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História

"Me sinto tremendamente realizada"

História de: Vilma Peramezza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/11/2021

Sinopse

Em seu relato, Vilma conta sobre a história de seu nascimento, nasceu antes do esperado e por isso nasceu em Cordeirópolis, conta sobre as brincadeiras de rua, as casas em que morou, o surgimento da televisão nas casas das pessoas, como aprendeu a ler sozinha, as escolas que frequentou, sobre as lembranças nos colégios religiosos em que estudou, a faculdade de direito na USP-SP, a vestimenta e uniforme da época, os bailes que frequentava, relembra dos namorados, do seu casamento e divorcio, sobre seus trabalhos e sobre se sentir “tremendamente realizada” com as suas escolhas e sua vida.

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História completa

P/1 – Bom dia, gostaria que a senhora me dissesse seu nome, o local e a data de nascimento.

 

R – Eu sou Vilma Peranezza. Nasci em Cordeirópolis, no interior do Estado de São Paulo, no dia primeiro de janeiro de 1942.

 

P/1 – A senhora anteriormente mencionou que nasceu lá por acaso. Como foi isso?

 

R – Sim, eu sempre morei, fui criada aqui em São Paulo e meus pais moravam aqui em São Paulo. Minha mãe nasceu em Santa Gertrudes, é vizinho, e meus avós maternos moravam lá. Como nós somos descendentes de italianos as festas de fim de ano são muito familiares e a minha mãe era a primeira que ia ter uma criança e foi passear lá no ano novo, era normal, e eu estava prevista pra nascer lá pelo dia vinte de janeiro, mais ou menos. E aí, às onze horas da manhã do dia primeiro, depois da minha mãe e minha avó terem assado os porcos, os frangos de ano novo, às onze horas da manhã eu vim ao mundo, no dia primeiro de janeiro de 1942. Meu pai estava em São Paulo, não estava lá. Fui a neta mais velha, a primeira neta de uma família muito grande. Os meus avós moravam em Cordeirópolis e até hoje eu tenho raízes com a cidade. Tenho minha mãe viva que está morando lá e nos fins de semana vou pra minha terra de terra vermelha.

 

P/1 – Qual o nome dos seus pais e de seus avós?

 

R – O meu pai chamava Ferrucio Peramezza. Morreu em 1970 e era mestre de obras. A família dele: o pai dele chamava Natale Peramezza e a mulher dele chamava Tereza Romano. O Peramezza veio de Ancona e até bem pouco tempo eu não tinha nenhuma notícia sobre a família na Itália. Todos os Peramezza que existem no Brasil são descendentes desse Natale. Então somos poucos, uma família que foi se extinguindo. E a internet, que é essa maravilha moderna, me fez encontrar alguns antepassados em Ancona. Eles procurando pelos Peramezza nos encontraram; e a gente descobriu mais essa raiz. A família do meu pai, todos os irmãos dele já faleceram. Meu avô não conhecia os avós paternos, e somos poucos, mas todos muitos ciosos desse nome, Peramezza, é meio raro, meio difícil de ser encontrado. Por parte da minha mãe, os Beraldo vieram também da Itália. Quer dizer, a parte do meu pai já veio alguém que trabalhava em construção, veio de Ancona. E a parte da minha mãe os dois vieram da região do Vêneto como imigrantes italianos pra substituir o trabalho escravo e foram para as fazendas do Conde Prates, as fazendas de Santa Gertrudes. Mas o meu avô logo cedo conseguiu escapar desse sistema agrícola e foi trabalhar, montou um moinho de fabricar arroz, beneficiar arroz, e fazer fubá. Ele se chamava Mansuetto Beraldo. Depois ele se naturalizou, ele tinha muito orgulho de estar no Brasil, porque diz que ele veio de uma região muito pobre da Itália, que ele fez, teve essa oportunidade, então ele se chamou depois Manuel Beraldo. Ele é nome de rua em Cordeirópolis, morreu muito moço, de enfarte. E minha avó, o lado feminino da família é muito forte, a mulher dele chamava-se Pierina Caron Beraldo. A dona Pierina morreu com 85 anos, muito lúcida, teve um derrame e morreu dentro de um mês. E no dia que morreu dizia para os filhos: “Vocês me deixam na cama, eu vou morrer. Me põe de pé. Me põe de pé que eu não morro”. Eu acho que essa é uma visão muito forte do lado materno das mulheres da minha família, minha mãe tem 86 anos ainda, está viva, lúcida; e dirige o seu carrinho lá em Cordeirópolis para fazer compras muito independente. Às vezes vem de ônibus aqui pra fazer compras na Rua Vinte e Cinco de Março. Então eu tenho um lado masculino – meu pai morreu também muito jovem, quer dizer, com sessenta anos – o lado feminino, as figuras femininas são muito fortes na minha vida, a partir da avó Pierina e da minha mãe e das irmãs da minha mãe.

 

P/1 – Quantos irmãos a senhora tem?

 

R – Eu ó, tenho uma irmã, Iara, nós somos duas meninas – ela é dois anos mais nova que eu – também uma figura muito forte. Ela teve três filhos que se casaram, então eu tenho seis sobrinhos e tenho sete sobrinhos netos: quatro meninas e dois meninos. Eu sou uma tivó: tivó é o nome que a minha sobrinha neta me deu quando ela era pequenininha, que é, eu não sou tia e nem sou avó, então eu sou uma tia avó. Como era difícil falar tia avó, ficou tivó. Então pra todos eles eu sou tivó; não tenho nem nome. Desde pequenininhos é tivó isso, tivó aquilo. E eu tenho uma ligação muito grande com as crianças, quando posso estou com elas. Tenho os meus três sobrinhos – a Adriana, a Andréia e o José Paulo – se casaram com o Álvaro, o Fernando e a Ana Julia. Então eu tinha três sobrinhos e passei a ter seis. Eles são muito carinhosos, a gente tem esse lado italiano; embora eu não tenha filhos eu tenho essa família muito carinhosa. E a minha irmã que me deu essa família casando com o José Ladeira, que a gente chama de Paulo, o apelido dele é Paulo, e que ela conheceu por uma história estranha. Ela conheceu o Paulo em um bairro de formatura no Fasano no Conjunto Nacional, em 62, por aí.

 

P/1 – Descreva a rua e o bairro que você morava quando você era pequena.

 

R – Eu morei... Até me casar eu só tive dois endereços mesmo. O primeiro nós morávamos numa casa muito simples, no fundo de quintal, na Rua Itaqui, no Pari. Eu acho que número 443. Eu morei lá até os sete anos, a primeira fase da infância...

 

P/1 – Como era lá?

 

R – Era muito difícil, como meu pai era um homem que viajava – ele trabalhava pro Estado e fazia escolas, cadeias, obras públicas – então ele ia embora de trem na segunda-feira e voltava na sexta-feira. Minha mãe tinha sido criada no interior tinha uma dificuldade muito grande aqui em São Paulo, embora fosse muito ativa, e nós éramos muito simples, morávamos num fundo de quintal na casa de dona Ana, que era uma portuguesa muito brava. Então eu e minha irmã quase não podíamos sair. E ali – eu tinha um tio da minha mãe que morava em São Paulo – ele começou a me ensinar a ler. Então antes de entrar na escola eu aprendi a ler, ali na Rua Itaqui. Saia no domingo com meu pai, vinha visitar o irmão dele aqui no Bom Retiro, e passava na banca, comprava revistinhas e sentava no bonde pra ler; e as pessoas não acreditavam que eu lia. E meu pai ficava muito orgulhoso e pedia pra eu ler só para as pessoas verem que eu já sabia ler. Um dia nós fomos procurar um lugar, ele queria construir a nossa primeira casa, e fui eu que achei o anúncio no Estadão (Jornal O Estado de São Paulo), deitada em cima do jornal no domingo – isso não tinha sete anos ainda – então descobri o terreno que ele veio comprar. Ali seria o começo de Santana, hoje não existe nem a rua. Chamava-se Rua D, era uma rua não oficial que depois passou a se chamar Rua Francisco Sá. Essa rua fica hoje onde é a Estação rodoviária do Tietê. Minha casa ficava exatamente onde é hoje o estacionamento de automóveis. Aquela região ali era uma várzea do Tietê. Meu pai construiu nossa primeira casa, e quando eu mudei pra lá em 49, era como se a gente tivesse ido pra uma mansão. A casa era nossa, tinha balança no quintal. Aí eu acho que a minha infância foi muito feliz, dos sete até eu me casar, aquela região, a Rua Francisco Sá, que não existe mais em Santana, foi muito rica. Eu sou uma pessoa privilegiada. Eu acho que São Paulo não tem mais essas histórias, uma rua curta, onde moravam várias famílias – todo mundo naquela época era trabalhador, tinha capitão da força pública, tinha um funcionário público da prefeitura, tinha um trabalhador da fábrica Klabin, de papel, outro era trabalhador da fábrica Ita. Quer dizer, eram trabalhadores, mas naquele tempo os homens, mesmo trabalhando em fábrica, tinham condições de manter uma família numa casa simples, mas confortável, os filhos na escola. Então a rua era curta e a criançada ficava na rua o tempo inteiro. Aí foi a festa! Quando eu saí da Rua Itaqui pra Rua D, foi alegria. Eu sempre sou muito – minha mãe diz que eu sou muito parecida com meu pai – muito rueira, como ela fala. Eu adorava ficar na rua brincando. Estudava, fui pra escola, o Colégio Marilac, ali na Rua Voluntários da Pátria, não existia nem a Avenida Cruzeiro do Sul. A Avenida Cruzeiro do Sul era proibida pra gente ir pra escola, porque era um caminho tortuoso no meio de umas chácaras. Eu lembro de colher na Cruzeiro do Sul um moranguinho silvestre que dava no mato. Outro dia eu consegui uma muda dessas e plantei na minha casa em Cordeirópolis, é um morango silvestre que se espalha assim, só pras minhas sobrinhas netas conhecerem uma coisa que não existe mais. Isso dava na Avenida Cruzeiro do Sul. A gente colhia morangos silvestres, amoras na subestação da Light (São Paulo Tramway, Light and Power Company). E eu tenho excelentes lembranças, acho que foi muito rico pra mim, essa convivência na rua.

