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História

Memórias gravadas em fitas

História de: Donato Carlos Martins Miranda
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Donato se mudou para Xambioá com apenas 5 anos de idade. Pode acompanhar as diferentes fases da cidade, desde o garimpo, a chegada da indústria madeireira, os grandes fazendeiros e a indústria Votorantim. Donato descreve nessa entrevista, detalhes da extração de mogno e do transporte da madeira para exportação via fluvial.

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História completa

P/1 – Nós vamos começar, o senhor pode falar o nome completo para ficar gravado?

 

R – Donato Carlos Martins Miranda.

 

P/1 – Que data o senhor nasceu?

 

R – Dia 17 de fevereiro de 1948, na cidade de Taguatinga, hoje, Tocantins.

 

P/1 – O senhor tem alguma lembrança do seu pai, da sua mãe?

 

R – Poucas lembranças do meu pai, da minha mãe, eu tive mais porque convivemos, eu convivi mais com ela, meu pai, aos cinco anos de idade, nos deixou, quando nós chegamos aqui em Xambioá.

 

P/1 – Ele veio pra cá com a família?

 

R – Veio antes. Meu pai era piloto de barco, viajava no rio e quando nós chegamos aqui, 1953. Viemos de barco, motor grande, motor de 60 toneladas, chegando aqui no dia 22 de fevereiro de 1953, não tinha nada aqui, poucas casas, onde nós fomos morar num barracão de um conhecido nosso lá da nossa cidade, que era barracão de garimpeiro, nós ficamos alojados lá por uns dias. Aí, conseguimos arrumar, foi arrumando, localizando o local, fizemos uma casa, ficamos morando aqui até hoje.

 

P/1 – Seu Donato, mas o seu pai trouxe você?

 

R – Não, nós viemos já separado dele.

 

P/2 – Que lembranças você tem dele?

 

R – Poucas lembranças. Tinha vontade de conhecer o pai, fui criado por mãe e tia, minha família era quatro mulheres, minha mãe e três filhas e do meu pai, pouca lembrança eu tive.

 

P/1 – Você é filho único dele?

 

R – Sou.

 

P/1 – Da sua mãe também?

 

R – Da família Miranda, fui o primeiro, só depois, mais dois…

 

P/1 – Aí, esses dois irmãos são…

 

R – Não, primos. São primos. Família teve um filho cada uma.

 

P/2 – E sua mãe, seu Donato, a lembrança assim marcante, forte que você tem dela?

 

R – A minha mãe, a lembrança que eu tenho dela era uma mulher assim, trabalhadora, vivia lavando roupa, engomando para garimpeiro, faisqueiro para me sustentar. E eu, aos oito, nove anos de idade, eu comecei a trabalhar, engraxar sapatos, tirar lascas de cristal, descarregar motor quando vinham uns motor grande na época de cheia, vinha carregado de querosene, gasolina, que era tudo em lata, saco de sal de 20 quilos, então, enfrentava os meninos para descarregar esse motor. A gente juntava uma turma de meninos, eles gostavam porque era rápido que descarregava, eram vários meninos, descarregava rapidamente o motor. Só que quando era de noite, a gente tava com as costas que não aguentava, gasolina levava, querosene, depois o sal, de noite, a gente tava com as costas… mas era um divertimento, na proporção de arrumar um trocado.

 

P/1 – Feria as costas, seu Donato?

 

R – Chegava a ferir.

 

P/1 – Porque vazava, né?

 

R – É, vazava gasolina, querosene…

 

P/1 – E a sua mãe com você, como era assim, você lembra dela como com você, assim, o tratamento.

 

R – Muito rígida, não tinha folga assim, de brincar, tava brincando de rua, sempre reclamava por causa de rua, eu gostava muito de rua, sempre ela dava chicotada quando eu tava na rua, sempre foi muito cuidadosa comigo, inclusive, minha mãe, minha tia, uma tia que foi a minha mãe de criação também, depois dela, inclusive foi quem criou os meus filhos…

 

P/1 – Sua tia?

 

R – A minha tia. Morreu agora no dia 18 de fevereiro.

 

P/1 – Qual o nome dela?

 

R – Alaide Alvez Miranda.

 

P/1 – E o nome da sua mãe?

 

R – Inês Azevedo Miranda.

 

P/1 – E do seu pai?

 

R – Antônio Martins Jorge.

 

P/1 – Você tava dizendo que elas eram rígidas, né, e que a sua tia que te criou depois da sua mãe?

 

R – Foi, depois de uma certa idade, uns 17 anos, mais ou menos, eu passei a morar com minha tia, mas convivia também junto, que era pertinho, eu passei lá para casa de minha tia, mas as casas vizinhas. Tava junto uma com a outra.

 

P/1 – Por quê que você mudou para a casa da sua tia?

 

R – Não sei nem porque, mais afinidade assim, que tinha com a tia.

 

P/3 – A infância, seu Donato, a sua infância, o que você poderia dizer, como que você poderia representar a sua infância?

 

R – Minha infância foi muito… não foi sofrida, porque como pobre, filho de pobre, eu era um dos caras mais assim, trajava bem, minha tia fazia tudo junto com a minha mãe para eu andar bem trajadinho. Ninguém quase tinha bicicleta, eu possui a primeira bicicleta aqui, uma das primeiras bicicletas fui eu que ganhei da minha tia, então, eu era um elemento bem tratado, assim, aparentemente como pobre, mas que era… elevado assim, diferente de outros filhos de certos ricos que tinha aqui.

 

P/2 – E as brincadeiras aqui, como é que eram?

 

R – Brincadeiras era brincadeira de São João na Roça, teve várias brincadeiras de São João na Roça, a gente participava, carnaval de criança, participei de carnaval de criança, programa de calouros que teve, às vezes, uns programa de calouros que teve na minha época, eu participava de programas de calouros.

 

P/1 – Como era esse programa de calouros?

 

R – Eram crianças que iam cantar, às vezes, dançar.

 

P/1 – E você cantava?

 

R – Geralmente, exercitar, cantar.

 

P/1 – E ia bem? Se saía bem?

 

R – Geralmente, se saía, ganhava um premiozinho das lojas, um sabonete, uma pasta, uma coisinha, outra (risos).

 

P/1 – E a bicicleta quando ganhou, como é que foi esse dia?

 

R – Foi emocionante.

 

P/1 – Fala um pouco, assim, descreve esse momento.

 

R – Quando minha tia… chegou um cidadão oferecendo, ela foi e propôs a comprar, quando ela comprou foi um motivo de alegria, já foi ficando que ficava, eu não esperei nem ela passar o dinheiro, já montei na bicicleta e sai, já sabia que era minha, né? E já sai dizendo: “Ganhei, é minha”, falava para os meninos: “Essa é minha”.

 

P/3 – Qual a cor da bicicleta, o senhor lembra?

 

R – Era vermelha. A marca Hercules.

 

P/1 – E você sabia andar, já?

 

R – Já. Já sabia andar.

 

P/1 – Você tinha que idade, mais ou menos, você lembra?

 

R – Eu já tinha uns 14 anos.

 

P/2 – Tinha muito amigo?

 

R – Tinha. Muitos amigos de escola, outros que não era do colégio, mas de jogar bola, sempre eu tinha um condiçãozinha de comprar uma bola e quem tinha a bola sempre estava os outros ao redor. Não podia falar que você tava jogando ruim, porque senão: “Eu vou levar a bola” “Não, pode deixar ele aí, porque senão, ele carrega a bola”.

 

P/3 – E qual a sua primeira lembrança da escola?

 

R – Aos seis anos de idade, não, menos, seis, sete anos de idade, minha mãe me colocou numa escola particular. Eu fui, no primeiro dia, ela me levou, no segundo dia, a gente vestia primeiro chambre para dormir e eu levantei num entusiasmo para ir para a escola que ela nem viu a hora que eu levantei, levantei e fui de chambre para a escola. Quando ela veio e me procurou, correu, eu tava lá de chambre lá na escola (risos). Volta para a casa para tirar o chambre e volta de novo para a escola.

