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Medicina como vocação e aventura

História de: Gilson Dantas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/12/2006

Sinopse

Fala de sua infância estudiosa no subúrbio carioca de Bonsucesso, de sua carreira profissional e sobre como sua paixão pela medicina e por ajudar o próximo o levou a trabalhar em hospitais públicos e privados. Explica como sua experiência acaba indo de encontro com a trajetória de crescimento da Unimed no Rio de Janeiro.

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História completa

P1- Bom dia, doutor Gilson.

 

R- Bom dia.

 

P1- Em primeiro lugar, eu queria agradecer a sua presença, em nome do Museu da Pessoa e da Unimed-Rio, neste Projeto Memória e por nos conceder esse depoimento. E queria começar pedindo pro senhor falar o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R- Gilson Dantas. Eu nasci no Rio de Janeiro em 3 de junho de 1936.

 

P1- Queria que o senhor falasse agora o nome dos seus pais, dos seus avós, paternos e maternos, e a atividade deles, se o senhor lembrar.

 

R- Meu pai, Elpidio Dantas da Silva. Minha mãe, Ottilia Soares da Silva. Minha avó materna, Serafina Soares Lourenço. O meu avô, Candido Soares... Não me lembro.

 

P1- Não tem problema.

 

R- Dos meus avós paternos, eu sei que são Generosa Dantas da Silva e Constantino Dantas da Silva.

 

P1- E a atividade que eles exerceram, o senhor saberia dizer? Ou não?

 

R- Sei. A minha avó era comerciante e o meu avô era oficial da Marinha Mercante; e os meus outros avós eram do lar... Não, acho que um trabalhava. Não sei. Não sei se trabalhava na lavoura e ela era do lar.

 

P1- E os seus pais?

 

R- O meu pai era militar e a minha mãe era do lar.

 

P1- E o seu pai era militar de qual força armada?

 

R- Do Exército.

 

P1- Do Exército. Como é que foi essa coisa do seu pai entrar para as Forças Armadas?

 

R- Ah, eu acho que foi por opção, né? Porque ele entrou como soldado e daí seguiu. Então foi uma opção “forçada”, vamos dizer assim, e que ele gostou.

 

P1- Aí ele seguiu carreira dentro das Forças Armadas, dentro do Exército?

 

R- Seguiu carreira e se reformou dentro das Forças Armadas.

 

P1- E o nome da sua família, Doutor Gilson, o senhor tem alguma noção da origem dele?

 

R- Eu sei que a origem dele é mais da Família Dantas, que é muito conhecida no Nordeste. Tem na Paraíba, no Rio Grande do Norte... É isso o que eu sei. Aí depois foi se espalhando por esse mundo de Deus, quando houve um problema lá com o João Pessoa e eles foram perseguidos e saíram. Meu pai nasceu, conforme eu já tinha dito, numa cidade chamada Alhandra, uma cidade muito pequena que eu conheci há uns dez anos, dez a 15 anos, e eu fico imaginando como era aquilo no tempo em que meu pai saiu. Então, ele saiu pra tentar a vida fora daquele local e depois ele veio para o Rio, onde conheceu a minha mãe. Ele era viúvo, já tinha um casal de filhos do primeiro matrimônio que mora ainda em Recife –nós somos amigos. E do segundo matrimônio nasceu eu e o meu irmão. Esse meu irmão é militar, também seguiu igual meu pai, ele é oficial do Exército e hoje está reformado.

 

P1- E o senhor já nasceu aqui no Rio, então?

 

R- Eu já nasci no Rio, mas eu já optei por outra área.

 

P1- Doutor Gilson, o senhor falou que nasceu já no Rio de Janeiro. Eu queria que o senhor falasse um pouquinho das primeiras lembranças que o senhor tem da sua infância, onde que o senhor nasceu...

 

R- Eu nasci no Rio de Janeiro, no subúrbio de Bonsucesso, né? E eu tive infância: joguei bola, soltei pipa, bola de gude, pião, o jogo do cotoco, que ninguém conhece... Então a minha infância foi muito boa.

 

P1- Como é que era esse jogo do cotoco?

 

R- O jogo do cotoco você criava um tablado de areia e os bonecos, os jogadores são todos de pedaços de cabo de vassoura, pintados, e joga-se com bolas de pingue-pongue.

 

P1- Interessante.

 

R- Eu ainda vou criar ele de novo pra jogar com o meu neto.

 

P1- Queria que o senhor falasse um pouquinho da casa que o senhor morava na infância.

 

R- Morava numa casa boa. Era uma casa primeiro de um andar só, depois o meu pai a transformou em uma casa de altos e baixos.

 

P1- Em Bonsucesso?

 

R- Em Bonsucesso mesmo.

 

P1- Como é que era Bonsucesso nessa época?

 

R- Ah, Bonsucesso nessa época era bom. Não tinha o Complexo do Alemão. Eu andava lá em cima, naqueles morros todos, pegava uns cabritos lá em cima pra trazer aqui pra baixo para ficar brincando com eles... A rua que eu morava naquela época era rua de terra, mas não tinha vala negra. A vizinhança era muito boa. E o meu pai sempre foi uma pessoa que deu muita cobertura pras pessoas que precisavam, que eram necessitadas.

 

P1- O senhor tinha muitos amigos ali na rua?

 

R- Muitos amigos! A minha casa vivia cheia! Minha casa, os portões, jogo de bola na rua, quebrar vidraça, sair correndo, por isso que eu digo que eu tive infância.

 

P1- E como é que era o cotidiano dentro da sua casa, Doutor Gilson?

 

R- Ah, tranqüilo. Hora da janta, todos sentados na mesa. Almoço não, porque cada um estava pra um lado. E paz total, felicidade total. Não faltava nada.

 

P1- O fato de o seu pai ser um militar, isso implicava na ordem da casa, como é que era isso?