 

P/1 – Como eram as suas brincadeiras?

 

R – Olha, tinha duas coisas que eu acho interessante, como tudo – a gente brincava de queimada, daquelas coisas – mas tem uma brincadeira que eu acho muito significativa. Era um grupo de meninas e algumas tinham irmãos, então tinha meninas e meninos. Isso com dez, onze anos. Havia alguns terrenos vazios onde a gente brincava de casinha, a gente brincava um dia de casinha de verdade e um dia de casinha de mentira. Quando era casinha de verdade a gente trazia os brinquedos, e todo mundo ganhava brinquedos, então a gente trazia todos os brinquedos, fazia um monte, misturava tudo. Aí escolhia duas famílias, as mais velhas eram as mães e os irmãos eram os pais. A gente brincava menina e menino de casinha, então sorteava os brinquedos e escolhia. O que eu acho muito interessante porque a gente não tinha “esse brinquedo é meu”, então fazia as panelinhas. Misturava um pouco a panela vermelha com a panela amarela, mas era tudo igual. Fogãozinho, a boneca. Só a boneca era da gente. Quer dizer, a minha boneca era a minha boneca. E os brinquedos eram misturados. Aí no dia seguinte a gente brincava de casinha de mentirinha, que eu acho essa fantástica: riscava no chão os cômodos da casa – o quarto, a sala, o banheiro – e a gente tinha já guardado lá no mato uma quantidade de tijolos, de latas. Com isso a gente montava um cenário. Fazia o sofá de tijolo, fazia... E tinha a vendeira, que era quem vendia as coisas, e a gente colhia naquela região uma porção de coisas do mato, que eu nunca mais vi, havia umas plantinhas no mato que davam uma bananinha, então aquilo era banana, pedra era batata. Tinha uma coisa que a gente chamava de joá, era um fruto que parece um pouco um tomate verde, a gente cortava tinha semente dentro. A gente não comia aquilo, mas montava lá o joá, tinha alguma coisa que fazia de arroz. Tudo faz de conta. E outro dia eu vi aquele filme Dogville e lembrei que a gente brincava de dogville no chão. Nunca mais vi ninguém fazer isso. Era uma forma muito de solidariedade. Então tinha um bando de crianças na rua, quando eram cinco horas da tarde e ia brincar de queimada, tinha sempre dois times ali. Eu acho que hoje a gente luta tanto pelo espaço do brinquedo, pelo espaço da convivência, eu tive uma sorte muito grande de ter vivido de 1949, até me casar em 1967, nessa Rua Francisco Sá. Tenho amigos que já morreram, outros conheço e convivo até hoje, uma delas é madrinha das minhas sobrinhas. E ali minha mãe com as vizinhas – tinha uma vizinha que bordava muito bem, então fazia parceria com a minha mãe – e a minha mãe bordava e costurava vestidos de noiva, os vestidos de baile. Quando eu fiquei adolescente a gente ia sempre nas festas, nos bailes, toda enfeitava e minha mãe que costurava.

 

P/1 – Mas descreve o cotidiano da sua casa.

 

R – Bom, eu estudava no Colégio Marilac. Era sempre uma menina muito... Sempre fui muito viva, eu acho que a inteligência não é mais nada que você se orgulhe, que você nasceu. Era boa aluna, ia pro Colégio Marilac todo mundo junto. Eu estudava no primário na parte da tarde, e o resto ficava em casa. Ajudava a mãe um pouco ali enquanto minha mãe fazia o almoço. À tarde eu fazia as lições. Depois de cinco horas da tarde a gente tinha liberdade de brincar. Não tinha nem a televisão, eu lembro quando apareceu a televisão, havia duas na rua e uma casa era muito fechada, a gente não podia entrar, então a gente ficava no muro pra ver o Falcão Negro, por exemplo. A outra, o seu Marino já era mais aberto, então ele punha uns bancos na sala – a dona Olga, coitada, tinha uma paciência – porque a gente invadia pra ver alguns desenhos animados, do Pica-pau; e quando tinha jogo de futebol a Dona Olga tinha que aguentar todos os homens da rua pra assistir o jogo de futebol na televisão. O que era uma novidade, né?

 

P/1 – Como e quando você iniciou os estudos?

 

R –  Pois é, eu aprendi a ler sozinha. Naquele tempo não tinha aquela coisa de ir pra escola. Você só ia pra escola com sete anos, no primeiro ano. Mas eu tinha um tio que viu que eu tinha uma curiosidade muito grande de aprender e me comprou um caderno de caligrafia, e ele saía e voltava dois dias depois, porque ele estudava aqui em São Paulo, então ele me fez o: A, E, I, O, U. Depois A, B, C, D, E, e quando ele começou a montar o B, A, com BA, na outra seman, ele levou um susto porque eu já tava juntando as palavras. Eu falava: “Olha, deu babá, deu bebê”. Aí ele foi me ajudando e eu fui montando as palavras. Quando eu entrei na escola eu sabia ler. E entrei no Grupo Escolar Santo Antonio do Pari, ainda no Pari, antes de mudar para Santana. E cheguei no primeiro dia de aula e falei pra professora: eu já sei ler. Aí ela falou: imagina, você nunca foi na escola. Ta bom. Aí ela pegou um livro de leitura. Naquele tempo você tinha a cartilha, que era Caminho Suave – um dia desses eu achei essa cartilha e dei pra minha sobrinha neta e foi uma festa lá em casa – eu comprei a cartilha, cheguei lá, e tinha um livro de leitura que era do João (Kock?). Engraçado como essas coisas ficam firmes na memória da gente. E eu me lembro de uniforme azul, azul marinho, a professora falando: “então você vai ler aqui”. E eu peguei o livro e era a história de um homem que vendia chapéu. Tinha a imagem dele embaixo de uma árvore, ele cochilou, as caixas de chapéu abriram e os macacos vieram brincar com o chapéu. E eu lembro que eu li aquilo com pontuação, ela ficou muito impressionada, então ela falou: “você não precisa mais da cartilha”. E eu dei a minha cartilha para uma menina, que eu acho que não tinha muito dinheiro, e ganhei da minha mãe o livro. Então eu sempre fui muito distinguida na escola, sempre fui muito primeira aluna, só não era muito comportadinha, não. Eu gostava muito dos recreios, das brincadeiras, não era uma Caxias.

 

P/1 – Como era a escola que você frequentava?

