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História

Mauro, e a paixão pela medicina

História de: Mauro Muiños de Andrade
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/07/2020

Sinopse

Infância na cidade de Vitória da Conquista no interior da Bahia. Aos 13 anos foi morar sozinho em Salvador junto com seus irmãos. Apaixonado por medicina. Especializado em oftalmologia. Presidente da federação das Unimeds Bahia.

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História completa

P/1- Doutor Mauro, boa tarde. Nós vamos começar a entrevista com o senhor nos falando o seu nome completo, local e data do seu nascimento.

 

R- Meu nome é Mauro Muiños de Andrade, 49 anos, nasceu em Vitória da Conquista, Bahia.

 

P/1- E qual é a sua função e atividade atual na Unimed?

 

R- Eu sou o presidente da Federação das Unimed da Bahia, sou superintendente da Unimed-Sudoeste da Bahia e Diretor Financeiro da Unicred.

 

P/1- Qual é o nome dos seus pais?

 

R- Carlitos Mendes de Andrade e Maria Lucinda Muiños de Andrade.

 

P/1- E qual era a atividade profissional deles, é ou era?

 

R- O meu pai era médico, médico cirurgião e a minha mãe professora.

 

P/1- E a origem da sua família qual é?

 

R- O meu pai é de família lá de Vitória da Conquista, família tradicional de lá e a minha mãe é espanhola da Galícia, lá da cidade de Vigo. Ela veio para o Brasil com 15 anos de idade conheceu o meu pai lá em Salvador.

 

P/1- O senhor tem irmãos?

 

R- Somos seis irmãos legítimos e mais três adotivos; nove.

 

P/1- Na sua infância o senhor lembra-se da casa que o senhor morava?

 

R- Lembro.

 

P/1- Como era, conta um pouquinho para gente?

 

R- A casa sempre tinha muita gente e muito menino dentro de casa. O meu pai era cirurgião e então estava sempre trabalhando, Ele não tinha hora, com era uma cidade pequena do interior da Bahia e ele não tinha hora para ser chamado e nem para sair. Era uma casa grande, uma casa diferenciada em relação à cidade. Era um local que a gente brincava na rua, tinha laços de amizades bem maiores do que a gente tem a oportunidade de ter hoje.

 

P/1- E as brincadeiras preferidas daquele tempo quais eram?

 

R- As brincadeiras eram de pega-pega, mocinho e bandido e a gente ia muito para a fazenda montar a cavalo, jogar futebol, coisas daquela época. Não tinha televisão, televisão só foi ter quando eu já estava com 14 anos de idade, aí sim foi que os primeiros sinais de televisão entraram na cidade. Não tinha outra coisa a fazer senão brincar, principalmente jogar futebol.

 

P/1- E a cidade que o senhor morava naquela época como era, lembra?

 

R- Lembro. Vitória da Conquista sempre foi a segunda cidade do interior da Bahia, a terceira cidade da Bahia. Nós sempre tivemos Salvador como a maior cidade, depois Feira de Santana e depois Vitória da Conquista. Então ela sempre foi um pouquinho diferenciada em relação às outras, porque ela é localizada num entroncamento comercial das grandes rodovias da região. A cidade naquela época sobrevivia do comércio e da agropecuária, naquela época era o principal fator. Era uma cidade extremamente tranqüila para você morar. Eu lembro realmente, eu sinto que os meus filhos hoje não tenham podido ter aquele tipo de infância que eu tive. Na minha idade isso é normal.

 

R- E tem assim alguma lembrança marcante da sua infância que queira contar para gente?

 

P/1- Não. Acho que a coisa mais importante que teve foi quando com 13 anos de idade a gente terminando o ginásio como lá a qualidade do ensino naquela época era um pouco deficitária a gente teve que morar em Salvador e eu fui morar sozinho, com 13 anos de idade, na casa de algumas pessoas que tomavam conta da gente, mas só. E acho que isso, levou a gente a amadurecer muito rápido.

 

P/1- E falou da escola, mas voltando um pouquinho. A primeira escola quando começou, quando foi?

 

R- Eu fui uma pessoa que estive em muitas poucas escolas, tá certo? Eu fiz o primário numa escola só. Depois eu fiz o ginásio também numa escola só e depois a faculdade. Eu não fui uma pessoa que troquei muito de escola. A escola do primário era uma escola muito próxima da minha casa. Ainda era aquele sistema antigo que tinha sabatina, tinha “bolo”, tinha castigo, tinha aqueles tipos de coisas todas, e a gente tinha que ser um bom aluno para não sofrer os castigos que vinham e eram castigos mesmo. Depois no ginásio, se não tinha a melhor escola de ginásio da cidade era a escola pública, a gente foi para a escola normal. E no quarto ano, oitava série hoje, eu fui para Salvador para o colégio Antônio Vieira que era um dos melhores colégios de Salvador. Ainda é hoje.

 

P/1- E tinha assim algum professor que lhe marcou?

 

R- A minha professora do primário, a que me alfabetizou, ela foi a minha professora até o terceiro ano e ela é minha cliente e amiga até hoje. Então é uma pessoa que a gente tem muito carinho por causa disso, porque nesse período todo, a gente conviveu, quer dizer, ela foi durante três ou quatro anos a minha professora.

 

P/1- Qual a matéria que o senhor mais gostava quando estava na escola?

 

R- Não, não tinha, a única matéria que eu tinha dificuldade era matemática, sempre tive dificuldade com matemática, mas as outras matérias eu não tinha. Quando eu fui para Salvador realmente eu senti muito. Eu sempre conto uma história que é engraçada, porque eu era um aluno nota dez, sempre tirava dez, dez, dez, dez; nove e dez e um dia eu fui para Salvador e recebi a minha primeira nota e que foi a nota de matemática. O meu pai me ligou e perguntou: “quanto você tirou?” Falei: “um.” “Quanto?” “Um.” “Quanto?” “Um, zero e um”, entendeu? Só para você ter ideia de como foi. Neste ano, a oitava série para mim foi um drama. Eu nunca tinha feito uma prova final, foi a prova final, foi recuperação. Fui para tudo o que tinha direto. Passei e até hoje não sei, acho que por obra do espírito santo, mas só foi esse ano que eu tive essa dificuldade. Mas nunca tive muita escolha da matéria. Nunca gostei de matemática, não gosto até hoje.