 

R- Não, não implicava na ordem nem na parte financeira, porque o meu pai sempre foi uma pessoa que lutou por mais alguma coisa, pra aumentar o orçamento dele, entendeu? E ele, então, vamos dizer assim, não tinha o capital necessário, mas tinha uns amigos dele que tinham o capital necessário e o usavam para que ele fizesse negócios, entendeu? Comprasse casas para eles, investiam em imóveis, e o meu pai sempre estava na frente para negociar. O meu pai era um negociador. Para você ter uma ideia, lá tinha uma família que tinha poder e o meu pai foi comprar uma fazenda pra eles no Estado do Rio, num lugar chamado Bela Joana, onde depois nós passamos alguns pedaços da nossa infância, eu com meu irmão, porque é do segundo casamento, conforme eu já tinha falado. Nasceu o meu outro irmão, então nós íamos pra lá e passávamos uns dias, essa coisa toda.

 

P1- E como é que era a relação do senhor com seus pais e com seu irmão?

 

R- Ótima, a melhor possível. Ótima, até hoje.

 

P1- O senhor teve algum tipo de educação religiosa ou política dentro de casa?

 

R- O que eu vou dizer? Religiosa eu tive e tenho até hoje, que é a católica, né? E política eu tive o meu tio, Alexandrino Mendes Soares, que foi deputado estadual e vereador. Eu o acompanhava na política. Eu garoto, rapazinho, ia com ele pra tudo quanto era lugar. Que antigamente você trabalhava “catando” voto. Como assim? Você entrava nas favelas, você... E o meu tio foi um médico muito conceituado em Bonsucesso e não ganhava dinheiro, porque ele não tinha “mensalão”.

 

Todos os professores foram bons. O meu irmão, que era mais novo do que eu, pegou ótimos professores, ótimos. Tinha o Professor Honório, que era de Geografia, entendeu? Foi bom, o Colégio Pedro II foi um bom ensinamento.

 

P1- E o senhor falou que passou por duas sedes do Pedro II, não é? Em São Cristóvão e no Centro?

 

R- É, eu me lembro mais da de São Cristóvão do que da sede do Centro, mas a do Centro também foi muito boa.

 

P1- E como é que é esse negócio da rivalidade que há entre os alunos das sedes, não sei se já tinha isso na época do senhor?

 

R- No meu tempo tinha. Era o “Café Globo” com o “Cachorro Matriculado”, que era o pessoal do Colégio Militar. O “Café Globo” era o Pedro II, porque tinha um globo na lapela, né? E tinham também as meninas do Colégio Rivadávia Corrêa, que era o “Siri Cozido”, por causa das saias delas.

 

P1- E como é que era essa rivalidade?

 

R- Não... Às vezes, de vez em quando, saíam umas briguinhas, né? Mas era tudo calmaria, não tinha nada de pegar, matar, esfaquear. Nada disso, era na mão mesmo e pronto.

 

P1- E o senhor era muito estudioso, Doutor Gilson?

 

R- Estudava muito, sempre fui. Eu tenho duas faculdades. Eu primeiro fiz Odontologia e depois eu fiz Medicina.

 

P1- E na época de colégio, quais eram as matérias de que o senhor gostava mais?

 

R- Ah, eu gostava de Ciências, Português, Matemática, entendeu? Não tinha nenhuma que eu, como é que se diz, me destacasse, não. Eu gostava de estudar. Sempre gostei de estudar. Me formei em Odontologia em 1960, casei em 1961, depois fiz Medicina e me formei em 1975. Sempre me destaquei. Eu já me destacava dentro das faculdades de Medicina e de Odontologia. Em Medicina também, eu participava de diretório [acadêmico], participava de movimento [estudantil], mas tudo calmo, nunca movimentos de esquerda, nada disso, porque eu aprendi em casa a não ser de esquerda. Aprendi a ser de direita, por causa do meu pai.

 

P1- E de que forma os estudos no Pedro II talvez tenham te indicado a seguir a carreira da Odontologia?

 

R- Não. Foi uma opção, foram opções que surgiram. Eu resolvi: “Vou fazer Odontologia”. Meu irmão foi pra Escola Preparatória [de Cadetes] do Exército, porque ele gostava disso. E eu gostava da parte mais de Ciências, dessa coisa de estudar, então foi por isso que eu fiz Odontologia e depois fiz Medicina.

 

P1- E como é que foi a sua época de vestibular, Doutor Gilson?

 

R- Eu estudava, tinha que estudar. Eu estudava e também passeava, né? Mas estudava muito, estudava muito.

 

P1- E o senhor acabou fazendo Odontologia em que faculdade?

 

R- Na UFF [Universidade Federal Fluminense], eu fiz na UFF.

 

P1- Em 1960?

 

R- Eu acho que acabei em 1960 ou 1961. Foi isso mesmo, foi em 1960, 1961, mais ou menos, porque eu acho que eu casei em 1961, entendeu? Mas também estudava, fazia trabalhos, essa coisa toda.

 

P1- E como é que era a faculdade de Odontologia nessa época?

 

R- Era boa, era boa. Você tinha a parte prática, em que você fazia a parte prática na Policlínica. Tinha a parte de... Era boa, a UFF era boa. Porque o que faz o profissional não é a faculdade, é ele mesmo. Ele tem que sair em campo, ele tem que procurar trabalhar e ser como nós chamamos de “rato”, tem que ser “rato de hospital” e com isso você vai ganhando experiência.

 

P1- E havia alguma expectativa dos seus pais de seguir essa carreira ou não?

 

R- Não. Eles nunca disseram: “Ó, você vai ter que ser isso, você vai ter que ser militar”. Nada disso. A escolha foi livre. A escolha do meu irmão foi livre também.

 

P1- Qual foi a carreira que ele optou?

 

R- Oficial do Exército. Ele veio desde a escola preparatória até se formar.

 

P1- E o senhor participava do movimento estudantil na época da faculdade?

 

R- Não, não. Eu nunca quis saber disso, não.

