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Menino Luiz Gomes: 32 dias com Lampião e seu bando

História de: Luiz Gomes
Autor: Rita Prando
Publicado em: 27/11/2019

Sinopse

Relato da experiência de Seu Luiz Gomes que, aos 7 anos de idade, conviveu por mais de um mês com Lampião e seu bando, os quais ficaram morando na propriedade de seu pai um ano antes de sua captura.

Autor: Rita Prando

Data da Entrevista: 26 de janeiro de 2014

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História completa

Eu tenho 82 anos, sou de Pernambuco, fui registrado em Flores vizinho de Serra Talhada. Onde nasci, naquela ocasião, não tinha cartório era apenas um povoado, Flores era cidade, já tinha registro para registrar quem nascia. Nasci num povoado, num sítio chamado sitio Olho de água. Lá tinha um cacimbão de água e mesmo com essa seca que dá nunca esvaziava. Sempre tinha água. A água vinha do pé da serra. O pé da serra foi territorial de Manuel Virgulino da Silva, lampião é Manuel Virgulino da Silva, é o nome dele. E tem o Francisco Virgulino da Silva era o laçador irmão dele, laçava as moças, as mulheres, quando ele cismava de alguma: “Pega aquela lá para ir com a gente.” Lá em casa eram 18 filhos: 9 mulheres e 9 homens. Tinha irmã moça com 20 e poucos anos. O velho pai, um homem muito forte. Aquele sertão velho lá... Mas muita fartura que a gente tinha. Vivia todo mundo dentro de casa. Tinha gado, era bode, era ovelha, era criação... Ele falava assim: (tratava Lampião de Virgulino). “Ô Virgulino, (tratava Lampião de Virgulino) o que precisar taí viu? Mas deixe eu e a minha família em paz”, ele falava. Eu tinha 7 anos. Criança é o cão... 7 anos eu tô lembrado da estrutura, eu tô vendo a estrutura do cara, ele era bem mais alto que eu, franzinão assim... Mas homem forte, um cara forte mas magro assim, comia bem porque ele carregava naqueles caixotes de couro: carne de sol, carne seca, rapadura, beju, tapioca... Tudo lá em casa a gente fazia. Lá era um sítio, nós plantávamos de tudo: milho, feijão, mandioca, cana, fruta de todos os tipos. Lá o pessoal dele tirava cacho de coco. Ele ficava na casa de farinha. A casa de farinha tinha uns 3 quartos e ali ficava todo mundo, dormia um por cima do outro, sabe como é? Na época eu lembro eram 4 mulheres, Maria Bonita e mais 3 que andavam na turma. Maria Bonita era uma moça morena bonita da tua altura Rita. Eu lembro aquele cabelo comprido igual ou mais que de Mona [mostrando sua filha]. As minhas irmãs, eu era moleque, ficavam sempre olhando, ninguém foi mais na roça, as minhas irmãs iam para a roça, e os irmãos mais velhos – já morreram todos - meu velho pai... Não ia mais ninguém para a roça, ficavam só dentro de casa com medo de sair do lado de fora. Minha mãe Dona Rosa Maria da Conceição – a minha mãe – faleceu com 59 anos, problema na “máquina”. Ela vivia na máquina costurando, aquelas roupas grossas dos homens da roça e ela parou de fazer... Estava acertando as roupas do Lampião e do pessoal, costurando, as roupas de couro... Tudo aquele negócio todo, arrumando as roupas, ele pedia para fazer tinha que fazer, né? Ele [o pai] fazia por medo. Meu pai foi um homem forte morreu com 93 anos, homem forte fazia isso com medo. Ele [o Lampião] queria, meu pai dizia, olha: “O que você precisar...” O chalezão, com 18 pessoas, tudo... A Rosinha, a Nega: minhas irmãs eram pequenininha de 2, 3 anos. A tia Belinha era uma moça bonita de 19 - 20 anos, tinham que tomar cuidado (para que o bando não as levasse).

