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Medicina: escola da vida

História de: Lincoln Fabricio
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/11/2021

Sinopse

Lincoln Fabrício sempre se interessou na relação entre o médico e paciente. Nunca quis ser só um doutor que “canetava” uma receita, sem ao menos olhar nos olhos do paciente. Gosta é de puxar a cadeira, se colocar atento e escutar. De ajudar realmente alguém. Os anos de carreira o ensinaram que a medicina é uma grande escola de vida, que ele recomenda para todo mundo.

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Sempre a relação médico-paciente é uma coisa que me destacou. A maneira de falar, a maneira de cuidar. Existem profissionais e profissionais, e você começa a ver de que maneira você gostaria de ser tratado e como não gostaria de ser tratado.

 

Acho que todo mundo deveria fazer medicina. Para se conhecer e não só, mas pela relação interpessoal também, as angústia que são colocadas para fora, os mecanismos de defesa de cada um. Como chega o paciente aqui no consultório e descarrega uma sacola de pedras. Às vezes falando: ‘‘Já fui em 10 dermatologistas e ninguém resolve meu problema”, não me dá nem bom dia, nem boa tarde. E nesse momento você, com seus problemas, com suas angústias, percebe que é hora de empurrar a cadeira para trás, cruzar a perna e deixar ele falar, porque ele está ali sofrendo por algum motivo.

 

Então é muito simples, essa é a hora que a gente pode ser grande, ajudar no alívio, não só daquele sintoma, mas de como está impactando em todo o resto, na vida dessa pessoa.

 

É corrigir pequenos defeitos, excesso de banhos, excesso de limpeza, excesso de adstringência, esses excessos que vão piorar o atópico. Esse é o primeiro passo, porque a primeira coisa que você pega, em quem tem dermatite atópica, geralmente, é que ele tenta cuidar daquela pele, porque aquilo está feio, está coçando, está impuro, está sujo.

 

Deve ter, ainda, um peso religioso, por trás disso tudo. Vai misturando. Um pouco porque descama, um pouco porque isso gera constrangimento. Imagina!

 

No exame físico, às vezes, na hora do médico examinar o doente, quando você vai palpar, colocar a mão, tem paciente que, às vezes, puxa e fala: ‘‘Não, doutor. Não coloca a mão aqui’‘, com um conceito errado de contagiosidade, de que eu vou pegar aquilo por tocar. Então o contato vai quebrando algumas coisas, e é o resgate que o médico deve ter naquele momento da consulta. De mostrar que é uma doença inflamatória, que não tem risco de contágio. É um dos movimentos que você faz de resgate desse paciente, de mostrar que se aquilo está acontecendo, não é porque ele quer. Lógico, tem algumas coisas que estão erradas, que estão favorecendo mais, mas é uma doença.

 

Quando você resgata o paciente para uma vida digna – não uma sobrevida, ainda sofrida – é aí que temos um exercício médico. Tenho várias histórias de atopia; eu tenho um caso – uma história forte que aconteceu em uma residência – de um pai do interior, de fora do estado, que trouxe um filho de 30 anos, que veio praticamente carregado e estava muito ruim. O pai, humilde, sentado como se enrolasse um cigarro de palha, típico de um homem do campo, de cabeça baixa, quase que não olhando nos nossos olhos, se colocou a falar do sofrimento de seu filho, no qual viveu toda uma vida doente. E ele falou para mim: ‘‘Doutor, se fosse um animal por muito menos eu já teria sacrificado”.

 

Você imagina um pai falar isso? Eu quase tive que sair da sala. Inclusive, eu quase tive que parar a entrevista agora, porque quase não consigo falar dessa história. Então, quando você vê esse rapaz em remissão, não tem nada maior que isso. Esse doente de pele é muito negligenciado, muitas vezes pela própria sociedade. É comum falarem que é apenas uma doença cosmética. Nós já escutamos isso até de órgãos ministeriais. Então, imagine quanta dor de ver o filho sofrer? São histórias que nos marcam, sem dúvidas, eternamente.


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