 

P1- Queria que o senhor falasse um pouquinho como foi que da Odontologia o senhor foi parar na Medicina.

 

R- Bom, eu tive um sucesso muito bom com a Odontologia, mas um dia eu disse assim: “Poxa, por que eu não vou ser médico”? Aí surgiu a oportunidade e eu fui fazer. Me formei na Faculdade de Medicina de Teresópolis. Fui pra lá, já casado, já com filho, e estudava, estudava muito. É aquilo que eu dizia: eu estudava muito, trabalhava, vivia dentro de hospital, era “rato de hospital”, nunca repeti um ano, sempre estava destacado entre os primeiros alunos, entendeu? E a Medicina foi muito bom também. E é aquilo que eu acabei de falar: o profissional quem faz é ele mesmo, não é a faculdade, não são os colegas, entendeu? É você, você tem que partir naquilo, você tem que ter o objetivo na vida e dali você, então, vai pra esse objetivo.

 

P1- Doutor Gilson, o senhor falou que terminou a faculdade de Odontologia e depois foi pra de Medicina. Mas o senhor não foi direto, não é?

 

R- Não, não.

 

P1- Antes o senhor trabalhou na área de Odontologia?

 

R- Claro, foi o que eu disse pra você, eu tive sucesso na área de Odontologia.

 

P1- E em que lugares o senhor passou? Que hospitais, que locais que o senhor trabalhou como dentista?

 

R- Eu trabalhei na Secretaria de Polícia da Secretaria de Segurança Pública [do Estado do Rio de Janeiro]. Depois eu passei para médico policial e me aposentei, tô aposentado como médico policial. E também trabalhei no Hospital do Andaraí. No Hospital do Andaraí foi onde eu conheci o doutor Celso [Barros] e somos amigos até hoje. Lá no Hospital do Andaraí eu também trabalhei em vários setores, trabalhei em enfermaria, trabalhei em pronto-socorro, mas nunca quis saber de direção, nem do Hospital do Andaraí, nem na polícia.

 

P2- Isso dentro da Medicina, né? Já como médico. Ou não?

 

R- Não. No Hospital do Andaraí já como médico. Na polícia foi como odontólogo e como médico, entendeu? Na Polícia eu cheguei a trabalhar com preso político, com preso comum, mas era outro tipo de vida, vamos dizer assim. Tanto [por parte] dos presos, como para nós. Você entrava tranquilo dentro de um presídio, sem problema algum, quem tomava conta das portas dos presídios eram os presos. Mas depois que houve essa revolução e misturaram preso político com preso comum, eles começaram a aprender coisas que hoje eles estão fazendo aí dentro dos morros, essa coisa toda. Já na parte de Medicina, eu também trabalhei em presídio e depois trabalhei no gabinete do secretário, em que a gente ficava afastado. E depois comecei também a trabalhar fora, eu tinha o meu consultório –como tenho até hoje. Foi quando eu comecei a procurar os convênios, um deles foi a Unimed, e eu fui lá me cooperar na Rua Mayrink Veiga.

 

P1- O senhor lembra o ano em que isso aconteceu?

 

R- Não sei. Não me lembro, não, mas foi logo no início em que a Unimed foi lá para Mayrink Veiga. Eu acompanhei todo o movimento da Unimed, até hoje acompanho.

 

P1- Eu queria voltar um pouquinho ainda à faculdade de Medicina, Doutor Gilson. Como é que o senhor escolheu a sua especialização e qual é a sua especialização também?

 

R- Eu sou pediatra para não ser geriatra, porque eu gosto muito de criança e gosto muito de idoso, entendeu? Por que eu quis ser pediatra? Porque eu tinha um professor, em Pediatria, que me chamou muito a atenção. E também, conforme eu disse, modéstia à parte, eu sempre me destacava e, quando eu morava lá em Teresópolis, ou mesmo quando eu vim pro Rio, ele pedia pra eu preparar as aulas. “O tema é tal”, aí eu preparava o projetor de slides, preparava os slides, preparava tudo pra ele. Quando chegava, ele começava a dar a aula e tudo bem. Depois eu fui pro Hospital do Andaraí e lá eu aprendi muita coisa, muita coisa mesmo, know-how. E quando eu fui trabalhar no Hospital do Andaraí, que eu estava vindo do Hospital de Teresópolis, eu senti uma diferença muito grande entre o tratamento de Teresópolis, com ótimos resultados, e o tratamento no Andaraí, também com ótimos resultados. Só que o custo do tratamento de Teresópolis era bem menor do que o custo do tratamento do Hospital do Andaraí. Eu fiz alguns trabalhos... Então foi por aí a opção pela Pediatria: porque eu gosto de criança, adoro criança e pelo incentivo que comecei a ter lá na faculdade.

 

P1- E como é que estava a Saúde Pública nessa época, no Brasil? Qual era a percepção que o senhor tinha?

 

R- Não estava tão ruim conforme está agora. Estava melhor, estava melhor. Você conseguia vaga, embora você às vezes tivesse dificuldade, né? Por exemplo: nós, do Hospital do Andaraí, às vezes, tínhamos dificuldade de deixar uma criança internada lá porque estava muito cheio. Aí nós pedíamos transferência para outros hospitais, que davam apoio e tinham convênio com o SUS [Sistema Único de Saúde]... Eu também não sei como é que esses hospitais funcionavam, mas segundo a informação, não era tão ruim conforme é hoje, com certeza. No Hospital do Andaraí nunca faltou medicamento, lá tinha farmácia, você atendia a criança, ela passava lá pela parte da clínica, ou o que fosse, e com a receitinha ela passava na farmácia e levava o remédio pra casa.

 

P1- E a que o senhor creditaria esse declínio da Saúde Pública no Brasil.

 

R- Política. Política e incompetência.

 

P1- O senhor tem alguma lembrança marcante da época que o senhor trabalhava nos hospitais do Andaraí e de Teresópolis para contar para gente?

