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História

Memórias da Rua Augusta

História de: Álvaro Lopes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/06/2005

Sinopse

Identificação. Atividades do pai. Lembranças da Rua Augusta e de sua infância. A educação recebida. As primeiras funções no empório do pai e os produtos que existiam. As irmãs. Avaliação da Rua Augusta. O uso da caderneta e a evolução dos produtos. Os fornecedores e a Rua Santa Rosa. A dificuldade de abastecimento durante a Guerra. Os portugueses e os supermercados. O dia a dia de trabalho. O sítio e o fornecimento de produtos. Casamento e filhos. Projetos realizados.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO

Meu nome é Álvaro Lopes, nasci em São Paulo, em 10 de abril de 1925. Meus pais são Daniel Lopes e Lúcia Zigonato Lopes. Meu pai nasceu em Portugal, em Figuerôa dos Vinhos, e a minha mãe em São Joaquim da Barra, estado de São Paulo.

 

TRABALHO DOS PAIS

Meu pai foi carpinteiro, depois ele passou a ser comerciante de cereais no interior. Transferiu-se pra São Paulo e montou, em 1920, uma loja na Rua Augusta chamada Armazém Nazário, lá no número 400. Em seguida, ele montou o Santa Luzia na Rua Augusta, 1.724, em 1926. Há 12 anos, nós mudamos pra Alameda Lorena em sede própria (nossa antiga era alugada) e permanecemos até hoje.

 

IMIGRAÇÃO PARA O BRASIL

Meu pai veio em 1915, como imigrante. Ele foi pra Santos e depois se transferiu pro interior.

 

SÃO PAULO ANTIGA

Quando eu era pequeno, lembro que não tinha luz elétrica. A Rua Augusta tinha uma linha de bonde simples e eu sentava no degrau da loja pra ver o homem que vinha acender o lampião de gás. Ele vinha com uma vara que tinha um isqueiro na ponta e com uma chave para abrir a caixinha. Puxava uma cordinha e acendia o lampião. Ele vinha sempre ao anoitecer, cinco e meia, seis horas, de acordo com a época do ano. E vinha de manhã cedo apagar, mas eu não assistia, estava dormindo [risos]. As ruas não eram calçadas, só a Rua Augusta, e a coleta de lixo era feita por burro. Aquelas carroças de burro e o sorveteiro, que punha gelo em volta da vasilha. A refrigeração ainda estava começando. Havia vendedor de pirulito, aquela pirâmide de palha com os pirulitos espetados. Aos domingos passava o vendedor de cata-vento de papel. Todo dia passava o homem das cabras, com seis, sete cabras vendendo leite. Ordenhava na hora, você ia lá com o copo, tirava o leite, tomava e levava pra casa. O leiteiro vendia leite da torneirinha da Vigor, um carro puxado por burro com um tanque. Essas são as coisas peculiares daquele tempo. Hoje o progresso é outra coisa. Naquele tempo, eu era garoto, pequenininho. Depois eu fui crescendo e os bondes eram todos abertos, então apareceram os bondes fechados e depois é que duplicou a linha na Augusta, que era linha simples e ia pertinho ali, só até o Jardim Europa.

 

SÃO PAULO ANTIGA – PRAÇA ROOSEVELT

A Praça Roosevelt era um monte de prédios. Ela só foi demolida quando fizeram a avenida que passa embaixo. A única coisa que existia era o colégio, que hoje está abandonado. Era em frente ao Armazém Nazário, onde meu pai teve o primeiro estabelecimento.

 

EDUCAÇÃO

Estudei no grupo escolar da Rua Augusta e depois no Colégio Rio Branco, lá da Vila Nova, não no novo, no antigo ainda. O antigo tinha o colégio de um lado e o internato do outro, com um túnel que passava por baixo da Rua Vila Nova e comunicava os dois. Nessa época que eu estudei lá. O grupo escolar e o ginásio antigamente eram diferentes, eram cinco anos. O currículo era todo diferente, as matérias eram outras, hoje simplificou tudo. Acho que naquele tempo era mais eficiente. [Estudava-se] latim, física, química. Português era muito puxado. Geografia, história e ciências eram as matérias que traziam uma cultura muito boa, e a matemática sempre foi a mesma. Hoje é muito liberal e não sei se a preparação é igual. Tinha francês e inglês, tudo era obrigatório, nada era facultativo, tinha cinco horas por dia de aula, e hoje não tem nada disso.

