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Medicina Cooperativista - Uma história de dedicação e conquistas

História de: Nivio Braz de Lima
Autor: Valdir Portasio
Publicado em: 09/06/2021

Sinopse

Enfermeiro na infância sob o auxílio do pai. Trabalho como faxineiro para juntar dinheiro e estudar medicina em Belo Horizonte. Passou em 26º lugar no exame de medicina e se formou em 2º lugar na turma. Pediatra, trabalhou para Estado, em órgãos Públicos, fundou Hospital para crianças, entrou para Unimed. Presidente da Federação, fundou Fundação CEU, cursos para ensinar o cooperativismo entre os médicos, e outras Unimeds pelo mundo. Grandes feitos na medicina.

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História completa

Projeto Unimed Brasil 40 Anos Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Nivio Braz de Lima Entrevistado por Maurício e Maria São Paulo, 27 de março de 2007 Código: UMBR_HV025 Transcrito por Écio Gonçalves da Rocha Revisado por Giulia Araujo P/1 – Bom, Doutor, bom dia. R – Bom dia. P/1 – Primeiramente o seu nome completo, o local e data de nascimento. R – Nivio Braz de Lima, 79 anos, nascido em Conselheiro Lafaiete, a melhor cidade do mundo pra mim. P/1 – Qual é a sua atividade e a função atual na Unimed? R – Mínima. P/1 – Somente cooperado? R – Só cooperado. P/1 – E o nome dos seus pais? R – Antônio Egídio de Lima e Maria do Nascimento Lima. P/1 – Certo. Qual a origem da sua família? R – Bem, a minha mãe era filha da parte alta da cidade. Lafaiete tem duas partes, a parte alta e a parte baixa. A parte alta é mais antiga, a parte baixa nasceu com a Estrada de Ferro Central do Brasil. A minha mãe era filha de uma família tradicional da parte alta, o meu pai era operário na parte baixa. Mas era bonito, ela gostou dele, contra a vontade do pai, do meu avô, que foi inimigo do meu pai durante uns 15 anos e depois, na velhice, meu pai é quem cuidou dele o tempo todo. O meu pai era operário e enfermeiro, então cuidou dele, e ele não fazia nada se o Antônio Egídio não desse opinião. Então tudo o que meu avô fez no fim da vida, lúcido, não caducou, foi o Antônio Egídio, o genro dele que não era bem visto, foi quem o ajudou. Não é pra me gabar não, mas muito melhor do que eu foi o meu pai e a minha mãe. Eu fico até emocionado. P/1 – O que te levou a exercer a carreira da medicina? Qual foi o motivo? O que te influenciou? R – A profissão? P/1 – Isso. R – Meu pai era enfermeiro, e eu tinha 13 anos e ele me botou como auxiliar dele no ambulatório dos operários da Estrada de Ferro Central do Brasil. E a Caixa de Aposentadorias e Pensões dos Operários da Central do Brasil também tinha um ambulatório. Então eu fiz um treinamento com o meu pai no ambulatório da estrada de ferro e fui aceito como enfermeiro no ambulatório da Caixa de Aposentadorias e Pensões dos Operários da Estrada de Ferro Central do Brasil. Trabalhei lá dois anos. Fazia enfermagem, tudo, né, injeções, como injeção no músculo, injeção na veia, dava orientação, o médico mandava e eu seguia. Quer dizer, eu fui envolvido pela medicina muito cedo na minha vida, sabe? Então aprendi a fazer isso tudo. Todo mundo duvidava mas eu fazia e fazia bem. O meu pai me ensinou direitinho e eu também era cuidadoso, né, não fazia absurdos. Aí eu fiquei lá dois anos, quando eu me formei no ginásio. Em Lafaiete não tinha curso científico. Então... Posso continuar? P/1 – Pode continuar. R – Então eu falei com o meu pai: “Olha, eu quero estudar medicina. E medicina só tem em Belo Horizonte, eu tenho que mudar pra lá.” Botei o problema na mão do meu pai e da minha mãe. Eu tinha 15 anos, fiz 15 anos no dia 3 de fevereiro e saí de Lafaiete no dia 23 de fevereiro de 1946, não é isso? Fui pra Belo Horizonte sem dinheiro, filho de operário. O meu pai era operário da Central do Brasil, depois passou a ser enfermeiro, mas o cargo dele era de operário. Então ele não tinha recurso pra me ajudar. Mas eu fui pra Belo Horizonte com a cara e a coragem, com 15 anos. O meu primeiro emprego foi na Leiteria Celeste, uma leiteria que funcionava de meio dia à meia noite e 40. Eu fazia todo o dia, sem sábado, sem domingo, de meio dia à meia noite e 40, e ia a pé pra casa, cerca de cinco quilômetros a pé pro Bairro de Santa Tereza, isso durante esse período todo. Mas me dava o dinheiro pra eu sobreviver nesse primeiro ano lá. Eu sobrevivi, mas depois arrumei um outro emprego porque a moça que trabalhava na Casa das Linhas me indicou ao patrão dela. Então eu fui trabalhar na casa das Linhas, também como faxineiro, limpeza, arear o pórtico de mármore branco, ficava em frente ao abrigo de bondes de Santa Tereza, que hoje não existe mais, naquele tempo tinha. Então trabalhei lá um ano, mais ou menos, quando eu fui descoberto lá pela minha madrinha de batismo, que morava em Sete Lagoas e foi morar em Belo Horizonte com a família toda, oito filhos. E aí eu que morava com o meu tio, onde eu morei algum tempo, no porão da casa dele. Porão, que eu não sou muito baixinho não, né, mas pra entrar eu tinha que agachar. Morei lá algum tempo. Aí minha madrinha me viu lá na Casa das Linhas, me convidou pra morar na casa dela, com os oito filhos dela. Eu morei lá não lembro quanto tempo. Mas me arranjou também um emprego numa firma, Euclides Andrade e Irmãos, na qual eu fui trabalhar como faxineiro, esse negócio todo de limpeza. Mas eu chegava muito cedo, fazia toda a minha obrigação e depois ia pra máquina para escrever as coisas lá. Um dia o patrão chega mais cedo e me vê escrevendo na máquina. Aí ele chegou: “Ô amigo, você podia fazer três cartas pra mim?” “Uai, perfeitamente. O senhor vê se sai boa coisa”, fiquei constrangido de escrever a carta pro Diretor Comercial da Tecidos Euclides Andrade S.A., tinha mudado o nome. “Estou às ordens, vou fazer”, e fiz as três cartas. Ele leu uma carta, leu outra, leu outra: “Está ótimo, muito obrigado”. E fui aprovado na primeira demonstração, fui aprovado nas três cartas. Uma semana depois ele me escolheu como datilógrafo correspondente da firma, com um salário que era, na época, maior do que o salário do meu pai, com 20 e tantos anos de estrada de ferro. Aí comecei a trabalhar lá, melhorei um pouco de vida. Minha mãe tinha vontade de ir pra Belo Horizonte porque meu outro irmão também já estava formando lá e queria estudar medicina também, e estudou. Foi pra lá com a família, para um barracão. O meu pai comprou do meu tio, negócios de parentes, do meu tio, mas era um barracão de três cômodos, de chão, e a cozinha era coberta de zinco, que ficava um palmo ou um pouco mais da cabeça da minha mãe, que era cozinheira, lavadeira, arrumadeira, passadeira dos sete filhos durante um tempo que eu não lembro o quanto durou. Mas eu fiquei nesse emprego do Tecidos Euclides Andrade até terminar o curso científico. Quando eu terminei o curso científico chegou o Natal, na festa do Natal _____. Depois do Natal cheguei perto do Sr. José Andrade Costa, que era o que tinha me designado, e falei: “Sr. José, eu vou pedir demissão do meu emprego”. Ele falou: “Mas por quê?” “Ah, porque eu vou estudar medicina. Eu vim pra Belo Horizonte para estudar medicina, então eu vou estudar medicina, e eu não posso estudar trabalhando na sua empresa” Ele ficou pesaroso, falou que não, que esperasse um ano pra fazer o concurso, o concurso era muito difícil. Os filhos do dono da empresa, não vou citar os nomes não, mas três filhos tinham feito concurso pra Escola de Direito, Escola de Engenharia e uma outra escola, não foi medicina não. Tomaram pau os três. “Como é, se os filhos do (Didinho ?) não conseguiram passar na primeira vez, como é que você vai passar?”, eles iam fazer a segunda vez. Eu falei: “Eu tenho que passar. Tem gente que pode passar ou não pode, eu