RITA: Seu pai não confiava na palavra de Lampião, mesmo fazendo tudo isso por ele e pelo bando?

LUIZ: Por tudo que acontecia com ele, não dava para confiar, não dava. Ficou 32 dias lá, no sítio da gente. A gente ficava mais trancado, eu às vezes jogava uma peteca no terreiro... Sabe o que é terreiro? Mas ficava sempre de olho pra lá... Se vinha o comando pra cá, era uns 4-5 que vinha, não era negócio de um só, quando ele vinha, vinha um bocado deles atrás acompanhando. Aquele chapéu grande assim de couro todo cheio de prata, prata e ouro gravado. O cinto era dessa largura [cerca de 7 dedos de largura] de couro! Era assim um troço assim. Todo cheio de cordão, não sei como ele aguentavam todos aqueles cordões de ouro... 4-5 cordão de ouro. A minha mãe, ela tinha um apelido de Loló. Ele chegava, a minha mãe na máquina, ela até parava com medo, ele chegava e abraçava minha mãe por trás – Olha a cabeça do cidadão aqui [Seu Luiz mostrando o modo como ele estava abraçando]: Lampião: “Dona Loló, dona Loló...Tá arrumando as roupas ai pra nós, eu preciso ir embora pra nós desocupar aqui, né?” Ninguém falava nada, ninguém falava que sim nem não... Quando foi embora deu um par de brincos para ela, ainda hoje existe na orelha de uma irmã minha, que tem 92 anos. Esse comprimento assim ó, pendurado na orelha [cerca de 4 dedos de comprimento] ouro puro! Aquilo vale uma fortuna! Deve valer mais de... Olha 2 mil... No ano 2000 fui lá na cidade, lá no sítio, tudo...

R: Como eles chegaram lá? Eram convidados? Por que escolheram aquele lugar?

L: Não, ninguém chamava, PelamordeDeus. Eles escolheram nosso sítio porque viram o pátio bonito... Casarão grande... Muita gente, viram que tinha muitas vacas de leite... Aqueles touros bonitos... Criação de toda classe... Achou que ali era o lugar de se esconder um pouco, porque a serra tá perto... Ele estava meio cismado, porque a turma estava na captura. Ficou lá 32 dias. Ficavam na casa de Farinha. 32 [integrantes]. Bicho ruim! Ele estava escondido, falava com meu pai. Entraram lá nas capoeiras, matagal, com o caminhão deles, esconderam com tudo lá. Eles usavam mais este tipo de calçado [mostrou sua sandália de couro] sapato era meio difícil. Chamavam Percata é, olha o que eles faziam. Aqui tá indo para a frente né? [mostrando a sandália] lá tem mais um areiado, né? Terra com areia, sabe o que eles faziam? [Seu Luiz inverteu a sandália com o calcanhar para a frente e enfiou o pé?] O calçado que era o contrário, ia pra lá: estavam vindo pra cá, ao contrário. Alguém ficava em procura: não achava. O homem tem uma experiência danada. Eu com 7 anos eu lembro...Aquele negócio... Meu pai falava assim: “Se você precisa matar um boi, pode matar aí.” Lampião: “Eu prefiro carneiro e bode”. Aqui eles chamam cabrito, né? Aquela roupa escura... Tudo. Dificilmente você via a cabeça dele, assim o cabelo, sempre estava com aquilo lá (o chapéu), calor quase 40 graus... Com nós não falavam porque a gente se escondia... Era mais com meu pai e com a mãe. Meu pai que sempre apresentava assim, ficava com ele assim [de pé com os braços cruzados no peito]. Meu pai é forte. Na saída ele ganhou de presente um rifle – um fuzil - um bornéu, cheio de cartucho deste tamanho. Abraçou o velho pai, falou assim que ali foi o lugar que mais gostou. Saiu de lá uma noite sem ninguém esperar... E... Troçado no caminhão... Pegou a estrada...