 

P/1- E comemorações? Tinham comemorações na escola? Alguma coisa que o senhor lembra?

 

R- Não. No primário eu não me lembro. No ginásio sim. Você tinha o Sete de Setembro que a gente desfilava, eu fazia parte da banda. Você fazer parte da banda significava que você era uma pessoa diferente dos outros, era status você fazer parte da banda. Lembro-me disso só. Quando eu fui para a escola no ginásio tinha um projeto novo que o governo naquela época, sei lá, 1968 ou 1969, não sei qual era o ditador que estava de plantão, mas eles criaram um ginásio orientado para o trabalho, eu lembro muito disso, porque tinham as oficinas, oficina mecânica, carpintaria, e prensa e não sei o que era uma maneira de tentar implantar no setor público, além do curso normal, os cursos profissionalizantes. E nós fazíamos parte, a minha turma foi uma turma piloto para isso e nós fomos à primeira turma nesse projeto. Foi bastante interessante para a época, eu lembro muito disso.

 

P/1- e depois do colegial, naquele tempo...

 

R- Eu fiz o colegial, fui fazer o vestibular, fiz o vestibular e passei para a Escola Federal de Medicina logo na primeira vez e comecei a faculdade, em Salvador, mesmo.

 

P/1- E o que influenciou essa sua escolha, seu pai?

 

R- Não tenho dúvida a respeito disso. O meu pai nunca chegou para mim e me disse “você tem que fazer medicina, você vai fazer medicina, você deve fazer medicina.” A escolha foi minha. Agora devo reconhecer e vou lhe dizer o por que. A influência que ele exerceu sobre mim pela  profissão que ele exercia foi muito grande. Eu fiz baseado nele. Eu digo isso porque hoje eu tenho três filhos e os três estudam medicina. E a minha mulher e médica.

 

P/1- E qual a sua especialidade?

 

R- Oftalmo.

 

P/1- E a formatura? Lembra-se da formatura?

 

R- Naquela época era o período da ditadura e a coisa era um pouco diferente. O governo tinha mudado o sistema onde você não fazia faculdade num local só. Ele dispersava pelas matérias e você passava o curso todo caminhando de um lado para o outro. Você tinha uma matéria que era dada num instituto e outra que era dada em outro local para evitar que houvesse essas reuniões. E isso fez com que não houvesse a união da turma. Tanto que na minha formatura, teve gente que se recusou a participar de qualquer solenidade, teve gente com solenidade bem mais elaborada, teve gente com solenidade simples. Para você ter ideia de como foi essa dificuldade na época, nós fizemos agora 25 anos de formado e nunca conseguimos reunir a turma para comemorar um ano.

 

P/1- É difícil o contato com os ex-alunos.

 

R- Não. Eu tenho contato com aqueles que eram mais próximos, que eram bem mais próximos. A turma veio de uma época que foi muito politizada onde teve muitas greves e isso fez com que se criassem muitas diminuições no relacionamento do pessoal, um desgaste no relacionamento.

 

P/1- O senhor começou a trabalhar depois? Como é?

 

R- Eu me formei e como o meu pai era sócio de um dos hospitais da minha cidade, neste período de férias, eu ficava dentro do hospital. No quarto ano de medicina eu entrei em contato com a Oftalmologia, pela primeira vez, achei que era aquela especialidade que eu queria fazer. No quarto ano eu já passei a me dedicar à oftalmologia, a me direcionar para a oftalmologia, me formei, passei em residência em Salvador, fiz um ano de residência e fui fazer um curso da associação Pan-americana de Oftalmologia nos Estados Unidos. Lá eu conheci um médico que hoje é o titular da cadeira de oftalmologia da Escola Paulista de Medicina e eu vim para cá e fiquei três anos aqui em São Paulo, fazendo o que eles chamavam de “Fellowship”, que é um estágio, e depois desse período que eu retornei para a minha cidade. Mas morei três anos em São Paulo.

 

P/1- Nesse período já fazia um estágio e já era trabalhando?

 

R- Já era trabalhando. A minha esposa nesse período também estava fazendo residência médica aqui e nós nos casamos. Quando eu voltei dos Estados Unidos a gente casou e ela foi fazendo a residência dela e eu fazendo a minha parte.

 

P/1- Porque a gente normalmente pergunta assim “lembra-se do primeiro dia”? Mas eu acho que para médico se confunde um pouco.

 

R- Primeiro dia de que?

 

P/1- De trabalho.

 

P/1- É difícil porque você se lembra de algumas situações que você teve, mas você começa muito cedo. 

 

R- Você me fala assim: “você lembra a primeira vez que você entrou numa sala de cirurgia?” Eu me lembro da primeira vez que eu entrei numa sala de cirurgia, mas eu não era médico, eu era um estudante, tinha o segundo ano de medicina, entendeu? Eu me lembro disso direitinho. E são nesse sentido, as experiências que você teve com os pacientes que você lembra.

 

R- E depois qual foi a sequência do seu trabalho? Voltou para Vitória?

 

P/1- Não. Eu fiquei nós ficamos aqui. Eu pretendia ficar, e fiquei dois anos aqui, tinha ficado um ano em Salvador e fiquei dois anos aqui. No final do segundo ano a minha esposa ficou grávida e nós tivemos que decidir ou permanecer para concluir ou até retornar. Mas eu preferi retornar, porque não dava pra você ficar só com uma criança aqui, um recém-nascido, não tinha a mínima condição. Então, quando eu já tinha terminado toda a minha formação e ela também faltava pouquinho coisa para terminar a dela, nós decidimos retornar e retornamos. Tanto que nós chegamos lá em menos de um mês o meu filho mais velho nasceu.

 

P/1- E foi para o hospital lá?

