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Memórias de Iguape

História de: Félix da Veiga do Nascimento
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/01/2013

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História completa

Félix da Veiga do Nascimento Meu nome é Félix da Veiga do Nascimento, nasci em Caiobá, Peropava, município de Iguape, no dia 23 de março de 1929. Conheci somente meu avô por parte de pai. Não conheço a história da família. A única que sei é que ele era descendente de português. Meus pais saíram daqui, foram para São Paulo e por lá findaram. Minhas irmãs queriam que eu fosse com eles, mas não quis sair de Iguape, amo essa cidade, e digo: quem tiver a oportunidade de gozar e viver uma vida mais longa, venha para Iguape! São todos nascidos em Caiobá. Quando meus pais nasceram, meus avós já estavam por ali. Caiobá é um sítio que se plantava tudo, arroz, feijão, mandioca, milho, tudo saía de lá. Foi um lugar muito habitado em Peropava, aqui estiveram até japoneses quando imigraram para morar na região de Iguape. Depois eles foram saindo, mudando, muitos morreram, e a região ficou com poucos moradores. Agora, se não me engano, Caiobá tem apenas quatro ou cinco famílias. Eu tive a oportunidade, depois que me aposentei através da prefeitura, de construir a caixa d’água lá no Morro de Caiobá com capacidade para 20 mil litros d’água, a rede de água que agora abastece a zona de Peropava vem deste Morro. O projeto foi da prefeitura, e o prefeito me encarregou de fazer aquilo, fiz a obra que está abastecendo Peropava, com água de Caiobá. Foi um serviço que trabalhei e fiquei dois anos naquele mato construindo a tal caixa d' água. Caiobá tem terra muito boa, é um lugar muito produtivo, foram as primeiras terras de Iguape onde foi produzido arroz em larga escala. O melhor arroz que foi exportado foi o de Iguape, e sobre isto tem uma história longa. Depois cessou esse plantio e veio o da banana, entraram os bananeiros. Todas as zonas de Peropava eram de plantação de banana, inclusive, quando eu tinha quatro ou cinco anos de idade, meus pais trabalharam com os primeiros bananeiros que foram trabalhar no Peropava, naquele tempo, até em Iguape corria muito dinheiro. Hein! Acho que mais do que agora! Para se ter uma ideia, em Iguape saíam e entravam dois barcos por semana para tirar banana e levar para Argentina, além de exportar para outros lugares, levavam para o porto de Santos e daqui a outros lugares. Foi uma temporada boa de muito plantio. Com o tempo isto foi acabando, entrou a produção da verdura. Dois caminhões, três caminhões tirando verdura por semana lá do Peropava. Depois começaram as enchentes e isto também foi acabando. Agora está muito devagar. Têm uns moradores lá, mas já não produzem quase nada. Naquela época, Caiobá tinha mais de dez famílias de moradores só nesta região, no morro. Dentre elas, duas famílias de imigrantes. Eu tinha contato com eles, meus pais trabalhavam para eles. Faziam o plantio e recebiam a diária, ou seja, recebiam pelo dia de trabalho. E assim era a vida da zona rural. Plantar mandioca, arroz e milho; criar galinha e porco. Alguns, no final da história, tinham uma vaquinha ou duas no pasto e a vida era assim. Naquela época, quem trabalhava nas fazendas não comprava na cidade porque os armazéns daqui eram parecidos aos de uma loja na cidade, tinham tudo, não precisavam nem se preocupar de vir à cidade. Eu ainda alcancei esse tempo, todos esses armazéns abastecidos com tudo isso, era criança e tinha na época oito ou sete anos, mas lembro perfeitamente que era assim. E foi-se levando a vida, depois nós nos mudamos, saímos de lá do Peropava, voltamos para um lugar perto da Juréia, moramos perto da Barra do Ribeira. Saímos porque os bananais foram, da mesma forma que a produção do arroz, acabando, desaparecendo. Os fazendeiros de banana foram acabando, o pessoal também foi saindo, inclusive, os moradores daquela época e os terrenos que eles tinham venderam para os bananeiros fazerem o bananal, com isto, ficaram sem terra para trabalhar, então muitos mudaram para outros lugares, mudaram para a cidade. A maioria do povo hoje da cidade é este pessoal da zona rural que mudou para lá. Os primeiros bananeiros que apareceram foram três fazendeiros. Compraram o sítio, fizeram os plantios, depois começaram a produzir e a entrar dinheiro. Então os outros pequenos produtores também foram incentivados pelos maiores e começaram a plantar. Quando acabou a produção dos grandes a dos pequenos também acabou. E assim ficou toda a produção de banana do Peropava. Depois vieram as enchentes que acabaram com a zona rural, por isso que ficou pouca gente morando agora no Peropava, mesmo na Ribeira aqui do lado de Registro. Para eu historiar as enchentes, eu vou falar do Valo Grande. Este Valo não existia antes, não havia como passar para o outro lado, era tudo continente. Como o porto da cidade era do lado de cá onde existia o mercado municipal - onde agora é uma casa de artesanato que foi construída após terem desmanchado o antigo mercado de peixe - os moradores daquela época inventaram de abrir uma vala lá da barragem para chegar até o porto, perto deste mercado. Abriram esta vala feita à enxada! Diz a história que eles pulavam de um lado para o outro, de uma margem à outra, porque eles abriram um canalzinho, suficiente para entrar uma canoa com as mercadorias que vinham do sítio para o centro da cidade. Depois a força d’água foi carregando a terra, abrindo o caminho e deixou o rio medonho, por isto foi preciso colocar o Ferry Boat para atravessar de lá