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História

Mergulho na Grande São Paulo

Sinopse

Filho de pai português, nasceu em Botucatu. Aos dezessete anos de idade foi para São Paulo, mudança que almejava desde pequeno. Iniciou a faculdade de Ciência Econômica e começou a trabalhar como contador no Banco de Crédito Nacional, por conta da comodidade do horário. Dando aulas à noite, e com uma “queda” para o magistério, encontrou no SENAC a possibilidade de dar aulas. Foi orientador pedagógico e posteriormente Diretor Geral substituto do SENAC.

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História completa

P/1 - Bom, eu queria começar, professor, com o senhor falando seu nome completo, o local e a data de nascimento.

 

R - Eu sou Oliver Gomes da Cunha, nasci em 30 de maio de 1922, na cidade de Botucatu.

 

P/1 - Certo. E o nome e o local de nascimento dos pais do senhor?

 

R - Meu pai era José Gomes da Cunha, nascido em Portugal, nasceu no Minho, na cidade chamada Freguesia dos Silveiros. Minha mãe era brasileira, nascida em Ribeirão Preto, ela nasceu numa cidade vizinha a Ribeirão Preto, chamada Sertãozinho, mas foi registrada em Ribeirão Preto.

 

P/1 - Certo. E o senhor sabe como o pai do senhor veio pro Brasil?

 

R - Ah, sim. Meu pai veio ao Brasil na oportunidade em que se desenvolvia a Primeira Grande Guerra e Portugal foi ameaçado também de participação nesse movimento, segundo o que ele contava. Isso eles formaram um grupo e vieram até Gibraltar, de lá tomaram um navio pra fugir, digamos, praticamente do conflito bélico. Chegando ao Brasil, ele entrou no serviço de imigração e eles distribuíram pelo interior do estado os imigrantes, e ele foi destinado para Botucatu. Trabalhava como marceneiro em Portugal, então ele implantou-se em Botucatu primeiramente como empregado de uma marcenaria, depois ele montou a sua própria fábrica de móveis.

 

P/1 - Certo. O que é que o senhor lembra da sua infância lá em Botucatu, do dia a dia, da casa?

 

R - Bem, Botucatu é uma cidade que no meu tempo era pequena, uma cidade de 20 mil habitantes, toda serrana. A gente costumava brincar dizendo que Botucatu só tinha subidas, porque pra todo lugar que a gente fosse tinha que subir algum ponto. Eu morava na rua principal da cidade, chamada Rua Armando de Barros, onde meu pai montou a fábrica de móveis dele, a marcenaria dele, e essa casa existe até hoje, só que ela está alugada, ocupada, mas ainda existe. E nós éramos em quatro pessoas, quatro filhos, dois mais velhos, eu e uma irmã, os meus dois irmãos ficaram com o meu pai trabalhando na marcenaria, aprenderam o ofício, e não quiseram estudar, só terminaram o curso primário. E eu e a minha irmã não, nós quisemos continuar estudando, então ficamos lá estudando até... Eu fiquei em Botucatu até os 17 anos e meio, quando terminei o que corresponderia ao segundo grau. Botucatu é uma cidade de estudantes, uma cidade de elite, muito interessante. Venta muito né, (riso) porque é uma cidade serrana, e a gente levava aquela vida tão simples. Só para se ter uma ideia de como era a simplicidade de Botucatu, é que eu nunca tinha vindo a São Paulo antes dos 17 anos e meio, só conhecia a cidade e duas ou três cidades vizinhas. Nós íamos lá numa cidade vizinha que dista uns 40 quilômetros de Botucatu, nos dias de bailes ia lá para dançar, porque era um jovem de 17 anos, mas era 40 quilômetros de Botucatu.

 

P/1 - Que cidade era?

 

R - São Manoel. Que é a terra do Adhemar de Barros, não é isso? São Manoel. E as recordações que eu tenho eram recordações de estudante. Eu estudei em um colégio de padres, chamava-se Colégio Diocesano, está lá ainda. Havia um Curso Comercial junto com o curso acadêmico, e a nossa escola chamava-se Escola Superior de Comércio Nossa Senhora de Lourdes. E estudei durante o dia, era a única coisa que eu fazia, e sempre dizendo pro meu pai que eu queria vir a São Paulo, queria fazer uma faculdade, queria fazer coisa melhor. Botucatu não tinha faculdade, só tinha... O máximo lá era essa Escola Superior de Comércio, formava peritos contadores. Meu pai dizia: "Bom, vamos ver, na época nós vamos ver, você, como é que você vai morar lá, como é que..." "Não pai, eu quero ir pra São Paulo", e tal. Como de fato aconteceu, né. Eu vim pra cá, fiz vestibular, entrei na Faculdade de Ciências Econômicas de São Paulo, e guardo de Botucatu as recordações de um jovem... Jovens que durante o dia namoram as moças, frequentam o clube de dança. É uma vida simples, não é mesmo? Porque não havia grandes recursos, não havia músicas, recursos como se tem hoje. A gente se contentava com uma vitrolinha de braço e assistia... Tinha um rádio em casa que era... Tinha um metro de altura esse rádio, que pegava a Rádio Nacional do Rio de Janeiro, era a única rádio que ela pegava. Então eu diria que a vida era simples, muito simples, vida do interior, mas com boas, agradáveis recordações. Ainda vou lá, vejo os lugares que eu frequentava quando eu era moço. A cidade mudou muito, cresceu muito, ganhou faculdades, hoje tem uma faculdade de medicina que é da própria universidade, da Unesp [Universidade Estadual Paulista], tem outros recursos, a cidade se transfigurou. A rua principal, que é a Rua Armando de Barros... Hoje o centro está... Social está transplantado para a parte alta da cidade, numa avenida que tem lá. Cresceu muito a cidade, mas as recordações da mocidade, da meninice, vamos dizer assim, eram realmente... Ficam realmente marcadas pra sempre.

 

P/1 - Certo. E qual foi a impressão do senhor quando chegou em São Paulo?

