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História

Mestre do coração derrancado

História de: Antonio Luiz de Matos (Mestre Antonio)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/07/2010

Sinopse

Mestre Antônio fala sobre o cuidado com as relações humanas, com a natureza e com a fé. Espirituoso, ensina o ritual de entrar no cerrado para pegar madeira e também as simpatias contra o mal nas plantações quando tem eclipse. Relata com muita emoção sobre cada madeira utilizada para fazer os instrumentos usados em cada festa (Folia do Rosário, Folia do Divino, Folia de Reis). Com surpresa, recebeu o título de mestre, por ser o único no ofício de tamborzeiro. Desde então, vem dando oficinas ensinando não somente a construção dos diversos tipo de tambor, mas também sobre o cerrado.

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História completa

Vai escutando pra você ver como foi a história! Meus descendentes carregaram muita pedra na cabeça, arrastaram corrente. Foram muito sofridos por coronel. É uma história que eu não gosto nem de comentar, mas se as pessoas perguntam, eu falo: “Isso é uma história que vem do pai, uma coisa da vida da gente e a gente tem que dar esse seguimento…”

Eu sou membro do Congado de São Benedito. Eu tenho alguns cantos... Eu toco acordeon. Somos dois: eu e o Gonzaga. Quando eu estou viajando, o Gonzaga toca. E quando eu estou lá, nós dois vamos com uma sanfoninha acompanhando os cantos do congado. Esses cantos são do tempo dos escravos, daquele sofrimento que acontecia. Lá tinha um grupo que tocava os instrumentos com as enxadas e quem estava lá fora ouvia um som que saía  como tambor, porque eles não tinham tambor dentro do cerrado. O capataz mandava: “Vocês ficam escondido aí dentro dos mato” e ia embora almoçar aquelas comidas boas dele. Os escravos ferviam lá dentro do mato fazendo as cantigas pra distrair. Usavam enxada, foice, picareta. E quem estava de longe, o som saía como se eles tivessem batendo os tambores. É incrível, é uma coisa muito séria. Minha mãe tinha um sangue muito forte do lado nagô, ela era bem escurinha com o beiço bem vermelho. Ela era muito boazinha pra mim.

Onde tinha um velho, eu estava sempre com ele, eu me lembro que meus colegas falavam: “Antônio, mas você só gosta de ficar onde tem velho” Eu gosto porque sempre sai coisa boa, as pessoas mais velhas têm coisinha boa pra falar pra gente, os novos também têm, mas os mais velhos têm mais experiência. Eu agradeço muito meus avós, eu tenho muito que agradecer também os outros velhos, meu padrinhos. Pra mim foi um senhor lá com o nome de Zezinho. Um tal de Pedro da Rocha que é um senhor de idade também descendente de escravo, esse tal de Pedro da Rocha que morreu não sei com quantos anos, mas eu gostava muito de trocar ideia com ele. E isso pra mim foram muitas lições que eu aprendi, então hoje eu estou passando, isso pra alguém que tem boa vontade de aprender.

Sabe o que meu avô fazia? Quando dá eclipse na lua, aquele sereno que cai na lua, ele não é bom nem pro ser humano nem pra plantação. Eu poderia estar dizendo que deixa uma nódoa, uma ferrugem na folha do feijão, e na gente mesmo ele deixa uma gripe, um trem assim, o caboclo fica de mal estar. Ele fica com o que hoje o povo diz enxaqueca. E dá amarelão nas mandiocas, nos mandiocais, caem as folhas tudo, seca e só fica os pauzinhos em pé. Então essa história de carranca, de chifre de boi, manta de algodão, um pedaço de pano vermelho bem vermelhinho, um litro branco é pra segurar essas coisas que vem de cima, esse negócio que eles falam efeito estufa, como que é? Eu não sei falar essa palavra. Isso tudo é uma simpatia pra proteger. Se você for fazer uma horta, você põe sempre um chifre ali perto, você põe uma garrafa, lava ela bem lavadinha, tira os rótulos e vira ela de cabeça para baixo e põe nas esquinas uma manta de algodão, um pano bem vermelhinho. Meu avô fazia muito isso. Assim é bom. Aquelas coisas que vêm ficam tudo naquilo que você pôs.