 

R- Não, marcante não. Tinha aquilo que eu digo: a gente trabalhava e eu gostava de trabalhar, gostava de ajudar as pessoas, como até hoje gosto. Então, hoje eu não posso mais fazer o que fazia antigamente. A pessoa ligava pra mim, eu ligava pra um colega e dizia: “Olha, tem uma vaga aí? Tem uma pessoa aqui que está...”. E ele falava: “Tudo bem”. Hoje não, hoje é difícil, eu até prefiro dizer pra pessoa: “Não conheço mais ninguém, não sei de mais ninguém”, entendeu? É isso aí.

 

P1- O senhor chegou a exercer algum tipo de cargo de direção nos hospitais?

 

R- Na metade da entrevista eu já tinha dito que eu nunca quis saber disso. Nunca quis saber de chefia, nem de direção, nem de assessoria, nem de coisa alguma.

 

P1- E aí então o senhor falou que começou a clinicar também no consultório...

 

R- Comecei a clinicar e também... Brasília foi fundada em...?

 

P1- Em 1960.

 

R- Em 1960 eu ingressei no serviço público estadual. Depois que me formei em Medicina é que eu entrei para o federal, entendeu?

 

P1- Eu queria saber um pouquinho agora, Doutor Gilson, como é que foi então essa sua aproximação com a Unimed-Rio. O senhor tinha alguma noção do que era a Unimed-Rio naquela época?

 

R- Eu sabia que tinha uma cooperativa e então quis saber como é que ela operava, como é que era essa cooperativa. Fui até lá, tive que comprar umas cotas e comecei a trabalhar no meu consultório. Aí comecei a fazer amigos dentro da Unimed. Naquela época eu acho que era o doutor Djalma Chastinet que era o presidente e o doutor [Arnaldo] Bomfim era o vice-presidente. E, por coincidência, o doutor Djalma Chastinet morou com meu pai numa república de estudantes em Recife. Ele já fazendo Medicina e o meu pai já no Exército. Depois eles vieram a se encontrar, depois de muitos e muitos anos, no Hospital Central do Exército. O meu pai foi lá fazer uma consulta, não sei o que ele foi fazer, e aí ele se encontrou com o doutor Djalma Chastinet, que era uma pessoa que eu admirava, e admiro, e que entendia muito de cooperativismo. Tanto ele como todos esses que estão hoje na direção. O doutor Bomfim é uma pessoa de quem eu gosto muito.

 

P1- E o senhor acha que o fato da Unimed ser uma cooperativa atraiu o senhor pra ela?

 

R- Atraiu, me atraiu. Porque ela é uma cooperativa de médicos, é um trabalho de médicos, então, “por que eu não vou trabalhar para ajudar, para ver o que vai acontecer”? É o que aconteceu: a Unimed hoje é uma potência, queriam ou não queiram. Conforme eu falei, ela começou com um prédio pequeno, com umas salinhas na Avenida Franklin Roosevelt que eu não peguei bem. Depois ela foi pra Rua Mayrink Veiga e lá eu conheci bem a Unimed. Depois ela foi pra Benfica, e eu participei daquela obra, participei daquela inauguração. Eu sou sempre convidado para participar das solenidades e dos eventos da Unimed-Rio, né?

 

P1- E qual era a importância da Unimed pra Saúde Pública do Brasil naquela época?

 

R- Era mais pra rede privada, não é? Então para rede privada ela era muito importante. Depois foram surgindo não outras cooperativas, mas sim outras operadoras de planos de saúde.

 

P1- Eu queria que o senhor falasse um pouquinho sobre como é que era a Unimed-Rio ali na Mayrink Veiga e, depois, como é que era em Benfica.

 

R- Era pequena, tinha, vamos supor assim, meia dúzia de pessoas trabalhando, mas trabalhando com vontade para que ela crescesse, o Chastinet também. Quando ela deu o passo para Benfica, aí começou a colocar mais gente, profissionalizaram a nossa cooperativa. Hoje ela está bem, está bem em todos os sentidos: no relacionamento com os cooperados, no relacionamento com os hospitais... Isso eu posso dizer porque eu faço parte da Associação de Hospitais [e Clínicas do Rio de Janeiro], do Sindicato dos Hospitais, eu sei como é que isso está funcionando hoje.

 

P1- Eu queria que o senhor falasse um pouquinho agora dessa participação do senhor no Sindicato dos Médicos.

 

R- Eu sempre lutei pelos hospitais e nunca usei, vamos dizer assim, o meu prestígio junto às operadoras, às cooperativas e às seguradoras em benefício próprio. Sempre usei em benefício dos hospitais.

 

P2- E na Associação de Hospitais?

 

R- A mesma coisa, a mesma coisa.

 

P2- O senhor disse que hoje o senhor faz parte de um...

 

R- Hoje, não, eu sempre fiz parte. Eu fui presidente da Associação e hoje, dentro da diretoria, tem um conselho, que é o conselho dos ex-presidentes, do qual eu faço parte, trabalhando junto com o doutor Armando Carvalho Amaral, junto com o doutor Celso [Antunes Rodrigues], que é ortopedista, e de outras pessoas que fazem parte da Associação. E eu faço parte, além, da comissão de negociação.

 

P1- Como é que foi a sua gestão na Associação?

 

R- Foi boa, trabalhei muito. Por isso hoje eu tenho um relacionamento muito grande com todas as operadoras. Hoje, qualquer hospital que você entrar, qualquer operadora, e falar o meu nome, todos me conhecem, sempre me respeitaram e eu sempre os respeitei. Nunca usei disso, conforme eu acabei de falar anteriormente, para usufruir algo. Eu trabalhava, como sempre trabalhei, em prol dos hospitais.

 

P1- E além desse seu trabalho nos hospitais e também desse seu trabalho junto ao consultório, com a Unimed e outros convênios, o senhor também começou a enveredar pelo caminho dos laboratórios, das clínicas. Como é que foi isso?