tenho que passar”. Dia 31 de dezembro eu pedi demissão, saí, ganhei a gratificação do fim do ano, que era muito boa, era três vezes o salário que eu ganhava. Já me ajudou nesse período que eu ia ficar ocioso. Aí fiz isso, fui estudar. Entrei em casa no dia primeiro de janeiro e só saí de casa no dia do concurso. Estudava de manhã, de tarde e de noite. Andava um pouco depois do almoço, no quarteirão da minha casa, do nosso barraco. Ali andava, dava umas duas voltas e estudava. Depois do jantar andava também. Isso o meu pai que exigia: “Você tem que andar porque não é possível ficar parado”. Andava, voltava e estudava até dez horas da noite, dormia, acordava às seis, estudava. Estudei muito e passei no primeiro concurso, no 26º lugar. E quando eu passei eu fui lá falar com o meu patrão que eu tinha passado. Ele ficou emocionado também, né? Tinha passado na Escola de Medicina, e os concursos mais difíceis eram Escola de Medicina e Escola de Engenharia, na época. Passei, comecei no primeiro ano. Passaram-se uns dias, o Sr. José (Andrade ?) Costa foi na minha casa me levar uma gratificação porque eu tinha passado no concurso. Veio a gratificação de Natal e ele foi levar pra mim. Foi meu amigo até morrer, muito gente boa. Aí entrei pra medicina, fiz o curso todo. Não levei nenhuma bomba, fui direto, passei em tudo. E trabalhava. Aí eu já tinha arrumado um emprego público. Eu tinha um primo que trabalhava no Gabinete do (Américo Renê Geanete ?), que era um político de prestígio, arrumou um emprego pra mim na Secretaria da Agricultura. E eu trabalhava e estudava. Nos seis anos eu fui o segundo colocado durante todo o curso. P/1 – E o que te levou a escolher a pediatria? R – Eu sempre gostei muito de criança. É coisa inata, né? Acho criança a melhor coisa do mundo, não tem nada melhor do que criança. Passou de 12 anos vira uma praga. P/2 – É verdade. R – Viu, aí varia um pouco. Mas a criança em si é uma beleza, é onde a gente investe e vê resultado aparecer, não só no que diz respeito à saúde, porque eles têm um poder de recuperação muito grande, como também a evolução da criança, no período que ela estuda e que ela satisfaz os pais. Uns, outros não satisfazem, são uns “malandrões” de primeira, mas são exceção. Os malandros são exceção, mas existem, acho que até hoje. P/1 – Depois que o senhor concluiu a faculdade, como é que foi a sua trajetória? R – Eu fiz a faculdade trabalhando na Secretaria da Agricultura, depois eu fui transferido à Secretaria do Departamento Social do Menor, olha a tendência. Então eu passei, consegui a transferência para o Departamento Social do Menor, que era só do menor, e fui designado médico do Instituto João Pinheiro. É um instituto que abrigava, na época, 400 jovens, de puberdade para baixo, meninos de oito, dez, 12 anos, até 15, 16, quando aí passava _____. Quatrocentos meninos, e eu cuidava dos 400, não sozinho. A Dona Rita, uma cozinheira, arrumadeira, passadeira, papapá, que era uma pessoa fabulosa, humilde, ____, cuidava da alimentação, da higiene, de tudo que diz respeito à criança dessas idades. E uns até ajudavam, porque os de 14, 15 anos já davam banho nos de sete, oito ou nove. Então uns ajudavam os outros. Só passei um aperto lá, quando surgiu a caxumba nesses meninos. Eu não sei se foram os 400, mas uns 300 e tanto tiveram caxumba, e caxumba dói, incomoda. Hoje não existe mais, a vacina aboliu. Mas é a caxumba, tudo inchado, e a gente medicando. Não tinha medicação específica. Era combater a febre e combater a dor, era isso que a gente fazia, e repouso, que quando ela desce o problema é muito mais sério. Sabe o que quando ela desce, né? Eram só homens. Quando ela atinge os testículos do menino, o jovem, pode ficar incapaz, impotente não, incapaz, não é isso? Então foi um problema danado. Isso durou acho que uns meses, porque melhoraram uns e caiam os outros, e ficou aquela luta. Trabalhei nesse Instituto João Pinheiro algum tempo, até que eles resolveram acabar com o Instituto João Pinheiro. Aí eu fui transferido para creches como pediatra. Você vê que a coisa foi encaminhado, né? Para atender como pediatra, creches de meninos recém-nascidos até um, dois anos de idade. Eu trabalhei em duas creches do Estado, uma num bairro lá, esqueci o nome agora, e outro na Febem [Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor], que tratava dos meninos abandonados e cuidados pelo Estado. Então eu trabalhei lá algum tempo, depois fui ser pediatra dos filhos das presidiárias da Penitenciária Estevão Pinto. Quando eu cheguei lá dava dó, era uma tragédia porque não tinha roupa, não tinha. O Estado não dava porque não tinha, porque era difícil, não tinha verba, não sei o que, não tinha roupa, não sei. Só banho, que tinha uma auxiliar lá muito boa, Dona Olga, lavava os meninos. Era limpinho, tudo limpinho. E não tinha colchão direito, era uma coisa horrorosa. E a creche alagava, na chuva entrava água, então molhava, dava mofo, crise de asma, é uma... Esses meninos foram tratados e eu consegui, com um amigo meu, dos filhos do qual eu era o pediatra lá da clínica particular, Dr. Geraldo Lara Resende, irmão do Oto Lara Resende. Ele era dirigente de uma penitenciária. Eu falei: “O senhor me arranja uns homens aí pra arrumar o telhado lá porque não pode e tal”. Ele arrumou os homens, arrumou o telhado todo, pintou a casa toda, ficou uma casa limpinha. Eu arrumei doação para colchão, esses trem, roupa de cama, mesmo usada, arranjava na família. Quer dizer, dentro de uns três meses a creche era outra. Só tinha um problema grave, as mães eram soltas, cumpriam lá o seu tempo, eram soltas e saíam com o filho. Daí a três, seis meses voltava, o filho na pior condição possível. Eram mulheres da vida, né? Então não cuidava direito, o menino ficava jogado e tal. Então voltava. Isso não foi uma, nem duas. Várias vezes voltavam. Elas tinham ______. Cumpriam a pena, que era pequena pra mulher por crime não muito grave, crimes menores. E cumpria a pena, aí o menino saía. Saía, que pena, a gente criava afeição aos meninos. Daí a seis meses, um ano, voltava tudo de novo. Aí eu me aposentei do Estado, depois de 35 anos de trabalho nesse rol de coisas. Me aposentei e fundei o Hospital São Tarcísio, só pra crianças, que começou menor, começou na Rua Santa Catarina com 12 leitos, chamava Assistência Pediátrica de Urgência. Aí eu consegui financiamento para comprar um prédio de três andares na Rua Gonçalves Dias, a 200 metros do Palácio da Liberdade. Arrumei esse empréstimo, compramos o prédio. E esse prédio funcionou como hospital infantil durante 25 anos, só crianças. No fim desse período, que durou 25 anos, a maior tragédia de Belo Horizonte era gastrenterite. A gastrenterite matava criança absurdamente toda semana, todo dia. E essa gastrenterite eu lutei, pelejei junto à prefeitura para criar um posto de atendimento à gastrenterite. Foi criado o Posto (Dalca ?) Azevedo, o nome da esposa do Celso Azevedo, que era o prefeito da capital. Funcionou bem, tratava os meninos. A impressão que eu tinha, eu era um dos médicos, tive que fazer um concurso pra ser nomeado médico da prefeitura, passei. Aí esse posto atingia 120, 130, mais de cem crianças por dia. A minha impressão é que eu estava numa guerra e estava chegando só menino morrendo. A gente hidratava, medicava, uns recuperavam, a maioria era recuperada, mas voltava pra favela onde não tinha água. O Celso Azevedo fundou o posto, deu o nome da esposa dele, arrumou os plantonistas, dois plantonistas para cada 24 horas. Eu era um dos plantonistas, com outros colegas, lógico, né. Dava um plantão de 24 horas por semana, e tratando os meninos ali. Aí me chamaram, nos chamaram, os pediatras do posto, que o concurso foi um concurso pra trabalhar no posto de gastrenterite. Eu