá no próximo verão, e ali, ali, ali, ali…

 

O PUPA teve muitos projetos, teve essa fase mais de construção, depois a gente teve uns projetos muito na área de cultura também, chegou a ter oficinas por aqui, dez, doze oficinas: capoeira, violão, maracatu, não sei o quê; cultura popular. A gente teve uma biblioteca comunitária… Que não tem mais.

 

O PUPA mesmo, ele foi de 2012 a 2018, ele não existe mais nesses moldes. Ele deixou de existir, e não foi por nada, assim, no sentido de “não deu certo”. Considero que ele deixou de existir porque ele cumpriu o seu papel nesse tempo, a partir desse momento, a minha mãe fala: “Não dá para ser PUPA para sempre, uma hora tem que virar borboleta”, e esse é o sentido mesmo do PUPA, de casulo. Eu acho que teve esse momento mesmo, inclusive acho que é bem representativo o nome nesse momento, a gente gestou muita coisa aqui, muita coisa que se desdobrou pelo Vale do Paraíba, sei lá, muita coisa, sabe? Tem muita coisa hoje que acontece na área ambiental em São José que foi gestado com a participação do PUPA ou pelo próprio projeto. Por exemplo, a feira no Parque Vicentina Arranha, que é uma feira agroecológica, a qual eu vendo lá atualmente, mas a gente estava na fundação, que é um dos grandes movimentos. Hoje, a gente tá com uma articulação de agricultores no Vale, pois hoje eu sou agricultor e sou presidente dessa articulação, não necessariamente relacionada ao PUPA, mas essa articulação que hoje tem 60 agricultores orgânicos no Vale, que nunca teve nada, começou com o projeto do PUPA. A gente gestou muita coisa, e hoje, são essas várias coisas, só que ele sempre gestou, então aqui sempre teve um caráter inicial, em tudo que a gente tentou aprofundar e dar sequência, de alguma forma, nunca rolou bem. Assim, sequencias mais longas, né? Sempre foi uma coisa nesse sentido, e tem os motivos técnicos pra isso. Primeiro, porque o PUPA, era anarquista, então era um coletivo aberto, e como que você participava do PUPA? Eu sempre falei isso em todos os lugares, falava isso em palestras para um monte de gente, a gente nunca teve medo, sempre teve confiança que ia dar certo. “Você quer participar do PUPA, é só chegar, você que vai dizer se você é ou não é do PUPA”, “Como que eu faço?” “As reuniões são de segunda à noite”. Foi assim por muitos anos, toda segunda à noite, “Você chega lá e participa”, “Preciso ir em todas?”, “Não, não tem regra, você vai em quantas você quiser”. Lógico, se você se envolve mais, a gente vai te ouvir mais, se você vai lá de vez em quando e fica falando, ninguém vai te dar bola. As coisas se regulavam dessa forma. A gente respeita as pessoas pelo envolvimento delas e pelo conhecimento delas. Então, você chega lá e faz o que você quiser, cara! Você que vai dizer, se você quiser se chamar de coordenador do PUPA, você se chama de coordenador do PUPA, entendeu? Se as pessoas vão te reconhecer como coordenador, é outra história. Pode ser que todo mundo dê risada e pode ser que todo mundo fale: “Olha!”, e pode acontecer ao contrário, foi o meu caso, mas de outras pessoas também, figuras que tinham uma presença mais forte e que eram chamadas, tipo, ser apresentado: “Presidente do PUPA”, eu sempre fui anarquista, falava: “Presidente não, cara, eu sou um qualquer lá”, e às vezes, tinha gente que entrava aqui e falava: “Eu sou lá, não sei o que…”, todo mundo: “Cadê o fulano? Você não, né?”, então as coisas se regulam, você não precisa dar nome para as pessoas, elas mesmas constroem a sua… A gente sempre foi aberto, muito aberto. Então, todo mundo que começava… chegava muita gente iniciante, porque quem que vai vir com um bando de doido, não tem salário a princípio, tem toda estrutura pra gente captar recursos, fazer alguma coisa, mas não tem nada construído, a gente nunca contratou ninguém, tipo: “Vem cá que eu vou te…”, não. Muita gente ganhou a vida aqui por muito tempo, mas assim, chegou, ficou aqui, conheceu, tinha outro trampo, foi se envolvendo, participou do Edital, escreveu, captou verba, trabalhou por quatro anos… entendeu? Teve muita gente que fez isso, mas outros não, iam e viam.