 

R- Não, laboratório não. Eu tive uma clínica com mais uma pessoa, que fundei lá em Copacabana, as Urgências Pediátricas Copacabana [UPC]. E por problemas difíceis que hoje estão acontecendo, pelo fato do prédio não ser próprio, por ser um prédio alugado, e pelo que nós estávamos recebendo dos convênios, não dava pra fazer essa cobertura. Então eu tive que devolver o imóvel, porque o que o proprietário queria pelo valor da locação não dava pra você pagar. Tive que sair e fui para um outro hospital –que eu peço para não falar o nome– e lá nesse hospital eu estava vendo que não era a mesma coisa o desenvolvimento que eu tinha, então resolvi dar uma parada depois de 26, 27 anos. Aí parei provisoriamente, temporariamente, mandei uma carta pra todos os convênios e todos eles, inclusive, me elogiaram da atitude que tomei, porque eu sempre dei uma Medicina de qualidade e de repente você não poder dar, é preferível você parar. Foi o que aconteceu: nós paramos e eu já tenho um outro serviço, que não é mais de criança, é de adulto, já tem uns 14 anos que ele é de adulto.

 

P1- E que serviço é esse?

 

R- É a Climes. Quer dizer, é a Climes, mas nós chamamos de “Claimes”, Clínica Médica Especializada Ltda., que está dentro do Hospital [das Clínicas] Quarto Centenário, onde nós fizemos uma locação em três andares, com CTI [Centro de Terapia Intensivo], cirurgia e leitos para cirurgia e para parte clínica. A Climes, eu não gosto de falar, porque se não for o melhor, é um dos melhores CTIs que tem dentro do Rio de Janeiro. É um serviço que tem ótimos profissionais que colaboram conosco. Eu sou o diretor médico da empresa e tenho mais dois sócios: o Doutor Aníbal Mendes da Cunha e Doutor Leonardo Gadaleta. Nós nos entendemos muito bem, qualquer problema nós sentamos para resolver, e estamos ampliando a Climes.

 

P1- E que dificuldades que o senhor e os seus sócios tiveram na montagem da clínica e também durante esse processo todo?

 

R- A dificuldade que nós três temos, vamos dizer, é a que a maioria dos hospitais estão tendo, né? Nós estamos negociando justamente por causa disso: o valor do CH é baixo. Nós ficamos aí seis anos sem ter um reajuste e estamos agora retomando essa parte dos reajustes para dar uma melhor alta. Mas nem por isso nós nunca deixamos a qualidade do nosso serviço cair.

 

P1- E quais são as perspectivas futuras para Climes?

 

R- Ah, pra mim são ótimas, pra mim são ótimas! Porque o Hospital Quarto Centenário sempre foi um hospital muito bom, um hospital grande. Mas ele está localizado em Santa Teresa e aquilo que todo mundo vê no jornal não é nada de Santa Teresa, aquilo são dos outros morros lá pra baixo. “Tem tiroteio em Santa Teresa”. Não é tiroteio em Santa Teresa, esse tiroteio é cá embaixo, no Rio Comprido. E eles têm umas armas poderosas e o que acontece? Estoca lá em cima, então você pensa que o tiro é de lá. Então, ele é um hospital bom, mas como nós estamos querendo ampliar, nós estamos criando um serviço em um outro hospital, que eu vou até falar qual é: é o Hospital da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo, ali na Rua do Riachuelo. Um hospital também muito bom, que tem uns jardins maravilhosos, que tem as irmãs de caridade, que são católicas, é claro. Então é um hospital eminentemente católico.

 

P1- E a Climes é uma clínica credenciada à Unimed, não é?

 

R- Sim.

 

P1- Como é que é esse relacionamento da clínica com a Unimed?

 

R- Ótimo, ótimo! Eu falo com o Celso [Barros] a hora que eu quero, a gente fala com os superintendentes, qualquer que seja a área, quando tem alguma dificuldade eu ligo, marco, vou e tudo bem. A Unimed é muito boa pra nós, entendeu? Não é porque o Gilson é amigo do Celso. Eu não procuro o Celso pra falar com o Celso, eu não procuro a Diretoria Executiva, nem [Armido] Mastrogiovanni, nem [Eduardo] Bordallo, nem o Doutor David [Szpacenkopf], eu falo com o superintendente, e todos eles resolvem, entendeu? Então é muito bom, o relacionamento é ótimo.

 

P1- E desde a década de 1970, mais ou menos, o senhor já é cooperado da Unimed-Rio. Como é que o senhor vê essa transformação da Unimed?

 

R- A Unimed cresceu muito, a nossa cooperativa cresceu muito, cresceu muito! Ela foi crescendo, crescendo, e hoje também tem uma cooperativa que é a cooperativa financeira, vamos dizer assim, a Unicred, que dá todo o apoio para os cooperados e para os hospitais que são credenciados. Nós também somos cooperados da Unicred, que também está muito boa, está crescendo muito, e agora já tem até, lá do lado da sede da Unimed-Rio, a sede da Unicred.

 

P1- E o que o senhor acha desse trabalho da Unimed de patrocínios?

 

R- Muito bom. Eu sou a favor disso, eu sou a favor do patrocínio, da propaganda em jornal, em outdoor, eu sou a favor.

 

P2- E o que o senhor acha da ajuda da Unimed-Rio a alguns projetos sociais, como o Retiro dos Artistas...

 

R- Então, isso é muito bom. Eu acabei de dizer, eu adoro o velho e adoro a criança, então tem que dar cobertura para eles, entendeu?

 

P1- E o senhor acha que a grande maioria dos cooperados concorda com essa sua opinião em relação a esses patrocínios, a esse apoio?

 

R- Desconheço, mas eu acho que eles apoiam.

 

P1- E em relação ao fato da Unimed ser uma cooperativa, o senhor sabe dizer, pela sua experiência de consultório, se os clientes têm essa percepção de que a Unimed é diferente dos outros planos de saúde, que ela é uma cooperativa?