fiz o concurso, passei, com outros. “Mas, olha, eu fiz o posto, o posto está lá, vocês estão trabalhando, mas a mortalidade está a mesma, os meninos estão tudo morrendo”. O menino internava num dia, voltava pra casa, voltava pra lá até morrer. Aí nós ponderamos, isso não foi eu que falei, quem falou foi um colega meu, já falecido até. E falou: “Doutor Prefeito, o senhor só sabe das consequências, é preciso eliminar as causas. Se não eliminar as causas não vai adiantar porque na favela não tem água pra beber, não tem água pra lavar, não tem água pra tomar banho, não tem água pra nada”. Era tudo carregado na cabeça, subindo o morro, pra dar banho nas crianças, para fazer as mamadeiras das crianças. “Então, enquanto isso não for resolvido, não vai ter solução” “Ah, então eu não posso fazer nada porque isso é coisa do Estado”, falou. “Vamos no Estado”. Fomos no Israel Pinheiro. Israel Pinheiro era um sujeito muito honesto, muito sério mas muito abrutalhado. Bam, bam, bam, era assim. Mas uma pessoa de coração bom, de melhor qualidade. Era o Governador. Fizemos a mesma coisa com ele: “Governador, o que causa é isso, isso. Isso _____” “Ah, bom, ainda bem que eu tenho uma desculpa pra gastar o dinheiro, pra trazer essa água para Belo Horizonte”. Incentivou a captura da água dos (Rios das Velhas ?) com tratamento adequado e botou em todas as favelas, e água da primeira qualidade. Isso em pouco tempo, talvez um ano, ele conseguiu fazer isso, não lembro exatamente, mas dava um ano ou pouco mais. Aí o quê que aconteceu? Nós tínhamos hospitais infantis que eram destinados ao tratamento da gastrenterite predominantemente. O que eu trabalhava, o São Tarcísio, que eu era um dos sócios, o Pronto Socorro Infantil, o Pronto Socorro da Vila Vera Cruz, o Pronto Socorro do Barreiro, vários prontos socorros infantis para tratar da gastrenterite. Com essa medida da água em todas as favelas acabou a gastrenterite e acabou o meu hospital, o os outros hospitais, todos fecharam, porque a causa principal da internação era a gastrenterite. Quer dizer, desidratava e matava, não é isso? Quer dizer, isso foi um dos episódios melhores da minha vida. Fechou o hospital que eu era sócio, não é isso? Eu tive que pular feito não sei o que pra poder pagar os médicos todos. Não é pagar, é, como é que chama? Gratificar os médicos que estavam trabalhando lá. Resultado, tive que vender o prédio pra pagar isso tudo, fiquei sem nada, sem hospital. Cliente... Eu já tinha o consultório particular que funcionava no hospital, mas depois que fechou o hospital eu abri, troquei pelo meu consultório particular onde trabalhei, estou trabalhando até hoje, mas estou saindo, já avisando os clientes: “Não volta mais porque eu não vou te atender”. P/1 – E, Doutor, como é que o senhor conheceu a Unimed, o Sistema Unimed? Como é que o senhor teve contato? R – Bem, por causa dessa luta toda, eu esqueci de te contar um episódio. Nesse período, eu trabalhei no INPS até aposentar, eu falei, né? Eu fui Coordenador Regional de Assistência Médica para o Estado de Minas Gerais, era o meu emprego público. O que eu fiz no meu hospital com respeito à gastrenterite eu tentei fazer como Coordenador de Assistência Médica pro Estado de Minas Gerais nos lugarejos, onde eu consegui. Não consegui em muitos não porque essa tendência das pessoas em ajudar os outros existe, mas não é tão frequente assim, não é isso? Então eu não consegui e até hoje a assistência do nosso povo (curricularista ?) de resto de favela e tudo tem a pior assistência médica do mundo, no meu entender. Quer dizer, eu sou suspeito pra falar, mas eu falo assim mesmo. Eu sou suspeito, mas é a pior. Quem é que trabalha em São José do Pé Quebrado, de médico? Não tem condição de trabalhar, não pode trabalhar. Não é que ele não queira, não tem condições. O médico de lá não tem renda nenhuma, não podem pagar, não têm. O serviço do Estado só funciona nas capitais e algumas cidades importantes, não é isso? Quer dizer, _____ até escrevi um livro. Eu trouxe, mas não está aqui não, eu trouxe, sobre isso, “Uma Utopia para a Saúde”. É utopia, mas sonhar é barato, né, deixa eu sonhar. Muito ____, lancei o ano passado, em setembro, “Utopia para a Saúde”. Eu vou trazer um pra vocês ou, se não trouxer, a hora que eles forem me levar... Quem sabe está naquele embrulhão que está aí, acho que está naquele embrulhão aí. Aquele ______ é tudo documento para comprovar o que eu estou falando. Eu gosto de pegar mentira, mas eu gosto de provar. P/1 – E como é que o senhor começou com a cooperativa da Unimed _________? R – Bem, eu tinha um amigo, tenho ainda, o meu amigo muito bom, que era o Presidente da Unimed de Belo Horizonte. E nós do Hospital São Tarcísio éramos contratantes dessa Unimed BH. Então muitos clientes eram da Unimed, que iam pra lá e a gente tratava. Quando fui obrigado a fechar, e fecharam vários hospitais porque não havia necessidade, Graças a Deus, não é isso? Então eu fui só pro consultório e o emprego do Estado lá na penitenciária, que eu tinha. Eu esqueci de um episódio aí, mas é irrelevante. Então eu fui pra lá e ele me convidou, disse: “Você podia entrar pra Unimed”, eu entrei pra Unimed. Não sei por causa de que, no meu hospital, durante os 25 anos em que ele existiu, você vê que foi duro a queda, né, 25 anos que ele existiu, eu sempre fui o diretor. Por causa de que eu não sei não, mas era o diretor, né? Eu era o Diretor do Hospital São Tarcísio. Ele me chamou lá, me convidou pra entrar pra Unimed, e a Unimed era uma das contratantes do São Tarcísio, mas uma contratante com resultados financeiros muito menores, que é de um público já com um poder aquisitivo, tratar bem dos filhos, viver em bem melhores condições. Então, adoecia menos, naturalmente. Entrei então pra Unimed BH. Na Unimed BH eu trabalhei como médico 35 anos, não é isso? Aliás, estou trabalhando, devo me desligar agora nessa fase de fechar consultório. No consultório eu consegui, até hoje, ter quase 14 mil fichas de clientes particulares. Então o que me mantinha mesmo era a clínica particular. Mas a clínica particular, com o surgimento dos convênios, foi desaparecendo, porque um era da Unimed, outro era daquilo, outro era daquele. O Hospital São Tarcísio tinha convênio com essas entidades todas e atendia a todos, e foi mantendo até um certo ponto, como eu já expliquei. Depois teve que fechar, porque manter um hospital aberto é muito caro. Ele funciona 24 horas por dia, 365 dias por ano, não fecha. É muito caro. Bem, então ele me convidou pra entrar pra Unimed, eu entrei e aí começaram a surgir clientes da Unimed e essa clientela foi aumentando. Eu cheguei a ter uma boa clientela, me dava uma renda boa. Coincidiu o fechamento do hospital infantil com a minha entrada para Unimed. Eu deixei de ganhar aqui, eu não estava ganhando quase nada, que estava crescendo cada vez mais a minha clínica. Então, agora que eu estou pedindo demissão da Unimed, porque chega numa idade que você não consegue acompanhar, isso eu vou falar com muita tristeza, você não consegue acompanhar o desenvolvimento tecnológico da medicina com o porte que ela tem tomado, não consegue. Como pediatra clínico fica difícil. Então eu mandava pro otorrino, mandava pra esse, mandava praquele, eu virei triagista, aquela função que eu exercia antes como triagista do Sesi [Serviço Social da Indústria], quando eu trabalhei até aposentar. Isso é que eu tinha esquecido. Entrei como Auxiliar Acadêmico no fim do quarto ano. Era triagista, ouvia a história e encaminhava pras clínicas que existiam. Trabalhei ______ no Sesi até formar. Quando eu formei eu fui pra Lafaiete, minha terra, fiquei lá seis meses, voltei. Não tinha lugar nenhum pra trabalhar. Aí a Unimed é que me manteve. Mesmo com poucos