 

R - Bem, meu pai me trouxe para São Paulo, nós tomamos o trem... Naquele tempo o trem levava nove horas e meia de viagem, a Sorocabana, velha Sorocabana, com trem que era... Não era elétrico. Nós chegamos aqui, meu pai me trouxe, nos hospedamos no Hotel do Este, que era um hotel que tinha ali na Rua Boa Vista, era o melhor, um dos melhores hotéis de São Paulo, e dali fomos à faculdade tirar informações. E São Paulo, assim, era uma coisa estranha para mim, por causa do movimento que havia, imagina na época. Aí eu fiz o vestibular, acabei me classificando e acabei indo morar com uma tia que morava no Brás, na Rua Oiapoque. Aí que eu comecei a viver São Paulo, tomar bonde pra vir à cidade... Era um deslumbramento. A gente pegava... Pra conhecer a cidade tinha um bonde chamado “dezessete”, ele saía do Brás, ia para o Largo do Arouche, dava uma volta enorme, passava pela Avenida São João, entrava na Consolação, dava uma volta enorme, e era um grande passeio pra conhecer a cidade. Me lembro de umas coisas interessantes na época, que eu acho que vale a pena contar. Não tem nada a ver com o SENAC. Era... Havia, em São Paulo, um bar chamado Bar Automático, não sei se ouviram falar nisso. O Bar Automático era um bar que tinha na Avenida São João, ali no primeiro quarteirão entre a Libero Badaró e o Anhangabaú, e que a gente colocava um níquel e caía um sanduíche, chamava-se Bar Automático, não tinha garçom, não tinha ninguém. Você botava uma moeda, o sanduíche descia o degrau, você pegava o sanduíche, punha a moeda noutro lugar, jorrava um copo de refrigerante. Quantas e quantas vezes esse foi o meu jantar, porque eu tinha que ir pra aula e não tinha... Não dava tempo, então eu ia no Bar Automático, que custava barato, e a gente gastava pouco, eu vivia de mesada. E também uma outra boa recordação que eu tenho nessa época, já na fase de estudante, era o Bar Pinguim. O Bar Pinguim era situado em frente ao Correio, mas do lado da descida da São João. Tem a Praça Antônio Prado, tem aquela descida onde está o prédio do Banco do Brasil, mais um quarteirão, na esquina tinha um bar chamado Bar Pinguim, que era da Antarctica, e a gente ia beber chope, sentava lá e ficava bebendo chope até esborrachar, certo? Foram coisas que ficaram na época. Em frente ao Bar Pinguim era o Correio, então tinha, evidentemente, essa urbanização, e eu não sei se eu posso contar aqui, se posso fazer uma coisa meio gaiata, a gente fazia uma brincadeira − aí já como estudante: os estudantes todos saíam da faculdade e iam tomar chope no Bar Pinguim. Então a gente fazia aposta pra ver quem bebia mais chope sem precisar ir no banheiro, e o nosso companheiro ganhou a aposta. Só que quando ele levantou, ele estava todo molhado! (riso) Não sei, se vocês quiserem cortem isso, se for o caso, mas são coisas que ficaram na imagem. O Bar Pinguim marcava como local onde se reunia a estudantada, e era então um bar de grande frequência, não existe mais.

 

P/1 - Certo. Por que o senhor optou por esse curso?

 

R - Bom, eu sempre quis fazer uma faculdade, era o meu desejo. Inicialmente eu pensava que eu ia tentar medicina, (mas?) a faculdade de medicina apresentou uma série de dificuldades pra quem morava no interior, a 260 quilômetros de São Paulo, porque não tinha curso preparatório. Acontece que a Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado publicava, toda véspera de Natal, no Estado de S. Paulo − que meu pai assinava − uma folha contendo os resultados de todos os seus alunos, só os que passavam de ano e diplomados, e havia lá a Faculdade de Ciência Econômica, que também era a primeira faculdade de Ciência Econômica do Brasil, e a Álvares Penteado foi a primeira escola de comércio do Brasil. E eu sempre dizia ao meu pai: "Olha, eu acho que eu tenho queda para administração. Eu teria queda para isso. Eu ainda vou entrar nessa Álvares Penteado." Porque era uma folha do Estado de S. Paulo inteirinha, às vezes duas folhas com os resultados. Meu pai assinava O Estado de S. Paulo essa época, e O Estado de S. Paulo chegava em Botucatu dois ou três dias depois de editado, que tinha que ser levado por trem, o trem tinha que levar pra Botucatu, o jornaleiro ia separar para depois entregar os jornais. Hoje o jornal chega lá uma hora depois, meia hora depois, em São Paulo, porque eles mandam logo de madrugada. Mas então eu vi que ia passando o tempo, o meu pai não se decidia que eu viesse, ficava aquelas dificuldades, especialmente da minha mãe: "O que é que esse menino vai fazer em São Paulo? Ele vai se perder lá e tal." E eu dizia: "Pai, se eu tiver que morrer afogado, eu prefiro morrer afogado num rio grande, não num rio pequeno como esse nosso aqui." Nós tínhamos um rio em Botucatu que chamava-se Lavapés, Rio Lavapés porque só dava pra lavar o pé; você atravessava o rio, molhava os pés... Ele chamava Rio Lavapés. Rio do Lavapés, era o nome, embora os padres lá diziam sempre que era uma homenagem a essa liturgia do lavapés, da Igreja. Mas aí eu disse: "Pai, eu preciso, eu quero ir fazer a faculdade, então eu vou fazer Economia." E vim pra São Paulo, junto até com um colega também de Botucatu, filho de um armênio, chamado Abraão Taviquian, e ele me animou, então fomos os dois. Meu pai trouxe os dois pra fazer o vestibular aqui. E aí acabei vindo pra ficar, morando com a minha tia na Rua Oiapoque.

 

P/1 - Certo. E aí o senhor fez a faculdade?

 

R - Bom, aí comecei a fazer a faculdade. Meu pai pagava os estudos e mandava a mesada, mas evidentemente não dava, então comecei a pensar em trabalhar, começar a trabalhar, pegar alguma coisa, ficava praticamente durante o dia todo sem outra coisa senão a escola. Aí comecei a procurar emprego em bancos por uma razão de conveniência. Os bancos... Antigamente os bancários trabalhavam só meio dia, do meio dia pra tarde, até o fim da tarde, os bancos... Os funcionários entravam às 11 e meia da manhã e saíam às seis e meia. Como as aulas minhas começavam às sete horas, era uma coisa boa, eu queria arrumar emprego em banco, porque geralmente era no centro da cidade, e a faculdade também era no centro da cidade, então eu armei assim, que de manhã eu estudaria, de tarde trabalharia no banco, ganhava um dinheirinho, e com isso eu ia dispensando meu pai de fazer esses embolsos mensais, porque mandava dinheiro pra faculdade, pra ajudar em casa, ajudar a minha tia também, pagava a minha alimentação e as despesas normais, né? Bom, aí eu comecei a procurar o banco, e fui num banco, na época, chamado Casa Bancária Old Companhia, que hoje é o Banco de Crédito Nacional, na Rua Boa Vista. Só que eles tinham uma casa bancária que era dirigida pelo diretor desta casa bancária, era a conveniência de se ter múltiplas instituições de pequeno porte pra efeitos bancários. Então eu fui trabalhar nesta casa, na própria Rua Boa Vista, chamava-se Casa Bancária B. Lamboglia, e foi o meu primeiro emprego, fiquei lá desde 1940 até 1947. E como eu tinha me instruído em contabilista, eu era contador, assim que foi registrado o título eu passei a ser o contador desta casa bancária, foi o meu primeiro emprego.

