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História

Mercadão: o lugar do meu carinho

História de: Janete Gomes de Sá
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/10/2016

Sinopse

Janete nos conta acerca de sua infância em Ferraz de Vasconcelos, o dia a dia com sua madrasta, as dificuldades de sua família e sua mudança para a Avenida Senador Queirós. Em seguida, fala de sua adaptação com São Paulo e a primeira vez que entrou no Mercado Municipal. Janete começaria a trabalhar antes dos 18 como vendedora no local, sob indicação de uma amiga. A partir daqui, comenta sobre a mudança tecnológica e social do comércio, sobre a sua relação com os clientes e de como conheceu seu marido e o trouxe para trabalhar em outra banca do Mercadão. Por fim, fala da morte de seu marido, de como é ter seu filho trabalhando com ela e sobre seus sonhos para o futuro.

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História completa

A primeira vez que eu vim no Mercadão foi tão engraçado. Tinha uma vizinha que morava em um dos quartos no cortiço onde eu morava na Senador Queirós, e a filha dela chamava Magda e ela já estava trabalhando no Mercado. E no Mercado era outro horário, você entrava quatro horas da manhã e saía às seis da tarde, não era como agora, mudou muita coisa, hora de almoço, agora você tem hora de almoço, tem tudo, é diferente, não era assim. Você entrava três e meia, quatro horas da manhã e saía seis horas da tarde. E almoçava lá mesmo, almoçava e já ia trabalhar, não tinha aquelas coisas. Aí ela tinha começado a trabalhar lá. E passando no Mercado eu vi: “Ah, queria tanto trabalhar aí só para eu comer essa mortadela!” (risos). Aí andamos por ali, vi, tal, tudo. Ela falou: ‘Você não quer trabalhar?”, era na hora do almoço dela: “Você não quer trabalhar aqui comigo? Eu falo com o patrão”. Eu falei: “Ah, eu quero”. Aí ela falou: “Ele não está aí agora, mas depois eu falo pra ele”. Eu: “Tá bom”, aí eu vim embora, ela voltou lá pra dentro e ela falou mesmo pra ele, para eu trabalhar lá.

 

E eu tinha acabado de sair de uma padaria e o que dava pra comprar acho que era pra seis, porque tinha os filhos da minha madrasta, eu, meu pai e a mulher. Aí acho que tinha uns dez pães, um saco assim grande e um pacote de margarina, aquelas Claybom, era o que dava pra comprar.

 

Eu lembro que eu fui com ela, ali tinha três boxes de fatiados e os fatiados ficavam tudo expostos, só um vidro tampando na frente. Aí tinha uma mortadela, aquela mortadela com aquela fatia bem grande. Eu olhei praquela mortadela e falei: “Meu Deus, olha que delícia!Lá no Mercado. Aí eu fui lá pra falar com ele pra trabalhar. Ele perguntou se eu já tinha trabalhado, se eu sabia. Eu falei que não, mas que eu aprendia, que eu tentaria aprender, que eu tinha vontade. Ele falou: “Então vamos fazer uma experiência”. Eu lembro que eu fiquei lá, tudo. Meu primeiro salário foi 60, não sei o quê, 60 cruzeiros, cruzados, não lembro. Aí o meu segundo salário foi 130. Nossa, eu fiquei maravilhada, era muito dinheiro. Eu não sei assim quanto significaria hoje, mas era muito dinheiro. Assim que eu comecei a trabalhar (risos). Ah... o primeiro salário eu lembro, tinha que dar em casa, né? Mas eu comprei uma coisa pra mim. Eu comprei um relógio, que o meu sonho era ter um relógio, sabe? Um relógio que era quadradinho, que tinha uma esteirinha. E também comer umas coisas que eu tinha vontade. Eu tinha vontade comer maçã, uma coisa ou outra também que eu olho hoje e falo: “Meu Deus do céu”. Goiabada e queijo eu tinha vontade de comer (risos). Bolacha recheada. Sabe, eu fui comprando e comendo todas essas coisas que eu tinha vontade que até então não podia. Eu lembro que na escola eu olhava as crianças comerem aqueles lanches, aquelas coisas, mas não tinha (risos). Gastei em comida praticamente. Porque antes era uma coisa muito assim, uma pessoa rica era que comia uma maçã, comia um bife, que tomava um Guaraná, uma Coca-Cola, que ninguém, eram outros tempos.

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