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História

Memória de mudança

História de: Regina Dubles Correa Belo Pereira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/03/2019

Sinopse

Regina nasceu em Bauru, e mudou-se com a família para Uberlândia quando tinha sete anos. Em Uberlândia cresceu, tendo uma infância feliz, brincava na rua com os amigos, tomava sorvete com guaraná aos domingos... Mais velha, tinha o sono de ser Física. Porém, a pedido dos pais, cursou o Normal e não o Científico. Com dezoito anos, aluna da faculdade de Artes Plásticas, começou a trabalhar na IBM, com tecnologia e computação. Uma das clientes da IBM era a CTBC, empresa para a qual migrou anos mais tarde. Ali, tornou-se uma das responsáveis pela tecnologia de computação e está lá há vinte e cinco anos. Madrugava resolvendo problemas de impressão de contas. A CTBC tornou-se então, sua segunda casa. 

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História completa

P/1 – Nós estamos muito felizes em estar com você aqui, porque cada vez que a gente vai juntando mais um retalho nessa colcha, nessa imensa colcha, isso vai fazendo um nexo, um sentido, que nos agrada bastante. A gente prefere ouvir as pessoas do que exatamente contar uma história que não é nossa. A gente quer ouvir a história dessas pessoas que fizeram da empresa ser o que ela é hoje. 

 

R – 61 depoimentos?

 

P/1 – _____. Se Deus quiser.

 

P/2 – Até 2004 quando a companhia faz 50 anos. 

 

R – Legal, espero estar viva para ver. (risos)

 

P/1 – Com certeza porque você é parte dessa história. 

 

R – Quando eles contam a história do CTBC, fundada em 1954, eu nasci em 1954, por isso que as nossas histórias se confundem (risos). 

 

P/1 – Eu vou te fazer, para início de conversa, algumas perguntas que a Bárbara já te fez, mas só para a gente ter registrado. Aí você fica absolutamente à vontade. Gostaria que você me dissesse seu nome completo, local e data do seu nascimento.

 

R – Meu nome é Regina Dubles Correa Belo Pereira. Minha data de nascimento é 5/8/1954. 

 

P/1 – Local?

 

R – Em Bauru, Estado de São Paulo.

 

P/2 – Nome do seu pai e da sua mãe, por favor?

 

R – Antonio Carlos Wutke Correia e Geni Dubles Correia.

 

P/1 – A atividade de seu pai qual era?

 

R – Representante comercial. 

 

P/1 – E da sua mãe?

 

R – Professora da universidade. 

 

P/1 – Você conheceu seus avós?

 

R – Conheci meus avós paternos, os dois e maternos só o meu avô.

 

P/1 – Você sabe dizer o nome deles?

 

R – Sei. O meu avô paterno é Antonio Correia Junior e minha avó é Joaquina Wutke Correia. E, meu avô materno, Henrique Dubles. 

 

P/1 – E a sua avó materna, você sabe o nome dela?

 

R – Regina Gross Doubles.

 

P/1 – Os seus avôs, pelo sobrenome parecem ser estrangeiros. 

 

R – Isso, meu avô era romeno por parte de mãe e minha avó polonesa.

 

P/1 – Na família você chegou a conhecer a história da vinda deles para cá? Como é que eles vieram, em que circunstâncias?

 

R – Meu avô veio na Primeira Guerra, no final da Primeira Guerra, veio de navio, desceu em Porto Alegre. Saiu vendendo gravatas por Mato Grosso. Imagina Mato Grosso usar gravata naquela época! Mas começou a ganhar a vida assim. Chegaram aqui pelo Triângulo vendendo vidro, trabalhando no ramo de vidraçaria e depois meu avô se estabeleceu aqui em Uberlândia, eles eram judeus. Eles se desligaram, não havia comunidade aqui. Minha avó morreu, minha mãe era muito nova, tinha só dez anos, era filha única e ficou ela e meu avô por Uberlândia . Isso pelo lado da minha mãe. Pelo lado do meu pai, eles são do estado de São Paulo. Minha avó é de Campinas, meu avô é de São Carlos, ele filho de portugueses, ela filha de alemão com brasileira e depois, meu avô veio para Uberlândia já casado com minha avó. Meu bisavô no Brasil veio para construir estrada de ferro. Então, daí a história deles estarem no interior de São Paulo, todos ferroviários. Depois, o meu avô era jornalista na época e veio para Uberlândia, veio trabalhar no começo do “Correio de Uberlândia” e aqui meu pai conheceu minha mãe. 

 

P/1 – E seu pai veio para Uberlândia em que circunstâncias?

 

R – Com o meu avô que veio para cá e era jornalista aqui. 

 

P/1 – Você poderia descrever a casa da sua infância, como era? O movimento dela, o cotidiano dela? 

 

R – Minha casa sempre foi uma casa muito alegre. Muito movimentada, minha mãe é professora de piano, tocava piano, meu pai cantava, os dois dançavam tango e tinha muita festa em casa. Eu tenho muita lembrança boa da casa, com muita gente, com muita família visitando a casa e nós, eu e meus dois irmãos, também sempre trouxemos muitos amigos aqui para casa. Então, já a juventude nossa também muito com os amigos em casa, uma vidinha muito feliz.

 

P/1 – E onde ficava essa casa?

 

R – Em Uberlândia, eu vim para cá com sete anos, eu morava na Rua Silva Jardim.

 

P/1 – E lá em Bauru?

 

R – Em Bauru eu morei até os sete anos na Rua Sete de Setembro. 

 

P/1 – Você tem lembranças assim da sua rua lá em Bauru, como é que era?

 

R – Tenho. Da meninada toda, o meu pai sempre gostou muito de tirar fotos. Então eu tenho registro de todos os meus amigos da rua. Era uma comunidade, muito bom. Tinha uma igreja muito perto de casa que tinha uma escadaria enorme, na época a gente achava enorme, com corrimões e a gente descia por esses corrimões, escorregando. Há pouco tempo eu tive a oportunidade de voltar lá e a igreja não era tão alta, a escadaria não era tão grande assim, acho que a gente é que era pequeno. Mas são boas recordações.

 

P/1 – A sua escola primeira foi em Bauru?

 

R – Foi em Bauru, porque eu fiz jardim e pré lá. 

 

P/1 – Que escola que era, você se lembra?

 

R - Não, eu não consigo me lembrar do nome do jardim, mas da primeira série era alguma coisa Azevedo, não me lembro do primeiro nome. Era um colégio que eu cheguei a fazer a primeira série em Bauru.

 

P/1 – Uma mudança de cidade para uma garota de sete anos, o que significou?

 

R – Foi marcante. Não posso dizer que foi nem bom nem ruim na época, mas foi marcante, porque meus pais vieram com meus dois irmãos e eu fiquei para terminar o ano, que isso era setembro, né? Então, eu fiquei para terminar o ano e fiquei morando com a minha avó paterna, meu avô e uma tia. Então, por um lado eu sentia muita falta dos meus pais, dos meus irmãos, mas eu era muito paparicada pelos meus avôs e pela tia. Levava vida de princesa com eles, e acho que eles sofreram mais do que eu quando eu vim embora, porque tinha ficado um pedacinho do meu pai lá enquanto eu fiquei e para eles foi pior ainda. E eu muito nova cheguei aqui, uma rua muito movimentada de novo, cheia de gente da nossa idade, então eu logo formei uma nova comunidade nova por aqui.

 

P/1 – Que tipo de brincadeiras rolava nessa tua nova rua?