 

P/2 – Isso foi mais ou menos, quando, seu Donato?

 

R – Isso foi em 1954, 1955 mais ou menos, 1955, 1956.

 

P/3 – Já tinha o que de escola aqui na cidade?

 

R – Escola particular, aparecia o professor e já…

 

P/3 – Escola particular é… ah, entendi.

 

R – Aí, botava o menino lá na escola particular, tal.

 

P/1 – Fala um pouco como era.

 

R – Era um professor, aparecia uns professores, um elemento que hoje talvez tenha o primário, naquela época, fosse o primário. Então chegava aqui: “Vou abrir uma escola, quem é que quer botar os meninos na escola?”, aí vai botando, porque não tinha escola, então chegava e ia matriculando: “Tem uma escola tal e tal, no lugarzinho, professor fulano de tal”, colocava. Os meus professores foram em escola particular foram Seu João, não me lembro o nome dele, depois teve o Acledi, foi duas escolas particular, depois já fui para o colégio, o José Bonifácio, que eu estudei desde o primário lá no José Bonifácio. Comecei o ginásio, mas depois por motivo de serviço, trabalhava muito, ficava rodando no carro direto da prefeitura, fiquei… não passei por falta de frequência, aí eu desisti, disse que não ia mais não. O outro ano melhorou para mim demais a situação, que aí, acabou mais as viagens, aí eu também desisti, eu não fui mais. Mas o meu primário que eu fiz, eu considero ele melhor do que certos alunos do segundo grau, hoje. Eu pergunto coisas, às vezes, perguntas que fazem para alunos de segundo grau, eles não sabem e eu sei.

 

P/2 – Donato, por quê que você foi para a escola particular?

 

R – Na época, não tinha escola municipal, nem estadual, no existia, então, aparecia os professores, aparecia alguém, aí e dizia: “Vou formar uma escola”, os pais pegavam, matriculavam os alunos e lá faziam uma escola, às vezes, na casa de pessoas, mesmo, em residências que tinha um salão, aí ajeitava aquele salão, cada um levava sua cadeirinha, sentava lá e tal… era muito precário.

 

P/1 – E quando apareceu a escola? Você lembra se disseram que iam montar a escola, como foi, na cidade?

 

R – Foi quando montaram o colégio, aí também só tinha esse, foi a cidade em peso, os alunos todos foram matriculados, foram para lá, que era o Colégio José Bonifácio. Era três salas de aula, depois eles foram aumentando, fizeram mais duas, construíram mais duas salas, foram cinco salas. Hoje é um grande colégio. São mais… eu não sei quantas salas são, mas são muitas salas de aula.

 

P/3 – Você lembra mais ou menos que década, mais ou menos surgiu essa escola pública aqui?

 

R – Rapaz, ela foi adquirida… essas primeiras salas de aula foi adquiridas no mandato do subprefeito Sebastião Gomes, foi o primeiro prefeito nomeado, que aqui era distrito de Araguatins.

 

P/1 – Que lembranças você tem dessa escola agora, da José Bonifácio, como é que ela era? Assim, para você.

 

R – Era um prédio com um pátio muito grande, onde a gente brincava, os recreios eram do lado de fora, era no pátio, então eram quatro salas de aula e os alunos se divertiam do lado de fora, no intervalo do recreio, na frente do colégio.

 

P/1 – Teve algum professor que mais te marcou?

 

R – Vários professores, assim, porque eu tive professora Dona Bibiana, hoje vive em São Geraldo, Professora Zilda, vive em Araguaína, Professora Emília, acho que ela reside em São Paulo, depois, Dona Ione, reside aqui.

 

P/1 – Mas teve uma assim, que marcou mais você por algum motivo que você guarda uma lembrança, assim?

 

R – A professora Bibiana.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque ela era rígida, tinha um argumento e tinha… de tabuada, e o bolo comia, se não soubesse, adiante, aquele que respondesse, já lhe dava um bolo, e se passasse três, quatro, vinha correndo numa rodada de bolo em cada um.

 

P/2 – O que é o bolo, seu Donato?

 

R – Bolo era palmatoria. Uma palmada na mão. Então ali, era obrigado você aprender a tabuada, mesmo, você aprendia.

 

P/1 – Eu queria só perguntar para você, Donato, sobre essa época em que vocês chegaram aqui, você disse que o seu pai já tinha vindo antes e aí, quando vocês chegaram, você conheceu… você teve essa convivência com o seu pai, como foi essa chegada? Conta pra gente.

 

R – Nós chegamos aqui no dia 22 de fevereiro de 1953, eu com cinco anos de idade, nós chegamos aqui no porto de Xambioá, vindo de barco, motor grande, motor de 60 toneladas, vindo de Apinagés, que ficava na beira do Tocantins e lá era o ponto do encontro dos rios, do Rio Tocantins com o Rio Araguaia. Então, o barco… nós descemos de Itaguatins até Apinagés, ficamos esperando o barco que subia no Araguaia até aqui o porto do Chiqueirão, chamava Porto do Chiqueirão, mas o Porto do Chiqueirão era lá embaixo, como aqui ficou um ponto melhor, mais favorável, mudaram para cá, então aqui ficou o porto. Só tinha movimento de motor, quando vinha motor grande ou uns penta, motorzinho 12, que rodava também por aqui. Mas a maior parte da navegação era fluvial. Depois, começou… já tinha o garimpo da Chapada, começou a chegar Jipe. Aí, o movimento de Jipe transportando garimpeiros daqui a 12 quilômetros, onde era o garimpo. Era um movimento diário de garimpeiros para lá, para cá.

 

P/1 – O garimpo era onde?

 

R – Na Chapada, daqui a 12 quilômetros.

 

P/1 – Mas você quando chegou, você tem lembranças desse momento, chegando aqui nesse lugar?

 

R – Não lembro bem assim, rapidamente… eu tenho uma rara lembrança porque quando nós chegamos, encontramos umas pessoas de lá da nossa cidade que estava aqui. Então, nos acolheu, cederam lá pra gente colocar a mudança lá no barracão deles e nós ficamos lá por vários dias, vários tempos lá nesse barracão dele, era um barracão de alojamento de garimpeiros, mas que dava pra gente morar.

 

P/1 – Era muito perto do garimpo mesmo?

 

R – A 12 quilômetros. Hoje, a 12 quilômetros, naquela época, ninguém sabia quantas léguas dava, né, porque ninguém nem media. Hoje que a gente sabe que são 12 quilômetros. Daqui onde é implantado a fábrica de cimentos da Votorantim.

 

P/1 – Lá que era o garimpo?

 

R – É, lá que era o garimpo.

 

P/1 – Então, vocês não ficavam perto?

 

R – Não, nós ficávamos aqui.

 

P/2 – E o encontro da família com o pai que veio primeiro? O que marcou? Que lembranças você tem dessa recepção do seu pai com a família?

 

R – Quando nós chegamos, ele não estava aqui, ele estava viajando. Depois foi que ele apareceu, foi em casa três vezes e resolveu não ir mais.

 

P/1 – E a sua mãe resolveu vir para cá por quê?

 

R – O movimento daquele tempo de garimpo, falou: “Lá é bom, ganha dinheiro”, então nossa família resolveu, que era só mulher, eram quatro irmãs, meu avô e minha avó resolveram vir para cá.

 

P/1 – Você já tinha os seus primos, nessa época?

 

R – Nessa época, não. Não tinha. Só era eu. Ah, tinha uma prima. Tinha. Tinha uma prima.

 

P/1 – E aí, vocês ficaram nesse lugar e a sua mãe… conta um pouco mais como era esse trabalho da sua mãe com eles, né, com os garimpeiros.