 

CASA SANTA LUZIA – INFÂNCIA

Eu ajudava em tudo que pudesse. Quando eu era pequenininho, o azeite português tinha um selo vermelho, então a minha função era pegar o sabão, sabão Vencedor, porque era mais macio, do Matarazzo. Eu passava o sabão nas latas e colocava o selinho, lembro perfeitamente. E outra: antigamente engarrafava vinho na própria loja. Eu ajudava a lavar a garrafa. E fazia entregas pertinho. Depois fui crescendo, fazia de bicicleta, visitava freguês, ia tirar pedidos. Anotava o pedido, aprontava e levava, de bicicleta, com o cesto no guidão ainda, uma cesta de vime grande. Isso diariamente, para os mesmos fregueses. Os pedidos eram o trivial. Não tinha muitas coisas especiais naquela época, não havia frango como hoje, nem havia as carnes embaladas, preparadas, nada disso, era muito mais simples. Nós vendíamos frango vivo, imagina. Antigamente, as donas de casa tinham cozinheiras, matavam, limpavam, arrumavam. Hoje só no mato, só na roça é que existe isso. Vendíamos também doces, doce de batata, cocada, pirulito, doces comuns. Agora, em conservas tinha de tudo, importado e nacional, e tinha bebidas de tudo quanto era jeito também. Hoje estão muito mais diversificadas, no mundo inteiro surgiu uma variedade muito grande. Antigamente, a vodka não se falava, era gim, uísque, champanhe de cores. Conserva era quase tudo dos Estados Unidos. Uísque americano vendia alguma coisa, porque logo que acabou a guerra tinha muito americano no Brasil, vieram estadistas, militares. A Kellogg's americana vendia, naquele tempo importava direto, porque não tinha nacional que substituísse. Tinha guaraná. Depois da guerra veio a evolução do mercado [de refrigerantes]. A Coca-Cola foi pioneira, até hoje é. Aí vieram outras marcas.

 

PRODUTOS – SORVETE

O sorvete era feito lá na loja da Augusta. Minhas irmãs faziam a massa e batiam na própria sorveteira. O sistema era uma caixa grande onde eram guardados os tubos com o sorvete. Era cheio de salmoura com tubulação de cobre onde passava o gás, resfriava a salmoura e transferia para o sorvete. Ela ia batendo e tirando da beiradinha com a pá de madeira.

 

FAMÍLIA

Tinha quatro irmãs. Elas não trabalhavam na loja. Ficavam em casa, mas ajudavam a servir a refeição pros funcionários. Quando precisasse descia, porque meu pai era português e não gostava muito de mulher no serviço. Hoje é ao contrário, a mulher está passando o homem, eu tenho funcionária mulher melhor que funcionário homem, evoluiu muito isso. Mulher a cabeça é mais assentada. Homem é meio intempestivo, muito sonhador, não tem persistência, quer evoluir rápido, de qualquer maneira, e acaba levando sempre a pior.

 

TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – CASA SANTA LUZIA

Passei lá por toda minha vida. Tenho a impressão de que naquela zona ali eu sou o comerciante que mais permaneceu dentro de uma loja só. Não tem ninguém que aguentou 68 anos dentro de uma loja. Acho até que teria cansado, confesso que alguma vez eu já cansei, mas a gente ganha amor àquilo que faz e dificilmente larga. Agora é que não adianta mais largar.

 

SÃO PAULO ANTIGA – RUA AUGUSTA

A Rua Augusta era uma rua calma, sem nada. De repente, começou uma evolução grande, ela veio com todo vapor. Falaram em fazer passagem, mudar o trânsito pras ruas laterais, depois proibiram estacionamento, isso matou a Rua Augusta, que era corredor de passagem. Aí começou a decadência, passou de uma rua muito fina a uma rua média pra popular. Isso de dez, 20 anos pra cá. Faz uns 25 anos que a Rua Augusta ficou famosa, e hoje ainda é famosa, as transversais só têm lojas finas. Tornou-se um centro de gastronomia que está repleto de restaurantes, fast-food, tudo isso que você vê lá. Mas acho que aquela finesse terminou. Ainda tem um bom comércio, mas a Augusta está cheia de loja vazia. O comércio não está comportando os aluguéis que estão pedindo. O Old England, por exemplo, é uma loja tradicionalíssima, que estava na esquina da Lorena com a Augusta. Mudou-se, foi embora de lá, porque o que ela vende já não tinha comprador. A abertura dos shoppings, com estacionamento fácil, também diminuiu muito o movimento. Sem estacionamento não tem negócio, a pessoa entra, estaciona, fora de chuva, fora de sol, fora de tudo, não está sujeita a ser assaltada. Na rua é comum chegar lá e encontrar o carro com o vidro arrebentado. É quase todo dia. Onde o cliente encontra segurança, onde tem um bom atendimento, ele vem mesmo, não tem dúvida.