 

E essa fase se encerrou em 2018, porque era uma coisa que já vinha acontecendo desde sempre. Por exemplo, tem o Sancho que é um grande parceiro, a gemente trabalha junto ainda, ele veio lá de Araraquara, primeira turma do PUPA, ele gostava muito de construir, mas a gente também falava de cultura popular, falava dos problemas do bairro, assistência social, não sei o quê, ele falou: “Preciso aprofundar. Se eu ficar aqui nessa reunião toda noite…”, ele até tentou, mas: “Não, vou construir”, saiu com o Biscuit e foi fazer obra. Obra, obra e obra. Daí o cara não aguentava, trabalhava de segunda a sábado na obra, e não tinha tempo para ficar aqui das seis da tarde até a meia-noite, uma hora da manhã, toda segunda.

 

O cara não tinha essa disponibilidade, então a pessoa vai ficando boa no que faz e sai fora: virei um construtor…  E não era por mal, mas não tá mais dando tempo. Isso foi acontecendo, foi acontecendo, e cada hora era uma pessoa. “Poxa, essa pessoa era fundamental”, e a gente sempre se reinventava, até o momento que a gente sacou: “A nossa estrutura não permite ninguém aprofundar. A gente não vai conseguir aprofundar esses projetos”. Sacamos isso no momento, nas vivencias que a gente fez, depois de um monte de discussão, no último momento e a gente falou: “É hora de a gente encerrar essa estrutura, vamos fazer outra”. Então o PUPA tá na internet, hoje tem a Casinha do Morro, que é cozinha vegana, que é do meu irmão e a minha cunhada, que foram do PUPA, e tem uma puta de uma cozinha estruturada e tal. Tem a equipe do Biscuit de construção, que viaja o Brasil, que também tomou uma dimensão paralela no nome dele. Mas metade das obras que ele faz, vem através dessa página do PUPA, gente procurando… Tem o Sancho, que foi esse que eu falei, ele trabalhou com o Biscuit por um tempo, até que o Biscuit falou: “Agora você já pode ter a sua equipe”. Hoje ele tem a equipe dele, já faz dois anos, ele mora lá em Monteiro comigo, e 90% dos trabalhos que ele pega vem através dessa rede, ele constrói casas, constrói de tudo. Tem o trabalho da Desirée, que é uma pessoa que participou muito aqui do PUPA também, desde o começo, foi a pessoa que mais ficou aqui, ela tem um trabalho também de terapias, de permacultura e tal, mesma coisa, encaminho muita coisa pra ela, assim. Eu cuido meio que dessa parte, e o meu irmão me ajuda, ele tem mais acesso à internet agora e vão surgindo, porque esse nome, PUPA ficou meio conhecido.

 

Atualmente, eu sou agricultor de domingo a domingo, eu estou com pouca comunicação, e é difícil achar um tempo porque produzo hortaliça, e que bom que tá chovendo, porque senão, eu não ia estar tranquilo aqui e ia falar: “Tá fritando no sol, tenho que ir lá”, ou “tenho que ligar para alguém!” Então, eu estou saindo superpouco.

 

Acabei mudando de bairro, um mais rural, na verdade, no meio do mato, mesmo. Teve um pouco de pesar assim, de sair daqui, porque eu sempre imaginei que eu ia ficar aqui para sempre, aqui no Freitas, esse é o meu lugar. Então, teve um pouco de pesar e uma coisa com a minha mãe, também assim, que a gente é muito próximo, a gente tem muita confiança um no outro, se ela tem problemas… ela resolve o problema de todo mundo e ela me liga quando ela tem problemas, então eu me sinto muito honrado nisso. Eu acho que isso teve uma quebra que foi muito difícil assim pra mim. Ter uma relação muito forte com o lugar, mas eu senti que era o momento também, precisava seguir outras histórias. Até a minha esposa falou uma época para mim, principalmente quando a gente casou, ela falou: “Pô, eu nunca vi uma pessoa que divide as decisões da vida tanto quanto você. Você tem que começar a tomar mais os rumos da sua vida. Sua vida não é sua, cara”. Ela começou a falar porque incomodava ela também. Tudo o que quis construir aqui, eu coloquei na mão do coletivo. Eu trabalhei servindo o coletivo, sempre! E isso cansou também, eu precisava ter um pouco mais a minha própria vida. E essa coisa de ser aberto também me cansou um pouco, porque só vinham as pessoas iniciantes, sempre, e depois de sei lá, anos aqui, eu comecei a pensar: “Eu estou tendo dificuldades para aprofundar algumas coisas, minhas, pessoais, porque na hora que começa a ficar bom, vai todo mundo embora. E chega novamente todo mundo novo e eu tenho que ensinar desde o começo. Então, eu virei especialista em começos”. Isso estava me incomodando. E foi assim que resolvi fazer essa transição, comprei um terreno em Monteiro, bem isolado, ele não é muito longe, mas a minha casa é praticamente dentro da floresta, faz dois anos que eu estou morando lá, tenho energia elétrica faz um mês...