para cá, e agora fizeram uma passarela para travessia de tão largo que está o tal do Valo Grande. Então, quando vêm essas enchentes grandes, inundam toda a zona rural porque o rio Ribeira está tão assoreado que só quem conhece, como eu conheço, para atravessar. Tem um lugar chamado Jurumirim, lá perto de Registro, um lugar baixo, muito raso. Antes, para passar embarcação, tinha um funcionário da antiga FEPASA (Ferrovia Paulista S/A) que fazia a sondagem do rio, do canal, para as embarcações que iam daqui de Iguape para chegar até Registro, eles sondavam por onde passava o canal, pegavam o barco e levavam até Registro porque a correnteza da água de noite mudava o curso do canal, a areia é movediça e a força d’água vai mudando; então tinha aquele prático que todo dia fazia a sondagem daquele trecho à noite para passarmos de manhã para Registro. Nós dormíamos e no outro dia cedo ele saía de lá, vinha sondar novamente onde é que estava o canal, e voltava, pegava o barco novamente para passar pelo lado de cá. Hoje em dia, para se ter uma noção, passa-se a pé neste local porque aterrou tudo, não tem mais canal para passar embarcação. Há cerca de cinco anos fui de carro aqui pelo Peropava que tem uma estrada que vai à Registro, tinha uma montanha de areia no meio do rio, com mata mais alta do que essa casa aqui! O Valo assoreou toda a Ribeira e, quando dá enchente, ele inunda toda a zona rural, como acontece em Peropava, o rio inunda tudo. Eu usava muito o rio. Essas embarcações da FEPASA foram compradas dessa companhia de navegação fluvial, a antiga Sorocabana. Nós éramos funcionários dessa navegação da FEPASA. Quer dizer, não tinha estrada, não existia estrada. O único acesso dos moradores da zona rural a outros lugares era por meio da embarcação. Nós fazíamos a linha em Iguape, Iguape à Registro, Juquiá, Sete Barras e Eldorado Paulista. Eu trabalhava nessa linha. Depois fazia outro trajeto, porque não tínhamos condição também para tirar o pessoal da zona rural, nós trabalhávamos a embarcação que ia pelo Peropava, Barra do Ribeira, Rio Una e Rio Pequeno até o Rio das Pedras, tudo de barco. Nesta época a FEPASA criou uma linha de navegação do porto de Iguape à Cananéia. Depois ampliaram de Cananéia até Paranaguá, então todas essas margens do rio não tinham estrada, não existia esse meio de acesso. Quando eu morava em Peropava, eu ia para cidade de Iguape só de canoa, de canoa a remo. Mas já tinha embarcação da antiga Companhia Fluvial Sul-Paulista. Mas a maioria do movimento era só de canoa a remo mesmo. Ficávamos isolados. Agora tem estrada de todos os lados do rio, e em todos esses lugares não precisa mais de embarcação. Lá onde eu morava, na zona rural, tinha escola. Tinham muitas famílias por lá. Festa era difícil. Quando o pessoal queria uma festa pegava uma canoa e ia para Iguape, mas a festa de vinho era somente no Natal e no fim do ano. Era muito difícil ir para Iguape, mas havia aqueles que podiam mais; os que podiam menos só escutavam foguetes daqui e dali porque ir a festa que era bom não iam. No sítio a diversão do pessoal era o baile, esse o pessoal gostava. Faziam bailes, aquelas festinhas para quem ajudava no trabalho, era só essa a diversão que tinha. Acontecia em uma igrejinha da região, no lugar que o padre comia. Ficavam dois dias lá e faziam aquela festinha. Quando o padre aparecia: acabava. Essa era a diversão. O pessoal do sítio gostava de futebol também. E iam assim. Nós, eu e meus pais, por exemplo, somos evangélicos. Nossa diversão era ir aos domingos à igreja que nós tínhamos, temos até hoje. Passávamos a tarde toda, com os irmãos ali conversando e no final do dia voltávamos para casa. Trabalhávamos a semana toda retornando no domingo seguinte à igreja, com aquela mesma comunidade, com os irmãos, esta era a nossa única diversão. Minha mãe, quando eu tava com quinze anos, falou ao meu pai: “Olha, escute, nós vamos sair daqui do sítio, vamos mudar para a cidade. As meninas estão moças, os rapazes estão aí, precisam arrumar um meio de vida, não podemos ficar nessa situação aqui”. Resolvemos mudar para cá e “graças a Deus”, foi numa boa hora que minha mãe resolveu ir. Eu vim para a cidade e logo arrumei serviço. Meus pais começaram a trabalhar e já tiveram outro nível de vida, melhor do que aquele que vivíamos. As minhas irmãs, todas trabalhando. Depois, meu primo, o sobrinho dele, foi embora pra São Paulo arrumar um lugar. Em seguida levaram minha mãe, minhas irmãs, e se arrumaram por lá. As minhas três irmãs casaram, viveram e morreram lá. Meus pais e minhas irmãs morreram e eu fiquei aqui sozinho. E ainda queriam que eu fosse para lá! Eu digo: “Não vou, quero ficar em Iguape porque eu não acho um lugar melhor do que Iguape!” E até hoje eu não acho. Quando terminou a guerra, guerra de 45, nós nos mudamos para cá. No tempo da guerra estávamos no Peropava, muito difícil, precisávamos vir aqui na prefeitura pegar o que não tínhamos lá: sal, querosene e açúcar. Eram as únicas coisas que não eram produzidas e não davam na zona rural que eles forneciam, um quilo, dois quilos para cada pessoa. Terminou a guerra e a coisa melhorou e nós nos mudamos para a cidade. Era difícil a vida... Naquele tempo, na zona rural nós só ouvíamos o avião que passava por cima das casas. Não cessava de passar avião, então nós sabíamos que a coisa estava quente. Aqui na cidade tínhamos notícias porque teve um batalhão do exército que veio tomar conta de Iguape. Depois, terminou a guerra e nós viemos para cá. Em 1949 tinha aqui na prefeitura o tiro de guerra de Iguape. E eu inclusive servi neste tiro de