R: Eles tinham um caminhão?

L: Caminhão. Nada de cavalo era caminhão, estavam de caminhão. Lá em cima tinha aquele estrado lá... E tocou lá para a região do centro lá do Piauí, Sergipe, e lá acabaram com ele. Eu tinha 7 e depois de 1 ano aconteceu o caso. Foi o ano de 38. Eu nasci no ano de 32... No começo: março... E ele foi embora no ano de 38. Acabaram com ele, mataram. Por ordem de quem? Desse cidadão aqui: Getúlio Vargas [mostra a imagem dele num livro]. Getúlio Vargas mandou a ordem para o nordeste, e aí à Recife, o governo de lá, ele como presidente, ajuntou o exército e matou todos que estavam com ele. Alguns ficaram presos e já morreram todos. Nós ficamos sabendo porque tinha rádio, a pilha, rádio a bateria, a gente pegava a notícia das cidades e espalhava para aquele sítio. Nós passamos um momento difícil, no fim estava até acostumando com o que é ruim, né? Nossa porque o homem deu um prejuízo tremendo. Era tapioca, beju, farinha, os caixotes cheios de farinha... E Maria Bonita com as outras mulheres fazia – porque lá tinha tudo de fazer as coisas – e a minha mãe ainda fazia: queijo, manteiga, queijo-manteiga - aquela coalhada de um dia pra outro – 2 dias – peça assim. Meus irmãos mais velhos levavam lá e entregavam ou eles vinham buscar. Minha mãe fazia queijo de coalho de monte até vendia, depois parou de vender porque estava dando tudo pro pessoal (bando do Lampião). Eles cozinhavam lá, mais a gente dava muita coisa. Matavam bode, matavam carneiro... E o laçador, o irmão, o Francisco, esse com corda de couro, jogava o laço... Tinha alguma mulher que cismava... Laçava. Mas as mulheres corriam muito naquele mato, capoeiraço se escondia coitada. Na Bahia diz aconteceu um caso, que... Laçou uma... Ou fugiu uma coisa assim...

SOBRE AS MULHERES CAPTURADAS PELO BANDO:

L: Elas tinham que enfrentar a vida... Se não morriam, né? Falavam: “Acompanha se não...” Até largava a família pra lá... Já tô no laço, eu vou rodar. Era muita gente viu? Tudo armado... Eu lembro que era arma pesada. E aquelas pequenas cidades que tinha policial, 2-3, mas não ia nem enfrentar esse pessoal se não eles se acabavam. Foi então que o presidente... Naquela época do ano de... Comunicou com o exército e pegaram ele no Piauí. Teresina, lá. Saiu um comentário que era o campeão o Lampião, todo mundo tinha medo, onde ele tinha bom apoio, ele ficava na dele, achava do gosto dele, mas quando ele encontrava algumas coisas desagradáveis, ele matava, enforcava, enterrava vivo. É foi terrível.

R: Ele já conversou com o senhor?

L: Brincava, a gente corria se escondia entrava pros quarto, fechava as portas. Era molecote. As minhas irmãs, eram moça, se escondiam e trancava as porta. Ai meu pai falava: “Entra lá para dentro, se esconde, não saia do quarto”. Não puxavam assunto, eram tudo mau encarado, não tinha papo nenhum.

R: Lampião era diferente?

L: Conversava mais com meu pai. E... Abraçava a mãe e meu pai ficava... (dê olho, com raiva de lampião). Mulher bonita... Costurando lá... Chamava Loló. Abraçava ela assim, sentada assim, ela ficava ali, ó. Até tremia. Dura.

R: Como era o humor dele?

