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História

Médico vinte e quatro horas por dia

História de: Murilo Alves Moreira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 00/00/0000

Sinopse

Infância na Casa Verde. Colégio Coração de Jesus. Escolha da profissão. Faculdade Paulista de Medicina. Especialização em Medicina do Trabalho. Ingresso na Volkswagen. Antiga fábrica da Vemag. Programas de saúde e de promoção da saúde: Home Care, Aids Care e Baby Care. Autolatina. Área de Serviços Corporativos. Segurança no trabalho e atendimento de emergência. Momentos marcantes na companhia. A importância de preservar a memória.

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História completa

 

P/2 – Murilo, só para constar, você pode falar seu nome, local e data de nascimento?

 

R – Murilo Alves Moreira, nascido em São Paulo, capital, 3 de novembro de 1952. Também faço cinquenta anos. 

 

P/2 – Murilo, fala um pouquinho para mim da sua infância. 

 

R – Minha infância foi uma infância como a de todo menino de classe média de São Paulo, do fim dos anos cinquenta. Gostava de coisas que hoje a molecada nem sabe o que é, como jogar futebol em campo de várzea, como jogar bolinha de gude, jogar taco na rua. E tive uma infância muito boa. Estudei a vida inteira num colégio de bom padrão, num colégio católico, Coração de Jesus. Posso dizer que eu tive uma infância muito boa. 

 

P/2 – Em que bairro você foi criado?

 

R – Eu nasci na Casa Verde. Fui criado na Casa Verde. Os meus pais, quando se casaram, mudaram para lá. A minha mãe era das Perdizes e meu pai da Barra Funda. E, quando se casaram, alugaram uma casa na Casa Verde e eu morei na Casa Verde até dezesseis, dezessete anos de idade. Então, eu passei minha infância, minha adolescência, minha juventude na Casa Verde. 

 

P/2 – Como é que era a Casa Verde, na década de cinquenta?

 

R – Nessa época, ela parecia uma cidade do interior. Então era aquele bairro onde todo mundo se conhece, onde você não tinha o que temos hoje em termos de risco. Nem de riscos de trânsito nem de criminalidade. Era uma cidade do interior pequena. As pessoas todas muito simpáticas, muito dóceis e muita criança. Perto de onde eu morava, para você ter uma ideia, tinha seis campos de várzea, que é um negócio que hoje não existe. Então, para moleque, para menino aquilo era uma maravilha. 

 

P/2 – E me fala um pouco como foi esse período da adolescência, crescendo ali na Casa Verde...

 

R – Foi muito bom, a gente tinha uma família bem organizada. Meu pai sempre trabalhou com Publicidade. Meu pai era produtor, tinha agência de propaganda. Era a agência de propaganda do Moinho Santista. O que a gente tinha, na época, as diversões de jovem eram bem restritas. Você tinha basicamente as diversões esportivas e você tinha aqueles bailes que eram, naquela época, não existiam discotecas, mas você tinha aquele baile, uma vez por mês, que era aguardado com muita ansiedade por todo mundo. Você tinha muito poucos carros. Então, você tinha condição de brincar de carrinho de rolimã, um negócio que hoje, em São Paulo, se alguém for fazer isso, acaba atropelado antes dos primeiros cinquenta metros. Andar de bicicleta no meio da rua. Quer dizer, uma vida bem diferente do que é hoje. Como eu estudava num colégio de tradição, um colégio salesiano de tradição, ali nos Campos Elíseos, a gente tinha muitas atividades ligadas ao colégio. Tínhamos discussões, passeios, competições esportivas entre colégios salesianos. Fanfarra. Eu me lembro. Falando disso, eu tocava bumbo na fanfarra do colégio, então eram aquelas coisas que eram muito simples, se você compara às exigências de hoje, mas que sempre deixam um pouco de saudade para quem passou por isso.

 

P/2 – Murilo, você falou um pouco aí do seu período escolar. Em que momento que você decidiu que iria fazer Medicina?

 

R – Eu nem pensei, sabe, quando eu decidi. Mas no final da... Minha mãe sempre disse que eu gostava de desmontar todos os brinquedos que eu ganhava para ver o que tinha dentro. E, é claro, que normalmente eu não conseguia montá-los de novo depois. Então, naquela época, se começava a falar em teste vocacional. E eu gostava muito de Matemática, gostava muito de Química, gostava muito de Biologia. E fui fazer um teste vocacional, que só serviu para me deixar maluco, na época, porque o teste vocacional disse que eu tinha condições de ser médico ou de fazer Engenharia. Quer dizer, coisas absolutamente opostas. Eu acho que a decisão mesmo de fazer Medicina foi um tio meu, um tio materno, que tem dez anos a mais que eu. E, nesse momento de resolução, ele estava perto do final da faculdade de Medicina. E naquele momento que vai decidir, não vai decidir, eu o acompanhei algumas vezes na faculdade de Medicina para ver uma cirurgia em cachorro, por exemplo. Que normalmente seria para chocar quem não gostasse da coisa. E aí eu fui a primeira vez, fui a segunda e fui, resolvi fazer Medicina. Fiz Medicina, modestamente, na melhor escola do Brasil, a Escola Paulista de Medicina. Tive uma vida acadêmica muito interessante. Aliás, esse depoimento aqui, ontem me convidaram para fazer um depoimento lá na Escola Paulista de Medicina porque eu era o presidente da Associação Atlética Acadêmica Pereira Barreto, que é a associação que congrega todos os estudantes da escola, e eles estão fazendo um vídeo para ficar na memória da escola. E me convidaram para fazer um depoimento. Quer dizer, então na faculdade, tivemos uma vida muito intensa de estudos, é claro, mas também uma vida esportiva bastante intensa. Principalmente, nas escolas de Medicina existe uma tradição esportiva muito grande. Competições bastante fortes. E na escola de Medicina você acaba também tendo alguns mecanismos de válvula de escape. Porque realmente é uma profissão que, se você não tiver condições de ter derivativos, você acaba ficando meio piradinho. Então, se eu tivesse que voltar para trás eu faria tudo a mesma coisa. Então, por que fazer Medicina? Como eu disse no começo, não sei por quê, mas, se fosse para começar de novo, faria tudo de novo.

 

P/2 – E, em Medicina, você se especializou em quê?

 

R – Eu tenho duas especialidades. Eu sou ortopedista e sou médico do trabalho também. Por isso que eu vim parar na Volkswagen. 

 

P/2 – E conta para gente como é que aconteceu isso, como que surgiu assim. Você sai da faculdade de Medicina, já cai na Volkswagen ou foi uma coisa que você ainda estava na...

 

R – Não. Eu estou fazendo, no ano que vem, vinte e cinco anos de formado. Estou na Volkswagen há vinte e dois anos. Então, eu estava concluindo a minha especialização, os três anos de Residência Médica, e eu tinha uma clínica, e fui trabalhar no posto do antigo INAMPS – Instituto Nacional de Assistência Médica e Previdência Social. Eu nunca cogitei na vida em ser empregado de alguém. Com a formação de médico, eu imaginava ter a minha clínica. Eu já tinha, desde o começo, formado junto com mais três sócios e um emprego público, e achava que isto era suficiente. Aí nesse posto do INAMPS tinha um colega que era médico na Volkswagen. E gostou de mim, em função das coisas que eu fazia, e falou para mim: “Você vai trabalhar comigo na Volks, você vai trabalhar comigo na Volks”. “Se pagar bem.” E, ao mesmo tempo, Volkswagen sempre atraiu por aquela história do carro, da paixão, da ligação com o veículo, saber como é uma fábrica por dentro. Tinha feito a especialização em Medicina do Trabalho, mas nunca tinha utilizado. Fiz, tinha o diploma, mas nunca tinha exercido. Então juntaram algumas coisas interessantes. Essa possibilidade de utilizar um curso, uma formação que tinha recebido e o interesse por conhecer uma indústria automobilística pelo gosto, pela paixão por carro. E vim para Volkswagen, na antiga Fábrica 2, no Ipiranga, com aquela expectativa. “Vou ver como é que é, fico um tempo, e se não gostar vou embora. Volto para minha vida.” E acabou acontecendo justamente o contrário. Eu acabei largando todo o resto para ficar só na Volkswagen. 