 

P/1 - Certo. E como que o senhor tomou conhecimento do SENAC?

 

R - Lendo jornal. O SENAC foi instalado, eu nunca ouvira falar do SENAC, de repente eu estou lendo o jornal e vejo um anúncio do SENAC, um edital convidando pessoas pra participarem de um concurso de seleção, porque o SENAC estava abrindo vagas, estava recebendo candidatos, especialmente na área do ensino comercial. Eu, enquanto estava na casa bancária, dava aulas também, aulas à noite, depois que eu terminei a faculdade, em escolas de comércio. Eu tinha uma queda pro magistério, para a educação, então eu comecei, mesmo trabalhando na casa bancária, à noite eu ia dar aulas na Escola Carvalho de Mendonça, que era perto da minha casa, perto da Rua Oiapoque, depois eu fui dar aula na Escola de Comércio Santos Dumont, que é logo mais a diante. Depois fui para a Campos Sales, que o diretor da Campos Sales veio me buscar sabendo que tinha, na opinião dele, um bom professor de contabilidade que dava aulas aqui nesta escola. Viu preferência, me convidou para dar aulas lá, aí já era na Lapa. Ele até colocava um carro à minha disposição pra me levar para lá porque era muito longe. Então eu comecei a me integrar no ensino, e a atividade bancária era relativamente importante pra mim, era importante o magistério, onde eu ganhava pouco, lá na casa bancária eu ganhava bem, eu era contador, ganhava bem, só que eu gostava mais de dar aula. Um belo dia eu abro o jornal e vejo um anúncio do SENAC oferecendo oportunidades de magistério e oportunidade de funcionar como técnico de ensino, isso foi mais ou menos em outubro. Fui lá me inscrever no SENAC, o SENAC estava instalado na Rua Florêncio de Abreu, no Edifício da Comermat, que é um prédio que existe ainda hoje, tem uma loja embaixo. E me inscrevi, participei de um concurso, um concurso de títulos e de entrevistas e fui classificado em segundo lugar. Aí o SENAC convidou os primeiros classificados para ficar como técnico em trabalho interno e não em escola. Então a minha ida ao SENAC não foi devido a nenhum apadrinhamento e nem tampouco a nenhuma apresentação, foi uma procura através de anúncio de jornal.

 

P/1 - E aí o senhor assumiu como orientador pedagógico?

 

R - Eu fui contratado como orientador pedagógico a partir do dia três de março, porque dia primeiro de março era um sábado, então eu fui ao SENAC pela primeira vez depois da seleção. Fui, assumi o emprego, e como nós estávamos falando aí a pouco, quem me entrevistou foi o próprio doutor Alpínolo Lopes Casali, que funcionava lá como... Eu tenho a impressão que ele era secretário geral do departamento. Então eu compareci lá e aí fiquei sabendo que havia uma seção de Orientação Pedagógica. Havia uma Divisão de Ensino, dentro da Divisão de Ensino tinha uma Seção de Administração Escolar, tinha uma Seção de Seleção de Orientação Profissional e tinha uma seção chamada de Orientação Pedagógica que era constituída de um chefe chamado Antônio D’Ávila, que é um que escreveu numerosos livros sobre o ensino, ele escreveu Práticas Escolares, ele era... Tinha a mente... Um especialista em matéria de ensino, ele era o chefe; havia uma professora que morava em Santos, chamava Maria Helena, que ia todos os dias ao SENAC, vinha de Santos para ir ao SENAC, e havia também um orientador em matemática chamado Ernani de Barros D’Ávila. Havia também o Calmon Solano Ribas, que era a orientação do ensino de português, e havia o Carlos Del Nero, que era pra chamada educação cívica. Havia... O SENAC tinha uma cadeira, na época, chamada educação cívica, então ele orientava essa disciplina e eu era orientador nas Práticas Comerciais, então formava um grupo de seis. O diretor da divisão era o Walther Barioni, o chefe da Seção de Seleção era o Tolstoi de Paula Ferreira, todos desaparecidos por morte, e o diretor da Administração Escolar era um cidadão chamado Gontran Berrance Calmon, esse era o nosso, a nossa divisão de ensino. No máximo, no máximo dez ou 12 funcionários. O SENAC, na época, instalou três escolas no interior, uma em Santos, outra em Ribeirão Preto, outra em Campinas, sempre prédios alugados ou através de convênios, e na capital ele instalou quatro escolas, uma escola na própria Rua Florêncio de Abreu; outra escola no Brás, que era essa da Carvalho de Mendonça pra atender o pessoal que morava no Brás; uma escola ali na avenida, na Rua Liberdade; uma na Rua Líbero Badaró, que eram as quatro escolas, e mais as três do interior. Então a nossa função era orientar o ensino, nós preparávamos o material didático, preparava os modelos didáticos, preparava as lições e mandava para os professores. Depois fazia a inspeção para verificar se eles estavam desenvolvendo os programas conforme a Divisão de Ensino determinava. E preparávamos as provas, as provas do SENAC eram uniformes em todo o Estado, e começaram a aparecer as escolas, etc. A seção foi se tornando cada vez mais importante, porque atendia já a centenas de alunos.

 

P/1 - O material didático naquela época era constituído do quê?