 

R – Bom, eu fiquei dois ou três meses só nessa escola, no Santo Antonio do Pari, e aí nós mudamos pra Santana. Então eu tive que fazer a transferência. Eu me lembro que a professora não queria me dar a transferência, eu tinha que continuar a estudar lá. Então eu fui pro colégio de freiras, o Colégio Marilac, que também é uma história que São Paulo perdeu. O Colégio Luiza de Marilac ficava - existe até hoje lá, acho que até é uma faculdade - na Rua Voluntários da Pátria. E naquele tempo era interessante porque a escola pertencia à igreja – as irmãs de caridade das irmãs de Marilac, as Vicentinas, que é a linha de São Vicente de Paula, de Luiza de Marilac, as freiras usavam aquele chapelão armado, e elas eram muito simples, muito ligadas nas coisas de caridade, e a escola pertencia à igreja – mas as professoras eram pagas pela prefeitura. Então a escola era assim: você pagava se quisesse. Tinha um uniforme xadrezinho, de tecido muito simples; ali eu fiz amizades. Uma das minhas amigas, que eu tenho até hoje, Neide Arcanjo, é uma poeta consagrada, a gente se conheceu lá com sete anos, fizemos juntas a primeira comunhão. Também foi uma época fantástica, porque era uma escola muito boa, e a convivência com essas freiras Vicentinas me deu a oportunidade de conhecer essa coisa da caridade cristã de um outro jeito, ela tinha essa relação muito grande de contato com os pobres: essa coisa de São Vicente de Paula. E ali nós fizemos, quando eu tava no quarto ano primário, a gente tinha uma associação das meninas chamada As Luizas de Marilac, eram as meninas, o colégio era só, não, esse colégio era misto; depois eu fui para o Colégio Santana que era só de meninas, mas as meninas mais se reuniam nessa associação, e a gente fazia piquenique, aquela coisa do lazer, mas a nossa função era cuidar de senhoras idosas que morassem sozinhas, de preferência. E a nossa função não era arrumar roupa, dinheiro, porque naquele tempo nem a miséria era tão terrível como hoje. Havia muitas senhoras que perdiam as famílias que moravam em porões, em uma casinha abandonada. O Imirim todo, que hoje é uma cidade ali, era lugar que havia uns casebres, e a nossa função era visitar pelo menos uma vez por mês as vovós – cada uma tinha a sua vovó. Então a gente saia no sábado à tarde umas cinco ou seis, um bandinho, e íamos todas juntas visitar as vovós. Então iam todas na casa de uma vovó, as outras iam na casa da outra vovó; e a gente não tinha obrigação de dar nada. A obrigação era conversar com a vovó e manter um vínculo afetivo. E a irmã Vicenza e a irmã Inês, dessa associação – eu acho que a elas eu devo muito das coisas que depois eu desenvolvi nesse chamado terceiro setor, a vontade de você fazer a relação com o outro mais do que você dá. Aí apareceu nossa primeira rebeldia: nós cuidávamos dessas velhinhas, das nossas avós, e de vez em quando fazíamos o almoço, lá no Colégio Marilac, e era combinado: nós tínhamos que servir as vovós e sentar ao lado e comer junto com elas. Eu me lembro que a irmã Vicenza dizia: “Se vocês forem visitar”, mas era outra história, né? Essas vovós viviam limpinhas, comiam bonitinhas. Alguém dava alguma coisa, não sei bem como elas viviam. Mas não era uma coisa de você ir a um lugar com o chão de terra, sujeira, nada. Elas diziam... Às vezes as pessoas faziam canecas com massa de tomate Elefante, não sei nem se existe ainda, eram as latinhas de massa de tomate, então às vezes alguns folheteiros passavam na rua, eles batiam e faziam uma alça. E aquilo era uma canequinha. Elas falavam: “se você oferecer um café ou um suco na xícara da massa de tomate, tome. Porque aquilo é o carinho que ela faz pra vocês”. Hoje é uma coisa: “Não, você não põe a mão, você não...” Então nós tínhamos essa relação. Um dia nós fomos pro Ipiranga levando todas as vovós num evento, porque a associação estava crescendo e alguém ia recepcionar um deputado que ia dar pra gente um terreno e ia fazer uma cidade dos velhinhos. Lá fomos nós com nossas vovós num caminhão, imagina, um caminhão com umas cadeiras, levamos as vovós. E quando chegou lá – o almoço estava marcado para umas onze horas, por aí, e era uma hora e o raio do deputado não chegava, e as vovós com fome; e as senhoras que tinha feito o almoço lá, cuidando que ninguém entrasse na cozinha – eu e Lady, olhando pras nossas vovós com fome, fizemos o quê? Uma rebelião. Entramos na cozinha e falamos: “A hora que o deputado chegar ele come o que quiser, mas isso aqui é pras nossas vovós”. E fomos lá e invadimos a cozinha, pegamos a comida, demos pras vovózinhas. A pessoa que organizou a festa ficou tão injuriada, e nós voltamos vitoriosas – tinha uns quatorze anos, treze, por aí. No dia seguinte a freira disse que veio uma ordem de cima que tinha que extinguir a sociedade lá porque nós éramos muito indisciplinadas. Essa minha ligação com essa relação com a vivência do outro, eu aprendi muito no Colégio Marilac, de quem eu tenho muitas boas lembranças. E até algumas amigas que eu fiz, até hoje, que eu fiz lá no Marilac, onde eu fiz o primário completo e acabei, nos anos cinquenta e...? 1949, cinquenta, 51, 52. Com uma medalha de primeiro lugar, muito orgulhosa. Eu tenho a medalha até hoje, acho que dei pra minha sobrinha.

 

P/1 – A senhora falou que fez um grupo de amigas que tem até hoje...

 

R – Pois é.

 

P/1 – E era só do colégio?

 

R – Bom, tinha os amigos da rua, que nem todos estudavam no Marilac, alguns estudavam no Grupo, naquele ano, Grupo Escolar. Depois algumas dessas do Marilac foram comigo pro Colégio Santana, aí eu fiquei até… Ali também fizemos um núcleo de contestadoras. No Colégio Santana as freiras eram as irmãs de São José, com aquele hábito negro, preto, aquele babador duro. E as irmãs de São José já eram... Aquele Colégio Santana maravilhoso. E meu pai, por exemplo, ele tinha aquela sensação, como ele e minha mãe não conseguiram nem acabar o primário ele sempre achou, e minha mãe também, que a educação ia ser o passaporte pra gente ser alguém na vida. Então, estudar em um colégio de classe média alta, naquele tempo ainda tinha internato, muitas meninas de família ficavam internadas lá. E as irmãs lá eram: a superiora chamava Lucia Imaculada Leal da Costa, a outra Pignatari. Quer dizer, eram as mulheres ainda das famílias quatrocentonas que entravam para os conventos e eram professoras muito bem formadas. O colégio era de origem francesa. Aprendi então francês desde a primeira série do ginásio. Ali a gente aprendia as boas maneiras, como se sentar, como falar com o superior de olhos abaixados. A freira ficava brava comigo porque eu olhava no olho dela pra falar e, às vezes, eu enfrentava e ela dizia: “Abaixa os olhos, sua insolente!”. Essa coisa da submissão. Então, o Colégio Santana me passou o outro lado dessa vivência, mas também fez a gente se unir muito. Nós criamos a JAC, existia a JEC, era Juventude Estudantil Católica, e que o bispo mandou fazer na escola e a freira fundou. Mas a gente achava - isso já estava no quarto ano do ginásio - que a JEC tinha que ser uma coisa dos estudantes, quer dizer, aí nós já estávamos começando aquela efervescência que redundou na política estudantil. Então a JEC já tinha uma direção, e nós reunimos um dia lá e a freira estava presente na reunião. E eu, a Neide, mais um grupo falamos: “Não, nós não queremos a senhora na reunião, a reunião é nossa, dos estudantes. Nós queremos aqui uma monitora da JUC”, que era a Juventude Estudantil Católica. A freira ficou brava extinguiu a JEC. Então nós criamos a JAC, Jovens Amigas da Confusão (risos). E nós tínhamos um estatuto. Fizemos um – era uma coisa meio parecida com aquela coisa da Sociedade dos Poetas Mortos – a gente fez um juramento, assinou o caderno, a gente não ia entregar ninguém, aquela coisa. Fazíamos um jornalzinho clandestino, eu levava dentro de um livro, e ao sábado à tarde a gente ia para o colégio das luizinhas, das irmãs, davam uma sala pra gente. E a nossa alegria era ouvir, já nos anos 58, por aí, quando uma de nós conseguia o disco do Elvis, a gente ouvia Elvis Presley. E criou-se um núcleo de amizade muito grande. Até quando a gente saiu da escola. A gente se formou. A Neide – houve um problema interno lá que a Neide foi reprovada em matemática, uma coisa absurda – e a Neide era nossa líder. Então nós saímos de lá e roubamos, pichamos o caminho da capela, JAC, JAC, JAC. Roubamos o sino da capela e fizemos de troféu. Então levamos pra casa de uma das nossas lá, onde a gente comemorou e muito triste porque a Neide não tinha ficado. Uma semana depois o pai dessa menina faleceu de repente e nós corremos pra lá, e a freira estava lá,  a nossa preocupação era esconder o sino. Então levamos pra casa da Neide, o sino. Aí nós já tínhamos saído do colégio, e continuamos com a amizade. Algumas que tinham que continuar na escola e a freira não queria saber que elas continuassem a amizade com a gente. Aí nós vimos que nós precisávamos ajudar as meninas. Eu fui pro colégio estadual, a Neide também, e as meninas que continuaram lá eram três da nossa turma – aliás, eu vou ter um encontro com elas agora, a semana que vem, todo ano a gente se reúne. Quando eu recebi agora o convite pra... Quanto? Cinquenta anos? Não, gente! Não é possível! Pra gente livrar a cara de quem ficou nós pegamos o sino, levamos na paróquia, chamamos o padre e falamos: “Padre, nós viemos fazer uma confissão coletiva. O senhor tem que guardar porque é segredo de confissão: esse sino nós roubamos da capela das freiras. O senhor vai devolver e não vai dizer quem foi que levou”. Imagine isso com quinze anos! Depois mandamos um cartão de natal, extremamente provocativo, pra freira lá. Eu me lembro que abria, tinha umas flores com um cheiro forte. “A turma inesquecível de 54, JAC.” Quer dizer, ali começou também toda uma cultura da clandestinidade e da contestação.