guerra, não saí, fiquei aqui. O tiro de guerra ficou por aqui durante dois anos. A cidade, no começo quando eu vim para cá, ela era muito mínima, muito mínima. Naquele tempo eu alcancei a luz de lampião na cidade, ainda tinha luz de lampião na rua, não era luz elétrica. Depois ela veio com a usina. A usina elétrica é bem na subida do Cristo Redentor, na estrada que vai para Barra. Meu tio trabalhava nela como foguista, morava com a gente e era quem nos sustentava quando criança porque naquela época meu pai estava doente. Eu era ajudante dele e entrava dentro da caldeira para limpar seus tubos. Eu era pequeno, então ele dizia: “Você que é pequeno, entra para mim e limpa os tubos da caldeira”, e eu entrava lá com uma bucha, com uma vareta de ferro e limpava toda aquela tubulação. Todos os dias eu fazia aquilo. Eu saía de lá na cor de coisa queimada, tinha que tomar banho. Mas era menino com oito, dez anos. Bom, a usina era ali. Depois disto, os patrões compraram um motor a óleo diesel, mudaram a empresa para perto da avenida e assim desativaram a caldeira à lenha. Então veio a luz elétrica e não teve mais o motor. Na época, quando eram dez horas apagava a luz da cidade, ficávamos todos no escuro. Em compensação, a cidade era mais bem guardada que agora, tinha policiamento rondando a cidade a noite toda, e havia pouca gente. Hoje em dia não se vê mais isso aí. De tão pequena que era a cidade, havia uma parte que era de rancho de palha, não era casa de telha, era casa coberta com palha. Essa avenida da entrada da cidade, onde tem todas essas casas de comércio, era cheia de bambu, era um bambuzal medindo a partir daqui de perto do campo de futebol até quase chegar lá na barragem. Veio o progresso, arrancaram aqueles bambus, fizeram a avenida, e hoje está aí, comércio de todos os lados. A cidade cresceu bastante. E ficou bem melhor, foi melhorando aos poucos. Antes era tudo de areia, com o passar do tempo foram calçando tudo até ficar do jeito que é hoje. A cidade era só areia, não tinha nada, o calçamento da cidade melhorou de uns 50 anos para cá. Nossa casa era piso sem nada, só aterrado, de barro. Aterrava bem aterrado, muito bem batidinho, muito bem lisinho e não tenho vergonha de contar. A maioria das casas aqui era assim, ao contrário de hoje que todas as casas são com piso, cimentado. Vou contar uma coisa: Quando eu vim pra cá, a primeira casa que morei foi num rancho de palha nessa rua onde estava falando. Morei em rancho de palha aqui na cidade e “graças a Deus” fui trabalhando, fui lutando, fui vencendo e hoje tenho uma casa boa para morar. Em Iguape, no passado, parece que tinha mais dinheiro do que agora. Havia aqui quatro engenhos de beneficiar arroz. Tinha dezesseis indústrias que secavam a manjuba. Cinco fábricas que industrializavam o palmito. Uma fábrica de tamanco na entrada, perto da barragem. Três serrarias para tirar tábua que era a caxeta para fazer lápis da Fritz Johansen. Hoje em dia não existe nada, acabou tudo isso. Havia compradores de esteira de “piri”, carregavam-se caminhões e caminhões para levar para Santos para forragem de navio. Não tem nada disso hoje. Naquele tempo foi proibido o corte da madeira de caxeta, hoje as terras legalizadas têm ordem para cortar essa madeira. O corte de palmito também foi proibido e permanece até agora; a manjuba deixaram de industrializar porque o que se pesca agora não vence o consumo, o preço, de levar fresca para o Ceasa (Centro de Abastecimento S/A). O caminhão fica esperando, é carregado, vai para o Ceasa, mas não dá tempo de secar, se vende tudo fresco. Naquela época, o consumo era pouco, podia até exportar para outros lugares, e a esteira de forragem de navio, hoje em dia, não existe mais também. O IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) não deixa mais cortar nada na mata, isto para limpar o rio, é tudo feito debaixo de ordem, então não pode cortar mais e nem há procura mesmo disso. Inclusive eu, quando estava trabalhando, levei muita esteira para Paranaguá, enchia o barco de esteira e levava, pois tinha muito consumo no porto para forragem dos navios. Até 1980, quando me aposentei, ainda tinha a saída de esteira de forragem de navio, hoje em dia não tem mais. Foram coisas que fizeram desaparecer todo o trabalho do povo de Iguape, sumiu tudo, não existe mais. Não posso detalhar para vocês como era a lei que chegou, se era do IBAMA eu não sei. Só sei que está aí e num certo ponto até foi bom, sabe, porque estava muito devastada a mata, estavam devastando demais. Caça, por exemplo, estava sendo extinto demais, porque o pessoal estava acabando com tudo, por esta parte até que foi bom. Só isso o que eu posso dizer, porque para muita gente que usufruía disso, as proibições foram ruins. A sobrevivência do povo do sítio era a caça, a pesca, como agora, era como sobreviviam o povo da zona rural. E num ponto fez muita falta para muita gente que tinha pouco recurso aquisitivo até para comprar outros alimentos. Mas eu, por exemplo, não usufruí disso, eu acho que até certo ponto foi bom. Meu primeiro emprego foi numa serraria, trabalhei na serraria que fazia essas tabuinhas de lápis para Fritz Johansen (atual A.W. Faber-Castell). Traziam a tora da caxeta e industrializavam todos os pedacinhos de madeira, para isto tinham as máquinas que tiravam todas as tabuinhas, com sete centímetros de largura e vinte de comprimento. Ali se tirava toda aquela montoeira de tábuas, secava no sol, depois escolhiam as de primeira para fazer fardos para mandar para Fritz Johansen fazer lápis. Depois comecei a sair pela zona rural, ia puxar madeira