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História

Mestre Diplomático

História de: Gabriel de Souza Martins (Mestre Gabi)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/04/2022

Sinopse

Notícias e pronunciamentos pela rádio. Morte da irmã. Compra do terreno e construção da casa em que vive até hoje. Primeira televisão da rua. O mundo era pequeno. Aricanduva só tinha eucaliptos. Uma criança privilegiada. Única criança negra no ensino técnico. Primeiro trabalho em um escritório de engenharia. Marmoraria e chefe em 6 meses. Mármore do Metrô Sé e do São Bento. Fascínio pelas obras que ajudou a construir. Marmoraria própria e sociedade. Princípios e honestidade. Envolvimento com a escola de samba. Criação do samba enredo para o desfile homenageando os 75 da imigração japonesa. Censura às letras dos samba enredo. Racismo na sociedade e nas negociações de trabalho. Ensinado que não adiantava ser bom, precisava ser o melhor. Ofensas em forma de brincadeira. Entrada no restaurante que não atendia pessoas negras. Cariocas no carnaval de SP. Ida para a Camisa Verde e Branco. Samba enredo sobre a escravidão censurado. Projeto de lei para proibir crianças nas escolas de samba. Chamado na Câmara por Paulo Maluf. Parado pela polícia diversas vezes. Mudanças na política e na rapidez da informação. Mestre Gabi, o mestre-sala. 

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História completa

P/1 – Obrigado pelo senhor estar aqui de novo, preciso falar que a primeira pergunta é muito difícil. Qual é o seu nome completo, onde você nasceu e que data foi, Mestre? 

 

R – Meu nome completo, Gabriel de Souza Martins, o ano que eu nasci, 1947 em 08 de novembro, e a cidade é a cidade mais linda do mundo, que é São Paulo, capital. 

 

P/1 – Mestre, você falou que nasceu em hospital?

    

R –  Nasci no Hospital Matarazzo, ali na avenida Paulista. Era um senhor hospital, mas hoje ele foi demolido e me parece que estão construindo algumas coisas lá.

      

P/1 – E o seu pai e sua mãe te contaram como foi o seu nascimento, a gestação…

 

R - Olha, sinceramente a gestação não sei, não fiquei sabendo como foi, mamãe pelo menos disse que correu tudo bem, durante, no parto foi tudo bem e eu não tive problemas e eles também não tiveram, porque graças a Deus eu tive saúde. Não me lembro, hoje eu tenho 74 anos e não me lembro de ter ficado internado nunca. Papai do céu me deu saúde, só tenho pressão alta, mas isso é coisa normal. Nossa raça negra, praticamente todo mundo têm pressão alta, mas aí eu não sei porquê, não sei se é porque o sangue é muito grosso (risos) uma vez eu fui tirar sangue e o médico falou: “Nossa senhora, o seu sangue é grosso demais” (risos) não sei se é por isso…

 

P/1 – Então, falando de sangue, fala um pouco da sua mãe, qual é o nome inteiro dela e de onde veio ela a família dela?

 

R – Mamãe veio de Minas Gerais. Cidade de Machado, maravilhosa, bonita (risos) era linda a minha mãe… Graças a Deus eu a tive até os 80 anos, ela faleceu com 80, e era maravilhosa, não tenho a mínima coisa pra falar da minha mãe, negativo, tudo da minha mãe foi positivo, educação que ela me deu, tudo, tudo, tudo!  

P/1 – Qual é o nome completo dela?

R –  Mariana Francisca de Souza Martins.

 

P/1 – A sua família por parte de mãe veio de Machado, de Minas?

 

R – Machado. Papai também é de Machado (MG). Eles se casaram e vieram pra São Paulo, pra construir uma vida melhor, que naquela época era muito difícil. Papai era pedreiro e também tive a felicidade de tê-lo até 81 anos, mas me deu um presente que olha…o dia que eu fiz 50 anos, ele faleceu. Foi triste demais, mas também é difícil falar de uma pessoa que foi tão boa, não só comigo. Os dois, meu pai e minha mãe foram exemplos de pessoas, sabe? De tudo, de educação! Meu pai não teve estudo, não teve instrução, minha mãe já teve um pouquinho a mais que ele, e mamãe ensinou para ele, e ele era sedento de aprender as coisas, ele comprava jornal e ficava lendo assim de letrinha mesmo e a mamãe ensinando…e não é que depois de um tempo ele começou a ler o jornal sozinho e foi. Na minha casa tinha muito jornal, porque ele comprava, ele não sabia ler, mas comprava o jornal que é uma coisa que hoje não existe mais, jornal físico não tem mais, mas ele se cercava de notícias. Olha, o papai…eu tinha 4 ou 5 anos de idade e eu me lembro ainda hoje; talvez eu não tivesse 5, talvez eu tivesse 6, mas me lembro ainda hoje que ele me colocava no berço e a minha madrinha tinha nos dado um rádio para o papai, porque também naquela época não tinha luz elétrica e tal, e ele ligava pela manhã e me fazia ouvir notícia junto com ele, e na época tinha muito jornais e Vicente Leporace e esse pessoal do jornalismo, muitos discursos na época de eleição, então era muita coisa e o papai gostava muito de política e aí ele falava “Olha, hoje vai ter o”...como é que ele falava…não é discurso…ah! “Vai haver hoje um pronunciamento do Ademar de Barros, cê precisa ouvir, hein menino” (risos) e eu nem…aí a mamãe brigava com ele “Como, Valdemar? Você vai deixar o menino sentado aí de castigo ouvindo isso que ele nem sabe o que é” (risos) e era assim. Então eu digo pra você; meus pais foram pra mim a minha estrutura e o que eu sou hoje, devo tudo a eles e as boas amizades que eles construíram durante a vida.

 

P/1 – Vamos continuando nisso, Mestre. Me conta, você teve irmã ou irmão?

 

R – Eu tive uma irmã, ela era 7 anos mais nova que eu, Angelina. Infelizmente ela faleceu com 60 anos, agora, faleceu não, tirou a vida que aí é diferente, e o pior é que a gente não sabe porquê. Ela era professora e bem sucedida até. Ela não falou e tirou a própria vida; passagem ruim da minha vida foi a perda da minha irmã. Do papai e da mamãe eu já não digo que foi coisa ruim, eles tinham cumprido a missão deles, já tinha nos criado e tudo. Uma vez a mamãe trabalhava em casa de família, era empregada doméstica e a gente dormia lá, papai também, isso quando eu era pequeno, e uma vez, o papai viu uma outra empregada doméstica sendo tão maltratada na casa do lado que gente morava, a mulher chorando, e ela já era uma senhora, e aí ele falou: “Poxa vida, o que a gente vai fazer?” e passou um pouco nós conseguimos,”nós”, eles conseguiram comprar um terreno, construíram lá uma casinha pequena e não é que o papai, quando a gente construiu, chamou aquela senhora, levou para casa e nós ficamos com ela 2, 3 anos, até que ela conseguiu outro emprego e foi trabalhar. Então ele tinha um coração assim e a mamãe também, era assim, meu primos que vinham do interior, vinham pra estudar em São Paulo eles diziam: “Não! Fica lá em casa”. E era assim, muito aconchegante a minha casa.

 

P/1 – E inclusive, onde era a sua casa, como ela era? Você pode descrever pra mim?

 

R - A princípio era uma casa que tinha 3 cômodos, que ele construiu no fundo, depois, papai era pedreiro e bom hein, não é pedreiro… (risos) era bom. Aí depois ele construiu mais à frente do terreno, um quarto pra mim, uma casa boa, bem melhor e era lá exatamente onde eu moro hoje, exatamente lá. A casa tem sala, cozinha, banheiro, dormitórios 2,3…e hoje tem a minha casa mais para o fundo, que eu construí, e depois construí também pra minha filha que mora comigo.

 

P/1 – Qual é a rua?

 

R – Rua Monasita, 33 - Vila Antonieta. Lá é nossa residência desde os 4 anos de idade que eu moro.

 

P/1 – E nessa época da sua infância, como é que era essa casa, eu sei que construiu muito, mas como era nesse período que você estava crescendo?

 

R – Na verdade, eu falo pra você que a minha pra mim era uma mansão e eu que era acostumado a morar em mansão de verdade, mas pra mim ter uma casa naquele lugar e com sala, com quarto, com banheiro dentro de casa. Não tinha água, porque a água era água de poço, mas pra mim, eu digo que eu fui uma pessoa privilegiada mesmo, minha infância foi uma indireta infância maravilhosa, eu não posso falar que eu sofri na minha infância porque não sofri, até por essas famílias mamãe trabalhou que me davam presentes, roupa, tudo. Olha, eu tive um telefonema outro dia de uma das patroas da minha mãe que está com 97 anos, "Gabriel você sumiu. Aparece aqui em casa, não é porque o José morreu que você não vem mais" (risos) Até hoje para você ver que não era coisa assim passageira, e eles também tiveram a sorte de ter pessoas boníssimas ao lado deles, porque se para mim foi bom, para eles, melhor ainda, porque eles não viram um filho sofrer, porque a pior coisa eu acho que é isso, você ver um filho sofrendo, pedindo alguma coisa que você não pode dar. Deus me livre!  Isso é coisa que eu não consigo ver e entender.

 

P/1 – Agora você falou que vocês tinham um rádio em casa, vocês ouviam muito? O que vocês ouviam além dos discursos do Ademar?

 

R – Naquela época o que se tinha mais era música americana, e notícia, propaganda, era só isso, não tinham programas... Tinham alguns, mas no Rio de janeiro às vezes o rádio não pegava, então a gente ouvia essas coisas que... nós tínhamos, a rádio nacional do Rio de janeiro, mas que aqui não pegava,  pegava às vezes, porque radio tem um negócio de ondas curtas, médias, longas, eu não entendo muito, mas às vezes pegava, e outras não, e a gente assistia daqui mesmo, ouvia daqui mesmo. Deixa eu te falar uma coisa, para eu falar que eu fui uma criança feliz, a rua da minha casa foi a primeira rua a ter uma televisão, a primeira casa a ter uma televisão. Imaginem que na época, televisão era uma coisa que nossa senhora! Me lembro até hoje. Papai comprou, fui com ele comprar aqui na Liberdade, me lembro nitidamente. Nós chegamos na loja da Strauss, era uma televisão Strauss. Puxa vida, quando essa televisão chegou na minha casa, você não acredita a festa que foi na rua da minha casa. Adivinha, todo mundo ia para minha casa assistir televisão, que coisa maravilhosa! Então, como eu falo para você, eu fui abençoado por Deus, para ter a família que eu tive.

 

P/1 – Quantos anos você tinha quando ele comprou, você lembra? 

 

R – A televisão? Eu estava no primário, eu acho que eu tinha uns oito ou nove, eu era um menino.

 

P/1 – Que canais tinha nesse período?

 

R – Ah eu lembro, a gente assistia Bonanza, era um filmezinho, tinha uma série Rin-tin-tin (risos), Polícia rodoviária, mas já mais à frente, Tarzan. Às vezes, com o Johnny Weissmuller, não com esses outros atores, aquele primeiro Tarzan. Assistia essas coisinhas. Ah, e muito desenho que a gente assistia, mas não entendia nada porque era tudo em inglês, a gente só assistia por assistir.

 

P/1 – Vocês assistiam futebol também?

 

R – Futebol não tinha, nessa época. Teve depois. Não, deixa eu ver... Tinha sim.

 

P/2 – Copa do mundo?