clientes, é que me manteve. Eu já estava casado, com filho. É um troço meio complicado. “Você é casado?” “É”. Mas hoje você não ousa ter filho, você tem um, dois. Eu tive cinco. P/2 – Quais as posições que o senhor ocupou? R – Os cargos? Bem, eu fui pra Unimed como médico. Depois lá foi uma eleição, me elegeram Presidente da Federação das Unimeds. Eu não trabalhei na Unimed BH como executivo, não. Eu já fui pra Federação. A Federação, sabe como é que era? Um barracão, porque esse meu amigo é que me levou pra lá. Meu amigo, ______, só dava bomba pra mim. “Você vai ser Presidente da Federação”. Eu achei, falei: “Ta bom, vamos ser presidente”. Era um barracão no fundo do lote de uma casa onde funcionava a Unimed, depois passou pra frente, pra um prédio que ela comprou, e eu passei desse barracão para uma sala num prédio que é o da Federação das Unimeds, de modo que eu não fui executivo da Unimed não, eu já fui direto pra Federação. E nessa época eu já tinha umas 30, umas 20 talvez, não sei exatamente, umas 20 Unimeds no estado. Então a Federação tinha função, tinha trabalho, tinha orientação, tinha curso. Aí eu comecei a fazer a Unimed nessa sala do prédio que está lá até hoje. Nesse prédio eu comprei uma sala, depois comprei, dentro da Federação, comprei mais uma, mais uma, mais uma, mais uma, hoje o prédio todo é da Federação. Quando eu saí, o prédio já era da Federação, com exceção de uma loja embaixo e de duas salas de profissionais liberais, uma dentista e um médico, que tinham a clínica deles ali já há muito tempo e não queriam mudar, e eu também não prensei pra sair nem nada, estão lá até hoje. Eu fui Presidente da Federação por 17 anos. P/1 – E como é que foi esse período de crescimento da Unimed no estado? Quais as dificuldades de implantação de cooperativas? R – Essa é uma boa pergunta, vai me dar mais meia hora de conversa. Eu fui pra Federação e tinha, somente naquela época, a Unimed BH, a Unimed Conselheiro Lafaiete, que se destaca de todas porque é da minha terra, a Unimed Uberaba, Uberlândia e Araguari, cinco, Lafaiete e Juiz de Fora, seis Unimeds. Mas eu me apaixonei pelo Sistema Unimed, me apaixonei porque eu achei que era uma solução, porque só existia a clínica de Instituto, por exemplo, do Estado, que eu já tinha saído porque já tinha aposentado no estado, lá na penitenciária. Eu aposentei um pouco antes ou um pouco depois, não importa. E tinha só o consultório e o emprego no Sesi, que eu mantive durante um certo tempo, mas era só isso, e a clínica e um consultório particular. Ah, e do Estado, porque no Estado eu não pedi demissão das creches, eu fui aposentado. Então eu já tinha duas aposentadorias, do INSS [Instituto Nacional do Seguro Social] e do Estado. Trabalhei esse tempo todo nessas duas organizações. Aí você me perguntou como é que foi... P/1 – Como é que foi o crescimento da Unimed em Minas? R – Só tinha essas cinco ou seis Unimeds. E eu achei que era um sistema ideal para atender pessoas de categoria de baixo rendimento, de baixa estrutura econômica e financeira, porque muitos dos contratos das Unimeds eram pagos pelas empresas. Então, indiretamente o beneficiado... E através disso eu fundei, trabalhei na Unimed BH, na Unimed Minas Gerais, depois tive que mudar as salas, depois fui comprando as salas. Até hoje o prédio é todo da Federação das Unimeds. Quando eu saí da Federação já tinha comprado o prédio todo. Mas eu me entusiasmei com o sistema, estudei, me dediquei e comecei a fazer palestras no interior para fundar Unimeds no interior. Quer dizer, as Unimeds eram no mesmo sistema, a mesma qualificação, a mesma filosofia, através de palestras que eu fazia para os médicos de cada cidade. P/1 – E os médicos tinham uma boa recepção à causa? R – Eu chego lá. Aí, mas como eu vi que era necessário uma cultura para preparar esses médicos para fundar a Unimed, uma cultura e um ensinamento, uma técnica que já era sedimentada nas Unimeds primeiras, eu fiz esses cursos no porão desse prédio. E esse porão, se vocês quiserem eu vou te contar uma história. Eu comprei esse prédio, inclusive o porão. Mas o porão mal dava pra eu ficar em pé no coisa. E eu sou alto, Graças a Deus, eu cresci. Aí, mas Nossa Senhora. Mas surgiu um problema na caixa d’água, infiltração e tal. Eu tive que tirar, fazer outra caixa d’água do lado, não debaixo do prédio como era essa. Do lado, num “terrenozinho” que tem, fizeram outra caixa d’água, mudei toda a estrutura pra lá e fui destruir a caixa d’água. Quando eu fui destruir a antiga caixa d’água eu vi que de entulho no piso do porão tinha mais de 90 centímetros. Não sei quantos caminhões eu tirei daquele piso lá. Eu tenho os retratos todos disso, eu tirei os retratos todos, tenho uma pasta só disso, daquele jeito que você viu como eu faço. Eu tenho 48 álbuns de retrato, todos cheios. Bem, aí eu falei: “Mas o quê que é isso?” Mandei tirar aquele entulho todo, caminhões e caminhões. Tinha uma entrada para garagem, mas com esse entulho todo os carros não podiam entrar porque não dava, e eles começaram até a cortar uma pilastra do prédio, os inquilinos anteriores. Eu tive que mandar refazer essa pilastra toda, já como Presidente da Federação, para poder ter tranquilidade, sob orientação adequada. Tirei, com 90 centímetros, um metro e 60, um metro, vamos botar. Era um pouquinho acima, né, um metro e 80, um metro e 75. Como era 90, então dois metros e 40, dois metros e 50, não é isso? Hoje é o salão de conferências da Federação das Unimeds de Minas Gerais. E na entrada assim, num hall de entrada pra esse salão de cursos da Fundação Unimed, no princípio, mas hoje é só a Federação que usa, porque a Fundação cresceu de um jeito que ela já tem uma sede própria, com três andares acima, que foi fundada por mim também, o Centro de Estudos Unimed, que começou nesse porão, numa máquina ofsete emprestada pela Federação das Cooperativas Mineiras. Não era dos médicos, era a Ocemg, Organização Cooperativa do Estado de Minas Gerais. P/1 – Como é que foi... R – Heim? P/1 – Conta um pouco da criação da Fundação CEU? R – Eu chego lá. Então comecei a dar cursos. Eu mesmo dava, ou com um professor que eu fiquei conhecendo, uma pessoa muito bem qualificada, o outro dava. Mas os cursos foram pegando, pegando, pegando, e as Unimeds foram aumentando. P/2 – Esses cursos eram sobre a cooperativa? R – Sobre o cooperativismo médico, especificamente. Depois, hoje tem outros, tem até na Internet. Essa Fundação CEU eu vou chegar lá, mas você me lembra de novo. Então esse ficou, hoje é um salão de conferências, de cursos, de estudos especializados. Mas hoje a Fundação CEU já tem, e dá mais cursos a nível de Internet. Tem alguns cursos lá em Belo Horizonte, ainda tem, assim presenciais, mas a maioria são cursos dados através da Internet. A Fundação CEU eu fundei, que era o Centro de Estudos Unimed, que era nesse porão que eu te contei, e que eu arranjei uma máquina emprestada da Ocemg pra imprimir os cursos, pra imprimir as coisas, pra imprimir as cartas. P/1 – O material, né? R – O material. E ajudou demais essa maquininha. Pequenininha, mas ela funcionava bem. Aí eu saí para... Antes de chegar na Fundação CEU, eu chego lá, mas só pra intensificar a conversa, pra mim, na minha opinião, é a melhor coisa que eu consegui fazer no sistema. P/1 – Foi a sua principal realização, que o senhor conseguiu? R – A minha, que eu acho, a principal realização. E olha que quando eu peguei a Unimed tinha seis ou sete Unimeds. Nos 12 anos que eu fiquei lá como Presidente da Federação eu levei esse número pra 64. Eu fundei 57 Unimeds no Estado de Minas Gerais. Para fundar essas Unimeds eu tive que fazer curso, eu tive que preparar o pessoal, eu tive que preparar os médicos, eu tive que mostrar o que era o sistema e o