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História

Melhorando a qualidade de vida da comunidade

História de: Amezilda Calandrini Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/09/2004

Sinopse

Amezilda Calandrini Santos conta em seu relato momentos marcantes que viveu como agente comunitária de saúde, apoiando famílias em diversas necessidades e fiscalizando violações de direitos. Conta também como seu trabalho ajudou na melhoria da qualidade de vida de diversas pessoas na comunidade.

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História completa

P/1 - Amezilda, eu queria começar com você fazendo a sua identificação. Queria que você falasse o seu nome completo, a data e o lugar que você nasceu.

 

R - O meu nome é Amezilda Calandrini Santos.

 

P/1 - A data do seu nascimento?

 

R - Nasci no dia 29 de maio de 1948.

 

P/1 - Onde?

 

R - Em Belém do Pará.

 

P/1 - Bom, então como eu tinha te dito, vamos fazer um pouquinho assim de história de vida. Quem são e o que você sabe da história dos seus avós por parte de pai pra começar?

 

R - Meus avós, por parte de pai eu conheci só a minha avó, mas minha avó era uma senhora batalhadora.

 

P/1 - Como ele chamava?

 

R - Chamava-se Maria Calandrini. Então, ela lutava de tudo. Eu conheci a minha avó, mas o meu pai dizia que ela criou ele trabalhando.

 

P/1 - Ela é o que, lavradora?

 

R - Ela trabalhava com doces.

 

P/1 - Doces? Fazia doces?

 

R - É, tipo assim uma confeitaria. Ela fazia os docinhos dela e vendia os docinhos.

 

P/1 - Ela fazia em casa mesmo?

 

R - Fazia em casa os docinhos dela.

 

P/1 - Aqui em Belém?

 

R - Isto já aqui em Belém.

 

P/1 - Ela nasceu em Belém?

 

R - Ela nasceu em Marajó. Agora em Marajó eu não sei contar o que eles faziam. Acredito que era na lavoura. Era criado, com certeza.

 

P/1 - E ela se casou com o seu avô lá em Marajó?

 

R - Em Marajó, foi.

 

P/1 - E veio pra cá?

 

R - E veio pra cá pra Belém. Só que o meu avô eu não conheci. Conheci só a minha avó.

 

P/1 - Ele faleceu?

 

R - Faleceu.

 

P/1 - E você sabe quando ele faleceu, porque, alguma coisa?

 

R - Eu não lembro. Eu era criança, pequenininha ainda, muito criança.

 

P/1 - E pelo lado da sua mãe?

 

R - A minha mãe nasceu no Amazonas, eu não sei a cidade. Só que ela veio de lá pra cá porque lá a família começou a se dispersar. O meu avô por parte da minha mãe morreu, aí ficou só a minha avó e já com três irmãos, eles vieram embora pra Belém, conviver pra cá. Aí aqui ficou a família.

 

P/1 - Você sabe o que faziam os seus avós, pais da sua mãe?

 

R - Era pesca.

 

P/1 - Eram pescadores?

 

R - É. Pesca e trabalhava com seringa o meu avô. Era daquela época ele tirava seringa.

 

P/1 - Da seringueira, ele tirava a borracha?

 

R- Seringueira, tirava a borracha. Tem o leite da seringueira pra fazer a borracha.

 

P/1 - Bom, a sua mãe veio pra cá e ela conheceu seu pai aqui em Belém?

 

R - Conheceu meu pai aqui em Belém.

 

P/1 - Eles se casaram aqui?

 

R - Se casaram aqui.

 

P/1 - Os seus avós, você sabe se eles eram alfabetizados?

 

R - Não, acredito que não. O meu pai era bem alfabetizado porque ela se preocupou muito com o estudo do meu pai.

 

P/1 - A sua avó?

 

R - Foi. Eu acredito que eu trago muita coisa. Tudo que eu trago dentro de mim é do meu pai. Meu pai é muito sabido. O meu pai sempre levou nós para o lado bom. Muita orientação na criação dele. Nós sempre fomos uma família pobre, mas conseguimos estudar. Naquela época, já morando aqui em Ananindeua, viemos de Belém pra cá pra Ananindeua, que pra chegar aqui nessa cidade, aqui em Ananindeua, andava cinco quilômetros pra estudar e eu estudei. Só que eu não concluí o segundo grau. Já estava pagando ônibus pra Belém, aí houve aqueles problemas de família, de não ter dinheiro, aí o meu pai me tirou da escola e eu já comecei também a trabalhar.

 

P/1 - E você falou da sua avó, ela fazia doce, que tipo de doce ela fazia?

 

R - Eram docinhos assim esses doces de casa, bolo de macaxeira, outras coisas que eu não me lembro. Eu sei que ela fazia. Ela tinha um forno grande e o meu pai conta que ele ia com o tabuleiro vender na rua os docinhos da mãe dele. E eu ainda lembro, eu era criança, eu lembro que ela tinha aquele forno grande na cozinha, com lenha,  queimava a lenha.

 

P/1 - Vocês moravam aonde aqui em Belém?

 

R - Na Marquês. É uma rua em Belém.

 

P/1 - No centro?

 

R - No centro. Na Pedreira.

 

P/1 - E o seu pai então cresceu em Belém?

 

R - Cresceu em Belém.

 

P/1 - Nasceu aqui e cresceu aqui?

 

R - Nasceu em Marajó e cresceu em Belém, a cultura já foi daqui de Belém.

 

P/1 - Então seus avós casaram lá e já tiveram vários filhos lá?

 

R - Tiveram vários filhos em Marajó e de lá que eles vieram pra cá pra Belém.

 

P/1 - Seu pai veio criança ainda?

 

R - Veio criança pra cá.

 

P/1 - E como é que você sabe da história do casamento, do encontro do seu pai e da sua mãe?

 

R - Eu não sei, eu não lembro. A mamãe? A mamãe e o papai?

 

P/1 - É.

 

R - A mamãe, ela foi trabalhar na barbearia dele.

 

P/1 - Na barbearia? Ele já era barbeiro?

 

R - Ele já era barbeiro, já tinha a barbearia. Ela foi trabalhar lá, ela conta que ela foi trabalhar lá.

 

P/1 - O que ela fazia na barbearia?

 

R - Ela recebia as pessoas, era tipo assim, acredito que era limpar, sei lá, esses serviços fazia de limpeza, tudo, com certeza. Aí ela namorou com papai, foi. Namorou com papai e viveram juntos até o fim da vida dele.