 

P/1 – Você praticava esportes na época?

 

R – Sim. Eu tive um problema antes de entrar no ginásio, depois a gente chegou até a conhecer uma doença da tireóide. Eu era bem gordinha, rechonchuda, como toda filha de italianos. E eu tive um emagrecimento estranho, onde eu fiquei com o rosto mais afinado, não se sabia bem o que era. Então meu pai achava que eu devia praticar esportes, desde jogar queimada... Jogava vôlei. Mas eu acho que ainda quando eu estava no primário meu pai matriculou a gente no Clube de Regatas Tietê. Então, esse grupo da rua também ia pro Tietê, onde eu nadava, andava de patins, jogava bola. Quer dizer, eu nunca fui muito esportista, mas gostava muito das coisas que se faz em grupo, coletividade. Nunca fui de ficar fazendo ginástica sozinha, mas jogar, sempre fiz isso. Jogávamos vôlei.

 

P/1 – Qual era a moda na época?

 

R – Era muito engraçado. Bom, tem a história do uniforme do colégio, a saia era pregueada, de lã, podia fazer o calor que fizesse. E ela era um palmo acima do sapatão. Então você imagina, era comprida. Uma meia de algodão branca até aqui em cima, a gente usava com liga, um sapatão preto, horroroso, uma blusa branca de manga comprida e gravata azul marinho. E um blazer azul marinho de sarja. Esse era o uniforme do Colégio Santana. E tinha o uniforme de gala: que a blusa era de seda, a gravatinha era borboleta, tinha um chapéu de feltro, meia de nylon e sapato de verniz. E o uniforme de ginástica, eu acho que isso é interessante falar porque ninguém imagina, era um colégio só feminino, então o uniforme de ginástica era um calção que vinha até o joelho, e por cima um vestido godê, de algodãozinho, azul marinho, gola branca, manga curta, o tênis. E a primeira aula a professora ensinava – todas as moças juntas – ensinava a gente trocar de roupa de forma que ninguém visse a outra sem roupa. Então, a primeira ginástica que a gente aprendia era vestir o calção por baixo da saia do uniforme. Depois enfiar o vestido até a metade pra tirar a blusa por baixo, pra poder descer o vestido de tal forma que ninguém se visse descomposta. Até hoje eu sei fazer essas coisas (risos), me trocar na frente dos outros sem que ninguém me veja me trocando. Então, até hoje você nem imagina, você jogar vôlei, ou você fazer uma ginástica com vestido numa escola só de meninas. Quando eu penso nisso até parece que eu vivia noutra época, noutra encarnação, sei lá.

 

P/1 – E os bailes?

 

R – Os bailes eu já tinha meus dezesseis anos, então a rua todinha ali, não era só a minha mãe que costurava. As mulheres costuravam muito, a gente comprava tecido e a nossa alegria era pegar as revistas e copiar modelos do cinema. Então, a Audrey Hepburn, que tinha um vestido branco bordado de preto, não sei se é no Sabrina, ele era maravilhoso. Uma de nós, uma vez com a minha mãe e a dona Anita fizeram junto um vestido que eu nunca mais vi, tão lindo, a réplica do vestido da princesa Anastácia, do filme da Ingrid Bergman. Era todo na frente bordado de paetês. A gente mesmo, a dona Anita bordava um pouco, a gente bordava o paetê. E a minha mãe reciclava todos os anos, tulê de cima pra baixo, de baixo pra cima, cor de rosa com azul. Nós sempre tínhamos dois ou três vestidos desses bem armados, com aquela saia, as anáguas que a gente tinha que engomar com maisena, ficava duro. Quer dizer, a gente sentava no automóvel, o vestido vinha quase ao nariz, de tanta roupa que tinha, o salto alto. E dançávamos nos bailes. Eu acho que essa coisa era de um romantismo, porque nos bailes de formatura - é o que mais eu me lembro – os meninos tinham que ir de smoking e nós todas com aqueles vestidos. Isso com quinze, dezesseis anos. E os bailes tinham aquelas orquestras lindas: Silvio Mazuca, Zezinho, Luiz Arruda Paes; eram orquestras mesmo. E os salões de São Paulo eram maravilhosos, a casa de Portugal, outro dia eu fui lá fiquei tão triste. Era o Clube Homs a Casa de Portugal, o aeroporto, o Clube Pinheiros e o Fasano no Conjunto Nacional. Então essa era a moda das festas. A moda da escola era o uniforme; a moda de ficar em casa era o vestido mais velho, quando a gente tinha um vestidinho novo que ficava velho era o que a gente usava em casa. Tinha um sapato bom pra sair, um sapato pra ir à escola, uma sandália pra ficar em casa. Mais ou menos era isso. E depois que eu fiquei mais mocinha eram umas saias bem rodadas. E quando eu comecei a namorar já vinha pra cidade de bonde.

 

P/1 – Quando foi que você conheceu seu primeiro namorado?

 

R – Olha, uma coisa muito diferente de hoje. Hoje eu fico impressionada, os meninos de doze ou treze anos já ficam. Mas era muito complicado antigamente. Tinha, eu nunca fui muito namoradeira, eu tinha muito mais amigos. Na verdade eu comecei a namorar mesmo com mais de vinte anos. Porque eu tinha muitos camaradas, muitos amigos, saia. Tinha o Mário, que já faleceu, era como meu irmão, me levava pra dançar, me levava aos bailes. Então, era assim: quando a coisa complicava um pouco, eu queria sair de alguma situação, eu corria atrás do Mário, ele me levava pra tomar um drinque, qualquer coisa, ele ficava comigo. Meu pai deixava eu sair com ele. Saia pra ir aos bailes. Acho que a primeira paixãozinha era um irmão de uma colega do ginásio, a gente tomava o bonde. Ele passava, ia almoçar, então eu tomava o bonde pra ir e ficávamos flertando no bonde. Até que muito devagar eu comecei a ir ao cinema. A gente saia pra namorar, todas as meninas da rua já com uns quinze, dezesseis anos. Nós saiamos de domingo, saiamos já as duas e meia da tarde, marcávamos um encontro em frente à igreja Santa Efigênia, era onde chegava o nosso ônibus, ou bonde. A gente chegava ali e os meninos vinham de várias partes da cidade. A gente marcava ali. Não tinha telefone, celular. Telefone era uma coisa muito rara, a gente não tinha muito como se comunicar. Marcava ali, então íamos quatro ou cinco, arrumadinhas, as mães da gente, às vezes, achavam que a gente ia sozinha ao cinema, no grupo. Chegava lá vinham os namoradinhos. A gente ficava lá até a última ser recolhida pelo namorado, se alguém faltasse tinha que ficar segurando vela de alguém. Então, a gente saia, ia dar uma volta, ia ao cinema ali no Paissandú, na Avenida Ipiranga, era o chique. Ás vezes, quando o namorado era um pouquinho mais sofisticado, tomava um chá ali na Vienense, na Barão de Itapetininga. Outra coisa que eu me lembro muito era o Salada Paulista, acho que foi o primeiro fast-food da cidade de São Paulo, na Avenida Ipiranga. Nem sei o que é hoje lá. Mas tinha um balcão, você comia uma salsicha com uma salada de batata deliciosa. Quando era umas sete horas, oito horas da noite, nós estávamos voltando todas pra casa. Não se podia chegar em casa depois de onze horas da noite. Era uma coisa muito simples. Na praia – também passava as férias na Praia Grande – aí tinha os namoricos de praia. Namorado mesmo, de namorar, eu já tinha mais de vinte anos, namorei um tempo com ele. Eu me lembro que, tudo era tanto pudico que os filmes, você vê, eu lembro dos filmes dos anos cinquenta, quando o casal se beija nem aparece muito. Aparecia sempre a mulher levantando o pezinho atrás, pra dizer que estava sendo beijada. Então, às vezes, a mulher mais pudica ficava brava, reagia, batia no cara, como se fosse uma ofensa ser beijada. E eu me lembro que eu briguei muito com meu primeiro namorado. Eu gostei sim, lógico que gostei do beijo, lógico que a gente vai caminhando. Isso foi mais ou menos, anos 58, sessenta. Depois eu entrei na São Francisco, em 63, aí foi que eu comecei realmente a ter meus namorados. E em 64 eu conheci o que foi meu marido. Que era o José Carlos de Paula Carvalho, eu conheci na faculdade de direito. Eu posso dizer que ele foi o meu primeiro namorado mesmo. Eu tinha muitos amigos. Até hoje eu tenho muitos amigos homens, me dou muito bem com os camaradas homens. Eu não era muito casadoira. Já achava que a minha vida não era assim: “Olha, o meu sonho é ter uma casa, casar e ter filhos”. Eu achava que eu tinha que fazer outras coisas. Eu tinha que trabalhar. Eu também estudei piano, nove anos, me formei no conservatório; dei aula no Conservatório. Tinha também um namorico no conservatório. Foi uma pessoa que depois que eu me desquitei, eu convivi dez anos com ele. Era alguém que eu já conhecia no conservatório, era professor junto comigo. Então, eu tinha muitas amizades. E tive o marido, o José Carlos, eu casei em 67, casamos na Igreja das Perdizes, porque nós éramos contestadores, não queríamos casar na igreja. Mas, imagina, meu pai já tinha tido um derrame, como é que ia ficar se eu não casasse na igreja? Então, a maior concessão que nós fizemos foi casar na igreja dos Dominicanos, já eram os revolucionários. Aí eu já era da esquerda, tudo o mais. Então o máximo de concessão era casar com os Dominicanos. Casamos em 1967. Eu vivi com ele até 73, depois nos separamos. Eu me divorciei. E aí por volta de 74 até 84, 83, eu vivi com o Venceslau Lazari Campos, era meu companheiro. Depois disso eu tive muitos namorados, depois também. Eu assumi uma vida independente, não tive filhos. E acho que sou uma pessoa hoje muito preenchida com amizades. Quer dizer, o casamento como finalidade da minha vida nunca foi um grande horizonte. Não que eu tivesse nada contra. Parece que era uma coisa que já estava escrita na minha vida. Não era esse o meu caminho.