 

R – Olha, xerife e bandido, pique-pega, era bola, muita bola. Eu tinha mania de fazer discurso de político, eu subia em cima de um chafariz desativado fazia discurso na pracinha e tinha uma turma que ouvia o discurso nessa pracinha e essa turma era assim, uns vinte meninos; e uma escolinha que funcionava nas férias. A gente arrecadava dinheiro da meninada toda, comprava material e comprava lanche e funcionava uma escola direitinho, com material e tudo nas férias.

 

P/1 – E as professoras?

 

R – Eu e uma amiga éramos as duas professoras, as donas da escolinha.

 

P/1- E a escola aqui, como era a escola aqui em Uberlândia, a sua escola onde você se matriculou?

 

R – Era o Externato Rio Branco, era Dona Carlota, uma senhora muito enérgica, muito brava, mas muito boa. Meu irmão me chamava de Gigi e a gente tinha um sotaque muito de interior de São Paulo, então eu contava para todo mundo que eu vinha para uma cidade que não falava “leite”, falava “leiche”, contava isso para todo mundo em Bauru. Quando eu cheguei aqui e meu irmão chegava na porta e falava: (imitando sotaque) “Gigi pelo amor de Deus me dá a minha lancheira.” Todo mundo ria e eu morria de vergonha (risos). Então, no começo foi muito engraçado com aquele sotaque todo de paulista. A primeira coisa que eu quis fazer foi aprender a falar como o pessoal daqui a não falar “leite quente”. (risos)

 

P/1 – Na sua escola além da sua primeira professora, tem alguma que tenha te marcado, ficado na memória?

 

R – Tem a professora da quarta série, dona Glória, que foi muito legal, tenho ótimas lembranças dela. Ela era uma gorda simpática que sabia ensinar, que tinha prazer em ensinar e eu sempre fui muito boa aluna e adorava ser aluna dela. Porque quando eu vim para cá, eu vim para fazer a segunda série, minha professora era uma moça linda. Então, a gente era apaixonada por ela, a gente ía na casa dela. Era perto da escola, coitada, ela devia ficar de saco cheio porque a gente vivia atrás dela, na casa dela. Depois disso na terceira série já foi uma professora brava, eu lembro muito bem dela, mas a de quarta série ficou, D. Maria da Glória, uma gordona simpática, boa.

 

P/1 – Era de matemática?

 

R – De 4° série dava todas as disciplinas, mas não sei, nunca mais vi. Mas não me esqueço dela, do nome.

 

P/1 - E a continuidade dos seus estudos, como se deu?

 

R – Eu estava um pouco adiantada na escola e não tinha idade para ir para, na época era a primeira série do ginásio, hoje a quinta série, né. E no colégio estadual tinha um exame de admissão para poder passar para o ginásio. E o exame de admissão tinha uma prova só de três dias e depois, tinha um exame de admissão de dois meses ou de um ano. E eu fiz a prova de exame de admissão e passei em primeiro lugar e eles me deixaram ficar na quinta série. Mas no dia de chamar os alunos e dividir nas salas, quando eu fui chamada, tem uma figura histórica aqui em Uberlândia do colégio estadual, professor Vadico, ele foi anos e anos diretor do colégio estadual, quando eu passei por trás dele, que ele chamava a gente, e a gente subia uma escadaria e passava por trás dele, ele me pegou e me levantou na mão dele, para me mostrar para todo mundo, porque eu era o primeiro lugar e era tão pequena que ele me pôs sentada na mão dele. Eu fiquei com muita vergonha, vergonha porque todo mundo falava assim: “Nossa, o professor Vadico te pegou no colo!” (risos) Então, entrei no colégio estadual marcadissima já, todo mundo me conhecia, né. E eu fiquei muito envergonhada durante um bom tempo. Então, até passar isso, assim, o pessoal mexeu muito comigo, porque eu era muito novinha, muito pequena.

 

P/1 – Como é que era essa cidade da tua adolescência, primeira adolescência?

 

R – Olha, Uberlândia, eu conto muito isso pros meus meninos hoje, porque estão adolescentes. A gente ía para o Uberlândia Clube, que é um clube social que tem bem no centro da cidade, para o soirée dançante. A gente saia de lá, sozinhos para ir para casa, à pé, onze e meia, meia noite, a gente ia chutando latas porque naquela época não existia sacos de lixo, tinha umas latas de lixo. A gente descia a Avenida principal, a Afonso Pena, chutando lata de lixo, fazendo bagunça na rua. E não tinha perigo nenhum na cidade. Todo mundo era muito conhecido, então a gente ia ao cinema no domingo, era o dia da primeira seção. Os meninos iam de gravatinha, eram obrigados a usar paletó e gravata para entrar no cinema e era uma coisa muito saudável e muito simples. O final de semana era no Praia, a gente descia muito para o Praia, ía um bando de meninos, todo mundo a pé – eu, meus irmãos, meus primos, todo mundo. Não existia o que existe hoje de preocupação que, com os meus meninos, eu não tenho um pingo de sossego enquanto eles estão na rua. Uberlândia era muito calma.

 

P/1 – Depois do cinema, qual que era o programa? Footing era uma...

 

R – Não. Depois do cinema, tinha uma sorveteria ou o bar da mineira, que era um restaurante, que a gente tomava sorvete com guaraná. Era chuvisco que chamava. (risos) Sorvete com guaraná, esse era o programa. E aí até oito e meia, quinze para as nove tinha que estar em casa.

 

P/1 – Nessa época, no final do ginásio, tinha sempre aquela opção drástica, se para o Clássico, Científico para Médicas ou Científico para Exatas, o que que estava desenhando alí na cabeça da garota no quarto ginasial, o que que você pensava?

 

R – Nessa época, foi uma época com um pouco de conflito, porque eu sempre fui muito boa de matemática e eu queria fazer física, queria fazer física nuclear, então eu queria fazer o científico, o clássico era para quem gostava de línguas e o normal pra quem queria dar aulas. A idéia dos meus pais era assim: “É melhor, se você é uma menina pobre, quer começar a trabalhar, quer começar a ter as tuas coisas,  faz um curso que é profissionalizante que te dá um meio de você ganhar a vida e poder estudar em qualquer lugar que você queira.” Eu fui fazer o curso Normal muito revoltada porque eu não tinha nada que eu quisesse dali, detestava dar aula. Minha mãe foi professora a vida toda e eu não queria seguir o caminho dela e acabei fazendo o curso normal. E estava com quatorze para quinze anos, estava muito nova. Então, foi um desastre esse meu curso normal! E eu dei muito trabalho na escola, fui muito indisciplinada, eu judiei dos professores, do diretor, essa parte foi ruim. Aí, no afã de continuar, de não perder um tempo para fazer cursinho nem nada, eu já resolvi fazer direto faculdade, num curso que eu pudesse entrar direto e fui fazer artes plásticas. Já tinha pintado em Bauru e fazia parte de um grupo de uma escola de pintura. Tinha estudado música a vida inteira, fiz dez anos de conservatória, então eu gostei, eu sempre gostei de artes. Aí, fui fazer artes plásticas. Nessa época meu curso era muito caro, eu já queria trabalhar e o meu avô Henrique falou: “Olha vem uma empresa para Uberlândia e vai ter um concurso. É uma multinacional muito grande que mexe com computadores. Você não quer fazer esse concurso?” Aí eu procurei, me inscrevi, daí comecei a minha vida profissional. Eu fiz uma prova, depois de aprovada eles me disseram que eles não poderiam porque eu tinha dezessete anos e que eu não poderia fazer o curso. Que a IBM não contratava menores...

 

P/1 – A IBM?