 

R- Não. Eu fui para o consultório, eu montei o meu consultório e fazia a parte cirúrgica. Trabalhava no consultório e fazia as cirurgias nesse hospital. Naquela época na minha cidade, tinha pouco oftalmologista que fazia cirurgia. Então a gente chegou fazendo cirurgia e era um diferencial dentro da cidade, foi muito importante, a maioria dos oftalmologistas faziam a parte clínica, tinha pouca gente que fazia coisa cirúrgica e a gente chegou fazendo um pouco mais.

 

P/1- E o seu ingresso na Unimed, como foi, o que motivou o senhor a entrar na Unimed?

 

R- Da Unimed o interessante é que eu tinha sido o presidente da Associação Médica local e era o Delegado do Conselho Regional de Medicina. Um dia eu fui chamado a uma reunião e lá me apresentaram um médico de Salvador que se apresentava como o presidente da Federação da Unimed da Bahia. Eu nunca tinha escutado, até aquele momento, a palavra Unimed, eu não sabia o que era. E ele me explicava o que ele tinha ido fazer, que no caso foi fundar a Unimed lá na localidade e ele queria que eu conseguisse reunir o maior número de pessoas para participar dessa reunião. E queria também o apoio da gente. A princípio eu não consegui entender direito o mecanismo de funcionamento. E nós promovemos a reunião. Nessa reunião, saiu uma discussão, e aí a gente passou a entender. Houve uma discussão muito grande se era aquilo que a classe médica local queria. Porque na verdade como não tinha plano de saúde ou na verdade os planos de saúde eram do Banco do Brasil, da Telefônica, sabe? Que eram normalmente ligados às estatais, você não tinha seguradoras lá, você não tinha planos, não existia isso, só existiam esses planos. Então os pacientes eram pacientes privados, particulares, pagavam a consulta. E as pessoas, houve um questionamento grande na assembléia se a fundação da Unimed não iria diminuir ou tirar esse paciente. Na época houve o entendimento da maioria que pelo contrário, ia incluir um grande número de pessoas dentro do consultório ao invés de retirar. Você poderia perder o valor de uma consulta e você ia ganhar muito mais no montante. E ele nos convenceu que se a gente fizesse uma assembléia e nós fizemos uma assembléia e inicialmente houve uma solicitação para que eu assumisse a presidência, mas como eu era diretor do hospital, eu não aceitei. Então a gente montou a direção com outro pessoal e eu fui fazer parte do conselho e era tudo muito novo, a gente não tinha a mínima noção. A cidade não tinha cultura de cooperativismo e foi um pouco difícil no início, mas a gente não acompanhou muito, a gente só foi entrar mesmo dentro do sistema, alguns anos depois.

 

P/2- E a Unimed já era grande já naquela época?

 

R- Não. Ela foi fundada, ela não existia. O que aconteceu foi o seguinte: em 1985 três Unimed que foi a Unimed de Salvador, a Unimed de Itabuna e a Unimed Feira de Santana, se eu não me engano. Juntas fundaram a federação em 1985, a Federação da Bahia. Então quando foi em 1989 a federação através da Unimed do Brasil passou a fundar singulares na Bahia toda. Tanto que foram criadas 18 Unimeds. E nós, apesar de sermos uma cidade maior e diferenciada, nós não fomos das primeiras a ser fundada, porque era mais distante, a gente estava a 500 quilômetros de Salvador, já bem mais próximos do pessoal de Minas e foi fundado a Unimed, partiu do zero. Em Maio de 1989, nós fundamos a Unimed. Nós estamos fazendo agora 18 anos de fundado.

 

P/1- Então, quando implantou o senhor não acompanhou muito? 

 

R- Eu era do conselho, que se reunia uma vez por mês e a gente ia lá e basicamente participava dessas reuniões, mas sem muito enfoque na coisa, na época eu estava muito focado no hospital, eu tinha perdido o meu pai e a gente estava bastante envolvido com outras tarefas e não com a Unimed.

 

P/1- E qual que foi a sua trajetória na Unimed a partir disso?

 

R- Bem, na Unimed a gente ficou no conselho e sempre participava do conselho técnico, conselho de administração, mas sem essa atuação importante. Quando foi em 1996 eu fui chamado, fui convidado, me pediram para ver se eu conseguia fundar a Unicred. E eu passei nesse período a fazer um trabalho um pouquinho maior para entender o que era a Unicred. E em 1997 ia ter uma eleição e o presidente estava sofrendo uma oposição e ele pretendia passar para Federação da Bahia. Ele pretendia ser candidato à direção executiva da Federação e abriu espaço. Então, ele me solicitou, porque eu tinha essa capacidade de negociação, por causa desses cargos todos que tinha de associação que eu tinha exercido. Solicitou que eu coordenasse esse processo de mudança e a gente coordenou o processo, arrumou os nomes e houve uma condição das pessoas para aceitar: se toda aquela direção se afastasse. Eu levei e a direção se afastou e outra direção ia assumir. Eles assumiram com a condição de que eu fosse o presidente. De repente, me vi presidente da Unimed da noite para o dia, uma coisa que eu não tinha conhecimento de praticamente nada. Muita pouca coisa eu conhecia. Hoje eu digo que foi muito amadora aquela mudança. Deu certo, mas podia ter dado muito errado. A gente não tinha noção, os três diretores que entraram, nós não tínhamos noção, nenhum conhecimento. E levamos, pelo menos dois anos para poder aprender e entender bem a coisa para poder funcionar. Depois desse período nós tivemos a divisão do sistema que se dividiu da Unimed do Brasil e houve um problema grave na Federação da Bahia. E em dois mil e um houve um problema grave financeiro com a divisão do meio. Metade da Bahia foi para Aliança, metade ficou do outro lado. 

 

P/1- Vocês ficaram de que lado?

 

R- Nós ficamos do lado na Unimed do Brasil.

 

R- E houve um desgaste total da federação e nós fomos para uma assembléia geral para eleição. Nessa assembléia geral não tinha inscrito nenhuma chapa para assumir a direção. E lá durante a assembléia geral eu fui convocado a assumir e estou até hoje.

 

P/1- E em que ano foi isso?

 

R- Dois mil e um.

 

P/1- E voltando um pouquinho, o senhor tinha ido lá para implantar a Unicred. Como foi, deu certo?