 

P/2 – Qual foi seu primeiro impacto ao entrar nessa fábrica da Volkswagen, ao atender os primeiros casos?

 

R – Olha, eu comecei em outra fábrica, a antiga fábrica da Vemag. A Volkswagen tinha no Ipiranga, a Fábrica 2. Essa aqui chamava-se, na época, a Fábrica 1. Lá era a Fábrica 2, onde a gente tinha toda a parte de retífica de motores, onde tinha setor de Peças e Acessórios, Ferramentaria e Engenharia. E eu era médico naquela fábrica junto com dois outros colegas, no período da manhã. Trabalhavam dois médicos e eu trabalhava sozinho à tarde. Era um prazer imenso trabalhar naquela fábrica. Era uma fábrica com três mil e duzentos empregados, uma fábrica muito pequena, se comparada a essa aqui. E lá você acabava por conhecer todos os empregados, com o tempo. Isso era possível. E até os familiares, em função do convívio que havia em algumas festas, alguma coisa desse tipo. Porque na fábrica era muito interessante. Tinha umas peculiaridades como as enchentes, por exemplo. Aquela fábrica acabou em função das enchentes que existiam ali, na Avenida do Estado. Então era muito engraçado. Eu estava no meu ambulatório – e não era uma fábrica como essa, onde você tem a fábrica cercada por um muro; a fábrica dava pra rua; você tinha uma parte da fábrica deste lado da rua, atravessava a rua e tinha outra fábrica, e assim do mesmo sentido, do mesmo jeito do outro lado; aqui limitado por uma linha de trem; e, lá na frente, o rio – e quando começava a enchente, tinha todo um sistema de comportas; mas, quando começava o rio a transbordar, tocava uma sirene na fábrica, então a gente tinha que sair correndo. Eu pegava o meu carro e saía correndo. Passava pela margem do rio, dava volta por São Caetano e vinha parar do outro lado da linha do trem – porque lá a água não chegava –, para esperar a enchente. E a enchente... A gente só vivendo aquilo. Cenas assim maravilhosas. A enchente vinha. Em coisa de meia hora, quarenta minutos, você tinha um metro e sessenta, um metro e oitenta de água na rua. Não entrava para fábrica porque tinha um sistema de comportas. E aí as pessoas eram retiradas de trator, as pessoas que não conseguiam sair. Eu lembro uma vez, como tinha o setor de Peças, então tinha tetos de Kombi. E um funcionário que não conseguiu sair, virou o teto de Kombi e veio remando o teto de Kombi como um barquinho até conseguir escapar. E a gente passava para o outro lado e ficávamos; ficava eu, como médico, o meu enfermeiro, o técnico de segurança, o responsável pela segurança da fábrica para socorrer alguma pessoa que, eventualmente, tivesse algum problema com a enchente. Só que nunca acontecia nada porque o sistema de evacuação era muito bom, e a gente ficava. E o nosso ponto de concentração era um bar na esquina dessa rua. E a gente, quantas vezes, ficava nesse bar até as duas e meia, três horas da manhã para esperar. Porque aí não dava nem para ir embora. Quer dizer, a fábrica já estava evacuada, não tinha ninguém, e a gente continuava no bar até duas e meia, três horas da manhã esperando a água baixar. É claro, que nesse momento, também se tomava uma cervejinha, porque ninguém é de ferro. Mas, aí, em 1983, voltando, em função dessa desativação programada daquela fábrica, aos poucos ela foi sendo diminuída, a Engenharia veio para cá, para o prédio da Ala 17. O setor de Peças e Acessórios veio para cá, na Ala 21. Por fim, veio a Ferramentaria e eu vim também porque não tinha mais jeito. Quando eu cheguei aqui, vou te falar uma coisa. Depois de uma semana, eu falei para minha mulher: “Eu vou embora”. Por quê? Estava numa fábrica pequena, com três mil e duzentas pessoas, duas mil e quinhentas pessoas, no máximo. Chego aqui, uma cidade com trinta e sete mil pessoas, trinta e sete mil empregados, naquela época. Uma loucura. Uma quantidade de trabalho imensa. Então minha primeira reação, que foi a origem da tua pergunta, quando eu cheguei aqui, falei: “Eu vou embora”. Porque o choque, a realidade que eu vivia na Fábrica 2... E quando eu cheguei aqui... Foi muito grande. Só que aí, depois, passa essa primeira impressão, esse primeiro choque, você vai se acostumando, vai aprendendo a conhecer, e eu sempre digo que esta história de conhecer essa fábrica, a pessoa tem que ter mais de vinte e dois anos para conhecer, porque eu tenho vinte e dois anos e, tenho certeza, que eu não conheço todos os lugares dessa fábrica. E olha que já andei muito por aqui, nesse tempo todo. Essa fábrica é realmente muito grande. Você vai se motivando, se apaixonando, e fica difícil de ir embora. 

 

P/1 – E lá Murilo, quais eram os casos que você atendia? Vamos falar um pouquinho do Ipiranga. Quais os casos mais comuns de atendimento lá?

 

R – Veja, eu era o único médico. Então eu atendia tudo. Absolutamente tudo. Eu tenho uma formação cirúrgica, modéstia à parte, muito boa. Então, além de atender todos os casos clínicos, eu realizava todas as pequenas cirurgias da fábrica. Casos..., atendia pela formação, eu deveria atender, todos os casos ortopédicos. Então você tinha de tudo. Não existe um mais..., se você pensar em mais comum, dentro da indústria, sempre o mais comum é ligado ao sistema músculo-esquelético, que é a parte ortopédica e a parte de traumatologia. Porque as pessoas que estão dentro do ambiente fabril estão na faixa, normalmente, de dezoito a quarenta anos, onde acontece tudo. É onde o cara trabalha numa atividade física que, eventualmente, tem algum acidente, ou, eventualmente, tem alguma dor produzida pelo trabalho. Ele está, normalmente, construindo a sua casa ou ele está numa atividade esportiva. Ele joga futebol, ele pratica esporte. Ele anda de moto. Então, se você pegar em termos de volume, a parte ligada ao sistema músculo-esquelético dá quase sessenta por cento de todo o atendimento. Pegando desde o trauma até a Ortopedia propriamente dita. E o resto é variado. Lá você tinha uma população já um pouco mais velha. Então, você tinha algumas coisas, você tinha muitos casos de pressão alta, hipertensão, diabetes. O que muda um pouco em relação aqui. Aqui é tão grande. O que você tem aqui é uma amostra da população geral. Então, se na população geral a gente tem vinte por cento de hipertensão arterial, o que a gente encontra aqui é vinte por cento de hipertensão arterial. Quer dizer, você encontra tudo que você encontra em São Paulo você encontra dentro da Volkswagen. Você fala assim: “Pô, mas, por exemplo, esse Mal de Hansen, a lepra, tem?” “Tem.” “Por quê?” “Tem porque tem na população geral. Aqui tem.” 

 

P/1 – Então você tinha especialidade em Medicina do Trabalho, mas, nessa época já era valorizada essa especialidade?

 

R – Ela estava começando a ser em função, desde 1978, da aplicação da NR-7, que passou a exigir a presença do médico em empresas conforme o risco da empresa e conforme a quantidade de empregados existentes. Então isto começou, naquela época, um pouquinho antes. A Volkswagen, mesmo antes da lei, sempre teve uma grande preocupação com a questão da saúde de seus empregados. E hoje a coisa mudou. Hoje a lei é muito mais impositiva, ela controla muito mais e ela exige muito mais. Mas, a Volkswagen sempre praticou isso mesmo sem a exigência legal. 

 

P/1 – Você acha que é uma coisa que vinha da matriz alemã?

 

R – É da cultura. A Volkswagen sempre teve uma cultura bastante voltada para o social, para o bem estar do empregado.

 

P/1 – E você desenvolveu algum programa assim que você, na ocasião, em função dos casos que você atendeu?