para essa serraria, puxava muita madeira; buscava muita caxeta nos sítios para eles com a embarcação, tudo isso eu fiz, trabalhei. Utilizávamos o rio, com a embarcação a gente pegava lá no meio do mato e trazia para eles. Depois eu transportava pelas embarcações da FEPASA, nós tínhamos um rebocador e 12 chatões, cada chatão pegava 36 toneladas. Eu trabalhava neste rebocador, ia lá no rio, trazia o chatão carregado com 36 toneladas de toras para a serraria. Nesta época era empregado da FEPASA, e até então o meio de transporte para eles era esse, sempre quem ia buscar era eu ou outro colega que também conhecia bem o rio. Isso foi em 1970. Em 80 já não existia mais esse trabalho. Depois eu trabalhei numa indústria de manjuba, pegando peixe no rio Ribeira. Eu pegava um barco da indústria e ia buscar na Ribeira, atracando de porto em porto, recebendo a manjuba, pesando, marcando e trazendo, trazia uma barcaça lotada de manjuba todo dia. Nisto se passaram seis meses de pesca, quando terminava, recolhia-se o barco e ia fazer outra coisa. Eu recolhia o barco e o patrão já me chamava para ir para o balcão do supermercado que ele tinha. Já trabalhei nisto. “Vem aqui experimentar agora para ver se você dá para balconista. Se você acertar no balcão, você fica no balcão”. Fui para loja trabalhar no balcão, me acertei bem, quando completou um ano, eu falei: “Olha, quero sair, não quero mais”. “Mas por que vai sair?” “Não quero mais ficar aqui, eu quero sair. Balcão é uma cadeia e eu não tô acostumado com cadeia, eu tô acostumado a andar livre, solto, nisso aqui não dá para ficar. Entrar sete horas da manhã e sair nove horas da noite não é pra mim, eu gosto de andar livre”. “Ah, mas agora que você está bom no balcão, você se acertou, vai...” “Não, eu não quero, vou sair fora”. E o que fui fazer na época? Cortar palmito. Era livre na época e tinha muito para cortar. Fui para a mata, com foice e machado, eu e meu pai. Em lugares inimagináveis andei cortando palmito para sobreviver. Era muito longe, por isto, se fazia um rolo com quatro dúzias de palmito, colocava nas costas e trazia. Se você saísse de cima de uma madeira, de um ponteado de madeira, você atolava até a cintura de tão mole que era o solo. Então para não me atolar naquilo, jogava a carga fora caso atolasse. Saía do atoleiro, pegava a carga, levava num lugar mais firme e colocava nas costas novamente. Dois lugares desses que trabalhei só se fazia uma caminhada por dia, ia de manhã para a mata, tirava uma carga e de tarde voltava, quando chegava em casa já era bem a noitinha; chegava e deixava na indústria a carga de palmito, recebia o dinheiro e comprava o alimento, e depois ia para casa. Fiz isto durante muito tempo. Naquela época não tinha a proibição de cortar palmito, não tinha nada, tinha muita indústria e foi indo assim. Depois falei: “Olha, isso aqui não tá certo, deixa procurar uma outra coisa”, e fui para o DER (Departamento de Estrada e Rodagem) em 58. Trabalhei onze meses, depois abriu uma vaga na FEPASA, fui lá, pedi o lugar, me recolheram novamente, e voltei para a FEPASA no dia 11 de novembro de 1958, para não sair mais. Aposentei-me em 1980. Peguei os vinte e cinco anos de serviço com a lei da insalubridade. Contei os tempos que tinha trabalhado atrasado, aposentei com vinte e cinco anos, três meses e dezoito dias de trabalho! O DER é o Departamento de Estrada e Rodagem. Quando começaram a abrir essa estrada aqui de Iguape, a qual se chega à cidade, naquele momento eu estava lá, no dia dez de novembro de 1958. Abriu uma vaga e eu a consegui... “Vai lá no médico fazer exames, se você passar, amanhã você já entra”. Fiz o exame médico, passei. Eu trabalhei onze meses. Primeiro comecei na foice, todo pessoal que entra primeiro tem que pegar no duro, não tem vaga. “Não tem vaga para você que tem capacidade para outra coisa, mas não tem vaga para você porque já tem outro no lugar. Então pega uma foice e vai”, “Não quero escolher serviço, eu quero trabalhar para sobreviver, para mim não interessa, seja com a foice, machado, enxada, não tem problema”. Deram-me uma foice e no outro dia fui trabalhar. Trabalhei dois dias, aí faltou um motorista para levar o engenheiro no trecho de locação pelo Rio Poque, não tinha estrada para isso, andava-se pelo rio fazendo locação da estrada. O engenheiro me chamou: “Você entende de motor?” “Eu entendo, trabalhei muito...” “Vem aqui e vê se você consegue fazer funcionar esse motor”. Fui lá, peguei o motor e fiz funcionar. “O que é que tem o motor?” “Não tem nada”. “Então você fica aqui no lugar desse outro motorista, ele vai para foice e você vai trabalhar com o engenheiro”. Então fui trabalhar com o engenheiro. Quando terminou a locação da estrada me mandaram guardar o barco a motor, levaram-me para o trecho de estrada com um apontador de uma companhia que estava puxando terra para fazer o aterro da estrada, fiquei numa boa, só no lápis ali apontando caminhões de terra. Quando abriu vaga aqui na antiga FEPASA já avisei: “Olha, agora eu vou sair, vou fazer um exame para a FEPASA e ver se eu vou para lá”. Não quero ser melhor do que ninguém, mas sempre fui bom funcionário, obediente, nunca desobedeci, bem mandado, cumpria com o meu dever. Ah, mas nem o engenheiro e nem o encarregado queriam que eu saísse do DER. Mas eles me deram a demissão. Duas horas da tarde eu já entrei para cá, no mesmo dia, e fiquei trabalhando até aposentar. Fui trabalhando aqui como marinheiro do barco, fui indo, depois me arrumaram uma licença para eu trabalhar como comandante do barco para Paranaguá. Um dia me disseram: “Agora não