 

P/1 – E o que te levou a fazer o curso superior? Você falou que estudou na São Francisco.

 

R – Bom, aí é que está. Quer dizer, desde pequena os meus pais mostravam que o estudo era a única forma de você ascender socialmente. Como é que eu poderia ser alguém se eu não tivesse estudo? Então a dedicação pra estudar, para estudar piano, ser leitora e tudo. Quando eu era menina, eu ia com a minha mãe fazer compra na cidade, eu via o pessoal com aqueles livros, saindo da faculdade, eu achava! A palavra faculdade pra mim tinha uma magia. Como será que era ir à universidade? Na faculdade? Eu estudei, eu fiz o colegial no ____, Doutor Otávio Mendes, um colégio estadual. Estudava piano no Conservatório de Santana, fiz os nove anos de piano. Toquei um movimento de concerto de _____ pra orquestra, regido pelo Túlio Colacciopo no auditório do Mackenzie, na minha formatura. E depois fechei o piano, porque eu seria apenas uma intérprete medíocre. Mas dei aulas de História da música. Então o estudo era importante. Depois que eu sai do conservatório fiz três anos, na Caetano de Campos, de canto orfeônico. Hoje é educação musical, e era pra dar aula nas escolas, aula de música. Não que eu – eu tenho uma dificuldade muito grande com a música como instinto – eu sei teoricamente, tanto que eu sei ler partitura, mas não tenho ouvido pra copiar uma música, ou cantar. Mas o canto orfeônico naquela época era um instrumento de educação. Bem dentro da idéia do Vila Lobos, que usava a música como meio de socialização. Até hoje, até pra trazer para os dias de hoje, lá no conjunto nacional tem um vocal nacional. Sempre achei que a música é uma socializadora muito grande. Então fiz três anos de canto orfeônico. Então, aí eu já estava pra me casar. Não, isso foi em 63, a minha irmã se casou com o Paulo que era formado na São Francisco. Então ele falou: “Faz um vestibular lá”. Eu tinha loucura pra fazer. E por que a São Francisco? E por que eu queria a São Francisco? Primeiro que eu não tinha dinheiro pra pagar uma faculdade. Eu vivia nessa altura, meu pai ganhava um dinheirinho, a vida começou a ficar mais difícil, mas eu ganhava dando aula no conservatório, dando aula particular. Então, tinha um dinheirinho que dava pra comprar uma bolsa da Corello, que era o meu sonho de consumo na época. Um cinto, uma bolsa, um sapato, ou alguma coisa assim. Não dava pra pagar uma universidade. E eu também era da USP (Universidade de São Paulo). Então meu cunhado me entusiasmou e eu falei: “Não, se for pra estudar tem que ser na USP”. Então eu fiz o vestibular em 64, já tinha saído do CEDOM (Colégio Estadual Doutor Otávio Mendes), o CEDOM era um colégio tão fantástico que eu nem fiz cursinho. Todos os livros, os meus cadernos do colégio que me serviram pra estudar. E eu estudei uns dois ou três meses em casa fechada. E fiz o vestibular em 64 passei. Então, a São Francisco realmente foi o salto de qualidade pra eu ser alguém na vida, pra ser uma profissional. Eu nunca fui advogada, mas o curso de direito está integrado dentro de mim. Também fiz muitos amigos, tenho até hoje. Nós já fizemos 36 anos de formatura. Nos reunimos nos 35 anos e fizemos uma festa tendo aula na classe, com o professor Dalmo Dallari, que começou a dar aula lá no nosso tempo. Nós fomos pra classe do primeiro ano, pra todos nós era muito maior do que a gente viu agora.  Parece que as coisas diminuem com o tempo. Fizemos uma passeata. Nós saímos e fomos ali ao Itamaraty tomar uma cerveja, e depois fomos até o Bar Brahma, na Ipiranga, em passeata. Isso faz uns dois anos. Porque nós fomos da turma das passeatas. Em 64 à 68 na São Francisco. Fiz um ano de filosofia na USP também, na Maria Antônia, em 67. Quando a Maria Antonia foi destruída, vocês se lembram naquela briga com o Mackenzie, e foi pra cidade universitária. Aí eu já precisava trabalhar, já estava casada, em 68 – meu pai tinha tido um derrame, minha mãe precisava de ajuda – eu precisava trabalhar e não podia estudar lá na cidade universitária, era uma coisa distante. Então eu fiz um ano de filosofia na USP, aqui na Maria Antônia ainda. Depois em 80 e pouco – depois de uns vai e vens profissionais – eu fiz a pós-graduação na São Francisco. Em 82 eu defendi a minha tese de mestrado. Meu orientador é o Miguel Reale, pai. Que está aí, uma figura impressionante, com noventa e tantos anos, muito lúcido. O Moacir Lobo da Costa, professor de direito processual, e o Aluisio Ferraz Pereira. Eu fiz a minha dissertação em 82. Fiz todos os créditos do doutorado, mas desisti de fazer a tese. Eu não queria fazer carreira universitária, não queria ser professora. Já estava muito envolvida no Conjunto Nacional. Então, a universidade foi realmente pra mim uma ferramenta importante. Lógico que eu com um diploma da São Francisco tive as portas mais abertas pra trabalhar do que se eu não tivesse. Foi um salvo conduto pra que eu começar a trabalhar. As mulheres ou eram secretárias ou não tinham outras alternativas. No tempo que eu me formei as mulheres não podiam ingressar na magistratura, mesmo que fossem gênios, havia uma, alguma censura interna, que a gente não sabe muito bem o que é. Mas você não sabe de uma mulher em São Paulo que tenha entrado na magistratura nos anos 68, 70. Eu acho que de lá pra, não sei se foi 77, 78. Eu brinco com meus amigos que hoje são desembargadores: as mulheres começaram a entrar quando as suas filhas começaram a se formar. Quer dizer, houve abertura do espaço para as mulheres quando as filhas dos desembargadores, dos juízes, começaram a procurar. E realmente é. Muitas das primeiras juízas eram filhas ou sobrinhas de juízes. Promotoria também era muito difícil. Eu precisava ganhar algum dinheiro, então eu fui trabalhar na Savoy (Savoy Imobiliária Construtora Ltda), é outra história. Mas a São Francisco serviu pra mim de abertura de caminhos e uma formação acadêmica muito importante, um relacionamento muito bom. Tenho hoje grandes amigos que são desembargadores, secretários de estado, e muitos políticos que estiveram comigo naquela época, na faculdade de direito.