que é o sistema. Então isso foi a maior realização da minha vida, porque duas semanas atrás eu estive lá, de vez em quando eu vou lá pra ver se eles estão trabalhando direito. Não está muito não, mas está certo. Tem que botar defeito. Se você não bota defeito eles não melhoram, ______. Então estão indo bem. A Federação, a Fundação, era o Centro de Estudos Unimed com cursos presenciais só pra Unimeds do interior. Eu tenho retrato disso tudo no álbum. E surgiu... Depois o Castilho exigiu que a, como é que chama, a sede, a presidência, não era a Fundação, do Centro de Estudos Unimed, fosse aqui em São Paulo. Eu falei: “Perfeitamente. Se for pra me ajudar a prosseguir, perfeitamente. O presidente pode ser daqui, o tesoureiro pode ser daqui, o controle econômico pode ser”, e é até hoje. P/2 – A Fundação hoje é em Minas Gerais? R – É em Minas Gerais a Fundação, o funcionamento dela. Agora, a presidência é aqui. O Presidente é, não sei o nome dele. P/2 – Dr. Almir. R – Dr. Almir, não é isso? É presidente, porque ______. É lógico que eles nos ajudam, e nós vice-versa, ao contrário, ao mesmo tempo, não é isso? Então essa fundação hoje, pra mim, é a melhor realização da minha vida. Porque há pouco tempo, a (Lia ?) estava contando, que eu fui lá e perguntei como é que estava indo a Unimed, os cursos presenciais. Ainda existem cursos presenciais em Belo Horizonte, porque o Estado de Minas é muito grande. Tem em Uberaba e Uberlândia lá no Triângulo, Juiz de Fora lá no coisa, ou em Montes Claros lá no Norte, ou Caxambu entre Poços de Caldas e Três Corações lá no Sul. Existem cursos presenciais ainda, dados pela Fundação, com instrutores da Fundação, para cada categoria de funcionário das Unimeds em geral. E existe isso que eu vou contar agora, foi... Uma vez eu cheguei lá, vi que não estava dando conta, eu não estava dando conta. Com os cursos presenciais e com os cursos ali, feitos mesmo no interior, eu não estava dando conta. Então surgiu a Internet. Então os cursos da Unimed hoje são dados, a maioria deles, pela Internet. P/1 – E, Doutor, os médicos tinham alguma base de conceito cooperativista ou não tinham nada? R – Se você educa um cara e compra, consegue vencer, ele solta, ele fala, ele ri. Então hoje em Minas Gerais é raro um médico que não é da Unimed. P/1 – E nesse caso a Ocemg ajudou muito a Unimed? R – A Ocemg nos ajudou nesse episódio. Eu acho que ele foi uma semente, né, foi uma semente de muito valor. Mas depois aquela maquininha não deu mais. Aí eu tive que fazer cursos, muitos cursos, no Brasil inteiro. Eu viajei pelo Brasil inteiro, e instrutores contratados também, para dar cursos, como é que chama, videoconferência, com utilização de métodos de transmissão de imagens. Tem vários tipos de métodos de transmissão de imagens. Então esses cursos foram dados por vários professores, mas hoje a Internet tomou conta. Hoje marca o curso na Internet pro dia tal a tantas horas, tal. P/2 – Esses médicos que participavam desses cursos eram convidados? R – Convidados, não era obrigatório, porque era através das Unimeds, à medida que elas foram aumentando de tamanho e de importância, porque hoje são 42 Unimeds no estado, ou mais, sei lá, eu acho que é mais, mas fica por isso mesmo, vendo por esse preço. É por aí. E os médicos das próprias Unimeds que faziam os cursos em Belo Horizonte, conosco lá, com a gente, dando palestras e tudo, eu tenho muito colega no interior também. Eu não falo quase nada, não sei se vocês notaram. Então eu me comunicava bem e dava cursos no interior. Viajava, ia e voltava. Hoje já não tem muito curso mais dado presencial. Existem ainda, não foram abolidos, principalmente para funcionários, que lá na Fundação treina todo mundo, do funcionário que entra hoje, do empregado, treina todo mundo, pra entender o que é cooperativa. O essencial da Fundação Unimed, hoje como sempre, foi a transmissão da filosofia cooperativista na área médica. Ao contrário , com os donos da Unimed, que são os médicos cooperados, e os elementos que são contratados pelas Unimeds, os hospitais, clínicas, aparelhos, que vão também aprender, pra saber pra quem que está falando, pra quem que está trabalhando, e isso tem dado bom resultado. P/1 – Doutor, voltando um pouco ao seu período na Unimed, nesse caso de Minas, como que era a relação com a Unimed Brasil? R – Ah, muito boa. P/1 – Como que o Estado participava nas convenções? R – Fora esse episodiozinho, o Castilho ficava achando que eu ia ficar sensibilizado por causa da sede ser aqui, a presidência. “Não, desde que vocês me ajudem. Eu quero é ajuda, eu quero é prestígio da Unimed do Brasil”, porque a Unimed já era do Brasil. Então era um prestígio, e a entidade Fundação, Centro de Estudos Unimed, é uma fundação da Unimed Brasil. Então ela serve o Brasil todo, hoje através de cursos pela Internet, mas tem muitos cursos presenciais ainda, para funcionários de categoria menor. Médico em geral prefere a Internet, a maioria. Algum ou outro não. Então ela conseguiu prosseguir porque os médicos hoje, do sistema de saúde brasileiro, o que vem funcionando, a meu ver, com boa aceitação, é a Unimed. A Unimed hoje, só pra vocês verem, a Unimed BH foi uma das primeiras. Hoje ela tem 670 mil usuários. P/1 – A singular, né? R – Quanto que tem a Unimed São Paulo? Eu não sei. 670 mil usuários. E em Uberaba, Uberlândia, Juiz de Fora, Três Corações, Poços de Caldas, as melhores cidades de Minas, tem as Unimeds. Olha, eu fui, a pouco tempo foi mostrado pra mim a sede da Unimed de Poços de Caldas. Não dá pra acreditar. P/1 – É grande lá. R – É grande, um hospital maravilhoso, com os últimos recursos da tecnologia, as aparelhagens, tudo. É a Unimed Poços de Caldas. Tem outra igualzinha, no mesmo estilo assim, lá por perto lá, minha sobrinha é até medica otorrino lá nessa cidade. A cabeça é boa, o pensamento atrapalha, fica pensando em bobagem. P/1 – Doutor, me fala um pouco sobre os seus colegas de trabalho na Unimed. O senhor citaria alguém em especial lá em Minas? R – Eu cito alguém especial, muito especial, o Edmundo Castilho, visionário igual a mim. Ele conseguiu levar a Unimed por todo o Brasil. Eu acredito que, de uma certa parte, num certo tempo, a Fundação Unimed ajudou muito essa extensão pelo Brasil. Mas a iniciativa foi dele. Ele sempre criou a Unimed BH, a Unimed Belém do Pará, a Unimed lá do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Ele fez, em escala maior, aquilo que eu fiz pelo Estado de Minas Gerais, porque eu fui superintendente aqui da Unimed Brasil, depois eu conto. Mas o meu trabalho foi todo na Unimed Minas Gerais, na Fundação, e inclusive Federação. Olha o que eu fundei na Unimed. Eu sou modesto. A primeira, Fundação CEU, Centro de Estudo não sei o que. A Uniminas fui eu que fundei. Eu que fui buscar avião lá nos Estados Unidos e botei lá, e está funcionando até hoje, e muito bem, dando resultado financeiro e no atendimento a doentes da maior gravidade com bom resultado. Bem, deixa eu ver o que mais. A Fundação CEU... As 62... Não, era 64, 57, né? P/2 – Cinquenta e cinco. R – Foram 55, acho que duas não foram adiante. Cinquenta e cinco Unimeds que eu fundei no estado, e que _____ todo o sistema, na minha gestão, né? Eu tive alguma ajuda sim. Não pensa que eu sou o dono da goiabada preta não. Eu tive muita ajuda de muitos instrutores de várias áreas que fizeram o nome da Fundação CEU. Porque uma fundação, uma instituição é feita por aqueles que trabalham nela. A Unimed foi feita pela qualidade dos médicos que ela conseguiu agregar, não é isso? E hoje, pra entrar na Unimed já não é fácil. Hoje, pra entrar na Unimed tem que ter currículo, tem que ter prova, pelo menos em BH. Nas outras de Minas Gerais, algumas também. Já não é aquilo de porteira aberta não. Já