 

R- Da Unicred nós fomos visitar onde já tinha o que era a Unicred de Itabuna. A gente entrou em contato e veio para a Unicred do Brasil. Mas foi exatamente na época que houve a divisão do sistema. Então nós fundamos a Unicred junto com mais outras três singulares e nós teríamos que nos filiarmos com a Norte e Nordeste. Mas como tinha acontecido o racha e estava aquela confusão toda nós nos filiamos a Minas Gerais, à central de Minas Gerais. Isso foi outro tumulto de tal tamanho e que até hoje a gente é filiado à Minas e não ao Norte e Nordeste. Existe de tempos em tempos um movimento de fazer isso. Nós assumimos e estamos lá até hoje, a mesma direção nesse período e, graças a Deus, também nunca teve nenhum tipo de problema e vem funcionando direitinho e é parceira da Unimed.

 

P/1- E como é compatibilizar a carreira de médico com essas atividades gerenciais, principalmente da Unimed no caso?

 

R- Precisa ter disciplina. Então eu digo que o meu dia é cronometrado, tudo é feito dentro dos horários. Eu acordo e sete e meia, tenho que estar em tal lugar até tal hora eu estou lá e depois eu vou ao consultório de tal hora a tal hora e depois eu vou para a Unimed de tal hora a tal hora. Então o meu dia é todo cronometrado. Reunião é tal dia, os horários são esses e a gente procura o máximo que essa agenda se cumpra. Na maioria das vezes ela se cumpre sem nenhuma dificuldade. Raramente a coisa sai um pouquinho do lugar, mas na Unimed, por exemplo, nós somos três diretores e então durante o dia cada um tem um horário que ele cobre para que a Unimed durante o dia não fique sem, pelo menos, um diretor dentro. Nas sextas-feiras à tarde a gente passa toda a direção reunida com todo mundo. Então a gente tem os horários e depois de determinado tempo à coisa é só mesmo você dar encaminhamento e ir fazendo. A parte de planejamento estratégico e de resolução é na reunião de direção na sexta-feira, então a gente consegue administrar. O meu problema principal é a reunião de quarta-feira aqui na Unimed do Brasil porque é exatamente o dia em que faço as minhas cirurgias. Então eu tenho cirurgias marcadas agora até, vamos dizer mês de julho, já está tudo marcado e quando chega no dia da reunião aqui eu tenho que desmarcar as minhas cirurgias e embola o meu meio de campo.

 

P/1- E na sua região lá, na sua federação, qual é o número de singulares?

 

R- Na minha federação são nove singulares.

 

P/1- E quais são as singulares mais importantes?

 

R- As mais importantes são seis, são todas do interior. São seis operadoras e três prestadoras. As duas maiores são a Unimed Feira de Santana, tem em torno de 33 mil usuários e depois a minha que tem em torno de 24 mil usuários. Daí as outras são Unimeds pequenas de 10 mil a 15 mil, e a menor operadora tem cinco mil. E que estão ligadas à federação: mil e cem médicos, mais ou menos. Não se esqueça de que tem nove do lado da Aliança que estarão depois da amanhã, se reintegrando ao sistema, as outras nove, são quatro operadoras e cinco prestadoras. Eles têm mais cooperados do que nós por causa de Salvador. Só Salvador tem mais de mil e 500 cooperados. Mas em número de usuários nós temos mais do que eles porque, infelizmente, a Unimed Salvador é a Unimed que, apesar de ser da capital, não tem um número de usuários muito grande.

 

P/1- E qual é essa diferença entre operadoras e prestadoras?

 

R- A operadora é aquela que está sob o controle da Agência Nacional de Saúde e que administra plano de saúde, que vende plano de saúde.  A prestadora ela só presta serviço à operadora, por exemplo, a Unimed sudoeste ela é uma operadora. A Unimed de Serra Geral é uma prestadora. Então quem vende o plano na área de Serra Geral é a Unimed sudoeste. Os planos são vendidos por ela, são administrados por ela. A prestadora recebe o serviço que ela fez, atender o paciente ela recebe o valor. Claro que tem uma taxa de administração para ela viver. O usuário não é dela, não tem um contrato com ela, ela só faz prestar um serviço, só faz atender através da sua cooperativa. Isso acontece em Unimeds que estão em locais onde não consegue um número de usuários necessários para ter auto-sustentação pelo menos com segurança.

 

P/1- Isso é comum?

 

R- Você tem isso em muitos lugares, você tem no Paraná, tem em Santa Catarina. Aqui no sul tem muito. Na Bahia nós somos três, tem três prestadoras. Do outro lado têm cinco, elas são operadoras, mas a Agência Nacional de Saúde está transformando, quer dizer, sinalizou para que ela se tornasse prestadora nesse processo de virar prestadora.

 

P/1- Porque com a criação da ANS houve mudanças que tiveram que ser... O senhor pegou essa fase assim da mudança?

 

R- Quando eu assumi foi em 1997, foi exatamente em plena mudança.

 

P/1- Então; quais foram essas mudanças? As principais que tiveram que se adequar?

 

R- A primeira. Eu digo que a ANS veio para o bem, tá certo? Apesar de passar o dia todo, não tem um dia que eu não reclame da Agência Nacional de Saúde, mas ela regulamentou o sistema. O que atrapalha hoje, quer dizer, eu entendo que quando a Agência Nacional exige a criação de reservas técnicas eu acho que isso tem que ocorrer mesmo. Você está numa atividade de risco, você precisa ter a cobertura para o risco, afinal de contas, você tem um cooperado lá na ponta, você tem um usuário lá na ponta e eu sou usuário. Eu iria ficar muito chateado se na hora em que eu precisasse do meu plano ele não pudesse me dar. Esse é uma coisa. A outra coisa, que sim, onde eu mais reclamo é a questão da justiça, porque no Brasil não vale o que está escrito. Eu tenho um juiz que é o meu vizinho muito amigo meu e ele é que praticamente julga 95 % dos casos da minha área e ele diz o seguinte: “eu não tenho capacidade para dizer se aquele problema é urgência, se não é urgência, se vai casar um mal ou se não vai causar um mal, eu dou a liminar para todos porque existe uma segunda instância para que você discuta o mérito.” Então dá para você entender o raciocínio dele. O problema é que leva dez, quinze anos para você discutir o mérito e quando você ganha o mérito você vai ser ressarcido e infelizmente a pessoa já não tem condições de ressarcir e você pode colocar a cooperativa numa situação de dificuldade com um custo elevado que ela não deveria ter tido. Então eu acho que a Agência Nacional está bem, acho que ela, apesar de alguns erros de alguma coisa, de uma maneira geral ela regulamentou. A justiça tem problema e o governo em relação a parte tributária onde fez com que o objetivo nosso de criar cooperativa era exatamente você criar essa relação sem intermediação. Mas a questão tributária pesa muito sobre isso hoje, quando não deveria, pelo menos é o que diz a nossa Constituição, não deveria pagar.