 

R – Programas nós temos vários. Se a gente vai voltar no tempo, nós começamos há muito tempo, com programas de promoção de saúde. Porque saúde é muito barato, o que é caro é a doença. Acho que vocês já ouviram essa frase, alguma vez na vida. Então, com programas de conscientização sobre medidas de promoção de saúde, sobre controle de doenças, como a diabetes, como a hipertensão. Coisas absolutamente simples como ensinar alguém a cuidar da caixa d’água de casa, porque é necessário que você faça uma higienização da caixa d’água da sua casa, de tempos em tempos, no mínimo, uma vez por ano para se prevenir de uma série de patologias. E até há programas preventivos para doenças específicas relacionadas com o trabalho. Então, se você pega, por exemplo, hoje, a nova legislação de 1987, 88 para cá, obriga as empresas a terem um tal de PP-DORT que é Programa de Prevenção de Distúrbios Osteoarticulares. De estudos osteoarticulares relacionados ao trabalho. Nós praticamos, por exemplo, palestras para pacientes, empregados portadores de lombalgias ou dores articulares desde que eu me lembre de estar aqui dentro. Quer dizer, a lei, ela surge, mas nunca ela tem assim alguns impactos muito grandes porque a gente já vinha praticando, nesta linha de programas algumas coisas que a Volkswagen tem e que são extremamente valorizadas pelos empregados. O plano de saúde, a Volkswagen mantém um plano de saúde auto-gerido, ou seja, nós não temos intermediários na prestação da saúde dos empregados e para os familiares. Nós mesmos contratamos os nossos prestadores, os nossos hospitais, os nossos médicos, os nossos laboratórios. Isto faz com que você, em primeiro lugar, economize um pouco de dinheiro porque você não tem o intermediário, e por outro lado, faz com que você possa realmente interferir e administrar o teu recurso credenciado. Então, por exemplo, vocês já devem ter ouvido falar da lei dos planos de saúde que saiu há três, quatro anos atrás. A Volkswagen não precisou fazer nada. A Volkswagen desde que existe um transplante, qualquer um, sempre cobriu esse transplante para os seus empregados e para os seus familiares. 

 

P/1 – Como é que funciona, Murilo, explica para gente, esse plano de saúde. Como é que é toda a sistemática?

 

R – A empresa mantém um plano onde nós contratamos hospitais, clínicas, laboratórios e médicos de acordo com a nossa necessidade. Quer dizer, eu dimensiono a minha rede conforme a moradia dos meus empregados. Então, é claro, que se eu tenho sessenta por cento do meu efetivo na região do ABC, eu tenho, mais ou menos, sessenta, setenta por cento dos meus recursos credenciados na região do ABC. Em São Paulo, eu tenho menos; em Taubaté, eu tenho menos. Enfim, você dimensiona a tua rede conforme a tua demanda. Isso é muito importante porque a nossa rede é o sapato do tamanho do nosso pé, quer dizer, você não tem custos administrativos adicionais com a rede. Então isso é uma coisa. Nós temos dentro desse sistema de plano de saúde uma participação do empregado. Então a companhia subsidia ao redor de oitenta e dois por cento do custo e o empregado paga, mais ou menos, dezoito por cento. Como é isto? Até 1996, a companhia pagava cem por cento. E aí, em função até da qualidade do plano, porque a gente acenou até com a possibilidade de mudança de sistema, os empregados decidiram que não; que para manter o plano nesse padrão, eles se dispunham a contribuir. Então, hoje, o empregado paga pelo plano um por cento do seu salário e paga um terço das consultas que ele realiza na rede credenciada. O empregado dentro da fábrica tem a consulta grátis. Na rede credenciada, se ele for, ele vai pagar um terço do valor dessa consulta. Os familiares dele só pagam esse um terço a partir da terceira consulta. As duas primeiras consultas são integralmente assumidas pela fábrica. Além disso, a companhia assume todas as outras despesas de exames, internação. Nisto não existe a participação do empregado. Dentro do plano de saúde, a companhia sempre se preocupou também em oferecer não só a cobertura total, mas também, em oferecer algumas coisas a mais. Por exemplo, na próxima segunda-feira começa o Quinto Simpósio Brasileiro de Assistência Domiciliar. Porque a Volkswagen iniciou um programa de atendimento domiciliar, em 1994. E hoje é um dos mais antigos programas de assistência domiciliar do país e, certamente, o mais antigo da indústria. O mais antigo que não seja de uma entidade médica existente. Esse nosso programa de assistência domiciliar chamado Programa Home Care é um chamado programa ganha-ganha. Por quê? A família ganha em satisfação, o doente ganha em qualidade e a companhia ganha porque gasta menos dinheiro. Esse programa foi criado para atender pacientes crônicos. Aqueles pacientes que ficavam no hospital durante três meses, quatro meses, onde você não tinha um ganho real para saúde dessas pessoas; você acabava batendo no aumento das despesas. O hospital não é hotel. O hospital é o melhor lugar do mundo para você pegar uma infecção. O relacionamento, o vínculo familiar acabava complicando porque visitar, ter um ente no hospital e visitar todo dia, ficar com ele todo dia é muito complicado para qualquer pessoa que tem uma vida profissional. Então a gente começou a pegar este tipo de paciente e colocar na residência. Colocando na residência dele tudo aquilo que ele necessita para o tratamento. Porém, só aquilo que ele necessita. Então, se ele precisar de uma cama hospitalar, colocaremos uma cama hospitalar. Se ele precisar só de curativo duas vezes por dia, ele vai ter curativo duas vezes. Se ele precisar de enfermagem vinte e quatro horas por dia, ele vai ter enfermagem vinte e quatro horas por dia. Quer dizer, o dimensionamento da assistência depende da necessidade do paciente. Esse programa trouxe uma redução de custos de cinquenta e dois por cento sobre os custos hospitalares. É claro que é um programa para casos específicos. Ninguém está defendendo a retirada do paciente. E, às vezes, até acontece. Um empregado vai falar: “Meu filho tá com pneumonia, quero tratamento”. Não é assim. Quer dizer, os casos que vão para casa são aqueles casos que têm a indicação médica para isso. Deste programa Home Care nós tiramos mais dois programas: um é o programa Aids Care, ou seja, desde 1996 a gente trata Aids em casa. Pensando muito naquela questão que eu já falei para vocês. A Aids, o que ela faz? Ela destrói o sistema imunológico. Ou seja, as defesas do paciente estão debilitadas, estão diminuídas. O melhor lugar para pegar infecção é no hospital. Então se eu conseguir tratar este paciente em casa, eu estou evitando, pelo menos, que ele adquira uma infecção mais séria no hospital. Esse programa vem desde 1996. É um programa que recebeu um prêmio das Nações Unidas pela característica. E é um programa que vem, cada vez mais, demonstrando sua eficiência pelos resultados em termos de aderência ao tratamento. Porque, como você entrega o remédio para o paciente diretamente, sem ele precisar procurar um centro de saúde, ficar numa fila, se expor – porque apesar do estigma da Aids ter diminuído barbaramente, ainda existe; nenhum portador gosta de ir num centro de saúde perto da sua casa, onde outras pessoas estão vendo que ele é um portador da Aids –, você entregando o remédio diretamente a ele, você garante que essa pessoa vai fazer o tratamento, que vai tomar. Isso a gente está com um resultado muito bom. Hoje, nós temos noventa e cinco por cento dos portadores em atividade normal, trabalhando. E os familiares estão na sua atividade normal. Mas, todos estes noventa e cinco por cento, levando uma vida normal. E também advindo deste programa Home Care, nós temos um programa que é o programa Baby Care, de promoção de saúde. O que é o Baby Care? Toda mãe, seja ela funcionária ou esposa de funcionário, após chegar em casa, vai receber uma visita de uma enfermeira que vai ficar com ela de duas a três horas e ensinar tudo o que ela tem que saber a respeito do bebê. Um dos grandes ganhos é que ela vai tirar a influência da mãe e da sogra porque elas sempre dão um monte de palpite errado. Certo? Tô certo ou não tô?

 

P/1 – Tá muito certo. 