 

P/1 - E foram muitos irmãos?

 

R - Quatorze irmãos.

 

P/1 - Como é que era a sua casa? O que você lembra da sua infância?

 

R - A nossa casa era muito assim, era de madeira, não, de barro. Era casa de barro ainda. Depois que passou pra madeira.

 

P/1 - Onde é que era a sua casa?

 

R - Era no Maguari.

 

P/1 - Um bairro aqui de Belém?

 

R- De Ananindeua. Já quando ele teve nós em Belém, dois irmãos, aí mudou pra cá pra trabalhar na cultura, pra cultivar. E veio embora de Belém e veio pra cá pra Ananindeua.

 

P/1 - Pra ser agricultor?

 

R - Ser agricultor. Aí nós fomos criados tudo na agricultura.

 

P/1 - Aí abandonou a barbearia?

 

R - Abandonou a barbearia, aí ele tinha roça, tinha casa de (inaudível).

 

P/1 - Ele tinha terra própria?

 

R- Tinha que a prefeitura de Ananindeua cedeu pra ele trabalhar.

 

P/1 - E era muita terra ou pouca? Pouca terra?

 

R - Pouca terra, não era muita não. Depois de um tempo, aí houve muitas leis aí ele não pode mais exercer aquele trabalho que ele fazia, né? Ele fazia carvão e vendia.

 

P/1 - E aí foi acabando a madeira?

 

R - Aí foi acabando a madeira, foi modificado, foi melhorando, foi acabando as árvores e ficando só casas. Aí ele já passou a ter uma taberninha e foi na taberninha que ele morreu.

 

P/1 - Do que é que ele morreu

 

R - Ele morreu de acinte.

 

P/1 - O que é acinte.

 

R- É uma doença que dá no baço, chama barriga d’água, e está me dando uma dor aqui do lado!

 

P/1 - Calma. Deve ser fome essa. Bom, e como você lembra do ambiente da sua casa, infância, era alegre, como é que eram os  seus pais, eles eram muito bravos, rigorosos?

 

R - Sempre foram bravos. Em matéria assim do trabalho, do estudo, nós quase não tivemos infância de brincar, era mais trabalhando com ele e estudando.

 

P/1 - Na lavoura?

 

R - E estudando.

 

P/1 - Você é a segunda?

 

R - Sou a segunda filha.

 

P/1 - A maioria é só mulheres ou tem vários homens?

 

R  - Quatro mulheres.

 

P/1 - Quatro mulheres, então a maioria é homem?

 

R - A maioria é homem, mas só que morre, né?  Morreu meus irmãos.

 

P/1 - Escuta, então você cresceu aqui em Ananindeua?

 

R - Cresci em Ananindeua. Eu estudei aqui em Ananindeua.

 

P/1 - E era muito diferente a cidade?

 

R - Muito diferente, muito diferente mesmo. O que você está vendo agora, nossa! Era muito diferente.

 

P/1 - Como é que era?

 

R - Era só terra, aquele caminho, a gente andava, ia embora no caminho. Só cabia um carro, a rua só cabia um carro (riso). Aí a gente andava, andava, andava quilômetros até chegar à nossa casa. Vinha, andava pelo caminho, vinha embora pra estudar aqui no José Marcelino de Oliveira, aqui que eu estudei, nessa escola, José Marcelino de Oliveira.

 

P/1 - Bom, aí em Ananindeua, você cresceu, estudou, fez até o primeiro grau, né?

 

R - Foi.

 

P/1 - E o que você lembra assim da fase de adolescência, também sempre trabalhando?

 

R - É, nós não tivemos assim uma adolescência porque era sempre em casa com papai trabalhando. Quando ele achava que tinha que nos levar numa festa ele tinha que ir com nós (riso). Ele tinha que ir. Eu tinha que ir com uma senhora, com alguém que tomasse conta de nós, então nós tivemos... Hoje eu já agradeço isso. Nós tivemos esse comportamento, né? Eu agradeço mesmo.

 

P/1 - E tinha muita festa?

 

R - Não, não tinha.

 

P/1 - Como é que era o ambiente aqui de Ananindeua naquele tempo?

 

R - Muito pobre. Era muito pobre, muito carente, muito carente mesmo. No Maguari tinha um posto de saúde. Um posto só de saúde que eu lembro, eu vinha trazer meus irmãos pra dar vacina.

 

P/1 - Mas todos se vacinavam?

 

R - Todos se vacinavam. Eu tinha tendência. Eu adorava trazer meus irmãos pra vacinar só pra ver aplicar a injeção. Pra eu ver a mulher aplicar a injeção.

 

P/1 - E você gostava de ver aplicar a injeção?

 

R - Achava bonito a mulher aplicar a injeção. Às vezes eu pensando, eu acho que eu já tinha a tendência para o lado da saúde.

 

P/1 - Você gostava de tomar a injeção também, não?

 

R - Não, tomar não. Mas de ver aplicarem a injeção, eu chegava em casa, ia aplicar injeção nas minhas bonecas (riso).

 

P/1 - E você então foi se desenvolvendo aqui, trabalhando com o seu pai e o que é que aconteceu? Você se casou, depois que você se formou? Você não fez o segundo grau completo? Você fez só o início?

 

R - Só o início no Colégio Estadual Augusto Meira.

 

P/1 - Você disse que parou de estudar porque estava difícil, né?

 

R - Parei, né? Aí eu já arrumei namorado, aí não me casei.

 

P/1 - Arrumou namorado e não casou?

 

R - Não casei.

 

P/1 - Continuou morando com o seu pai ou foi morar com o namorado?

 

R - Fiquei morando com a minha tia. Aí eu tive um filho.

 

P/1- Por que o seu pai não quis você em casa?

 

R - Não me quis em casa não, não me quis mais em casa. Aí eu enfrentei uma barra, enfrentei uma barra violenta, mas sempre com a tendência do trabalho. Depois de gravidez, fui trabalhar em casa de família pra criar. Já eles acharam que estava errado, pegaram a minha filha pra criar pra eu trabalhar. Dentro desta casa que eu trabalhei eu fiz o cursinho de atendente de enfermagem, em 70, 1969, 70, mais ou menos isso aí. Com esse cursinho eu fiz um estágio num hospital que até hoje eu estou nesse hospital que eu fiz o estágio eu fiquei. Passei quatro anos trabalhando lá, aí minha vida... Passei uma porção de tempo só.