 

Eu não sabia ficar sozinho, quando voltei de Araraquara pra cá, e passei uma solidão, eu me liguei com as crianças, depois sempre tive essa galera, e depois o PUPA. Depois cansou também. Eu aprendi a ficar sozinho um pouco, quis ficar um pouco, de novo, mais recolhido. Eu ando mais recolhido, tenho que me achar em casa, em geral. E essa constituição mesmo, o lugar é assim, né? Semana passada, por exemplo, um javali me enquadrou na porta, superagressivo, de 200 quilos... É a última casa, então, eles aparecem em casa, sabe, tipo… onça, essas coisas. E você começa a ter uma outra relação com o espaço, e acabo me relacionando menos com gente. Não é minha zona de conforto, porque a zona de conforto pra mim é me relacionar com as pessoas, mesmo. Agora, ficar sozinho, ficar lá dias assim, só com o cachorro, com o gato e com as plantas, e com as pessoas que trabalham comigo, mas pouca gente, com essas coisas: cobra, tempestade, vento no meio do nada, falta de energia, não chega de carro, andar a pé, morro... Tipo, é uma outra coisa. Foi isso, acho que tudo num tempo bom. Meio vencer um prazo necessário de uma coisa para chegar a uma outra coisa, que é um tempo de fixar um pouco, de aterrar mais um pouco as ideias. Acho que agricultura tem a ver com isso também.

 

A curto, médio prazo, eu pretendo me estabelecer mesmo na agricultura, é uma coisa que eu gostei. Estou a um ano e meio, mais ou menos, com essa atividade profissional pra valer. Uma coisa que eu gosto, que completa a minha personalidade, assim, uma coisa que eu preciso. Então, a curto e médio prazo, é consolidar isso. É uma coisa que eu estou aprendendo, eu perco muita coisa, perco muita produção, ainda não ganho grana, que não precisa ser muito, mas ainda é muito pouco, sabe? Experimento autonomia, gasto pouco porque eu produzo bastante coisa que eu como, assim, as raízes todas, feijão, abóbora, as hortaliças, tenho galinha, mato uns frangos, tenho ovo, tenho bastante coisa ali, bastante autonomia e isso é legal, e pouca grana, mas às vezes, a gente tá precisando um pouquinho mais para ter alguns projetos para reconectar um pouco essa outra história também, que a gente precisa resgatar um pouco essa história daqui e juntar as duas, não é? A longo prazo, eu me vejo bastante nessa articulação, fazendo um pouco essa articulação nessa área, só que me especializando um pouco mais em algum tema, no caso, agora, é agricultura.

 

Atualmente, também trabalho com um pessoal, a gente tá sempre em grupo, isso sim, tem alguns mestres aí da agricultura que eu fortaleço eles, estou como presidente da APOENA, que é uma rede que hoje conta com 60 agricultores do Vale do Paraíba, orgânicas, a gente vai certificar, vai fazer uma coisa grandiosa, assim. Numa outra perspectiva, não é o PUPA de novo, não são pessoas iniciantes, são assim, agricultores, professores, agrônomos, e tal, eu estou numa posição completamente diferente, é claro, eu trago uma pontazinha da história, mas na agricultura mesmo, eu estou lá embaixo, atrás de todo mundo, eu sou iniciante de tudo. Então, para o futuro, acho que é articular um pouco disso, dar essa concretude das coisas que eu quero fazer, e continuar no propósito, porque o propósito é viver aquilo que eu acredito e propagar isso. Minha casa, eu fiz inteira de barro, eu fiz o meu sistema de saneamento, o meu sistema de água, o meu sistema de elétrica, a minha horta, tudo lá. E autonomia é uma coisa que é muito bom, te dá autonomia, mas te traz responsabilidade, e você acaba com todo conforto também, tipo, se quebra a minha água, não tem ninguém para arrumar, eu que fiz, tem um quilômetro de cano, só eu sei onde passa o cano, então tem que ser eu para arrumar, eu não posso pagar para alguém, se eu pagar para alguém, o cara não vai saber fazer, eu tenho que estar lá. Mas é muito bom também, porque eu não preciso chamar o encanador, eu arrumo a minha casa, eu sei reformar a minha casa, eu sei exatamente onde tem cada coisa que deu errado, cada coisa que precisa arrumar. Isso é muito legal, e é responsabilidade, e eu estou aprendendo a lidar com isso e a ideia é fazer isso em casa, junto com a minha esposa, que também tem essa coisa, ela vem da autonomia da área da saúde, ela é acupunturista, prática chinesa, trabalha com promoção da saúde, e estou me tornando mais saudável, nunca fui muito, então a gente promove lá esse projeto, que é um projeto nosso que é construir essa autonomia, construir e propagar, não adianta construir e ficar lá também. Eu tenho um amigo de alma, que fala sobre permacultura, ele escreveu um livro, inclusive, que se chama assim, que tem um nome parecido com isso, mas fala que permacultura não é sociedade alternativa, são alternativas para a sociedade, você não tá se apartando das coisas, a ideia não é ficar lá no mato, que se exploda o mundo, não. Justamente o contrário: a gente tá fazendo isso porque a gente quer provar que o que a gente sonha é possível.