 

P/1 – Agora vamos conversar um pouco sobre sua trajetória profissional. Com quantos anos você começou a trabalhar?

 

R – Comecei a trabalhar, que eu lembre, com uns quatorze, quinze anos, que eu comecei a ganhar. Eu chamo trabalhar você ganhar um dinheirinho com seu próprio trabalho. Então eu lá ainda na Rua Francisco Sá eu dava aulas de piano para alguns vizinhos, e aula de reforço pro filho dos vizinhos que tinham problemas na escola. Então eu dava aulas particulares, dava aulas de piano. E assim eu tinha um dinheirinho. A primeira coisa que eu comprei, eu tenho, comprava coleção de livros, era uma delícia. Não consegui comprar o Tesouro da Juventude porque era muito caro, mas eu tenho uma coleção de clássicos, Jackson, guardada até hoje, devo ter comprado à prestação. Eu comprava livro à prestação. Uma compra que me deixou muito feliz foi um rádio portátil SPICA, japonês. Tinha uma capa de couro. E a gente tomava o bonde ouvindo o rádio. Uma coisa que hoje parece muito estranho. Depois o pessoal começou a dizer que o público que vinha do nordeste nos anos sessenta, a primeira coisa que queria fazer quando vinha à São Paulo era ter um rádio pra ouvir. Mas isso foi a primeira coisa que eu adquiri com dinheiro do meu trabalho.

 

P/1 – E depois das aulas particulares?

 

R – Eu dei aula no conservatório, depois eu dei aula em escola. E o primeiro emprego... Eu fiz também, em 65...

 

P/1 – Você lembra do seu primeiro...?

 

R – Depois eu dei aula no conservatório de Santana. Aí já era carteira assinada, tudo.

 

P/1 – Então, o primeiro emprego de carteira assinada?

 

R – Foi no conservatório. Eu dava aula de teoria, no Conservatório de Santana. Dava aula de História da Música no conservatório de São Caetano do sul. Enquanto ainda estudava no Caetano de Campos. Até me lembrei essa semana.

 

P/1 – Você lembra do primeiro dia de trabalho com a carteira assinada?

 

R – Ah, lembro. Eu era aluna no conservatório e no outro ano eu passei a ser professora. Então já entrava na sala dos professores, já usava o avental branco. Tremia muito porque estava preocupada. Dava aula de Teoria Musical. Os conservatórios tinham um currículo muito apertado, com muitas disciplinas. Tinha três anos de teoria, depois eu comecei a dar História da Música, depois dava aula de acústica.

 

P/1 – E o primeiro dia, como foi?

 

R – Ah, eu acho que me lembro muito pouco. Lembro-me da minha mãe ter feito um avental branco, deu ter passado de aluna pra professora: de conviver com aqueles que haviam sido meus professores. Mas eu dava aula lá, dava aula em outro lugar. Então era assim. Era meio corrido, porque estudava, dava aula, às vezes, de manhã, de tarde.

 

P/1 – Que horas você ia pro conservatório?

 

R – Tava lembrando com a minha mãe ontem, anteontem, essas coisas da comunicação em São Paulo naqueles anos. Isso era por volta de 59, sessenta. Eu morava em Santana, pegava o ônibus elétrico de manhã pra estudar na Caetano de Campos, na Praça da República. Imagina que não tinha esse trânsito horroroso, a gente ia em vinte minutos. Ficava na aula até meio dia. Voltava pra Santana pra almoçar. Porque a gente não gastava dinheiro fora, gastava condução, almoçava. A minha mãe fazia o almoço. E eu saia correndo, pegava o ônibus de novo, descia na estação da Luz, pegava um trem pra chegar mais ou menos duas, três horas em São Caetano, na Rua Goiás. Descia na estação do trem, ia a pé até a Rua Goiás, dava aula de História da Música até mais ou menos umas quatro e meia, cinco horas, cinco e meia, por aí. Saia correndo, pegava o trem, voltava, pegava o ônibus, ia pra Santana; jantava rapidinho, descia, pegava o bonde ou ônibus e ia dar aula no Conservatório de Santana das oito até às dez da noite. Eu imagino hoje que jamais alguém poderia fazer essa maratona num dia. Para você ver como São Paulo – e isso aí não são cem anos atrás, nem cinquenta – São Paulo você tinha mobilidade, você não tinha problema de segurança, você tomava um trem de subúrbio sozinha. Era uma outra história. Então, essa vida, de dar aula de dia, de noite, de ir pra cá ir a Mooca, durou até 67 quando eu me casei. Aí eu prestei um concurso na prefeitura de São Paulo, eu fui professora de música em Parque infantil. Concursada, funcionária pública, casada. Estava tudo resolvido na minha vida. Então eu dava aula em dois parques infantis, um na Vila Jaguara. Meu pai emprestava o carro pra ir. Meu pai tinha um chevrolet 48. Imagina só, nos anos sessenta o chevrolet era ótimo ainda. Eu aprendi a dirigir com aquele carrão lá. Então ele emprestava o chevrolet e eu ia pra Vila Jaguara porque era impossível ir de condução. Isso antes de casar ainda. E eu tinha um outro parque infantil – que eu dava aula alternado – era na Vila Mariana. Era pequenininho, cheio de funcionários, todo mundo queria trabalhar lá. Tinha uma diretora brava, horrorosa. E ela não queria... A prefeitura dava comida para as crianças, mas ela achava que as condições lá eram poucas então ela rejeitava a comida. Embora fosse na Vila Mariana as crianças que iam eram as filhas das empregadas domésticas, não era que os moradores da Vila Mariana mandassem as crianças pra lá. Então ela exigia que as crianças levassem marmita e eu ficava tão revoltada com aquilo. Porque aquela marmita horrorosa, quando a prefeitura dava alimento. E na Vila Jaguara, por outro lado, o parque era novo, tinha jabuticabeira, tinha uma cozinha maravilhosa, e a diretora lá – ninguém queria trabalhar na Vila Jaguara, então não tinha muito funcionário. Aí lá era muito mais afetuoso e a gente se reunia e a diretora falava: “Olha, se não der tempo de você dar música, me ajuda” - porque havia mais de cem crianças – “a fazer essa criançada comer”. Então eu ia pra cozinha, fazia. E via que lá a gente oferecia mais para as crianças do que aqui na Vila Mariana. E tinha uns meninos muito mal educados aqui na Vila Mariana, um que provocava os menores pra subir na árvore e se atirar, brincando de capitão Marvel. Depois de duas vezes que eu fui pro pronto-socorro levando crianças aos sábados, perdi encontro com namorado, porque eu era a única solteira que ficava com as crianças no pronto-socorro. Um dia voltei com um menino que ficou animado o dia inteiro. Quebrou a perna e ficou animado o dia inteiro. Quando nós chegamos na casa dele ele começou a tremer. Eu disse: “O que foi?”. “Ah, meu padastro vai me bater”. Eu falei: “bom, agora quem vai apanhar sou eu que sou a professora, né?” Aí eu vi que... Um dia eu vendo essas coisas e no dia que as diretoras iam pra coordenação no Ibirapuera. A gente sabia que ela ia de anel de brilhante. Lembra que usava nos anos setenta? Umas perucas. Era status. Ela punha peruca, anel de brilhante. Era porque ela ia lá conversar com os chefes. E essa nossa diretora brava era muito mais bem relacionada do que a outra. Por alguma razão política tiraram a outra da Vila Jaguara. Veio uma pessoa que também... Eu olhava aquela infraestrutura, aquelas crianças. E eu falei: eu não quero mais trabalhar nisso. E depois eu não vou passar minha vida contando os dias pra ver se eu tenho licença prêmio. Os meus sogros eram professores de escola, então via aquela história: “Ah, incorporou a sexta parte”. E eu falei para o meu marido – a gente era casado naquela época – “Não vou viver minha vida esperando isso”.

 

P/1 – Mas você falou que era a única solteira lá?

 

R – Sim, mas quando eu saí já era casada. Eu trabalhei um ano mais ou menos. Foi nessa transição. Entendeu?

 

P/1 – Entendi.