 

R – Então, o que a enfermeira vai fazer? Ela vai ensinar a trocar, ela vai ensinar a lavar, ela vai ensinar os cuidados com o corpo umbilical, ela vai mostrar que aquele narizinho entupido da criança não precisa levar no pronto-socorro; enfim, ela vai mostrar para mãe – porque, normalmente, não existe nada mais inexperiente do que uma mãe de primeiro filho – ela vai mostrar para mãe tudo aquilo que é importante; como ela ter segurança para fazer. E também vai deixar um telefone, onde essa mãe, se tiver alguma dúvida adicional, ela se socorre desse telefone para se esclarecer. Quinze dias depois dessa visita, passa um pediatra que vai verificar o desenvolvimento dessa criança. Neuro pondero-estatural, ou seja, o desenvolvimento neurológico, peso e altura da criança, e vai orientá-la para os esquemas de vacinação. E direcioná-la para ambulatórios específicos para fazer este trabalho, dessa nossa rede credenciada que eu já contei para vocês. Então este é um programa que custa muito barato, mas é um programa de promoção de saúde. O que a gente tem de resultado desse programa? Por exemplo, nós temos cem por cento de aleitamento materno até o terceiro mês. Isto é maravilhoso, porque vocês sabem da importância do aleitamento materno. Claro que isto cai possivelmente para noventa por cento, mas, mesmo assim, ainda é um índice muito bom. O que a gente observa também? Nós tivemos uma redução de consultas de emergência para estas crianças. Porque antes, qualquer besteirinha que a criança tinha, a mãe levava no pronto-socorro. E, muitas vezes, a criança voltava do pronto-socorro – porque no pronto-socorro ela ficava na sala de espera; uma criança com sarampo, outra com gripe, outra com rubéola – e a criança acabava indo no pronto-socorro por não ter problema e voltava com um problema que se manifestava depois. Então, nós tivemos uma menor frequência de consultas de pronto-socorro e uma menor internação para estas crianças submetidas ao programa. E estamos tendo um aumento de cirurgias no primeiro ano de vida. Aí você vai falar: “Mas isto é bom?”. É lógico que é bom. Porque tudo aquilo que tem que ser corrigido, cirurgicamente, está sendo detectado mais precocemente e resolvido mais precocemente. Então isso aí que é realmente o investimento de saúde. Quer dizer, hoje, você está fazendo alguma coisa para melhorar essa qualidade de saúde para o futuro. Esses três programas já atenderam, praticamente, sete mil pessoas aqui na Volkswagen, de 1994 para cá. 

 

P/1 – Eu queria que você detalhasse esse prêmio que vocês ganharam pelo Aids Care.

 

R – Quando se começou a falar em prevenção de Aids, a ONU – Organização das Nações Unidas – criou o UNAIDS. Que é a agência das Nações Unidas para o combate a AIDS. E daí eles criaram o conselho empresarial mundial de combate ao HIV. Por que isso? Aids é uma doença cuja maior incidência é dos vinte aos quarenta anos de idade. Onde está a pessoa nessa faixa de idade? Está dentro da empresa. Então, as empresas falando de Aids, as empresas participando de campanhas de esclarecimento sobre a Aids, estão atingindo aquela população mais atingida pela doença. Então foi criado o conselho mundial e a ONU estimulou os países a criarem os seus conselhos nacionais. A Volkswagen, em função da sua tradição de programas de saúde e de promoção da saúde, foi convidada pelo Ministério da Saúde, ao lado de outras vinte e quatro empresas, a formar o Conselho Empresarial Nacional em HIV-Aids, do qual eu sou presidente há dois anos, em 1990. Anualmente, o Conselho Mundial faz um trabalho de motivação pedindo para que empresas do mundo inscrevam os seus programas para concorrer ao prêmio. E nós inscrevemos o programa da Volkswagen. A premiação só é dada a cinco empresas no mundo, quer dizer, é um prêmio bastante significado por esse motivo. E a Volkswagen foi uma das escolhidas no ano de 1999. O prêmio em si é muito mais simbólico. É uma placa comemorativa. Só que é algo que se mantém. Então, para você ter uma ideia da importância desse prêmio, o secretário geral das Nações Unidas já durante esses dois anos, três ou quatro vezes citou nominalmente, em discursos, a Volkswagen do Brasil como referência em tratamento, em prevenção ao HIV-Aids. Quer dizer, isso acaba trazendo algo muito importante para empresa em termos de repercussão numa atividade que não é a atividade principal dela, que é fazer carro. A partir desse prêmio, a Volkswagen continuou com a sua atividade. Continua participando do conselho empresarial e continua tentando sensibilizar outras empresas a fazerem parte disto. A companhia investe em saúde uma quantia bastante significativa; quantia esta que você acaba, através da racionalização destes investimentos, podendo atender coisas a mais do que os outros planos de saúde. A Volkswagen começou a dar remédio para Aids antes do governo brasileiro dar remédio para Aids. Então, ela já comprava os medicamentos e entregava-os, neste programa Aids Care, na casa dos pacientes. Aí, há dois anos e pouco, o governo começou a dar. Isso criou um problema para nós. Porque: “Bom, por que eu gasto esse dinheiro se o governo dá para todo mundo?”. Mas o nosso funcionário, o nosso dependente, ele já estava acostumado a receber o remédio em casa. Como é que ele vai para fila? E, até por essa participação no conselho, hoje, a Volkswagen é a única empresa do país que recebe os medicamentos do governo. Então, o empregado da Volkswagen não precisa ir ao centro de saúde. Nós recebemos o medicamento graciosamente do Ministério e entregamos para os empregados. Essa foi uma evolução que surgiu até melhorando o nosso custo. A questão do prêmio. O prêmio acabou trazendo uma série de consequências. Este ano, em junho ainda, a Volkswagen mundial foi convidada a participar de um evento na África do Sul. A situação da Aids na África do Sul é uma situação calamitosa; fala-se, aproximadamente em trinta por cento da população contaminada. Um negócio bastante sério. O ano passado, em toda a África morreram quatro milhões de pessoas com Aids e tivemos quatro milhões de novos casos. Quer dizer – é só fazer a conta – vai acabar um dia, se não se fizer alguma coisa bastante séria. Então, a Volkswagen mundial, por causa da Volkswagen do Brasil, foi convidada a se apresentar lá e nos chamaram porque na Alemanha o problema está bem dimensionado de outra maneira. Essa questão do trabalho de prevenção e atendimento da Aids acabou também trazendo esta repercussão positiva para o grupo Volkswagen. Porque, realmente, o Brasil, e agora a nossa fábrica na África do Sul, são referências para trabalho em Aids dentro de empresas. 

 

P/2 – Murilo, você consegue datar para mim quando surgem estes programas Home Care, Aids Care e Baby Care?

 

R – Home Care começou em dezembro de 1994. O Aids Care e o Baby Care começaram juntos, em junho de 1996.

 

P/2 – O que a gente pode perceber é o seguinte. A partir dos anos noventa, essa questão da Medicina do Trabalho, ela assume uma função social, ela não está mais restrita ao consultório. Ela agora assume programas. Por exemplo, eu li os jornais da nova Volkswagen que eles surgem a partir de 1995 e a gente percebe como que esses programas de saúde, eles vão cada vez mais sendo, por exemplo, envolvendo todo os setores da imprensa, servindo como um meio de propagação dessas ideias. Você poderia falar um pouquinho sobre isto? O que eu quero saber especificamente é o que você nota de diferença de quando você entrou na Volkswagen, nos anos oitenta, até o surgimento desses programas que tem um conteúdo mais social?

 

