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História

Marronzinho: o herói oculto

História de: Geraldo Garducci Júnior
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/03/2010

Sinopse

Geraldo narra com detalhes sua infância, o momento de separação dos pais e sua vida escolar. Sempre gostou muito de falar, sendo seu apelido “tira-sono”, batizado assim pela tia-avó que o olhava quando ainda criança. As peripécias da turma do Primeiro L, do Colégio Padre Antônio Vieira, junto aos amigos são contadas depois de anos de silêncio! Com muito amor, declara sua paixão à família, aos filhos e com muita fé relata o momento em que seu filho passou internado por uma pneumonia. Com riqueza de detalhes, o depoimento é um rico registro de São Paulo de antigamente: crianças brincando nas ruas, as famílias imigrantes formando bairros.

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História completa

Eu era bem pequenininho e tenho os flashes. Eu cheguei a fazer a alfabetização com uma professora particular, de origem japonesa, que ficava ali na Avenida Águia de Haia. Lembro que a disciplina era um pouco mais rígida. E eu, claro, com seis anos, não parava quieto! Lembro até hoje que fiquei de joelhos, de castigo, porque estava perturbando a aula, porque ela dava aula em uma sala com várias crianças de níveis diferentes. E eu, por ser um garoto muito ativo, naquela época já merecia castigo por falação. Quando eu era menor, ficava na casa da minha tia-avó Aparecida Ruiz Cano enquanto minha mãe ia trabalhar... O meu apelido lá era tira-sono. “Ih, chegou o ‘tira-sono’”, ela falava, com aquele sotaque espanhol. Talvez pela entrevista vocês percebam que eu a-do-ro falar!

Em torno da Avenida Rui Barbosa, que hoje é Águia de Haia, havia uma chácara enorme de plantação de verduras com colonos japoneses que arrendaram o local. E nós crescemos por ali. Então, você imagina, com tanto espaço, o que não faltava era criança. Ali você podia brincar de rodar peão, tinha espaço pra isso, você batia figurinha, jogava bolinha de gude de tudo quanto era jeito, paulisteca, boxe, que era o buraco. Futebol pra todo lado. Pipa, então, era uma guerra! Era de morro pra morro, a turma da chácara contra a turma da Águia de Haia, a turma do Coimbra. E era um festival de pipas que você olhava pro céu e você não acreditava, você perdia a conta. E quando chegava época de festa junina, era uma fogueira a cada quarteirão. E você perdia a conta, você não via quantos balões tinha no céu naquele período. Era dia e noite, balões você via de tudo quanto era jeito ou formato, porque cada um desafiava, as equipes da região, Itaquera, Coimbra, Jardim Nordeste, Jardim São Nicolau, Três Marias, Ponte Rasa, São Miguel, Vila Ré, Artur Alvim, A. E. Carvalho, Jardim São Paulo, que é, no caso, ali dentro de Itaquera, Cidade Líder, toda aquela região ali, até Curuçá de São Miguel. Era uma disputa de balões... Você via balão em formato de pião, de homem, de navio, de pirulito, formato de carro, de tudo quanto era jeito, era um desafio.

Naquela época de infância, pode-se dizer até a adolescência, não tive uma meta de vida, ou o sonho de ser alguém, ou algo, de destaque. A minha infância foi tão bem preenchida, com amizades bonitas, tão saudáveis que a gente não tinha tempo pra ficar pensando nessa parte materialista, sabe? A nossa meta era fazer os exames todo bimestre, tirar as notas boas, pra chegar no final do ano e fazer uma festa porque passou de ano. Aí vinha o presente de Natal. E alguém se fantasiava de Papai Noel e surgia à meia-noite com o saco cheio de brinquedos. E os primos todos se juntavam ali, na casa dos meus avós, até vizinhos vinham às vezes. E todos nós, depois da meia-noite, íamos dormir. Era colchonete para um lado, colchão de outro, almofada de poltrona, tudo em um quarto lá esparramado, sempre cinco, oito primos dormindo. Interessante. Sorrateiramente, durante a noite, alguns fingiam dormir pra poder enfiar a mão embaixo do travesseiro pra poder pegar as balas e pirulitos dos outros. E de repente, era um tal de “Vó Mãe Fulano, Cicrano tá roubando minhas balas”. Tinha a Georgina, a Leila, o Gersinho, o Jorge, eu. A gente dormia esparramado no quarto.

Como tinha dias em que o tempo estava bom, principalmente no final de semana, quando não tem aula, descia uma cambada de moleque com caixa de papelão. Todo mundo já sabia: “Pra onde vocês vão?” “Ah, nós vamos descer o barranco”. Eu sei que, de vez em quando, quando descia muita gente assim, você via o cara descendo com a caixa de papelão. Em algum momento, ali embaixo, as trilhas se cruzavam. Meu, era cada porrada que dava! Acho que naquela época começou a noção dos cruzamentos, dos problemas de trânsito em São Paulo. Às vezes eu lembro e dou risada, dava cada cacetada... Você descia e encontrava o cara, capotava, você via caixa de papelão voando no meio do mato e outro gritando: “Êêêê”... O cara voando para um lado e a caixa de papelão para o outro, daqui a pouco vinha um mancando, com o papelão na mão, pra não perder o ponto. Eu sei que dali é que eu digo que essa infância não me deu aquela vontade, ou noção, de ser ou ter alguma coisa na vida. Foi muito bem ocupada nessa parte. Meus pais, logo depois dessa época, se separaram e eu fiquei um bom tempo sem contato com o meu pai.

