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História

Mas Chacrinha, eu sou comunista!

História de: Teuda Bara
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/01/2020

Sinopse

Em sua entrevista, Teuda conta-nos a história de sua família, atendo-se à criação de sua mãe, a cantora lírica Helena e de seu pai, o músico Augusto. Em seguida, descreve a Belo Horizonte dos anos 1950: seus prédios, suas ruas e a dinâmica do footing, o modo de flerte da época. Depois, conta sobre sua formação religiosa, seu amor pelo rádio e sua inserção no mundo das artes através da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG e de seu trabalho na Livaria do Estudante. A partir daqui, conta sobre sua relação com Heide Ribeiro (seu mentor no teatro), a fundação do Grupo Galpão e relembra passagens sobre suas peças mais marcantes.

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História completa

Eu estava na Fafich e trabalhando na livraria. Depois, eu fui trabalhar na Editora do Estudante. Era 1970, 1971: você chegava na Fafich, estava todo mundo dando aula. Agora, era muito difícil, porque tinha polícia na escola. Às vezes você chegava lá e a TFP tinha tomado conta da Fafich - chegava e tomava, controlava tudo. Aconteceu uma coisa até muito engraçada também. Aqueles filhos de Maria, caras congregados de Mariano, aquelas caras de azulzinho, entraram lá e estava tudo tombado com as bandeiras da TFP - Tradição, Família e Propriedade. A menina abriu a blusa, tirou o sutiã e colocou os peitos para fora. "Aqui, ó"! Deve ter rezado a noite inteira, mas era isso. Na época, era essa coisa da rebelião também, sabe? Você também falava "Não, eu vou em cima, eu também vou fazer". A gente saía, ia ao teatro. Proibiram as peças e a gente ia. Bateram nos artistas da Roda Viva e a gente protestava! Eu comecei no teatro por essa época. Eu saí da Faculdade e fui fazer teatro. Fui trabalhar com o Heide Ribeiro. Eu falo que ele é o meu pai artístico, porque foi ele quem me falou: "Não: você vai fazer teatro". Eu discordei, mas ele era o diretor, eu acreditei que podia fazer e fui. Ele me pôs no palco, eu fiz, estou aí até hoje e não consigo parar. Quando eu entrei nas Ciências Sociais, eu fui assistir a uma palestra do Chacrinha. Eu estava alucinada de ver o Chacrinha. Ele chegou lindo, de terno. Ele veio falar de comunicação de massa, que era uma coisa que todo mundo queria saber. Imagine a esquerda para saber como é que se comunicava com a base. Quem era o maior comunicador? O Chacrinha. O chamaram e ele veio. Ele chegou e começou todo mundo a fazer aquelas perguntas teorizadas, citando aquele comunicador, e aquele outro, essa teoria e aquela… O Chacrinha olhou e falou: "Gente, deixa eu falar uma coisa: vocês convidaram a pessoa errada. Eu não sei nada do que vocês estão falando, não conheço ninguém de quem estão falando e não li livro nenhum do que estão falando. A minha comunicação, eu faço de um modo diferente. Posso fazer?" Eles falaram: "Pode". Ele falou: "Ah, então é assim, ó, eu faço assim: quem é homem aí, levanta a mão". Aí, os homens: "Eu!". "Quem é mulher aí, levanta a mão". "Eu!". "Os homens, cadê os homens? Os homens vão cantar comigo: “Eu queria ser um bicho pra comer você todinha”. As mulheres: “Come eu, painho. Come eu, painho". Gente, foi a maior palestra que eu já vi, a melhor palestra. Cantou, dançou, conversou, todo mundo falou com ele. Depois, nós fomos para a Veia Poética, o bar que tem ali na Avenida do Contorno. Era um casarão que hoje não tem mais, já derrubaram. Tinha uma madeira velha e uma mesa imensa de madeira embaixo. O Chacrinha sentou nessa mesa, com todo mundo em volta dele, e falou bastante. O debate continuou lá. "Eu sei tudo que o povo gosta, eu sei do que o povo gosta. O povo gosta do que é de graça". Pegou a garrafa de Whisky, foi enchendo os copos e falou: "Pode beber que a Rede Globo está pagando". Menina, ele desceu tudo que você pode pensar: desceu Whisky, cachaça, cerveja, linguiça, torresmo, barriga de porco, carne… Comeu tudo que tinha no bar. No dia seguinte, o bar não pôde abrir porque não tinha nada, nem como comprar. O bar, no dia seguinte, não abriu. Foram descansar, foi essa coisa toda. O Chacrinha, nisso, quando eu saí, ele me chamou, bateu na minha perna e falou: "Ô, minha filha, vamos para o Rio comigo, ser chacrete" Eu falei: "Ô, Chacrinha, não posso!! Porque quando eu saía da mesa - ou para fumar, ir ao banheiro, qualquer coisa, ele mandava a produção para o outro lado dele e batia assim na minha perna e falava: "Ô, minha filha, vamos para o Rio comigo, vamos ser chacrete". Eu falei "Chacrinha, não posso ser chacrete, eu sou gorda, etc". Aí ele me disse: "O que é isso, minha filha? Eu faço programa é para a classe C, classe D, eles gostam de mulher coxuda, de mulher peituda". "Mas, Chacrinha, eu sou comunista!"

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