 

P/1 - Sozinha? Você não ficou então, você teve esse filho, filha, mas não deu certo a relação com o rapaz?

 

R - Não, a relação não. Mesmo porque ele morreu. Morreu e até passei uma porção de tempo trabalhando.

 

P/1 - Quer dizer, vocês iam casar?

 

R - Ia. Aí ele morreu, ele bebia muito. Agora que eu estou entendendo, muitas vezes eu fico pensando, aquele tempo a pessoa morre agora de cirrose, nem sabia do que o homem tinha morrido. Agora que eu já sei, né?

 

P/1 - Então não foi acidente, nada?

 

R - Não. Foi inchando, morreu inchado. Foi bebida.

 

P/1 - Mas ele não era jovem? Porque às vezes a cirrose pega, mas...

 

R - Não, não era muito jovem.

 

P/1 - Não era jovem. Já era de mais idade?

 

R - Já estava com 23 anos, eu.

 

P/1 - Você com 23 anos e ele?

 

R - Tinha mais.

 

P/1 - Bom, mas de qualquer maneira, você deixou sua filha então com os seus pais?

 

R - Aí fui ter a minha independência, sempre trabalhando.

 

P/1 - E aí no hospital?

 

R - No hospital eu passei quatro anos e já engravidei, mas...

 

P/1 - Você engravidou uma segunda vez?

 

R - Mas já vivia com o rapaz, que é o pai do meu filho.

 

P/1 - Esse você conheceu no hospital?

 

R - Foi. É o pai do meu filho. Aí nós vivemos juntos um bocado de tempo.

 

P/1 – Três anos?

 

R - Não vou falar mais...

 

P/1 - Tá bom. Fala o que você quiser, se você não quiser contar, é só pular a parte que você acha que não deve contar. Mas então você teve seu segundo filho com o outro namorado que você teve...

 

R - Vivemos bem.

 

P/1 - Viveram bem, três anos?

 

R - Três, quatro.  Mas já não deu certo de novo. Separação de novo. Bom aí sim, aí eu fiquei só mesmo. Agora, há cinco anos, que eu já estava aqui no PACS eu encontrei esse senhor, que eu estou com ele até hoje, agora esse aí não vou me deixar mais, só quando morrer. Acabou, parou, chega. (riso)

 

P/1 - Você então trabalhou no hospital, lembra esse tempo? Você gostou do trabalho?  O que é que você fazia? Como é que era o trabalho lá?

 

R - Eu trabalhava no hospital infantil.

 

P/1 - O que é que era o seu trabalho lá?

 

R - Serviço de enfermagem.

 

P/1 - E era bom?

 

R- Era bom.

 

P/1 - Você gostava?

 

R - Gostava, gostava muito.

 

P/1 - O que é que você fazia?

 

R - Aplicava injeção, cuidava das crianças no berço, aplicava soro, todo serviço de enfermagem eu fiz. Só que desvalorizou. Eu não consegui fazer outros cursos  pra profissionalizar e aí pronto, não entrei mais em hospital, parte de enfermagem nada.

 

P/1 - Bom, e aí você saiu do hospital por quê?

 

R - Porque eu engravidei.

 

P/1 - Ah! Foi quando você engravidou?

 

R - Foi. Na época eles não aceitavam mulheres grávidas trabalhando. Fiquei trabalhando, trabalhando. Quando eu voltei pra trabalhar, eu não entrei mais e me indenizaram, foi isso. Aí eu passei já a trabalhar em farmácia.

 

P/1 - Aí você começou a trabalhar em farmácia? E o que você fazia?

 

R - Balcão. Trabalhava no balcão.

 

P/1 - Vendendo remédio?

 

R - Vendendo remédio. Trabalhei em várias farmácias e adoro farmácia, gosto demais de farmácia.

 

P/1 - Quantos anos você trabalhou em balcão de farmácia?

 

R – Trabalhei dezessete anos em farmácia.

 

P/1 - Bom, então me conta uma coisa - o que é que você lembra de história , você sendo balconista e atendendo as pessoas, o que você lembra de história interessante como balconista de farmácia?

 

R- História interessante?

 

P/1 - Nunca aconteceu nenhuma história interessante, que tenha te marcado?

 

R - Acontecia, aconteceu foi várias, será que eu estou lembrando? Será que a história do Vick?

 

P/1 - Ah! Lembra, qualquer uma que você achar que...

 

R - Um homem uma vez chegou no balcão e pediu uma latinha de  Vick.

 

P/1 - Vickvaporube

 

R - Vickvaporube. Fui lá, peguei o Vick. Trouxe o Vick. Cheguei lá no balcão, ele disse: “Eu não quero mais o Vick, eu quero o inalador Vick”. Eu tirei a latinha, levei pra lá, trouxe o inalador.

 

P/1 - Aquele que enfia no nariz?

 

R - Sim. Disse: “Eu não quero mais o inalador, não quero o inalador, quero o xarope Vick”. Aí eu voltei e disse: “Meu senhor, o que o senhor está querendo? O senhor pediu a lata do Vick, pediu o inalador Vick, pediu xarope Vick, o que o senhor quer mais agora”? Aí eu não digo mais, ele disse o nome. Ele estava com graça comigo. Aí eu fiquei assim alvoraçada, aí o meu patrão, Sr Rui veio: “O que é que está acontecendo aí”? Quase eu perco o emprego. O homem estava querendo, sabe? Tirar uma graça, assim tirar graça mesmo.

 

P/1 - Escuta, as pessoas quando chegam em farmácia, elas sabem o que querem comprar?

 

R - Às vezes sabem, às vezes não. Às vezes pede uma orientação pro balconista.

 

P/1 - E você dava orientação?

 

R - Dava. Dava o que tinha de informação, né? Tinha a informação do nosso patrão, do dono da farmácia do que nós podíamos e do que não podíamos.

 

P/1 - E o que é que podia?

 

R - Podia ver a medicação que não ia fazer mal. Um AS não ia fazer mal, uma dipirona não ia fazer mal, pra dor de cabeça, anador que a gente não vende dipirona, vende anador que eu sei bem.

 

P/1 - Você sabe diferenciar a fórmula do nome do remédio?

 

R - É. A dipirona não é dipirona, é anador, né? .Ácido Acetil Salicílico é o AS.

 

P/1 - Qual mais?