Vocês pediram pra contar a história minha de vida, eu vou contar. Nós não tínhamos o direito de aprender ler e nem escrever, mas Deus guardou aqui na minha memória essas coisas e isso está me ajudando muito. Lá em casa tinha cacimba, um poço furado de enxada... “Vai lá menino, ô Antônio, vai na cacimba, traz lá a moringa d’água, traz uma cabaça”. Nós corríamos no rio e buscava aquela cabaça. “O compadre chegou aqui, eu vou coar um café pra ele, vai lá lavar o coador!” Aí a gente ia na cacimba lavar o coador. Lavava vasilha, trazia água na cuia em cima da cabeça pra tomar banho. A vida era assim, boa porque tinha humildade, fazia aquilo com o maior prazer. É como uns pássaros do mato, os passarinhos saem voando, ficam bem felizes, não importa o que está acontecendo com ele, se vem chuva se não vem, se vem sol, né? A gente vivia desse jeito.

A comida era frango caipira, galinha feita na panela de barro e no fogão a lenha, canjiquinha de milho com feijão, muito gostoso, ora-pro-nóbis que tem uma proteína fora de série e outros tipos de folha. Tudo mesmo: a folha de taioba, folha de batata, fazia aqueles virados de feijão com muito torresmo, com muita carne, tudo de porco caipira. Matava, porque tinha tudo, da própria roça a gente sobrevivia, era tudo assim. A gente moía a cana no estroçador. Com a garapa da cana fazia o café, tudo bem natural, tudo da terra mesmo, nada de indústria.

Eu fico feliz demais de ensinar porque eu estou dividindo. Quando você compartilha você é compartilhado, quando você tira um pedacinho do seu coração e cede pra alguém, você pode ter na certeza que você nunca vai ter dificuldade na sua vida. Então agora vou te ensinar como faz para ir ao cerrado pegar madeira. O dia certo de você ir é depois da Lua Minguante, três dias que corresponde seis dias… Na hora que você deita na cama, faz as orações que você tem o costume de fazer pro seu anjo da guarda. Quando levantar, não se esquecer de por o pé direito no chão. Você não pode chegar lá aos trancos e barrancos, roçando tudo. Primeiro você tem que pedir pro rei da mata, né? O ideal é fazer de novo suas orações, benzer seu corpo: “Pai, Filho e Espírito Santo” e entrar lá com a sua ferramentinha, consultar com as madeiras, ver qual você pode tirar pra não prejudicar aquelas pequeninas. Não mexer naquelas que lá em cima tem folha, porque ela é a sombra dos pequenos, ela é a casa dos pequenos. No cerrado tem que acarinhar as árvores, as plantinhas. Chegar no pé das árvores e  consultar nos ouvidos, bater com um martelinho pra ver se ela tem oco, olhar se tem galho seco e, se tiver, ela tem oco. Aí você vai tirar ela, oferecida pela natureza. Não deixar cair pra não quebrar os outros galhos. E voê ainda tem direito de plantar as mudas… Tenho fotografias pra mostrar pra vocês, meu filho plantando muda no cerrado, retribuindo a natureza, porque nós dependemos dessas árvores maravilhosas pra sobrevivermos. Ai de nós se não tivesse essas árvores! Essas árvores são as nossas coberturas. Esse cuidado a gente tem que ter com a natureza, estar sempre contribuindo, tirando um pouquinho, eu costumo dizer cedendo, tirando um pouquinho do coração e distribuindo. A natureza cobra secreto, essa preparação que a gente faz quando a gente chega no cerrado, com todo cuidado com a natureza, essa preparação é feita pra evitar que um marimbondo pique você, que uma abelha ferroa, que uma cobra pica, que um cupim caia em você. Quantos morrem no cerrado por não ter esse cuidado com a natureza…