R – Não dá para você ficar compartimentalizando certas coisas. Então, o que a lei te obriga? A lei obriga a que você faça a parte de, por exemplo, Medicina Ocupacional. Só que o carinha lá, que está do outro lado, é um ser humano que não tem problemas de saúde ocupacional. Ele pode até ter problemas de saúde ocupacional, mas ele é um ser humano que tem todos os problemas aos que o ser humano está sujeito. Então a finalidade, o objetivo, é que você encare o ser humano integralmente. O que adianta eu ter, do ponto de vista ocupacional, um homem sem nenhum tipo de agressão para o meio ambiente de trabalho, se ele tem, por exemplo, uma hepatite? Ou se ele tem, por exemplo, uma leucemia? Uma diabetes descompensada? Quer dizer, você tem que encarar a saúde como algo integral. A gente até brinca, a medicina, hoje, é absolutamente compartimentalizada. Então, logo logo, a gente vai ter o superespecialista em orelha esquerda. Certo? O outro vai tratar só a orelha direita. E não é por aí. A gente está perdendo aquela figura do clínico geral. Daquele médico que conhece o paciente. Um pouco o que a gente acredita é que realmente isto é muito importante, ou seja, você ter uma referência; você ter aquele médico ou serviço de saúde que te conhece, ou seja, que sabe que o Charles é diferente do João. Entendeu? Por isso, você caminha nessa linha, de ter uma assistência integral, de tratar de aspectos nutricionais, de tratar de aspectos educativos. Não tratar da doença só. Quer dizer, você tem que procurar fazer o quê? Melhorar o nível de saúde da população como um todo. E não dá para você melhorar o nível de saúde se você ficar atuando de forma compartimentalizada. Eu não digo que a Volkswagen tenha tido uma mudança de postura. Não. A Volkswagen sempre procurou atingir este objetivo. Só que a partir de um dado momento foi mais fácil você atingir alguns objetivos. Até também pelo próprio nível de conhecimento e pelo próprio nível de exigência do cidadão brasileiro. Se você pensar, essa comparação que você me pede que faça, dos anos setenta, oitenta para os anos noventa, vamos esquecer a Volkswagen e vamos falar da nossa população em geral. Hoje, a nossa população... Qualquer um sabe que existe uma ressonância magnética; qualquer um sabe que a mulher tem que fazer mamografia a cada seis meses ou a cada um ano; que tem que fazer densitometria óssea. Até os nomes, os nossos pacientes sabem. Então, o nível de conhecimento, o nível de cultura da população melhorou bastante. Através dos meios de informação, dos veículos de comunicação. É claro, que toda vez que você melhora o nível de informação, você tem um nível maior de exigência também; quer dizer, a pessoa passa a pedir mais. Por isso que este tipo de mudança acaba sendo muito bem aceita; porque você está atendendo a uma necessidade do teu cliente, colega de trabalho. 

 

P/2 – Murilo, quais seriam as dificuldades que você encontrou desde o primeiro programa, o Home Care, para implantação desses projetos junto aos funcionários. Qual seria assim o problema principal que você diagnosticaria?

 

R – O maior problema? Eu acho que muitos dos problemas até foram criados por nós mesmos. Por exemplo, no caso do programa Home Care, quando a gente implantou. A gente tomou muito cuidado, no começo, para escolher casos não muito graves. Porque a gente não queria que o programa ficasse estigmatizado como o programa da boa morte. Então, casos terminais, que não tinha muito o que ser feito no hospital, esses casos a gente não levava para casa. E depois passamos a levar. Passamos a levar e os próprios familiares aceitam muito bem isto. Mesmo casos terminais. A gente leva um paciente para casa – e isto eu não expliquei para vocês – mediante algumas coisas: primeiro, tem que ter indicação médica da possibilidade do tratamento domiciliar. Isso é mandatário. Segundo, a família precisa ter alguém para estar junto; não adianta ser uma pessoa que todo mundo na casa fica fora, o dia inteiro; então, eu vou levar ele pra casa para ficar com uma enfermeira? Precisa ter alguém disponível na casa. Terceiro, a casa precisa ter algumas condições mínimas; precisa ser de acesso, por exemplo; ter telefone, para uma chamada de emergência; luz elétrica; água encanada. Quer dizer, existe toda uma série de fatores que devem ser considerados. Mas, às vezes, você tem alguma surpresa. Recentemente, nós fomos fazer uma visita domiciliar num município aqui perto e, de repente, a nossa equipe foi dominada por dois ou três marginais. Foi levada para um lugar ermo e a casa deste paciente que nós estávamos visitando era ao lado de um ponto de venda de drogas. Alguma coisa deste tipo. E como eles começaram a ver chegar todo dia, duas pessoas, que iam, ficavam na casa do lado, um pouco, e iam embora, eles acharam que era alguém da polícia que estava monitorando. Então, nós fomos obrigados a interromper este atendimento domiciliar. Mas, são problemas assim muito pontuais. Estes programas, o empregado aceita muito bem. Não temos problemas quanto a isto. O que os empregados, e não todos, às vezes, não aceitam, são algumas determinações em termos de atendimento. Por exemplo, em questão de absenteísmo. Porque nós, dentro da fábrica, avaliamos o absenteísmo. Se existe algum exagero por parte de algum empregado em conseguir atestados indevidos, fora da companhia, nós atuamos e fazemos com que ele passe pelos nossos médicos, pelo nosso pessoal, para conferir se aquela necessidade realmente existe. Então, talvez isto seja a única coisa que gere algum tipo de insatisfação. Mas, de resto, não existem grandes problemas na administração do plano. Existem os problemas normais de todo e qualquer plano de saúde onde você tem que sempre acompanhar a questão dos gastos que estão ocorrendo. Porque nem todos os hospitais e clínicas que existem fazem as contas do jeito que a gente gostaria que fossem feitas. 

 

P/1 – Murilo, eu queria te perguntar, a sua função na Volkswagen é...

 

R – Hoje eu sou responsável por toda a parte de serviços corporativos. Então, as áreas que eu tenho comigo são as áreas médica, toda assistencial, ocupacional e plano de saúde, área de segurança do trabalho, área de proteção contra incêndios, área de proteção ao patrimônio e segurança da diretoria, área de alimentação, área de transporte, de frota, serviço social e de venda de veículos a empregados, ou seja, tudo aquilo que dá problema. 

 

P/1 – E a equipe de médicos? Quantos médicos, quantas enfermeiras?

 

R – Hoje nós temos aqui dentro trinta e cinco médicos. Claro que, porque o nosso ambulatório funciona vinte e quatro horas por dia em função do regime da fábrica. Total de trinta e cinco médicos distribuídos nas vinte e quatro horas. E temos quarenta e dois auxiliares de enfermagem. 

 

P/1 – Esse pessoal é o que participa desses programas fora da fábrica ou têm outros?

 

R – Não. Este é o pessoal que trabalha dentro da fábrica. Fora da fábrica o que nós temos? Nós temos, por exemplo, este programa Home Care tem dentro da fábrica três pessoas que cuidam deste programa. Só. Tudo aquilo que é feito na casa do paciente é contratado por nós. É um dos prestadores que faz este serviço. Quer dizer, o programa é dirigido pelo nosso pessoal mas, a execução, a operação, a visita é de um prestador contratado.

 

P/1 – E com relação à prevenção de consumo de drogas, de alcoolismo, como vocês procedem?

 

R – Em junho deste ano, a Volkswagen completou trinta anos de programa de alcoolismo e dependência química. É o programa mais antigo da empresa. Quando eu cheguei aqui já existia este programa. E é um programa que foi evoluindo, foi mudando, e continua sendo um programa de referência em termos do atendimento do dependente químico. É claro que, no passado, o programa de dependência química, basicamente, se falava de álcool. Nos últimos anos, infelizmente para nós, a coisa mudou bastante, em função da utilização de drogas bastante pesadas por uma grande parte da nossa população. Da população da fábrica, mas da população em geral. Este programa é um programa que busca investir o mais possível na detecção precoce. Então, ao longo dos últimos anos, nós temos procurado treinar as lideranças da companhia no sentido de identificar, precocemente, as mudanças de comportamento geradas pelo uso de álcool e de drogas. Porque, quanto mais precocemente você atuar, maior a chance de você ter o abandono da droga. O nosso de índice remissão é de sessenta e dois por cento. Quer dizer, é um programa que tem uma taxa de sucesso grande. Nós temos sessenta e poucos por cento dos ex-dependentes que retornaram aos estudos. São pessoas que tinham largado tudo e, além de se recuperarem, voltaram a estudar. O problema é, como eu estava dizendo, ele é calcado primeiro na questão da sensibilização, da orientação para a detecção precoce. E aí nós temos três grupos de trabalho. Um, que é um grupo de sensibilização, que é fazer com que o indivíduo admita a dependência. Porque todos vocês já ouviram falar: “Não, eu não sou dependente, eu paro a hora que eu quiser. Eu fumo esta maconhinha de onda, só de sábado etc e tal. Não vou abrir, não”? Então, o primeiro passo no tratamento, é a sensibilização do dependente. É o cara se convencer que ele é um dependente. A partir daí, tem os grupos de orientação com a participação do nosso pessoal técnico e de serviço social, além de ex-dependentes que trabalham, voluntariamente, no sentido de ajudar essas pessoas que estão com problemas. E os grupos de familiares. Porque a dependência química acaba gerando o que se chama, tecnicamente, de co-dependência. Porque um dependente químico dentro de casa acaba mudando a vida de toda a família. Então, se a família não estiver engajada nesse trabalho, de fazer frente à dependência, não vai ter sucesso. Então a família precisa estar junto.