 

R - Ah! Lembrei uma história engraçada. O pessoa chegava à farmácia e pedia assim: “Você tem aquele remédio que se chama assim, parecido assim, perna de gato”? Fiquei embaralhada. Perna de gato? “É, aquele remédio que a gente põe na água e que fica preto”. Permaganato (riso). Tem várias, a gente vai lembrando, faz tanto tempo que eu saí de farmácia! Eu tentei voltar, mas não consegui mais por causa da idade. Eu tentei voltar porque se eu conseguisse voltar, eu gosto muito de farmácia, adoro farmácia. E voltar, de ter, de ser dona de uma farmácia.

 

P/1 - E você acha que as pessoas compram muito remédio à toa, sem saber se está correndo risco?

 

R - Compra muito medicamento correndo risco mesmo. Compram sim.

 

P/1 - E por que é que elas fazem isso?

 

R - É porque elas têm assim, um comodismo, não vão procurar um médico. Mesmo naquela época. Agora não, agora tem o SUS, tem muita coisa, muita facilidade pra pessoa conseguir falar com o médico, mas antigamente não. Eles procuravam farmácia: “Eu vou primeiro na farmácia”. “Eu já tomei esse remédio, pronto, já estou bom”. E não sabia nada, não sabia se estava bom, que doença tinha, mas nós sempre tivemos assim uma informação, nossos patrões, patrões bons que eu tive.

 

P/1 - E vendia assim muito remédio que tem consequência grave, assim deliberadamente ou não? Vende-se, é comum? Se vende?

 

R - Grave?

 

P/1 - Por exemplo, remédio forte que...?

 

R - Acho que com receita médica. Remédio forte com receita médica. O Diazepam é um remédio forte, né? Com receita médica. Nos meus trabalhos nunca vi um Diazepam sair sem receita médica.  Sempre nas farmácias tinha os armários, fechados e só sai com receita médica, às vezes até com identidade.

 

P/1 - E é difícil para o balconista identificar todos os remédios que existem numa farmácia?

 

R - Facinho. Pra identificar o remédio? Conhecer o medicamento? É rápido.

 

P/1 - Saber onde é que está com aquele monte de nome difícil?

 

R - Nossa! É rápido. Pra mim é rápido.

 

P/1 - Decora?

 

R - Decora Você decora tudo. Você está em casa, você sabe onde está aquele remédio.

 

P/1 - E teve algum remédio que saiu de linha, que teve um efeito que você lembra que foi tirado? O remédio foi lançado, mas descobriu que tinha um problema?

 

R - Remédio pra diarreia.

 

P/1 - Tinha o que?

 

R - A  (inaudível) ativada, não sei se era o Colestase. Tinha uma fórmula nele que era a (inaudível) ativada. Foi tirada e o Colestase fazia mal, não fazia bem não. Aí depois, agora colestase é só sufa, né?

 

P/1 - E que remédio que saiu de linha, que você lembra que era bom?

 

R - Remédio muito bom que saiu de linha, não se era da Squib, não sei se ainda existe Grimiton, não sei se ainda existe.

 

P/1 - Como chama?

 

R - Grimiton. Não sei se ainda é existe, é muito bom.

 

P/1 - Você vendia muito?

 

R - Vendia.

 

P/1 - Pra que é que era?

 

R - Pra cabeça.

 

P/1 - Pra cabeça? Mas pra dormir, assim?

 

R - Não. Pra recuperar. As pessoas tomavam pra esquecimento, pra cansaço físico também. É um remédio líquido, num vidro grande assim, mas eu acho que já acabou, não existe mais. Naquela época eles procuravam a gente: “Leva esse”.

 

P/1 - Você tomava muito remédio quando você era pequenininha?

 

R - Não. Não gosto de tomar remédio.

 

P/1 - Não? Gosta de vender?

 

R - Gosto de vender, não gosto de tomar não. Quando chega a minha vez de tomar o remédio eu não gosto. Eu tenho medo.

 

P/1 - Por que é que você tem medo?

 

R - Medo de me fazer mal. Quando o médico passa eu fico com medo. Não gosto de tomar remédio. Eu tomei agora um monte de medicamento, mas tinha medo, tinha remédio que eu tomava dois comprimidos, eu voltava pro médico pra perguntar porque que ele estava fazendo aquilo em mim. Porque tem a fase, a nossa fase de tomar remédio, a fase de menopausa. Na menopausa a gente toma muito remédio, muito medicamento.

 

P/1 - Pra evitar a osteoporose e tudo mais?

 

R - É. Tomei muito, mas a minha menopausa foi toda no agente comunitário, trabalhando no agente comunitário.

 

P/1 - Sem problemas?

 

R - Sem problemas. Acredito que se eu ficasse em casa, eu ia ficar igual a essas senhoras que ficam doente da cabeça. Eu saia de casa, de repente aquela coisa ruim. Tudo ruim, mas eu vou e na rua foi ótimo. Pra mim foi ótimo. Tenho um irmão que diz: “Tu dá graças a Deus que tu está neste serviço que tu está tirando tudo de ruim de dentro de ti”.

 

P/1 - Escuta, e como é que foi que você entrou pro PACS?

 

R - O PACS... Eu não sabia o que era o PACS. Eu estava em casa um dia, já desempregada, desempregada em casa.

 

P/1 - Quanto tempo você ficou desempregada?

 

R - Eu trabalhava em um grupo, eu acredito que o Sr. sabe, né? Abifarma, sabe qual é este grupo. Então eu era lotada.

 

P/1 - Que grupo?

 

R - Num grupo dentro deste grupo. Eram vários grupos lotados. Então era lotado em grupo, que eu trabalhava com telefone no Droga Nossa.

 

P/1 - Grupo de que?

 

R - Farmácia Droga Nossa, grupo Jota (inaudível).

 

P/1 - Num grupo de farmácia?

 

R - É, de farmácia. Grupo Jota . Então, na época tiraram um grupo, extinguiram um grupo, que eu estava lotada lá que era o Droga Fone.

 

P/1 - Como chama?

 

R - Droga fone. Pronto, todos nós saímos. Quem trabalhava nos telefones, quem trabalhava pra pegar remédio no Droga Fone, quem era das motos pra entregar os remédios nas casas e pronto. E nessa época eu estava desempregada. Quando foi um dia, eu estava em casa, bateram na porta que era pra eu comparecer numa reunião que ia entrar os agentes comunitários. Eu disse: “Mas eu não sei nem o que é isso!” “Vamos embora lá que é tu que nós estamos escolhendo, pela comunidade, nós achamos que é tu que tens que ir”. Eu fiquei assim: “Meu Deus, que é isso”? Fui, fiz a minha inscrição, cheguei em casa disse: “Agora eu vou trabalhar”! Quando eu fui saber o trabalho, era andar na rua. Andar na rua foi barra. No início foi barra.