não é porteira aberta, já tem que ter algum preparo, e mesmo no preparo tem aquela seleção natural, não é isso, pra ser da Unimed, porque tem que ser cooperativista. E ser cooperativista não é difícil não, é fácil demais. Cooperar é melhor do que brigar, do que discutir, é muito melhor cooperar. Tem até um quadrinho dos burrinhos, vocês conhecem ele? Os burrinhos com dois montes de feno, todo amarrado. Um puxando pra cá, um puxando pra lá, outro dá um coice pra cá, outro dá um coice pra lá. Pararam, foram comer um feixe daquele de comida, de capim. Acabaram de comer, foram comer o outro. Quer dizer, cooperar é muito melhor do que brigar. Esse é um quadro muito típico do cooperativismo, muito simples, da filosofia básica do cooperativismo, é cooperar. Você trabalha pro cliente sim, mas trabalha pra Unimed. Quanto mais você trabalhar, melhor pro cliente e mais você faz crescer a Unimed. Nem todos têm essa visão, mas vai pegando. P/1 – Doutor, o senhor falou que foi superintendente da Unimed do Brasil. Como é que foi esse tempo? R – Foi um período... O superintendente da Unimed do Brasil era um ex-presidente da Federação, ao qual eu sucedi, (Miro Marciliando ?) de Oliveira, que faleceu na mesa de trabalho. Quando ele faleceu o Castilho falou: “Oh, o cargo é de Minas Gerais, é seu”. Aí eu submeti lá aos meus próximos, aos diretores. Lá tinha todos os diretores, o diretor financeiro, diretor comercial, diretor de propaganda, uns cinco diretores, de informática, né? Eu fundei a Fundação. Fundei não. Eu fui escolhido pelo (Miro ?) pra ser. Fundei a Fundação, mas a Federação eu não fundei, eu fui escolhido pelo (Miro ?). O (Miro ?) então me indicou pra eu ser presidente da Federação quando ele veio ser superintendente aqui. Então eu fundei, toquei o barco e continuei fundando Unimed, esse serviço todo, continuei fazendo o meu trabalho, e muito bem relacionado com ele, quando ele faz a estupidez de morrer. Morreu na mesa do trabalho. Um cara fabuloso. Muitas das divergências do Sistema Unimed estão desaparecendo agora porque não tinha razão de ter existido. Porque o sujeito dá murro em faca de ponta até um limite, né, depois: “Mas isso está doendo muito, eu vou voltar pra lá”. É o que está acontecendo, já voltaram todos, porque o sistema hoje adquiriu uma força. Por isso que eu acho que o melhor serviço que eu fiz foi Fundação Centro de Estudos Unimed, porque os cursos são permanentes. Eu já te contei que eu fui lá, eles falaram que tinha 50 cursos? Eu fui lá uns dias atrás e fui saber, pergunta: “No momento nós estamos com 50 cursos no Brasil inteiro”. Eu falei: “Vai pregar mentira lá longe, sô”. Todos através da Internet. Cada um, em média, é 40 alunos. Dois mil alunos permanentemente aprendendo cooperativismo e Sistema Unimed. Tem coisa melhor do que isso, ou coisa mais importante do que isso? E olha que eu estou me gabando, mas estou me gabando na minha presença, pra não ter fofoca, viu? Estou me gabando, porque é um orgulho que eu tenho. Fundar as 47 ou 40 e tantas Unimeds em Minas foi muito importante, mas poder levar a filosofia do sistema cooperativista unimediano pro Brasil inteiro através da Fundação CEU, isso é impagável. P/1 – E como que era lá no Norte, Amazonas? Como é que foi? R – Era tudo da Unimed São Paulo. A Unimed _________. Não era da federação não. Fala aí pra mim. P/2 – Confederação. R – Confederação. Era o Castilho. Mas ficou grande demais. Então, (em situações ?) limite surgem novos líderes, no bom sentido e no mau sentido. O sentido de unir é sempre bom, o sentido de separar é sempre ruim, e eles separaram. P/1 – E, Doutor, como é que a Fundação CEU realizou cursos no Norte, no Amazonas? Como é que foi? R – São solicitados, vai pela Internet o curso. P/1 – Tem cursos presenciais que a Unimed _______? R – Tem presenciais também, tem cursos presenciais até hoje. Tem instrutores, vários de São Paulo. Eu não lembro dos nomes deles todos, que vão. Um é o (Geanete? ). (Geanete ?) eu lembro que é conterrâneo, é mineiro, é um dos instrutores do sistema Unimed em cursos presenciais dados em todo o Brasil. P/1 – Do (Ibemec ?), né? R – Do (Ibemec ?), é. Tem outras empresas, como essa (Ibemec ?). Não sei se é cooperativista, mas é de instrução, né? P/1 – Doutor, o que o senhor considera... O senhor falou do fato da sua principal realização na Unimed, mas em relação à sua carreira na medicina, o que o senhor considera como o fato mais marcante na sua carreira de médico? R – Bem, na carreira de médico eu fui, depois que formei, que antes eu fui enfermeiro de primeira, 15 anos. Bem, mas eu formei, e já tinha sido acadêmico do Sesi, passei a médico do Sesi, que é uma entidade social, Serviço Social da Indústria, que depois que foi incorporado pela (Fimene ?), o serviço médico do Sesi desapareceu. Fui médico do Sesi, pediatra. Fui auxiliar acadêmico, triagista do Sesi no quinto e sexto ano de medicina. Depois fui escolhido para permanecer médico do corpo clínico do Sesi pela diretoria da época, Doutor... Como é que ele chama mesmo? Meu amigo, depois eu lembro. Fui médico dos filhos, dos netos e estou sendo dos bisnetos, mas esse eu estou abandonando. Então, a sua pergunta qual é que é mesmo? P/1 – Um fato mais marcante na sua carreira de médico. R – Bem, como pediatra eu fui Presidente da Sociedade Mineira de Pediatria. Como Presidente eu tive duas tarefas. Uma, primeiro, não mexer na Sociedade de Pediatria como dirigente Unimed, que é a melhor maneira de você conquistar os outros, porque a Unimed já estava na praça, todo mundo queria saber. Então eles me perguntavam. Ah, me perguntando eu respondo, mas eu não fazia proselitismo de Unimed na minha função como Presidente da Sociedade Mineira de Pediatria, que é hoje uma sociedade de muita repercussão no Estado de Minas Gerais. Em cursos também, cursos médicos especializados e tudo. Essa acho que foi uma realização boa e que eu pude influir por causa da vivência que eu tinha dentro do Sistema Unimed. Ela influiu na organização de cursos para os pediatras quando eu estava na presidência, não é isso? Depois, fora da Unimed, eu sou membro da Associação Médica de Minas Gerais. Acho que não tem coisa muito importante não, o mais importante está aí nisso que eu falei. P/1 – E, Doutor, como é que o senhor compatibilizava a medicina com a gerência na Unimed? R – Ah, milagre, é milagre porque era uma tarefa. Eu estou mantendo o meu consultório até agora, estou largando agora. O meu consultório, eu já te disse que ele tem 14 mil fichas de clientes meus. Não é cliente do hospital não, nem de outros empregos, não é nada disso, meus, clientes particulares meus. Eu estou mandando eles embora agora. Fico contrariado, mas não tem saída. Hoje a medicina atingiu uma tal complexidade de conhecimento que você tem que saber de tudo, na pediatria, lógico, mas tem que saber, e eu não estou dando conta de acompanhar essa transformação soberba da pediatria com a área da tecnologia. Então fala de novo a pergunta porque eu vôo, mas vôo baixo. É só você chamar que eu desço. P/1 – Então, eu estava perguntando como é que o senhor compatibilizava a carreira de... R – É milagre. Eu trabalhei, procurei sempre trabalhar da melhor maneira possível. Mas no fim, agora, de uns anos pra cá, eu fui aposentando, porque eu estou com 54 anos de formado. Então com 30 anos eu me formei, me aposentei num, com 35 eu aposentei noutro. Os empregos que eu tinha eram do Sesi, que acabou, depois era do Estado, que eu aposentei também, aquela coisa da Escola João Pinheiro, dos 500 caxumbentos, também aposentei. E de uns 20 anos pra cá eu tenho me dedicado só ao Sistema Unimed e ao consultório, no consultório cada vez menos, naturalmente. P/1 – E, Doutor, fala um pouco, na sua opinião, o diferencial da Unimed