 

R – A Copa do Mundo de 58 eu me lembro bem, mas foi só no rádio, depois que veio o VT, a de 62 eu já vim assistir aqui na cidade na Praça da Sé. Eles montaram um telão grande, mas não era um telão de televisão, era, sabe assim, umas bolinhas assim...esse painel era todo furadinho e aí onde a bola estava acendia a luzinha...e a gente olhando aquela luzinha e uhuuu, e de vez em quando a luzinha entrava no gol ( risos) sabe, olha, a gente fala isso hoje e é cômico, porque milhares de pessoas na Praça da Sé assistindo isso, aquelas bolinhas ascendendo e o locutor narrando e a bolinha ia acendendo onde a bola estava, muito dez ( risos) pra nossa época, nossa foi maravilhoso. Na televisão mesmo, foi em 70. Aí já foi a glória.

 

P/1 – Seus pais cantavam em casa? Cantarolavam? 

 

R – Ah papai…e mamãe também cantava. O papai cantava e tocava um pouco de violão, tanto que é a minha frustração, não sei tocar, mas tenho um violão lá em casa que eu ganhei e continuo lá e não consigo, já fui pra aula, fiz duas aulas e não consegui, ganhei um violão e tô lá, tô agora na internet, e eu fico lá ouvindo e tentando tocar. Mas, agora na minha casa eu era menino ainda e eu lembro que chegavam os primos do papai, de madrugada, por que de madrugada? Porque eles estavam vindo de bailes e tal, de shows que eles faziam, e aí, chegavam na janela e começavam a tocar (risos) fazer serenata, olha você imagina acordar com eles cantando e aí ali em casa ficavam o dia inteiro cantarolando direto, até o final da tarde. Era assim.

 

(23:56) P/1 – Que músicas eles cantavam nessa época, Mestre? 

 

R – Músicas da época, era Francisco Alves, é…quer ver, Francisco Alves…o rei das multidões, o Orlando Silva, Vicente Celestino, todo esse pessoal.

 

P/2 – Tem alguma música que você lembra da letra, que ficou na sua memória pra sempre?

 

R – Tem. "Aos pés da santa cruz , você se ajoelhou, em nome de Jesus um grande amor você jurou, jurou mas não cumpriu, fingiu e me enganou, pra mim você mentiu, pra Deus você pecou" é por aí (risos) tem, tem muita coisa que eles cantavam bastante.

 

P/1 – Como era o bairro nessa época? Como era a rua, os seus vizinhos?  Vocês brincavam muito?

 

R – Era um bairro que não tinha quase ninguém, era pouca gente. Na minha rua tinha poucas casas e a gente conhecia todo mundo, até porque eram poucas. Nas ruas mais pra cima, a gente também conhecia todo mundo, o bairro era pequeno. Hoje eu não sei o nome do vizinho da segunda casa depois da minha porque foram morrendo aí os filhos vão vendendo as casas…vai mudando as pessoas. Hoje não é como antigamente, que a gente fazia questão de conhecer todo mundo, hoje você vê, mudou uma pessoa lá e eu fui me colocar…"Oi, prazer, tudo bem?" "Você está chegando agora, vai morar?"  " É, eu aluguei" "Então qualquer coisa que precisar, estamos aqui" Por que que eu fiz isso? Porque eu fui acostumado assim, o papai era assim, a mamãe era assim, então fui dar as boas vindas. Rapaz! Chega no outro dia, eu estava no portão, o camarada saiu, passou, mas nem bom dia falou, eu falei: "Nossa, será que eu fiz algum mal falando pra ele? Sabe, é assim, as pessoas não tem mais aquele carinho com as outras, mesmo que não conheça, mas eu acho que a necessidade ainda hoje, e eu ainda faço isso hoje. Eu acho que a gente ser solidário ao outro, não importa quem. Eu acredito que tem que ser assim, não sei, às vezes, a minha esposa fala: " Tá vendo, o que que você teve que falar com ele". Ah, mas é o meu jeito, eu aprendi.

 

P/1 – Na sua época não era assim né?

 

R - Na época, não. O mundo era diferente. Quando eu falo o mundo é porque o mundo pra gente era pequeno, sabe? Não é essa imensidão que a gente conhece hoje. Veja bem, São Paulo era uma cidade grande? Era grande. Na minha época de 7, 8 anos e eu lembro bem que a gente andava quilômetros pra tomar ônibus pra vir pra cidade. Eu andava muito e não tinha nada, uma casa aqui, outra ali, outra lá, então era muito sossegado você andava sem medo, tranquilamente, vinha pra cidade "Uau, muitos prédios". Muitos prédios, o quê? Não muitos, como hoje, "Olha, a gente não vê o céu" Eram muitos em relação de onde a gente morava que não tinha nada. Então esse mundo nosso era pequeno, a gente vinha pra cidade, era cidade grande, " Nossa, São Paulo!" E aí o papai me falava: " Nossa, essa cidade é muito grande!" E realmente pra época era mesmo, mas a gente não tinha noção do que era a cidade.

 

P/1 – O senhor cresceu na zona leste, né?

 

R – No mesmo lugar até hoje.

 

P/2 – Fica perto de que bairro que a gente conhece?

 

R – Vou te dar um norte pra você…conhece a casa do Shopping maior da América Latina? 

 

P/2 – Aricanduva?

 

R – Aricanduva. Sabe o que era alí? Eucaliptos, tudo! Onde é o Shopping hoje era tudo eucaliptos e a gente ia lá buscar lenha pra cozinhar, atravessava alí o riozinho e ia lá buscar lenha pra cozinhar mesmo, tinha forno, fogão de lenha, tudo. Então, o local é um local bom, mas na época não era, era longe pra chuchu, a patroa da minha mãe falava: "Nossa Valdemar, você foi comprar terreno no fim do mundo" (risos) mas, era o que podia acontecer na época. Sabe quanto que eles pagaram? Eles, os dois, pagaram naquele terreno duzentos cruzeiros, e olha, em muitos anos para pagar. Veja como é, a gente…hoje você fala uma coisa assim e parece "Puxa vida" o que é isso! Parece utopia, não existe isso, mas existia, duzentos cruzeiros, não foi a casa, foi o terreno.

 

P/2 – E era financiado pelo banco?

 

R – Não. Era o senhor José Luís Garcia, me lembro até hoje o nome dele, um senhor que tinha herdado aquele mundo de terrenos ali, terrenos não, eram terras dos pais dele, aí ele loteou e foi vendendo, mas aí…tem uma coisa que eu falo hoje, que o homem antigamente parece que era mais honesto, eu não sei, se acreditava na palavra sabe "Olha, eu vou te vender e você vai pagar quinhentos réis por mês, mas o meu escritório é ali" O escritório dele me parece que era no Tatuapé e o papai todo mês "tchum" e não só o papai viu, todo mundo que comprou ali ia lá, inclusive esses dias eu tive conversando com um amigo meu que é daquele tempo, que também falou: "Puxa vida" Amigo não, amiga, ela também é da mesma época, ela tem 74 anos como eu, e ela falou: "Rapaz, tô tendo uma briga com os meus irmãos porque agora eles querem vender aquilo que o papai comprou com tanto suor, mas eu tô lá firme" (risos). E ainda lembrou do seu José Luís Garcia, que foi o que vendeu tudo aquilo e recebeu de todo mundo e sem essa coisa de cartório pra assinar papel, ele sim assinou depois que pagou, para o papai ir no cartório tirar a escritura. Então, era tão mais fácil de se viver.

 

P/1 – Mestre, quais eram as festas que vocês mais esperavam nessa época?

 

R – Na verdade, as festas esperadas eram: Natal, São João, que a gente fala São João, a gente não fala Santo Antônio, São João e São Pedro, a gente fala São João, festas juninas, eram as que a gente esperava mais. Natal já junto com o ano novo, que demorava o ano pra passar, esses 365 dias não passavam de jeito nenhum ( risos) parece uma coisa, demorava o ano novo, lógico. A Páscoa era uma coisa que se comemorava, e o carnaval era carnaval, a gente não tinha lá…menino lá, eu não tinha muito como ir, sair pra vir na cidade, não ia. Eu me lembro com uns 8, 9 anos, a minha madrinha morava na Joaquim Eugênio de Lima, aqui na cidade, ali perto da Pamplona, então a noite tinham blocos, blocos não, era cordão, Cordão de samba, que era Vai Vai que tinha ali na Bela Vista, e olha só, chegava a noite as vezes a mamãe falava assim: "Olha, olha o bloco tá tocando" E eu ficava olhando pra cima querendo procurar o bloco (risos) eu ficava procurando o bloco pra cima, mas era pra eu ouvir, "Presta atenção, olha o bloco" (risos) estava tocando e era carnaval. Então a gente não ia muito, na verdade carnaval foi depois, mas antigamente não, as festas eram essas, as mais festejadas.

 

P/1 – Tem alguma coisa que você viveu na infância e no comecinho da adolescência que te marcou muito? Uma coisa assim, que você lembra sempre, uma coisa que te falaram que você viveu?

 

R - Sabe o que eu lembro muito, nós éramos meninos, aí com 10, 11 anos que aí você começa a brincar mais e uma coisa que me deixava triste, triste porque a gente ia brincar e naquela época era muito brincar de mocinho "Vamos brincar de mocinho?" Que era o Bang Bang que a gente via na televisão. "Vamos, vamos…" e aí, e as armas? Que eram as armas? As armas a gente fazia de um pedaço de pau, cortava e tal, fazia parecendo um revolverzinho, ou pegava um galho parecido, mas eu não, eu tinha revolverzinho, eu tinha porque minha madrinha me dava e caramba…e eu às vezes chegava em casa e punha lá o…eu tinha uma Mauser que ela tinha a espoleta e ela dava um "pá, pá, pá" e eu ficava constrangido de ir com aquela arminha, e eles todos com pedaço de pau e eu achava que não era justo, aí eu falava: "Mãe eu não vou levar não, vou brincar, mas eu não vou levar, vou fazer uma também de pau e vou brincar com os meninos" Porque eu não achava justo, porque só eu tinha e os outros não, e eles "Ô, traz lá a sua, ela faz barulho, ela é legal" (risos) e eu achava tão…isso é uma coisa que me marcou demais sabe. Por isso que eu falo pra vocês que eu fui uma pessoa privilegiada na minha infância, tudo. Eu tive carrinhos, tive tudo.

 

P/1 – E como é que era você na escola?

 

R – Eu era bom aluno.

 

P/1 – Você começou estudando onde? Como foi essa trajetória?