 

R – Quer dizer, eu comecei a trabalhar em 67, casei em novembro de 67, e trabalhei até 68, mais ou menos. Eu trabalhei um ano mais ou menos. Quando eu tava casada eu fui à prefeitura, assinei um requerimento, e não voltei nem pra pegar os meus aventais, nem nada. Aí eu fiquei com um problema sério. Eu precisava trabalhar, eu já estava casada, meu pai tinha ficado doente, minha mãe precisava de ajuda. Então um dia eu falei: “amanhã vou trabalhar”. Abri o jornal – esse aí acho que foi o meu primeiro emprego mesmo – abri o jornal e fui procurar um emprego. Tinha uma coluna no Estadão “procura-se advogado”. Eu falei: “bom, então, vou trabalhar de advogada”. E fui pra um escritório de direito trabalhista. Eu ganhava na prefeitura duzentos qualquer coisa, vai. Esse advogado me pagava os mesmos duzentos – não sei se é real, cruzeiro, cruzado, não sei o quê.

 

P/1 – Cruzeiros.

 

R – Cruzeiros, sei lá, e mais uma comissão pelas causas que a gente ganhasse. E como eu tinha sido muito boa aluna do professor Cesarino Junior, tudo, eu cheguei muito entusiasmada e começou aquela fila. Ele mandava uma pessoa pegar… Naquele tempo as pessoas podiam fazer reclamação na justiça do trabalho sem advogado, então tinha uma fila dos que iam lá sem advogado, e o que faziam esses advogados particulares. Eles pegavam uma pessoa, que eles chamavam de ____, davam um cartãozinho e falavam: “Quem vier aqui com o seu cartão eu vou te dar cinco reais”. Então, quer dizer, ele aliciava ali os candidatos. Então ia aquela fila de gente. O que ele me ensinou? “Você faz uma conta bem grande, põe tudo que você achar que ele tem direito, porque depois no acordo a gente diminui”. Estou aqui fazendo uma crítica ao tipo de advogado, pode parecer um pouco antiético, mas eu acho que como eu nunca advoguei, embora eu tenha até hoje a minha OAB 22861, número baixo de OAB, isso é status.

 

P/1 – Você não chegou a advogar?

 

R – Não, então eu trabalhei 25 dias aí. Por que? Porque eu comecei a... Então ele me dava... Todo dia tinha uma fila de audiências iniciais. As iniciais você tem o momento do acordo. Então a orientação era: “Faça acordo por qualquer coisa”. Você podia pedir dez mil, se a outra parte oferecesse quinhentos você fazia o acordo porque era ali na hora. Você já pegava a porcentagem do empregado e depois arquivava aquilo.

 

P/1 – E dane-se o empregado?

R – É, aí depois de uns dez dias ele começou a me dar algumas audiências de instruções. Porque tinha alguém que não fazia acordo do outro lado. Então tinha na prateleira algumas ações que tinha que continuar. E eu muito angustiada, ia fazer audiência, pegava o processo na hora, não sabia de nada, não conhecia o caso, não tinha instrução. E eu tinha aquela coisa: eu queria estar bem perante o juiz. Eu comecei até a resolver algumas ações, inquiri algumas testemunhas, fiz algumas audiências. E aí eu vi que ele começou a me passar para essas audiências porque aí ele não me dava a comissão, entendeu? Aí eu percebi como você pode também explorar o ser humano, achando que você está dando direito pra ele. Aí eu comecei a ficar tão angustiada, estava trabalhando à um mês e cruzei um dia com um amiga, Isabel, era formada comigo na São Francisco e era professora primária. E a Isabel falou: “Olha, Vilma”. Eu falei: “Ai eu estou procurando um emprego, eu preciso ganhar algum dinheiro porque eu preciso ajudar minha mãe, mas não aguento aqui esse advogado”. Ela falou assim: “Olha, a Catarina – que é nossa amiga comum – trabalha num escritório de uma empresa imobiliária que precisa de uma secretária, mas tem que ser alguém que seja formada em direito pela São Francisco. Ela me convidou, eu fui lá, fiz o teste, mas eu não quero deixar o magistério”. Falei: “Oba!”. Liguei pra Catarina. Ela falou: “Ô Vilma, que bom. Vem aqui fazer um teste. Aí eu fui lá na Savoy, em 199_, aí começa mesmo a minha vida profissional. Porque eu fiz uma carta – ele me pediu pra fazer uma carta pedindo emprego, eu era péssima datilografa, tinha horror de datilografia. Ele me pediu pra fazer uma carta, fiz a carta e passou uma semana. Ela falou assim: “ele paga mil”. Não é? De duzentos pra mil era uma maravilha. Aí, ele falou pra mim – eu era casada ainda – o que eu pretendia, se eu pretendia ter filhos. Eu falei que não. A Catarina era uma boa referência. Mas passou uns quatro, cinco dias, ele não me dava resposta. E eu ansiosa. Liguei pra Catarina e falei: “Catarina, como é?”. Ela falou: ”Olha, ele está meio, ele achou assim: que você é possível, e tudo, mas você não fez uma carta pedindo emprego, você fez uma petição” (risos) ____, abaixo ensinada, venho pedir emprego. “Ele acha que você não sabe escrever uma carta comercial, mas eu falei que você aprende. Liga pra ele”. Aí eu tive a ousadia de ligar pra ele e dizer: “Olha, eu estou precisando”. “Vem aqui conversar comigo de novo”. Aí a gente conversou, ta ta ta. Eu falei: “Uma carta comercial? É só me mostrar uma carta que eu faço, nunca trabalhei mesmo assim”. Aí ele me contratou. Falei: “Bom, vou fazer uma experiência”. E o primeiro teste foi eu datilografar, de quinta pra segunda, uma carta em seis vias, com papel carbono, numa máquina elétrica. A carta tinha quatorze páginas. Era uma oferta pra fazer loteamento, ali na Barão de Paranapiacaba. E eu me lembro que eu fiquei então. Na quinta-feira feira ele me deu essa tarefa – sexta-feira ele não trabalhava – falou: “amanhã você fica tranqüila, aqui, datilografa”. E eu tinha um bloco de papel.

 

P/1 – Tinha corretivo?

 

R – Corretivo? O que é isso? O chefe do escritório me deu uns carbonos daquele bem barato, que sujava toda a mão. Então você tinha que usar a primeira página e depois cópias de papel de seda, com um carbono horroroso, numa máquina Olivetti que não era de esfera, não tinha corretivo. Então eu ali datilografei aquilo.

 

P/1 – Era elétrica ou manual?

 

R – Elétrica, 1969, mas não era aquela IBM. Então datilografava ali. Fiquei a sexta-feira feira o dia inteiro. Pedi licença pro chefe do escritório, fui trabalhar no sábado. E no sábado à tarde, depois de ter gasto dois blocos de carta mais uma caixa de carbono, eu deixei a carta pronta. Segunda-feira meu coração batia, eu deixei a carta! Sabe o que ele fez? Ele leu a carta pela cópia do papel de seda, porque ele ia ver quantas vezes eu tinha rebatido. Porque na primeira estava... E foi engraçado. Há poucos anos atrás, quer dizer, ainda ontem eu estive com ele, são 36 anos que então minha vida comercial começou com o doutor Hugo Salomone, foi meu chefe, meu patrão, meu amigo, meu mestre da parte profissional. E há uns anos atrás, quando começou computador – eu fui conversar lá com ele – tinha aula de computação pra todo mundo. O primeiro computador que eu escrevi eu falei: “Que maravilha você voltar pra trás...” Imagina, eu datilografava contratos enormes, entregava pra ele na hora de fechar o contrato alguém queria mudar alguma coisa numa cláusula. Quer dizer, hoje você pega o computador, você apaga aquilo. Você tinha que fazer tudo de novo. Era a minha Via Crucis. Então, conversando com ele alguns anos atrás, quando entrou o computador, eu falei: “Poxa, que beleza, heim? Imagina quando eu comecei que você lia a minha carta pela cópia, pra ver quantas vezes eu tinha rebatido”. Ele falou: “Eu fiz isso com você?”. Eu falei: “Lógico que fez”. Falou: “É, quando o general é bom, o soldado vira Marechal”. Como quem diz: você aprendeu bem. Eu falei: “Mas não precisava ter sofrido tanto”. Então, meu maior sofrimento no emprego era a Via Crucis da datilografia.

 

P/1 – Então, e aí?

 

R – Aí eu comecei a me envolver, a Savoy era uma empresa que tinha já quarenta loteamentos, tinha cobrança, tinha um movimento grande. E ele era um homem muito empreendedor, mas a estrutura era familiar.

 

P/1 – Mas como você chegava até a Savoy?

 

R – Como eu chegava? Eu morava na Rua Brigadeiro Luiz Antônio – até 72 eu era casada – num edifício na esquina da Rua Maria José. Depois até tem umas histórias que mais tarde – nos anos 69, 70 – eu e meu marido abrigamos muitos presos políticos, escondemos pessoas lá. E um dia nós descobrimos que o Delfim Neto morava lá (risos). Então eu morava na Brigadeiro e ia de ônibus. Às vezes voltava à pé.

 

P/1 – O que você almoçava?