 

P/2 – Murilo, dando um salto, o que você acha que a Autolatina trouxe em termos de aspectos positivos para a sua área?

 

R – Difícil, heim? Essa perguntinha... Pode falar a verdade mesmo?

 

P/2 – Pode falar.

 

R – Positivo? 

 

P/2 – Ou quais foram as grandes dificuldades que você encontrou para lidar com a Autolatina.

 

R – Estou sentindo que... Estou tentando ser imparcial, mas o período de Autolatina foi um período que eu julgo péssimo para Volkswagen. Péssimo em termos culturais, onde você tinha – nada contra a Ford – mas você tentar pegar uma cultura americana, uma cultura germânica, fundir e fazer uma nova cultura, era um trabalho para um super-homem. Então, esse choque de culturas foi assim bastante traumático. No nosso caso, principalmente, para mim que soube e era de Recursos Humanos. Recursos Humanos foi uma área que foi dominada pela Ford. E só ficaram as pessoas da Volkswagen que trabalhavam muito mesmo. Então, realmente foi uma área que teve bastante dificuldades, naquele período. Eu acho que o melhor momento da Autolatina foi a separação. Com toda a minha franqueza. Vocês vão ouvir falar dela por aí. 

 

P/1 – Você atendeu muito caso de hipertensão nesse período?

 

R – Olha, o período como um todo foi ruim. A insatisfação era uma insatisfação muito grande que gerava todas as consequências do stress. Eu não fiz nenhum levantamento estatístico para responder a esta sua pergunta, se tinha mais hipertensão, naquela época. Mas, certamente, tinha muito mais insatisfação. Acho que foi uma experiência... Claro que essa experiência acabou sendo positiva, naquele momento que o país vivia, em termos de um ganho, pela otimização de recursos. Mas, a sensação que ficou é que esse ganho foi muito maior para Ford do que para Volkswagen. Então, é um período que eu até faço questão de não lembrar muito. 

 

P/2 – Bom, mudando de assunto.

 

R – Obrigado. (risos)

 

P/2 – Murilo, qual seria hoje a principal meta da área que você atua?

 

R – Na minha área de serviços corporativos, nossa principal meta é ter a satisfação de nossos clientes. E quem são os nossos clientes? São todas as pessoas que trabalham na Volkswagen e seus familiares. Então, é uma missão meio complicada porque o leque de serviços que a gente oferece é um leque bastante grande. Mas, o nosso objetivo é este. É você conseguir a melhor satisfação e o melhor custo/benefício para isto que a gente tem para administrar. 

 

P/1 – Você participou dos testes médicos para ingresso. Quando a pessoa entra na Volkswagen, que tipo de testes médicos vocês faziam? 

 

R – Você está falando funcionário normal?

 

P/1 – É, uma pessoa que iria começar a trabalhar.

 

R – Bom, a pessoa faz uma seleção através da área específica. Ela faz um teste na área que vai trabalhar. E o exame médico é um exame absolutamente rigoroso, do ponto de vista clínico, onde você vai procurar, basicamente, aquelas coisas que possam ser prejudicadas pela atividade da pessoa. Por exemplo, não tem muito sentido uma pessoa que eu detecto um grave problema de coluna, colocá-la num local onde ela vai ter uma grande movimentação de coluna. Então, o exame médico admissional tem duas finalidades. A primeira, é proteger o teu paciente, que está ali na frente, que ele não se exponha a riscos desnecessários. E o segundo, é proteger a empresa, para que você tenha registros da condição de saúde que essa pessoa entrou na empresa, para mais tarde não haver a alegação de que tudo que aconteceu foi adquirido na empresa. Além do exame clínico, todos os candidatos são submetidos a uma audiometria. Há um exame de acuidade visual. E um exame de dinamometria para se medir a força de membros superiores. 

 

P/1 – Mas isto é para todo mundo ou existe um exame admissional segmentado. Por exemplo, quem vai para ferramentaria é um tipo, quem vai para o escritório é outro?

 

R – Não. Nós fazemos tudo para todo mundo. Porque as pessoas acabam vivendo no mesmo ambiente. Outra. Muitas vezes, você está sendo contratada para uma determinada atividade e acaba indo para outra depois. O exame procura contemplar todas as possibilidades. 

 

P/1 – Eu também queria te perguntar, Murilo, porque sabemos que a pessoa, às vezes, ela não está bem de saúde, ou ela voltou de um tratamento. Existe uma preocupação de encontrar uma função para pessoa. Queria que você explicasse essa questão.

 

R – Nós temos aqui toda a parte de Medicina Ocupacional voltada, não só para a prevenção, como também para uma reabilitação, como já deu para vocês perceberem. Então, nós temos aqui – além de termos um grande setor de Fisioterapia – nós temos também uma oficina que chama Oficina Abrigar. Dentro da Medicina Ocupacional, eu tenho uma oficina que faz pré-montagens onde eu posso colocar vinte, vinte e duas pessoas que ainda não estão na condição ideal para voltar à atividade anterior. Se a pessoa tem algum problema que eu consigo resolver na área através de uma mudança de atividade, eu vou fazer essa mudança da atividade. Hoje, o operário trabalha em célula e trabalha exercendo dez, doze atividades diferentes. Isto, inclusive, é uma forma de prevenir o aparecimento de doenças ocupacionais. Porque eu não estou sempre solicitando aquele mesmo agrupamento muscular, aquela mesma articulação, aquela mesma parte do corpo. Então, um rodízio de tarefas é hoje reconhecido como um dos principais fatores para você evitar as DORTs, as antigas e erroneamente chamadas LER, que vocês já ouviram falar. Então, é possível a pessoa que tenha algum tipo de limitação, que eu, dentro de uma célula, faça com que ela, ao invés de fazer todas as funções, só faça aquelas funções que não lhe são prejudiciais. O médico atua bastante nisto. Alguns casos mais sérios, que você não tem esta possibilidade, ou a pessoa ainda precisa de um período de restabelecimento maior, ela acaba ficando na Oficina Abrigar. A Oficina Abrigar não é depósito de doente. A pessoa que entra lá, entra por um período e vai sair. As coisas que a gente mais se preocupa hoje, e não de hoje, já há algum tempo, é na antecipação de riscos. Então, já há bastante tempo, tudo que a fábrica faz em termos de novas aquisições de linha, de dispositivo, desde a fase de layout é avaliado pelo médico e pelo engenheiro de segurança. Então, vou contar um exemplo de um trabalho que eu fiz em 1994 ou 1995: a Volkswagen tinha aqui a antiga Kombi e estava trazendo a nova Kombi, do México para cá; a linha da Kombi do México para cá – que é essa Kombi com porta de correr, com estas novidades todas que ela tinha – e nós fomos para o México analisar toda essa linha de montagem para antes dessa linha ser instalada aqui no Brasil, para que ela estivesse adequada às realidades brasileiras; e uma realidade extremamente simples de se observar. O mexicano é mais baixo que o brasileiro. Bem mais baixo que o brasileiro. Então, tivemos que fazer inúmeras adaptações e correções de dispositivos, de equipamentos, em função da diferença de estatura. A companhia, na época, gastou bastante dinheiro nisto. Toda a linha do Polo e do Golf, em Curitiba, no Audi A3, desde a fase de desenho, ela é avaliada no ponto de vista ergonômico. Inclusive, já existe até software onde você consegue visualizar a situação, avaliar realmente o risco ergonômico existente. Então, é claro que a gente trabalha na reabilitação, mas, o grande segredo é buscar a antecipação. É você trabalhar antes de instalado o processo.

 

P/1 – Essa preocupação eu acho interessante, quer dizer, você se preocupa com o funcionário ou também com o futuro passageiro desse carro?

 

R – Com o funcionário. A parte ergonômica do futuro passageiro, a Engenharia se preocupa. Eventualmente, a gente até troca alguma figurinha, mas isto é de responsabilidade do pessoal de segurança veicular. A própria questão de ergonomia de banco, de cinto, posicionamento e tal. O que a gente se preocupa é com o empregado. Quer dizer, os dispositivos com que ele vai trabalhar, a altura dos dispositivos, a inclinação, a necessidade de você colocar balancins, a altura da linha, a possibilidade de linhas com alturas reguláveis. Tudo aquilo que possa trazer algum tipo de dificuldade para o surgimento de alguma doença relacionada ao trabalho. 