 

R – Já era a IBM, né? E, daí eu pedi para ser ouvinte. Era uma turma só de vinte pessoas, pedi para ser ouvinte não ia incomodar e não ia concorrer à seleção. Eles concordaram. No final desses vinte eles tiraram oito para estagiar e eu estava entre esses oito. Eles pegaram e me deixaram ir para a IBM. Desses oito eles tiraram três e eu estava no meio dos três. Eles me falaram: “Infelizmente, você estava avisada desde o começo que não pode ser menor de idade.” Eu peguei e continuei os meus estudos e daí alguns meses eles me chamaram na IBM. Falaram: “Você já vai fazer dezoito, se quiser já começar seu processo de contratação”. Aí eu entrei para a IBM.

 

P/1 – Certo. Como era esse trabalho, nesse momento a pré-história, digamos, da informática aplicada, como era esse trabalho?

 

R – Era bem pré-histórico mesmo, porque hoje essa agendinha de bolso Casio tem mais memória do que tinha o nosso mainframe, o computador central maior que tinha lá, tinha 16k de memória. A IBM estava naquela época trabalhando com centros de serviços de dados, eram CSDs que ela montava para prestar serviços. Então, aqui em Uberlândia já tinha Caixa Econômica Federal, tinha algumas empresas, alguns bancos que ela já prestava serviços. A CTBC contratou a IBM para desenvolver alguns sistemas e eu já participei do desenvolvimento e da implantação desses sistemas. Já existia o Armazém Peixoto que foi um dos pioneiros em se interessar pela informática, mas era uma coisa muito tupiniquim. Eu tive durante muitos anos um problema no pulso de carregar caixas de cartão pesadas que eram os meus programas, que levava para compilar aquilo. Eu programava numa linguagem primitiva de computador, no assembler. Então foram os primórdios, lá em 1972. 

 

P/1 – E que tipo de demanda que o Peixoto e o CTBC tinham com esses sistemas? Do que que eles precisavam?

 

R – O Armazém Peixoto era o controle deles de estoque e as vendas, os mapas de carga. O Miga era o controle das lojas, não era o Miga na época, era o Carlos Saraiva. E a CTBC era a emissão das contas e o controle de ações, controle de acionistas e ações. Do sistema de faturamento, do sistema de contas a receber, a gente foi desenvolvendo vários sistemas para o CTBC. 

 

P/1 – Desenvolvendo literalmente na unha, né?

 

R – Na unha, na unha. E conferindo na unha porque as digitadoras pegavam os bilhetinhos de interurbano, que elas preenchiam na mão e tinha um aparelho que eu não me lembro o nome mais, que marcava o horário de início da chamada  e depois o horário de término da chamada.

 

P/1 – Sibiu?

 

R- Não sei… Mas era ele era um tipo tacógrafo, era ele que registrava. Então, no momento que ela carimbava ali o horário final, ele era como se fosse um reloginho, continuava contando e ficava registrado o início e o término da ligação. Aquilo passava para digitadores e digitava bilhete por bilhete daquele… Em cartão naquela época, cartão de oitenta colunas. Depois a coisa evoluiu para umas fitas perfuradas de papel, aquilo engastalhava, rasgava (risos) você não sabia de qual maço de bilhetes que era. Então, os bilhetes eram organizados em lotes e com uma borrachinha e aquilo ficava nos escaninhos. Tinha que ser uma organização muito grande e a conferência, porque o papel do bilhete podia grudar um no outro e deixar de digitar algum. Era um processo sofrido, manual “prá burro”. Esses rolos de fitas perfuradas veio para a gente ou ler aquilo, ou converter aquilo nos disquetes grandões que entravam para dentro do computador.

 

P/1 – E o risco de erro na digitação?

 

R – Alto. Naquela época digitação tinha o digitador e o conferencista, tinha o conferente. Tinha o pessoal do controle de qualidade ali na entrada que contava quantos bilhetes tinha num macinho e quando o digitador terminava e entregava para o conferente ele via se batia com aquela... Uma grade que vinha, para ver se o número de bilhetes batia e aí o conferente checava se foram digitados todos. Passava por várias etapas assim...

 

P/1 – Certo. Mas de todos modos ganhava-se muito ...

 

R – Ganhava-se muito em produtividade, porque antes disso o processo era batendo à máquina as contas, bilhete por bilhete batendo na máquina, somando na calculadora, aquelas de manivela. Na época foi uma revolução para a CTBC. Reduziu imensamente o tempo de emissão de uma conta, a capacidade de processamento, de volumes processados e a segurança. Então, de vez em quando a gente tinha a notícia que tinham encontrado uns bilhetes guardados dentro de gavetas das moças, das telefonistas, que eram ligações às vezes para namorado, ou às vezes da família, elas retiravam os bilhetes... Então, quando tinha um escândalo assim, de corrupção, era bilhete que às vezes ficava guardado, sabe? Às vezes eram alguma coisa até (risos) que estava perdida, ali né? Mas todo mundo caçava bilhete naquela época, bilhete de interurbano!

 

P/1 – E a sua função específica nesse primeiro trabalho para a CTBC foi de criar esse sistema?

 

R – Foi, ainda pela IBM, a CTBC era nossa cliente. Então, a gente tinha um birô que processava os dados para a CTBC, emitia as contas para a CTBC, emitia as cautelas de ações, os livros de registro de ações. Era uma prestação de serviço para a CTBC. Então a gente começou a conviver com a CTBC como um cliente lá, né? Aí a IBM mudou a estratégia dela, na verdade montar um CSD numa cidade era uma forma de se criar uma clientela cativa de informática, e depois ela vendia a máquina, punha a máquina no cliente, ele criava o CPD dele na época e a IBM com isso foi desativando seus CSDs. E nessa época a CTBC comprou a primeira máquina dela, um sistema salvo engano, um modelo 370 da IBM, geração 370, modelo 115. Já era uma máquina moderníssima porque já tinha console. Então o operador já conseguia conversar com a máquina. Não era só botão e luzinha não. Aí a CTBC começou a montar a equipe dela de informática. Teve o engenheiro Claudio Leigh que foi convidado para vir para cá e montar a informática e ele começou a contratar pessoas e eu e mais algumas pessoas da IBM fomos convidadas para ganhar muito mais na CTBC (risos).

 

P/1 – Que ano foi isso, mais ou menos?

 

R – Isso foi em 1975, agosto de 1975.

 

P/1 – O trabalho enquanto a CTBC ainda era cliente era feito dentro da CTBC ou era externo a ela?

 

R – Era feito externo, era feito lá no birô da IBM.

 

P/1 – E quando você passa a conviver com a CTBC o que te pareceu aquele novo ambiente? Porque afinal de contas é um ramo de atividade...

 

R – É, foi interessante, porque na época eu tinha opções, a IBM te dava opção de você ir para qualquer parte do Brasil e do mundo, mas eu já gostei da idéia de ficar na CTBC, de ficar em Uberlândia, de ficar com os meus pais, né? E achei boa a idéia de ir para a CTBC e continuar, dar continuidade àquele trabalho lá, fazer crescer, tinha muitos sistemas ainda a serem desenvolvidos, tinha folha de pagamento, tinha o controle de interurbanos, as estatísticas, tudo. Era uma coisa que já tava me coçando, né, me cativando: “Ah, eu acho que eu vou para a CTBC!”  Fiquei num dilema danado, porque na IBM, você recebe uma dose pesada de aculturamento IBM, você é um ser IBM, é um ser muito especial, um IBMista é uma coisa assim do outro mundo. Então, os IBMistas são seres muito orgulhosos de pertencer à IBM. E aí ir para uma empresa pequena, privada, a CTBC era circunscrita à região, né? Mas aí eu gostei muito da idéia, do desafio e achei que era uma boa proposta. E fui para a CTBC em agosto de 1975. Eu já estava terminando minha faculdade de artes, achei que valia a pena terminar aqui. E estou até hoje (risos).