 

R - Bom, no meu caso, por exemplo, eu preparei primeiro o manual chamado Noções do Comércio, que era um caderninho, um caderno feito numa gráfica nossa mesmo, com lições a respeito de assuntos de comércio, o que é comércio atacadista, o que é comércio varejista, quais são as exigências da Junta Comercial para abrir um estabelecimento comercial, quais são a classificação das casas comerciais através do produto que vendiam preferencialmente. Eu fiz também um manual de escritório, de escrituração mercantil, era um manual já grande, com modelos de todos os livros fiscais e como se escriturava o diário, como se escriturava o razão, não sei se pra você isso é grego, mas, de qualquer maneira, os professores trabalhavam naqueles manuais. Então a gente mandava as lições, primeiro em folhas avulsas, depois mandava o manual tanto de comércio como datilografia. Por exemplo, nós mandávamos o manual de datilografia com os desenhos para posicionamento da mão e dos dedos e os usos das principais peças da máquina de escrever, as lições. Esse material era produzido lá no departamento de ensino das escolas, para uso dos alunos e professores, e a prova semestral era calcada nessas lições. Então o professor... Era uma maneira indireta da gente dirigir o professor para que não extrapolasse o ensino, não modificasse a programação, porque senão as lições que iam daqui, as provas que iam daqui pra lá não encontrariam o aluno preparado ou pelo menos consciente de que essa matéria foi dada. Porque, veja bem, o SENAC tinha uma preocupação muito grande, era praticidade no ensino. São Paulo tinha muita escola de comércio, o desenvolvimento dos programas do SENAC eram muito práticos e objetivos, porque o aluno tinha que ir pra nossa escola e aprender coisas práticas, porque ele era aluno e era empregado da empresa, ele ia durante as horas de serviço pra fazer a aprendizagem, que era a lei da aprendizagem, chamava-se a Lei da Obrigatoriedade Escolar, que é 8.622, não é isso? Então ele tinha que ir à escola, voltar com alguma coisa adquirida que fosse prático. Por exemplo, ele lia lá, e através desse manual ele ia aprender a preencher uma ficha, por exemplo, de empregado, quando ele chegasse na empresa ele faria isso porque ele aprendeu a fazer na escola. O empregador ficava muito admirado de ele conseguir aprender a fazer aquela ficha que era só o contador dele que fazia. Então o ensino do SENAC tinha que ser, nós chamávamos de ensino funcional, quer dizer, tinha que ser um ensino de acordo com a necessidade imediata do menor que estava em nossa escola por regime de obrigatoriedade, tanto que esses cursos do SENAC chamavam Curso de Praticante de Comércio para quem estivesse fora do escritório, na loja, nas vendas, no almoxarifado, nos outros setores, no balcão, e tinha o Curso de Praticante de Escritório, para quem na firma trabalhasse no escritório, então ele aprendia a ler os fiscais, aprendia estruturas próprias de controles, de vários controles, controle de estoque, controle disso, controle daquilo.

 

P/1 - É dessa época que foi... Começou o trabalho do Escritório-Modelo, da Loja-Modelo?

 

R - Exatamente. Eu instalei, como orientador pedagógico, a primeira Loja-Modelo do SENAC no Brasil, que foi no prédio o único que nós tínhamos lá na Rua Galvão Bueno, e o primeiro Escritório-Modelo também lá. E exatamente, era uma lojinha com produtos que foram até doados por indústrias, o aluno tinha um balcão e ele fazia o treinamento lá, fora das horas normais de aula ele fazia treinamento como estagiário, e o Escritório-Modelo também. O SENAC desenvolveu um trabalho grande de montagem do Escritório-Modelo, na ocasião.

 

P/1 - Qual era a reação dos alunos?

 

R - Bem, os alunos começaram, eles gostavam da escola, porque o SENAC, além das aulas, além da prática que dava e era útil para eles, não é isso, o SENAC realizava um programa de atividades extraclasse, organizava excursões, organizava festinhas, festividades, o SENAC estimulava essas coisas, porque eles queriam criar, desenvolver a sociabilidade dos alunos. Mas eu acho que o melhor, o maior reconhecimento do aluno era a praticidade do aprendizado, o método era o método que nós chamávamos, na época, “método direto”, esse método tinha como fundamento pedagógico o aprender fazendo, então o aluno tinha que trabalhar em algum material e aprender fazendo no manual, o livro, escriturando o livro. Ele percebia realmente o seu progresso naquele campo de atividade para o qual se desenvolvia o trabalho escolar. Então eu acho que a reação do aluno era muito interessante. Agora, havia um problema muito sério no SENAC, na época, que era a evasão escolar, não por culpa do aluno, pelo fato do aluno não querer, é que havia mobilidade no emprego, e essa mobilidade envolvia o cancelamento da matrícula. Havia uma certa... Muito novo, muito intenso, aluno que não ia ficar o ano inteiro, desnecessariamente na empresa. Se ele saía durante o ano, perdia a matrícula, aí a firma mandava outro no lugar, esse ia começar de novo, esse era o problema dos cursos chamados de aprendizagem, que hoje não existe mais. O SENAC não faz mais aprendizagem, o SENAC faz hoje formação profissional, de adulto, de candidato a emprego, mas não tem aquele regime da firma contratar e simultaneamente matricular o aluno no SENAC para, em horas de trabalho, frequentar um curso que o SENAC quer oferecer, essa é a Lei da Aprendizagem que chama, que o Senai mantém ainda hoje.

 

P/1 - Certo. Professor, e quando foi que o senhor assumiu a direção do SENAC?

 

R - A diretoria do departamento?

 

P/1 - É.

 

R - A diretoria regional? Foi em 54, 1954, eu era Diretor Geral substituto, porque havia o Diretor Regional, que era o Gontran Berrance Calmon, que afastou-se do SENAC. Era um ano eleitoral, ele afastou-se, então eu fui... Eu era Diretor de uma divisão, Divisão de Administração Escolar, eu fui convidado para substituí-lo, então o meu cargo era Diretor Geral substituto, era esse o nome do cargo na época, porque havia os Diretores de escola e os Diretores de divisão. O Diretor que era a principal figura do departamento chamava-se Diretor Geral do Departamento Regional de São Paulo, era esse o título do cargo, e eu fiquei, entrei, comecei a substituir, foi no ano do IV Centenário, com as festividades do IV Centenário, por isso que eu marquei bem.

 

P/1 - E o senhor estava falando para a gente assim que, na sua administração como Diretor Regional, o senhor colocou duas coisas como sendo importantes, eu queria que o senhor falasse.