 

P/1- A questão da justiça que o senhor colocou é referente à que?

 

R- Vamos dizer um exemplo, um paciente entra na Unimed e ele paga quatro meses de plano de saúde, ele pesava 160 quilos e diz lá na regulamentação da ANS que ele teria que esperar dois anos de plano para poder ter direito a fazer uma cirurgia para a correção de obesidade mórbida. Só que ele pagou quatro meses, ele não quer esperar dois anos e ele vai ao juiz e diz: “eu estou gordo e eu posso morrer.” O juiz dá uma liminar e manda fazer a cirurgia que custa 40, 50 mil reais na minha região. Então você está levando um ônus para a cooperativa, que ela não deveria ter, porque aquele usuário usou de má fé e a justiça não entende isso, se entendesse ela ia dizer. Então você coloca em risco a cooperativa, quando você tem uma liminar nesse sentido. E na maioria das vezes ele faz uma cirurgia e no dia seguinte ele deixa de pagar o plano porque ele já fez o que ele queria. Isso eu estou falando é só um exemplo, mas são muitos exemplos. Eu acho que existem alguns abusos em relação até a nós. De vez em quando a gente se encontra numa situação que nós estamos errados, mas de uma maneira geral não é isso que ocorre.

 

P/1- A educação ela é vista como um dos princípios básicos, do cooperativismo. Como que o senhor avalia esta questão na sua região e no sistema Unimed como um todo?

 

R- Ela é fundamental. Você primeiro, quer dizer, dentro de uma cooperativa, operadora de planos de saúde, nós temos três tipos de cliente: o primeiro cliente nosso é o próprio funcionário, ele é um cliente da cooperativa. Então hoje sem profissionalismo você não vai a lugar nenhum,.Então você tem que ter o treinamento todo necessário para que você posso exercer com segurança essa atividade de administração. O segundo cliente é o cooperado, é o médico. E hoje pelo Código Civil a cooperativa pode ser responsabilizada por um erro do médico. Então a cooperativa também tem a obrigação de estar treinando este médico proporcionando a ele, condições que ele possa estar em constante treinamento para que isso não ocorra, tá certo? E o terceiro cliente é o próprio usuário e no usuário você não pode deixar de esquecer-se da importância da prevenção. Então hoje não é só a medicina assistencial, mas principalmente você tem que proporcionar saúde, não só dar o atendimento. E proporcionar saúde você precisa estar sempre conectado com o pessoal e fazendo essas campanhas. Um exemplo: agora nós estamos tendo na nossa cidade o Dia Internacional da Mulher e então você aproveita e faz uma campanha e essa campanha está associada a “folder” sobre prevenção de câncer, prevenção de câncer de mama, colo uterino e outras patologias. Então não é somente você levar para o lado institucional, mas o institucional associado também à uma ação preventiva. Então eu acho que é fundamental a educação nesses três clientes, teoricamente, que a operadora tem.

 

P/1- E na sua região existe assim alguma peculiaridade que a torne diferente das outras, alguma coisa distinta?

 

R- Ela é diferente primeiro porque ela está localizada, ela está distante da capital. Ela é um centro, na verdade ela é capital de uma região. Então é uma cidade que tem 280, 300 mil usuários, 300 mil habitantes, mas ela é capital para um milhão e duzentas mil pessoas que é a área de ação onde ela é referência. É uma cidade na Bahia onde você tem o que a gente chama de resolutividade. Você tem implantado uma série de serviços de tecnologia onde o paciente não há necessidade de sair. Então você vê: tem hemodinâmica, você tem a parte de ressonância, todos esses procedimentos, parte de radioterapia, de câncer, oncologia, tudo isso você já tem instituído. Então, apesar de a gente ser uma Unimed de médio porte, nós temos um intercâmbio fora, mas um intercâmbio nosso não é uma coisa que nos preocupa. O que preocupa é que como a gente tem instalado dentro da nossa cidade tudo isso, então o nosso custo é mais elevado. Isso está disponível ali do lado, não está a 500 quilômetros de distância, em Salvador. Então se um médico faz um exame e ele pede uma tomografia se o cara tem que ir à Salvador para poder fazer nem pede para isso, só pede se não tiver jeito. Mas se está ali do lado ele está pedindo. E você leva muito custo, tá certo? Nessa tecnologia. E a outra coisa que é importante nós tivemos nessa região, nós fizemos uma pesquisa, foi uma pesquisa que até a Unimed do Brasil realizou para nós, essa pesquisa demonstrou para nós que a nossa região 84% das pessoas entrevistadas tinham o nível fundamental. Isso quer dizer que essas pessoas não têm condições de adquirir um plano de saúde. Numa outra pesquisa também a gente também mostrou que 88% das empresas da nossa região tinham menos de cinco funcionários, ou seja, as empresas são empresas familiares. Então você tem que criar produtos e adequar a sua realidade, entendeu? Eu acho que a gente ser hoje uma Unimed de médio porte e que nos últimos três, quatro anos vem crescendo a um nível de 18% ao ano é surpreendente, é surpreendente. Em compensação por ela estar localizada no sudoeste da Bahia, mais para Minas do que para Bahia, por isso que eu lhe disse que eu era “baianeiro”, isso faz com que a gente não tenha uma concorrência muito forte, porque é difícil em pontos isolados você disputar ou concorrer com a capilaridade do sistema Unimed. Cliente no interior se ele quer que um problema seja resolvido e se ele tem uma seguradora ou um plano de saúde, ele não tem como resolver isso, mas na Unimed ele pode ir até a mesa do presidente e pedir. Isso é um diferencial que se a singular souber usar é muito importante.

