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Médica de gente: entre o cuidado e a ciência

História de: Denize Ornelas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/12/2021

Sinopse

O que pode o mundo oferecer a uma jovem mulher, negra, amante da literatura e da ciência? Tudo. Nessa diversidade de opções, coube a Denize escolher aquela mais difícil: o cuidado. Com olhos de carinho e crítica, passa a conhecer o mundo a sua volta. Reconhece muitas diferenças, sim, mas também encontra muita oportunidade. Sempre incentivada pelos pais a estudar, Denize assumiu essa aposta para si. Na faculdade de medicina, logo no primeiro dia, a dúvida imperava. O que estava fazendo ali? Foi salva por uma greve, que deu, além de luta, tempo. Foi quando encontrou um livro (ou ele a encontrou?) e nele descobriu que a medicina também precisava ser reinventada. Como ela, a medicina também tinha caminhos. E, novamente, nesse mundo de opções, Denize, claro, não escolheu a mais simples: ali, na livraria, se fazia uma médica de gente.

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História completa

Lembro muito da sensação de ser pequena e olhar pra cima e ver muitos livros, muitos livros na estante da sala de casa. Meus avós maternos moravam na mesma rua que a nossa: Doutor Gastão Reis, na Pauliceia. A gente no 294 e eles no 194. Quando eu tinha quase cinco anos, o meu avô teve um AVC e minha irmã e eu passamos a dormir com minha avó.

 

Alguns anos depois, meus pais conseguiram comprar uma casa que ficava num bairro completamente diferente desse primeiro bairro onde morávamos. Na Pauliceia, tinha rua de calçamento, com paralelepípedo, rede de esgotos, tudo bonitinho. E esse bairro onde a gente foi morar, o Jacatirão, era muito diferente. A casa não era bonita, era caiada, não tinha telhado, não tinha telha. Era uma laje, quando chovia passava muita água pelo quintal. Mas era um quintal que tinha todas as árvores que você puder imaginar: mangueira, cajueiro, dois abacateiros, duas jaqueiras enormes! Tinha galinheiro, nascia pintinho, a gente mexia na terra, tinha minhoca, tatuzinho. A gente subia na goiabeira, tinha lagarta, flor. Minha vó, quando foi morar com a gente, plantava boldo, erva cidreira!

 

A família da minha mãe era uma família tradicional: pai, mãe, três filhos. Já a família do meu pai era uma mãe solteira com oito filhos. Era uma dicotomia. De um lado a família mais tradicional, evangélica, branca e, do outro lado, descendentes de pessoas que tinham sido escravizadas. A minha mãe era metodista, enquanto a família do meu pai tinha origem na umbanda. Nessa mistura houve o apagamento também dessa parte da cultura da minha família paterna e o meu pai foi pra igreja também, passou a ser uma liderança da igreja com o tempo. Então ele também se embranqueceu para ser aceito pela família da minha mãe. De certa forma, hoje eu entendo assim.

 

Desde muito cedo, meu pai e minha mãe falavam pra gente: “O que a gente pode oferecer pra vocês é estudo. O que a gente vai poder oferecer para vocês é dar uma melhor educação possível.”  Meu pai é determinante na escolha da minha carreira. A escolha pela medicina tem muito a influência dele, porque desde que eu me entendo por gente, ele falava que eu só podia ser médica, dentista ou advogada. Meu pai era negro, foi um jovem autodidata. Ele não teve oportunidade de estudar quando era criança, então aprendeu a ler quando foi para o Exército. E, a partir da leitura, ele desenvolveu todas as possibilidades que tinha de estudar. Fez o supletivo, prestou o Técnico de Enfermagem, acessou o ensino superior, ele também fez Pedagogia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

 

Várias vezes, durante a minha formação, a gente teve dificuldade financeira pra pagar a minha escola. Eu tive uma tia que era freira, irmã do meu avô materno que trabalhava na escola. Algumas vezes, com certeza, foi ela que pagou a nossa mensalidade, deixou a coisa mais fácil pra gente. E aí chegou na sexta série, meu irmão entrou na escola também, no jardim de infância, e aí ficou mais difícil. As irmãs me chamaram para ser bolsista na escola, mas o preço de eu ser bolsista era, durante o recreio, trabalhar na cantina da escola, junto com outras crianças que eram filhos das faxineiras da escola. Foi quando eu vi que eu não era igual a todo mundo, ali eu tive clareza de que tinha uma diferença social.