tem mais licença. Você tem que prestar o concurso. Vê se tira a sua carta de piloto para você funcionar, se não, não damos uma licença para você”. Eu e outro colega fomos para Paranaguá, fizemos a inscrição, passamos no teste, e nos deram uma carta, para mim e para o outro colega, e assim ficamos funcionando, os dois, até aposentar. Nos aposentamos viajando para Paranaguá como piloto de barco, e esse era misto, carga e passageiro. Saía daqui às terças-feiras ao meio-dia, pernoitávamos em Cananéia, às seis da manhã nós saíamos para Paranaguá. Chegávamos às seis horas da tarde lá em Paranaguá porque ia parando, pegando passageiro, pegando carga, deixando passageiro, fazendo parada, então chegava quatro, cinco horas lá em Paranaguá. Se fosse direto daqui de Iguape à Paranaguá daria menos horas de viagem, se fosse fazendo parada intermediária, pegando passageiro e deixando e não conversando muito, não molhando muito são 12 horas daqui a Paranaguá. Diversas vezes aconteceram coisas que a gente lembra e fica pensando “Puxa vida, como é que Deus é tão bom que guarda a gente de certas coisas”. Mesmo sendo rio há tempestade de vento e tudo dá em qualquer lugar. E eu passei por cada uma na baía! Tem uma baía, a de Paranaguá, que é larga para atravessar porque ela é aberta, é imensa. Quando você sai do canal que sai na baía, você vê Paranaguá no tamanho disso aqui ó, aí você sai a caminhar, mas não vai direto porque ele tem pedra, tem terras, lugares baixos, então você tem que pegar um canal. Quando você chega ao lugar certo tem que marcar e entrar, para depois entrar no Paranaguá. Ali você passa por frente de navio, atravessa com frente, na entrada do navio. Graças a Deus comigo não aconteceu nada, nós tínhamos ordem para caminhar somente quando tivesse visibilidade, tínhamos que caminhar quando tivesse seguro, então caminhar de noite, anoiteceu, não tinha ordem para viajar, mas teve outras embarcações particulares, de Registro, carregada de banana que foi atravessar, o mar estava fechado de nevoeiro e o navio bateu no meio. Ela foi para o fundo, o bom foi que os marinheiros se salvaram, mas a embarcação foi embora. Houve momentos que eu peguei cada tempestade na baía de Paranaguá. Peguei pelo menos duas na Cananéia... Em uma dessas, o comando era de dois andares, quando batia lá na proa do barco, batia também no vidro lá em cima, assim caíram todos os vidros e fiquei no tempo lá (risos) dirigindo com a cara na chuva. Os passageiros em baixo dizendo: “Esse homem é louco! Esse homem é louco!” Que louco o quê? Quem está no perigo não pode voltar, tem que enfrentar, tem que ir para frente e graças a Deus passamos e não aconteceu nada. Outra viagem, não era eu o piloto, eu trabalhava com outro piloto, só que ele era medroso, eu não tinha muito medo, mas ele tinha demais. Chegamos a um trecho do rio, antes de atravessar a baía de Paranaguá, no rio Itiberê, isto um pouco antes da boca da Barra, entramos neste rio, o mar tava feio, chegamos ao local eram três horas da tarde e ele falou assim: “Você amarre bem o barco aí e mande os passageiros arranjar lugar pra dormir que amanhã nós saímos daqui de manhã”. Cumpri a ordem porque era ele quem mandava. Cheguei uma hora: “Olha, saiam para terra, arrumem lugar, vamos dormir, pois sairemos daqui de manhã”. Teve um morador de lá que veio e me perguntou assim: “O que vocês vão fazer aqui?” Eu disse: “Vamos dormir aqui para sair pela manhã, por isto o piloto mandou o pessoal procurar lugar para dormir, sairemos de manhã”. “Olha, esse homem é louco? Ele não quer ir agora que está bom para passar? Amanhã ele não sai daqui”. “Tá bom”. Aí fui lá transmitir para ele o recado: “Ah, esse é um doido, não sabe o que fala”, ele falou. “Então tá bom”. De noite, vento, vento, vento, e esse barco batia e ninguém dormia de tanta cacetada que dava, da onda do mar que entrava lá dentro do rio e o vento. Passamos a noite assim. Quando amanheceu, o dia estava tão feio... Não saia. E agora para sair? Então ele disse: “Vamos esperar que a maré vire de enchente, quando a maré virar ela vai toda a favor, então é hora de nós chegarmos e entrarmos”. Quando foi ali pelas nove horas mais ou menos, a maré deu de virar de enchente; quando virou a Barra adentro, ele disse: “Pode chamar o pessoal para nós irmos embora”. Chamei o pessoal do barco e saímos. Não chegou a andar 40 minutos, uma onda bateu no nosso barco, jogou para lá, jogou para cá, ele era medroso e levou um susto. “Pega o timão e vira para voltar para onde nós saímos”. Eu falei: “Agora você não volta, me dá aqui, me dá aqui”. Tomei o timão da mão dele. E o pessoal ficou gritando lá e eu aqui, o piloto tremendo no canto e eu aqui, pá-pá-pá. Quando atravessei, cheguei lá na Ilha das Cobras que fica no meio da baía, “Olha, o senhor pode pegar, está aqui”. Ele disse pra mim: “Olha, se não fosse você, hoje nós estaríamos mortos”.Falei: “Pois é, isso é para o senhor largar de ser teimoso e medroso porque o homem estava certo quando disse que não sairia daqui hoje e o senhor disse que sairia. O senhor queria conhecer mais do que aqueles que estão acostumados aqui?” Então essa foi uma experiência dura, houve passageiro que queria se jogar na água para não morrer, não sei como, num mar daqueles. Um passageiro ficou entalado pela cintura porque queria passar pela janela do barco para sair e se jogar na água antes que o barco virasse. Esse foi um. Depois, em outro dia, eu ia para Paranaguá, para Guaraqueçaba, um rebocador com um chatão desses que pesava 30 toneladas vazio, puxava ele atrás com 100 metros de espia e rebocava o chatão, iam três