 

P/2- Há um interesse dos residentes pela Unimed?

 

R- Olha; eu vou falar pela minha região. Na minha região tem um curso de Medicina e tem uma residência médica na área de obstetrícia e na área de pediatria. É uma coisa nova para nós. O curso de medicina acho que já está no quarto ano e o residente também tem pouco tempo que eles implantaram. O que eu posso dizer é o seguinte: existe um interesse muito grande dos médicos novos que chegam à cidade. Todos, eu posso lhe dizer que praticamente 100% nos procuram e deixam o seu currículo e todas as suas propostas para poder entrar na cooperativa. É fundamental para quem está começando na nossa cidade ter a Unimed, porque se ele não for cooperado da Unimed ele vai ou para o setor público ou vai ficar com a capacidade de receita muito pequena porque são poucos planos de saúde que estariam disponíveis.

 

P/1- E projetos de responsabilidade social na sua região existem?

 

R- Na minha cidade a gente tem vários projetos. Nós temos um selo de responsabilidade social. O mais importante, vamos dizer assim, o que eu tenho um xodó especial que é a alfabetização da terceira idade, que a gente chama de Projeto Alfa associado ao CIEE [Centro de Integração Empresa e Escola} que é outra entidade, mas a gente a cada seis meses vem formando turmas de alfabetização para adultos e é fantástico, é mesmo. Além disso, nós temos outros projetos que são projetos que a gente chama de Escola de Talentos onde lá você têm cursos instalados: cursos de música, piano, violão, uma série de coisas que é para cooperados, filhos de cooperados e pessoas carentes que precisam e que necessitam. O professor é um maestro de um conhecimento de fora, nós temos também o de pintura, no mesmo sistema, nós temos um projeto junto com os catadores de lixo para fazer reciclagem. E, aí entram aquelas outras coisas que não é bem responsabilidade social que entra mais na parte de patrocínio que são creches e outros serviços. Mas esse da alfabetização eu considero o mais importante.

 

P/2- Há uma parceria com a Unimed Brasil?

 

R- Não. A gente tem um selo, quer dizer, o selo dizendo que a gente é realmente uma Unimed que exerce a responsabilidade social. A população tem essa visão e sabe disso e com frequência a gente é convidado a participar de projetos nesta área. O problema é que a maioria deles não são projetos elaborados, são mais patrocínios e a gente acaba não engajando nos projetos.

 

P/1- E quando o senhor começou fundou lá em Vitória, a singular, e depois o senhor ajudou a implantar outras singulares?

 

R- Não. Eu fui para a minha Unimed e aí a Federação da Bahia já tinha implantado em todas as regiões. Daí em diante não houve mais implantação de nenhuma outra singular.

 

P/1- Quais assim que o senhor considera os principais desafios que o senhor enfrentou durante esses anos na Unimed?

 

R- Olha; a coisa mais importante que eu acho, é primeiro, a visão do cliente que vê a Unimed como uma só? Ela não vê a Unimed como a Unimed Sudoeste, a Unimed do Brasil. Ele acha que a Unimed é uma coisa só. E o dirigente da Unimed ele tem que ter essa visão sistêmica. Ele não pode ter uma visão de olhar para o seu umbigo e achar que ele é uma singular e ele está ali isolado no canto, sabe? No momento que ele tem uma visão sistêmica da coisa, fica muito mais fácil. Só que para nós é muito difícil essa questão do intercâmbio, eu acho que é o grande desafio do sistema. No dia que ele conseguir fazer com que o cliente seja atendido de Oiapoque ao Chuí na hora que passar o cartão, na hora que chegar ele não tenha que pedir autorização de esperar e de uma série de coisas. Que ali ele chegou à Unimed. No dia que o dirigente que teve o seu paciente atendido, o seu usuário atendido, o beneficiário a atendido em outra Unimed e saber que é devedor, ele tem que pagar, porque são compromissos e a gente encontrar uma sustentação de garantir que não haja inadimplência dentro desse intercâmbio. Eu acho que aí o resto é mais fácil. Esse é o grande desafio: é fazer com que realmente o intercâmbio seja visto como uma coisa sistêmica e uma garantia para o sistema fluir isso normalmente.

 

P/1- E a sua principal realização na Unimed qual que o senhor considera por enquanto?

 

R- Eu acho que a coisa mais importante que a gente fez eu tenho muito orgulho de quando eu entrei na minha Unimed tinha em torno de seis mil usuários e hoje eu tenho 24 mil. Em 10 anos, quer dizer, a gente cresceu quase quatro vezes. Então eu tenho muito orgulho de ter esse crescimento e um crescimento com qualidade. E a outra coisa que para mim foi muito importante fazer com que dentro da federação as singulares que compõem a federação tenham essa visão realmente sistêmica de que realmente o seu vizinho é o seu vizinho e ele faz parte de você ou que, como se diz, “o que bate em Chico bate em Francisco”. Então nós somos todos iguais e tem que trabalhar assim como se fosse uma só. Essas duas coisas que eu acho mais importante que a gente fez.

 

P/1- E existiram assim muitas mudanças nesse tempo que o senhor está no sistema Unimed?

 

R- Muito, muito, muito. Principalmente com a mudança da filosofia da Unimed do Brasil, da maneira de administrar da Unimed do Brasil. Eu devo lhe dizer que quando essa nova direção assumiu, realmente, mudou completamente a visão, a maneira de se relacionar e a maneira que a gente via a Unimed do Brasil. É muito diferente. Isso veio junto também com a regulamentação. Que fez com que houvesse uma responsabilidade maior, uma responsabilização maior. Hoje todo mundo sabe que você é responsável pela sua cooperativa, que você pode ter seus bens disponíveis e colocar um patrimônio que você teve trabalho de criar e ir por água abaixo, com um ato errado ou impensado, uma estratégia errada que você tenha usado.



P/1- E quanto assim a colegas de trabalho, seu relacionamento, tem alguém especial?