 

R – Eu fiz o primário, que era do primeiro ao quarto ano e não repeti. Depois fiz admissão, que era os nomes que se davam, depois supletivo, depois não… fiz o colégio, mas o colégio foi o seguinte, era da, o colégio era depois o supletivo até a oitava série pra você poder fazer o ginásio, pra depois você ir prestar…fazer cursinho, depois prestar faculdade. E aí eu fiz esse supletivo e tal e aí o marido da patroa da minha mãe falou assim: "Gabriel, o que você quer ser quando crescer?" (risos) Aí eu falei: "Eu quero ser igual ao senhor. O senhor faz esses desenhos tão bonitos, essas plantas. Que puxa!" Aí sempre ele me perguntava isso, aí quando eu fui entrar para o colégio ele falou: "O que você vai fazer?" Aí eu falei: "Bom, eu vou fazer o colégio, depois eu vou tentar ver se eu entro na faculdade, aí eu já era mais mocinho, 17, por aí, aí ele falou: "Olha, tem uma escola que você pode ir lá fazer o vestibulinho e se você passar, pode fazer um curso lá que é importante, vai te dar um norte pra seguir" Aí eu falei: "Ah, tá bom" e ele falou: "Mas é difícil" eu falei: "Tudo bem,vou tentar" E fui fazer, e aí eu passei. Rapaz, ainda existe, elas eram duas filiais, uma filial, uma é a matriz e ela tinha uma filial lá no Tatuapé, era Escola Técnica Getúlio Vargas e eu fui, fiz e passei, aí quando eu falei pra ele "Doutor José Luís, passei!" E ele, "Tá brincando, você passou?" "Passei" (risos) "Que bom, essa escola é maravilhosa e você vai aprender muito lá" Eu falei: "Puxa vida, que bom!" Aí, isso é história que eu tô contando, aí chego lá no primeiro dia pra fazer a matrícula, eu cheguei e eu vi que o pessoal me olhava assim meio estranho, "O que esse cara está fazendo aqui?" aí fui lá no balcão e falei que eu tinha ido pra fazer a inscrição, matrícula, aí a moça pegou meu nome e tal, pronto, fiz a matrícula, beleza, “aula dia tal”, beleza. Fui primeiro dia de aula e eu cheguei na porta do colégio, “ah, você vai estudar aqui?” Eu falei “Vou”, então a primeira coisa, “Vamos cortar esse cabelo”, “Como cortar meu cabelo, o que é isso?” “Não. Você é calouro”, aí cortando o cabelo de um pessoal, menino, eu sou a pessoa mais calma do mundo, mas o povo me deixa nervoso, eu falei “Olha, vou falar uma coisa pra vocês, se vocês mexer…", e eu não tinha cabelo grande, eu nunca gostei de black e na época tava black power, todo mundo, e meu cabelo era baixinho, bonitinho, era um blackzinho pequeninho assim, aí vai querer cortar meu cabelo? falei ‘Olha, quem botar a mão aqui no meu cabelo, já vou avisando, não vai se dar bem”, não sei se eles ficaram com medo, “Deixa esse negrão aí, deixa ele” aí entrei. Bom, meu número 48, eramos 48 alunos na classe, e eu o unico negro da classe, falei: “Caramba”, ai o professor fez a chamada, aí ‘48’, “presente”, “Gabriel, né?”, eu falei: ‘É’, “Como que você veio parar nessa escola?”, ai eu falei: “Como que eu vim parar?” (risos), eu falei: “Fiz o vestibulinho, passei e vim” ai ele falou assim ‘“Parabéns. Espero que você consiga terminar o curso, porque não é fácil”, falei “tranquilamente, tô aqui, vamos né” e aí rapaz, "priii" toca o sino lá, vamos descer pro pátio, e aí tá aquela rodinha “Pô, mas de onde você veio? O que você faz?” falei: “Caramba, o que é isso?” e mais aí eu olhava e eu não via ninguém dos meus, nenhum negro na escola e lá só estudavam homens, não tinha mulher, era só homem porque era curso de desenho de plantas pra construção e mecânica só, e eu falei: “Caramba, sera que aqui não é pra mim”, e muitos japoneses, eu falei “meu Deus, porque eles me perguntam porque que eu vim estudar aqui?”, e aí foi, passou e aquele ano eu estudei o ano todo sozinho, eu negro naquela escola, mas eu sempre fui uma pessoa que eu me considero agradável e o pessoal me abraçou e eu tinha um relacionamento na escola, maravilhoso, com diretor, com todo mundo “Gabriel, cê não quer fazer um grêmio aqui na escola?” Eu falei: “Mas não tem um grêmio?”, “Não tem, precisa ter alguém que puxe isso”, aí formei grêmio na escola e time de basquete, naquela época era futebol de salão, hoje falam futsal, era futebol de salão e fui fazendo coisa, fizemos teatro na escola, revolucionei, essa é a palavra, olha pra encurtar, final do curso, foram 3 anos.

 

P/2 – O senhor lembra que ano o senhor entrou?

 

R – 63. Não, 63 acho que eu saí, eu devo ter entrado em 60, e 63 eu saí, uma coisa assim. Tirei o diploma, tudo beleza, e na época os alunos que sobraram da filial, a gente ficou brigando muito com o estado para que aquele curso que a gente fez nos desse direito de assinar plantas, pelo menos sobrado. Porque você tinha o diploma, mas você não podia assinar a planta, podia fazer o desenho, mas teria que levar pro engenheiro assinar. Brigamos, brigamos, que nada... e aí no dia que eu saí da escola, o diretor veio pra mim e falou, “Gabriel, você não pode sair dessa escola”, eu falei: “Como não posso, Diretor? Terminei, tchau”, “Não, você não pode sair dessa escola, faz o curso de mecânica, fica aqui”, eu falei: “Não posso”, ele “Essa escola não vai ser a mesma quando você for embora”, acredita? São coisas que aconteceram na minha vida que me engrandeceram, me deixa assim, até hoje, falo pro meu neto, falei muito pras minhas filhas, que a gente ser bom para outros, às vezes as pessoas não retribuem nada, você não espera, você não faz esperando retribuição, mas é importante pra você e isso pra mim, nossa, pelo amor de Deus, não querer que eu saia da escola, então assim, foram coisas muito legais que aconteceram comigo, eu fiz o curso, e o Doutor José… menino, a felicidade que esse senhor ficou, quando me viu me formando ali tal, ele falou: “Puxa Gabriel, olha, você falava que gostava de me ver desenhando e hoje eu te vejo desenhando”, nossa, e pra te falar mais ainda, o filho dele, agora ano passado, eu tive lá no escritório deles e ele era menininho na época, criança, aí, ele falou “Puxa, o papai falava aqui em casa que você foi um menino exemplar, que você estudava muito e que você queria desenhar, e poxa, você foi mesmo e fez, e olha eu aqui hoje, também, desenhando” e eu falei: “Puxa, eu que fico contente de te ver assim”, porque, o pai dele era um senhor maravilhoso, e que era boníssimo pra todo mundo, então…e eu acho que fui pegando essas coisas boas de todo mundo e por isso acho que sou bem sucedido em tudo aquilo eu faço. 

 

P/1 – E você, quando saiu do técnico, você já tinha alguma coisa em mente pra fazer, um trabalho? O que aconteceu depois?

 

R – Saí, e esse mesmo Doutor José falou: “Gabriel, tenho um amigo que é engenheiro, ele tá precisando de uma pessoa lá, você não quer falar com ele? De repente, você fica trabalhando com ele”, só fiquei com ele 11 anos (risos). Cheguei lá e ele disse: "Oi, Gabriel” era engenheiro, começamos a trabalhar e fiquei com ele 11 anos.

 

P/2 – Foi seu primeiro emprego?

 

R – Primeiro emprego.11 anos eu fiquei lá e aí, saí porque quis sair e até a gente ficou meio assim, eu e ele, porque eu pedi pra sair e ele não queria que eu saísse. Mas aí, veja bem, a gente construía casas pro Inocoop, chegou a conhecer o Inocoop? Era uma empresa, eu não sei, acho que era do governo, não era da prefeitura, era do governo porque fazia casa fora de São Paulo, governo do estado. Então a gente construía casas fora de São Paulo, eu e ele, era tudo no nosso nome ali, construímos 321 casa em Avaré, em Lorena, em Sorocaba, por esse estado de São Paulo, muitos lugares, e aí eu sempre ia no Inocoop levar as coisas, as planilhas e lá eu fiz amizades também, e aí teve um amigo meu, o Homero, também era engenheiro, eu não cheguei a ser engenheiro, eu continuei estudando, fiz mais cursos, mas não deu pra eu fazer arquitetura, eu queria, mas era muito caro, mais cara que engenharia, eu não sei se ainda é.

 

P/1 – Você se especializou cada vez mais no desenho, né?

 

R – Desenho. Nessa firma que trabalhava não tinha necessidade de eu fazer, mas até porque tava tranquilo, casei, tal, sossegado, tô aqui, mas aí eu falei: “Caramba, agora eu casei, tô ganhando razoável” Era razoável pra mim, agora casado, muda de figura, aí eu falei: “Puxa vida, acho que eu vou ter que dar um jeito”, ai esse amigo meu falou: “Gabriel, eu vou me despedir de você porque eu vou sair daqui” falei: “Como?” “É, vou sair”, que trabalhava lá no Inocoop, “Vou trabalhar numa marmoraria”,falei: “Marmoraria?” falou: “Rapaz vão me pagar o dobro do que eu ganho aqui”  falei: “Caramba. Homero vai embora” (risos) e ele foi, aí e eu tô lá, aí 70, eu casei em 73, aí isso foi quando esse menino saiu de lá e foi pra outra firma e aí eu continuei, chegou em 74, minha filha nasceu, falei: “Caramba, mas olha, parece uma coisa na minha vida, as coisas vão acontecendo”, um dado dia, “Gabriel, tudo bem?” “Tudo bem”  “Pô, e aí? Deixa eu te perguntar, como é que você está aí?”  Eu falei: “Ah, tô bem, tô aqui, Doutor Celso” “Pô, nós temos aqui uma convivência já de tantos anos, deixa eu te falar uma coisa, tô precisando de você” (risos) Poxa, eu falei: “Homero, tá precisando de mim por que?” “Não, porque eu conheço teu trabalho, eu sei como você desenha, eu preciso de você aqui comigo”, eu falei: “Mas como? Tô aqui há 11 anos, não posso”, “Não, Gabriel. Vem pra cá. Faz o seguinte, dá um pulo aqui pra a gente conversar”, eu  falei: “Tá legal, vou dar um pulo aí”. Aí eu fui. Chegou lá, (só pra colocar, antigamente, a gente pra trabalhar num escritório, você ia de gravata, todo social) e eu fui até a firma que ele me convidou pra entrar lá com ele, chegou lá, aquele poeirão, aquele barulho, eu falei: “Homero, que que é isso, você saiu lá do escritório pra vir trabalhar numa poeira dessa?” A prancheta dele cheia de poeira, eu falei: “Meu, que é isso?”, ele falou: “Gabriel, você não conhece, vou te levar pra conhecer, vamos lá, entra aqui”, eu fui naquele poeirão, e o pessoal, lixadeira, lixando pedra e eu falei: “O que é isso? Isso aqui é uma loucura”, e tear serrando granito, falei: “ É uma loucura isso”, ele falou: “É, mas é rentável”, eu falei: “Poxa!” “Então tô precisando de você aqui, quanto que você tá ganhando lá?”, eu falei: “Desse jeito você vai me fazer…”, “É, quanto você tá ganhando lá?”, e eu falei: “16 mil”, agora eu não me lembro se era cruzado ou se era cruzeiro, acho que era cruzado…

 

P/2 – Cruzeiro talvez, antes do cruzado…

 

R – 74, acho que era cruzeiro, qualquer coisa assim. Aí ele falou: “Então, você vem pra cá amanhã, você vai ganhar 30 mil”, falei: “Ah, você tá brincando”, aí eu falei: “Meu, não posso, não posso deixar o Doutor Celso, como?”, “Não, vem pra cá”. Aí eu chego em casa, converso com a minha mulher e ela falou: “Nossa Senhora, Guima, você vai deixar o Doutor Celso?”,  falei:  “Como eu vou fazer?”. Eu só sei que eu fui e falei com ele, cheguei: “Doutor Celso, aconteceu isso e isso”, “Aquele traidor, Homero, como que pode, ele sabe que eu não consigo pagar isso pra você”, eu falei: “Pois é, mas agora o senhor vê, como que eu vou fazer?” e aí ele falou: “Gabriel, vou fazer uma coisa, eu não vou poder te pagar isso, você vai, mas se não der certo, você volta pra cá, porque você sabe que trabalhar com mármore é sujo é não sei o que é não sei o que lá”, aí ele falou mil coisas de marmoraria, porque na verdade, mármore hoje não tanto, mas aquela época era uma loucura mesmo, e aí, ele falou: “Mas eu vou te castigar, não vou liberar seu fundo de garantia”, eu falei: "Tá bom, então eu posso ir?”, ele falou: “Não, vai, porque um valor desse não é pra dispensar e eu não vou conseguir te pagar isso, nem 20. Vai, você vai ter sua filha que vai nascer aí, é melhor ir mesmo”, eu falei: “Tudo bem, eu vou, mas qualquer coisa que precisar, pode me chamar que eu venho”.