L: Terrível! Às vezes só o modo de ele se apresentar você murchava, vamos dizer como uma erva que murcha... E aquele comentário que tinha mundial, principalmente norte e nordeste. Sul. Ele andava muito naquela região de Pernambuco, depois que foi pro agreste, lá para Sergipe, Piauí, então... Serra Talhada, onde era o sítio do pai dele. Seu Virgulino, pai dele, foi morto, mataram ele. Então ele ficou tão bravo com... a falta do pai que mataram que então ele virou a cabeça e ficou daquele jeito...

R: Quem matou o pai dele?

L: O pai dele eu não sei, não sei se foram alguns vizinhos, as gente do territorial de lá mesmo. Eu vi um assunto que foi devido às terras, territorial, né? Foi fuzilaria, então ele: chi!!! [Seu Luiz querendo dizer que foi virar bandido].

R: Como foi o momento em que eles chegaram no sítio de vocês?

L: Avisaram meu pai, aquele comentário, era gente se escondendo dentro do mato... Era um corre, corre, se escondia. Falavam assim: Lampião – era tudo conhecido como lampião – se informou e está procurando aqui no pé da serra, olho d’água, onde tem o cacimbão, diz que tem fartura, e é isso que ele tá querendo. Tinha fartura mesmo, na época tinha muita coisa: fruta, canavial, nós tínhamos até engenho, engenho de quebrar, fazer rapadura. Rapadura ele levou não sei quantos caixote cheio... Saco de farinha... Meu pai falava: “Tudo bem.” Deixou em paz. Ele [Lampião] falava assim: “Seu José Gomes pode deixar, que nós vamos deixar você em paz. Pode confiar.” Então... Meu pai contava a história pra gente assim... Uma coisa terrível. Ele era assim uma cor morena que nem nós [mulatos]. Os dentes eram tudo amarelo de ouro... Como fazia antigamente, na Década de 30... Década de 40... Botava ouro... tudo era ouro... O homem carregava uma fortuna de ouro... Ele roubava de alguém... Tinha algum ele levava mesmo... Tinha umas passagens muito... Muito severo, né? Porque com aquele pessoal acompanhando, ele e o pessoal, tinham medo davam tudo gente... Pra ficar com a vida. Lá no sítio tinha nossas criação de animais: ovelha, carneiro, bezerro... O pé da serra perto, então tinha onça. Onça é fogo. Um casal. Chegava à noite, a onça sai a noite pra comer, pra matar alguma coisa e de manhã cedo tomar uma água. Eles vinham toda noite, o curral tinha as ovelhas e as cabras... Pegava, sangrava e puxava lá para a pedra da onça. Pra lá que ela levava. E o Lampião, meu pai conta a história assim, que o Lampião falou: “Ô seu José Gomes pode deixar que essas onças nós vamos matar.” E matou as duas onças. Eles ficaram de bico, a madrugada a noite inteira, armas pesadas e mataram. Eles comeram até a carne da onça e levaram os couros. Com o tempo sabe o que eles descobriram? A pedra da onça ficou a furna do Lampião. Eles ficavam lá escondidos. Hoje eles fizeram um letreiro vermelho – eu não vou saber te falar as palavras - eles escreveu lá aquelas letras com tinta vermelha, até hoje tá, viu? Tem 68 anos. Não lembro o que escreveram... Tá as letra lá, umas letras bonitas... A furna do Lampião - é a pedra da onça ficava pertinho do nosso terreno, de nossa casa.

R: Vocês ficavam espiando eles pela janela?

L: Olhava... Via que eles iam para o chalé da gente, parecia... Esses ratinho que se esconde. No cacimbão lá embaixo eles iam de bermuda tomava banho lá, calor de 40 graus... Mais do que aqui. Sou daquele sertão da região do Pajeú, terra do angú, terra do bejú. E a terra do mandacaru... A terra do andum.

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Aos 18 anos Seu Luiz Gomes veio de pau-de-arara para São Paulo, levou 11 dias, chegou no Brás e no mesmo dia já começou a trabalhar. Mas aí já é outra história...

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