passageiros comigo pra Paranaguá. Quando chegou bem no meio, o tempo estava ruim, na baía de Cananéia deu um tufão de vento e o mar pegou e jogou a lancha pra lá e pra cá, os passageiros eram duas moças e um homem dormindo em cima do banco no salão. Caíram no chão, bateram a testa e todos se assustaram. E o vento ali! Ele pegou o rebocador direitinho assim, e tombou, ficou de lado. Eu fiquei com a cabeça aqui fora da porta da casa do comando, só dava para sair para o lado de cá, mas segurando o leme aqui. Eu não podia largar e não podia desligar o motor também. Tinha um marinheiro muito bom, alagoano, que me disse: “Escuta, o que você está precisando aí?” “Estou precisando que você me amarre a âncora e jogue ela aí para mim”. Ele saiu de calção lá na chuva, chegou lá, amarrou a âncora, jogou o ferro lá; quando o ferro chegou na terra, que segurou o rebocador, eu desliguei a máquina e o rebocador endireitou, ficou direitinho e eu fiquei segurando ali no ferro até a tempestade passar. O chatão lá atrás nem se mexeu, é livre, mas no ancorador onde tem a casaria, ele pegou, achou resistência e queria tombar. Aí ficamos ali até passar a tempestade. Depois que passou levantamos o ferro e fomos embora seguindo viagem. Então, foram algumas vezes que eu peguei estas tempestades feias no mar. A empresa não existe mais. Ela se uniu com o departamento hidroviário que pegou todas as embarcações. E nós fomos trabalhar com o hidroviário, fui trabalhar no Ferry Boat, esse que dá passagem lá na Barra. Depois me aposentei e pegaram também as embarcações, algumas recolheram lá para ver e servir de carvalho, outras ficaram por aqui mesmo, isto tudo acabou. Eles têm uma embarcação ainda do hidroviário, que vai do porto de Cananéia ao Ariri e Marujá, ainda faz, mas nem vem mais para Iguape. Não tem mais produção de nada e tem estrada em todo lugar, até na beira do rio por aí, por exemplo, agora tem a Ilha Comprida, lá tem estrada que vai pela praia até Cananéia. Pela margem de cá tem estrada, por todo lugar. Não faz falta a embarcação, e por isto acabou. Hoje não se produz mais nada, aqui não se produz nada. A única coisa é a pesca da manjuba. O pessoal que pesca manjuba já tem os caminhões deles em que pegam a pesca e a colocam, levam para o Ceasa e não se industrializa nada, não tem mais nada. A cidade tinha mais gente. Hoje, por exemplo, o pessoal que é moço, que tem um objetivo na vida, eles têm que sair daqui e procurar campo em outra cidade, em outro lugar onde exista trabalho, um lugar para estudarem melhor, tem muita gente aqui de Iguape que saiu e está saindo ainda. Eu não cheguei a ir, a minha família... Só um neto que saiu daqui para trabalhar fora que está em Curitiba. Ele é casado, tem a mulher, a filhinha. Uma filha minha também está lá em Curitiba, ela tem outro filho, e meu outro filho também já casou, eles estão lá em Curitiba, ele é administrador de empresas. Meu filho estudou e está lá trabalhando, a mulher estudando e é farmacêutica, estão levando a vida deles para lá. Um filho, o segundo filho, trabalha num cartório aqui, tem mulher, um casal de filhos, um filho está em São Paulo estudando também, fazendo faculdade. A filha mais velha é mulher de um funcionário desse cartório aqui de frente que já se aposentou, tem um filho que trabalha no cartório com a mulher e outro que é médico, trabalha em São Vicente e assim a família... Eu tenho um filho que é policial, trabalha em Juquiá, a mulher dele é professora, tem dois filhos e mais uma filha que estão estudando para “puxarem o carro” porque aqui não tem lugar para ficar. Eu já estive em São Paulo, muitas vezes. Meu cunhado morava lá e minha irmã. São José dos Campos, minha irmã morava lá, já estive lá. Minha mulher ficou uma temporada com meu filho em São Paulo, fazendo um tratamento, na casa da minha irmã. Faz uns 50 anos isso. Aqui em Iguape, quem viu a cidade do jeito que era, acho uma cidade interessante, o jeito que ela é agora... porque quem viu a cidade sabe que não tinha nada, como falei, aqui era só areia, não tinha jeito de a pessoa andar em umas ruas por aí. Hoje em dia você vê a cidade calçada, a rua asfaltada, é... Ilha Comprida não tinha nada, hoje em dia é uma cidade tão bonita que a gente quer sair daqui e acha interessante passar essa ponte que atravessa pra Ilha Comprida, foi uma obra que fizeram muito boa. Então eu acho interessante Iguape, por ser uma cidade muito gostosa da gente viver, sossegada, descansada, um lugar de fazer amizade facilmente com o povo daqui. Este povo é hospitaleiro, se chega aqui e faz amizade com qualquer um; não te conhece, você conversa com eles, e te recebem com alegria, com carinho que em muitos lugares não se encontra mais isso, e aqui sim. Tem muita gente que se cativa com esse carinho do povo de Iguape, tanto que tem gente que tem mudado para cá, saiu de São Paulo para viver em Iguape, para morar aqui. As dificuldades aqui, as maiores dificuldades que passamos foram na época que já citei. Quando eu morava na zona rural médico em Iguape era muito difícil. O povo de Iguape sarava de certas doenças, se curava pela misericórdia de Deus porque não tinha recurso, não tinha auxílio médico. Mesmo agora, reclama-se que a assistência médica é ruim, não é assim uma assistência que a gente diga que ela é 100%, mas não é igual aquela assistência de antigamente que Iguape não tinha. Não tinha médico. Eu fiquei doente com... Eu tinha vinte anos, me deu a febre paratifo e não tinha médico que soubesse o que era, não só eu, nós éramos três, deu em três rapazes aqui. Um homem já era casado, mas nós dois éramos solteiros