 

CASA SANTA LUZIA – CADERNETAS

Antigamente era assim: você fazia o pedido e tinha uma caderneta mensal. Ia tomando nota, no fim do mês fechava e entregava pra pessoa conferir e pagar. Não se levava o dinheiro e pagava na hora, isso é modernização. Faz bem uns 20 anos que deixamos a caderneta. Com a inflação teve que cortar, porque você no fim do mês ia receber menos do que tinha vendido. Não compensava. Nós suspendemos e mantivemos a tradição com alguns clientes, e depois começamos a cobrar correção diária. Depois, não tinha condições e a clientela se acostumou. Não teve problema nenhum.

 

CASA SANTA LUZIA – PRODUTOS

A evolução tem sido muito grande, em todos os setores, não tem um que você diga que não evoluiu, todos evoluíram. O azeite hoje, [por exemplo], ele não tem colesterol, ele é mais bem tratado, refinado. Não é espremido na pressão e depois enlatado, ele é refinado, analisado. Vai pro laboratório, depois é que ele vem pro consumo. Cereais se vendia a granel, mas depois passou a ser embalado, hoje é tudo embalado. Compensa comprar empacotado, é mais selecionado.

 

COMPRAS – MERCADO MUNICIPAL E RUA SANTA ROSA

Eu comprava na Rua Santa Rosa e no Mercadão. Cereais na Santa Rosa, que não havia empacotado, e as frutas, no Mercadão, que era o centro comercial de frutas de São Paulo. Ia todo dia, às seis horas da manhã. Tínhamos uma perua, eram carros adaptados para carga, porque na guerra não tinha nada, o cara que tinha um furgão era o rei. Eu não podia comprar um furgão daqueles. Em 1946, nós compramos um todinho de aço fechado, e comecei a funcionar melhor, mas antes de acabar a guerra não tinha, era tudo na adaptação. Na Santa Rosa era do mesmo jeito, fazia compras com um caminhãozinho Chevrolet, chamava-se “cabeça de cavalo”. A cabine era de madeira toda aberta, tinha só uma porta. Eu era menininho e era um caminhãozinho que não tinha nem freio hidráulico, era de varão. Eu ia junto pra fazer as compras e raramente voltava acordado, lembro muito bem disso. Comprava-se arroz, feijão, pegava aquele parmesão italiano lá na Rua da Mooca. Tinha um depósito de azeitonas e queijo parmesão. Passava no mercado, carregava com fruta seca. Hoje nós não compramos nada na praça, importamos tudo. O mercado da Rua Santa Rosa está ultrapassado, não sei como permanecem lá. Você não pode encostar um carro, os guardas vivem infernizando, não tem condições. Faz 20 anos que eu não vou lá, você não tem onde estacionar, então é preferível pedir por telefone para outros fornecedores. O Mercado Central é outra coisa inútil, só tem aquele estacionamento pequeno que pra ir lá eu vou seis horas da manhã. Já devia ter mudado pra uma das marginais tudo aquilo. O Ceasa funciona muito bem, meu caminhão vai todo dia ao Ceasa e faz duas viagens: uma de fruta, outra de legumes e verduras, porque é fácil entrar, sair, estacionar. Santa Rosa morreu, esse tempo já passou, não vai voltar mais. Tinha a razão de ser que era a estação do Pari, de cargas, que era encostada na Santa Rosa e forçou o crescimento da zona cerealista, porque vinha tudo por estrada de ferro. Hoje a estrada de ferro não traz mais nada, aquilo virou museu.

