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História

Mercado do Zico

História de: Gilson do Rego (Zico)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/08/2016

Sinopse

Gilson do Rêgo, mais conhecido como seu Zico, conta como era o bairro de São Pedro de sua infância, com muita fartura vinda da terra. Zico desde pequeno começou a rabalhar como comerciante no armazém de seu padrinho, seu Santinho, figura bastante emblemática da região que era curandeiro, barbeiro... Seu Zico conta que passou um tempo em Santos mas logo resolveu voltar para a Ilhabela e retomar suas atividades no armazém que com o passar do tempo virou um mercadinho e agora um mercado. Zico conta como é a vida no comércio e quais foram as mudanças tanto ao redor do agora Mercado do Zico como na própria disposição interna de lá – o que incluiu agora até padaria e açougue, coisas que no início, apenas co geladeira a diesel era impensável!

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História completa

Gilson do Rêgo, bairro São Pedro, nove de fevereiro de 1956. [Mais conhecido como] Zico porque era muito piruleta quando era moleque.

Minha casa de infância era de pau a pique, tinha daquelas telhas grandes que a minha vó falava que os escravos faziam na coxa, o molde das telhas de barro era… Tinha um molde que fazia nas coxas, assim, punha o molde e fazia nas coxas. E casinha de barro, humilde e telhado. Tinha dois quartos, sala, cozinha, banheiro, chão batido, a sala era mais sofisticada que era assoalho. Tinha uma casa de farinha, também, farinha de mandioca, tinha forno à roda, coxo, e os tipiti, né, enfim, a prensa para prensar a farinha de mandioca, fazer a farinha de mandioca. Tinha a roca, tinha milho, a gente ralava, fazia o cuscuz, fazia polenta, plantava feijão também, tinha feijão. Meu pai tinha uma criação de porcos, também, chegou a ter 35 porcos assim. Galinha, tinha galinha também no sitio, era farta a infância. E eu ajudava ralando a mandioca, embrulhava o milho pras galinhas, pra criação que tinha, ralava o milho, limpava as mandioca pra ralar, minha vó ralava na roda pra fazer a farinha de mandioca.

O fundador [do mercado] foi o irmão da minha vó, né? Aí, ele faleceu, ficou para o meu pai de criação, seu Santinho. O seu Santinho era enfermeiro aqui, era barbeiro, entendeu? Ele fazia os remédios, pessoa tinha muito problema desses borrachudos, fazia umas feridas do borrachudo, ele fazia umas pomada e curava os borrachudos, dava injeção no pessoal, entendeu? E depois, eu assumi o comércio.

os produtos vinham de barco, de Santos, querosene, sabão e sal. Sal pra quê? Sal pra salgar o peixe e fazer o tempero. Sabão usar pra lavar a roupa, né, e o querosene para iluminação, para as lamparinas. Era os três básicos que vendia no armazém. E fumo de rolo. Tinha que ter o fumo de rolo pro pessoal fumar. Vinha tudo de barco, do porto, a gente carregava tudo até aqui. as costas (risos). Nós subíamos já quase morrendo, sem nada, né? Imagine com uma lata de querosene de 20 quilos? Um saco de sal de 30 quilos? Tudo aqui.

A lembrança é o seguinte, pra mim pesar o sal, o açúcar, era uma folha de papel, assim, não tinha os saquinhos de papel. A gente tinha duas bandejas, duas balanças, a gente punha o peso aqui e tinha que ficar de ponta de pé pra poder colocar o produto em cima da bandeja pra embrulhar. Só que o meu padrinho, ele embrulhava com a direita e eu aprendi a embrulhar com a esquerda, mais difícil. Eu lembro muito isso. Tinha muito peixe também, tinha cerco aqui embaixo, tinha uma balança, ele era sócio de um outro senhor, outro caiçara, tinha muito peixe, muito! Anchova, tudo peixe de qualidade, anchova, cação, cavala, sabe, só peixe nobre.

era peixe fresco. Aí, tinha que ter o sal… a gente comprava saco de sal de 30 quilos pra salgar, para fazer aquele tipo da tainha seca. Porque o pessoal não tinha geladeira, né? Comia peixe fresco e deixava pra amanhã , aí amanhã  já tinha que salgar pra poder manter o peixe, armazenar, porque quando viesse a chuva mais brava, tinha produto, tinha alimento, para se manter.

fiquei cinco anos, seis anos em Santos. Eu voltei porque os filhos deles foram para São Sebastiao estudar, né, e eu voltei para ajudar eles no armazém. Comecei com nove. Aos 12, fui para Santos, aí com 17, voltei.

[Quando voltei] já vinham os produtos, alimentos no caminhão, né? Os atacados que entregava, mas tinha que carregar, tinha que pagar o pessoal para trazer até aqui, saco de milho, saco de feijão, querosene, pinga, antes tinha os alambiques de pinga aqui na ilha, a gente pegava do alambique e já vendia pinga para o pessoal, mas depois, acabou os alambiques, aí vinha de fora, de São José [dos Campos] (SP).

Quando eu peguei o armazém, tinha seis caixas de cerveja vazias. Tinha uma barrica de sal (risos), barrica daquelas de colocar o sal. Que mais? Tinha uma geladeira a querosene, não era nem luz elétrica, era à querosene. Que mais que eu tinha? O estoque era mínimo. O tempo que eu trabalhei de funcionário, cobria o estoque, entendeu? Fizemos um acordo, eu e o meu padrinho. Aí, eu pagava aluguel, paguei dez anos de aluguel. Aí, pus Mercado Zico, entendeu? Aí, a estrutura é outra, né? Tem 25 freezers, câmara frigorifica, tem todos os cortadores de friso, antes não tinha nada. você vai com o decorrer do tempo, com a evolução da Ilhabela, você tem que acompanhar, né, a evolução, você tem que ir aperfeiçoando, para não ficar pra trás dos outros comércios, né? Então você vai evoluindo. A padaria fez sucesso. A parte do açougue também, entendeu?

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