 

R – Lavava roupa, engomava. Já minha tia fazia bolo e vendia bolo, café.

 

P/1 – Vocês saiam daqui para levar as coisas pra lá?

 

R – Não. Não. Ficava aqui mesmo e aqui era um ponto de chegada, era um ponto de apoio, quem chegava, chegava por aqui, só chegava, e chegava, ficava aqui e ia para a Chapada que era o garimpo. Quem tinha condição, pagava o jipe para ir, quem não tinha, ia de pé. Então, passavam tudo ali na porta da casa onde a gente morava, que nós morávamos ali quase ao lado da igreja, abaixo um pouquinho da igreja, um barracão que nós ficamos. Depois, minha tia comprou uma casa mais embaixo, ali, onde hoje é esquina com o Armazém Paraíba, conseguimos lá e ficamos toda a vida ali.

 

P/3 – Nessa época, quais foram as primeiras dificuldades que vocês enfrentaram depois que chegaram aqui e se estabeleceram?

 

R – Moradia, né, porque não tinha, tipo moradia, não tinha. Foi fazendo barraco, foram pagando para fazer um barraco, logo estava vendendo uma casa lá que nós tinha deixado, venderam lá e aí, foi como conseguiu comprar aqui, já uma casinha de taipa, era de taipa, barro, casa de barro e foi, cada uma comprou uma e ficaram cada uma tomando conta da sua vida, lavando roupa, a minha tia arrumou… logo quando surgiu o colégio, minha tia foi empregada como zeladora do colégio, só não morreu no colégio porque aposentou antes, morreu com 93 anos agora no dia 18 de fevereiro.

 

P/1 – Essa tia que você morou com ela?

 

R – Exato.

 

P/2 – Qual é a lembrança, Donato, que você tem da sua juventude aqui? Você chegou aos cinco anos de idade, né, aí foi… e a juventude sua aqui?

 

R – A minha juventude já quando uns 15, 16 anos pra frente já foi um… já era um cara mais esperto, já aos 18 anos, já fui trabalhar na prefeitura, comecei trabalhar na prefeitura, fui o primeiro secretário da junta de alistamento militar, então, minha juventude foi assim, entre trabalho e folga, porque já ganhava o meu dinheiro, já ajudava, já era independente, já ajudava a minha família, então eu sempre fui um cara extrovertido, bacana, gostava de andar arrumado, como ainda hoje (risos).

 

P/3 – E a cidade? O quê que a cidade proporcionava para a juventude, para a sua juventude, daquela época, da juventude?

 

R – Na época, só o cristal. Tirar lascas, lascas de cristal, são fragmentos de pedras maiores que você quebrava para vender. Você fazia isso arrumando pedaços de cristais onde tinha uma pedra grande que quebrava, você arrumava aquela para fazer pedaços menores e vender. Ou então, tinham os escritórios de fazer lascas de cristal. Então ali era a única opção que tinha era essa.

 

P/2 – E lazer, à noite?

 

R – À noite na época não tinha muito. Depois, foi que veio… já veio ter, depois de uns 18 anos, 17 anos, por aí que começou a ter o bar Quentão, depois tinha o bar Tabajara. Então, esses eram os pontos de diversão que tinha.

 

P/2 – Funcionava como? Eram só bares ou tinha festa?

 

R – Tinha o bar e tinha um salão de festa.

 

P/1 – Mas essa época você tinha que idade?

 

R – Uns 17 anos, 18, 19 anos.

 

P/1 – Você ia muito nesse lugar?

 

R – Ficava bem de esquina com a minha casa, era um assim do lado da noitada.

 

P/1 – E como é que funcionava, assim, se pudesse voltar naquela época assim e descrever esse lugar? O jeitão dele.

 

R – Era bom, era bom porque não se via a malandragem que tem hoje, os roubos que tem na cidade, naquele tempo não existia, todo mundo conhece todo mundo, todo mundo se dava, era amigo. Hoje, você não conhece mais quase todo mundo, você quando menos espera, já tá sendo assediado dentro de casa por um assaltante, como outro dia aconteceu na minha casa, né, roubaram o celular da minha esposa, tomaram na frente da gente. Então, naquele tempo, não existia isso. Era bom.

 

P/2 – Você saía sozinho? Tinha alguma especial?

 

R – Saía… sempre a gente saía com um amigo, com dois, assim, mas era coisa pequena, era tudo pequeno, era tudo perto uma coisa da outra que não dava, não tinha dificuldade para sair e outra, tinha que voltar cedo, porque quando surgiu a luz, era só até nove horas da noite. Aí quando dava nove horas, dava sinal, você já tinha que correr. Depois, ela foi prorrogando, ficou até 12 horas, quando dava 11 e meia, já dava o primeiro sinal de luz, você já tinha que abreviar para ir embora.

 

P/3 – Então, essa energia era ligada ao amanhecer do dia…

 

R – Só das seis da tarde às nove da noite.

 

P/3 – Ah, então só tinha energia nesse período?

 

R – Das seis da tarde às nove da noite, depois das seis da tarde às 12.

 

P/1 – Iluminação?

 

R – Iluminação.

 

P/1 – Como era a iluminação?

 

R – Era precária, não eram todas as ruas que tinha, era um grupo gerador, não era de alta potência o grupo gerador para fornecer energia para toda a cidade, né, então não era uma grande potência, era limitada as ruas que tinha.

 

P/1 – Seu Donato, o senhor disse que era mais tranquilo, né, não tinha perigo, mas e a convivência dos garimpeiros aqui na cidade? Você lembra como era?

 

R – Era pacífica, não tinha roubo, não tinha mortandade, não tinha. Era muito difícil você ver. Depois quando foram saindo mais os garimpeiros, se afastando mais, que já foram povoando mais, é que foi aparecendo mais aqui e acolá esse tipo de mortandade, discussões, morte, tal. Mas no tempo do garimpeiro mesmo, era pacífico.

 

P/1 – E lá no garimpo, o senhor ia lá de vez em quando?

 

R – Não, não. Nunca fui.

 

P/1 – Essas lascas que vocês costumavam…

 

R – Era aqui. Aqui na cidade.

 

P/1 – O pessoal trazia? Conta como era isso.

 

R – Aqui tinha uns escritórios de compra de cristais, então o garimpeiro trazia os cristais, os faisqueiros compravam dos garimpeiros, traziam para beneficiar aqui. Então, aquelas sobras que ficavam quando eles quebravam para deixar limpo, o cristal limpo, ficavam aqueles pedaços e daqueles pedaços que a gente ia beneficiar ele para vender os pedacinhos, fragmentos, vender no quilo. Então, era o aproveitamento que a gente fazia do que sobrava das pedras grandes. Eu cheguei ver pedra de cristal aqui de 400 quilos, exposta no meio da rua, vindo de carro de boi, puxado num carro de boi, ficou exposta no meio da rua uns oito dias até aparecer, até reunir os compradores e aí, se reuniu em grupo, cada um tinha uma porcentagem e compravam a pedra. Aí, iam quebrar, beneficiar para deixar só o bloco pronto para exportação.

 

P/2 – Os garimpeiros ficavam lá ou eles se deslocavam todo dia?

 

R – Era movimento, de lá saía para… inventava outro garimpo, tem um garimpo ali, já saía todo mundo doido para outros garimpos e o movimento por aqui também, de chegada deles aqui, já tava tendo um comércio, vinham comprar alguma coisa aqui, rancho, eles compravam aqui para levar para lá, mantimento, né?

 

P/3 – O senhor tem lembrança qual foi a última pedra retirada de grande porte?

 

R – Foi essa que eu falei de 400 quilos. Eu não lembro a data, mas já foi mais ou menos na época de 1969, 1968, 1969.