Na adolescência, meu pai foi me buscar, dizendo que o que ele podia ter feito na minha infância, ele gostaria de tentar fazer por mim agora, como adolescente. Fui morar com ele na Zona Norte, em Santana. O bairro ali chama Mandaqui. O exemplo que eu tenho do meu pai é: força pra trabalhar, nunca parar. Tudo o que você tiver de pior à sua volta, você nunca deixe de trabalhar, não importa qual trabalho, seja catando latinha, seja assessor do presidente em alguma coisa. E aí, aprendi desde criança e nunca tive vergonha, eu já fiz carreto de freira com o próprio carrinho que eu montei com rolimã e tudo. Fui empacotador de supermercado, fui engraxate, vendi salgadinho, vendi sorvete, trabalhei como balconista, e a pouco tempo atrás, mesmo trabalhando, com meu carro, o chevette branco, que eu apelidei de Pipoca, enquanto a fiscalização ainda permitia e a polícia não descia a borracha, eu tava vendendo água, cerveja e refrigerante na porta dos estádios ou de eventos aqui em São Paulo. Isso foi com uns 43, 44, 45 anos. Abria a porta do capô, eu tinha o isopor, tudo lá dentro e quando esvaziava ali, ia pegando o que tava lá dentro e ia vendendo na porta dos estádios, até que começou a ter muita pressão de fiscalização pra normalizar a coisa, inclusive com a lei de bebidas alcoólicas no estádio e no entorno e tal, até das escolas também, aí não era só fiscalização só, não, era polícia também.

Quando eu estava trabalhando como digitador na CET [Companhia de Engenharia de Tráfego], abriu concurso pra operador de tráfego. Encarei: “Eu vou fazer esse concurso agora, vou tentar ser operador de tráfego pra trabalhar na rua”. Foram 14.600 candidatos. Eu passei, fiquei em 86, eles precisavam de 150, daí eles fazem a seleção de três vezes a quantidade de vagas, depois vai selecionando. Mas eu passei já na primeira qualificação, em 86, já fui direto. Aí, foi abraço daqui, cumprimento dali, parabéns de lá e eu comecei a trabalhar na rua.

Quando eu entrei, conheci, vivi e o que eu fiz lá dentro dessa empresa, eu posso dizer que um livro a mais na biblioteca da minha vida. Tem as dificuldades, como em toda empresa pública, eles sabem até onde podem e devem ou não fazer, e cada um responde por isso. Mas na rua, posso dizer pra vocês, não tem pra ninguém. Se um dia você precisar de alguma coisa no trânsito, na rua, pode parar, perguntar, solicitar ajuda de um marronzinho. Ele pode estar à pé, de moto, de Kombi, de gol, de pick up, pode ser até do guincho. Garanto que, se ele não resolver, ele vai dizer como fazer, ou indicar quem possa resolver.

São muitos os causos! Como na época das obras do córrego do Ipiranga, ali na Ricardo Jafet. Apenas amparar e proteger o local quando tinha acidente. Era cabeça de motociclista que ficou achatada, com afundamento craniano. Ou pessoas com o abdômen aberto, ou com fraturas expostas. Ou pessoas em estado de choque e que pode estar até com uma hemorragia cerebral e e ela não sabe nem o que está acontecendo ao redor dela, ela quer levantar, quer sair e tudo o mais. E você tem que pegar a pessoa ali na hora, jogar no chão, meter o joelho em cima do peito, pedir pra alguém ajudar a segurar o cara no chão até o bombeiro chegar pra dar uma injeção nele, pra estabilizar. Nessas horas o pessoal fala: “Vocês são da hora, meu. Pô, eu não sabia que era assim a coisa”.

Sabendo que a gente está ali sempre que tem ocorrências de todos os tipos, geralmente nós somos os primeiros a chegar. Em poucos casos a polícia chega primeiro, geralmente chegam os bombeiros. E a imprensa sempre chega por último, exceto em poucos casos. Aí, quando eles começam a filmar aquele auê todo que vocês veem, raramente aparece o marronzinho na imagem. Nós já fomos embora, já está tudo resolvido. É quase como aquele herói oculto, que tem a imagem mais distorcida da sua função, das suas atividades.

Pra mim foi extremamente gratificante, nos 12 anos que eu estive na empresa, as amizades, o espírito de equipe, a reação das pessoas, às vezes emocionada: “Puxa, fizemos, conseguimos, salvamos, melhoramos, ajudamos”. São Paulo é assim, dinâmica. O trabalho da CET é dinâmico, então, você se adapta. Tem escolas lá na periferia que você chega assim: “E aí, maninho, como é que é?” Lá no Colégio Britânico, vem a babá, com uma menininha com a lancherinha dela. E você chega e fala pra ela: “Please, stop. Don´t walk. You see the green man, ok?”. Porque no colégio britânico as crianças aprendem a falar inglês fluentemente na aula e eu não entendo bulhufas de inglês, só algumas palavras que eu lembro, de uma música aqui, uma música ali, ou do meu ginásio, da minha professora de inglês. Quem diria, né? Marronzinho bilíngue agora!

Se esse registro tiver que ter alguma coisa benéfica, eu, com respeito a todos os envolvidos, eu me dirigiria agora à nova geração: aproveitem esse momento que o Brasil está dando, de recursos, de oportunidades, não tenham pressa para escolher, escolham bem, façam bem aquilo que gostam, me perdoem os pais que gostariam que os seus filhos fossem engenheiros, médicos, advogados ou presidentes da república. Mas primeiro pense em você, você estando bem, você vai fazer muito bem e vai retribuir à sociedade tudo o que você faz.

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