 

P/1 - Por que é que foi barra?

 

R - Foi barra porque eu não era acostumada a andar na rua, bater nas portas. Eu conhecia muitas pessoas ali, lidava com todas, né, já morava há tempo naquele lugar ali onde eu moro.

 

P/1 - Há quanto tempo você morava lá?

 

R - Eu já morava há 6 anos.

 

P/1 - Onde é que é esse lugar onde você morava?

 

R - Área Viúva Bego.

 

P/1 - Área de invasão ?

 

R - Área de invasão, é. Desde a invasão eu já morava ali.

 

P/1 - Você já foi também com a invasão?

 

R - Já fui com a invasão.

 

P/1 - Você participou da invasão?

 

R - Não participei, já peguei um terreno lá de meu outro senhor.

 

P/1 - Quanto tempo tem essa invasão?

 

R - Dez anos.

 

P/1 - Esses terrenos invadidos são de quem? Do estado? Você não sabe?

 

R - Áreas que estão aí ocupadas, que têm dono, mas não é dono, não tem documento nenhum.

 

P/1 - Então já tinha um tempo da invasão quando você entrou?

 

R - Já. Tinha mais ou menos meses, estava nova, bonita, aquelas coisas de casas bonitinhas, limpinho, que eu nunca pensei que ia ficar assim como ficou. Agora que eu vou aprendendo que é a invasão. A invasão está deixando aquela área toda limpa, aí faz casa, casa, casa, aí já vem sanitário que não tem. Sanitário tudo cava um buraco e fica ali, o poço cava ali perto. Agora que eu vim entender. Eu pensei que ia ficar todo tempo bonito, limpinho, como era limpo. Agora é lama, a gente fala que não tem pra onde sair a água, fica tudo parado.

 

P/1 - Quando você chegou era bom e depois ficou ruim?

 

R - Era, era bom. Eu adorava.

 

P/1 - Você comprou um terreno lá?

 

R - Eu comprei, foi.

 

P/1 - Você comprou e era terreno invadido sem  escritura?

 

R - Eu comprei de um senhor, o senhor me vendeu.

 

P/1 - Mas sem escritura?

 

R - Foi. Foi sem escritura, sem nada.

 

P/1 - Ele deu?

 

R - Ele me deu assim, ele dá tanto porque eu limpei esse terreno aqui, ele dá tanto, pronto.

 

P/1 - Ele tinha casa já lá?

 

R - Ele?

 

P/1 - Ele tinha alguma coisa?

 

R - Já tinha casa já. Ele já tinha a casinha dele.

 

P/1 - Mas não tinha banheiro, não tinha nada?

 

R - Não. Não tinha banheiro, não tinha nada. Nós custamos a construir nosso banheiro, aí foi feito a fossa, né, de alvenaria. Nós conseguimos cava um poço. Antigamente era aquela… Fizemos um poço artesiano. Agora. Eu tinha, mas a comunidade toda não tinha, né? Nem todos tinha água ali.

 

P/1- Quando foi que você foi pra lá?

 

R - Pra comunidade, morar?

 

P/1 - Quando foi que você comprou essa casa?

 

R - Em 87, 86 parece. Tem 10 anos essa comunidade. Quando me chamaram parece que já tinha seis ou quatro anos, agora não estou lembrada. Em 91, quatro anos morando lá. Quatro anos. Então agora, em 95, 96 entrou pra comunidade o projeto Pró-sanear. Então é água e esgoto sanitário, né? Só que a comunidade Viúva Bego não foi agraciada com... Veio no projeto, mas não fizeram o trabalho porque a comunidade alaga. É alagada. Aí não tinha implantado o projeto, eles fizeram, eles implantaram pelos lados, as comunidades pelos lados de Jaberlândia mesmo, mas a Viúva Bego ficou sem o projeto. Então nós temos lá dejetos a céu aberto, vala, é tudo a céu aberto. Não temos saneamento básico de nada ali.

 

P/1 - Você estava dizendo que você começou, que foi difícil porque tinha que andar, mas a dificuldade que você teve no contato com as pessoas. Como é que foi que as pessoas te receberam?

 

R - A dificuldade de início. De início os que já me conheciam, eu fui me apresentando, dizendo que eu ia fazer um trabalho, mesmo porque foi na época do início do cólera.

 

P/1 - Tinha muito cólera lá?

 

R -  Na Viúva Bego não teve caso, mas teve o princípio. Na época do cólera nós encontramos muita diarréia, diarréia demais porque nós fazíamos a listagem da diarréia. Aí foi que entrei com o trabalho lá, orientando as famílias, primeiro explicando o trabalho do agente comunitário, que ia nas casas, que ia visitar as famílias, fazer a orientação. Só que nós conversamos de trás pra frente. Nós começamos com o cólera, né, ou pelo meio. Fazendo orientação de higiene, vendo fossas, vendo todas as fossas da residência, orientar pra tampar as fossas, quem não tinha, tinha que fazer, estava jogando os dejetos a céu aberto. E  muitos casos de diarréia. Agora nós já não temos muitos casos de diarréia, diminuiu muito.

 

P/1 - E você foi bem recebida pelas famílias? Eles te atenderam bem?

 

R - Me atenderam. Uns me atenderam, né? Outros na primeira vez foi  assim meio difícil. Aí depois parece que vizinho com vizinho conversa, sempre tem aquela conversa vizinho com vizinho. Aí já foi melhorando. Encontrei barra, muita barra, porque muita gente não queria. Eu vou entrar na casa, mas eu sempre tenho aquela ginga, eu não sei, eu sempre tinha aquela ginga, ginga de malandro. “Eu estou fazendo esse serviço, a senhora me permite que eu vá visitar a sua fossa”. Aí eu conseguia. Da sala, passava pra cozinha que era pra eu ver a higiene da cozinha e ver como é que estava sendo processada, como é que eles agiam, o que eu via no quintal deles, que era pra entrar com orientação de higiene.

 

P/1 - E as pessoas não se sentem ofendidas quando você fala assim?

 

R - Não, não.