 

P/1 – E como é que era esse primeiro ambiente de trabalho? Onde é que foi montado esse CPD?

 

R - Lá na cidade industrial onde hoje é o Algar. Era um galpão, não tinha nada por perto, não se tinha, ali na cidade industrial, recurso algum. Existia uma fábrica de geléia de mocotó em frente. Então, nas madrugadas a gente acostumou a comprar uma geléia de mocotó redonda deste tamanho, dessa altura (risos) e comia aquilo (risos) para não morrer de fome, né? Porque a gente varou madrugadas e madrugadas. Eu logo peguei para a minha responsabilidade o sistema de faturamento. Foram quinze anos cuidando do faturamento. Então geralmente ele só rodava à noite e finais de semana, então era sempre 48hs, 72hs dentro da empresa.

 

P/1 – Mas, porque só à noite e finais de semana? Para esperar o fim do expediente, era isso?

 

R – É, para não atrapalhar os outros processamentos. E logo esse CPD da CTBC começou a prestar serviços. Logo nós viramos um birô. A gente prestou serviço para alguns bancos extintos tipo Sul Brasileiro, nós tivemos os Armazéns Martins como clientes, teve uma época que tivemos muitos clientes, era um birô rentável  que poderia ser uma empresa, tinha vida própria. Ele, a CTBC com aqueles serviços ali, todos os serviços da CTBC se pagava com aquela atividade que nós tínhamos ali, extra. Então o processamento do faturamento era muito demorado, eram etapas longas de oito horas do famoso “merjão” para juntar o cadastro do cliente com todos os serviços dele e mais os interurbanos, para poder elaborar a conta, né? Essa foi uma etapa muito demorada, muito pesada.

 

P/1 – Como é o nome disso?

 

R – Merjão, é porque em inglês “merge” de se juntar as coisas, né? Então, era o merjão. Brasileiro tem mania de usar termos em inglês.

 

P/1 – Levavam oito horas para processar tudo isso?

 

R –Para fazer uma parte dessa classificação das contas, né? Da junção de tudo. Mas eram etapas longas, depois para classificar, pôr em ordem, por número de telefone e por os interurbanos por ordem e tal, era mais uma etapa imensa de classificação disso. Dez, doze horas de processamento. Então tinham uns sofazinhos perto das salas do computador onde a gente já passou muitas noites cochilando por ali.

 

P/1 – Dava muito pau?

 

R – Dava muito pau. Muito pau. Aí, isso tudo era reportado para a IBM, esses problemas, e aí eram sempre os bugs, né? E tinham pets de correção que a IBM enviava e mandava novas versões e eu muito curiosa gostava muito de acompanhar o pessoal da IBM e pedia para eles se eu podia estar acompanhando ali aquela manutenção, aquela instalação de uma nova versão e, daí isso depois teve nome, na época isso não tinha nome e depois virou suporte técnico. Tudo na área de informática tem suporte técnico. Eu já era uma pessoa que já tinha esse perfil para suporte técnico. Nós estruturamos a área de suporte técnico e eu visitei e fiz alguns...

 

(fim da fita)

 

R – ...Aí nós estruturamos a área de suporte técnico e eu visitei e fiz alguns benchmarks. Tava começando a se estruturar isso na época. A IBM ajudava a formar o perfil do pessoal e tal. Aí eu fui ser gerente do suporte técnico. E, na época de rodar o faturamento, que era uma vez por mês, eu trocava de casaca e virava analista do faturamento. Passava o faturamento e eu voltava a ser gerente de suporte.

 

P/1 – Certo. E tudo centralizado aqui em Uberlândia, era assim?

 

R – Tudo centralizado aqui.

 

P/1 – Os materiais, as informações, os dados que vinham das regionais, das outras localidades, como é que chegavam até o CPD?

 

R – Existiam os malotes, tinham um esquema de malotes com os carros da empresa que  traziam esses malotes. 

 

P/1 – E esses dados eram digitados lá? Como é que eles traziam as fitas para cá?

 

R – Digitados aqui. Eram digitados aqui. Era tudo centralizado aqui, nós tínhamos uma área grande de digitação.

 

P/1 – Quantas pessoas trabalhavam na CPD?

 

R – Olha, nós chegamos a ter cento... aproximadamente 130, 140 pessoas.

 

P/1 – Certo. E esse equipamento pioneiro, ele ficou operativo até quando?

 

R – Olha, eu devo ter a cronologia disso escrito, porque teve uma época que eu escrevia sobre isso, sobre a evolução da informática dentro da CTBC. Mas eu tenho a impressão que por uns dois anos, 1975 e 1976. E aí a gente começou a ter um marco na IBM, precisava de fechar quota, né? Eles trabalhavam, sempre trabalhavam por objetivo, por quotas. Então final de ano eles traziam a máquina nova e a gente passava Natal e Reveillon instalando máquina nova. Isso foram alguns anos seguidos assim e a gente foi evoluindo até 1984, salvo engano, quando o grupo Algar se associou com a Bull, francesa. Aí nós começamos a mesclar nosso parque, né? Aí nós começamos a ter máquinas IBM e máquinas Bull.

 

P/1 – Nessa época ainda heróica, primeira, você chegou a ter contato com o seu Alexandrino Garcia, ele ia lá?

 

R – Tive, tive muito contato. Computador para ele era uma coisa assim muito respeitada. E eles gostavam do CPD. Então a gente recortou a parede e quem passava no corredor via a gente lá dentro. Era um aquário. Fez uma parede de vidro, porque era muito importante uma empresa ter um CPD. Quando maior mais chique, né? Então, o CPD era sempre um lugar muito visitado, muito mostrado pras visitas. E o seu Alexandrino sempre foi um homem de muita visão. Ele sabia valorizar a produtividade que aquilo trazia, ele tinha a noção exata do que que o computador estava alavancando no negócio dele. Eu tenho certeza disso.

 

P/1 – Sei, ele conversava com vocês, ia lá dar palpite, olhar, se informar?

 

R – Ele cuidava muito de saber se os aumentos de tarifa iam entrar naquele mês, se ia dar tempo de entrar naquele mês, ele queria ser sempre informado disso. E queria ser sempre o primeiro a ser informado se desse algum pau, se fosse atrasar, ele fazia questão de ser mantido informado a respeito. Mas sempre levava as visitas lá, era um lugar que ele gostava muito de levar as visitas, ele e o doutor Luiz e ele sabia exatamente o que que era, que era um pessoal muito técnico igual ao de telefonia tanto é que na CTBC a gente sempre, de informática, foi muito comparado com os engenheiros de telefonia, de Telecom. Eu acho que ele tinha a dimensão exata do que significava a informática para a CTBC.

 

P/1 – Certo. Ele tinha curiosidade de perguntar coisas, como que os processos se davam, como as coisas ocorriam?

 

R – Ele conhecia bem como é que era o processo de emissão de conta. Ele conhecia claramente. As cautelas, ele assinava uma por uma as cautelas de ações, né, naquela época. Então ele gostava de conhecer como é que aquilo era emitido, se não saltava na numeração, se não perdia uma cautela. Ele olhava, ele questionava muito essa parte da segurança do computador, se alguém podia burlar, mexer em alguma coisa, se aquilo era seguro. Se o ambiente era seguro. Ele muitas vezes passava por lá em finais de semana e pegava o pessoal jogando dama e aí ficava uma fera! Porque eram essas etapas longas que a gente tinha que ter alguma coisa para fazer, mas ele não entendia muito aquilo e ele achava que tinha outra coisa para ir fazendo: “Não, vai lustrar alguma coisa, deve ter alguma coisa pra fazer aí, para limpar, para arrumar. Ficar jogando dama dentro da sala do computador!” Ele não aceitava isso não, sabe?