 

R- Eu tenho algumas pessoas importantes. Primeiro é fácil para mim porque a minha esposa é médica, é cooperada, companheira. Então é uma pessoa que na hora em que você está muito angustiado ou muito chateado é a pessoa que tem um ouvido para lhe escutar. Ela nunca participou efetivamente dentro do sistema porque como eu estava dentro ela não podia participar. Ou eu ou ela, não podia os dois, o sistema não permite. E tive nesse período dentro da Unimed também uns dois companheiros que nesse período a gente conseguiu estabelecer e fazer com que aquilo que a gente pensava sobressaísse com as idéias que ia vir. E essas pessoas são importantes.

 

P/1- O senhor poderia nos contar assim algum caso pitoresco que aconteceu ao longo desses anos?

 

R- Ah, não sei assim lhe dizer alguma coisa. No momento não lembro, me deu um branco.

 

P/1- E na sua carreira de medicina, algum fato marcante?

 

R- Aí são muitos. Eu acho que a vinda minha para São Paulo foi muito importante na minha formação profissional. A decisão de eu retornar para onde eu queria onde a gente buscava qualidade de vida e a gente obteve isso e basicamente você já ter 25 anos de formado e ter o seu consultório ainda com uma demanda importante. Eu acho que isso é válido.

 

P/1- Em relação aos funcionários da Unimed, em sua opinião o que a Unimed representa para eles tanto no passado como atualmente?

 

R- Olha; a Unimed eu sempre brinco porque na minha região você não tem empresas onde treinam e pagam bem os seus funcionários e eu digo que a Unimed é o desejo de emprego de todo mundo da região. Tanto que todo lugar que eu vou sempre tem alguém me pedindo um emprego. Essa semana eu estava arrumando uma série papéis na minha casa e achei lá mais de dez currículos de pessoas que vão me entregando se um dia tiver uma vaga trabalhar na Unimed. Eu tenho um relacionamento muito bom com os cooperados. A gente acha que com os funcionários você tem que estimular, eu cito o exemplo de quando nós assumimos a Unimed, nós tínhamos uma administradora que era uma administradora por um período só, ela só fazia pela manhã e não dá para você administrar uma operadora de plano de saúde com a gerente administrativa com um tempo só. Era esposa de médico cooperado e a gente foi obrigado a afastá-la. E a gente tinha duas opções: ou buscava alguém dentro do mercado Unimed para ir para lá ou formava alguém. E nós escolhemos fazer uma experiência com uma pessoa. Ele assumiu a gerência nós financiamos o seu curso superior, ele fez o seu curso superior, um curso de Administração, fez curso de Direito e ele é gerente da Unimed há quase 15 anos e nós estamos muito satisfeitos e o problema é que ele é muito assediado para ser roubado.



P/1- Então; o senhor já falou para gente que é casado com uma médica, como é o nome dela?

 

R- É Maria das Dores Ladeira de Andrade, mas a gente chama de Dora.

 

P/1- E como que o senhor a conheceu?

 

R- Eu a conheci, a primeira vez que eu a conheci, ela era prima de um colega meu de turma, ele me apresentou eu já estava na faculdade. Ela não fazia ainda Medicina. Quando ela entrou na faculdade ela foi colega de meu irmão, que também fazia Medicina e a gente se conheceu e começamos a namorar. Ela era caloura e eu era do terceiro ano.

 

P/1- E filhos? O senhor falou que tem três?

 

R- Três filhos homens: Um de 23, um de 21 e um de 18, fazem 19 agora.

 

P/1- E nas horas de lazer o que o senhor gosta de fazer?

 

R- Gostava muito de futebol, era uma coisa que gosto demais, acompanho todos. O meu hobby preferido é fotografia, e eu tenho uma propriedade rural que a gente gosta muito de ir e a gente vai todo o final de semana e também tem uma motocicleta que a gente gosta de passear.

 

P/1- Nós vamos passar agora para uma avaliação final. 

 

P/1- Como que o senhor vê a atuação hoje da Unimed do Brasil? Embora o senhor já tenha falado um pouquinho que mudou e tal. O senhor quer acrescentar mais alguma coisa?

 

R- Não. Eu acho que eu realmente a visão que a gente tinha inicialmente da Unimed do Brasil mudou demais. A visão inicial de quando eu entrei no sistema, que ainda era outra direção era muito complicado. O cooperado não gostava, os dirigentes não gostavam, a gente era muito distante. E hoje a Unimed do Brasil, é uma coisa muito próxima de nós, mas muito próxima mesmo. Quer dizer, hoje qualquer dirigente em qualquer singular ele tem o acesso de chegar, entrar em contato de ter, inclusive, na maioria das vezes, tem a resposta da Unimed do Brasil, é isso que todo mundo quer. Isso foi muito importante.

 

P/1- E em sua opinião como que a sociedade vê o sistema Unimed? Também o senhor já falou um pouquinho sobre isso, se o senhor quiser acrescentar. 

 

R- Olha, para mim é o que eu lhe disse,... Para mim ela vê como um sistema único, como se fosse uma coisa só. Ela não vê como a questão da singular. Na minha região a satisfação é uma coisa muito grande. As pesquisas que a gente faz sempre tem uma satisfação em torno de 80% de satisfeito. A visão do cooperado está muito associada à questão da remuneração. Se ele é bem remunerado ele é feliz, se ele é mal remunerado ele é chato. Então basicamente eu acho que é muito positiva a posição. É claro que quando as pessoas conversam com a gente sabem que a gente é dirigente e ninguém, na maioria das vezes, não fala mal, só quando a pessoa está muito chateada. Então poucas pessoas chegam até a mim para poder falar mal da Unimed, é muito difícil. Mas hoje, por exemplo, eu viajei essa noite no avião e a pessoa que é usuário da Unimed e ele muito satisfeito e contando. Ele quer saber como é que estão as coisas, sabe? E isso é interessante.

 

P/1- E qual que o senhor acha que é o principal diferencial da Unimed em relação aos outros planos?