 

P/2 – E o senhor voltou alguma vez? 

 

R – Não voltei… não precisou, graças a Deus, e eu fui pra trabalhar com ele.

 

P/2 – Com o Homero?

 

R – Com o Homero, e comecei a trabalhar e sabe o que é você ir sentindo a coisa assim, eu digo que o pó do mármore impregna em você que você fica fascinado por aquilo, é uma coisa impressionante, pelos trabalhos que a gente vai fazendo e que você passa na cidade “aquilo foi eu quem fiz”, te fascina e eu tive essa fascinação pelo mármore, mas tive um susto que 6 meses depois que eu entrei e trabalhando junto com ele, ele falou: “Gabriel, vou te deixar” falei: “O que?’” "Eu vou te deixar e você vai ficar no meu lugar'', falei: “Caramba, Homero, o que é isso? “Eu vou ganhar o dobro do que eu ganho aqui”, falei: “Não acredito”. Em outra marmoraria, você acredita? E ele foi, eu fiquei no lugar dele como chefe, gerente, 6 meses. Eu falo pra você que eu sou abençoado, 6 meses e eu fiquei trabalhando na Sambra de Mármores, é na época era uma firma conceituadíssima no Brasil, tanto que nós construímos, hoje eu passo e mostro ao meu neto, mostro pra minha filha, “Olha, tá vendo essa pedrinha aqui? Foi eu que medi”, fizemos no metrô Sé, metrô São Bento, a da São Bento é meio curva assim, eu mostro pra minha filha e pro meu neto: “Olha, cada pedrinha dessa foi eu que cheguei aqui e medi, x por y”. Por isso que eu digo que é fascinante. Tem um relógio num prédio aqui, como se chama aquela rua? Aqui, vocês até já devem ter visto, aqui embaixo na…é do Meliá, sabe uma rede de hotéis, aqui embaixo…

 

P/2 – Aqui na Pedro? George V ? Na Pedroso de Moraes com a Faria Lima, aqui do lado?

 

R – É lá embaixo…

 

P/2 – Ruy Ohtake?

 

R – Tomie Ohtake?

 

P/1– Não, do lado da Tomie Ohtake, um prédio redondo assim, que tem umas curvas? 

 

R – Não, naquele eu também trabalhei, no Tomie Ohtake, naquele eu também trabalhei, mas é mais aqui embaixo. 

 

P/2 – Então é um hotel que se chama George V.

 

R – Não, não é aquele hotel. Eles tem uma rede, e é aqui embaixo, perto da 9 de Julho, lá embaixo tem um relógio que, pra eu medir aquele foi terrível, tivemos que montar andaime, eu lá em cima e os caras “Você não tem medo de subir lá em cima?” e eu subi medi, hoje eu passo e olho aquele relógio e falo: “Puxa vida” Então, tem coisas que a profissão te dá que você fica feliz, tem um prédio aqui na paulista que era o Banco de Tokyo, que hoje não é mais, o projeto daquelas pedras de como elas iam ser grampeadas, foi tudo eu que fiz lá na prancheta, o projeto e olho hoje aquele prédio, não caiu uma pedra até hoje, então você olha e fala: “Puxa vida”.

 

P/1 – Você ficou quantos anos lá na Sambra?

 

R– Na Sambra? Eu fiquei 5 anos, e só saí porque eles queriam me levar para Espírito Santo porque aqui era a filial, e a matriz era no Espírito Santo, eu falei: “Ah, não vou sair de São Paulo”, aí fui pra outra marmoraria e fiquei lá só 26 anos. Mas a gente fez muita coisa, muita obra. E tenho um orgulho mesmo, de mim, e dos meus pais que me incentivaram sempre, do Doutor José, da dona Antonietta, da minha madrinha, esse pessoal, da minha mulher que é maravilhosa, um dia quem sabe vocês vão conhecê-la, quem sabe não, certamente, de repente eu passo aqui um dia com a minha família só pra vocês conhecerem, então eu digo pra vocês que tudo que eu fiz, com o mármore foi assim, só satisfação, mesmo. 

 

P/1 – Mestre, qual é a obra que você mais gostou de fazer ou mais se orgulha, você acha, nesses anos todos…

 

R– Rapaz, a que mais me orgulha? Aí você me deixou… são tantas! Essas obras que eu consigo mostrar, pra quem vê hoje, fala: "Ah, isso aí", mas pra mim é muito gratificante, eu mostrar hoje pro meu neto que amanhã ele pode mostrar que amanhã ele pode mostrar para um filho, eles podem mostrar pra…porque não vai mais sair dali, um prédio como esse aqui da Paulista, o Winston Churchill, onde é a Jovem Pan, aquele prédio inteirinho eu medi o revestimento, Avenida Paulista, oitocentos… novecentos, não 900 é o da gazeta, ele fica na esquina da Paulista com a Eugênio de Lima, esqueci o nome…

 

P/1– 800 e alguma coisa.

 

R – 807, eu acho. Medi inteirinho aquele prédio, a fachada toda e a entrada. Aliás, na época eu medi assim, os elevadores, no térreo, aquilo também me traz muita satisfação porque, o engenheiro pra mim: "Gabriel, aqui nós vamos fazer com um mármore que é verde alpe e esse material é importado, é um perigo esse material, e essa outra parede vai ser carrara", e naquela época esses materiais não eram comuns aqui no Brasil porque era importado, Itália, então aqui no Brasil não era assim como é hoje, hoje tem material aqui no Brasil de toda forma, de todo jeito, e eu com medo, medindo assim, medi pra não errar, porque se não, já pensou perder uma pedra daquela? Ter que vir da Itália pra cá de navio, não sei quantos dias, então essas obras me deixam muito feliz e a primeira que eu fiz, que foi na Avenida Paulista também, número 60 é um prediozinho pequeno, mas aí eu fiz aquela entrada, medi as colunas, já passei com eles também e mostrei "Olha esse aqui", porque é coisa que deixa a gente feliz, me traz muita alegria. Tive também uma marmoraria, mas eu já sei que não era minha, eu não nasci para ser empresário, pra ser dono, sabe porque? E aí eu vou falar e é capaz de vocês me entenderem, porque muita gente não me entendeu, eu tenho uma coisa comigo que é ser muito correto nas coisas que faço, sabe, às vezes tem coisas que a gente tem que passar por cima de algumas, de alguns princípios que eu não consigo, isso às vezes me frustrou, porque eu não consegui fazer coisa errada que era pra ter feito, eu não fiz e acho que eu não me arrependo de não ter feito, porque eu acho que eu sentar aqui hoje com vocês e falar tudo que eu tenho na minha vida com tranquilidade e se alguém quiser saber, é exatamente isso que aconteceu, eu não preciso por alguma coisa na frente pra esconder, eu fiz isso e aquilo e não posso falar, não tenho nada. Os que foram meus patrões, ainda tenho hoje, vou lá no Nelson, esse que eu trabalhei 26 anos, a gente toma café e ele: “Neguinho, você tem que vir morrer aqui comigo”, porque ainda tem a marmoraria, e ele "Você tem que vir morrer aqui comigo, nós dois aqui de velhos", eu falei assim pra ele: " Hoje não quero mais, hoje pra mim todo dia é domingo", eu brinco, mas porque eu toda vida tive essa coisa comigo, se é pra fazer por bem, vamos fazer, por mal, não faço, nem que o burro tussa. Essa marmoraria que eu tive, tive alguns sócios que foram 3, um era japonês, os outros dois brasileiros, porque que eu to frisando o japonês, porque eles têm uma cultura diferente da nossa, e eu não sei o que que eu tenho, eu não sei se eu tenho alguma coisa da cultura oriental que eu me dou muito bem com japonês, o oriente pra mim é uma coisa diferente, eu não sei, a gente tem os ancestrais, sabe lá de onde veio. Então confirmou (risos), eu não sei o que é, ele foi um cara maravilhoso na nossa sociedade, foi tranquilo com ele, com os outros dois, foi tranquilo? Foi, mas não foi até por isso que eu parei, falei: “Não, pra mim não dá, não consigo", e parei, sabe porque? Vou falar, porque não foi nada de grave, mas de questões que aconteceram. Eu tinha a marmoraria, nós éramos em 4, vamos comprar o material pra fazer determinada obra, "vamos" ,"Gabriel, você vai lá porque você conhece mais", vou lá, fui ver, vi material e tal, “vamos fazer”, puxa o material “tá caro”, aí eu falei: "Vai lá você, de repente você consegue alguma coisa melhor". O camarada chegou pra mim e falou: "Gabriel, consegui pela metade do preço", falei: "Não acredito, que cara sacanagem, porque não fez pra mim?", “Tranquilo, vamos fazer”, pá… fui lá, falei: "Meu, o que houve, você vai fazer pela metade do preço, a empresa é a mesma, eu vim falar com você e você me fez esse preço, aí o Zé veio falar com você e você faz esse preço? Não entendi", "Não, mas aí tem uma coisa é o seguinte, esse negócio que eu fiz com ele, é, sabe" falcatrua! Aí eu falei: "Ah, muito bom, então não vai fazer", "Oh, Gabriel que é isso?", eu falei: "Não vai comprar, nem adianta". Cheguei no escritório, conversei, fiz uma reunião com o pessoal todo e falei: "Olha, a partir de hoje, estou fora", “Que é isso? vai deixar a gente na mão? Só você que desenha, só você que mede", "Se virem, porque não vou entrar nessa, falcatrua comigo não funciona e não funciona mesmo" e saí, aí a marmoraria fechou. Eles falaram: "Também não vamos continuar mais".

 

P/1 – Mestre, antes de você continuar, queria só voltar bastante na verdade, perguntar como é que começou o envolvimento do senhor com escola de samba? Foi nessa época ou foi antes?

 

R – Não, nessa época já…mas eu nunca… Trabalho é trabalho. O samba não. Escola de samba pra mim foi sempre diversão e o trabalho era uma coisa, a diversão era outra. Por isso, nunca me atrapalhou, eu trabalhava dia normal e tal, a noite sim, “vai ter ensaio? Vamo lá”, “vai ter não sei o que? Vamos lá”, mas não me atrapalhou de forma nenhuma, eu estar no samba, eu até não gosto muito de falar no samba porque o samba é uma modalidade musical, engloba muita coisa, agora, eu sou de escola de samba, que é outra coisa, é a parte cultural do carnaval. Não sei se me faço entender, a parte cultural é escola de samba.

 

P/1– Você começou a se envolver com escola de samba quando?