e não tinha médico que soubesse o que era. Quem nos acudiu nessa doença foi um farmacêutico, um homem que trabalhava como farmacêutico na Santa Casa aqui, época em que ainda funcionava a Santa Casa. A minha mãe foi lá e o chamou, ele veio aqui, olhou... “Tá com paratifo. O remédio é “queio”, repouso e regime. Se não fizer regime não vai escorar”. Chamaram na casa do outro rapaz, foram lá e a mesma coisa; chamaram na casa do outro e ele falou a mesma coisa, mas o outro era da zona rural, lá de onde eu morava, ele chegou e disse para família: “Olha, eu quero almoçar carne seca com feijão hoje”, e não podia comer porque o paratifo deixa o intestino tão fino, mais fino que uma folha de papel, se bater qualquer coisa dura ele fura e mata. Ele exigiu, queria comer carne seca com feijão, compraram e deram para ele almoçar. Quando foi de tarde já estava lá esticado na sala, morreu na hora, não aguentou. Eu e o outro rapaz fizemos o regime como o farmacêutico mandou fazer, depois que completou os sessenta dias do regime, eu disse para minha mãe: “Eu quero ficar mais trinta por minha conta agora porque o que eu passei não quero voltar a ter mais”. Fiquei mais trinta dias comendo água de arroz com batata, batatinha e nada mais. Eu tô aqui com 82 anos, o outro tá com 82 também, e o outro foi-se embora há 40 anos. Disse o farmacêutico que, naquele tempo, ninguém procurava chuveiro para tomar banho, era na água do Valo Grande, essa água tem tudo o que é tipo de sujeira e ele disse que foi micróbio vindo do banho da água do Valo. Em questão de remédio não se usava a mata. A maioria do povo aqui da cidade veio da zona rural, também tem muita gente de outros lugares que vem para cá, gostam da cidade e aqui ficam. A maioria do povo que mora aqui é gente de fora, vem de São Paulo, vem de outros lugares, gostam daqui e ficam. Gostam desse aconchego, dessa amizade e permanecem. Um dia eu estava na porta da minha casa - tem uma sombra de uma árvore assim, em dia de calor ficamos embaixo dela pegando ar fresco, eu coloco minha cadeira ali, a esposa, os vizinhos, ficamos ali conversando - um dia eu estava lá, sentando ali pegando ar fresco, quando chega um carro com uma senhora e o marido, pararam de fronte e foram falar com o vizinho que mora de frente para minha casa. Daqui a pouco o correio chegou, veio com as correspondências, deu na minha mão assim, entregou-me a correspondência, aí ela disse: “Olha, o senhor sabe que eu ainda não vi em nenhum lugar do mundo o correio entregando correspondência na mão da pessoa na rua, nunca vi, não tem lugar assim, um lugar de sossego, um lugar tão gostoso quanto esse aqui eu nunca vi”. Eu disse: “A senhora mora onde?”, “Eu moro em São Paulo, eu tô na Ilha, mas vou comprar uma casa e me mudar para cá, para Iguape, aqui é um lugar de viver a vida”. Aqui eu conheço todo mundo, as pessoas às vezes me perguntam: “Você conhece fulano de tal?”. Os nomes das ruas: “Você conhece onde fica a rua tal aí?” Eu não marco o nome de rua, mas “Quem que você procura?”, “Eu procuro fulano de tal”, “Olha, então ele mora aqui em tal lugar assim, assim, assim”. Então, o nome da pessoa a gente identifica mais do que nome de rua, eu conheço muita gente aqui. Tem uma vizinha lá que está com noventa e dois anos, vizinha muito boa, muito “achegada” comigo, ela falou: “Mas não tem quem você não conheça, conhece todo mundo aqui. Se perguntar você conhece todo mundo?” “Convivo com todo mundo, viajei para muitos lugares, muita gente que eu conhecia de outros lugares mudaram pra aqui, eu conheço muita gente; em outras cidades conheço muita gente, então é fácil conhecer”. As comunidades indígenas não têm contato. O que tem é um casal que mora aqui perto, vendem na feira o palmitinho deles, vão embora, não tem contato com a gente. Quilombos por aqui não têm. Iguape, do jeito que está eu não sei como vai ficar, não se sabe porque coisa boa a gente não espera, só coisa ruim. Em todo lugar está assim, não adianta a gente dizer que é só aqui em Iguape porque em todo lugar a maldade tomou conta da humanidade, que ficou num certo jeito que não se tem mais segurança em parte nenhuma e acontece coisa que a gente nunca viu. A gente conversa sobre isso em casa, com a patroa, não se sabe como isso vai ficar, nunca se viu coisa igual. Quando eu mudei aqui para a cidade a vida foi outra, outro meio de viver que eu nunca esperava, nunca esperava. Só tem uma coisa, a fé que eu tenho no meu Deus, nunca me esmoreci com nada. Tenho a esperança tão grande na providência divina que não acho dificuldades certas horas. Dificuldade que eu passei maior foi quando morei no sítio e passei muitas dificuldades, mas depois que vim para cá tenho tido felicidade na minha vida, e às vezes eu brinco com a mulher em casa, uma hora para gente brincar e descontrair a coisa. Eu digo para ela: “Olha, eu sou rico”, “Ah, eu tô vendo mesmo que você está, tem uma dinheirada guardada aí que é uma coisa”, “Não, não é a isso que eu me refiro, mas pelo que nós temos recebido da mão de Deus, eu sou rico porque eu não tenho sofrido dificuldade nenhuma”. Tenho passado por dificuldades, doenças, eu, a família e quando eu estava criando os filhos foi com luta, com dificuldade, com salários pequenos, mas vencemos, graças a Deus criei todos os quatro, todos estudaram até onde puderam, todos eles estão colocados, têm a sua família e estamos nós dois sozinhos, eles não dependem de mim, nem eu dependo deles, só dependo deles para cuidarem da nossa velhice, eles têm que dar uma cobertura para levar ao médico, levar para cá, levar para lá, eu tenho. Mas dizer que