em relação aos outros planos de saúde de uma forma geral. R – Bom, uma coisa que nem todo médico sabe, unimediano, mesmo depois que ele entra na Unimed, é que ele pertence a um sistema cooperativista. Esse sistema não dá lucro porque é dividido tudo pelos cooperados, na proporção do trabalho que eles fazem. Quando algum tem alguma dúvida, ou tinha quando eu estava na executiva, eu chamava ele e mostrava como é que funcionava, com os números da Federação. E da Unimed BH o Chico Neves, que foi o presidente lá 20 anos, que é meu amigo pessoal até hoje, um dos culpados por eu ter entrado pro sistema. Ele é muito meu amigo, me chamava, falava: “Eu estou com um problema aí, uns médicos estão assim criando caso, aporrinhando”. Eu ia lá e fazia uma palestra sobre o que é cooperativismo, o que é Sistema Unimed e como cada um tem que funcionar, e que tem dois motivos de permanecer na Unimed. Um é a vontade de permanecer, o outro é a facilidade de sair, porque só é unimediano quem quer, enquanto quer, quando quer. Não quer, até logo e bênção. Vai para o mundo ainda, vai ver o que é lá fora. E o Sistema Unimed é um sistema honesto, íntegro. Todo o seu haver é distribuído nas despesas próprias da entidade, que existem. Uma fundação, a Unimed simples tem custos administrativos, operacionais, tem vários custos, mas todos explicados religiosamente no balanço final de cada ano.Tudo é aberto, pleno. Sabe quantas Unimeds, eu fiquei até impressionado, na última reunião da Unimed BH? 1500 e tantos presentes em uma assembleia geral. 1000 e tantos presentes, viu? E ele no alto-falante e tela, mostrando tudo pra todos que estavam ali, e havia algumas manifestações de explicação: “Mas porque que é isso, porque que é aquilo?”. Tudo explicado direitinho. E o sujeito tem que sair de lá, se alguém pergunta a ele, ele vai contar, não é isso? Quem faz a maior propaganda do Sistema Unimed são os usuários porque tem uma lista. Os usuários, os médicos todos numa cidade, por exemplo, na melhor cidade do mundo, Conselheiro Lafaiete, todos os médicos de Lafaiete são da Unimed. Eles contam: “É assim, assim, assim, assim”, vai só chamando. É lógico que te alguns que são renitentes, ____ e que não entram. Problema deles, vão trabalhar pra Golden Cross. Vão trabalhar em condições muito piores, para instituições que eu falo que não se comparam à Instituição Unimed, que não tem dono, porque lá tem dono, tem que ter lucro. A Unimed tem lucro, dividido na proporção do trabalho executado por cada médico. Isso é uma coisa que não tem jeito de ganhar, não é isso? E os médicos que quiserem cargos de direção são escolhidos pelos médicos cooperados. P/1 – Doutor, o senhor poderia contar algum fato pitoresco que aconteceu? R – Tinha, mas essa eu não lembro. Fato pitoresco? Dentro dessa maneira como eu olho a Unimed... P/1 – Pelo menos um assim. R – Tem um caso, mas não é pitoresco. É um colega, um conterrâneo meu de Belo Horizonte: “Eu não vou trabalhar pra Unimed, que isso é uma porcaria e pepepê”, e falou. E eu calado. Isso numa reunião da Associação Médica de Pediatria. Aí o presidente da época, não era eu o presidente da época, falou: “Meu amigo, você é coordenador lá, sub-dono do sub-treco lá na Unimed, o quê que você fala disso aí?” Ele falou: “Isso é um direito que ele tem”. Dois direitos: Um de censurar, porque falar que é perfeito o sistema... Não, tem alguma falha. As falhas podem ser do sistema, pode ser das pessoas que administram o sistema. Então eu não vou falar que não tem falha, pode ter falha, não é isso? E pode continuar trabalhando fora da Unimed. É totalmente livre a entrada e saída. Entra quando quer e sai quando quer, não tem nenhuma condição que obriga o sujeito a se manter na Unimed, que eu saiba, até hoje. Ele trabalha na Unimed enquanto ele quer. Eu estou saindo agora. “Mas não sai não porque não sei o que, por causa disso, nhenhenhem”. Eu falo: “Eu preciso sair. Eu estou com 79 anos, eu não estou com a mesma condição que eu tinha quando tinha menor idade e trabalhava com convicção, com certeza de que estava trabalhando bem. Hoje eu estou duvidando de mim. Quando eu duvido de mim eu tenho que cair fora”. Foi assim que eu falei. E não me deu ainda a demissão não, ainda não me deu não. P/1 – Doutor, um pouco da sua experiência nas convenções realizadas pela Unimed. O senhor poderia citar algumas mais importantes? R – As convenções, a meu ver. Como os encontros lá em Minas Gerais, em que vai o presidente e palestrantes para dar cursos pela Unimed dentro da Fundação, dentro do sistema de educação do sistema, que é a Fundação, não é isso? São dados. Tem um curso do (Geanete ?). Ele dava em Pouso Alegre, é a outra cidade que eu não lembro. Tem uma sede fabulosa, luxuosa, coisa de gente branca, viu? Eu sou meio preto. Mas esse... Bem, então eles, como é que é? P/1 – As convenções. R – Ah, as convenções. As convenções é um congraçamento, uma reunião de amigos com amigos, que às vezes nunca se viram, mas que são amigos. É uma amizade natural, assim sem imposição. Vocês chegam numa convenção, conversa com um gaúcho. O gaúcho... Não vou falar não porque senão eles me xingam. Gaúcho é uma pessoa fabulosa. O gaúcho é de uma autenticidade difícil de encontrar. O mineiro também, muito autêntico. Não vou falar que os outros não são, mas o gaúcho é autêntico nas coisas dele. Ele é firme, ele é duro, ele... Mas tudo no bom sentido. Mineiro também é assim, fala pouco, menos eu, mas também é certo nas coisas dele. Por exemplo, eu saio da Unimed, estou aí abandonado, jogado fora, ninguém liga pra mim. Estou mais triste do que ____. Não ligam. Por que? Porque é natural. Eu dei o que eu tinha pra dar, no tempo próprio, e agora eu estou pedindo demissão e não estão querendo me dar. Mas eu preciso sair porque eu não estou sendo útil ao sistema. Útil pra mim é, porque me dá uma renda mensal, não é isso? Mas eu não estou sendo útil pro sistema, então está na hora de eu sair. P/1 – Doutor, como o senhor vê a atuação da Unimed hoje no Brasil? R – Ah, eu acho que as perspectivas no Brasil hoje, eu acho que a gente falar assim de uma maneira genérica, tudo, é uma saída para uma medicina de boa qualidade. Pode botar isso, Unimed é uma saída para uma medicina de boa qualidade em todo o Brasil. Não é perfeito. Perfeito nem eu sou, e olha que eu pelejo. Não é perfeito, tem falhas. Tem falhas individuais, falhas organizacionais. Falhas nacionais eu não sei se tem não, sabe? Eu acho que não. P/1 – E na sua opinião, Doutor, como a sociedade vê a Unimed, o sistema Unimed? R – Olha, no princípio era resistente. A pouco a pouco a Unimed foi construído, foi conquistando o mercado. Eu acho que ela é uma entidade respeitada pela coletividade. Se tem falha? Tem. O Sistema Unimed hoje está ficando caro para os médicos, olha bem o quê que eu estou falando, porque eles gastam muito. Então fica caro porque eles ganham menos, porque não tem milagre. Tudo que os médicos ganham na Unimed é resultado daquilo que os usuários pagam. Se os usuários pagam mais, muitos não podem participar, não conseguem, muitos são obrigados a sair, e isso é uma dificuldade do sistema, mas que, não vou dizer na maioria dos casos, numa boa percentagem dos casos são por excesso de uso, por excesso de pedidos de exames. Hoje exames muito bons, muito corretos, muito úteis mas muito caros. Então médicos da Unimed, no seu próprio benefício, têm que analisar se vai pedir esse exame. Nem sei, tem um termo aí, a (tripa forra ?), não é isso? Não. Vão ter que pedir conscienciosamente, profissionalmente e sem prejuízo do usuário, o usuário não pode. Porque o unimediano, o médico está sendo prejudicado. Os que são mais parcimoniosos no pedido de exames e procedimentos, não é só exame, procedimentos. A Unimed dá tudo. O