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Memórias da periferia

História de: Jonatas Rodrigues dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/09/2009

Sinopse

Vinda da família do Ceará para São Paulo. Loteamento no Jardim Eliana. Mudança para o Bosque da Saúde. Skate e Grafite. Venda de salgados. Retorno para o Morro da Macumba. Trabalho estampando fachadas de comércio. Desenvolvimento da arte. Participação do Projeto Imagem com os “Agentes Marginais”. Criação do “Projeto Morro”. Grafite na Pinacoteca de SP. Convite Internacional.

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História completa

O meu nome completo é Jonatas Rodrigues dos Santos, nasci na cidade de Camocim, no Ceará, no dia 12 de novembro de 1981. 


Meu pai viajou pra São Paulo. Surgiu a oportunidade de morar como caseiro no sítio de um amigo. Recém-nascido já estava viajando pra cá. 


Lembro muito da minha infância quando a gente morava no bairro de São Luiz, zona sul de São Paulo, em uma espécie de comunidade.


Tive uma infância brincando com os filhos das outras famílias, sempre dentro do quintal porque a rua era muito perigosa, não podia sair no portão. Depois, o meu pai foi morar em um bairro chamado Eliana. 


O Jardim Eliana estava em um processo de construção, não tinha asfalto, todas as ruas eram de barro. Uma liberdade de brincar. Era uma coisa muito saudável pras crianças. 


Lá era uma coisa de loteamento, abriam espaço no mato, cercavam, tal. Estavam vendendo os lotes ou invadiam, e cada um pegava uma determinada parte. Não tinha regra, se você demarcasse o terreno e não estivesse lá cuidando, vinha outro, tomava e estava disposto a brigar porque não tinha nenhum documento para comprovar. A gente mudou para uma casa que ainda estava em processo de construção, faltando porta, janela.


A gente ficou morando lá um bom tempo até que veio pro, hoje é o Residencial Cocaia, mas na época era só um matagal, conhecido como Morro da Macumba porque era o lugar onde tinham muitos despachos. De vez em quando apareciam uns mortos jogados lá, umas coisas meio sinistras. Não tinha policiamento, nem estrutura para uma comunidade.


E foi um choque, quando a gente mudou pro Bosque da Saúde, a gente morava bem na Avenida do Cursino. Fui estudar em uma escola exemplo, muito bem elogiada, totalmente diferente do tipo de ensino que tive. 


Eu era o CDF na sexta, sétima série: o certinho, cabelo lambido pro lado. Na oitava, já estava desandado, digamos assim. Era aquele cara que inventava moda pra ir pra escola. Pintava toda a calça de caneta, rasgava, cabelo diferente, brinco. Toda uma revolução.


Aos poucos fui entrando na “ondinha” de movimento urbano, andar de skate, fazer tag na rua. Foi onde rolou o meu primeiro contato com grafite.


Durante esse período, a gente começou a fabricar salgados: coxinha, risoles, quibe, esfiha, pra vender.


Ganhei um apelido: “Coxinha”.


Eu fazia os panfletos, bolava um logotipo: ‘Delícia Salgados’, não sei o quê. E arrumava muitos clientes, ia entregar, fazia os salgados. Estava em tudo. 


A gente ficou bastante tempo trabalhando nessa coisa. Teve uma espécie de crise, muito desemprego, automaticamente a família parou. 


E começou a se manifestar o costume das pessoas quererem estampar nas portas do comércio, através do grafite, aquela coisa do ‘Estampa aí o que eu estou vendo’.


Fiquei desenhando o que as pessoas queriam. Comprei um compressor e comecei a ter noção de cores, desenho, aprendi bastante coisa. Aí, eu falava: “Por que você não faz diferente? Vamos bolar uma decoração”. Sempre querendo colocar meu estilo, meu traço. 


Você estava pintando uma porta de aço aqui de uma loja, o vizinho já queria. Então, deslanchei. Fiquei alguns anos trabalhando nisso. 


O meu trabalho comercial começou a se destacar, quem entende dizia: “É um trabalho comercial, mas tem uma coisa aí meio diferente, de rua”. Aí, eu comecei a conhecer os caras que moravam mais na área: o Vinícius, o Jerry Batista, o Mauro, que formam o “Agentes Marginais”. A gente começou a fazer projetos juntos.


Do Jardim Eliana, meu pai foi para o Cocaia, descolou um terreno, cercou, construiu uma casinha e a gente mudou. Do Cocaia fui pro Bosque da Saúde e voltei novamente para o Cocaia.