 

P/1 - Para ele isso era uma coisa difícil de entender.

 

R – Era difícil de entender. Porque na central o cara quando não tinha nada ia limpar relê, tinha o que fazer sempre, né? Então, no computador tinha que ter alguma coisinha para limpar também.

 

P/1 – Essa transição IBM/BULL, essa conjuminância, criou algum tipo de conflito do ponto de vista técnico?

 

R – Sim, foi uma divisão da equipe ao meio, né? Você teve que, na verdade, ou dobrar os esforços das pessoas para conhecer as duas tecnologias, ou limitar as equipes, né? Parte da equipe Bull, parte da equipe IBM, e tentar tratar melhor a diferença, o choque ali de tecnologia, porque o choque ali era muito grande. O pessoal era muito reativo na época a uma tecnologia nova. O motivo principal das pessoas saírem inclusive na época era alegando que a IBM tinha mercado profissional. Quem soubesse lidar com máquinas IBM tinha mercado no mundo inteiro. E um profissional de máquina Bull estava muito limitado, não se tinha notícia de Bull em lugar nenhum. A Bull era pequena, a participação dela no mercado brasileiro. Então, foi uma época difícil, tirou todo mundo da sua área de conforto, porque todo mundo já dominava bem a tecnologia, foi reaprender para poder dominar a fera nova...

 

P/1 – Pessoalmente, como é que você resolveu esse conflito? Como é que foi resolvido na sua cabeça?

 

R -  Olha, tem alguma coisa assim que não depende de você, vem de cima, é o negócio da empresa. A nossa empresa é dona de uma, é sócia de uma fabricante de computadores. Como é que nós poderíamos nos posicionar no mercado como vendedores, se nós mesmos não tínhamos comprado? Então, eu me colocava no lugar do dono, do acionista. Eu falava: “Gente, ele está coberto de razão, né”. A primeira vez que um vendedor chegar numa empresa oferecendo uma máquina dessas, eles vão perguntar: “Vocês têm lá?” Assim como existiam críticas. Eu estive na França, na Bull por um mês, e tinha uma crítica muito grande que o governo francês tinha uma participação muito grande na Bull e só tinha máquinas IBM. A gente ouvia isso, eu nem sabia se era verdade ou não. Mas se você ouve isso, é por aí que o mercado vai pegar. Então, dentro disso, eu achei que era nossa obrigação, que nós não tínhamos muito que discutir isso. Nós tínhamos que aprender a dominar aquela tecnologia e tirar o máximo proveito dela. Durante um bom tempo foi política isso, foi política do Dr. Luiz, de que a gente deveria conservar as duas tecnologias, até prá acompanhar o concorrente. E, durante muitos anos a gente passou por esse esforço enorme de manter as duas tecnologias até que se decidiu tirar as máquinas IBM, porque o mercado dizia: “Você tem Bull lá, mas você não saiu fora do IBM.” O mercado cobrava isso. Então, acho que isso coincidiu com a chegada do Seu Mário Grossi, ele falou: “Não. Põe fora as máquinas IBM, vai ficar só Bull aqui.”

 

P/1 – E esse processo de migração foi, foi...

 

R – Foi bem traumático, foi muito complicado. Nós demos alguns passos atrás em termos de tecnologia, porque nós estávamos há muitos anos com a IBM, nós estávamos lá na frente em tecnologia e na Bull a gente estava começando. Então nós demos alguns passos atrás. A migração do sistema de faturamento pro Bull foi muito traumática, nós perdemos muito dinheiro, deixamos de faturar muita coisa, faturamos errado muita coisa. Foi muito trabalho para se corrigir e se chegar nos trilhos.

P/1 – Como era resolvido isso no cotidiano do trabalho? Porque, afinal de contas, vocês estavam envolvidos até a raiz da alma neste procedimento, tinham implantado esse procedimento e, de repente, a coisa começa a dar errado?

 

R – É, nós tivemos que pedir muita ajuda de fora. Naquela época a gente já começou a contar com terceiros na equipe. O que hoje é natural, naquela época não era. Todo mundo era um funcionário da empresa de carteira assinada. Naquela época, a gente já começou contratar gente da Telebrás que tinha experiência com Bull, porque a Bull fez uma venda muito boa no Sistema Telebrás, na época. Acho que existiam umas 17 a 20 teles com máquinas Bull. Quase que se criou um padrão com Bull no Sistema Telebrás. Então existiam outras empresas operando o mesmo sistema de faturamento que o nosso, porque a gente teve que importar para nos dar uma ajuda,  para a gente sair do outro lado.

 

P/1 – Esse processo de realinhamento durou muito tempo?

 

R – Não, foram de seis meses a um ano para estar sedimentado o processo.

 

P/1 – Foram dramáticos os seis meses, não?

 

R – É, os primeiros seis meses muito doloridos. Os últimos seis, já com as coisas começando a voltar à normalidade.

 

P/1 – Quer dizer, isso se dá num momento em que o próprio Grupo ABC começava a se reestruturar, porque estava muito horizontalizado, muito inchado. E vocês – se eu estiver errado, por favor, me corrija – passavam a ser um elo crítico de toda essa cadeia, não é?

 

R – Sim, porque a informática, nessa época, processava 68 contabilidades. Apesar de não existirem 68 empresas atuando, existiam muitos CGCs. As empresas telefônicas que foram adquiridas pela CTBC, Etisa e Etusa, que era Itumbiara, Ituiutaba, Uberaba, mantinham como empresas à parte, né. Então, ao todo, dava 68 CGCs para processar ativo-fixo, contabilidade, cinquenta e tantas folhas de pagamento. Nós chegamos a ter folha de quase 14 mil funcionários. Era um negócio, assim, de muito volume. E aí, quando começou essa reestruturação em 1989, 1990, foi-se enxugando. Acho que nós baixamos logo para 28 CGCs, caímos acho que em torno de 7 mil funcionários, 7 mil e quinhentos funcionários. E as empresas recém-adquiridas relutavam em estar sob controle aqui em Uberlândia. A gente era tido assim como os mineirinhos lá do interior. E tinham as empresas de São Paulo, de alta-tecnologia, existia uma certa discriminação. Eu tentei ajudar muito uma empresa no Rio, a ABCTI, na época, tentando alavancar a informática lá e corrigir alguns problemas, mas a gente não tinha muita facilidade de chegar lá e achar espaço para ajudar.

 

P/1 – E já se pensava em alguma medida exequível? A telefonia já tinha se desenvolvido, já estavam acabando as linhas físicas. Já se pensava  em algum modo de começar a transmissão de dados entre esses centros de processamento? Vocês já tinham...

 

R – Nós tínhamos já terminais instalados em todas as regionais. Já da época da IBM, todas as regionais já tinham os terminais Burroughs remotos, controladoras, concentradoras desses terminais  e todos eles já tinham acesso ao mainframe aqui. Nessa época, já estavam interligadas todas as regionais.

 

P/1 – E as outras empresas do grupo?

 

R – As outras empresas do Grupo, nós processamos essa parte básica delas, mas os sistemas correlus próprio da atividade delas, sempre foi iniciativa delas. Nós não conseguimos trazer tudo, centralizar tudo não. Até porque eram atividades muito diversificadas, né. A fábrica de óleo, por exemplo, tinha que fazer um controle de compra de soja e tinham filas e filas de caminhões para descarregar. Era o controle daquela descarga de soja dentro da fábrica e controle de umidade de armazenamento. São coisas muito específicas que não têm nada a ver com Telecom, que não têm nada a ver com a Gráfica Sabre. Cada um tinha o seu negócio muito próprio e os sistemas também são muito próprios.