 

COMÉRCIO E SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

No tempo da guerra o que não tinha era farinha de trigo, óleo, tudo era racionado. A farinha de trigo vinha da Argentina, via marítima. Não tinha por que estavam exportando tudo pra estoque de guerra? Devia ser isso, mas eu não me aprofundava em nada disso. Você não tinha acesso a essas coisas e a imprensa estava brecada. Os produtos eram racionados. Você ia na Sunab, na Avenida da Luz. A gente ia pegar as cotas, levava no açúcar Tupi ou na União e recebia. Depois recebia a cota do óleo, então isso aí era uma coisa terrível, acabava. Existia um câmbio negro tremendo naquela época, nós não participávamos disso porque não valia a pena. Só os grandes que estavam entrosados no sistema é que podiam fazer, nós nunca fizemos. Essa época foi difícil, uma época bem ruim, a gente não ganhava nada. A margem era pequeníssima e não tinha mercadoria. Se não fosse a persistência teria desistido, mas nós nunca desistimos, sempre fomos levando. Outra coisa importante é que nós éramos humildes e somos até hoje. Nunca fizemos questão de aparecer nem de ficar muito ricos. Nós somos classe média e naquela época passamos mal, mas todo mundo passou. Acabou a guerra, veio a evolução, foi melhorando, mas foram cinco anos duros, difíceis. Com o fim da guerra houve uma invasão de produtos americanos, até macarrão. Uma vez eu importei uma remessa de macarrão americano que chegou bichado. Foi a maior decepção da minha vida, nunca vou esquecer.

 

IMIGRAÇÃO PORTUGUESA E SUPERMERCADOS EM SÃO PAULO

Só conheço a história do Pão de Açúcar. Ele é português, a mulher dele era uma grande confeiteira, montou uma doceira Pão de Açúcar lá na Brigadeiro Luís Antônio. Dizem que português é burro, mas não é nada burro, burro são os que pensam [risos]. Ele montou o supermercado, era um homem português de uma índole boa. Tinha esperteza, tinha cabeça boa. Quando teve dinheiro suficiente, mandou os filhos pros Estados Unidos e os filhos voltaram com a ideia de supermercado, são esses que estão aí! Ele montou o Pão de Açúcar e a evolução foi automática, foi um dos primeiros. O Peralta é a mesma coisa, também progrediu, não foram os pais, foram os filhos. Os pais conduziram e eles encaminharam. Tem o Supermercado da Vó, eles vieram de padaria, hoje é uma potência. O Gonçalves Sé foi a mesma coisa, são portugueses que vieram, mas evoluíram porque já eram inteligentes. Não vieram aqui no tempo do descobrimento, vieram depois, vieram porque queriam vencer. Como os italianos, os gregos, os turcos, tudo evoluiu na vontade de trabalho, na perseverança e na força. Cada um no seu setor trouxe a evolução, e o português sempre deu pra padaria, bar e restaurante. Você não vê nenhum alemão dono de supermercado, não vê nenhum judeu em supermercado, você não vê nenhum polonês no supermercado. Cada um tem uma tendência, cada um seguiu seu rumo e é isso que trouxe a evolução pro Brasil. E, se não fossem os nordestinos, eu queria ver quem trabalhava. Cearense é espertíssimo, então não é só o português que evoluiu, todo mundo evolui desde que tenha vontade de trabalhar.

 

COTIDIANO NA CASA SANTA LUZIA

Atendo clientes, compro, fiscalizo funcionários, a limpeza, a entrada e saída de mercadoria. É atenção total dentro da loja, não pode desviar. Conheço os clientes, muitos até a terceira geração. Já tem bisnetos dos primeiros clientes dentro da Santa Luzia. Muitos já morreram, já terminou o ciclo. A gente tem uma coisa diferente na mão, e tem que continuar a ser como ela é, não pode mudar. Só [trabalhamos] com coisas muito finas e muito boas e com honestidade no atendimento. Nada de preço alto, tudo com preço justo. Ninguém é trouxa. Eu tinha um amigo lá na Rua Santa Rosa, chamava-se Bovino de Gracia, e na placa da loja dele tinha um prato em relevo, no fundo, um trem, e o cara em cima da linha. Embaixo estava escrito assim: “Aqui ninguém é trouxa!”. O lema ficou.

 

ATENDIMENTO AO CLIENTE

O cliente que já conhece quando não encontra o produto procura a pessoa indicada. Esse indicado sempre sou eu, que estou lá. Às vezes, não tem porque não foi buscar no depósito. Eu dou essa atenção, vou saber por qual motivo não tem e, se tiver, eu mando pegar na hora. Essa é a diferença, a gente está ali pra atender. Se falta um funcionário, eu entro dentro de um balcão e vou atender. Freguês não tem que ficar esperando. Eu vou e atendo, não tem problema nenhum. É por isso que eu não saio de lá. Receita se precisar também a gente dá. Quando a receita é simples, como faz isso, como faz aquilo, a gente sabe. Sempre gostei disso e quando é mais difícil eu chamo a chefe de cozinha pra dar uma explicação.

