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Memórias de Santa Tereza

História de: Heloisa Pires Ferreira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/08/2003

Sinopse

Infância na Almirante Alexandrino. Heloisa Pires Ferreira nos fala sobre a realidade de como foi crescer no Morro dos Prazeres. Conta sobre os cursos de artes oferecidos à comunidade; sobre a repressão durante a ditadura militar; sobre o trabalho das mulheres na costura, do qual sua mãe participava, e fala da criação da Associação de Moradores. Também conta sobre o seu pai, um jurista e sindicalista que foi responsável pela primeira Associação de Moradores da região; um homem honesto.

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IDENTIFICAÇÃO
Meu nome é Eloisa Pires Ferreira. Nasci em 14 de abril de 1943. Eu sou uma gravadora, uma artista plástica, e vim morar em Santa Tereza aos sete anos.

FAMILIA
Meus pais são do Rio. Meu pai era advogado, João Antônio Pires Ferreira. Foi um grande jurista, foi um comunista, abriu muitos sindicatos. Na primeira guerra ele atuou muito, mas me parece que na segunda guerra ele ficou muito ruim, não por tortura física, mas tortura mental, e ele se afastou. Foi ficando uma pessoa muito sofrida. Ele nunca negou assistência jurídica pra nenhum daqui, para as pessoas presas no tempo da ditadura. Eu me lembro que ele me pedia pra me vestir pra ir com ele nas delegacias porque ele soltava essas pessoas. Ele usava o saber dele pra essas causas. Meu pai foi um intelectual só que da esquerda, e estruturou a Associação de Moradores do Morro dos Prazeres. Meu pai orientou juridicamente aqueles jovens que estavam formando a Associação.Quando ele morreu, eu arrumando as coisas dele achei manuscrito dos estatutos. Eu dei aqui pra Associação, batido na maquina dele, que devia ser a copia, Meu pai freqüentava esse bar que deve ser o do seu Joaquim, aqui na entrada do Morro, na Gomes Lopes. Minha mãe era Henriqueta Pires Ferreira, e na casa da dona Maria Lira junto com a mãe da Maria Lucia, dona Iracema elas costuravam e ensinavam o pessoal. Minha mãe ensinava costura e bordado meio careta, nós questionávamos um pouco embora ela fosse meio criativa. Elas costuravam, e ensinavam o pessoal daqui a costurar. Eles eram muito mais velhos. Hoje minha mãe devia estar com 90 e tantos anos. A cultura era outra, nós fazíamos arte com eles. Meu irmão que se chama Edgar Pires Ferreira, ele fazia sociologia na PUC em torno dos anos 60,

CASA
A minha casa ficava entre os Dois Irmãos e o Xororó, na Almirante Alexandrino, 1017 e que atualmente é 1315. E ali eles entravam dentro do terreno da minha casa pra pegar água, minha mãe colocou uma bica dentro de casa pra eles irem com uma latinha um por um pra trazer água pra cá, porque as pessoas não tinham como. O Edgar meu irmão, ele conseguiu um dinheiro nem sei como, ele pôs todo mundo pra trabalhar e construíram a caixa d’água.

ATIVIDADES CULTURAIS E POLÍTICAS
Eu, de 59 a 85 junto com o Rogério Luz, Maria Lúcia Luz e o Doutor Marcini fazíamos arte aos domingos na Julia Lopes Almeida por conta própria, ligados ao Clélio Assunção. O dinheiro arrecadávamos das famílias de Santa Tereza para termos materiais A gente conseguia a maquina filmadora com o dono da Mesbla e ia buscar e trazia de volta filmes, pra termos alguma atividade cultural aqui com eles. O governo nos proibiu em torno de 65, 66, e nós não pudemos mais fazer. Um virou médico, outro filosofo e ela a mais velha, Maria Lucia Luz era uma pintora que todo mundo a conhecia.O pessoal mais antigo, Todos eles aqui freqüentavam o curso de arte às vezes eram 80 pessoas que iam, porque era gratuito, entravam e todo mundo. Era todo o domingo. Tinha Pintura, desenho, passávamos filmes de arte que nós íamos buscar na embaixada americana, embaixada do Canadá, que tinham ótimos filmes. A gente pegava e passava de graça e fazíamos discussões, discutíamos o que víamos. Dávamos também, pintura, desenho, coisas livres, encenávamos pecinhas de teatro coisas que nós podíamos fazer com que conseguíamos, nessa ocasião de 81, 82, 83 que foram 3 anos.Depois eu fiquei ocupada demais nessa oficina de gravuras, não tinha muito tempo e mais porque eu achava que agora eles já tinham material eles se viravam eu não precisava mais ficar fazendo ponte. Aponte já tinha sido feita .Você como moradora se você tem os contatos você pode fazer ligação e se a ligação está feita você tem que cair fora, porque a tua festa já foi feita. Eu acho que você entende. Então ela tem que andar pra frente e você vai pra outra festa, mas eu gostaria que isso aqui virasse porque é muito bonito e todo ser humano tem direito ao belo. É uma questão de vida. A arvore é muito linda pra todos, desde o muito rico ao muito pobre e ela é uma coisa divina para todos terem acesso e outras coisas também. Muitas pessoas da comunidade eram envolvidas na esquerda e na época foram presas. Muitas, eu não me lembro nomes, Eu ganhei uma bolsa de estudos pra Europa eu fiquei lá um ano e meio, quando eu volto