 

P/1 – Eles eram desenvolvidos autonomamente, não tinham a participação desse grupo pioneiro do CPD?

 

R – Não. O que a gente teve durante muitos anos foram as recomendações. Quando começou a micro informática, principalmente, mais intensamente, mais as recomendações. Nessa época o CPD já não era da CTBC, era da Impar, era da holding. Então as recomendações de fornecedor, de porte de máquina, de configuração, saíam da Impar. Então, tinha alguma coisa tipo: “Olha, seu superintendente, você vai comprar com o nosso”. 

 

P/1 – Para alinhar todas as centrais.

 

R – Isso. Como hoje está se criando lá no Projeto Cerrado um núcleo para se processar os sistemas que são comuns às empresas, os administrativos, os back offices, naquela época já era assim também. O que a gente processava era contabilidade, folha de pagamento, controle patrimonial, contas a pagar, o que era padrão para todo mundo ficava dentro do CPD da Impar.

 

P/1 – Como é que foi do ponto de vista profissional essa transição do ambiente cliente-servidor quando você já começa a desocupar essas grandes máquinas, esses grandes mainframes que já passam a não ter tanto sentido assim? Como foi esse processo de transição?

 

R – Bom, com a… Nós passamos aí por algumas revoluções, os downsizes que mexeram muito já com a estrutura da informática, já criaram perfis novos na informática e aplicações novas também. Então empresas com processamentos muito pesados, tipo informática em telecomunicações têm sempre o papel do mainframe, é como um banco, tá? Você não ouve falar que o Bradesco, que o Itaú fez downsize até hoje. Está todo mundo processando em mainframe. A Telefônica está em mainframe até hoje. E esses mainframes perpetuaram em alguns tipos de aplicações, dessas aplicações mais departamentais, as mais novas já chegaram no cliente servidor. Nós já estávamos aí não com os terminais Burroughs já, mas com a micro informática a pleno vapor, até com pequenas aplicações, as departamentais, já em microinformática e nós fomos aprender, reaprender uma série de coisas. A parte cliente é sempre um problema, o cara jura por Deus que não mexeu, mas é claro que é ele quem deletou, porque some um arquivinho e não funciona mais nada. Então imagina isso remotamente, aí nessas cento e tantas localidades nossas com o computador, para você estar mantendo as aplicações atualizadas, e tudo. Depois que começou a evoluir um pouco a Internet a gente começou pelo menos a mandar atachado por e-mail o arquivinho para ele atualizar lá. O nível de estresse baixou um pouco.

 

P/1 – Até então, como é que você resolvia esse tipo de problema, você ía lá?

 

R – Ía! 

 

P/1 – Levava os disquetes para baixar?

 

R – Ia, ia com os disquetinhos sempre. Um bom informático tinha uma caixinha na mão com os disquetes e aquilo vale ouro, né? Tinha um back up em casa, (risos) back up para todo lado daquilo. Tinha que ir até lá e instalar, testar lá, deixar uma copiazinha e falar: “Guarda no cofre, se precisar de novo, caso desapareça de novo da sua máquina você já sabe, você copia deste disquetinho”. (risos)

 

P/1 – (________?)

 

R- É, às vezes ele sai e não volta, perde o caminho de volta. Então deu muito trabalho.

 

P/1 – Em toda essa faina, essa lida, você passou por muitos momentos de pânico, assim de pânico absoluto e total, de cair o mundo?

 

R – Muitos! Informática é sempre um ambiente de alto estresse. Cada vez que você vai fazer uma migração de máquina, você faz todas as cópias, os back ups. Faz duas, três vezes. Na hora do restore, você tenta com o primeiro, às vezes com o segundo, às vezes com o terceiro e não restaura na máquina nova. Então, isso é um desgaste muito grande porque você geralmente começa isso numa sexta às seis horas da tarde e no sábado de manhã era já para você estar começando a rodar na máquina nova e você ainda não conseguiu fazer nada. E domingo de manhã também não! E domingo a noite dá um desespero, porque segunda cedo todo mundo tá lá prá trabalhar e não tem nada no ar ainda. Isso sempre foi assim e continua sendo. Mudaram os ambientes, as linguagens de programação, os próprios softwares mudaram, mas esse estresse das migrações, de troca de versão de software,  sempre você passa pelas mesmas histórias.

 

P/1 - Você não tem um que tenha sido emblemático para você, um episódio que você pudesse relatar aqui, aquele que te marcou o coração?

 

R – Olha, nós passamos um Carnaval tentando emitir conta. E existe uma norma da Telebrás que a conta tinha que estar na mão do cliente dez dias antes do vencimento. E nós já estávamos a cinco dias do vencimento e não tinha nem sinal... Você olhava assim e não tinha nada vindo, entendeu? Então, foi de dar desespero em todo mundo, de chamar suporte de tudo quanto era lugar que a gente podia, e tentar fazer emitir essas contas. Essas contas foram saindo quase de pacotinho e correndo, levando para os bancos... Num esquema todo especial para poder chegar na mão do assinante e rezando para que ninguém reclamasse lá no Minicom, na época, que não trouxesse problema. Então, esse Carnaval foi de matar, esse fica.

 

P/1 – Que ano foi isso?

 

R – Foi próximo de 1980. Por estar muito perto de eu casar, deve ter sido.. Eu já naquela angústia, achando que eu ia sair, porque naquela época casava e saia da empresa e tal, né? Então eu lembro que foi uma época bem angustiada mas eu não sei precisar mais. Setenta e nove, setenta e oito, acho que foi por aí.

 

P/1 – Mas esse padrão era aplicado às telefonistas, casavam e não podia casar.

 

R – É, não podia casar.

 

P/1 – Você ia perder seu trabalho por amor?

 

R – É, aí eu avisei e falei que na época com o Valmiro: “Olha, eu vou me casar, então vocês já precisam preparar alguém para ficar com o faturamento porque é traumático o faturamento”. Ele falou: “Regina, eu quero saber seis meses antes, seis meses é suficiente para formar alguém?” Eu falei: “É um mínimo. Então vamos começar porque eu vou casar em janeiro de 1980” mas devia ser agosto por aí... de 1979. Aí, nós começamos já a treinar uma equipe e  quando foi chegando mais próximo ele falou: “Olha o seu Alexandrino disse que você vai ficar.” Eu falei: “Ah, vou?” “Vai”. Meu marido já era funcionário do grupo também e seu Alexandrino falou: “Não, vai ficar sim! Não precisa sair por causa de casamento não. Com filho é que não dá certo, mulher com filho não dá, não tem jeito de trabalhar. (risos) Luciano voa muito, viaja muito, não vai atrapalhar você trabalhar não. Mas filho atrapalha!” Aí, eu fiquei cinco anos sem filho.

 

P/1 – O seu marido é do táxi-aéreo?

 

R – É do táxi-aéreo.

 

P/1 – É piloto como o Dr. Luiz?

 

R – Isso.

 

P/1 – E como é que você resolvia nas internas domésticas todo esse estresse, essa coisa sem horário?

 

R – É, sempre muito sem horário. Eu na época já fazia administração, foi quando eu comecei faculdade de administração, casada. E eu chegava da escola, fazia um pouco de trabalho e quando eu ia dormir tocava o telefone, que tinha dado pau no faturamento ou em serviço de banco. Banco também só processava a noite. Acho que a cena mais triste para mim era sair às sete horas da manhã, lá na porta da CTBC na cidade industrial e estava cheinho de fusca amarelo e fiat amarelo. Era o serviço de Cerca, fazia malote de banco e se eles estavam ali na porta a essa hora era porque não tinha saído o serviço à noite. Então aquilo era um desespero total! Total! Então a gente teve umas coisas assim que a gente de vez em quando lembra e diz como a gente sofre às vezes por pouca coisa (risos).  Mas na época aquilo era um horror.