Aquela coisa de sair do Cocaia e ir pro Ipiranga, quatro anos acho que é um tempo suficiente para mim: “Estou bem situado, inteirado aqui com a turma, andando de skate, tal”. Só que esse voltar... Você fala: “Nossa, meu, o que eu vim fazer nesse lugar de novo? Onde eu vou andar de skate?”. Não tem rua de asfalto. Eu ficava pensando lá na outra escola, queria estar estudando lá, queria estar com meus amigos de lá. Até o jeito. Percebo que eu estava uma coisa meio esnobe: “Ah, meu, eu não devia estar aqui, não era para eu estar aqui”. Menosprezando o lugar mesmo, como feio: “Aqui não vai ter futuro, olha esse lugar, quando é que isso vai virar alguma coisa?”.

 

Aos poucos fui me readaptando e descobri que tinha uma rapaz que atuava muito nessa coisa do grafite lá. 


O Mauro bolou um projeto chamado “Imagem”, onde propôs colocar dez obras espalhadas pela margem da represa Billings, construídas com materiais reaproveitados, pedaços de madeira. E numa continuação desse trabalho, ele convidou: “Vamos fazer um painel aqui, todo mundo junto”.


Aí surgiu a ideia do Morro, a partir da vontade de contar uma história, de fazer um grafite diferenciado, de juntar as potencialidades artísticas de cada um desse grupo. Várias vontades foram se fundindo. A proposta era fundir linguagens artísticas com o propósito de contar a história do bairro. Os artistas são do bairro, a história é do bairro, os depoimentos foram colhidos lá. Enfim, aconteceu o projeto.


A gente podia propor pra comunidade de participar, não só através de oficina ou de ceder a casa para pintar, mas é a sua história que a gente vai estampar. E que, de certa forma, acaba refletindo na nossa, porque a gente mora no bairro, como se a gente estivesse contando a própria história, mas colhendo mais a fundo, com os mais antigos. 


Pra enviar o projeto para que fosse aprovado, a gente já tinha que ter as autorizações dos donos das casas. A gente explicava a proposta, mas visualizar é difícil. Um comércio aceita muito bem, desenhou um boi lá porque é um açougue, mas na casa do cara? Vou desenhar a história dele ainda, o cara pensou que eu fosse desenhar caricatura dele. 


Fomos fazendo aos poucos. Nas primeiras casas, como no começo do bairro era tudo mato, a gente pegou toda a extensão do muro e pintamos bastante árvore, verde, florzinhas e tudo o mais, árvores saltando da parede com garrafa pet, que a gente foi construindo. Porque a ideia era essa, fundir linguagens artísticas, não só o grafite, mas fazer com que ele saísse da parede, com a ideia da escultura. O próprio grafite fosse dizendo uma coisa sequencial, como nos quadrinhos. 

 

Quando a gente iniciou todo mundo adorou e foi uma coisa maravilhosa.


Tanto que, realmente, depois que a gente fez o projeto, vi muitas pessoas rebocarem a casa, outras pintando, outras até arriscando fazer umas bolinhas, umas coisas com spray. Muito bom. 


Ele mexeu não só comigo, como morador e artista local, proponente da coisa, só que eu já havia cultivando essa mudança de olhar, de querer zelar pelo bairro.


As pessoas se apropriaram da proposta. Os moradores diziam: “É meu bairro, olha lá, é a minha rua, é a minha coisa”. Isso que foi melhor de tudo. Eu até, como artista, aprendi a ceder também. Inicialmente eu tava pensando: “Ah, quero divulgar o meu trabalho. Vou convidar os meus amigos artistas, eles são muito bons e também merecem estar aqui”. Chegou uma hora que eu não podia continuar falando “Meu projeto, minha coisa”. Aprendi muito com tudo isso. Falar: “nosso”, “a gente”. 

 

Passei a ser visto de uma forma diferente, “o cara do grafite”, agora é o artista. Pessoas que não me cumprimentavam, agora fazem questão. Perguntam: “quando vai grafitar as casas?” 


Sempre soube que desenho dá leque para várias coisas. Posso pintar telas, expor, pintar portas de aço, fazer ilustração, dominar um programa de edição de imagem, várias coisas. Mas não esperava que seriam essas propostas de âmbito social que iriam tendenciar uma coisa assim tão bacana. 


A gente viu que essa parte do que causou em toda a comunidade, no geral, foi muito mais bacana. O grafite ficou colorido lá. Com o tempo ele vai passar, mas vai ficar toda uma vivência e todo mundo pode experimentar. A gente viu que realmente tem uma ferramenta de transformação social.

 

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