 

P/1 – E o garimpo foi exaurindo em que época, seu Donato?

 

R – Época de 1950, 1960, por aí, já surgiu… em 1954 surgiu o Araguana, que é outra cidadezinha aqui perto, surgiu um garimpo lá, o garimpo do Rebojo e de lá foi indo, surgiu o Arapoema e foram se dispersando para lá, para esses lugares.

 

P/2 – Mas tudo cristal?

 

R – Tudo cristal.

 

P/1 – O senhor lembra de alguma história assim, que o senhor viveu, um causo na sua época de juventude, nesses dois lugares que o senhor frequentava? Ou mesmo na época em que o senhor mexia com as lascas? Uma situação que o senhor tenha vivido assim?

 

R – Não lembro.

 

P/1 – Era uma rotina…?

 

R – Era tudo tranquilo.

 

P/1 – E a sua primeira namorada?

 

R – Eu nem lembro qual foi. Foram muitas.

 

P/1 – Todas ao mesmo tempo?

 

R – Sempre namorava, bonito, galã.

 

P/3 – E como o senhor conheceu a sua esposa?

 

R – Através de amizade de juventude, ela trabalhava numa loja e começamos a namorar. Então, namoramos três anos, com três anos, eu me casei. Casei no dia dez de setembro de 1972 e convivemos, tivemos quatro filhos, quando foi no dia dez de janeiro de 1982, ela faleceu num acidente envolvendo ela, uma filha minha, uma moça que morava comigo, vice-prefeito da cidade, um motorista dele e um filho do vice-prefeito. Foram seis pessoas…

 

P/1 – Que morreram no acidente?

 

R – Na época do acidente.

 

P/1 – Foi aqui nessa estrada?

 

R – Foi, nós fomos presenciar um casamento lá em Ananás e na vinda, o carro que eles vinham desgovernou-se numa ponte e caiu dentro da água. Morreram essas pessoas afogadas e eu fui quem tava no outro carro na frente, vi quando o carro caiu, parei, quando voltei, fui socorrer as vítimas, mas não tirei mais ninguém com vida.

 

P/1 – Em 1982?

 

R – Em 1982, dia dez de janeiro de 1982.

 

P/2 – Como é que é o nome dos seus filhos, Donato?

 

R – O mais velho, Carlos Augusto Azevedo Miranda, Margara Carla Azevedo Miranda, Mara Rejane foi a que faleceu e Donato Carlos Junior e aí, depois do acidente, um ano depois eu casei novamente. E com essa minha esposa eu tenho um filho, Marcio Roberto, esse mora em Goiânia, trabalha na Oi há vários anos já trabalha lá na Oi, por sinal é avô por esses dias.

 

P/1 – Ele?

 

R – Eu sou avô, ele pai, há dois anos de casado, ele é pai e me convidando para ir ver o neto, só que eu não vou agora, a vó é quem vai.

 

P/1 – Você quis dizer assim, ele que teve filho agora e o senhor…

 

R – É, ele que teve filho…

 

P/3 – Qual o nome da sua atual esposa?

 

R – Maria de Jesus Pereira Miranda.

 

P/2 – Donato, na época do acidente, você ficou com quantos filhos, mesmo?

 

R – Uma.

 

P/2 – Depois do acidente.

 

R – Como?

 

P/1 – Ficaram três, né?

 

R – Ficaram três.

 

P/2 – Qual a idade dos três na época?

 

R – O Junior tinha dois anos, a Mágara tinha cinco e o Carlos Augusto tinha sete.

 

P/2 – E quem foi o suporte para cria-los com o senhor?

 

R – Aí foi onde eu já morava com a minha tia, foi a minha tia que ficou com a guarda dos meninos, porque aí quando eu falei que queria casar novamente, que eu morava junto com ela lá na casa, com a minha esposa e minha tia, aí ela disse que então, era para eu procurar e ver se… conviver primeiro para depois ver se dava certo. Aí eu falei que ia levar os meninos comigo, ela disse que não.

 

P/1 – Você tava dizendo que quando você resolveu casar de novo, começa essa parte de novo, Donato, por favor. Quando você resolveu casar de novo.

 

R – Sim, aí minha tia ficou com os meninos, eu quis levar, ela disse que não, que deixasse com ela e ela cuidou deles até há uns cinco anos atrás, seis anos atrás, antes dela adoecer. E por sinal, foi para Araguaína morar com uma filha minha que mora lá em Araguaína. Já os outros meninos, um mora aqui, o outro mora… tá em Brasília, trabalhando lá em Brasília e o meu segundo menino, esse, trabalha… mora em Goiânia e trabalha na Oi.

 

P/1 – O senhor já tem, além desses dois netos, tem mais algum?

 

R – Tem. Tenho mais dois, da menina, da filha, da Magara tenho mais dois netos, um casal.

 

P/1 – E você disse que trabalhou com essas várias coisas na juventude, mas depois você entrou na prefeitura. Como foi essa passagem, Donato?

 

R – Aos 18 anos, eu fui convidado para trabalhar na prefeitura, eu fui o primeiro secretário da junta de alistamento militar aqui em Xambioá.

 

P/1 – Como é que era esse trabalho?

 

R – Era o alistamento militar, no tempo que a zona era não tributária, a dispensa de incorporação, então as pessoas eram dispensadas do serviço militar porque a zona aqui não era tributária. Então, eram formadas delegacias nessas zonas não tributárias, eram formadas delegacias para você fazer o alistamento militar. Hoje na nossa região é o seguinte, você faz o alistamento militar que a zona ainda não tributária ainda, mas quem quer servir, vai ao Exército ali em Marabá e faz lá.

 

P/2 – Você entrou no serviço público através do concurso?

 

R – Não. Nomeação.

 

P/1 – O seu serviço era de alistar as pessoas?

 

R – Alistamento militar, trabalhei três anos na prefeitura, no mandato do prefeito Otacílio Cardoso, depois trabalhei mais dois anos no mandato do segundo prefeito, João Saraiva, daí sai e fui trabalhar no escritório de uma madeireira, trabalhei um ano e pouco, sai de lá, fui para o escritório de outra madeireira Marcelinense, lá no Pará, lá em cima na região de Pedra Branca, que é aqui perto, no município de São Geraldo. Quando sai de lá, eu voltei, novamente, para prefeitura, trabalhei seis anos no mandato do Manuel Dias, depois mais seis anos no mandato de Everaldo, fui vereador na época do mandato de Everaldo.

 

P/1 – E trabalhando na prefeitura esse tempo, qual era o seu tipo de trabalho?

 

R – Era motorista. Motorista de gabinete.

 

P/1 – Então, a gente queria muito ouvir o senhor sobre as madeireiras. Essa passagem, porque teve o garimpo… como é que chegaram as madeireiras aqui?

 

R – A primeira indústria madeireira chegou aqui em 1978, 1979, vindo do Espírito Santo, lá de Vitória, os capixabas vieram com a primeira madeireira para cá, foi sediada aqui uma serraria e o trabalho era pouco, não era trabalho muito, porque só a família dele abastecia o serviço tudo, era poucas pessoas que eles empregavam na época, então era a única indústria que tinha também na cidade, era essa. E depois, foi vendida, a serraria foi vendida para umas outras pessoas, eram uns cubanos, naturalizados dos Estados Unidos, foi quando ela foi se padronizando mais, foi dando emprego ao povo de Xambioá. Foi a época que eu sai daí e fui para uma outra lá em cima, a Marcelinense. Sobre a madeireira e sobre a madeira, na região, na época… antes um pouco dessa madeireira aqui, tinha umas madeireiras de americanos com sede em Belém, escritório… um dos escritórios centrais em Araguatins, daí eles tiraram madeira durante o ano todo na região do Pará, no município de Conceição do Araguaia, chegavam a passar o ano todo tirando o mogno e jogando dentro das grotas para quando o rio encher, elas encherem as jangadas aqui. Chegava a 25, 30 mil toras de mogno, as jangadas atreladas umas nas outras, chegava quando o rio tava meio baixo, elas ficavam amarradas aqui, que era cheio de ingarana aqui a margem do rio, ficava aqui, oito, dez, 15 dias, quando eles iam passando ela de pedaço, por causa do pedral aí da cachoeira. Então, passava esses dias, ia descendo, descendo, chegava a descer uma parte, depois vinha até unir mais, quando chegava em Santa Isabel, que é a cachoeira principal do Araguaia, Santa Isabel, tornava separar, tornava passar. De lá para frente, já não tinha mais cachoeira, já unia tudinho e só ia ter a cachoeira de Tucuruí, já abaixo da cachoeira, já a madeira era embarcada em navios para os Estados Unidos.