 

P/1 – O teu marido era um poço de compreensão para essas situações?

 

R – Ele também tinha uma vida muito irregular como piloto de táxi-aéreo. No mesmo momento que a gente estava pronto, saindo para jantar, ele estava tirando a roupa, pondo o uniforme e subindo para o aeroporto. E eu muitas vezes estava chegando para dormir, tocava e eu falava: “Já, já, eu volto.” E ele falava: “Aham...” Ele já sabia que era só de manhã, quando voltava! Que às vezes eu já até emendava e deixava para vir dormir à noite. Então, ele teve que se acostumar. Imagino que não foi fácil para ele também não.

 

P/1 – Esse processo todo, quer dizer, desde lá do cartão perfurado até esse momento em que a informação vira um fator de produção na realidade, quer dizer, essa é uma área crítica. Nada nem ninguém funciona sem esse suporte, sem essa base. Como é que você analisa essa trajetória, o fato de você ter programado lá no cartão perfurado e hoje com os recursos que têm que nunca são os suficientes e que não serão os mesmos até daqui a seis meses. Como é que você enxerga esse mundo mutante?

 

R – É, essa profissão nossa, ela é gratificante nesse sentido porque você está acrescentando todo dia muita coisa. Você não pára no tempo. Quem parar morreu já, está lá trás. E eu me considero uma bem-aventurada, porque eu peguei essa história toda e eu não defasei . Eu hoje dentro das tecnologias tem as tradicionais, existem os sistemas, aí, até hoje existem os faturamentos, existem contas à pagar, contas à receber, folha de pagamento. E eu já passei dessa fase, eu já participei de todas as grandes ondas dos sistemas que existiram, desde RB que quando se começou a falar na sigla RB, nos sistemas integrados para back office a CTBC já estava implantando o projeto Ciaf dela. E eu coordenei esse projeto e nós nos antecipamos ao mercado. Na época...

 

P/1 –Você criou o projeto Ciaf?

 

R – Ciaf. E a gente falava assim: “Será que a gente escolhe o melhor de cada fornecedor e integra tudo ou será que é melhor a gente ver qual fornecedor tem um conjunto mais harmônico que tem mais chance de ser legal, mas que já esteja tudo intregrado?”. A ênfase está em ter o melhor de cada ou de ter tudo integrado, totalmente integrado. Então a equipe concluiu que era melhor se optar pelo integrado mesmo que individualmente não se estivesse tendo as melhores soluções. E aí, nós fizemos os sistemas integrados, administrativos e financeiros. Aí, depois veio a onda do RB, em 1996 a gente já estava implantando. A gente já tinha escolhido o fornecedor e tal. E assim, a gente vem há muito tempo com esses projetos dentro da CTBC, antecipando o mercado. E, reconhecimento de “fala” está aí, foi um projeto que se antecipou também ao mercado. Agora a área onde eu atuo especificamente, a área de business intelligence, é uma área muito nova dentro de tecnologia da informação. As empresas ainda estão engatinhando, começando a andar nessa área, nós estamos com nosso business intelligence andando desde 1998.

 

P/1 - E em que consiste o teu trabalho hoje, nessa área?

 

R – Hoje, conseguir de todas as informações que existem no sistemas transacionais da empresa, você trazer isso para um ambiente e em que essa informação seja utilizada como apoio de decisão. Ela é suporte para o decisor. Então, são os decision support system. São sistemas de informações gerenciais. E eles inclusive criam uma base muito grande analítica, com um histórico aí de dois, três, cinco anos para a empresa poder estar se baseando numa série histórica para poder estar projetando o futuro. Então, o business inteligence faz com que todo mundo na empresa tenha acesso a informação de uma maneira mais simples e apoia a decisão dos diretores, dos coordenadores, dos analistas de negócios de uma maneira mais fácil de ter informação.

 

P/1 - Para desenvolver um sistema como esse você precisa conhecer muitíssimo bem o cotidiano e a cultura dessa empresa?

 

R – Sim , onde estão as informações, onde ...

 

P/1 – E essas informações são captadas como, para você analista e programadora? Vai conversar com as pessoas, vai ver como elas trabalham? 

 

R – Isso, conhecer e explorar bem. Esse sistema é, ele é top down. Você começa quais são as necessidades dos decisores, o que que a empresa precisa de informação. Esse são os indicadores de performance da empresa e para se montar esses indicadores de performance que monta um cockpit para auto-administração, está batendo no olho e saber se a coisa está boa ou ruim. Tanto é que tem um critério de semáforo: se está verde, se está vermelho, se está amarelo o número, para montar aquele indicador de performance, onde é que está a informação que alimenta aquilo. E é aí que você chega nos sistemas transacionais, aos sistemas operacionais da empresa. De lá você traz  para um armazém de dados. Ali os dados são colocados, organizados, agregados de forma a estar te mostrando a informação já trabalhada, usável.

 

P/1 – Quer dizer, na realidade é um processo que não acaba nem termina.

 

R – Não, não, tanto é que a gente chama de processo. A gente chamou de projeto (day to house?) inicialmente, mas hoje é um processo de warehousing. Você está sempre buscando a informação, mudando a forma de armazenar às vezes, agregando mais coisas, cruzando mais informações e tirando delas novos indicadores, vamos dizer assim. 

 

P/1 – E como trabalhar no cotidiano, no dia-a-dia pensando em 2100?

 

R – É necessário, para começar. Quem não estiver pensando como é que vai estar lá na frente não consegue sobreviver amanhã. Está tudo muito dinâmico. Mas você precisa ter instrumental para trabalhar, você precisa ter acesso, hoje, a treinamento. E nós temos a Internet hoje que é um portal para o mundo. Ali, você sabe, a gente se cadastra nos sites que tratam desse assunto, de warehousing, de sistemas de informações gerenciais, e por ali você tem fontes limpíssimas para beber e está conseguindo ver o que é que vem para frente. Inclusive a gente vem questionando desde o ano passado. Parece que a coisa está meio quieta, qual é a próxima onda? Veio depois do RP, o CRM, nós estivemos em todas elas. Qual é a próxima grande onda agora? Está todo mundo sem responder.

 

P/1 – O que você acha?

 

R – Não sei, eu também estou procurando. Não sei. Eu tenho comigo que investiu-se muito em sistemas de informação nos últimos anos. As empresas gastaram muito dinheiro com tecnologia da informação, em hardware, em software, em capacitação de pessoal. Eu acho que está na hora de começar a tirar um pouco para trás, ter retorno desse investimento. Sabe? Eu acho que é por isso que o mercado está um pouco calmo, acho que não existe fôlego para se lançar nenhum modismo mais, neste momento. Então acho que a gente está passando por uma etapa de maturação disso tudo.

 

P/1 – Sim, de maturação e posterior consolidação?

 

R – Isso. Aí sim eu imagino que depois vem uma nova onda.

 

P/1 – Nos Estados Unidos essa tem sido a tendência de fato. Inclusive, o crack, a instabilidade do Nasdaq tem muito a ver com isso.

 

R – Exato. Lucent e Alcatel ontem ou hoje, não sei, se separaram. O Nasdaq ontem caiu 4,2. Tá assim, né?

 

P/1 – É um looping, uma montanha russa.

 

R – É, a Internet... se apostou muito na Internet, gastou-se muito dinheiro, gastou-se às vezes mais saliva do que dinheiro também. Mas foi uma decepção grande no geral.