a gente precisa andar apertando a situação deles por causa da gente, não. Eles têm muito cuidado conosco, e nós ao dar uma assistência como pais deles, mas não tenho preocupação, nem outro problema. Não temos problemas com eles porque foram filhos bem criados com nossa educação, como pudemos, foram bem criados e estão criando os filhos deles na mesma disciplina, não se tem dor de cabeça com filho nenhum e com neto nenhum, então é uma tranquilidade que a gente não sente dificuldade. É interessante contar como eu conheci minha esposa. Ela tinha 14 anos, a mãe dela ficou doente lá na zona rural e a trouxeram para se tratar aqui na cidade. Ela ficou na casa da minha tia que morava aqui, era conhecida deles e ficaram na casa dela. Eu morava para cá. Quando foi num dia de tarde, eu cheguei do trabalho e falei: “Vou lá na casa da minha tia para ver como ela está”. E fui lá na casa, quando cheguei vi a mocinha. Como eu nunca tinha visto... “Boa tarde!”, “Boa tarde!”. Ela, alegre, falou comigo e tal, conversei ali um pouquinho, entrei, conversei com a minha tia e fui embora. Eu vi a alegria dela. Quando foi no outro dia eu falei: “Hoje vou lá ver a titia, outra vez, como amanheceu hoje”. Voltei lá na outra tarde e tivemos mais um papo novamente, perguntei onde ela morava, e ela me contou que era na zona rural, um lugar assim tal, tal, tal e fui embora. Nunca mais nos vimos. Depois, quando foi um dia, embarquei e fui trabalhar; saiu uma viagem lá para o local onde ela morava, “Ah, é nesse lugar que nós vamos viajar hoje que mora aquela moça que estava lá na casa da minha tia. Eu quero ver se a vejo, ela disse que mora num lugar assim, eu quero ver...” Eu fui para lá, ia, voltava, não via essa moça, nunca mais vi. Passou um tempo, ela estava com catorze anos, quando ela estava com dezessete anos os pais compraram um lugar bem perto da casa onde eu morava. Quando eles mudaram pra cá, num dia eu olhei e a moça lá, pertinho da minha casa! “Ah, pois é, aquela é a mocinha que encontrei e nunca mais vi”. Aí nos encontramos, começamos a conversar e dali saiu esse tal de casamento! Eu já tinha gostado de outras moças, mas nunca “casou” uma que desse interesse no meu íntimo para casar, a única foi ela. Casamos e estamos aí, ela com 78 anos, e eu com 82. E assim estamos levando a vida, ela está um pouco doente porque agora tem doença do coração, diabetes, osteoporose e mais complicação, perdeu uma vista já por causa da diabetes, já está enxergando pouco com a outra vista; perdeu a audição, está escutando só com um ouvido também, com aparelho, e ficou com as pernas fracas por causa da osteoporose. Tem esquecimento, esquece muito. Hoje, eu que faço a comida, aprendi a cozinhar no barco, dou todos os remédios na hora e tem uma moça que trabalha lá em casa conosco que faz a limpeza da casa. Acho que o que eu tinha de falar, falei... A região da Juréia é muito bonita. É muito bonita essa travessia aqui da Barra do Ribeira, você chega ali e já é uma paisagem bonita, você olha lá no morro da enseada e já vê que é bonita. Atravessou, pegou a estrada, foi lá no Costão a pé, é muito bonito. Eu já estive lá no acampamento na Juréia, já estive lá. Muito gostoso, muito bonito ali. Foi bom dar a entrevista. É bom a gente conhecer outras pessoas e outras pessoas nos conhecerem. Vou dizer uma coisa aqui com sinceridade, é uma brincadeira que eu faço lá em casa com a mulher, mas é a realidade. Um menino nascido lá daquele mato de onde eu saí, vim aqui para cidade, eu não pensava em conhecer certas pessoas como vocês, da posição de vocês, me procurarem para eu poder ter uma conversa e falar aquilo que eu sei, para explicar a vocês. E eu fico grato por isso, agradeço desde o primeiro dia marcando essa entrevista, e fico grato por me procurarem, poder dar as entrevistas a vocês, falar aquilo que sei a respeito da nossa cidade. Eu agora a pouco ainda falei para o rapaz que está lá em casa passando uma tinta na parede, falei pra ele: “Aqui, a vida para mim é muito boa”. Eu tenho uma coisa que é a vida, que tem um sentido muito bom, muito gostoso, mas a pessoa tem que saber viver a vida, se não souber vivê-la, não tem sentido nenhum. E o sentido que eu acho é o da pessoa ter amizade, ter bom contato com o nosso semelhante, com os nossos amigos, irmãos, isso é bom. Agora, quando a pessoa não sabe viver esta vida, ela não tem sentido. Eu penso assim. Eu estava falando para ele assim: “Olha, quando eu fui moço, eu nunca pensei em morte, nunca pensei em velhice e nunca pensei em doença”, quando a gente é moço a gente não pensa em nada disso, a gente só pensa em viver a vida que a gente quer viver, passear, andar e não pensa que vai ser velho, que vai ficar doente e que vai morrer. Pelo contrário, eu tinha medo de morrer quando era novo porque eu queria viver ainda para ver como é que era a vida neste mundo. Hoje em dia eu não tenho medo da morte, falo francamente, eu não tenho medo porque sei que uma coisa certa que ficou para nós é a morte, não tem dois caminhos para desviar, só tem que entrar por um, então tem que ser assim. A doença é Deus quem nos dá, nós temos que nos conformar com aquilo que Ele nos manda. E a idade, outra coisa que muita gente não quer é ser velho, não quer ser isso, não quer ser aquilo. A pessoa tem que ficar velha, e com a idade que têm quando fica velha, usufruir de muitos benefícios que não usufrui quando é moço. Então para mim a vida tem um valor e um sentido muito grande, mas nesse aspecto, sabendo viver a vida, se não souber viver a vida, não adianta viver.
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