 

P/2 – Donato, e por que que era feito por água o transporte dessa madeira?

 

R – Porque não tinha estrada, não tinha como carregar essa madeira antigamente. O Pará era todo isolado de estrada, não existia, para você ver o tanto que o município de Conceição do Araguaia era tão grande que ele pega da Barreira de Campo, acima de Conceição do Araguaia, vinha fazer divisa aqui em Santa Cruz, que fazia divisa com Marabá e aqui ao leste, por aqui, ia fazer divisa com São Felix do Xingu. O município de Conceição do Araguaia era maior do que o Estado do Espirito Santo na época, daí foi povoando, foi emancipando cidade, Conceição, foi emancipando Redenção, Rio Maria, aí depois foi povoando. Hoje existe a lei que uma cidade após 600 eleitores já pode ser emancipada, né, já pode se emancipar, a partir de 600 eleitores. Então, o município de Conceição do Araguaia ficou pequeno. Mas essa madeira toda da época era tirada toda no município de Conceição do Araguaia.

 

P/1 – E comentavam alguma coisa sobre isso? Os moradores falavam sobre isso?

 

R – Não.

 

P/1 – Encaravam de que forma essa…?

 

R – Naturalmente. Só… a turma toda se divertia, quando a jangada vinha, corria para… a jangada banhava… banhar em cima das toras. Hoje é que a gente vê o quanto a gente perdeu e quando eu trabalhava na madeireira Marcelinense, as notas fiscais ficavam comigo. Então quando era pedido de madeira e nossa central era em Belém, quando Holanda, Estados Unidos, França compravam madeira da nossa mão, nós serrava aqui, mandava tudo para o porto de Belém e lá, quando pediam… a firma comprava, vinha via rádio para nós, que tinha rádio lá na serraria, aí vinha como as letras da firma para eu preencher a nota fiscal. Então eu preenchia as notas fiscais, para você ver o tanto que o Brasil perdia, como eu acredito que perde hoje. Vendia-se a madeira para cá, a madeira só de segunda era vendida aqui, você cobrava o IPI, que é Imposto de Produto Industrializado, o ICM, então, quando era para exportar nós tinha um carimbo que batia em cima da nota: madeira isenta de IPI e ICM por destinar-se a importação conforme a lei número tal do Artigo tal, tal, tal”, quer dizer, essa madeira ia toda de graça, não pagava ICM, não pagava IPI. Eu perguntei um dia para o rapaz lá do escritório, perguntei por quê que quando a gente vende a madeira para cá cobra IPI e ICM e quando é para exportação não tem IPI e nem ICM. Ele disse: “Isso aí é para facilitar a entrada do dólar”, eu digo: “É demais. Eles precisavam…”

 

P/1 – Donato, você estava falando da exportação da madeira, né, que época foi essa?

 

R – Essa época foi 1972, quando eu trabalhava na Marcelinense, 1972, 1970, 1971, 1972 que eu trabalhei na Marcelinense.

 

P/1 – E Donato, você tava contando, aí você perguntou para o funcionário… para quem você perguntou?

 

R – Um funcionário do escritório lá em cima.

 

P/1 – Repete então essa história.

 

R – Perguntando porquê que quando nós vendíamos madeira de consumo interno, que era madeira de segunda, vendia para cá, aqui para Anápolis, que nós vendíamos muita madeira para Anápolis, madeira de segunda, cobrava o IPI e o ICM e quando era destinado a exportação, não tinha IPI e nem ICM. Aí ele me disse: “Isso é para facilitar a entrada do dólar no Brasil”, quer dizer, então dava essa madeira de graça para os americanos, para o inglês, para os franceses que eram os únicos compradores de madeira naquela época, madeira tipo exportação, só madeira de primeira.

 

P/1 – Você falou que era mogno…

 

R – Mogno.

 

P/1 – Tinha mais alguma?

 

R – Não, a maior parte só era mogno.

 

P/1 – E você tava dizendo que… explica melhor como era o transporte, você disse que elas ficavam…

 

R – Anexadas a uma outra, cada uma com um grampo e passava um cabo de aço dentro do grampo, no grampo e atrelavam todas elas e fazia a jangada, 25, 30, 35 mil toras e levava pelo rio, que não tinha transporte terrestre.

 

P/1 – E quantas toras cada jangada, mais ou menos?

 

R – Aí, varia de 20, 50, 100 toras cada jangada. E aí, anexava todas umas as outras e dava esse total de 20, 15…

 

P/1 – E como carregava isso pelo rio?

 

R – Pelo rio, elas eram tudo na parte de cima do rio que descia rio abaixo, só que elas eram controladas por barcos, tinham uns barcos voadeiras de 50 hps, voadeiras grandes, barcos grandes, motor grande também que era quem controlava ela na descida do rio, tanto fazia para desviar de alguma coisa, como para encostar. Então, os barcos juntavam tudo, quando chegava na época de parar, diminuir como parava aqui, aí os barcos encostavam tudo, fazia força, funcionava tudo empurrando ela da terra para amarrar a jangada, porque daí, iam separando os pedaços para descer no lugar que tava mais… que era seco, às vezes, para passar em canais, depois tornava juntar e descia até Tucuruí.

 

P/1 – Os barqueiros que faziam isso?

 

R – Tinha os barcos, 20, 30, 40 barcos motor 12 hps, motores de voadeiras de 50 hps, são voadeiras grandes, potentes.

 

P/2 – Gerava muita mão-de-obra, Donato?

 

R – Era muita mão-de-obra porque eles passavam o verão todo derrubando ela no machado. Quando a árvore caía, uma árvore de 15, 20 metros, de mogno. Ela dava… tira a tora a maior parte é quatro metros, então dava cinco toras, tinha tora de cinco metros, mas geralmente era quatro metros. Quando ela caía, você ia serrar ela como traçador, que era um serrotão, meio lombado, um ficava num ponta e outro, na outra. Então, traçava aquelas toras e ia ficando as toras. Dali elas eram jogadas dentro de uma grota ou dentro de algum riozinho maior, como Água Fria, Rio Maria se era na beira do rio e de lá até chegar na margem do rio Araguaia onde fazia o jardim que é cercar ela lá dentro do rio para fazer a jangada para quando sair no rio, já tá tudo prontinha para descer. Que o rio era mais corrente, né, corria mais, então já era hora de descer já com ela toda prontinha.

 

P/1 – Aí quando chegava nas cachoeiras…

 

R – Tinha vezes que era preciso separar, né, diminuir a quantidade para poder passar, porque elas não podiam passar todas de uma vez, mesmo com o rio cheio, tinha lugares que tinha pedrais, então, separava, tirava uma parte, x toras, descia um bocado, depois descia outro, até quando passava tudo.

 

P/1 – Cachoeira não é queda?