 

R - Sim, bom. O SENAC nessa época tinha uma programação de abrir escolas, centro de... Chamava-se Escola SENAC, hoje tem outro nome. Então o SENAC começou a construir prédios escolares juntamente com o SESC, o SESC ocupava o mesmo edifício, servia metade pro SESC, metade pro SENAC, e juntava-se os recursos para isso. Então nós construímos prédios, era um programa de construções, de muitas construções, nós construímos escolas em Campinas, hoje tem outra escola, mas na época, em Campinas, construímos em Ribeirão Preto, Rio Preto, em Botucatu; Sorocaba veio depois. Enfim, foram construídos muitos prédios e que foram exatamente nesta fase de expansão do SENAC, prédios grandes, prédio de grande porte no sentido de acomodação, com muitos alunos. E outro, acho que outro ponto que eu acho muito importante no SENAC foi exatamente o problema do curso, nós abandonamos os Cursos de Praticantes, os cursos chamados de aprendizes para instituir o Curso Básico Comercial, porque havia uma insatisfação muito grande do aluno nosso que terminava o curso e não tinha como prosseguir os estudos. Recebia o diploma e o diploma era apenas uma constatação de curso, então surgiu uma ideia de se entrar no ensino comercial, que também foi nessa época. Houve uma batalha muito grande interna, porque o Departamento Nacional não estava de acordo, o Departamento Nacional queria que o SENAC mantivesse os seus cursos chamados de Praticantes, os cursos de aprendizagem, mas o SENAC de São Paulo enfrentou o Nacional, instalou e implantou esses cursos que pela legislação da época atenderam, mas atenderam as necessidades do mercado. Eu acho que foram iniciativas, ao tempo, muito significativa na minha administração.

 

P/1 - Certo. Deixa eu perguntar uma coisa para o senhor: como se deu a implantação da Universidade do Ar?

 

R - Bem, a implantação da Universidade do Ar surgiu, eu não era Diretor Regional, o Diretor Regional era um agrônomo chamado João Pacheco Alves, ele foi o terceiro Diretor Regional do SENAC, o primeiro Diretor Regional do SENAC foi Francisco Garcia Bastos, que era um comerciante, ele era membro do Conselho e ele tocava o SENAC a pedido de Brasílio Machado Neto, que era o Presidente do Conselho, mas ele não dava tempo integral, ele só ia no final da tarde lá. Depois dele, depois do Garcia Bastos, veio um cidadão chamado Jorge Freire Campelo, que era professor, ele era irmão do diretor da escola de Taubaté que era também Campelo, e era tio daquela cantora Cely Campelo, que é filha do diretor da nossa escola. Ele ficou quatro meses só, depois, durante um mês de interinidade, ficou um Conselheiro chamado Oscar Machado, mas também sem ser, digamos, funcionário, vamos dizer assim, com tempo integral. Ele ia lá no final da tarde só para ter um diretor, era obrigado ter um diretor, até que então foi contratado esse João Pacheco Chaves, que era muito amigo do doutor Brasílio, para ser o Diretor Regional com tempo integral, aliás, integralíssimo, porque ele ficava noite adentro lá, trabalhando pra instituição. E esse João Pacheco Chaves é que teve a ideia, então... Ou pelo menos vendeu a ele a ideia de um curso por rádio, né, como hoje, na época havia as novelas de rádio, não é isso? Novela, Rádio Nacional tinha novela, O Direito de Nascer, demorou dois ou três anos essa novela radiofônica. E ele então montou o que se chamou Universidade do Ar, com o subtítulo “Curso Comercial Radiofônico”. Em que constituía essa Universidade do Ar? Essa Universidade do Ar era o acoplamento de uma, de dezenas de emissoras interioranas, de pequeno raio de ação, cada cidadezinha tinha a sua emissorazinha, então seria feito uma transmissão através de discos da aula radiofonizada, os discos seriam... Eram remetidos a essas emissoras, e elas vendiam o tempo da transmissão. Como a programação era muito difícil no interior, que pra fazer uma radiozinha lá de uma cidade pequena não tem muita oportunidade, então eles vendiam aquilo, o tempo, baratinho, e o SENAC mandava os discos. Os discos eram tocados durante aquela meia horazinha, com aulas sobre português, matemática, português comercial, matemática comercial, noções gerais de comércio, noções de vendas, até psicologia de vendas. O negócio às vezes aprofundava um pouco, entrava uma matéria, saia outra, e esse curso era desenvolvido através dessa rede de emissoras. Aí foi surgindo... Tinha ainda outro apoio, apoio logístico, se mandava impressa a lição, a liçãozinha da Universidade do Ar tinha o formatozinho tipo livro, tamanho de livro com a lição multilitada, havia uma máquina antigamente impressora chamada Multilith, que era o que havia de melhor em matéria de impressora, uma tipografia caseira. Ela era impressa dos dois lados, e essas liçõezinhas eram remetidas pelo correio, elas terminavam sempre com um questionário que o aluno lia a lição, respondia o questionário e mandava de volta. O questionário era corrigido e retornava outra vez ao próprio aluno que foi inscrito por correspondência, ele mandava uma carta e se inscrevia. Até que apareceu, um pouquinho mais adiante, depois dessa primeira iniciativa, a necessidade de se fazer uma complementação dessas aulas. O aluno lia a lição e podia não entender a lição, e por isso então ele não saberia como responder o questionário. Então foram instalados núcleos em que havia um repetidor, vamos dizer assim, na linguagem moderna, um repetidor da aula radiofonizada. Esse núcleo era lá na Associação Comercial, lá na Paróquia, lá numa sala do clube da cidade, e os alunos se reuniam lá na hora da transmissão, ouviam a programação do rádio que estava lá instalado o rádio, o rádio tocava, e ele recebia a lição também, e estava o professor lá por mais uma hora. Ele ia esclarecendo as dúvidas e dando as instruções de como fazer esse aproveitamento. Foi assim, uma coisa muito interessante. Eu considero, na época, muito bom, um curso por correspondência combinado com o rádio, mas com um núcleo receptor e repetidor de aulas, então eram três fatores técnicos que se conjugavam, não era só correspondência, era correspondência mais o rádio mais o professor. E eles eram reunidos − no final de um período − em regiões para fazerem as provas, então o pessoal da região central ia para Bauru, a região de Rio Preto ia para Rio Preto, e lá as provas eram preparadas em São Paulo e aplicadas no mesmo dia, simultaneamente, e os alunos eram classificados. É uma coisa que foi realmente muito significativa, houve muito interesse até mesmo de organismos internacionais, saber como é que se fazia, se desenvolvia essa experiência aqui. Chegou a ter dez mil alunos a Universidade do Ar, que se chamava Universidade do Ar, e dava, a nível de estímulo, prêmios aos melhores classificados, os melhores alunos, o melhor aluno da primeira, da primeira leva, da primeira turma, vamos dizer assim, ganhou uma viagem aos Estados Unidos, que era um rapaz de Rio Preto, foi para os Estados Unidos, deu até entrevista na Folha de S. Paulo dizendo que tinha ganhado uma bolsa de estudos. Eu queria lembrar aos senhores que ir aos Estados Unidos em 1948 era uma aventura meio violenta, porque só o avião levava 36 horas de viagem, eram os chamados DC-4 que iam, paravam, saíam de São Paulo parava em Recife, saía de Recife parava na Ilha do Sal, saía da Ilha do Sal parava em Caracas, saía da ilha de Caracas ia numa outra cidade lá do Caribe, depois entrava em Miami. A primeira viagem que eu fiz aos Estados Unidos eu levei 28 horas de viagem dentro do avião. Não é como hoje, que parece que as coisas estão muito mais fáceis. Qualquer um... Hoje eu tenho um neto que está lá nos Estados Unidos passeando nas férias de julho. (riso) Imagine, eu mal conseguia sair de Botucatu pra passear em São Paulo. Muito bem, então o SENAC dava alguns prêmios, dava bolsas de estudos para quem quisesse continuar, e era... Foi uma iniciativa interessante, que acabou realmente fenecendo, ela caiu, mudou o diretor, o João Pacheco Alves foi eleito deputado estadual, logo depois foi escolhido Secretário da Agricultura, então ele deixou o SENAC e o sucessor dele, que era Diretor do SESC, chamado Rubens Leme Machado, veio do SESC trazido para o SENAC, e ele não matou a Universidade, mas minimizou as atividade da Universidade, porque ela foi considerada dispendiosa demais. Acabou, porque as aulas eram radiofonizadas, mas eram dramatizadas, havia um corpo de funcionários, de contratados pela rádio para fazer as vozes, para gravar o disco. Não era uma exposição contínua, eram teatralizadas as aulas, isso custava dinheiro. Depois tinha que imprimir esses discos, tinha que remeter pra todos esses núcleos. Depois tinha as despesas em viagens pra trazer o pessoal pra fazer as provas, tinham os prêmios... Quer dizer, tinha o custo da impressão, tinha os professores que se pagavam. O SENAC não pagava o local, conseguia o local com a colaboração da sociedade local, da Associação Comercial, da Câmara dos Vereadores, do clube, pra ceder o espaço, mas tinha que pagar o instrutor. Então ele veio com essa preocupação de minimizar os gastos, e a universidade continuou depois, mas sem os núcleos. Ficou até durante alguns anos funcionando como um curso comum de correspondência, sem a intervenção da rádio. Era uma Universidade do Ar sem o rádio, era um Curso Comercial Radiofônico mas sem a parte radiofônica. Mas durante algum tempo ela ainda subsistiu, deixou saudades.