 

R– Comecei a me envolver mesmo em finalzinho de 79 pro carnaval de 80, aí sim eu comecei por uns amigos, me convidaram "Ah, vamo lá, vamos numa Barroca" Barroca é zona sul. "Vamos lá, tem um pessoal legal, vamo lá". Aí eu fui, porque eu não ia, eu ia assistir o carnaval, eu ia na Banda Redonda, curtindo aí pela cidade, mas não coisa séria, aí lá na Barroca, cheguei e o pessoal "Ah, esse aqui é o Gabi" e tal, aí gostei do pessoal, e aí "Oh Gabi, você não quer fazer um samba aí pra nossa escola?", eu falei: "Ah mano, não sou nem compositor, vou fazer samba?", "Não, pera aí", aí vem outro "Oh Gabi, vamos fazer um samba junto?", eu falei: "Caramba!" Porque eu toda vida gostei de cantar, cantar eu cantava, cheguei lá e, "Oh, canta aí um samba", aí eu cantava e aí pá, “vamos fazer um samba” e aí falei: "Vamos", aí naquele ano 80, eu falei: "Ah, vou fazer esse ano um samba, vamos sair na escola, eu e minha mulher, tá saímos, de uma ala, fizemos uma ala e saímos na escola, chegou no ano seguinte, "Ah, vamos sair novamente". Saímos novamente. Aí chegou no terceiro ano, veio uma porta bandeira que tava lá na escola no Rio de Janeiro, Alice, queria um mestre sala, e eu nunca fui nessa, gosto de sambar e tal, gostava muito e cantando, e vamos fazer samba, falei "O enredo desse ano me trouxe alguma coisa assim que eu falei: Puxa vida, que legal", quando eu digo pra vocês que eu tenho alguma coisa com o oriente é por isso, que depois eu vou te contar uma passagem da minha filha com 1 ano de idade, agora não, eu já tô em 83. Aí, Barroca da Zona Sul, faz um enredo, 75 anos de migração japonesa, me despertou "Ah, vamos fazer um samba", falei: " Então, vamos",  e não é que nós ganhamos? O samba enredo da escola, olha foi tão falado, tão comentado, tão divulgado, jornais divulgavam porque japonês no samba em 83? "Japonês não sabe sambar", "Japonês não samba", e a Barroca, coitada, foi por japonês no samba e tal, e sempre encurtando, porque se não vamos sair daqui meia noite (risos). Menino, vieram 200 japoneses do Japão pra sair, justamente por causa do samba, e da história que a gente tava contando deles. 

 

P/1 – O senhor se lembra como é que era a letra?

 

R– Lembro, poxa.

 

P/1 – Pode dar uma palinha pra gente?

 

R - Aí pra te dar, eu vou ter que te contar um pouquinho. Enredo, Barroca zona sul vai falar do Kasato Maru, que é o primeiro navio que trouxe os primeiros imigrantes japoneses e aí eu falei “vamos fazer esse samba assim, e aí fui, vamos ver o horário que a Barroca vai sair, olhamos o horário e na cabeça, você vê como é, eu falei assim, escrevendo "Brilha, brilha o sol, brilha a lua, a Barroca está na rua, hoje é festa, é carnaval, carnaval" (canta), aí vou te contar o porquê de “brilha o sol, brilha a lua”, em fevereiro, nessa época de carnaval que é sempre próximo, tem a mudança de lua, que às vezes ela está e às vezes não, mas aí também é jogar um pouco com a sorte, o sol e a lua, o sol tá saindo e lua você ainda vê a lua, então por isso eu coloquei "brilha, brilha o sol e brilha a lua, a Barroca está na rua, hoje a festa é carnaval", tava desfilando "Exalta com seu samba altaneiro um povo tão pioneiro e oriental. Oh japonês, quem te trouxe? O mar, o mar", aí é redundância "Imensidão de grandes águas, foi caminho, foi jornada de sua imigração, trouxe no seu bojo o seu canto, suas lendas e seus encantos, crenças e adorações, na agricultura é forte, o seu budismo dá sorte pra viver, tome uma xícara de chá e eu pra te acompanhar vou de saquê. Arigatô, ora não tem de quê, este enredo a Barroca oferece a você. Arigatô, ora não tem de quê, este enredo a Barroca oferece a você". Rapaz, foi uma loucura esse enredo da Barroca, eu tenho em casa ainda o troféu do melhor samba do carnaval de São Paulo. Quando eu falo de oriental, eu me sinto muito privilegiado não sei por que, mas alguma coisa tem né, a gente não sabe o que tem nesse mundo aí. 

 

P/1 – E mestre, conta uma coisa pra mim, ainda na questão dos sambas, do samba enredo, nessa época, um pouquinho antes, o pessoal das escolas, das agremiações sentiam a presença de alguma censura por parte do…

 

R- Sentia, sentia…

 

P/1– Isso vinha na letra? Como que aparecia? 

 

R– Você escrevia e tinha que trazer a letra que nos Campos Elísios que era o departamento de polícia mesmo, pra eles olharem a letra pra ver se não tinha nenhuma conotação política. Também tinha o seguinte, isso aí um pouco antes, as escolas tinham que falar de temas nacionais, se não podia falar nada fora do Brasil e na maioria tinha que falar da história do Brasil, e a ali se eles pegassem alguma coisa fora, se não prendesse, mandava "Troca isso aqui, troca essa letra, porque isso aí não pode", "E também não pode?", "Não pode e acabou, não interessa"

 

(01:35:32) P/1 – Eles queriam sambas enredos como, de que tipo assim, que tipo de letra? 

 

R – Você tinha que falar sem falar nada de governo, de nada, ali é outra coisa, carnaval é pra vocês fazerem a folia de vocês e até porque lá atrás, carnaval era coisa de negros, cidadão de segunda classe, então não tem nada que tocar em política, em nada, é só "Vocês fazem a festa de vocês". Então era assim, era pra restringir mesmo, você tava ali preso ao sistema que foi implantado e você tem que fazer. Ou obedece ou não faz. Era assim na época, mais atrás, pior ainda, que não se podia fazer nada mesmo, era complicado.

 

P/1– Isso, você sentia desde o começo que você conheceu pessoas do meio do samba, das escolas, como que foi pra sua vida?

 

R - Sim e não só nas escolas, durante mesmo, trabalhando, sempre. Aí a gente até fala de discriminação e não descriminação de gênero, nada, é descriminação de cor mesmo, simplesmente cor da pele, vou te contar, tem umas coisas que a gente conta que vocês não imaginam que isso pode acontecer, mas acontece. Antigamente, a gente tinha telefone normal de discar, discava o telefone e tal, conversava, "Alô", não tinha nada que dava pra enxergar, "Alô, tudo bem?" "Tudo bem e tal'', conversava muito com engenheiro, arquitetos, arquitetas e quando nós conversamos, tudo bem. Aí, quando a gente ia pra conhecer, era outra coisa, tanto que algumas vezes esse meu patrão o Nelson, ele brigava: " O seguinte, não vou mais fazer a sua obra", porque sentia a discriminação simplesmente pela pele, não era por nada, por exemplo, "Vamos fazer uma reunião aqui no escritório",  isso a firma que contratava "Vamos fazer uma reunião aqui no escritório e tal, aí você traz o Gabriel pra a gente discutir tudo, beleza?", aí, lá nós tínhamos…tinha eu, ele e o vendedor, nós chegamos, “tudo bem? ““Tamos aí”, antigamente era planta que se abria na prancheta pra mostrar o que era aqui, então nós chegamos e abria logo e conversava e aí, engenheiro, o arquiteto ia mostrando e explicando tudo pra ele e pro vendedor e eu parecia que não estava na sala, simplesmente, sei lá, eu acho que eles achavam que eu era motorista e explicava, “Olha aqui”, e tal, “aham, tá”, se o Nelson não era desenhista, ele não conhecia, o Felício menos ainda, ele era só vendedor e quem sabia era eu, e aí às vezes eles ficavam meio assim de falar para o cara parar de explicar porque tinha que explicar pra mim, aí caramba, constrangimento e eles ficavam “Meu”, e o Nelson era um cara assim, ele ficava vermelho e aí ele falava “O Doutor”, porque antes era tão, o camarada antes fazia uma faculdade era chamado “Doutor” porque na verdade, Doutor pra mim, que eu acho, tem que ser médico, os outros não são doutores, mas a gente chama todo mundo de Doutor, era arquiteto era Doutor, não sei o quê, era Doutor, “Precisa falar isso pro Gabriel”  “Pra ele? Olha só, pra ele”, “É, ele é que é o desenhista”, “Ah tá”. Não foi nem uma, nem duas, nem três, nem dez, foram muitas as vezes que aconteceu isso, porque antes a gente tinha que ir no escritório pra poder ver o que hoje não acontece, manda pelo email, você já recebe lá, não tem tanto contato, mas antes a gente tinha muito contato e era uma surpresa quando falavam que era eu. 

 

P/2 – E como você se sentia? Que estratégias você criava pra viver nessa situação? 

 

R – Olha, sabe que eu tive um ensinamento e aí eu te falo que eu volto lá atrás com meu pai e minha mãe, eles falavam “Filho, você não tem que ser bom, você tem que ser muito mais que bom, você tem que ser o melhor, tudo que você for fazer, você faça sempre o melhor do melhor”, e isso aí toda vida eu tive comigo e falo “Caramba”. Era verdade, porque eu, quando eu via essas coisas acontecerem, eu falava: “Puxa, vida ele tinha razão”, e eu encarava com naturalidade e eu mostrava que eu sabia mesmo, “Ah, isso daqui que você… aí desculpa, você mostrou eu vi e já entendi tudo, não precisa nem falar de novo” “Não, mas você entendeu isso aqui?”, “Eu vou desenhar e vou te mandar e você vai conferir”. Eu tinha essa arma, eu já sabia que o negócio ia ser comigo, eu to prestando atenção em tudo que ele tá falando pra depois eu poder responder à altura, e isso quando eu falava assim a pessoa achava “Ah, duvido que ele entendeu”, sabe como é? Duvido. 

 

P/2 – Quando a gente conversou, agora a pouco, antes de começar a entrevista a gente falou da questão do ativismo, você falou “Ah, eu quando jovem eu fui um pouco ativista, mas não pode ser muito”...

 

R – Fui…

 

P/2 – Você podia contar um pouco pra gente? 

 