 

P/1 – Provavelmente porque se descobriu que o negócio tradicional ainda guarda conceitos que precisam ser...

 

R – É, acho que ainda precisam maturar um pouco mais a Internet, ganhar confiança das pessoas.

 

P/1 – Como é que você avalia essa, não estou te pedindo nem um exercício de futurologia, mas como é que você avalia essa transformação de uma empresa de telefonia que diversificou negócios para todas as áreas, reestruturou-se e hoje já está trabalhando com tecnologia da informação e está trabalhando conceitos de telecom de uma forma muito mais consistente? Que futuro que essa empresa, que futuro que espera essa empresa? Quais são os horizontes que você está enxergando aí?

 

R – Bom, para falar da CTBC, a CTBC dentro do contexto Brasil, dessa turbulência toda da privatização, ela é uma heroína. Porque com tanta injeção de capital estrangeiro, essas empresas chegaram aqui com um poder imenso. E nós achamos que nós seríamos o peixinho engolido pelos tubarões. E isso não aconteceu. A CTBC continua com uma performance excelente. Nós temos muita capacitação interna e a gente vê que isso faz a diferença. Visto que a gente tem perdido muita gente para o mercado. Profissional da CTBC é um profissional valioso no mercado de telecomunicações. A gente é muito respeitado no nosso mercado. O ano passado nós tivemos a oportunidade de participar de quase que todos os eventos, os seminários, os congressos que tiveram pelo Brasil e nós fomos convidados para palestrar. Tanto a área de… Mais a área de tecnologia da informação quanto a área de telecom em si. Eu acho que a gente está muito bem capacitado para enfrentar esse mercado todo. Agora, alguém já anda começando a dizer que esse modelo de privatização nosso foi ruim. E eu acho que a partir desse momento, se ele não machucou o CTBC, imagina ele bom, com cada um tendo preservados os seus direitos. Eu acho que para a CTBC o futuro é muito grande, é muito bom.

 

R/1 – Tá certo. Já encaminhando a finalização desta conversa, mas uma coisa que me ocorreu agora e que ficou para trás: Como é que se deu, quer dizer, quando a parceria com a Bull acaba, como é que vocês voltaram ao novo sistema, o que é que aconteceu com a área de vocês?

 

R – Bom, nós temos resquícios disso. O mainframe da Bull está aí até hoje, rodando um dos principais sistemas nossos de suporte de operação. Mas, com o tempo contado, devemos estar desativando esse mainframe aí dentro de alguns dias. Mas a gente já estava trabalhando com plataformas mais baixas da Bull, com máquinas risque, que neste caso a  Bull e a IBM tem um projeto em conjunto. Elas só mudam de nome mas é exatamente a mesma máquina. Então, a gente tem essa tecnologia da Bull ainda, continua. A gente já diversificou algum tempo nas plataformas mais baixas para outros fabricantes. E em breve, dois ou três meses acho que a gente está desativando o último grande mainframe.

 

P/1 – Você acredita que essa idéia do Projeto Cerrado, o tipo de inovação que ela trás, de pensar todos os processos primeiro para depois montar uma empresa, isso vem um pouco, justificar e corroborar essa vanguarda tecnológica que a CTBC sempre teve? Quer dizer, desde os primeiros CPDs, microondas etc?



R – Sim, essas datacenters e ASPs estão emergindo agora. Está se falando nisso há bem pouco tempo.  E, o grupo Algar já viu essa possibilidade há, acho que há dois anos atrás. E já começou a trabalhar essa otimização, isso é uma otimização muito grande em termos de grupo, de padronização de processos, de ganhos efetivos de custo, de produtividade, de capacitação de pessoal. Então, isso é mais uma antecipação, um passo à frente antes de todo mundo. 

 

P/1 – O que vem... o que é o histórico.

 

R – É.

 

P/1 – Pois muito bem, Regina, eu queria que você me dissesse o que você diria a uma pessoa que fosse amanhã trabalhar no grupo, um associado recém-contratado, o que que você teria a dizer para ele, o quê que essa pessoa vai encontrar aqui?

 

R – Ele vai encontrar aqui a oportunidade de estar sempre up to date com o mercado. Ele vai ser o que ele quiser ser. Porque aqui você conquista o que você quiser conquistar. O grupo Algar em geral e a CTBC, que eu estou há muito tempo, ela te dá todas as oportunidades. O que você quiser ser lá dentro você consegue. É pela sua competência. Não existem políticas lá dentro, que segurem ninguém. Então as pessoas que se dedicarem a ter alto desenvolvimento e que queiram crescer lá dentro, elas têm oportunidade. Elas vão acabar ficando lá vinte e cinco anos como eu (risos).

 

P/1 – Regina, como é que você se sentiu dando esse depoimento? Que que é isso, que avaliação você faz disso?

 

R – Ah, muito legal, muito legal! Eu achei que é uma forma da gente perpetuar. Eu acho que toda a vez que você tem a oportunidade de registrar as coisas que passaram, você está guardando numa caixinha bem guardada, aquilo não se perde. Porque o tempo passa e as coisas mais marcantes ficam, mas às vezes detalhes interessantes vão se perdendo, e eu tenho certeza que daqui a um tempo, eu vendo isso aí, eu vou dizer: “Olha, eu não me lembrava disso”. Eu tenho certeza. Então, eu acho que é importante criar memória. Eu ouvi uma gravação do Sr. Alexandrino há um tempo atrás e perguntaram para ele: “Sr. Alexandrino, mas porque é que o senhor conseguiu ir crescendo a CTBC, ganhando na área de concessão assim, o que é que o senhor diz, qual é a sua maneira de ver?” E ele falou: “Olha, é porque quando eu olho, eu não olho para a montanha.” Salvo engano é alguma coisa assim, não com essas palavras, mas o sentido era esse: ”Eu não olho para a montanha, eu tento enxergar o que está atrás das montanhas. Eu nunca olhei para as montanhas.” Isso é uma coisa que deveria, de vez em quando, passar num telão dentro das empresas. E ele falava assim: “Menino, esse telefone está funcionando? Cuida bem dele porque é o cliente que paga o seu salário.” Seu Alexandrino falava isso há vinte anos atrás: “Quem paga o seu salário é o cliente.” Pendurava plaquinha dentro da central escrito isso. Ele tinha muita visão de negócio, ele era muito focado no cliente, entendeu? “Não tem cabimento o pessoal lá em Franca, uma cidade progressista daquela e não ter telefone? Eu vou pôr telefone.” E saiu esticando linha telefônica, sem concessão. “Depois a gente vê como é que fica.” Mas era alguém assim… Eu acho que isso já deveria estar, hoje, sendo mais do conhecimento de todo mundo, a gente achar momentos para estar mostrando esses registros, pegando alguns pontos assim que são interessantes, para ir puxando as novas gerações, né?

 

P/1 – É para isso que serve, de fato!

 

R – Eu acho. Fica essa memória e isso serve não só para quem deu o depoimento, mas para quem quer conhecer um pouco do passado e até entender o presente e imaginar o futuro.

 

P/1 – Exatamente. Beleza, Regina. Muito obrigado.

 

R – Eu que agradeço.

 

P/1 – Tem alguma coisa que você gostaria de ter dito e não foi estimulada a dizer?

 

R – Não, não, acho que está tudo aí.

 

P/1 – Tá ótimo. Beleza. Muitíssimo obrigado. A idéia é exatamente essa. A idéia é que isto seja útil para alguém. A idéia é que a gente faça desta memória, uma memória útil, isto é, que as pessoas que hoje pegam o telefone e dá sinal ou as pessoas que ligam o computador e acessam a internet rapidinho não têm idéia que um dia teve uma...

 

R – Não têm... 

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