 

P/1 - E na época em que tinha cerca de dez mil alunos o senhor comentou uma coisa a respeito da participação do Correio...

 

R - Ah, sim. A Universidade do Ar ela expedia, como eu disse, dez mil lições semanalmente. O Correio chegou a botar um posto dentro do SENAC pra facilitar, porque não precisava mandar a correspondência para lá, o próprio cidadão despachava dali, já ia direto pra mala. Funcionava, vamos dizer, uma agência do Correio só para a Universidade do Ar. Porque, veja bem, remetia a lição, remetia o disco, recebia os exercícios dos alunos, esses exercícios eram corrigidos e eram remetidos de novo. Havia os avisos, as circulares, havia as convocações, então realmente o Correio tinha um volume de serviço muito grande.

 

P/1 - Certo. O senhor comentou com a gente lá fora do atraso de uma lição que foi de uma cidadezinha.

 

R - É isso mesmo. Havia... Como eu disse, esses discos eram remetidos, com uma etiqueta, para rádio local colocar no ar; o disco respectivo, porque o professor sabia, já tinha a programação de todas as aulas e sabia que naquele dia ia ter uma aula sobre, por exemplo, duplicata: o que é que é uma duplicata, como é que preenche a duplicata, etc., dando um exemplo aí. Acontece que algumas cidades às vezes o Correio atrasava na entrega do disco, então havia um desespero da parte local. Uma vez − eu não estou bem certo se foi a cidade de General Salgado, perto de Rio Preto, ou outra cidade pequena − o prefeito telefonou desesperado: "Eu quero esse disco, como é que vai fazer, tem aula e hoje não chegou o disco, como é que os alunos vão fazer? Tem que resolver isso." Então o SENAC mandou o aviãozinho, tinha o aviãozinho, levar o disco para ele, entendeu? O disco para a rádio passar o texto radiofônico. O SENAC tinha um avião, um pequeno avião, um avião de pequeno porte, e levou o disco para lá. Quer dizer, saiu daqui pra levar um disco lá para atender a 15, 20 ou 30 alunos que estavam lá. Isso revela o interesse da cidade, do núcleo de que as lições fossem transmitidas. A Universidade do Ar era realmente uma coisa a mais que a cidade podia oferecer, e a curto prazo. O curso nosso, da Universidade do Ar, durava quatro meses, oito meses no máximo, tinha dois estágios, duas etapas, a primeira etapa quatro meses, a segunda etapa mais quatro meses. Era uma coisa muito interessante, os alunos comparecerem nessas provas, havia uma festa na cidade, porque... Chegou-se a fazer até um torneio esportivo entre os participantes da Universidade do Ar, você imagina, deu pra reunir turmas que pudessem participar, fazer jogos esportivos de cidade contra cidade, de Universidade do Ar de cá contra Universidade do Ar de lá, um movimento interessante.

 

P/1 - Eram as Olimpíadas?

 

R - Não, Olimpíadas é outro capítulo, Olimpíadas era só para alunos das nossas escolas, é outro capítulo, esse era um programa diferente. Nós tínhamos em cada escola um Departamento de Esportes, Educação Física, e aí se organizava as Olimpíadas que se reuniam numa cidade, mas eram os alunos dos cursos regulares, alunos, vamos dizer, que assistiam aula dentro da escola, e todos os dias, esses que nós chamamos de alunos regulares, enquanto que o aluno da Universidade do Ar não era, não frequentava a escola do SENAC, só frequentava o núcleo uma vez por semana, à noite, durante duas horas no máximo. Essas Olimpíadas foram outro movimento muito interessante, mas aí é de intercâmbio entre as escolas.