 

Acho que tem muita gente com medo, as pessoas estão num momento propício para acreditar em outras coisas, o medo tá permeando… Eu não sei se é uma bolha que a gente cria, porque no fim, eu converso com pessoas que gostam disso, porque é difícil conhecer pessoas que não gostam disso, porque eu vivo isso, eu trabalho com isso, a minha família tá envolvida nisso. Então, difícil ter alguém que: “Nossa, esse negócio de meio ambiente não tem nada a ver”. A realidade se transformou drasticamente, é logico que ainda é pouco a nível global e tudo mais, mas a nível de realidade, a nível de São José, se você conversar com alguém sobre meio ambiente, muito se desenvolveu em relação há 15 anos atrás.

 

Para finalizar, tem um caso que eu acho que foi bem importante aqui, que é uma coisa que a gente sempre conta para as pessoas, que foi fundamental, porque acho que foi a grande prova de fogo do projeto, que tem a ver com a história do PUPA.

 

A gente fez a construção, todo mundo construindo, e fomos fazendo mais devagar, porque um monte de gente ali estava aprendendo. Quando faltava um mês para finalizar a obra, eu estava preocupado, porque eu fazia toda parte de prestação de contas, de relatoria, então, era um projeto que eu tinha que ficar controlando um pouco as pessoas. Nisso, eu tinha que ficar controlando e um mês antes, tinha uma reunião com todo mundo, com o Biscuit - o Biscuit não participa de reunião, ele nunca participou do PUPA exatamente, porque o PUPA tinha muita reunião, ele não quer saber, então era difícil -  mas foi nessa sala aqui, a gente sentou, era exatamente aqui, falou: “tem isso, tem aquilo, tem aquilo, tem um mês”, tava marcada a inauguração para prefeito, vereador, ia vir um monte de gente, gente de outras cidades, amigos, a inauguração foi gigante. “Tem que estar tudo pronto”, tinha uma galera que estava se empolgando com a festa: “Então, vamos terminar”, e aí, a gente fez um check list, se der tudo certo, a gente vai conseguir, vai dar certinho para esse mês pra gente finalizar. Sexta-feira fizemos essa reunião, tudo bem, planejamos, tá bom, tchau. Eu fui para outro lugar, não sei o que, final de semana, segunda-feira, o Biscuit não veio trabalhar, e o Biscuit é assim, o primeiro curso que eu falei que eu não o achava, ele é assim até hoje. Então, ele não veio, não tinha celular, cadê o Biscuit? “O Biscuit é foda, a gente combinou, tá em cima, e já não veio no primeiro, cara? Não acredito”. Mas a gente sempre confiou muito nele, ele sempre deu um jeito, ele sempre cumpre o que ele fala. Tá bom, vamos lá, vamos começar a trabalhar. E aí, nesse dia que ele não veio, o Sancho que era o que mais conhecia, travou o pescoço. “Tô com o pescoço travado, não venho amanhã”, chegou no dia seguinte, não veio o Sancho com o pescoço travado e não veio o Biscuit. Aí, veio a esposa do Biscuit e falou: “Iuri, você tem que conversar, o Biscuit é muito teimoso, ele tá gripado e ele… vai lá e conversa com ele” - Tem um médico que atende aqui, um médico muito bom - “Vê se convence ele, ele não quer vir”, ele tem umas bruxarias, toma chá de não sei que com terra, umas coisas assim… “Ele tá tomando as bruxarias dele lá e não quer ir no médico, “A noite eu passo lá, a gente tá na correria”; não sabia que ele estava doente, então, eu fui lá. Cheguei na quarta de manhã, ele estava, assim, ele não conseguiu levantar a mão para me cumprimentar. Eu fiquei muito preocupado, ele já estava mais magro, tipo… Eu falei: “Biscuit, vamos embora, vamos para o médico agora, o médico tá lá”, era