 

R – Não é queda. São pedras com reboliços de água e existem os canais. Quando o rio tá cheio, ela acaba, ela não tem cachoeira aqui, não tem aqui, essa aqui em São Miguel, Santa Isabel também são poucas pedras e não vai existir mais cheias igual tinha antigamente, que acredito que não tem mais, pelo o que tá se vendo, não vai ter mais igual teve em 1980, ela subiu cinco metros aqui nas principais casas aqui na beira do rio, cinco metros. Em 1980. Então, quando passava essas duas aqui que são as duas principais do Araguaia, que é São Miguel e Santa Isabel, daí pra frente, não tinha mais cachoeira, só ia ter Tucuruí, já a parte de baixo já era embarcada. A madeira era embarcada em navio.

 

P/1 – Essas madeireiras, essa não era nacional?

 

R – Não era nacional, essa era Rio Imperax, era uma madeireira americana.

 

P/1 – E o senhor trabalhou nela?

 

R – Não.

 

P/1 – A que o senhor trabalhou era nacional?

 

R – Nacional.

 

P/1 – Aqui, era em Xambioá mesmo que tinha?

 

R – Trabalhei numa aqui, que era nacional, mas era de uns cubanos naturalizados nos Estados Unidos, aí era nacional, essa foi a primeira que teve. Depois, eles compraram…

 

P/1 – Como chamava?

 

R – Banacoba.

 

P/1 – O senhor trabalhou nela?

 

R – Nessa eu trabalhei, daí quando sai daí, trabalhei um ano e pouco. Sai e fui trabalhar na madeireira Marcelinense que era de Joaçaba, Santa Catarina, tinha a sede dela lá em Joaçaba e tinha essa serraria aqui em Pedra Branca, que era município de Conceição do Araguaia, hoje é município aí de São Geraldo, tá aqui pertinho.

 

P/1 – Mas aqui em Xambioá, então, teve quantas?

 

R – Só uma.

 

P/1 – Essa que o senhor trabalhou?

 

R – Teve essa madeireira Vitoria, que era dos capixaba, foi a primeira, depois foi vendida para esses cubanos que foi a Banacoba.

 

P/1 – Dessa fase, né…

 

R – Depois ela foi vendida para uns gaúchos que trabalhavam na Marcelinense, saíram e vieram e compraram ela, aí ficou Maginco.

 

P/1 – Então, sempre ela aqui em Xambioá?

 

R – É, só foi ela. Em São Geraldo tinha uma também, tinha aqui e tinha em São Geraldo.

 

P/1 – Como que o senhor viu a cidade… como que o senhor lembra na época do garimpo, depois com a madeireira e outras atividades aqui? Essas mudanças.

 

R – Quando acabou os garimpos, ficou aquela vida rotineirazinha, de cidade formada depois de garimpo, comércio, alguma pecuária, movimentação muito pouca… diminuiu o fluxo de pessoas, porque saíram para outros garimpos, uns saíram para Araguanã, para Arapoema, foi ficando só o pessoal que já tinha residência fixa, mesmo, e com a madeireira também não evoluiu muito porque a família do pessoal que veio era muito grande, então só eles abasteciam o serviço. Quando foi vendida, ela foi vendida, foi que eles saíram, aí empregou o pessoal da cidade.

 

P/1 – Mas dava conta de empregar bastante gente? A cidade vivia da madeira?

 

R – Não, não, nem tanto. Ajudava, mas não era assim… era uma faixa de uns 50, 60 funcionários, mais ou menos.

 

P/1 – E os moradores aqui, do quê que eles viviam, seu Donato?

 

R – A maior parte… existe uma grande parte de fazendeiros, que é a pecuária, tinha agricultura, hoje não tem mais, porque ficou tudo monopolizado na mão de fazendeiros. Hoje, essas grandes invasões, né, que eles estão repovoando de novo, aí assentamento tal, assentamento tal… é uma forma de eles invadirem e ficar com a terrinha. Mas não é lá esses plantios, não se planta mais igual se plantava antigamente e aqui, era um dos maiores produtores de arroz da região. Era… saía na base de 60, 70 caminhões no mês carregado de arroz daqui para Anápolis na época de 60, 70, por aí assim. Então, vinha comprador de Anápolis comprara arroz aqui. Tinha uns compradores aqui de lá, eles vinham comprar, traziam caminhões e saiam com os caminhões carregados de arroz daqui. Hoje, o pequeno lavrador compra o arroz aqui e leva para lá.

 

P/3 – Essa exportação do arroz foi antes ou pós esse movimento da madeireira?

 

R – Na época da madeireira também. Ao mesmo tempo.

 

P/1 – E quem plantava eram os fazendeiros ou pequenos produtores?

 

R – Não, pequeno produtor.

 

P/1 – Por quê que acabou isso, Donato?

 

R – Devido os fazendeiros ficarem com a maior parte de terra, vai vendendo, pequeno vai vendendo e eles vão comprando, vão fazendo… plantando capim e aí, vai… foram saindo muita gente daqui da região, foram para região aí de São Geraldo, que hoje, tem muita gente que era daqui do município daqui que estão bem lá em São Geraldo, porque vendiam a terra aqui, compravam três vezes mais lá e então… o pequeno produtor, hoje, tá igual o grande produtor, porque eles não querem plantar milho, eles não querem plantar o arroz, não querem plantar capim, querem criar o gado, então tá do mesmo jeito do grande produtor, no caso, pecuária…

 

P/1 – Quer dizer que as grandes fazendas aqui, a maior parte são de gado?

 

R – É, de gado. Fazenda é.

 

P/1 – As fazendas que o senhor disse não têm plantação?

 

R – Não têm. É capim.

 

P/1 – Capim para gado?

 

R – Capim para gado.

 

P/1 – E voltando as madeireiras, o senhor comentou que o pessoal banhava. Fala um pouco dos meninos lá…

 

R – (risos) Aí, quando a jangada tava aí, era o dia todo. Meninos correndo em cima de tora, pulando dentro d’água, voltava para tora, corria, pulava dentro d’água, então era uma festa, o dia todinho era menino banhando em cima da tora. Mergulhar entre uma tora e outra para pegar o sol lá na frente, sabia onde tinha uma falha, você mergulhava com os olhos abertos, quando chegava lá, tinha o reflexo do sol e você sabia que era um buraco, ai você saía. mergulhava por debaixo das toras. Cabeça de bagre, né?

 

P/1 – E só por fim em relação as madeireiras, as pessoas tinham noção dessa devastação da floresta?

 

R – Tinha nada, como ainda hoje ainda não tem. Ainda hoje fazem, né? Nessa época, ninguém… tava se lixando, madeireira… hoje, para você ver mogno que é onde teve serraria aqui, teve ali, um mundaréu de madeira que passou aqui, né, ninguém sabe, ninguém via? Porque até lá nos estados Unidos, o pó da serragem da madeira era aproveitado para fazer tinta, eles cortavam em raio laser. Aqui não, era na serra. Então, para você ver, hoje, se você quiser ver mogno, procura uma casa velha dessas aí, que é feita de mogno, as tabuas são de mogno. Só o que a gente vê de mogno aqui é isso, casas que foram construídas na época da madeireira.

 

P/1 – E por quê que não teve mais madeireira aqui?

 

R – Acabou a madeira. Você não vê madeira. Logo depois, começaram a cortar as castanheiras. Hoje não existe mais castanheira, porque tanto como cortavam como ela não aguenta fogo, porque aí foram abrindo fazenda, vai queimar, a castanheira não aguenta calor, ela se acaba logo, ela pega fogo. Então, hoje, até a castanha do Pará tá difícil.

 

P/2 – Donato, qual é o efeito do garimpo para a cidade?

 

R – Só o povo que ficou. O povo que veio na ilusão do garimpo e ficaram. Alguns se deram bem que arrumaram algum recurso na época, compraram lojas, tinham lojas, depois fazendas, mas se conta, não são todos. Isso ficou, isso é em quase todas cidades que foram iniciadas de garimpo, hoje como Araguanã, Arapoema, outras cidades pelo Piauí que tem Gilbués que era garimpo de diamante também vai, vai, vai, ficou o povo que estabilizou aquilo ali, acabou. Garimpo acabou tudo. Ficou aquele povo estabilizado.