 

P/1 - E o seu dia a dia, professor, o senhor visitava as escolas, acompanhava o trabalho delas?

 

R - Ah, sim. Havia uma regra com o nosso presidente: que o Diretor Regional tinha que viajar toda a semana, tinha que ir a uma escola de qualquer maneira. Quando a gente estava com algum problema familiar ou então com preguiça, ia a Campinas, era mais fácil (risos), ou para Santos. Mas, na verdade, o Diretor Regional tinha que visitar todas as escolas pelo menos uma vez por mês. Era essa a programação que o nosso presidente fazia. Como tinha o avião, você podia até frequentar, durante três dias você corria. Eu cheguei a correr oito, dez escolas em três dias. Chegava lá, fazia o contato com o diretor, visitava a escola, via quais eram os problemas, visitava o prefeito, o presidente da Associação Comercial, o presidente do Sindicato Patronal. Fazia esse trabalho, pegava o avião e ia embora para outra cidade. Dormia na outra cidade, e assim por diante. Dava, às vezes, para fazer três cidades por dia, quando se tratava, por exemplo, de cidades tipo São Carlos, Araraquara, Rio Preto, Catanduva. Quer dizer, na mesma linha. Ou então Botucatu, Bauru; mais fácil, na mesma linha: Marília, Bauru e Botucatu era do itinerário. Mas o Diretor Regional camelava muito, andava muito, porque essa era uma linha administrativa do nosso presidente, ele viajava muito e participava de muitas reuniões também no país, porque, sabe, o SENAC de São Paulo ganhou logo um prestígio entre os outros regionais, eles não sabiam o que fazer, vinham a São Paulo. Toda reunião que houvesse, as reuniões regionais, por exemplo, os regionais do Nordeste se reuniam, os regionais do Sul se reuniam, o Brasil central. Eles convidavam o diretor do SENAC de São Paulo para mostrar o que está fazendo, como é que faz, como é que resolve esse ou aquele problema, então ele tinha, realmente, muito no começo, além de um programa muito agradável que era do exterior, o SENAC sempre estimulou as visitas ao exterior, pelo menos no meu tempo. Quase todos os diretores nossos fizeram viagens de estudos visitando centros de formação profissional da Europa, dos Estados Unidos, das Américas. O próprio Diretor Regional, quando eu exercia essa função, eu conheci todos os países da América e muitos países da Europa graças exatamente a essas, vamos dizer, essas ordens de serviço que o SENAC dava pra a gente ir visitar esses centros. Então eu conheci centros de formação profissional praticamente na Europa toda. Há uma entidade na Itália chamada Enalc - Ente Nazionale de Aprendizá de Lavoro, o SENAC tinha um contato muito grande, tinha o Executive Trade na Inglaterra, em Londres, e o SENAC fazia muito contato, era uma Escola SENAC de lá, vamos dizer, com os mesmos cursos para o comércio. Do Executive Trade era exclusivamente para a área comercial, foi de lá que nós trouxemos as ideias dos cursos de Vitrinista, eles tinham um andar inteiro de vitrines. Quer dizer, os alunos trabalhavam nas vitrines pra depois ir para as lojas. Então o SENAC mantinha um intercâmbio muito grande, propiciava... O Diretor tinha que andar bastante não só internamente, no estado, como no país, como também no exterior.

 

P/1 - Professor, que cursos o senhor lembra de terem começado na gestão do senhor?

 

R - É muito difícil eu dizer a você, porque o SENAC tinha um elenco muito grande de cursos.

 

P/1 - Alguns deles.

 

R - Eu me lembro que nós começamos na instituição com os chamados cursos de Aprendizagem. Dentro dos cursos de Aprendizagem tinha o CPC, que era o Curso Praticante de Comércio; e o CPE, que era o Praticante de Escritório. E tinha um o CP que era o Curso Preparatório, para quem não tinha nível. O aluno vinha, não tinha nível, botava nesse curso CP para ele ganhar nível, e para adultos nós abrimos logo de início o Curso de Balconista, balconista de tecidos, balconista de calçados, balconista de ferragens, e percorremos as lojas oferecemos cursos dessa ordem. Caixa Tesoureiro é um curso também que teve muita procura na época. Eu estou falando dos primeiros cursos, depois começaram a aparecer outros cursos aí, cursos mais sofisticados. Por exemplo, o Curso Classificador de Produtos Vegetais, que era o curso que exigia instalações; tivemos o Curso Classificador de Café, que exigia também instalações, mesas especiais para o processo de classificação do café através da degustação. Aí, até que o SENAC começou a construir esse prédio aqui da rua, da Avenida Tiradentes, que... Exatamente para cursos profissionalizantes dessa ordem, Curso de Hotelaria, começamos com os chamados Curso de Garçom, só curso de garçom, não de cozinha, só de garçom, depois de Atendente, Atendente de Hospital e uma variedade de cursos; falando de 20 anos atrás, 30 anos atrás, hoje provavelmente tem muito mais. Há um elenco muito grande de cursos, mas os primeiros cursos do primeiro ano do SENAC de 1947 foram esses que eu falei, os Praticantes, os Tesoureiros, os cursos de Balconistas, o curso... Depois começaram a aparecer os interesses dos sindicatos, queriam cursos mais específicos, Curso de Corretor de Imóveis nós fizemos também na época, são muitos cursos.

 

P/1 – Como é que o curso era implantado? Assim, como se definia a necessidade de um curso, era através de um sindicato?

 

R - Ah, sim. Bom, o primeiro contato do SENAC era através do sindicato, porque, sabe, o SENAC é comandado pela Federação do Comércio, o SENAC era comandado pela Federação do Comércio...

 

P/1 - Professor, quem que definia a implantação de um curso?