A natureza cobra de um modo bem sereno, o caboclo chega lá, devora, vem um marimbondo e ataca, uma formiga e pica. Ele chegou lá e estragou, ele pisou nas mudinhas que são filhas das árvores, quebrou lá aos trancos e barrancos, quebrou galho e tudo. Elas não ficaram contentes e o que acontece? Ela fala assim: “Você fez isso? Fica aí debaixo que vai cair um cupim em cima de você!” Cupim é aquele troço redondo que dá lá em cima. Ou então se não cair um cupim, vem uma cobra e pica o caboclo, porque não teve o preparo, não pediu licença à mata, ele não pediu pra cortar a mata.

Antigamente, no outro mundo passado, as árvores conversavam como os outros, elas queria ser gente, por isso que elas comunicavam umas com as outras. Então tem algumas peças que você encontra no cerrado que é só você dar um trato nela e ela vira uma pessoa e fica bonita, vira uma pessoa. Não tem o cabeleireiro? Eu chego lá e sento. No cerrado também é assim e tem alguém que faz isso. “Você quer ficar bonitinha?’ “Quero!” “Então eu vou ajeitar você.” É igual uma gente.

Um dia veio um convite da Fundação Ouro Preto, a FAOP, e eu fiquei preocupado: “Ah meu Deus o que será isso?” E quando eu cheguei lá, eles já estavam com a mesa toda formada. “Olha, sabe por que nós chamamos você aqui? Porque você, lá no Vale do Jequitinhonha, é o único no trabalho que você mexe... Já tem quatro anos que nós fazemos as pesquisas e você é o único nessa área dos tambores na linha africana.” Eu fiquei esquisito assim: “E você está sendo convidado pra você dar uma oficina lá na sua cidade” eu nem sabia o que era oficina, meu negócio era fazer tambor de caixa e vender pequenas coisas, sabe? Aí eu fui embora pra Minas Nova e na data que eles marcaram, eles foram lá e falaram dos outros que iam fazer parte. Nós éramos em dez e eu fui um dos agraciados, foi como uma loteria, sabe como é? Fiz a oficina lá em Minas Nova, acabou que eu fui muito bem assim recebido,

Fico feliz demais de ensinar. As pessoas me olham assim e falam pra mim: “Você nessa idade que está... A gente olha você e você com esse espírito seu forte” Várias pessoas já falaram pra mim que quando eu dou oficina, no começo da oficina uns dois dias assim, o primeiro dia é só pra concentrar é só pra falar do cerrado é meio complicado, mas os alunos quando saem, saem tudo chorando, acaba eu também com o meu coração... Não sei depois que eu fiquei velho, meu coração não sei por que, eu acho que ele está meio derrancado, né? Acaba que eu também fico sentindo aquelas dores no coração, sai aluno chorando, porque eu faço de um modo com eles sabe como é? Eu junto eles tudo e formo assim como uma família, né? Como uma família, ali vira tudo irmão, ali um vai acabando e ajudando o outro e tudo sem nenhum passar uma pequena decepção do outro, um pito, eu poderia estar dizendo, não sei se você já ouviu falar pito, pito é uma palavra... Quando é no final tem a entrega de certificado e tem muitos que choram, eu já vi muitas mulheres chorando, muitas moças chorando, muitos rapazes chorando e acaba eu também ficando meio derrancado também, né?

E isso é a verdade pura, pode ter certeza. Com essa delicadeza de vocês, esse interesse que vocês têm, está fazendo ficar conhecido o Vale do Jequitinhonha, a região de Minas Nova. O Vale do Jequitinhonha ficou não sei quantos anos sem mapa. Então é assim. É como se diz, eu vou embora, mas vou tranquilo.

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