R – É justamente por aí, porque eu acredito que a gente não precisa xingar, não precisa se exaltar, sabe? Eu acho que a gente tem que levar a coisa com um pouco mais de diplomacia, tanto, eu vou fazendo parênteses, uma vez chega eu e um outro menino que trabalhava na marmoraria pra fazer um serviço, o engenheiro falou “Vocês dois que vão fazer o serviço aí em cima?”, eu falei: “É, eu to trazendo e ele vai fazer”  “Oh, vê lá hein, faz um serviço de branco aí porque senão", aí, quando ele falou assim nós chegamos lá em cima, parou o elevador “É aqui”, aí eu falei “Desculpa, mas nós vamos descer”, “Por que?”, “Você pediu uma coisa impossível para nós, serviço de branco nós não vamos fazer nunca, nós vamos descer, o senhor ligue para marmoraria e peça que ele mande funcionário branco pra fazer”, nossa, mas aí o cara ficou “Não, pelo amor de Deus! Eu não quis ofender”. Coisas assim, então às vezes parece que não é nada, “Ah falou. Vamos lá. Faz”, eu acho que a gente tem que combater dessa forma, eu acredito que nunca mais esse camarada falou essa frase pra um outro. Então em atitudes eu acho que a gente tem que combater, eu fui isso aí também, na cidade nós tínhamos ali na Quintino Bocaiúva com a Praça da Sé, para rua Direita, aquele miolinho, tinha um restaurante que o nome era Almanara, é um restaurante, não sei se hoje existe algum outro lugar, mas lá não mais, e nós éramos moços e eu tinha uns amigos e a gente ia pra lá pra Sé ali, e rapaz ali tinha um kibe tão bonito que a gente olhava “caramba, que vontade!”, mas ali negro não podia entrar, não entrava, você chegava na porta o porteiro já falava “Opa, aqui não”, e isso lá atrás, “Oh, aqui vocês não podem entrar”, rapaz, eu falava: “Caramba, não podemos entrar aí”, e aí a gente tinha medo, porque se o cara lá falasse alguma coisa, nós estavamos perdido, falou que a gente fez alguma coisa… e como eu trabalhava no escritório eu falei: “Eu vou entrar aí, não pode fazer assim com a gente”, cheguei um dia e falei pro meu amigo: “Vou entrar”, ele falou “Você é louco? os caras vão chamar a polícia, vai te prender”, eu falei: “Não, vocês vão ficar aí fora e qualquer movimento errado que vocês verem, vocês já articula aí alguma coisa, porque se me prender, não vai me prender porque não vou fazer nada demais”, eu entrei, mas eu tava de terno e gravata, não podia falar que eu tava mal vestido e que eu não podia entrar, “ Por que?”, aí eu chego na porta e o cara: “Pois não?”, eu falei: “Com licença”, aí ele ficou meio assim, ele não sabia quem eu era e me deixou entrar e eu entrei, sentei, sentei e chegavam pessoas entravam, sentava, pedia e eu fiquei sentado, simplesmente e ninguém veio, ninguém, eu fiquei 5, 10, 15 minutos aí eu falei: “Opa”, e via gente assim chegando já pedindo, aí eu chamei o garçom aí ele chegou eu falei: “Tem algum problema aqui comigo?” Aí ele falou “Não”, eu falei: “Então porque ninguém me serve aqui?” Aí ele baixou assim “É que aqui a gente não serve gente de cor”, aí eu falei: “Que cor?”, “A gente não serve gente de cor preta”, eu falei; “Ah é, que cor que serve então aqui as pessoas?” Aí o cara ficou sem jeito, aí eu falei: “Tem gerente aqui?”, aí ele falou “Tem”, eu falei: “Você pode chamar?”, aí ele “Posso”, foi lá, chamou, aí o cara veio “Pois não”, eu falei: “Eu fiz uma pergunta pro seu garçom e ele me falou que aqui não serve gente de cor, e eu queria saber de que cor…”, aí ele “Não é bem assim”, aí eu falei: “Então, não tô entendendo porque eu estou aqui agora há aproximadamente 20 minutos, vi que entrou pessoas depois de mim e já foram servidas e eu ainda não fui”, “Não, acho que eles não perceberam, desculpa”, não sei o que e tatatá…porque aí ele achou que eu já ia fazer escândalo, mas ai eu fiquei frio, aí ele “O que que o senhor quer?”, eu falei: “Olha, hoje eu não vou querer nada não? Mas um outro dia que eu voltar, por favor não me deixe esperando tanto tempo. Até logo, obrigado”, saí, você acredita que depois de alguns dias eu voltei, eu e esse amigo meu, o camarada da porta não falou nada, nós entramos, sentamos e eles nos serviram e era o mesmo gerente, aí quando nós terminamos, paguei e tal, aí eu fui lá e falei pra ele: “Muito obrigado”, e fomos embora, Então eu acho que a gente precisa de atitudes sem escândalo. Na época de movimento negro, eu quase participei, mas aí eu fui, vi algumas coisas que eu não concordava. Saí na minha, lá na vila, aí eu falei: “O pessoal, vamos fazer um grupo aqui? Um grupo de negros e vamos entrar na política?” “Vamos”, sabe aquela…e tinha um pessoal legal e que também, eu sempre fui assim, eu nunca gostei, esse jeito malandro, eu acho que não precisa ser malandro pra você ser você, o negro não precisa andar com o cabelo todo despenteado, todo esculachado, roupa rasgada, pra falar que você tá se auto afirmando ser negro. Não há necessidade, “Ah, mas você acha que o jeito europeu é o jeito certo?” Não é isso, não tem jeito certo nem errado, o povo nosso, o povo da África anda com uma vestimenta que eles tem, eu ando com roupa afro, andava antigamente quando ninguém andava, eu tinha uma amiga maravilhosa que hoje tá…papai do céu chamou, Teresa Santos, grande senhora que tinha assim um conhecimento vastíssimo sobre a África, era brasileira e viveu 5 anos na África e veio com uma bagagem política impressionante e ela trazia pra mim a vestimenta e eu vestia e o pessoal ficava assim, tanto que, na formatura da minha filha (eu fujo, mas depois eu volto) foi aqui no círculo militar e eu cheguei lá com uma roupa afro com o costume todo, quando eu cheguei na porta, “ O senhor é muçulmano?”, falei: “Não, sou brasileiro” “Mas por que essa vestimenta?”, “Ué, é a vestimenta do meu povo”, “É nada, aqui tá todo mundo de terno, deixa eu ver se o senhor pode entrar”, olha só, “Deixa eu ver se o senhor pode entrar”, falei: “Posso sim, porque minha filha tá se formando, como é que eu não vou entrar?”, aí veio lá “Não, faz favor”, acho que ele pensou que eu era africano, “Faz favor, pode entrar”, As coisas acontecem dessa forma e eu usava isso lá atrás, não é agora não, porque minha filha hoje tem 48, 47 anos, então faz tempo que isso aconteceu.

 

P/1 – Mestre, como é que era, só voltando outra coisa também, você falou dessa presença da ditadura nas letras, tem algum exemplo que você lembra que cortaram, que pediram pra trocar, que não podia entrar?

 

R - Eu não lembro, sabe por que? Meu amigo, por exemplo hoje, não é como antigamente, antigamente a gente escrevia, “tatatata” batia à máquina, aquela coisa, e levava. Entrega, “Não pode isso, não pode isso, nem me apareça”, e você não vai…Deus me livre, você já pensou lembrar aquilo lá? Aquela palavra? Então eu não lembro mais, mas tinham amigos meus que e eu também não era… eles hoje me chamam de compositor. Eu não sou compositor, fiz 4, 5, 10 músicas, mas eu não me sinto um compositor, compositor faz 200, 300, eu não, eu fiz esse samba enredo, fiz uns outros, fui eliminado, fiz samba pro dia 7 de setembro, fiz samba pra nós, os paulistanos, porque…Parênteses, teve uma época, hoje é normal os cariocas estarem em São Paulo no carnaval e no samba, porque o Rio é o lugar do carnaval, Rio vive carnaval 365 dias por ano, São Paulo é cidade do trabalho, aqui não se vive carnaval. Então começou uma leva de cariocas vir pra São Paulo pra ser carnavalesco, pra ser compositor. As escolas faziam o enredo, mandava pra eles fazer o samba, eles faziam, só vinham defender e tal, mas aí eu falei: “Ah não, pera aí, já que é pra fazer, vou fazer o samba aqui”, porque eu gostava de fazer coisas que mexessem um pouco, aí eu fiz assim: (canta) “Eu tenho a honra de ser paulista e ter nascido na terra da garoa, modéstia à parte também sou sambista, um bom artista não se intimida à toa. Eu também sou gente bamba e na minha escola de samba também sou bacharel, mas se me falta com respeito, eu arranco um improviso do peito e não tiro meu chapéu. Na hierarquia do samba o comentário é geral, nós temos samba de cima”, e como é? Ih, esqueci essa frase, eu disse que a gente tinha samba de cima e de baixo, de cima eu falava aqui de cima e de baixo é o pessoal mais, os mais altos, os mais graduados fazem aquele samba todo, e tem o samba aqui debaixo,da rapaziadinha que não tem muita cultura, mas faz também, então eu fiz isso e aí os meninos “Ô, mas você tá contra os cariocas?”, “Não to contra os cariocas, eu acho eles excelentes, fazem sambas maravilhosos, mas eu tenho a de ser paulista e fazer também”, então eu fazia essas coisas pra mexer um pouco, elevar a autoestima da minha escola e aí eu uma vez eu fiz assim, até então eu era da Barroca depois em 90, eu fui pro Camisa Verde mas eu fui meio no susto e quando eu vi eu tava lá, em 89, Na Barroca aí teve aquelas conversas “Essa Barroquinha, essa escolinha aí não é de nada, quer vir querer disputar com as grandes, não sei o que…”, aí eu falei: “Ah não, vou fazer um sambinha”, e fiz assim: (canta) “Barroca da zona sul, celeiro de bambas quem nunca viu vem ver samba do bom até o dia amanhecer. Barroca, Barroca da zona sul, celeiro de bambas, quem nunca viu vem ver, samba do bom até o dia amanhecer. Sua bateria infernal está ensaiando para o próximo carnaval, mestre sala e porta-bandeiras, baianas, destaques todos de primeira. Essa escola, moço, não é brincadeira. Nesta década de glórias vou lhes contar um pouco de sua história”, e venho falando dos enredos que ela havia feito né, “Cantos e danças do jeito que o rei mandou e no banto Amazônia e futebol e o japonês na avenida delirou e com Atlântida, a Barroca empolgou”. Sabe? Eu gosto de fazer música assim, que exalta e eu sempre fui assim. Meu samba, na verdade, eu nunca tive que levar lá, até porque quando eu comecei a escrever samba mesmo eu já….foi em 82, 83 já não precisava mais levar, mas, na década de 70, até 79 aí tinha que levar sim, e não se falava mais nisso, acabou…aquilo que estava escrito, então eu não tenho, não lembro de nenhum samba que foi pra lá assim. Eu lembro que amigos meus tiveram que levar, Ederval do Camisa, Murilão do Peruche, Seu Carlão do Peruche, Geraldo Filme, um monte, um monte, acho que até samba que Osvaldinho da Cuíca fez, também precisou.

 

P/1 – Você pode falar de algum desses que teve que levar, que deu problema, algum que você lembra?

 

R - Então, eu não lembro. Eu não lembro se o samba de 82 do Camisa Verde teve que levar, eu acho que teve e eu acho que teve que tirar alguma coisa. O negro maravilhoso que falava assim (canta) “Achei uma bola de ferro presa nela uma corrente, tinha um osso de canela, deu tristeza em minha mente, esse osso de canela veio de outro continente, de jeito nenhum, não é preconceito”…como é…esqueci, “Não é preconceito, nem problemas de direito, nossa escola não faz distinção de cor, pra falar sobre esse tema, foi que surgiu o dilema”, ih, agora não estou lembrando, “E o problema se avizinhou oh oh oh, a nossa escola enobrece a negra gente que nunca ficou chorando, sempre viveu cantando, fingindo contente" Oh, fingindo contente, nunca viveu chorando, sempre viveu cantando, fingindo contente. "Negro paga imposto, negro vai a guerra, negro ajudou a construir a nossa terra, porquê só nutrido de momo que o negro é genial, ele é Capitão, ele é General, só nutrido de momo. Poderia ser tanta coisa na vida real", então esse samba eu acho que deve ter ido e devem ter tirado alguma coisa, porque falavam da escravidão.

 

P/2 – Ele é seu?

 

R – Não.

 

P/2 – Esse é de outra pessoa?

 

R – Esse é de Elival falava forte, "Achei uma bola de ferro, presa em uma corrente, tinha um osso de canela que veio de outro continente, mas não veio de outro continente ele era daqui.

 

P/2 – Conta pra gente, você falou que sua mãe falava "Olha o bloco" o cordão tá cantando.

 

R – Isso.

 

P/2 – Dali, pra você começar a frequentar o carnaval, pra você começar a sair na avenida, como é que foi? Você lembra das datas que essas coisas aconteceram?