 

R - Bem, há uma listagem de profissões ou atividades que se praticam no comércio. Essa listagem é tirada daquela... Da antiga relação da Lei dos Dois Terços, então com esta listagem os técnicos do SENAC procuravam fazer visitas às atividades especificadas ou adequadas ou correlacionadas com aquela profissão. E também, como o SENAC estava muito intimamente ligado com a Federação do Comércio, os próprios presidentes dos sindicatos patronais apresentavam as suas sugestões, as suas indicações. "Por que é que nós não vamos fazer um curso para balconista, está faltando balconista na praça, os que existem aí são muito ruins, vamos fazer um treinamento, vamos fazer isso, vamos fazer aquilo!", então esses técnicos pegavam aquelas listagens e procuravam fazer uma análise profissional. O que é que o balconista de ferragens faz, o que é que ele precisa saber, qual é a técnica que ele deve vender, usar para vender? Claro que o balconista de ferragens a venda é muito pouco técnica, o sujeito que vai numa loja de ferragens pra comprar um parafuso não vai ficar lá escolhendo entre o parafuso e um prego, vai comprar o parafuso, enquanto o balconista de calçados já é um pouco diferente, o balconista de tecidos muito mais diferente ainda, porque há uma série de dificuldades de fazer... Cada cliente e cada comprador tem... Ele é susceptível, digamos, de um processo de convencimento, de aconselhamento do balconista, enquanto que o balconista de ferragens não. Então isso é tipificado, tentava-se fazer isso. Havia, por exemplo, no SENAC, uma coleção de slides sobre calçados de toda a história. Tinha calçados de 1400, 1500, era uma coisa interessante, que o professor tinha reunido esse material através de fotografias compradas ou adquiridas, ou arrumadas em museus, tem museus de calçados, né? Então a origem do curso era, digamos assim, sugestões que eram denunciadas e apresentadas pelos empresários sobre as possíveis deficiências que depois o SENAC fazia um tratamento adequado, um levantamento de informações, pra depois montar o curso, inclusive saber qual é o conteúdo do curso. Você não vai fazer um curso de balconista de calçados e dar pra ele aulas de filosofia. Então o que é que ele precisava aprender, ou o que ele precisava melhorar além da linguagem de venda, que é a técnica de venda em última análise?

 

P/1 - Professor, o senhor ficou no SENAC até quando?

 

R - Bom, eu entrei no SENAC, como eu disse, no dia 3 de março de 1947, fiquei no SENAC efetivo, exerci durante... Fiquei vinculado até 1979 vinculado, mas durante esse período eu tive alguns momentos que eu fui cedido. Uma vez eu fui pra OIT [Organização Internacional do Trabalho] pra fazer um curso, fiquei lá seis meses, em Turim, no Centro de Turim, no Centro de Aprimoramento Profissional de Turim, pra fazer curso de dirigente de entidades de formação profissional; outra vez fiquei em Brasília cinco anos no governo Geisel, servindo ao Ministério do Trabalho, continuando ainda vinculado ao SENAC. Acabei me desvinculando em junho, parece, de 1979.

 

P/1 - Certo. E o senhor trabalhou um tempo fazendo alguma coisa para a Federação do Comércio?

 

R - Sim, durante dois anos, esse foi outro período que eu fiquei, digamos, trabalhando de uma maneira geral pro SENAC, mas fora do SENAC. Foi quando eu fui para a Federação do Comércio, durante dois anos eu fiquei como Diretor Geral da casa, na época em que foi Presidente David Portes Monteiro.

 

P/1 - E o trabalho do senhor nessa época consistia em quê?

 

R - Bom, a Federação do Comércio tem um procedimento que no fundo no fundo é analisar as medidas governamentais em relação ao comércio e produzir sugestões para o governo, sabe? Depende muito do governo, tem governo que pede sugestões para a Federação do Comércio, tem governo que ao contrário não quer sugestões da Federação do Comércio. Porém a Federação do Comércio tinha dois corpos muito importantes, tinha o corpo jurídico e o corpo de economistas que faziam, produziam trabalhos e sugestões. Qual é a função do Diretor? Além da parte administrativa, quer dizer, controlar o setor de pessoal, setor de material, ele dava apoio às plenárias, porque as plenárias da Federação era todas as segundas-feiras, então havia um apoio necessário, serviço de taquigrafia, serviço de som, serviço de coisa... Ele não fazia, evidentemente, não era taquígrafo, mas ele organizava esse serviço, estabelecia então o apoio logístico da casa além de toda a correspondência da Federação, porque o presidente não tem tempo de chegar lá e redigir carta, então o Diretor Geral redigia as cartas, os ofícios, e superintendia, ou melhor dizer, cobrava os serviços do Departamento de Economia, do Departamento Jurídico, dava esse apoio à secretaria do presidente, que era uma secretária... Tinha às vezes que ser orientada para ver o que ele desejava. E acima de tudo atender o presidente quando ele estivesse na casa. O presidente chegava lá, o Diretor Geral tinha que ficar a disposição dele e ele dizia: "Olha, veja lá no Departamento Jurídico, eu preciso disso, daquilo, eu vou reunir agora com o governador, o que é que eu vou falar com o governador." Aquelas coisas todas. Ele faria parte, a executiva, não era a parte de plenária, lá no plenário é outra coisa, o Diretor da Federação vai lá para discutir, xingar o governo e combater as medidas fiscais, esse é outro problema, mas como resultado da reunião o Diretor Geral é que tinha que dar a execução.

 

P/1 - Certo. Professor, infelizmente a gente está acabando a entrevista, eu queria perguntar pro senhor: o que o senhor achou de ter passado essa hora aqui com a gente, deixando registrada a sua vida, a sua experiência profissional?

 

R - Olha, foi muito agradável, porque a gente lembrou muita coisa do passado, um passado que para mim já é distante, não é mesmo? Um pouco de saudade desperta também, porque afinal fiquei 30 e tantos anos naquela casa, fui senaqueano de quatro costados, e encontrar aqui em vocês um clima de registro dessas coisas é extremamente agradável. A gente tem a impressão que está sendo útil para alguma coisa, e a parte pessoal, vocês são extremamente simpáticos, não posso... Só tenho a agradecer os entrevistadores, não só deste momento, como anteriormente, o responsável pela casa, eu só tenho a agradecer, eu acho que vocês foram extremamente atenciosos comigo. Agora, sobre o ponto de vista pessoal, é uma alegria a gente poder reviver o passado e contar coisas, porque o SENAC nasceu na mão da gente. O SENAC não era nada quando eu entrei no SENAC, tinha 17 funcionários, eu fui um dos 17 que entraram. Do grupo que entrou provavelmente eu sou, da época, o remanescente, eu acho que os outros já estão no outro mundo. Então eu acho que é uma oportunidade excelente que o SENAC está dando, mais uma, da gente ter esse momento de alegria. Eu só tenho a agradecer esse apoio de vocês e a maneira com que vocês conduziram o trabalho, me deixando aí inteiramente à vontade, e, por que não dizer, sacando, né, os conceitos, as ideias, as recordações que a gente guarda.

 

P/1 - A gente agradece.

 

P/2 - Muito obrigado.

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