 

P/1 – E continuam queimando áreas aqui?

 

R – A gente vê queimadas, por sinal, olha como é que tá o Pará, ali, aquela fumaça ali é de queimada. A nossa região…

 

P/1 – E para plantar o quê?

 

R – Aí, é queimando os pastos para quando chover, nascer nova pastagem, que os pastos já tá tudo seco, não presta dentro porque tá seco demais, então, queima, quando chove, ele nasce todo de novo.

 

P/1 – Então, continuam devastando para gado?

 

R – É.

 

P/3 – Donato, você falou pra gente que você foi vereador, né?

 

R – Fui vereador.

 

P/3 – Conta um pouquinho para gente dessa sua vida pública voltado para política, mesmo.

 

R – Eu fui candidato a vereador, tive 168 votos, fiquei como segundo suplemente, fui logo… o primeiro suplemente assumiu, depois eu…uma vereadora se afastou, eu assumi por seis meses, depois o primeiro suplente morreu, o titular voltou ao lugar e eu passei a primeiro. A Doutora Cândida que era vereadora foi embora e eu assumi o restante do mandato. Aí, eu fiquei um ano e seis meses como vereador.

 

P/3 – Isso na década de quando?

 

R – Sessenta e seis, 1968, não espera aí…1972 a 1988, foi em 1988 que eu tava como vereador, quando o Doutor Ademar tomou posse, eu era vereador no mandato de Everaldo Barros.

 

P/1 – De quando a quando?

 

R – 1972 a 1988, porque foram seis anos de mandato.

 

P/1 – 1972 a 1978.

 

R – 1978.

 

P/1 – Seis anos, né?

 

R – Foram seis anos de mandato. Na época, foram dois prefeitos com seis anos de mandato.

 

P/1 – E como foi ser vereador?

 

R – Tive a experiência de ajudar, elaborar um projeto, só que as execuções… você entra com o projeto, mas as execuções, o executivo se quiser executar, executa, você leva… se ele quiser, não vai contrariar você não. Na época, eu tive pouco tempo de mandato, né, não podia exigir tanto porque o meu tempo foi curto, foi limitado, logo acabou o meu tempo, porque se eu tivesse tido mais tempo, eu teria como pressionar dentro do que eu queria, o objetivo do que eu queria para alguém, porque eu queria, e o que eu sempre vejo, eu tenho uma vontade de que isso aqui seja numa cidade que a gente se orgulhe dela, mais ainda, porque há quantos anos que eu vivo aqui, nunca sai daqui, a não ser de viagens, então, eu acho ainda muito decadente as administrações à altura do que eu penso, eu penso que deveria ser mais.

 

P/1 – Como poderia ser Xambioá para você Donato, que passou por todas essas fases?

 

R – Uma cidade melhor, as coisas bem melhores, cais perfeito, melhor do que o que tá aí esses pedaços. Ruas melhores, mais emprego, uma saúde também melhor, mas aí já depende do governo estadual, né? Porque o governo municipal, a gente tá vendo até onde eu dou o valor a esta prefeita, porque dentro da situação que tá o país e como a gente tá vendo o estado, que agora mesmo a gente viu, teve um apagão lá no Hospital Regional de Palmas, esses dias estavam pedindo aos empresários doações para dar para o pessoal lá em Palmas, chegando caixas e caixas de alimentos na porta do hospital quando até agora, ontem, teve um apagão de não sei quantas horas dentro do hospital. Então, a gente vê que pelo desmando que há nesse país, o Município de Xambioá não tá tão ruim, porque em primeiro lugar, não tem dívida da prefeitura com os funcionários, só aí é um grande coisa. Dentro das poucas condições, você vê um calçamento numa rua, arrumando uma estrada para esses assentamentos, pontes, então aí, dentro do limite que são poucos os limites de Xambioá. O ICM daqui deve ser uma porcaria, o RPM deve ser também muito pouco. Então, é do que vive o Município, do RPM e do ICM e deve ser muito pouco.

 

P/1 – E a Votorantim chegando aqui, que mudanças, se é que teve…

 

R – Essa Votorantim, ela… a única benfeitoria foi que empregou várias pessoas daqui, quando tem muito movimento, são empresas que vêm de fora para fazer manutenções. Agora, os funcionários que tem, que ficam efetivos, são o povo, não são esses tantos e outra, ainda tem uma concessão que o governo do Estado fez com a Votorantim livrando ela de por não sei quantos anos, um tempo x, o ICM para ela ter sido instalada aqui, era para ser instalada em Filadelfia, então deu essa concessão da isenção desses impostos por um período x que tá próximo parece de vencer, daqui uns dois anos, parece que vai ser vencido e daí, ela vai gerar o quê? Um ICM para o Município, porque a produção de cimento é grande. A produção é grande.

 

P/1 – E em relação à natureza que de novo, pensando no garimpo, nas madeireiras, e agora na extração do calcário, teve alguma influência?

 

R – Como assim?

 

P/2 – Impacto.

 

R – No impacto?

 

P/1 – Porque você contou pra gente do garimpo, movimentação da cidade, as madeireiras, né, a consequência, se teve alguma mudança na cidade além de empregos.

 

R – Existe, porque a Votorantim, ela participa de vez em quando com a administração municipal, sempre a gente vê ela fazendo ações, reforma de um prédio, ajuda em construção de alguma coisa, de um prédio escolar, reforma, então sempre ela tá participando da administração.

 

P/1 – E na natureza, tem algum impacto?

 

R – Existe o impacto das escavações que fazem para a retirada do calcário, né? Então, a natureza não fica mais igual, a terra não fica mais igual era, que elas são feitas para retirada, são feitas explosões, são dinamitadas, então as pedras voam, automaticamente, vai ficando as crateras, né, vai ficando as crateras, vai sendo retirada as pedras e a natureza não fica mais igual, a terra não fica mais igual, vai milhões e milhões de anos para ela voltar ao normal, que não volta talvez.

 

P/1 – Em relação ao rio Araguaia?

 

R – Uma calamidade.

 

P/1 – Mas tem relação a extração de calcário…?

 

R – Não. Não há impacto nenhum, não. Só que tá sendo uma calamidade, segundo eu tive informação uns três dias atrás que foi desviado, foi feita um transposição dele lá em cima, uns fazendeiros, fizeram, tiraram, desviaram uma parte do rio, falei: “Mas não é possível! Onde tá a natureza, cadê?”, já foram, voltaram, os caras fizeram a sobreposição, fizeram as barreiras, tal da contenção da água que tava saindo, mas o impacto é tão grande que há muitos anos, ninguém via esse rio seco do jeito que tá. Eu nunca tinha visto.

 

P/3 – Donato, você falou que o rio foi sempre muito importante para o transporte da madeira, né? E o transporte de pessoas? Também era feito por rio na época?

 

R – Na época dos garimpos era feito por rio, não tinha estrada, era tudo fluvial. A estrada que tinha era quando trazia o jipe e botava para fazer aqui, abria uma estradinha com machado daqui para Chapada lá de Arapoema, Arapoema é lá no centro, que o pau dava na beira do rio, que era outro povoado, de lá, abria estrada, carro para lá, jipe, que era jipe que podia vim em barcos, era um carro pequeno, não podia trazer caminhões, então, trazia jipe pequeno. Jipe era pequeno, era 20, 30 jipes que rodava aqui dia e noite no tempo do garimpo.

 

P/2 – E as estradas? Elas começaram a funcionar, abrir para transporte de pessoas a partir de quando, mais ou menos, nessa região?

