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Médico de osso e alma

História de: Amaury Francês
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 30/11/2021

Sinopse

É certo que são muitas as pessoas que participaram do crescimento de João. Até virar doutor, os avós, pais, irmãos e amigos foram seus grandea influenciadores. Mas seria um erro dizer que eles não continuam sendo. Conversar com João é entender o papel de cada um em sua vida. Falar sobre seus influenciadores é uma oração em agradecimento a eles. São muitas as histórias em que João dá um passo para trás e diz que o eu, na verdade, é nós. Essa coletividade só traz ternura para sua história, que se inicia em Belém, vai para São Paulo e faz uma pausa tão importante nos Estados Unidos. Essa trajetória faz de João um médico que vai além dos ossos e toca a alma.

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História completa

O meu nome é João Amaury Francês Brito. Nasci em Belém do Pará. Meu nome é João por causa do meu pai, para agradá-lo, e Amaury foi escolha da minha mãe, de um livro que ela leu. Já o sobrenome Francês é da família materna, de origem libanesa, e o Brito do meu pai. Hoje, só faço como dizem: “Eu não sou médico, sou ortopedista!”

No começo, a gente não tem noção do que realmente é a medicina. A sensação que eu tive na primeira semana de aula foi a que eu era a pessoa mais importante do mundo! Me senti com a síndrome do super-homem: eu sou o cara, eu estou aqui, eu vou revolucionar o mundo! E quando você vê, a ficha vai caindo e você vê que você não, você é apenas mais um! Mas que mesmo assim você é uma pessoa que precisa estar lá, embora seja importante como todas as outras. A humildade e o bom senso tem que ser os primeiros a falar! Mas você começa a ver isso infelizmente - ou felizmente - da pior forma: apanhando. Então você acha que é alguma coisa e quando vê, você não sabe nada. Você não sabe nada de teoria, você não sabe nada de prática, você não sabe lidar com o paciente, você não sambe lidar com o emocional de um ser humano, você não sabe lidar com o emocional do colega, do professor.

Quando eu sai de Belém para fazer a residência, não sabia como era morar fora! E de uma hora para outra, fui morar em Ribeirão Preto, em São Paulo. Eu não sabia pagar luz, eu não sabia fazer um contrato, eu não sabia o quê que eu tinha que comprar pra me alimentar, não sabia fazer nada, só estudava. E aí a mulher maravilha, de fato, foi me ajudar: a minha mãe. Você imagina o que é para uma mulher, professora de colégios públicos, mãe de três filhos passar um mês fora de casa só com um dos filhos? Tendo que manter não só ele, mas também o resto? Junto com meu irmão mais velho, minha mãe, a mulher maravilha, fazia compras pra mim, procurava apartamento mais perto do hospital enquanto eu trabalhava. Tudo isso pra mim, só pra mim.

Os livros de Medicina eram muito caros. Extremamente caros. E eu me lembro muito bem da cena da minha mãe chegando: “Meu filho, eu não posso hoje comprar os teus livros e comprar a tua cama ao mesmo tempo. Escolha!” Eu escolhi os livros. Mais tarde, comprei um colchão: “Nossa, eu preciso honrar a minha mãe, preciso mostrar que realmente o esforço dela vale a pena. Não posso desvirtuar o meu caminho! Eu tenho que estudar, mas também preciso trabalhar!” E aí comecei a arrumar plantão para sobreviver. Então eu morava em Ribeirão Preto, mas comecei a trabalhar em cidades próximas: Mococa, Viradouro, Sertãozinho. Depois de um tempo, a minha tia me deu uma cama para eu colocar o colchão. Ela também me deu um rádio que era três em um: rádio, toca-fitas e CDs. E a minha esposa - namorada na época, a Larissa - me deu um CD do Renato Russo em italiano. Eu chegava em casa e como não tinha televisão, eu botava o CD pra tocar e ficava estudando ouvindo as músicas. Mas, ao mesmo tempo, valorizando cada momento.

Eu sei o quanto foi doído para a minha mãe me deixar naquela situação, mas era a nossa realidade. Na verdade, eu não posso falar que foi doído, porque o que ela fez para eu chegar até ali, eu tenho que agradecer, eu só pude ficar feliz, porque o que ela me deu foi só alegria, a oportunidade de chegar lá. Também lembro bem de outra cena: eu nunca tinha morado fora de Belém e aí o pessoal falou: “Olha, está chegando o inverno!” Em Belém, quando está no inverno, só funciona dois sóis. O terceiro está desligado! Então, de uma hora pra outra, chegou um frio em Ribeirão Preto! Eu peguei um ônibus para dar plantão em Viradouro e a janela do ônibus tava quebrada. Fui duas horas pegando aquele frio, sem blusa para o inverno, não sabia me portar, fui me tremendo vestindo apenas o jaleco. Nesse dia, chorei um pouco de revolta. “Poxa, meu Deus, eu tenho que passar por isso? Será que eu mereço passar por isso?” E, na verdade, eu tinha que passar por isso. Eu merecia passar por isso pra valorizar a minha vida, pra valorizar tudo o que eu pretendia. E isso só me deu mais força pra estudar. Nesse primeiro ano da residência, consegui uma nota muito boa, equivalente aos estudantes de terceiro ano. Isso me animou, animou os chefes, me valorizou e me estimulou a estudar cada vez mais.

A Medicina envolve qualidade, envolve primeiro a sua formação como ser humano. Eu não acredito na Medicina fria, sem amor ao próximo. Falem o que falarem, eu não vejo nenhum nenhuma pessoa que não tenha uma boa relação médico-paciente se desenvolver bem dentro da área médica. É nessa medicina humana que eu acredito.

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