GENTE DO MORRO
Benedita Vicente de Oliveira, conta que quando era criança, casas tinha a dela e mais três casas.Aqui era campo, aqui tinha vacaria, tinha porcos e o pai dela era uma espécie de guarda florestal e a mãe era curandeira. Ela foi trabalhar na minha casa, ela trabalhava pra mim. A casa dela caiu - um problema de construção - e eu disse: “Benedita não é possível. Alguém tem que te ajudar”, porque eu não tinha recursos. Fui tentar porque eu conhecia Zoe de Águas Freitas na época do governo. Eu tinha ligações com ela por causa da oficina de Artes do Brasil e com Terezinha Lima. Aí, a Terezinha falou que eles não podiam ajudar uma pessoa física. Eles podiam ajudar a uma Instituição.Através da Benedita falei com Zé Bernades, contei tudo pra ele. Quando eu vinha sozinha eles desciam pra conversar comigo. Quando eu vinha com engenheiro ou arquiteto ninguém aparecia. Aí eu mudei a minha tática: eles desciam pra conversar comigo porque eles conheciam a minha família, me conheciam, mas com estranhos eles sempre tinham medo, sei lá por causa de política. Então eu fiz o seguinte eu liguei pra ele e disse o seguinte: “no dia tal vai chegar alguns caminhões de material”, então nós abrimos mão dos engenheiros ou quem quer que fosse e mandamos todo o material pra que eles construíssem não essa obra que tem agora, mas aquela creche e aquela Associação de Moradores agora dos anos 80. Foi uma ponte que nós fizemos junto com o Zé Bernardes. Eu particularmente não vinha quase, mas eu pude vir porque eu mexia com arte, eu tava voltando E criei uma oficina de gravura no SESC, mas não tinha muito tempo. Eu vou até contar um lance que aconteceu em 65, ligaram pra meu pai, porque ele sumiu daqui do morro. Ai disse: “Não, eu não estou podendo vir porque eu fui assaltado”, “Como foi assaltado, como”, “Fui assaltado ali pra cima, no caminho e machuquei a perna”, “Mas como, o que roubaram”, “Roubaram a minha carteira e o meu relógio”, “Mas a gente conhece a tua carteira e o teu relógio”. Então passaram uns dois, três dias, ligaram pra ele dizendo que a carteira dele tava ali e o relógio dele tava ali também e levaram lá em casa, porque ele estava doente, estava se recuperando. Foram levar a carteira de dinheiro com o dinheiro e aí ele disse: “Não, não tinha tudo isso”, e teve que devolver, porque meu pai era todo correto. Fez devolver e pegou o relógio dele, porque o nível de relações nossa aqui era esse nível.

CASARÃO DOS PRAZERES
Era uma coisa muito linda, mas eu não tinha nenhum envolvimento no sentido de ter freqüentado nem ter conhecido pessoas. Era belíssima e por fora caindo aos pedaços, Eu sei assim que quando eu era menina tinham uns rapazes que parece que moravam aqui e era uma coisa de protestantes, mas eu nunca subi. Depois eu disse: “gente vocês tem que fazer essa casa, essa casa que é hoje, isso tem que ser um centro cultural, vocês tem que se virar, porque isso tem que ser porque tem, todos tem que ter direito a arte, todo ser humano.” O que me trouxe hoje aqui no Casarão? Eu tenho um grande amigo que é um critico de arte chamado Mario Barata e a esposa dele que é Pisciana Bonazola. Eles estão idosos, são muito queridos meus, e ele o ano passado ganhou o prêmio do critico do século XX. Ele tem 81 anos, e representa o Brasil fora do Brasil.Ele me ligou, porque eu vinha passear sozinha, pedindo que eu o trouxesse aqui com a Pisciana. Eu não posso dizer não pra eles, eles são idosos, são doentes e eu tinha que trazer. Aí viemos. E quando a gente chegou aqui estavam umas meninas sentadas falando que estavam resgatando a história de Santa Tereza. Ai eu disse: “eu tenho um pouquinho a ver com a história desse Morro aí”.

MORRO DOS PRAZERES
Eu falo desse morro porque eu fui criada aqui, eu posso entrar aqui. Porque eles disseram, eles estavam receosos porque eu subi de carro, eu disse: “eu posso subir de carro aqui”, eu acho que é um dos poucos lugares que as pessoas podem ter receios, mas eu sinto que eu posso subir, porque é no sangue. Morro dos Prazeres pra mim é Santa Tereza, é minha infância, é a dor de você ter crescido sabendo, por exemplo, que a escola Julia Lopes de Almeida, era uma escola, que ao lado dela havia um terreno imenso, e que na época da repressão, o governo vendeu a preço de banana pra uma casa particular. Aquilo tinha que ser escola publica, , tinha que ser quintal de criança brincar como essa festa que eu vi ali hoje, que era uma criança mais linda que a outra vestida de caipira. Isso era uma coisa linda, mas sabe em que ano? Você devia ser um nenê. Foi em 65, 66, 67. Eu não sou uma pessoa que eu me considere rica. Posso me considerar rica “culturalmente” Eu por um acaso tive uma casa, e eu pude ter acesso a muita coisa, agora eu sou uma pessoa que, eu luto, eu tenho que trabalhar pra sobreviver. Eu não tenho condição e muito menos político em fazer algum trabalho político. Eu nunca tive.

AVALIAÇÃO DO PROJETO
É lindo demais, e eu fiquei muito contente, muito feliz, porque eu acho, quando eu trabalhei nesse SES, eu publiquei junto com o SESC é lógico, três volumes da história da gravura do Brasil. Eu pacientemente fui entrevistando junto com historiador é lógico, 25 gravadores antigos e publicamos os três volumes contando a história. Então eu acho que a história das nossas raízes tem que ser contadas tem que ser registradas porque eu acho que é isso que forma o povo e é um orgulho para eles, um orgulho para tudo mundo. A gente vê a luta, porque é uma luta muito dura eu não queria estar na pele deles.

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