 

P/1 – Esse tipo de coisa é feita em outras fábricas, por exemplo, em Taubaté, em São Carlos. 

 

R – Sim. São Carlos, por exemplo, é uma fábrica nova, então você não foi buscá-la em outro lugar. É que nem a fábrica do Polo aqui. Você vai discutir desde a planta, do desenho. Por exemplo, máquinas que são compradas no exterior, a aprovação é feita pelo nosso engenheiro. Porque se a máquina tem algum problema que precisa ser corrigido, algum problema de segurança, ela precisa ser corrigida antes de chegar no Brasil. Então, quer dizer, você não só trabalha no projeto, mas também na inspeção do equipamento antes da instalação. Fábrica de Taubaté já é uma fábrica que foi construída nos moldes dessa fábrica aqui. Você pegar fábrica de Resende, fábrica de São Carlos, fábrica de Curitiba, fábrica do Polo, todas estas foram motivo de uma avaliação desde o primeiro momento. E cada produto novo que surge, nosso pessoal entra na linha para discutir desde o primeiro momento. 

 

P/2 – Murilo, com todo este processo de automação da indústria automobilística nos últimos anos, como que você avaliaria o índice de acidentes de trabalho. Você acha que isto permanece a mesma coisa ou isto diminuiu?

 

R – Sem sombra de dúvida, isto diminuiu. Mesmo porque, via de regra, a automação, a robotização atinge aquelas áreas onde você tinha um maior número de problemas, um maior número de acidentes. Então, sem sombra de dúvida, diminuiu. Não só os acidentes como as doenças ocupacionais. Você pega, por exemplo, uma estamparia. Uma linha de prensas manual que teria quarenta homens trabalhando, expostos a ruídos, mesmo com a proteção. Você sabe que o ser humano é algo bastante complicado e não gosta nem sempre de se proteger como devia porque o ser humano acaba perdendo respeito ao risco. Ele fala: “Não, isto aqui comigo não vai acontecer”. Então, linha dessa tinha quarenta pessoas trabalhando. Hoje, numa linha de prensas automatizada, você tem três, quatro pessoas. Quer dizer, claro que o risco, a incidência vai diminuir. Não tenha dúvida. O processo de pontiação, o processo de solda, o robô fazendo a pontiação, porque antes, cada ponto de solda era colocado por um homem, com fagulhamento. Eventualmente, o homem tinha problemas. Hoje, um robô que faz. Então, certamente diminuiu. 

 

P/1 – De quais áreas vem a maior quantidade de casos de acidente de trabalho?

 

R – Depende do tipo de atividade, do tipo de coisa que o indivíduo está manipulando. Por exemplo, se você tem áreas de usinagem, áreas de solda, você acaba tendo mais acidentes com óleos, fagulhas. Áreas de manufatura, de manipulação, você acaba tendo, por exemplo – manipulação de chapas, de estamparia de carroceria – você acaba tendo mais cortes do que outra coisa qualquer. Áreas de montagem, onde você tem mais problemas relacionados a espaço, então problemas de bater contra, de se chocar com, você tem mais contusões. Então, o tipo de acidente, ele varia muito conforme a atividade. Agora, não existe assim, uma área que é campeã de acidentes. Os acidentes estão dentro de um patamar aceitável, em termos da indústria automobilística, mas existe a peculiaridade de cada área. E quando você analisa um acidente – e isto é uma eterna discussão, se você vai chegar na apuração, se é um ato inseguro ou se é uma causa insegura – a grande maioria dos casos continua sendo por um ato inseguro. Aquela história da perda do respeito, que dizer, isto até. Vou te dar um exemplo médico. É aquele médico que está atendendo um acidentado sem calçar luvas. Porque não pode. Você tem que usar as luvas para se proteger. Mas, a familiaridade com o risco, faz com que algumas pessoas não tomem as medidas adequadas. Aí, quer dizer: “Eu tô tão acostumado a ver essa prensinha aqui, sobe e desce, sobe e desce, sobe e desce, que um dia eu pego e ponho a minha mão embaixo dela quando ela tá desligada”. Mas, ela não estava desligada. Se eu não tivesse essa familiaridade, essa falta de respeito, eu não ia por minha mão lá embaixo. Por isto que é muito importante você falar, maciçamente, em segurança. É você advertir, mostrar, provar que as coisas acontecem.

 

P/1 – E isso é feito Murilo?

 

R – Sim, maciçamente.

 

P/1 – Como é feito?

 

R – Por exemplo, hoje antes de vir para cá, eu estava numa reunião de segurança. Com o diretor e com toda a gerência da área de manufatura, onde se discutiram todos os acidentes do mês passado, todas as taxas, a gravidade, quais as medidas corretivas, porque aconteceu. Quer dizer, o chefe daquela área tem que explicar porque aquele acidente aconteceu e o que ele fez para não acontecer mais. Esse é o básico. Segundo passo, a conscientização do operário é feita. Existe um diálogo de segurança mensal, com duração de meia hora, onde todo operário ouve falar de um determinado tema. Além disso, existem os treinamentos de segurança Serviço de Engenharia, Segurança e Medicina do Trabalho destinados a toda a população que trabalha exposta ao risco. E esse trabalho, esse tipo de treinamento, depende muito do risco a que o indivíduo está exposto. A reciclagem, a cada quanto tempo você vai fazer, vai depender do tipo de risco a que está exposto. 

 

P/2 – Murilo, nesses vinte e dois anos de Volkswagen e trabalhando nessa área médica e atualmente com vários setores, houve algum caso específico que tenha te chamado a atenção e tenha te marcado?

 

R – Tem tantos. Mas, marcado, em que sentido?

 

P/2 – Alguma coisa pessoal que tenha te chamado muito a atenção.

 

R – Um caso que foi muito estressante, para mim, foi na antiga Fábrica 2 onde, depois de uma enchente, daquelas enchentes que eu já contei para vocês, o pessoal estava limpando as frentes. Tinha entrado água e cobrido as frentes. E eu estava no ambulatório sozinho com dois enfermeiros. Isso devia ser umas duas horas da tarde, mais ou menos. Toda prensa, embaixo dela, tem um porão para fazer a manutenção. E o pessoal antes do almoço limpou a prensa com um líquido que chama tricloretano, que é extremamente volátil. Limparam. E aquilo escorreu por esse porão da prensa e o pessoal foi almoçar. E quando voltou, um rapaz entrou nesse porão e a coisa, que não tinha volatilizado, formou um gás. E esse gás é um gás que causa uma narcose. E o cara apaga, pode ter alguma dificuldade respiratória ou não. E esse rapaz que entrou começou a ficar meio apagado, tentou sair, pôs a mão para fora e caiu. Um amigo viu que ele tinha caído e falou: “O cara caiu”. Pegou e entrou. Ficou também. Eu sei que cinco pessoas entraram antes de chamarem os bombeiros. E, de repente, me chegam cinco pessoas num ambulatório pequeno, todas apagadas, todas dormindo; dois com grande dificuldade respiratória, e eu sozinho. E foi muito engraçado porque nós tínhamos oxigênio tubulado para atender quatro pessoas e tinha que atender cinco. Então, e o meu enfermeiro – nós tínhamos um torpedo reserva que você não usava quase nunca – e o meu enfermeiro, na época, o Mário, um sujeito bem forte, chegou. Falei: “Pega o torpedo”. Ele pegou o torpedo e estava tentando abrir com um grifo; não conseguiu. Falou: “Doutor, tá emperrado”. “Deixa eu ver isso aqui.” Fui lá, e com a mão, abri aquilo; abri, funcionou. Depois ele falou: “Nossa, quando o senhor tá nervoso, o senhor fica forte”. Porque eu não tinha nem visto ele abrir com o grifo e consegui com a mão. Mas, esse caso marcou muito pelo sufoco que foi a situação. Tivemos muitos, tivemos alguns casos que marcaram pela gravidade do acontecido, que nem é bom a gente lembrar. E tivemos muitos casos bons. Por exemplo, aquelas pessoas que foram recuperadas aqui dentro. A gente tem um sistema de atendimento de emergência que qualquer ponto da fábrica é atingido em, no máximo, três minutos. Vocês sabem que o tempo de socorro por uma parada cardíaca, em termos de oxigenação, é, no máximo, de três minutos, senão vai morrer ou vai ter um dano cerebral permanente. E a gente consegue atingir, através deste sistema, qualquer ponto da fábrica. E nós tivemos, sequencialmente, dez paradas cardíacas ao longo de nove anos, e todas foram recuperadas dentro da fábrica. É claro que algumas dessas pessoas depois faleceram no hospital. Mas, todas saíram daqui batendo. Nós perdemos esse recorde o ano passado porque teve um caso que nós não conseguimos recuperar aqui dentro. Fomos chamados mais tarde. Então, são casos como este, que nos traz bastante satisfação pelo sistema criado. Agora, casos curiosos. Se a gente for falar de curioso, então tem de tudo. Há três anos atrás, fizemos um parto aqui dentro. Porque aqui também é a mãe Volkswagen. Tudo que acontece na Anchieta e acontece em volta, e que vai demorar alguma coisa, eles dão um jeito de pôr pra dentro. Por exemplo, acidente na Anchieta. Nós, muitas vezes, socorremos antes da Ecovias. Não só a parte médica como a parte de corpo de bombeiros, também. E há uns dois, três anos, mais ou menos, era por volta de três e meia da manhã, uma mocinha com a mãe, a pé, na Portaria 4. Três e meia da manhã. Desesperada, falou: “Me ajuda, me ajuda, acho que meu nenê vai nascer”. A pé. O guarda pegou, chamou a ambulância, a ambulância levou para o ambulatório e fizemos o parto aqui, no ambulatório, porque não deu tempo de ir para o hospital. Esse é um caso curioso. Tem uns que não pode contar. 