 

R- Indiscutivelmente a capilaridade. Essa em minha opinião é a grande diferença, porque ela chega em qualquer lugar e o dirigente está ali perto. Então se ele quiser falar mal ele tem a quem falar mal. Se ele não falar mal a Unimed, ele sabe quem é o doutor que ele vai falar mal. Da mesma maneira se ele está feliz ele sabe com quem ele está feliz. Então ele chega a qualquer lugar, a uma grande parte dos lugares do país. Se você chega numa cidade na minha região em Malhada de Pedras, num lugar lá bem escondido, lá tem usuários de Unimed, lá eles sabem o que é Unimed e não sabem o que é Amil ou qualquer outro plano de saúde, vocês não têm idéia do que seja, mesmo que veja  na televisão ele não está ali próximo dele. Sem falar que a Unimed normalmente nas suas campanhas de marketing e de mídia ela trabalha muito perto da comunidade e isso faz com que aquele pessoal que está naquela região sinta como se fosse uma coisa dela, sinta como se fosse uma coisa dali do lugar, mesmo.

 

P/1- E qual seria, assim, o fato mais marcante que o senhor presenciou ao longo desse tempo na Unimed?

 

R- A coisa mais assim que eu achei, não tinha muito tempo que eu tinha assumido a Unimed, eu tinha vindo a uma das reuniões, por ser o presidente da federação a uma ou duas reuniões aqui na Unimed do Brasil, mas eu vinha para a assembléia geral que elegeu a atual direção. E a coisa que me marcou, que eu não posso esquecer, foi durante a assembléia o Dr. Edmundo Castilho apresentou todos os dados e em determinado momento da reunião ele convidou a nova direção para vir compor a mesa, a nova direção veio para mesa, ele saiu, sentou do lado da sala e a direção tocou a reunião, ele levantou e saiu da sala. Eu acho que a pessoa que fundou esse sistema, que foi o principal dirigente esses anos todos, por mais que tenha errado, ele não poderia ter saído, em minha opinião, do jeito que ele saiu. A gente teria que reverenciá-lo pela história toda, não só pelo seu final, mas pela criação desse sistema da pessoa que dirigiu que coordenou isso. Eu acho que a maneira que ele saiu do sistema, que ele se afastou do sistema, eu acho que ele merecia um pouco mais. Politicamente mais desgastado que ele estivesse acho que ele merecia. Acho que no futuro o sistema vai retornar isso, espero que a tempo.

 

P/1- E em sua opinião, qual é a importância da Unimed para o sistema cooperativista brasileiro?

 

R- Olha, o sistema cooperativista brasileiro têm altos e baixos. Se você vem cá para o sul do país onde você tem a colonização italiana, alemã, japonesa, mas, principalmente a italiana onde você teve e já trouxeram de lá essa idéia do cooperativismo, isso está dentro das pessoas, você vê um tipo de desenvolvimento, você vê cooperativas mais fortes, bem instaladas, funcionando. Numa região como a nossa em que basicamente muito tempo de coronelismo, quer dizer, o cooperativismo não era uma coisa que existia muito. Então as experiências de cooperativismo pela falta de entendimento do que é isso na sua maioria acabaram em fracasso. Então, o sistema Unimed primeiro quando as pessoas entendem o que é uma cooperativa ela funciona como um referencial, um referencial de sucesso porque é uma cooperativa. Ontem mesmo eu estava no avião e as pessoas estavam falando sobre cooperativa, agrícolas, de crédito e falando que nenhuma dá certo, que tudo anda mal, que só tem ladrão, só tem isso e aí olham pra você e dizem: “desculpe, a Unimed é diferente”.

 

P/1- Qual é a sua visão de futuro do sistema Unimed? Daqui a uns 10 anos como que estará a Unimed?

 

R- Eu não vou lhe dizer que eu me sinto à vontade, não me sinto à vontade. Eu acho que o sistema ele tem muitas ameaças, acho que para enfrentar essas ameaças ele vai ter que estar muito coeso e o sistema corporativista ele precisa estar politicamente, ele é muito politizado, então ele tem que estar coeso, ele tem que estar politicamente bem fortalecido. Acho que todas essas exigências da regulamentação vai fazer que só sobrevivem aqueles que realmente tiverem sustentação. Existe a tendência, em minha opinião, de haver uma transformação em prestadora, uma diminuição do número de operadoras dentro do próprio sistema Unimed. Eu acho que isso deverá ocorrer para poder dar sustentação. O risco que corre é a diminuição da capilaridade, tá certo? Diminuição da capilaridade. Eu acho que hoje em dia a gente tem muita ameaça. Eu não me sinto muito à vontade, eu acho que acredito que ele está há tantos anos que tem a força necessária. Ele passou por uma situação extremamente difícil que foi a cisão do sistema reintegrando agora. Acho que talvez a gente tenha amadurecido e aprendido com isso.

 

P/1- E quais foram os maiores aprendizados de vida que o senhor obteve trabalhando na Unimed?

 

R- Primeiro respeitar. Eu respeito a todo mundo. Segunda coisa que é muito importante dentro do sistema Unimed que, talvez, foi a coisa principal que eu aprendi é ouvir, ouvir, sempre, tudo. Saber ouvir mais do que falar. Acho que quer dizer aprender.

 

P/1- E o que o senhor acha de a Unimed comemorar seus 40 anos agora por meio desse projeto de memória?

 

R- Todo mundo precisa ter uma história. Sem história você não tem identidade. Então eu acho que a importância está exatamente em consolidar a sua identidade, fazer com que as pessoas conheçam. Se você chega para qualquer palestra que você vai dar ou qualquer discurso que você vai fazer você diz: “vou contar uma história”, todo mundo presta atenção no que você vai falar. Eu acho que você precisa ter uma história para contar.

 

P/1- E o que o senhor achou de ter participado desta entrevista?

 

R- Eu achei ótimo. Por eu estar aqui hoje representando a Bahia que é considerado dentro do sistema Unimed hoje pela sua cisão que teve dentro da Bahia que está bastante enfraquecida, participar do projeto como um todo, de contar um pouco da sua história, um pouco da sua visão, eu acho que foi uma coisa que me deixou muito satisfeito.

 

P/1- Então em nome da Unimed e do Museu da Pessoa a gente agradece a entrevista.

 

R- Obrigado a vocês, tá bom?

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