cooperado pede, ela dá. Mas isso aumenta muito a despesa dela e diminui o rendimento dele. Este é o sistema mais justo que existe. Se você... Não, isso eu não vou falar não porque vocês vão publicar isso aí. Se ele é bobo, pede a Deus que o mate e o Diabo que o carregue. Se o médico está gastando mais do que precisa, ele está se penitenciando porque ele vai ganhar menos, não tem milagre. O que entra é gasto, e deve ser gasto judiciosamente para sobrar mais pros médicos. Então a coisa é muito simples. Só que tem muito médico que entra pra Unimed sem ter noção dessas coisas. Não fazem por mal não. P/1 – Na sua opinião, Doutor, qual é a diferença... R – Eles não fazem por mal. Eu quero que vocês dão aí uma ênfase especial, que a maioria não faz por mal não, faz para beneficiar o cliente e se auto beneficiar. Mas precisa? P/1 – Doutor, qual a principal diferença... R – É duro, é difícil você falar se precisa ou se não precisa. Ele é médico, ele é que sabe. É um (trem ?) que não tem jeito da Unimed consertar porque é uma coisa que depende dos próprios médicos. A não ser quando há má intenção visível, de ligação médico e laboratório, médico e raio-x, aí a Unimed age. P/1 – Doutor, na sua opinião qual a diferença principal entre o atendimento médico na Unimed, a relação entre médico e paciente, em relação a uma medicina de grupo? R – Ah, sem dúvida. Primeiro o tamanho da Unimed, a condição de muitos médicos, quase todos. São exceção os que não são médicos da Unimed. Não digo numa cidade como São Paulo, que é muito grande e tem muitas medicinas. Mas lá em Belo Horizonte, que não é uma cidade tão pequena, quatro milhões de habitantes, tem umas três medicinas de grupo, ou quatro. Eu sei bem de três, talvez tenha quatro ou cinco. Mas é com uma condição de usuários restrita, restrita e não pode dar tudo. Não faz isso, não faz aquilo. A Unimed faz tudo. As Unimeds dão tudo que é pedido por um dos seus donos, e o dono tem que zelar pela sua obra, não é isso? Se não zelar acaba dando prejuízo. P/1 – Doutor, qual o maior aprendizado de vida que o senhor teve trabalhando na Unimed? R – Não foi um aprendizado da Unimed, foi um aprendizado do cooperativismo, porque além de ser cooperado da Unimed eu já fui cooperado da, aliás, foi o que me fez entrar na Unimed, dos produtores rurais de Itaúna, Minas Gerais. Depois teve uma outra lá dos produtores rurais. Não é eletricidade, era uma cooperativa de usuários para botar eletricidade nas fazendas. (INE ?). Então não sei se tinha ou se tem ainda, lá em Itaúna. Eu tive uma fazenda a 20 quilômetros de Itaúna, em ___________, durante 35 anos. Eu ainda era fazendeiro. Não é porque estava na presidência não, mas fazendeiro. Agora, fazendeiro pra levar prejuízo. Levei prejuízo pra capeta porque você dirigir um negócio que é caro, longe, sem ver. Ah, meu filho, tem gente muito boa nesse mundo, mas o que tem de ruim, em pontos, dá pra quebrar qualquer um. Eu quebrei. P/1 – E, Doutor, na sua opinião qual a importância da Unimed para a história do cooperativismo brasileiro? R – Olha, ela foi muito. Eu fui conselheiro da Ocemg, Organização das Cooperativas do Estado de Minas Gerais. Há um ciúme natural, um ciúme delas quanto ao crescimento da Unimed, ou havia. Hoje não há mais. Pelo que eu sei hoje há muito menos. Havia um ciúme porque é uma organização de médicos. Nós somos uma organização de operários, de agricultores, não é isso? Então há uma diferença, há uma ciumeira. Mas hoje isso está muito diluído, se é que existe, está muito diluído, porque os agricultores, os produtores rurais estão adquirindo status. Eles têm status hoje, que não os coloca em situação de inferioridade com nenhuma profissão, de modo que existia. Mas eu acho que hoje, se existe, é muito pouco. P/1 – Doutor, na sua opinião, o que mais mudou na Unimed na sua trajetória? Durante todo esse tempo o que mais mudou na Unimed? R – Isso é brincadeira, desliga isso aí. Mas não vou falar não porque é uma brincadeira que pode dar mau resultado. Depois, ali fora, eu falo pra vocês. Eu não sei. A Unimed trilhou o seu próprio caminho. Ela começou pequena, com dificuldades, com resistências da população menos favorecida. Ela ficou um pouco elitizada não por culpa dela, mas por culpa da estrutura do Brasil em situação econômica, melhor pra um e pior para outros. Isso foi muito diluído quando as empresas começaram a fazer Unimed pros seus empregados. Hoje quantas empresas fazem Unimed pros seus empregados. Quer dizer, isso foi diluindo com o tempo. A animosidade inicial que eu presenciei, inclusive como um dirigente da Ocemg, durante dois mandatos, eu era conselheiro da Ocemg representando o sistema Unimed de Minas Gerais, essa resistência está se diluindo, a meu ver está se diluindo ao longo do tempo, mas no princípio era muito intensa, era muito notável. E até acho que existia, mas existia não por culpa dos médicos, por culpa da situação. O médico tem uma situação que sobrepuja a individualidade geral. Isso não há jeito da gente evitar. Quando eu falo com o meu cliente que o filho dele está com essa doença, essa, essa e essa, assim, assim, que as perspectivas são essas, essas e essas, não tem nada que me desminta, desde que eu esteja bem documentado dessa possibilidade, não é isso? Então é uma coisa do médico. E isso, quando eu era menino, na melhor cidade do mundo, os médicos eram semideuses, hoje eles não são. Male, male, deuses. Mas eram semideuses. As figuras exponenciais da minha infância eram o Dr. (Berner ?), Dr. Zezé, Dr. Narciso cirurgião, o Dr. Zezé fazia pediatria, e Dr, ginecologia e obstetrícia, Dr. (Berner ?). Eram os... Falou o Dr. (Berner ?), falou, não é isso? Isso é uma coisa natural que a profissão... Hoje isso até é muito diluído porque o médico hoje não tem aquela figura que tinha antigamente. P/1 – Doutor, o que é ser Unimed? R – Ter uma visão da vida mais justa, eu acho que é isso, a vida médica mais justa para com os usuários, para com os colegas, para com os dirigentes. Não em todos os níveis, que às vezes a gente tem umas brigas aí, atrapalha. Mas sempre, é uma condição de ver a vida com uma certa justiça num determinado segmento, não é? E dentro desse segmento, dentro daquilo que é feito pelos seus dirigentes. Os dirigentes são a máquina que puxa os carros. Se ela falhar, falha o trem. Eu nasci na beira da linha. Lafaiete é uma cidade ferroviária. P/1 – Doutor, o que o senhor acha da Unimed comemorar os seus 40 anos de vida por meio de um projeto de memória? R – Eu acho muito importante. Eu não sei se eu vou contribuir em alguma coisa pra isso, mas eu fiz força pra fazer bonito. Além da força que eu fiz aqui com as suas perguntas, com cinco quilos debaixo ____ que eu trouxe aí pra documentar. Que eu sou daqueles que mata a cobra e mostra o pau. P/1 – E o que achou de ter participado dessa entrevista? R – Achei muito importante, muito importante. Acho que isso devia ser feito em cada federação e em cada Unimed. E é feita na Federação Unimed, nas assembleias gerais. E trazem os mais interessados, ou aqueles que já: “Ah, a Unimed é boa mesmo. Eu estou lá, então não precisa de mim lá não”. Tem muita gente que faz isso. Tem outros que vão para fiscalizar mesmo, e fazem muito bem, não é isso, nas assembleias gerais, tanto da singular como da Federação, como da Confederação. P/1 – O senhor gostaria de dizer mais alguma coisa que não foi abordado aqui? R – Não. Eu acho que eu falei demais. Eu acho que vocês devem é cortar muita coisa aí. Você não quer cortar nada não? P/2 – Não, ficou ótimo. R – Viu? Eu acho que vocês devem é cortar. P/1 – Então, Doutor, em nome da Unimed e do Museu da Pessoa agradecemos a sua entrevista. R – Muito obrigado. FIM DA ENTREVISTA
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