 

R – Ah, dali foram muitos anos depois, porque aí veio os anos da adolescência que eu falei pra você. Quando ela falava assim, eu era menino pequeno e aí veio a adolescência e aí ela instruindo, ela e o papai também, por isso que eu demorei tanto pra entrar. Eu não entrei no samba, eu ia, mas eu ficava mais a margem, porque era falando muito que era só malandro que ia para o samba. E você vai colocando aquilo na cabeça. O negócio é pesado, mas quando chega, você vê que não é bem assim. Parêntese, sabe…oh perdão…sabe por que que as coisas acontecem? Porque muita gente não tem conhecimento de causa, por exemplo, teve uma vereadora, o nome dela é Rute, ela entrou com um projeto na câmara para não ter mais crianças em escolas de samba. Criança não pode frequentar escola de samba e muito menos sair, aí fomos lá falar com ela "Que é isso? Como é que não pode?”. Primeiro tem todo um enredo aí, até a gente conseguir falar com ela, até conseguir marcar, porque ela estava com medo, porque "Ai nossa, esse povo vai vir aqui na câmara, é capaz de me matar", “espera um pouquinho, nós somos civilizados”, não é assim. O povo de escola de samba não é isso que parece, é um povo normal. Principalmente hoje, está muito mais. Antigamente éramos nós, aí quando eu falo nós, era só negros e alguns brancos, que a gente falava que era branco negreiro, quem falava isso eram os brancos amigos dele "Ei, você é branco negreiro, você fica lá com aqueles negrão”. Então isso acontecia e eu tenho muitos amigos que falavam pra mim "Pô Gabriel, não vou lá porque eles não vão me deixar entrar" "Como não vai? Vai sim, pode ir, é um lugar democrático, pode ir", e aí me surge então essa vereadora, e aí? Vamos lá, porque eu gosto disso, falou, então vamos esclarecer. Chegamos lá e ela estava com um medo "Ai, meu Deus", entramos na câmara eu e mais umas 6 ou 7 pessoas "Bom, viemos saber qual é problema com as crianças, por que a senhora está entrando com esse projeto de criança não poder frequentar as quadras e nem o desfile?" Aí ela disse assim, "Sabe o que é, é que escola de samba é um lugar que tem muito marginal, que tem muita bebida, que tem muita mulher nua", aí eu falei: "A senhora tem certeza do que a senhora tá falando?" "Ah, a gente ouve falar, vê na televisão, essas mulheres", aí eu falei: "Nuas?" "Ah, não são nuas, mas são seminuas" "Seminuas, melhorou, seminua melhorou, se eu for à praia eu não vou ver ninguém seminu?” "Ah, mas a praia…" "Desculpa então, mas eu acho que por aí a senhora já não pode falar, certo? E na quadra é onde levamos a nossa família, entendeu? Então, quer dizer que eu não vou poder levar minha filha, meu filho, que são menores? Onde eu frequento o ano inteiro, não é só no carnaval, é o ano inteiro", ''Ah, mas vocês frequentam?" "Minha senhora, nós não temos Hebraica, nós não temos esses clubes pra frequentar, o nosso lugar é ali, a senhora já foi numa escola de samba?” "Não, nunca fui", eu falei: "Como então que a senhora faz um projeto pra restringir a entrada dos nossos filhos? Que é isso?" E o que eu falo: "Ah, tá vendo é isso aí que ela quer", “calma, é isso que não pode, você entendeu?”. Uma menina nossa lá, que é do nosso meio e não é qualquer uma, ela é pedagoga, é estudada e tudo, mas parece que chega uma hora que explode, aí sai fora do eixo e é aí onde a gente perde, porque tudo que acontece é porque "nós somos agressivos", "nós não temos educação", "nós sempre chegamos chutando a porta", é assim que eles nos vêem e é assim mesmo, que nós somos…quando eu disse lá atrás "cidadão de segunda classe" é porque eles podem nos comprar que a gente se vende, então lá, aqui nessa discussão aqui…aí ela falou assim "Ah não, tudo bem", e eu falei: "A senhora vai lá qualquer dia, não vai na quadra da minha escola não, pode ir em qualquer uma que a senhora vai ser bem recebida, pode ir, qualquer uma a senhora vai ser bem recebida lá", "Ah, mas eu sou evangélica", “Não importa, lá nós não vamos falar de religião, lá nós estamos nos divertindo com música vocês também não elevam a Deus com a música que vocês cantam, com os hinos que vocês cantam, os louvores não é? Não é assim? Então, lá também, vocês não levam seus filhos todos pra lá? A nossa é a mesma coisa, vai lá, lá nós estamos nos divertindo, nós não temos clube, olha vocês vão procurar" Isso eu falando pra ela: "Procure aqui na cidade de São Paulo, que é a maior capital da América Latina, procure um clube de negros, procure um, só um, não me fala dois, só quero um", "Ah, eu não conheço", "Não conhece? Não tem, tínhamos o Aristocrata bem mais pra trás que também foi indo, foram minando, e acabou, tem o Aristocrata aí que é coisa muito restrita ali e tal, mas não tem. Então o nosso lugar é lá, faça-nos uma visita, eu acredito que a senhora não vai achar ruim, porque a senhora ouve rádio, não ouve? Músicas sem palavrão, sem nada, não é rap não, não tô falando de rap" (risos) aí falei pra ela, “porque no rap tem palavrão à vontade”, eu falei: "Não é rap, nada contra, é outra cultura, mas lá na escola de samba a senhora vai ouvir samba, a senhora vai comer bem, porque se come bem, então faça-nos uma visita", "Oh Mestre Gabi, então, ele tá falando em nome" eu falei: "Eu não tô falando em nome, pode falar quem quiser falar". Aí falou uma outra senhora, tinha baiana, tinha tudo lá, foi todo mundo junto e aí falaram algumas coisas lá pra ela, aí ela tirou o projeto, mas não tirou totalmente, ele estava na pauta, ela tirou da pauta, mas o projeto tá lá, não sabemos, mas tem gente lá que está de olho, quando ela botar ele lá aí a gente vai de novo. Então eu acho que é assim que a gente tem que trabalhar, vou te contar.. ah, eu acho que eu já falei demais…mas vou te contar uma coisa, essa é política, essa coisa é política. Estou eu sentado na minha garagem tranquilamente num domingo né, aí chega um opala preto…

 

P/1 – Que ano foi isso? Que ano, que época?

 

R – Oitenta e pouco… Aí parou e aí descem 4 pessoas: "Oh colega, conhece o Bié?", eu falei: "Sou eu" Porque meu apelido lá no meu bairro é Bié não é Gabi, "Conhece o Bié?", é apelido de criança, eu falei: "Sou eu"."Ah, pô ainda bem, viemos aqui pra conversar com você, porque o Doutor Maluf mandou um recado", eu falei: "O Doutor Maluf? Tô bem então, pode chegar, entra". Aí eles entraram ali na garagem mesmo, aí ele falou "Nós ficamos sabendo que você é líder de um grupo aí", aí eu falei: "Líder? Eu não sou líder, eu participo com uns amigos de um grupo". “É, mas vocês estão agitando a política lá no diretório do Tatuapé, nós estamos sabendo", aí eu falei: "Não, eu acho que é democrático, nós vamos querer participar do processo", aí eles falaram "É, mas vocês estão querendo ser delegados de diretório?". e eu falei: "É", "Vocês têm conhecimento de como que é lá?", eu falei: "Sinceramente, ainda não, a gente tá chegando, nós vamos lá e tal, tem uns meninos aí", "Então, o Doutor Maluf que mandou a gente vir aqui, falar com vocês, se vocês não estão precisando de uma sede pra esse grupo de vocês?", eu falei: "Sede? Não, nosso grupo é, nós somos em 10 pessoas, não precisam sede". E quem de vocês não está trabalhando, não precisa de serviço?", aí eu falei: "Puxa vida, graças a Deus, estamos todos trabalhando". "Não, porque a gente ficou sabendo aí que vocês estão no diretório, estão querendo ser delegados e a convenção vai ser agora, vai ter lá na assembléia, vai ter a convenção", não era nacional… "A convenção Estadual e a gente queria conversar e tal", aí eu falei: "Ah, então a gente pode até marcar uma reunião". "Ah então vamos marcar lá na câmara. Dia 'tal' está marcado". "Tá bom, obrigado". Quando eu falei com os meninos, eles: "Vamos lá ver o que eles querem com a gente". Mas nessas alturas, estava tendo a eleição do diretório, e o diretório eram 11 delegados e, desses 11, nós fizemos 6 delegados, diretório do Tatuapé, na época era o maior. Quando nós chegamos lá na reunião, "Faz favor, entrem, tal" ( risos). Aí vocês sabem, né? A gente fica meio de pé atrás. "Bom, o Doutor Maluf falou o seguinte, nós vamos ter aí agora a convenção na assembleia e nós estamos precisando de vocês". Na época era MDB e ARENA, nós estamos no MDB, ARENA estava precisando da gente?” "Ah, desculpa mas, nós somos MDB". "Justamente por isso, Doutor Maluf…" E o Doutor Maluf na frente, sempre "Doutor Maluf quer, porque quer…" Aí, teve um dos meninos que falou "Mas o que a gente vai ter que fazer?". "Vocês não precisam fazer nada, vocês vão chegar lá e votar, a votação é secreta, não tem problema e tal". Aí: "Vocês estão precisando de uma sede, eu sei, um grupo não vai querer uma sede?". Agora eu peco numa coisa, eu não me lembro mais o nome do cara que foi na minha casa, que foi fazer a proposta indecorosa. E aí eu falei: "Puxa vida, não". Aí teve um dos nossos lá que, sempre tem, que se exaltou, quase que nós não saímos da câmara, quase que a gente sai de lá preso. "Porque é desacato a autoridade, você sabe com quem você está falando?", e não sei o quê…"Não, calma pô, vocês convidaram a gente pra vir aqui". "Não, mas…" Meu amigo, só sei que saímos de lá porque não dava pra eles fazerem alguma coisa lá dentro, só sei que chegou no dia da convenção, nós éramos em 6 e tinha mais 5, os outros, sabe o que é se vender por qualquer coisa? Mas como ficou feio, chegavam lá pra votar e aí eles: "Oh, tudo bem?" E 'pá' colava o adesivo que eles eram do outro partido, meu que coisa, sabe? Aí desse dia eu falei: "Meu, que é isso, olha os caras se venderam". E ali conversando e deputado e não sei o quê, juntamos uma turminha ali, e aí tinha um senhor 'aqui' conversando e ele falando com a gente "Sabe aquele ali? Aquele ali é o pior cara que tem aqui", por que não sei o que…aí o camarada vê ele conversando com a gente e chega e aí ele apresenta "Faz favor, conhece os meninos aí", e pra nós "Esse aqui é bom. Esse homem vou te falar, vocês precisam conhecer". Pô, tava acabando de falar pra nós que o cara era o pior, agora chegou perto dele, apresentando pra gente, sabe? Aí eu falei: "Meu, mas isso é assim?". Eu não tinha ainda maturidade política para sentir essas coisas, sempre tive muito fora, "Ah, vamos apoiar fulano?". "Vamos". "Ah tal, apoia". Mas nunca lá dentro, e aí eu vi que a coisa é muito feia e eu falei: "Não".

 

P/1 - Nessa época você achava, infelizmente a gente vai ter que ir para as perguntas finais. Queria te perguntar, você sentia o seu coletivo, sentia que vocês estavam em um governo militar, em uma ditadura? Isso era muito explícito, ou o senhor acha que não?