 

R- Nem todos, nem todos. Todos pensam na Unimed como, vamos dizer assim, um plano de saúde. Pensam que a Unimed é um plano de saúde, não pensam ela como uma cooperativa. Porque eu acho que quando a pessoa entra para Unimed, quando ela “compra” o plano da Unimed, eu acho que ela não é bem informada de que se trata de uma cooperativa.

 

P1- Eu queria falar um pouquinho agora da sua juventude, dos primeiros anos de adulto, que a gente acabou avançando um pouquinho. Eu queria que o senhor falasse um pouco se o senhor tinha um grupo de amigos...

 

R- Sempre tive. Tive grupo de amigos, grupo de futebol, grupo de vôlei, íamos passear na Quinta da Boa Vista, andávamos no parque de diversões, tinha parque de diversões naquela época em Bonsucesso e nós íamos também, entendeu?

 

P1- O senhor freqüentava bailes, cinema?

 

R- Bailes. Eu conheci minha mulher num baile de carnaval.

 

P1- Como é que foi isso?

 

R- Eu estava dançando e tal, depois começamos a namorar e aí estamos casados há 44 anos.

 

P1- O senhor era muito namorador?

 

R- Lógico, né? Namorava, sempre ia pra festinhas e tal.

 

P1- E como é que eram os namoros naquela época?

 

R- Namoro naquela época era mãozinha de cá, mãozinha de lá e quando roubava um beijo era uma festa!

 

P1- E quem eram os seus principais amigos?

 

R- Agora você me pegou, eram tantos, rapaz! Eram tantos que você me pegou! Eu tinha muito amigo, muito amigo. E outra coisa: tanto fazia ele ser pobre como ele ser rico, ser de classe média, não tinha nada disso, não. Eles viviam todos dentro da minha casa. O meu pai sabia que tinha uma família lá na rua que estava passando necessidade e já mandava eu ir lá dar comida... Naquela época, o lixeiro passava na rua puxando uma carroça de burro e pegando lixo. O lixeiro almoçava na minha casa todo dia, tomava café da manhã, meu pai mandava dar pra ele.

 

P1- O senhor disse, Doutor Gilson, que o senhor passou a infância em Bonsucesso, mas já na juventude, no início da idade adulta, o senhor morava onde?

 

R- Na juventude... Depois de Bonsucesso eu fui pra onde, hein, Gilson? Ah, depois eu fui para Ipanema, fiquei pouco tempo lá, depois voltei pra Bonsucesso, porque aí já estava praticamente formado. Eu voltei a morar em Bonsucesso. Depois é que eu saí de lá, fui pra Tijuca, e por aí fui tocando a minha vida.

 

P2- E o senhor gostava de esportes?

 

R- Gostava.

 

P2- Praticava?

 

R- Praticava, jogava bola... Eu estava dizendo: lá no final da rua onde eu morava, a Rua Bia Fortes, tinha um largo que dava paras ruas Dona Isabel, Francisca Hayden e Bonsucesso; lá nós fazíamos o campinho. Então não era como é hoje, era tudo sadio, tinha torneio de futebol de uma rua com a outra, não tinha nada de gangue, de briga, entendeu?

 

P2- E dentro da escola, o senhor também participava?

 

R- Participava também na escola, no Pedro II... Sempre participei de esporte, sempre.

 

P1- Doutor Gilson, eu queria que o senhor falasse um pouquinho da sua esposa, que o senhor conheceu num baile de carnaval.

 

R- Oh, vou ficar emocionado!

 

P1- Não tem problema.

 

R- Não, tem sim... A minha mulher sempre foi uma mulher guerreira, que me ajudou muito. Quando nós fomos pra Teresópolis, ela me ajudava a fazer trabalhos, e até hoje. Me deu um filho, que já está com 39 anos, casado. Eu tenho um casal de netos: uma menina com nove anos e o menino tem seis anos. A minha mulher sempre foi assim, sempre ao meu lado, sempre me incentivando, e sempre teve uma compreensão mútua, sempre tem, nós sempre procuramos acertar, por isso é que nós moramos juntos há 44 anos. Até hoje ela ainda me ajuda. Hoje está aposentada, mas trabalhou comigo muito tempo, ela foi minha secretária no consultório, trabalhou comigo na UPC, ela só não trabalha na Climes, entendeu? Ela é de família humilde, mas isso não é defeito. O negócio é você amar, ser amado e ser compreendido.

 

P1- Só pra registrar, o senhor fala o nome dela.

 

R- Shirley, o nome dela é Shirley.

 

P1- E o nome do seu filho?

 

R- Marco Antônio. Os netos são a Karine, de nove anos, e o João Pedro, de seis anos.

 

P1- E qual carreira mesmo que o seu filho seguiu?

 

R- Administração.

 

P1- Onde é que ele está trabalhando hoje?

 

R- Hoje ele está acabando de fazer um curso de pós-graduação, quase assim feito um MBA.

 

P2- Ele vive aqui no Rio também, perto do senhor?

 

R- Vive no Rio. Eu moro no sétimo andar e ele mora no décimo. Então as crianças estão sempre lá, ele está sempre lá.

 

P2- Fala um pouco dos netinhos também.

 

R- Ah, netinho é melhor do que filho, porque não tem que educar, né? Quem tem que educar é o pai e a mãe. E eles adoram, eles nos adoram. Ontem mesmo o João Pedro foi pra lá e disse: “Eu quero jantar”. E foi lá e jantou. A Karine estava na casa de uma coleguinha, depois passou lá. E ela pede mesada, tem mesada. Até ratinho, hamster, até isso eles têm porque eles pediram; eles têm. Mas ela fica nervosa quando a ratinha está grávida. Aí botaram os nomes do casalzinho. Ele botou o nome do rato, que é dele, é o Spirit, e o da ratinha é Sol, e ela agora, essa semana, teve sete filhotes! Eu nunca vi isso! É um hamster daqueles chineses, né? Sete filhotes! Então eles estão sempre conosco, viajam conosco, nós vamos lá pra roça, vamos lá pra fazenda, em Pouso Alegre, que é a fazenda do meu irmão. E nós vamos pra lá, eles adoram ir pra lá, adoram os cavalos, essa coisa toda. Meus netos são assim, são estudiosos, ela é muito estudiosa, já está na terceira série. É isso aí.