 

R – A primeira estrada que foi feita aqui foi feita por um fazendeiro, Osvaldo Marques, chamado Zé Idico que se dizia dono dessas terras, dali de Vanderlândia que fica na BR-153 a beira do Araguaia, limitando-se ao Corda e ao Lontra aqui perto de Araguanã. Então, ele dizia que essas terras todas eram dele. Ele fundou uma fazenda lá no município perto de Vanderlândia e de lá, abriu… fundou outra daqui a dez quilômetros, que hoje é a terra do Horácio Maranhão, ficando uma cabeceira lá e outro aqui, então, o Município de Xambioá, quase todo, era todo dele na época, ele dizia que era dele. Foi quando ele abriu a estrada com dois tratorzinhos D4, tal, de lá até chegar aqui. E daí, essa estrada só rodava no verão, no inverno não tinha ponte, era aquele negócio, tudo cheio, tudo alagava, tinha muita chuva na época, então só rodava no verão. No verão, era aquela dificuldade, fazendo a pinguela para você passar e coisa, depois, foi indo, foram sendo construídas estradas, foram melhorando as estradas já na época de 70, mais ou menos, foi bem melhor as estradas, quando melhorou as estradas, 70… não, 69, 70, por aí, assim.

 

P/1 – Mas aí, as estradas eram para outros lugares?

 

R – Não, estrada era daqui a Vanderlândia, que fica na beira da BR-153, aí você ia para Araguaína ou você descia para Imperatriz, então, lá era o entroncamento da estrada que sai de Xambioá.

 

P/1 – Era só terra?

 

R – Só terra. Só terra. Asfalto foi ter de 1989 pra cá, não foi? Do governo Siqueira para cá, foi quando começou o Estado de Tocantins, foi quando começou o Estado.

 

P/1 – Aí que aumentou um pouco?

 

R – Aí melhorou. Aí foi feito estrada daqui a Araguanã, Araguanã, Araguaína, foi pavimentada e pavimentaram essa daqui até Vanderlândia.

 

P/1 – Pra você que tem toda essa visão, essa mudança de estado, essa divisão que criou-se Tocantins para Xambioá teve alguma influência?

 

R – Teve. Teve porque em primeiro lugar, nós dependíamos de Goiânia, quando era Goiás, nós estávamos aqui a 1.325 quilômetros de Goiânia e eu sempre fazia essas viagens com o prefeito, daqui, nós fazíamos essas viagens de carro, daqui até lá…

 

P/1 – Como que aconteciam essas viagens?

 

R – De carro próprio, nós íamos.

 

P/1 – Mas tinha asfalto, já?

 

R – A BR-153, asfalto. Aqui, não, mas nós pegávamos Araguaína, Araguaína para frente, pegava Vanderlândia, Vanderlândia para frente era asfalto. Então, você saía daqui às cinco horas da manhã, cansei de fazer, sete, sete e meia da noite, tava em Goiânia, 1.325 quilômetros daqui a Goiânia.

 

P/1 – E agora?

 

R – Com a mudança do Estado, para nós melhorou, porque nós aqui, o que os municípios da região norte produziam, mandavam para o sul e o sul que era beneficiado. Nós aqui não tínhamos beneficio nenhum. Então, com a criação do Estado, foi uma batalha muito grande do Siqueira Campos, nessa divisão de Estado, fez até greve de fome lá na câmara dos Deputados, quando foi dividido, pra nós melhorou porque o que rende aqui é daqui, porque rendia aqui, o sul é que era beneficiado, porque tava mais perto do governo, quando centralizou o Estado, a capital fica no centro do Estado, que é Palmas, ali, centralizado, que dá 600 quilômetros entre o Bico do Papagaio e Talismã que é a divisa, dá 600 quilômetros de um para o outro, de Palmas para lá, 600 e de Palmas ao Bico de Papagaio, 600 e poucos, então a capital ficou centralizada, então, nós ficamos com uma renda do que produz aqui ficou para nós.

 

P/1 – Eu só vou fazer mais uma pergunta e depois, se vocês quiserem concluir. Você disse que tem vários assentamentos aqui, né, Donato? Tá vindo bastante gente ocupar as terras aqui?

 

R – Não. São pessoas daqui mesmo. De fora não vem, não vem porque os fazendeiros já são os posseiros, então, não vem ninguém. Antigamente vinha, vinha muita gente, por sinal, veio muito mineiro lá de Malacacheta, vieram para cá na época de 1960, chegaram muita gente aqui, depois, povoaram aí, venderam suas terras e adentraram aqui o Pará, estão tudo morando aqui na região do Pará, região aí de São Geraldo.

 

P/1 – E essas pessoas que estão ocupando essas terras, você disse que são daqui de Xambioá?

 

R – São daqui.

 

P/1 – Nasceram aqui?

 

R – Não, não. Nem tantos, eram moradores daqui mesmo, pessoas que veio de fora, mas isso há muitos anos atrás.

 

P/1 – Então, é o pessoal daqui mesmo?

 

R – Daqui mesmo, são os posseiros aí nas regiões.

 

P/3 – Quais são as coisas mais importantes para você hoje, depois de toda essa vivencia que você tem? O que você considera mais importante para você hoje em Xambioá?

 

R – A coisa mais importante é a cidade que eu não saio daqui, posso ganhar na loteria, mas quero morar aqui. Pra mim, é o importante, eu não tenho vontade de sair daqui, só olhar para esse Araguaia… eu gosto de Xambioá.

 

P/2 – Donato, como foi contar a sua história para nós?

 

R – Foi bom, porque descarreguei um pouco, contei minha vida de quando eu cheguei aqui. O que eu sou hoje, o que já fui. Então, essa é a minha vivência aqui, eu gosto de dizer que eu não saio daqui e não mudo o nome, pode ter a investigação que tiver. Para mim foi importante, é bom porque alguém vai saber que o Donato conhece a história de Xambioá. Porque a gente vê o seguinte, hoje na idade da gente, você conta uma história hoje, daqui um mês, dois meses, você não lembra mais daquilo que você comentou, mas você, na sua infância, você conviveu com um negócio, aquilo fica uma fita gravada na sua mente que ela não apaga nunca, ela não apaga. Como na vida você vai ficar lembrando dos seus colegas, o que aconteceu com tal, pescaria tal, quem tava lá, tal, tal, tal. Quando a gente é jovem, a fita fica gravada, depois vai indo, vai esquecendo, vai… então, é bom pra mim porque eu relembro a minha infância aqui em Xambioá e gosto daqui, no tenho ideia de sair.

 

P/1 – Você disse que quando olha esse rio, aí você ia falar alguma coisa.

 

R – Tristeza. tristeza porque não tem mais o que tinha antigamente, você juntava uma turma: “Vamos ali no Porta Aberta”, a gente chamava de Porta Aberta, era pegar um barco e vim aí na entrada dessa cachoeira, botava uma malhadeira e daqui a pouco, você tava com um horror de peixe assando, comendo, bebendo pinga e comendo peixe. Hoje em dia, você desce aí, você passa o dia todinho aí, você não vê peixe, acabou. E a tendência é acabar mais, como eu nunca tinha… faz muitos anos que eu não tinha visto seco como ele tá com essas praias bem aí na frente, isso era… só vi uma vez em 60, saiu essas praias de cascalho e tá saindo agora, em 2016, em muitos anos, ele não secava igual agora. É uma tristeza.

 

P/1 – Então, a gente já terminou. Você quer falar alguma coisa que a gente não te perguntou que você tinha vontade de gravar aqui par ficar registrado?

 

R – Não, não, não. Só agradeço demais a presença de vocês terem me convidado para eu contar um pouco a história de Xambioá. Muito obrigado.

 

P/1 – Obrigada você, viu, foi muito boa a história, né, eu pelo menos, aprendi muito sobre Xambioá.

 

 FINAL DA ENTREVISTA

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