 

R - Claro. Eu vou te falar uma coisa, eu tive repressão, eu tive algumas e papai teve e eu junto com ele, de querer saber o que a gente estava falando "O que vocês estão conversando?". 'Polícia', “Eu meu pai, meu primo, nós estamos conversando com a nossa família". "Quem é você? Cadê os documentos?". Porque documento antigamente não era RG, era carteira de identidade, não, era carteira de identidade, era carteira de trabalho, se você não mostrasse a carteira de trabalho com o seu registro, você era vagabundo, vai para o distrito, vai pro distrito explicar para o seu delegado. Mas graças a Deus, eu sempre trabalhei, sempre, então eu sempre opa! Pediu, tá aqui, mas rapaz o constrangimento, Deus me livre de cair ali no DOI-CODI, ave Maria, constrangimento de estar, não sei se eu estava onde não deveria, eu tava no meu carro e eu tinha um…eu não sei se vocês lembram, lembram aquele Alfa Romeo que era quadradinho, assim? Eu tive um, eu comprei aquele carro, sabe quando você dá sorte? Eu tive sorte, um cara trabalhava do lado da empresa que eu trabalhava, aí ele falou "Gabriel, você não quer comprar meu carro?". "Ué, quem sou eu pra comprar seu carro?" "Não, eu quero vender, mas eu não queria vender pra qualquer um, eu queria vender para uma pessoa legal, sabe, eu cuido tanto desse carro, e eu queria vender pra uma pessoa que de vez em quando eu desse uma olhadinha nele (risos)”, sabe aquele cara que parece que tá com dó de vender? Aí eu falei: "Ah, quanto você vai querer nesse carro? Aí ele falou "Ah eu te vendo por x" Eu não lembro agora, e eu falei: "Pô meu, mas essa grana eu não vou ter"."Não, você me paga do jeito que der, você trabalha aqui com o Nelson, eu sou vizinho aqui, não tem problema, você vai me pagando", aí eu falei: "Nelson, o cara quer me vender". Aí tudo bem, comprei, rapaz eu não andava…se eu falasse pra você que eu andava uma semana sem a polícia me parar uma, duas vezes, era…parava e queria saber de quem era o carro "De quem é esse carro, negrão?". Sabe, daquelas de metralhadora, sei lá e "Para! Desce, desce…" Um dia eu fiquei com medo, eu tava vindo aqui na Avenida Brasil, aí passou a viatura, e aí como eu disse pra você, eu tinha roupa africana e eu vestia normal, 'Pum' passou normal, veio, vieram duas e, uma na frente e outra atrás e me pararam e desceram assim, todo mundo. "Mão na cabeça, mão na cabeça!".“Caramba!” E eu pus a mão na cabeça "De quem é esse carro?”, eu falei: "É meu". "Documento". Peguei, tirei os documentos, ele jogou tudo em cima do capô e tinha os cartões da firma que eu trabalhava, aí ele jogou, pegou os documentos do carro, olhou, "Que você faz, negrão?" Aí eu: "Trabalho com mármore"."Deixa eu ver sua mão!" Aí, "Ah, pra cima de mim? Sua mão desse jeito, você trabalha com mármore?", Eu falei: "Trabalho, eu sou desenhista de arquitetura"."Ah, negrão, você tá mentindo", falei: "Não tô mentindo, tô falando sério". Mas assim, sabe? Falando ríspido, que era pra intimidar, e aí eu peguei e falei pra ele: "Tá aqui o cartão da firma que eu trabalho, pode ligar, sem problema”, aí eles olharam, entraram dentro do carro, mexeram, abriu capô, abriu atrás, fizeram um…aí me liberaram. Cheguei na firma eles estavam lá, foram ver se eu trabalhava lá mesmo. Era coisa muito…em 74 quando a gente estava fazendo o metrô, às vezes eu ficava no metrô até de madrugada e quando eu ia pra casa os caras me paravam, de madrugada, paravam e faziam escândalo. Mas eu toda vida, eu não posso falar que ninguém fez nada comigo porque não fizeram, nunca ninguém fez, mas ameaça, nossa senhora! Muito! Agora, acho que porque eu sou velho aí já não me param tanto e agora também a política mudou, teve um relaxamento assim. É, porque hoje tudo que acontece é segundos e todo mundo sabe, o mundo sabe, se o cara te dá um tapa, você não viu o menino lá no Oscar, deu um tapa no outro e em um minuto, o mundo inteiro sabia, o Floyd lá, o cara com o Joelho, todo mundo ficou sabendo, se aquilo fosse a alguns anos atrás ninguém ia saber, o cara ia morrer, morreu "Ah, morreu aí". Pronto, era assim e eu lembro de gente que sumiu, simplesmente, não apareceu mais, e aí, quem dá conta? Ninguém dá conta, ninguém sabe, ninguém viu e também se viu não fala, porque se falar. Então, é assim que acontece.

 

P/2 – Tem uma pergunta que a gente não pode terminar a entrevista sem fazer, que é você contar os papéis que você teve ou tem nas escolas de samba e por que Mestre Gabi, por que te chamam de Mestre Gabi?

 

R – Ah tá, então vou ser bem rápido. Primeiro, em 81, a Alice que era uma porta-bandeira, que infelizmente já se foi, era da Império Serrano, veio pra São Paulo e o marido dela, o Tuca, gostava de bateria e tal, foram pra Barroca e estavam morando aqui em São Paulo e ele gostava daquela batucada lá, mas estava lá e não saía na escola ainda, aí ela me viu e falou assim, na escola já estavam me chamando de Gabi: "Gabi, você tem jeito pra ser mestre-sala", aí eu: "Jeito nada, eu gosto muito, mas não tenho jeito"."Tem. Vamos ensaiar…", e começamos a ensaiar. Ensaiamos, aí chega em 83, que eu fiz o samba e nós fomos para avenida como convidados, para desfilar e aí imagina a minha alegria, desfilar de mestre-sala com o meu samba sendo cantado na avenida, foi maravilhoso. Pronto, dali o diretor de harmonia anunciou eu e a Alice como primeiro casal, que nós não éramos e aí a nota foi dada pra gente e aí à partir dali, eu sou o mestre-sala, então por isso o mestre, "Mestre Gabi, agora não tem pra ninguém, Mestre Gabi é o bom". Começou, e depois ela voltou para o Rio, aí eu fui sair com a porta-bandeira de lá, que era a Bete, saí com a Bete mais alguns anos, até 89, aí ela se sentiu mal na avenida, terminando a avenida ela falou "Gabi não vou sair mais que eu não tô aguentando", e eu falei: "Legal, tudo bem". Paramos de dançar, bem no finzinho, aí ela falou "Não vou sair mais", aí eu falei: "Então eu também não vou sair mais, em solidariedade a você", aí ela "Não Mestre, você tem tempo, você sai, tem porta-bandeira lá", e eu falei: "Não vou! Me dava muito bem com você, então pronto" Bom, idas e vindas, não saí mesmo, aquele carnaval eu não saí, aí na Camisa, a Vivi tinha muita amizade lá e tal, Vivi minha esposa, eu também tinha, mas não assim, pra sair na escola nem nada, aí aconteceu um problema com a porta-bandeira de lá e eles resolveram falar pra Vivi ser porta-bandeira, mas ela não era e aí o mestre-sala de lá não quis sair com ela, porque ele falou " Meu, não dá ela não sabe", eu falei: "Não, ensaia com ela alguns dias aí que ela sabe, eu ensaio com ela porque minha porta-bandeira morava longe", aí ele "Não, eu não vou sair porque depois eu tenho que falar com meus amigos lá no Rio de Janeiro, vai ficar ruim pra mim". Bom, encurtando, aí a Magali me convidou, falou "Gabi, você vai sair com ela", eu falei: "Bom, em nome do samba, em nome do nosso pavilhão, então vamos lá". E aí eu fui e continuo lá até hoje, a Vivi saiu de porta-bandeira, tiramos 10,10,10…e hoje ela é a soberana do Camisa Verde, nós, o casal soberanos do Camisa Verde, saindo na escola todos esses anos e agora não mais como mestre-sala e porta-bandeira, mas a gente sai na escola, esse ano inclusive, a gente vem no último carro do Camisa representando as rezadeiras e as escolas que nós batizamos, então se fosse trazer todas que a gente batizou, não ia caber na avenida, mas a gente vai trazer algumas e a Mangueira que nos batizou, então vai ser um carnaval bonito. E aí é que surge o Mestre Gabi, porque 96 fundamos a Amespbeesp, que é uma entidade, uma associação de mestre-salas e porta-bandeiras pra dar aulas para os casais novos e fiquei 15 anos presidente. Aí falei: "Chega gente, agora vocês levam", e acabou, continua, tá até hoje. Fundamos também, em 95, a Embaixada do Samba, Fernando Penteado, Hélio Bagunça, Toniquinho Batuqueiro, Paulão da Lapa e eu, cinco pessoas. Hoje também tá aí maravilhosa, e também fundamos o Cisne do Amanhã, que depois de alguns anos "Ah Mestre, precisamos fundar, porque a Amespbeesp sozinha não dá conta", fundamos também e demos mais uns anos de aula, passamos pra outros e está aí também, funcionando todas elas e, por isso, me chamam de Mestre, e até porque dando aula na Federação de Escolas do Estado, na Liga das Escolas de Samba né, ficou e tô aí como Mestre Gabi.

 

P/1 – Mestre, a gente queria fazer mais perguntas, mas infelizmente pelo tempo…eu vou ter que perguntar, como é que foi contar um pouco da sua história pra gente?

 

R – Não, é confortante porque a gente lembra de coisas que ficam só na memória e vai passando, a gente não lembra sempre, mas aí vocês me fizeram lembrar muito da minha mãe, do meu pai, da minha família, e não falei ainda pra você que tenho duas filhas, Cristiane e Ingrid, tenho dois netos, que é o Victor Hugo e o Iago. Cristiane com 47, Ingrid com 26, Ingrid foi adotada, nós adotamos quando ela tinha 8 meses, hoje ela já casou já tem o meu netinho de 6 anos, então a minha família é essa, pequenininha assim, tem minha esposa que é a Vivi, que a gente tá junto há 48 anos, 49 agora, e se Deus quiser, vamos fazer bodas de ouro e ela é maravilhosa, minha porta-bandeira e a gente vai seguindo essa reta aí da melhor maneira possível e vivendo essas coisas que eu vivi com vocês agora, que foi gratificante, prazeroso mesmo poder conhecê-los, embora não conheça muito, mas foi gratificante. Vocês me fizeram lembrar de coisas boas do passado, coisas ruins eu não posso falar que eu tive porque eu não tive Graças a Deus, nunca tive nada que eu possa exaltar assim "Ah, pelo amor de Deus, que coisa ruim". Que tenha me acontecido? Não, nunca. Então essas coisinhas aí de repressão, isso daí eu levei sempre numa boa, respondia à altura, nunca levei um tapa de um policial e já conversei muito com eles, mas conversando, é ser humano, vamos conversar, conversar é outra coisa, então não tenho assim o mínimo. Ah, e política…Peraí deixa eu só te falar uma coisinha. Tem a minha amiga Leci Brandão que adoro muito ela, tá na política, coitada, eu digo coitada porque ela luta sozinha e sozinha de verdade, hoje ela tem mais uma pessoa do partido dela aí na assembleia, mas essas traições, hoje ela tem um projeto, ela leva o projeto, por exemplo, apresenta pra você "Olha, eu tô com esse projeto, vou botar lá, pô esse projeto, Leci que beleza, olha você tem que apresentar esse projeto, tem que apresentar". "Pô, então vou apresentar". "Apresenta esse projeto" Chega na hora da apresentação, você que me incentivou "Ah não, isso não, não é momento". Sabe? Coitada, ela envelheceu, eu falei pra ela: "Menina, sai fora disso que você vai acabar morrendo, e ela é muito sentimental sabe, mas eu acho que logo ela sai porque o mandato dela vai terminar agora, não sei se ela vai continuar, mas isso era uma coisa que eu queria falar pra vocês, de política, que política é triste, eu tenho ojeriza, mas tenho que estar nela né (risos) porque sem ela a gente não vive, mas é isso.

 

P/1 – Obrigado, viu Mestre. Foi um prazer ver você.

 

R – Espero que tenha dado pra vocês pegarem alguma coisa.

 

P/1 – Com certeza.

 

R – Espero não ter decepcionado, né?

 

P/1 – Imagina.

 

R – É que a gente fala assim o que a gente viveu, o que a gente sabe e o que a gente sente, e isso é bom assim, eu acho que a gente tem que ser mais ou menos isso, ser o que é, não adianta florear se você não é fruta frutífera, você não vai dar fruto nunca. Floreia, mas não tem fruto.



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