 

COZINHA

Tenho uma cozinha com dez funcionários de congelados. Tenho uma nutricionista da Unicamp e tenho uma banqueteira, uma cozinheira. Elas fazem testes. Este mês a nutricionista está fazendo um teste de brócolis na Unicamp pra ver os valores nutricionais. Ela me trouxe as sementes desse brócolis, eu mandei plantar no meu sítio. SÍTIO [No meu sítio] eu planto mâche, tomate, abobrinha, pepino, repolho roxo, repolho branco, espinafre, alface roxa. Planto catalônia, escarola, mandioquinha, mandioca. São uns 30, 40 produtos. Sempre tem milho doce americano, que eu mando vir a semente. Tenho lá menta verde, estragão, cebolinha francesa, manjericão, manjerona, salsão de cabeça, é difícil, você não encontra salsão de cabeça. Tenho figo verde, tenho caqui, tenho nectarina sunshine. A variedade é grande. Tenho mandioquinha salsa, vaca leiteira, 60 mil frangos que eu não ponho na loja. O leite das vacas vai pro laticínio. O Nossa Toca, com queijo fresco muito bom. Tem uma integração dentro do sítio. Eu crio a galinha, pego o esterco, dou pro boi ou ponho na terra que tem os sais minerais, da terra eu tiro a verdura, então o ciclo está formado. Verdura que não presta, eu reparoe dou pros peixes. Nada se perde, tudo se transforma. Eu quase não uso agrotóxico. Fui fazendo e hoje meu filho toma conta desse ciclo. Só vou lá aos domingos Tenho um amigo que era conterrâneo do meu pai. Eles vieram juntos pro Brasil. Ele era carpinteiro também e trabalhava com meu pai. Foi ser fazendeiro e ele tinha uma fazenda no Paraná. Eu gostava muito, desde menino, eu gostava muito de ir pra fazenda. Meu avô era fazendeiro de café lá em Quatá, na Sorocabana, sempre tive paixão. Paraná, zona pioneira. Ele comprou um terreno lá e eu falei: "Compra um pra mim." Comprei um com ele pra fazer uma fazendinha, mas depois ele morreu. Acabei vendendo, o filho dele também vendeu e assim ele dizia: "Você vai, tu queres comprar um terreno pra fazer uma fazendinha, mas a melhor fazenda que você tem está lá em São Paulo, São Paulo é melhor fazenda." Ele sempre falava pra mim, eu nunca mais esqueci. A melhor fazenda é essa, que não tem geada, e a geada matou ele. Teve uma geada no Paraná, morreu do coração, porque perdeu tudo. Essa é a razão, tem altos e baixos e a gente vai suportando, mas sempre vai saindo, o comércio tem essa vantagem, quando é bem cuidado. Se não tiver humildade você não vai a lugar nenhum, tem que ser assim: trabalho e humildade é a primeira coisa, e principalmente a perseverança naquilo que faz.

 

CASAMENTO

Casei duas vezes. Primeiro fiquei viúvo e casei a segunda vez. A primeira vez, eu tinha vinte anos. Depois a minha esposa faleceu e eu casei 25 anos atrás. A primeira era Maria Tereza Cavalcante Lopes. A segunda, Maria de Lourdes de Souza Lopes.

 

FILHOS

Meu primeiro filho trabalha na loja, é formado em Administração de Empresas e é analista de computador. Ele toma conta da computação toda da loja. A outra filha, a Vera, tem uma loja na Consolação, de utilidades, de panelas e coisas pra cozinha. O outro está na fazenda e a menina mais nova agora está na loja, ela se formou em Administração. Meu sócio tem dois filhos também.

 

SONHOS

Meu projeto está realizado, não tenho mais nada a realizar. A vida correu bem, eu tive sucesso, graças a Deus, não tenho mais ambição nenhuma. Eu não vou parar, vou evoluir até onde puder, até onde tiver força. Futuramente, quem ficar que faça outras coisas que a gente deixou de fazer. É só acompanhar a evolução do tempo e manter a tradição.

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