 

P/1 - Tá sujo.

 

R - Não, ninguém pode falar assim: “Está sujo, Tua casa está suja, está desarrumada”.

 

P/1 - Como é que você fala?

 

R  - ”Olha, mãe”. Muitas vezes eu voltei até a minha vida, a minha situação que eu já passei antes junto com a deles. Muitas vezes eu digo: “Olha, eu já fiz a mesma coisa que tu está fazendo. Eu já morei só num quartinho, num quartinho só, mas na minha casa não era assim. Isso é tu que está errado. Tu tens que arrumar as tuas coisas. Deixe de juntar um montão de roupa jogada, a louça tu tem que lavar, enxugar, secar. Se tu não tem um armário, arruma uma caixinha, coloca dentro de um saco plástico as louças, amarra a boca, pronto, não tem um armário. Eu não tive, muitas vezes eu nunca tive um armário, mas as minhas coisas eram todas guardadas num saco, numa caixinha”. E assim eu ia devagar. Hoje nós passamos numa casa que a moça fez uma filmagem lá. Essa casa, eu sofri muito. Todos os vizinhos falavam desta senhora e pra eu entrar e dizer: “Olha o vizinho falou isso”, eu não podia porque eu não ia brigar com o vizinho. Ela ia fazer uma briga com o vizinho se eu chegasse lá e dissesse: “Olha, teu vizinho disse isso, isso, isso de ti”. Aí eu ficava, olhava, procurava meios na minha cabeça. Eu via que estava errada, né? Eu digo: “Meu Deus, o que eu faço com essa senhora”? “Sabe, senhora, a gente é pobre, a gente é humilde, nós moramos numa área carente porque nós não temos, mas dentro da nossa casa a gente tem que ser asseado. Nós temos que manter a limpeza, mesmo que não tenha nada. Não tem saneamento básico, não tem nada”. Que chamam saneamento básico, né, que querem viver se tiver saneamento básico, não. Nós vivemos sem saneamento básico, olhando aquela coisa horrível lá na vala, mas dentro de casa a nossa panela, o nosso prato tem que estar limpo. É isso. Isso é saúde. Você agindo assim, você... Lavar a mão... Muitas pessoas não sabiam nem o que era lavar uma verdura, lavar uma fruta. Eu já tinha essa educação há séculos que eu trazia  a minha verdura da feira e tenho que lavar aquela verdura. E eu via. Elas diziam: “Eu! A verdura do jeito que vem da feira eu dou pras crianças”. Aí eu tinha que dizer que não é assim, que tinha que botar a poeira, que vem, que cai na casca da banana ali. A criança tira aquela casca, mas a mão está em contato com a banana. Aquela banana está suja. Tem que lavar aquela banana, tem que lavar a verdura, tem que lavar a manga, principalmente manga, mamão, fruta de casca fina. As frutas de casca fina tem que ser lavadas. Ensinava elas que elas tinham que botar a fruta numa vasilha. Isso a gente tinha orientação do vinagre. Uma colher de vinagre pra um litro de água, tinha que deixar de molho aquela verdura ali. Que não ia morrer, que não ia matar a verdura, mas que ia matar a bactéria que estava ali dentro daquela... Que vinha naquela verdura. Foi muita barra, mas eu tenho certeza que são pobrezinho lá, nós todos somos pobrezinhos, mas a maior parte de doença que vem de falta de higiene a gente não tem.

 

P/1 - Não tem mais?

 

R - A gente não tem, que é a diarréia...

 

P/1 - E antes tinha muito?

 

R - Tinha demais. Era muito diferente do que é agora. Era diarréia. Todos se queixavam de diarréia. Todas famílias quase se queixavam de diarréia.

 

P/1 - Tinha casos de subnutrição de crianças?

 

R - Muitos casos de crianças desnutridas. A criança desnutrida a gente bate muito em cima ali deles também. Entrou pra comunidade um programa de leite, só que agora acabou. Foi bom pra ajudar, mas agora acabou o programa do leite.

 

P/1 - E houve algum caso grave de criança que você acompanhou e a criança morreu?

 

R - Desnutrido?

 

P/1 - É. Ou com diarréia.

 

R - Houve, houve caso sim.

 

P/1 - Você pode contar?

 

R - Houve um caso. Teve um caso de uma criança que morreu em Piauí. Isso aí foi uma pessoa que não recebeu a nossa orientação. Ela não aceitou. Quando eu chegava lá... Nasceu o nenê, foi crescendo, crescendo, aleitamento materno, aleitamento materno, mas quando eu saia, ela dizia: “Não, estou dando o aleitamento materno, estou fazendo”. Eu via ela dando de mamar pra criança. Mas quando eu saía. Isso dito por vizinhos, porque os vizinhos falam, os vizinhos vêem e os vizinhos falam: “Tu sai daí desta casa, ela está falando isso, mas quando tu chega ali na rua que tu dobra, ela não está nem aí, ela diz: ‘Eu não estou nem aí, eu vou dar é mingau pro meu filho’”. E foi, foi. Eu sendo enganada pensando que o menino estava direitinho, gordinho, gordo, mas elas estavam fazendo errado. Consequência disso, a criança pegou uma desidratação, uma desnutrição, que teve uma diarréia que aí não agüentou, esse morreu. Teve um caso.

 

P/1 - Não teve jeito de controlar a diarréia?

 

R - Não. Foi pro hospital e a criança morreu.

 

P/1 - Qual foi o caso mais grave que já aconteceu na comunidade que você trabalha?

 

R - De morte?

 

P/1 - Não, mais grave que você acha. Pode ter morrido ou pode ter até salvado, mas foi muito grave pra você.

 

R - Meningite. Teve um caso de meningite. Esse morreu também.

 

P/1 - Morreu?

 

R - Morreu.

 

P/1 - Não teve como salvar?

 

R - Não teve como salvar.

 

P/1 - Lá, assim, de doença endêmica, de muita contaminação, teve algum surto?

 

R- Teve de malária.

 

P/1 - E o que é que aconteceu? O que é que você fez com o surto de malária?

 

R - Quando deu o surto de malária nós comunicamos a unidade básica de saúde, que é a Dra. Elisa. Lá ela acionou a Sucam, a Fundação Nacional de Saúde, eles vieram fazer um trabalho na comunidade que eram duas comunidades - a Viúva Bego e a Santo André. Foram dois agentes comunitários que vieram nesse sufoco, né? Que tinha uma área alagada e ainda existe essa área que esses homens fizeram muito trabalho no foco, o foco da malária lá. Teve muitos casos.