 

P1- O seu filho não seguiu a sua carreira. O senhor acha que os seus netos teriam alguma chance de seguir a sua carreira?

 

R- Os meus netos têm, mas o meu filho não seguiu porque eu que falei para ele que eu queria que ele fosse um ótimo gari do que um péssimo médico.

 

P1- O senhor achou que ele não...

 

R- Eu acho que pra você ser médico você tem que ser médico. Hoje eu vejo o cara ligar pro médico e o médico não está, o médico é estrela, entendeu? Não tem nada, não, tem que ir à luta. Não sair à noite, tudo bem, hoje está perigoso, mas eu fazia muita sala de parto, eu saía de madrugada... O falecido Sá Ribeiro, que também foi da cooperativa e que foi da diretoria da Unimed, eu trabalhava com ele, ele era obstetra. Nós começávamos a trabalhar depois da janta e íamos até de manhã. Pulávamos de hospital para hospital, naquela época não tinha perigo, não tinha nada. Então eu acho que o médico tem que ser médico, ele não tem que botar o cifrão, não. Eu sou totalmente contra o médico que trabalha na cooperativa, trabalha numa operadora, trabalha em seja lá o que for e que chega e cobra por fora os honorários que ele vai receber da cooperativa, entendeu? Foi isso que eu falei para ele. Eu pensei que ele fosse ser médico, porque quando eu estava lá em Teresópolis ele tinha um jalequinho –porque ele estava fazendo o Jardim de Infância– e, às vezes, me chamavam em casa para dar uma ajuda. Porque, naquela época, Teresópolis não era o que é hoje, tinha o Hospital Municipal em que eu trabalhava – eu vi aquele hospital começar, eu vi aquele hospital crescer – e ele ia junto. Tem uma passagem muito interessante. Eles me chamaram lá pra ver uma senhora que tinha um corte, que estava sangrando muito. E eu fui atendê-la, ele estava junto, quis entrar e eu disse: “Não, fica lá fora”. Aí ele ficou olhando lá de fora pela porta. Quando acabou tudo ele virou pra um colega meu que disse: “Vem cá, você vai ser médico ou você já é médico?”. Aí ele disse: “Não, eu tô estudando, sou acadêmico”. Então meu amigo falou assim: “Pois é, mas você não pode fazer cara de nojo, não, tá? Porque você olhou o sangue e fez cara de nojo”. Ele era pequeno. Daí eu achei que ele ia ser médico, mas ele não quis ser, não. Às vezes ele andava comigo lá no hospital. Eu ia trabalhar, mas nunca quis levar ele pra dentro de hospital, coisa nenhuma.

 

P1- E os seus netos já falaram alguma coisa pro senhor de quererem ser médicos?

 

R- Não, o menino diz que vai ser peão de boiadeiro igual ao Tião da novela e igual ao tio Alexandre. O tio Alexandre é meu sobrinho, que mora em Pouso Alegre, lá na fazenda, e lida com burro, com vaca... Ele diz: “Eu vou ser...”. Mas isso aí é conversa, fantasia, né? Ela não, ela ainda não falou nada.

 

P1- E o senhor agora mora na Barra da Tijuca?

 

R- Moro na Barra da Tijuca.

 

P1- E como é que o senhor foi parar na Barra da Tijuca?

 

R- Na Barra da Tijuca eu gostava de ir passear. Eu morava no Flamengo e gostava de ir à Barra para passear, passar o dia. Eu ia de manhã e voltava à tarde, e um dia nós compramos lá um apartamento, o meu filho viu lá um apartamento: “Pai, vamos morar lá, que o senhor vai comprar, vamos lá comprar”. “Se está em construção, não compro”. Mas não estava, estava pronto. Aí eu fui morar lá.

 

P1- E o que o senhor acha da Barra?

 

R- Eu gosto da Barra, o problema da Barra é o que todo mundo sempre fala: é o trânsito. A Barra é igual Brasília, quem não tiver carro, não anda. Mas tem umas coisas boas, né? Tem hospital, supermercados, bons colégios...

 

P1- O senhor costuma freqüentar shopping center, cinemas?

 

R- Quando tenho tempo eu vou; quando não, eu fico em casa lendo, dormindo...

 

P2- E o que o senhor gosta de fazer hoje?

 

R- Eu gosto de ler e gosto também de passear com as crianças, com a mulher... Quando há oportunidade, a gente viaja e tal. Vamos muito para Pouso Alegre, que é lá no Sul de Minas, lá tem um lugarzinho bom em que a gente solta as crianças. Eles gostam de ficar junto conosco, entendeu?

 

P1- Que tipo de leituras o senhor gosta de fazer?

 

R- Olha, eu gosto de um pouco de aventura e, às vezes, algum romance...

 

P1- E como é que é a sua rotina, assim, num dia normal de trabalho?

 

R- Vamos lá. Eu acordo cedo, tomo banho, me arrumo e tal. Depois começo a trabalhar, vejo para onde eu vou. Hoje eu vim pra cá, daqui eu vou para Climes, da Climes, às vezes, eu vou resolver problemas nas operadoras, vou resolver problemas pessoais... Amanhã eu já tenho uma reunião marcada com a Unimed, lá na Rua do Ouvidor. E assim é a nossa vida. Estamos acabando aquela obra, então a gente vai lá olhar, e a minha vida às vezes acaba cedo, às vezes não.

 

P1- Como é que o senhor consegue conciliar a vida privada com a vida profissional?