 

Meu pai faleceu no dia que eu fiz a última prova do vestibular - a que passei para medicina. Uma semana depois saiu o resultado no jornal e a minha mãe veio me dizer que eu passei. Eu estava dormindo! “Filha, você passou”, olhei pra ela e falei: “Tá”, virei para o lado e continuei dormindo. Eu estava de luto! Mas essa conquista foi muito comemorada pela minha família, por todo mundo! E eu com aquela cara tipo: “Não queria vir para a UFF, não era aqui, aqui não tem pesquisa…”. E aí eu vou para a primeira aula, o professor Armando Cipriano na minha frente e ele começa a falar do cocô do rei! “Porque os médicos, antigamente, quando o cocô boiava, sabiam que o rei tava com tal doença! E quando o cocô afundava, estava com tal doença!” E eu: “O quê que eu tô fazendo aqui?” “O quê que eu vim fazer nessa faculdade?”. O que me salvou foi a greve de seis meses que aconteceu no mesmo ano.

 

A greve fazia sentido para mim e foi um tempo para eu pensar melhor, elaborar e até tentei estudar de novo para o vestibular. Mas as aulas voltaram no começo de dezembro. Quando eu saí do Instituto Biomédico, onde tinham as aulas básicas, fui para o shopping e parei numa livraria. Peguei um livro que chama Anestesia, de um autor chamado Alex Botsaris, que falava sobre uma medicina que tinha que ser desconstruída e reinventada. O personagem, médico, passou a se questionar o porquê que ele tinha feito Medicina, qual que era o papel da Medicina na vida dele, como é que uma Medicina poderia se mais humana pelo tratamento que tinha recebido… E ele discorria sobre a Medicina no mundo. Li aquele livro avidamente, quase inteiro na livraria! Comprei o livro, levei pra casa e aquele livro teve um impacto muito grande. Foi determinante na minha carreira médica. Durante a leitura, tinham várias citações sobre medicina que era pra rico e medicina que era pra pobre e sobre o quanto a gente precisava desse médico diferente pra melhorar a qualidade de vida das pessoas. Tudo começou a fazer muito sentido, muito sentido, tudo muito sentido e eu comecei a ficar ansiosa e angustiada pela voltas das aulas, que seriam só em janeiro!

 

O livro foi a última gota do copo. Acho que todas as experiências somadas em relação a doença, ao adoecimento, ao diagnóstico do meu pai, em relação a história de vida da minha mãe, tudo foi… Eu era asmática quando era criança, meu irmão também, então a doença e o cuidado sempre tiveram muito próximos. Da minha vó usando chá de boldo para melhorar da azia e má digestão dela, o chá de erva-cidreira para acalmar. Tudo passou a fazer sentido: o cuidado, a medicina. Eu descobri uma outra possibilidade, uma outra prática que não dependia só do desafio intelectual, mas dependia muito da humanidade, dependia de mim, dependia de transformar a saúde pública nesse país, de dar acesso às pessoas. Para o mundo ser diferente precisa que as pessoas estejam saudáveis e as pessoas mais pobres são as pessoas menos saudáveis no mundo! Então como elas vão lutar contra essa opressão da dominação? Então a saúde pública, saúde coletiva, medicina preventiva, medicina de família e comunidade passou a fazer sentido pra mim. Passei um fim de ano muito bom, com muita expectativa. Passei a querer ser médica de gente!


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