 

P/2 – Que são superinteressantes.

 

R – Normalmente são.

 

P/1 – O modelo que é seguido em termos de Medicina do Trabalho, claro, respeitando-se as diferenças entre os países, é um modelo nosso ou um modelo que se espelha na Alemanha? Há alguma troca de informações?

 

R – Nosso. Existe uma troca constante de informações, mas o modelo é nosso porque tem uma série de coisas que a Volkswagen do Brasil faz que lá na Alemanha eles não fazem. 

 

P/1 – Por exemplo.

 

R – Por exemplo, ter uma medicina assistencial como nós temos aqui. Ter um plano de saúde como nós temos aqui. Porque lá o sistema governamental assegura um tratamento diferenciado para toda a população. Então, a companhia não precisa atuar nesse sentido. Por exemplo, a própria questão da Aids que eu coloquei para vocês. Eles não fazem nada porque o governo faz tudo. A preocupação lá é muito mais com a questão ocupacional e com a questão emergência. E a emergência, pega-se o paciente e se coloca no seguro médico externo à companhia. A cultura aqui é diferente. Se você pegar, por exemplo, na África do Sul, já é um pouco mais parecido com a gente. Mesmo porque a África do Sul, há uns quinze anos atrás, foi para Alemanha para tentar adquirir informações. Falaram: “Não, o que você precisa tem no Brasil”. Então, eles vieram aqui conhecer o Brasil. E a partir daí, montaram uma estrutura parecida com a nossa lá. O México, também tem alguma coisa mais parecida com o Brasil, mas os países da Europa têm a coisa diferente. Já na Espanha, também é diferente da Alemanha. Em Portugal, é diferente da Espanha. Quer dizer, a questão regional é bastante respeitada. 

 

P/1 – Lembrou?

 

R – Caso curioso. (risos) Tem de monte. Teve uma vez, um paciente que chegou pra mim e falou assim: “Doutor, eu tô com tiróides.” “Tiróides?” Eu falei: “Então, me mostra.” Ele baixou a calça. Era fimose. Esse é caso curioso. Mas tem muita história. Principalmente, pelo tamanho dessa companhia. Nós já fizemos de tudo. Uma vez, eu lembro de um paciente que, esse me deixou numa situação bastante difícil, onde ele tinha feito uma vasectomia, tinha um espermograma negativo. E a esposa dele estava grávida. E a esposa dele me telefona: “O senhor não pode contar pra ele que o espermograma dele é negativo, senão ele me mata”. Esse foi um caso bastante interessante. Eu sei que a esposa veio junto com ele para conversar. E assim nós ficamos, uma hora e meia, conversando, conversando, conversando. O homem foi embora e nem abriu o exame. Ele não quis abrir, o que ficou bom para todo mundo.

 

P/1 – Você está hoje numa função mais administrativa, né? Você não põe mais “a mão na massa”. Você sente falta disso?

 

R – Eu sinto falta do cheiro de sangue, eu costumo dizer. Porque eu não consigo deixar de ser médico vinte e quatro horas por dia. Se você pegar, se for no meu carro, está aí na porta, eu tenho uma maleta que tem a maioria das coisas que são necessárias para um atendimento de emergência. Realmente, hoje o pôr a mão na massa... Eu acabo pondo a mão na massa por algumas pessoas mais antigas dessa companhia, que já me conhecem como médico há muito tempo e que querem a minha opinião, em alguns casos. Existem algumas situações, hoje, ainda hoje eu atendi um rapaz, filho de um dirigente do sindicato, que não está se dando bem, então me pede que eu o veja como médico. E eu acabo fazendo com a maior satisfação porque realmente a Medicina, ela... Eu sou médico. Tanto que meus dois filhos estão fazendo Medicina também. Então, eu acabo fazendo um pouquinho de Medicina com eles também agora. 

 

P/2 – Murilo, a gente está entrando na parte final. Vou te fazer algumas perguntas, tá? Na sua opinião, qual o carro seria o símbolo da Volkswagen do Brasil?

 

R – Fusca. 

 

P/2 – Qual seria o momento mais marcante da trajetória da Volkswagen nestes cinquenta anos para você? 

 

R – Para mim? Nestes cinquenta anos? Mais marcante? A separação da Autolatina. 

 

P/2 – Você acha que é possível imaginar o Brasil sem a Volkswagen?

 

R – De forma alguma. Ainda há pouco tempo eu estava vendo alguns comerciais antigos do velho Fusca, da história da marca que conhece o nosso chão. Eu achei absolutamente impossível a Volkswagen fora do Brasil. 

 

P/2 – E o grupo Volkswagen, você acha que ele seria diferente se ele não tivesse vindo para o Brasil?

 

R – Talvez fosse mais rico. Mas, eu acho que a gente nota ainda alguma nostalgia, algum carinho por parte da matriz com esta fábrica, principalmente aqui no Brasil, porque esta é a mais antiga fábrica da Volkswagen fora da Alemanha. Realmente, existe este tipo de vínculo. Acho que o grupo também não cogita em sair do país. 

 

P/2 – Qual a importância, para você, desse resgate de cinquenta anos da história da Volkswagen no Brasil?

 

R – Olha, eu acho que, principalmente, aqui no Brasil, as pessoas acabam se esquecendo daquilo que aconteceu no passado, até muito recente. Acho que o resgate desses cinquenta anos mostra não só uma preocupação da companhia com isto, mas mostra também que hoje já existe, dentro do país, algum tipo de interesse e algum tipo de respeito por aquilo que aconteceu no passado. Então, a questão da manutenção, da história, a questão da valorização das coisas que tiveram sentido na evolução do homem. Isso não é saudosismo. Acho que isto é conhecimento. Eu acho que para saber que existe o Polo, a gente conheceu a história do Fusquinha. Como é que foi feito. Você pega hoje, você fala em máquina de escrever. Você precisa explicar o que é. Para um moleque de dez, doze anos, você precisa explicar o que é. Ele não sabe. Nunca viu. Mas conhece laptop, palmtop. A máquina de escrever não conhece. Então, eu acho que é um processo de cultura e acho que a gente começa a ter essa preocupação em termos de Brasil. 

 

P/2 – O que você achou de ter participado desse projeto dando uma entrevista?

 

R – Achei muito interessante. Foi assim muito bom. Eu fiquei preocupado. Que é sinal de que eu estou ficando velho também, porque tem história para contar. Não. Falando sério agora. Foi muito interessante. Gostei bastante. Pena que eu não sabia, senão teria me preparado um pouco melhor. 

 

P/2 – Mas essa é a ideia. Murilo, a Volkswagen do Brasil e o Museu da Pessoa agradecem muito pelo seu depoimento. 

 

R – Obrigado. Eu é que fico bastante feliz em ter estado com vocês.

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