quarta-feira de manhã, “O médico tá lá, vamos lá agora”. Tive que pegar ele no colo, eu fiquei muito assustado, ele não conseguia falar, tudo congestionado. O médico chegou, examinou ele, eu estava junto, o médico falou para o cara que trabalhava: “Quem que dirige o carro da ONG? Põe ele no carro e leva ele pro hospital”, eu falei: “Vou junto”, “Não, você fica que eu vou conversar com você”, beleza, foram outras pessoas, e ele falou: “Cara, ele vai morrer, já tá assim… o pulmão tá completamente comprometido, ele precisa ser entubado agora, ele não tá conseguindo respirar” . É que ele é muito forte, então ele ficou segurando até um ponto, ele estava morrendo. Se não tivesse ido ali, ele tinha morrido naquele dia. Ele foi internado, a gente ficava se revezando para… o médico chegou, fez todos os exames: “Ele vai fazer uma cirurgia que tem 30% de chance de sobreviver”, 20 a 30%, vai retirar os pulmões, abrir os pulmões, lavar, costurar de volta. Nossa, e agora? Que bom que ele já tem as casas, porque se ele sobreviver, ele não vai poder trabalhar mais, vai ter o pulmão comprometido, enfim, não pode fumar e nem nada, coisa que ele fazia e tal. Imagina? Trabalhar com essa construção, sem o Biscuit, o Sancho travado? O Sancho vinha numa cadeira e ficava assim, falando: “Não, é assim…”, ele vinha dar umas dicas. Eu larguei a parte administrativa, larguei, não, tinha que fazer ainda, então eu fazia na hora do almoço, eu trabalhava das… começava às seis da manhã, antes do sol nascer, e terminava às dez da noite, com as luzes acesas. Um mês. E eu era mais gordinho, fui perdendo peso, só que nesse final aí, bicho, nossa… E o biscuit fez a cirurgia, sobreviveu e começou a recuperação, mas ia ser muito longa a recuperação. A gente ia ter que terminar, então foi uma prova de fogo, a gente estava organizando tudo e teve que terminar a obra, só a gente, nós mesmos, vamos ver se eles aprenderam mesmo. E aí, no dia da inauguração, o Biscuit é tão forte, que no dia da inauguração, ele estava aqui e foi o dia que ele teve alta, veio de bengala, e aí, ele sempre… eu me emociono também de falar, na hora da inauguração, ele falou: “Achei que ia perder…” – dei o microfone para ele – “Achei que ia perder, que ia ter uma foto minha aqui e ia se chamar Espaço Biscuit, mas eu consegui estar aqui hoje”. Um mês depois, ele estava fazendo casa. E ele constrói ainda e cada vez mais forte. Ele faz uma piada comigo, às vezes, eu trabalhando com ele, ele chega assim, eu estou cansado, ele é muito forte, tem 55 anos, mas é muito forte. A madeira mais pesada é ele que carrega, sabe? Era para ser ao contrário, mas não tem essa. Ele é quem faz a parte mais pesada, sempre ele assim e a gente fica cansado, ele nunca para, ele sempre brinca comigo: Iuri, quando eu chegar na sua idade, eu quero estar melhor que você, hein, cara, pelo amor de Deus”, ele sempre fala isso.

 

Foi um marco, pra gente, porque a gente entendeu muita coisa, além de um choque, a gente teve autonomia de fazer e a gente conseguiu entender muita coisa, acho que foi um aprendizado muito grande, tanto profissional, como pessoa mesmo. Foi uma coisa muito forte pra todo mundo, na época. 

 

Agradeço o convite, agradeço o trabalho de vocês, parabenizo, excelente, vocês estão de parabéns, mesmo, eu adorei participar. Eu gosto de falar, adorei mesmo, não só por falar, mas tanto emocionalmente, quanto também pelo valor do trabalho racional, assim, de qualidade e tudo mais. Parabéns pelo trabalho.  

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+