 

R – Almoçava na rua, às vezes eu vinha pra casa. Eu tinha uma empregada, a Iolanda, que fazia almoço, às vezes almoçava ali pela cidade, aquelas coisas, comia pastel na Praça da Sé. Eu trabalhava na Barão de Paranapiacaba. Vi toda a construção do metrô ali na Praça da Sé. A implosão do Mendes Caldeira, quer dizer, trabalhava no Centro quando o Centro ainda era... Não era esse centro de hoje, era um centro de compras e tudo o mais. Ficamos lá até 82 por aí.

 

P/1 – Você estava fazendo pós-graduação?

 

R – É, fui fazer pós-graduação porque eu queria também subir a minha inquietude com as coisas. Não gostava de ficar muito parada. Em 84, então, a Savoy já tinha comprado uma grande área no Conjunto Nacional, eu tinha também toda uma experiência de ter administrado para eles os prédios do centro da cidade, o Edifício Olido, o Edifício Independência do centro da cidade. Quer dizer, eu tinha feito toda uma etapa de gerenciamento de imóveis pra eles. Esses imóveis comerciais. E aí o Lucio Salomone, que é irmão do Hugo, como advogado, teve que brigar com o síndico lá do Conjunto Nacional porque a pessoa não deixava ele fazer uma obra elétrica, não sei. Ele falou: “Bom, eu sou majoritário aqui, porque eu tenho que me submeter a uma pessoa que é discricionária, autoritária”. Então ele reuniu os maiores condôminos e fez uma assembleia pra assumir uma gestão, apenas por interesse dele ter algum controle, porque é o único prédio que eles não são donos do todo. Então, nessa ocasião, como eu tinha uma prática também em fazer assembleias, porque eu tinha morado em prédio, sempre fui muito participativa, não sei o que, ajudei a fazer todo processo da gente ganhar a assembléia, de registrar a ata. E fomos todos comemorar no máximo a nossa vitória. Aí eu olho para o Lucio Salomone e falei: “E agora, o que vocês vão fazer com isso? Como nós vamos administrar aquilo?”. Ele falou: “É você que vai prá lá”. Falei: “Bom, mas eu trabalho aqui, como eu vou fazer?” “Você vai meio período lá e fica meio período aqui, ta certo?” Então na parte da manhã eu ia para o Conjunto Nacional. E o Conjunto estava deteriorado, era uma história que daqui pra frente está em livro, tem muita coisa escrita. E eu fui lá, cheguei e de repente eu vi que tinha na minha mão um grande desafio e talvez uma grande oportunidade. Porque ali eu podia, eu tinha uma certa autonomia, porque eles não eram donos de tudo, ali era uma coisa que eu tinha muita necessidade de atuar constantemente no dia a dia, nos acontecimentos. Não precisava depender das decisões de lá. E então eu comecei em 84. Até em 86 já comecei – naquele tempo tinha uma inflação enorme – então sobrava dinheiro no fim do mês. E enquanto todo mundo aplicava no over, não sei o quê, eu comecei a tirar aquela sobra pra começar a fazer algumas coisas que seriam interessantes. Principalmente olhando para o subsolo, pras pessoas que trabalham nos edifícios, mais ainda do que para as paredes dos edifícios. Nessa história eu tinha também uma outra alma, meu alter ego, era a Maria Clemência, minha filha negra, trabalhava comigo em casa, foi como empregada doméstica e tinha uma afinidade muito grande comigo. Éramos branco e preto, água e vinho, mas ela me ensinou a conhecer bem o pessoal do subsolo. Ela trabalhava com limpeza, depois de um tempo que ela ficou em casa ela quis trabalhar, entrou na terceirizada lá e me contava nas dificuldades das pessoas que trabalham nos porões, na limpeza. Foi ali que eu entendi bem as coisas. A Maria se casou, ficou grávida e morreu aos 28 anos com o nenêzinho dela na barriga, de uma crise de diabete absurda, um erro médico. Ela começou a passar mal, levei para o hospital, parei num pronto-socorro, como ela era negra provavelmente disseram: “Ela é diabética?” Falei: “Não, que eu saiba não”. Ninguém fez um teste e deram um soro glicosado pra ela. Ela entrou em coma, morreu na quinta-feira, em 1990. Mas a Maria... Foi por causa dela também que eu tinha esse pacto de trabalhar com o pessoal da limpeza, com as pessoas que trabalham nos edifícios. E convivendo então com isso, olhando São Paulo lá de cima cheio de edifícios, vendo que existe toda uma senzala ainda, nos edifícios residenciais principalmente, é que eu me dispus primeiro a trabalhar com o ser humano, lá no Conjunto. Mais tarde nós fizemos então um grande contrato com o Itaú, eu tinha dinheiro para fazer a reforma física. E aí começou a história da recuperação do Conjunto Nacional, é uma história de reciclagem, de revitalização feita por dentro mesmo. Quer dizer, o dinheiro do Itaú é que foi sendo aplicado na transformação, aplicação com pessoal da própria gestão. Uma transformação interna, aquilo que eu sempre quis fazer na Savoy eu consegui fazer no Conjunto Nacional. E aí criou-se uma administração moderna, eficiente e humana. Eu acho que o maior orgulho é dizer que o Conjunto Nacional é o primeiro edifício que criou programas de responsabilidade social, temos prêmio de qualidade de vida, prêmio de RH cidadão. E, hoje em dia, a gente administra aquilo com uma grande equipe. Todos se envolvem muito, são responsáveis, são parceiros. Por exemplo, amanhã um dos programas culturais... Amanhã eu devo estar às onze horas da manhã na Sala São Paulo com todo pessoal da limpeza, com a Cooperativa de Arte Alternativa e Coleta Seletiva, que tanto está fazendo a decoração de natal como está recolhendo lixo no Conjunto Nacional. Então nós vamos com esses ex-moradores de rua. Amanhã eu vou estar na Sala São Paulo assistindo um concerto dentro de um programa de qualidade de vida que existe no Conjunto Nacional.

 

P/1 – Agora, pra fechar. Se você pudesse mudar alguma coisa na sua trajetória de vida, o que você mudaria?

 

R – Olha, das escolhas, daquilo que eu pude escolher, e eu acredito muito nessa possibilidade da escolha, eu fui uma pessoa que foi criada também sob a égide do existencialismo, meus gurus eram Sartre (Jean-Paul Sartre) e Simone (Simone de Beauvoir); eu acho que a gente tem que ser livre pra escolher, das minhas escolhas eu não mudaria nenhuma. Nem sei se eu tive consciência de todas as escolhas, né? Mas tudo que eu escolhi eu faria tudo de novo, do mesmo jeito, casaria com a mesma pessoa, viveria com a mesma pessoa, moraria nos mesmos lugares. E tem tudo aquilo que eu não escolhi, que veio na minha mão, que caiu na minha mão, com tudo isso eu consegui transformar. Então eu sou uma pessoa que me sinto tremendamente realizada. Acho que se esse documento fica pra história, aqui está uma pessoa que se sente completa, feliz, gosto do que eu faço, só faço as coisas com paixão, só sou capaz de desenvolver coisas que eu acredito, acredito nas pessoas, acredito que as pessoas podem mudar. E, se eu tivesse que encerrar aqui, hoje, eu diria: “Fui feliz, deixei alguns rastros, quero viver bastante como minha avó, como minha mãe, tenho muito que fazer ainda, tenho muita coisa pra deixar”. As pessoas que trabalham comigo se incomodam um pouco que, às vezes, eu chego pra trabalhar e falo: “Tive uma idéia!”. E todo mundo sai correndo porque falam: “Lá vem trabalho pra todo mundo!”. O que eu quero é que as pessoas cresçam comigo, e que essa semente fique. Eu acho que eu não mudaria nada não. Me sinto muito completa.

 

P/1 – E o que você achou de dar esta entrevista?

 

R – Foi muito gostoso. Foi quase uma, é um reencontro, né? É interessante. E quando a gente vê que está falando pra deixar. Ahnn... É importante deixar este documento. A verdade da vida da gente, a independência, a seriedade com que você lida com o outro é que faz você continuar. Espero que isso documentado sirva pra muita gente: que veio de família simples; que lutou pra conseguir seus espaços, que teve oportunidades e não soube, e soube transformá-las em várias oportunidades. Pra que a pessoa acredite nela mesma. Às vezes, a gente no caminho encontra uma porção de gente que a gente acredita, investe, e a pessoa, às vezes, não sabe que tem essa força toda. Nós somos muito mais fortes, capazes, do que pensamos ser. Então se eu pudesse deixar uma mensagem: acredite em você, siga sua estrela, cave sua história, passe a sua história, porque você é dono dela.

 

P/1 – Obrigada.

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