 

R- A gente faz um esquema e dá prioridade para vida profissional e para vida privada, mas a gente dá mais prioridade para profissional. É o que eu digo: eu tenho uma mulher que resolve muitas coisas nossas.

 

P1- O senhor acha o fato de ela ter trabalhado com o senhor fez ela compreender essa rotina?

 

R- Claro, ela compreende essa rotina. Ela compreende a rotina. Ela é, além de mulher, esposa, uma grande secretária, resolve todos os probleminhas que eu tenha.

 

P1- Além da leitura, o senhor tem mais algum passatempo, algum hobby que o senhor cultive?

 

R- Caminhar, né? Aí tem a parte da Educação Física que eu faço. Eu tenho um personal trainer lá no prédio em que eu moro. Aí eu acordo e seis e meia e já tô dentro da academia. Aí faço os exercícios que ele vai preconizando, vai falando, e vamos tocando.

 

P1- Eu queria que o senhor falasse se tem alguma coisa de que o senhor se arrependa de ter feito, se o senhor mudaria algo na sua vida?

 

R- Não, a gente nunca se arrepende do que faz. Não, nunca se arrepende. Você nunca deve se arrepender do que você faz ou do que você deixou de fazer. Nunca. Eu acho que eu tô tranqüilo com tudo o que eu fiz.

 

P1- E qual seria o seu maior sonho, hoje?

 

R- Não tenho. O sonho que eu tenho é viver, ter saúde e trabalho. E morrer trabalhando. Não quero parar, eu quero morrer trabalhando. “Eu vou fazer isso, eu vou fazer aquilo...”. Eu quero é trabalhar. O que vier, a gente vai fazendo.

 

P2- O que é ser médico para o senhor?

 

R- Pra mim é um orgulho, é uma honra, é tudo. Mas uso a palavra “médico” com simplicidade, ajudar o próximo, de qualquer que seja a classe em que ele vive, de onde ele vive. Eu sempre procuro ajudar o próximo.

 

P1- O senhor poderia nos contar alguma experiência, alguma história marcante dentro do seu exercício da Medicina, pra ilustrar?

 

R- Acho que não tem nada assim marcante, sabe? Eu acho que é o cotidiano, é a vida, é o dia a dia. Tem uns que falam: “Porque eu fiz isso, porque eu fiz aquilo”. Ah, tudo o que eu fiz, porque eu fiz... Eu já trabalhei muitos anos e já trabalhei mais em Medicina do que trabalho hoje. Então, o que ocorre é que tudo o que eu fiz... Quer dizer, eu não gosto de me vangloriar porque fiz isso, porque fiz aquilo, entendeu? Ainda hoje, muitas pessoas, que às vezes eu nem conheço –é aquilo que eu digo, eu gosto de ajudar o próximo–, me dizem: “Doutor Gilson, eu tô aqui com a radiografia do meu filho”. Eu não conheço a moça, ela foi indicada por uma outra pessoa. “Eu tô com isso, com aquilo e tal”. Eu procuro ajudá-la da melhor maneira possível, depois ela me liga e me agradece. Então Medicina para mim é a cada dia uma aventura, a cada dia. É o dia, a verdade é essa.

 

P1- E o que o senhor acha desse projeto da Unimed de tentar contar a sua história?

 

R- Eu acho importante, acho muito louvável isso. Até me sinto lisonjeado de ser um dos escolhidos para dar entrevista sobre a Unimed-Rio, porque a gente ama de paixão a Unimed-Rio.

 

P1- Como é que o senhor vê a Unimed-Rio hoje em dia?

 

R- Muito bem, muito bem mesmo. E a tendência é melhorar a cada dia que passa.

 

P1- Que caminhos o senhor acha que a Unimed-Rio deveria tomar?

 

R- Não, eu acho que ela está no caminho certo.

 

P1- Ela está no caminho certo?

 

R- Está, ela está no caminho certo. O caminho certo do patrocínio... Ela devia é divulgar mais a obra social dela, que eu sei que ela tem feito obra social, não tem? Mas ela não divulga, né? Tem outras empresas aí que dizem: “Ah, porque eu tô pegando os meninos da Mangueira, tô botando pra trabalhar na empresa e eles têm que estudar, eles têm que tirar nota boa...”. Tudo bem, a gente sabe, mas a gente não sabe da obra social da Unimed. Às vezes eu sei porque eu estou junto, mas acho que tinha que ser mais divulgado.

 

P1- Então o senhor está falando que o senhor acha que tem que ser mais divulgada essa questão da responsabilidade social da Unimed-Rio?

 

R- É isso aí. Do patrocínio não precisa porque todo mundo está toda hora aparecendo.

 

P1- Ele tem uma visibilidade maior.

 

R- Tem. Hoje mesmo nos jornais está lá: “Unimed”, “Unimed”...

 

P1- Finalmente eu queria perguntar para o senhor: o que achou de participar dessa entrevista?

 

R- Gostei, gostei muito. Peço desculpas que, às vezes, a gente se emociona, mas acho que isso é muito importante, é muito importante a gente participar de uma coisa que é para o Projeto Unimed-Rio. Eu acho muito importante.

 

P1- Roberta, você tem mais alguma pergunta ou não? Então eu queria agradecer mais uma vez a sua participação, Doutor Gilson, nessa entrevista.

 

R- Quem agradece sou eu. E continuo torcendo e tenho certeza de que a Unimed-Rio a cada dia, a cada minuto, a cada hora, ela vai crescer, porque hoje a Direção da Unimed-Rio está em ótimas mãos, eles sabem o que fazer. Tanto que o doutor Celso se projetou bem entre as Unimeds, entre as cooperativas, é o presidente da Unimed do Brasil. E não só ele, como os demais membros e amigos, colegas de diretoria. Eu é queria agradecer à Unimed-Rio por me dar essa oportunidade de prestar esse depoimento, de falar da minha vida, da minha família, de tudo.

 

P1- Então nós é que agradecemos também pela sua entrevista, muito obrigado e bom dia.

 

R- Obrigado.

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