 

P/1 - Quantos casos você registrou?

 

R - Na viagem de Piauí eu registrei três casos, no dia dez de maio, três casos de malária. Não foi assim muito, mas tinha os sintomáticos também.

 

P/1 - Muito sintomáticos?

 

R - Muitos sintomáticos. Aí foi dados os remédios direitinho. Tomaram o remédio e tudo bem. Depois não teve nenhum caso de morte.

 

P/1 - Você fez lâmina, você chegou a fazer lâmina, não?

 

R - Não. Só quem fez lâmina foram eles, os homens da Fundação de Saúde. Eles vinham eles mesmo trazer o remédio pro doente na casa.

 

P/1 - O que você lembra mais que você acha importante do trabalho de agente comunitário, no seu cotidiano? Como é que é o dia a dia seu de trabalho?

 

R - Meu dia a dia eu saio de casa pra comunidade ou a minha conversa com eles?

 

P/1 - Tudo, quer dizer, como é que é um dia de trabalho seu?

 

R - Pela manhã eu geralmente saio umas oito e meia. O horário nosso, me desculpe ter que dizer, é oito horas, mas eu já convivendo com a comunidade eu vi que eu não posso chegar nesse horário. Geralmente estão dormindo, tem alguma coisa, ela foi levar a criança na escola. Aí eu já deixo o recado: “De oito e meia até o meio dia, uma hora”. Aí eu saio. Saio e já tenho os cartões, se for visita de criança eu já tenho todas as crianças que eu vou visitar naquele dia, se for visita de gestante eu já tenho também minha ficha B, que a gestante eu sei a gestante que eu vou visitar. Quando está tudo direitinho, nós já temos orientações de outras doenças. Hoje por exemplo, eu vou fazer uma orientação na comunidade. Essa parte está tudo direitinho - gestante e criança. Eu pego uma cartilha, vou orientar sobre leptospirose. Eu vou de casa em casa - dez, mais dez, no dia, né, mais dez. Todas recebem aquela orientação. Leptospirose, meningite, tifo, malária, dengue, hepatite, tudo isso eu já fiz de orientação naquela comunidade. Eles estão alertas, estão atentos. Também não podem sentir uma febre. Eles não podem sentir uma dor de cabeça que eles vão lá em casa dizer que eles estão com dor de cabeça.

 

P/1 - Eles batem na sua porta, é?

 

R - Batem. Batem muito na porta. Isso aí não adianta dizer que vai parar que não vai parar mais. Só se eu for afastada, não sei, mas se eu continuar... Parece, eu não sei, eu que estou dizendo, né, o senhor não está vendo, mas eu acredito que eles têm assim uma confiança. A moça viu elas: “Tu já vai? Tu não vai voltar, eu quero falar contigo”? É sempre. Um medicamento que eles tragam na receita do centro. A receita eles conversavam com o médico assim como eu estou conversando com o senhor, eles chegam lá em casa com a receita: “Eu vim aqui saber se tu sabe pra que é esse remédio e como é que eu tomo”. Eu fico olhando, mas vou dizer: “Isso aqui é assim, toma assim, tal hora”. Vou lá, às vezes escrevo: “Olha, tal hora você vai tomar o remédio”. E vou ajudando.

 

P/1 - E que tipo de casos eles batem na sua porta, além disso, de remédio? O que é que eles querem?

 

R - A receita, né? Tudo que acontece. O que eles sentem, o que eles acham que é doença, eles batem lá em casa. Tem mais, eu não vou dizer, essa é a minha comunidade. Não vai ter problema?

 

P/1 - Não.

 

R - Briga de bandido.

 

P/1 - Não, não tem problema.

 

R - Tem muita briga de bandido. Eles brigam.

 

P/1 - Por causa de droga, tóxico? Lá não tem tráfico de drogas?

 

R - Silêncio.

 

P/1 - E aí acontece muito tiroteio, gente se machuca?

 

R - Acontece.

 

P/1 - E vai parar na tua porta?

 

R - Vai parar na minha porta e querem que eu faça. “Eu não posso, gente”. Eu faço. O que der eu faço, nem que seja um pedaço de pano ou uma fralda eu peço nas vizinhas. Um dia desses chegou um bandido, desculpe te dizer, o braço dele, este braço dele estava quase caído. Você já pensou?

 

P/1 - O braço esquerdo?

 

R - Sim. Aquele sangue jorrando.

 

P/1 - Tinha levado um tiro?

 

R - Tinha levado  "terçado".

 

P/1 – "Terçado". Uma faca?

 

R - Sim. Um "terçado" grande, quase tira o braço do rapaz, sabe? “Faça alguma coisa por mim?” Eu digo: “Eu não posso, eu não tenho nem carro, não tenho nada pra fazer por vocês, tem pronto socorro e é rápido”. Eu digo: “Tu vai morrer, tu vai morrer se tu não foi logo, vai logo, vai logo”. E chama a família, pega a camisa ou uma fralda mesmo, amarra aqui. Esse eu agi aqui, estava demais, sabe? As veias estavam cortadas.

 

P/1 - E você fez o que? Você amarrou o torniquete em cima?

 

R - É. Aqui em cima no Pronto Socorro. Aí apareceu... Nós temos um vizinho que ele tem carro, boa posição financeira, mora dentro da comunidade e esse vizinho nunca se optou assim a dizer que não. Bateu na porta dele pra pedir uma ajuda com o carro, ele prontamente está preparado pra fazer o favor. Pra levar aquela pessoa.

 

P/1 - Aí ele levou...

 

R -Ele levou o rapaz pro Pronto Socorro e está bem de novo. Já está a mesma coisa (riso).

 

P/1 - Isso é que é duro, né?

 

R - Isso que é doído.

 

P/1 - Não sei, se você tiver um caso interessante a mais que você quiser relatar aí pra gente? Tem alguma coisa que você lembre?

 

R - Tem.

 

P/1 - Então conta.

 

R - O agente comunitário conta cada coisa, né? Passa cada coisa numa comunidade que não tem pra onde você correr. Eu estava dormindo, bateram na porta. Aí o meu companheiro foi atender e disse assim: “Vá lá! Uma mulher teve filho”! Eu digo: “Não me diz isso”? “É pra você ir lá urgente”!. Eu digo: “Meu Deus do céu, não vou.” “Vai, a mulher está aí na porta!”. Eu no quarto, né. “A mulher está aí na porta”. Vesti uma camisa, peguei uma camisa que a gente tinha de agente comunitário, vesti uma camisa branca por cima da minha camisola e eu disse: “Eu vou lá”. Estava escurinho ainda, já estava pra amanhecer. Quando eu cheguei lá eu disse: “Cadê a mãe? Cadê a mãe? Eu quero ver o que é que está acontecendo”. Pensei que estava na cama. “Não, está aqui ela”. Já tinha umas duas senhoras lá. “Está aqui, vem ver”. A senhora estava sentada no vaso sanitário fétido com  o recém-nascido aqui. Com o recém-nascido aqui, dentro dessa posição assim. O vaso sanitário é isso aqui, ela assim, a placenta aqui no chão. Aquela placenta já estava ficando roxinha, sabe? Sinceramente eu tremi por dentro. Eu tremi por dentro.

 

P/1 - Ela teve no vaso?

 

R - No vaso. Ela aparou o recém-nascido e botou aqui o nenê assim. Ela estava sentada, o recém-nascido aqui no colo e a placenta aqui embaixo.

 

P/1 - Que coisa! No chão?

 

R - No chão. No vaso, naquele sanitário fora, no quintal. O banheiro era no quintal.

 

P/1 - Mas vaso sanitário normal?

 

R - Era vaso sanitário normal, mas era no quintal, era fora da casa.

 

P/1 - Que coisa, hein? O que você fez?

 

R - Ah! Meu querido, o que eu fiz? Foi no jeito. Eu não ia deixar aquela criança morrer. Eu vi tão lindo! Uma meninazinha tão linda! E morrer! Que ela ia morrer. Eu consegui um fio. Fui em casa, peguei meu material, umas tesouras limpas, peguei o meu material e voltei. Cheguei lá, arrumei um fio, medi os quatro dedos daqui... Amarrei... Aí daqui pra cá amarrei de novo, aí aqui eu cortei, cortei o umbigo do nenê. A mãe estava numa situação, que ela estava tremendo. “Meu Deus do céu e agora?” Aí tinha uma parteira curiosa, mas ela não quis dar assistência junto comigo. Foi o jeito eu sozinha. Amassei a barriga da senhora, mas não tinha, estava descendo já o quarto, né?

 

P/1 - De idade, não?

 

R - Não, era o terceiro filho, quarto, era já o quarto. Ela tinha três filhos, já era o quarto filho. Ela estava com a operação dela marcada pro dia seguinte.

 

P/1 - Ia ser cesariana, não?

 

R - Ia ser operada pra não ter mais nenê, né? (PAUSA)

 

P/1 - Mas então, aí...

 

R - Aí depois o pai foi lá no hospital, avisou que a esposa dele já tinha tido a criança e em casa. Aí levou o bebê para fazer os exames tudinho porque a gente já tinha olhado o nenê. Estava tudo normal. Essas medidas mais ou menos eu trabalhei com criança, antigo, né? Eu trabalhei com criança.

 

P/1 - É. No seu tempo lá no hospital?

 

R - É. Trabalhei com criança. Isso foi pra mim o mais grave. Outro caso...

 

P/1 - Mas a criança se salvou?

 

R - Salvou! Está linda a menina. Outro caso, foi uma gestante. Essa gestante estava na visita já pra ver o nascido vivo. Nós temos o nascido vivo, né? Anotar no nosso papel o nascido vivo. Foi lá. Já estava provável o parto dela, já tinha passado. “Cadê o nenê, já vim ver o nenê”! Disse: “Não está aqui a gestante”. “Tu ainda está gestante? O que é que está acontecendo”? Daí a mãe me chamou, aí  disse: “Olha, ela está perdendo água há 23 dias”. Eu digo: “Eita! 23 dias e eu vim aqui e a senhora não me disse”? “Não, pensei que era normal”! Eu disse: “Que normal, minha senhora! Isso não é normal”. “Só que agora só é pouquinho que está vindo aquela água”. Peguei a gestante, caminhei pro centro com ela. Cheguei lá, mostrei para Dra Elisa, a Dra Elisa encaminhou logo pro médico, pro ginecologista. Daquela hora mesmo ela ficou logo em jejum. Ficou logo em jejum pra operar. O nenê correu risco, nasceu, teve problema de pneumonia, mas se não faz isso essa mulher tinha morrido.

 

P/1 - Bom, podia ter sido muito pior, né? Bom, Amezilda, pra encerrar,vou te fazer uma pergunta de avaliação, assim, o que é que pra você... Eu sei que você estava contando que você gostava de farmácia, ainda gosta, queria ser balconista e quem sabe e quem sabe e tomara que isso dê certo um dia e ser dona de farmácia.

 

R - Mas vou continuar a ser agente comunitário.

 

P/1 - Mas eu queria saber o seguinte: o que é que mudou na sua vida depois que você se tornou agente comunitária, no quesito pessoal?

 

R - Muita coisa mudou na minha vida. O pessoal mudou muito.

 

P/1 - O que mudou?

 

R - Mudou porque eu era uma pessoa diferente. Antes de eu ser agente comunitária eu era uma pessoa diferente. Eu não era muito ligada com as pessoas. Eu não tinha aquele elo que eu tenho agora. Eu mudei em casa. Eu era diferente em casa, eu era agressiva. Eu era agressiva e agora eu não sou mais. Nós temos muita orientação que nós recebemos. O nosso instrutor, né? Muita orientação e eu aprendi demais. Eu melhorei, eu estou me moldando mais ainda e eu gosto de ser agente comunitária. Eu estou nisso porque eu gosto, gosto mesmo. Eu disse agora que eu vou me aposentar no agente comunitário.

 

P/1 - É? E o sonho pela farmácia, hein?

 

R - O sonho da farmácia, quem sabe, né? O agente comunitário pode ter uma farmácia.

 

P/1 - Tá certo.

 

R - É só ele querer e ter condições, né? (riso)

 

P/1 - Bom, então olha, muito obrigado por você ter tido a paciência de aguentar aqui até agora e a gente encerra, tá bom?

 

R - Eu não sei se foi boa, né? Não sei se eu falei tudo que eu já fiz, não sei se o senhor também achou. Eu acredito que o que eu faço é isso mesmo. É ver a família, ver a saúde deles, é isso que eu faço.

 

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