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História

Marlene quer ver as mulheres assumirem o rumo das próprias vidas

História de: Marlene Maciel Barbuio
Autor:
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Marlene relata suas experiências na mudança do campo pra cidade, sua participação  no Fórum de Mulheres, fala da importância da organização dos artesãos e como a economia solidária pode ser uma alternativa à desigualdade. Conta sobre o curso que despertou um conhecimento da infância: o trabalho com as sementes, trabalho que faz respeitando o ciclo da natureza. 

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História completa

Meu nome é Marlene Maciel Barbuio, nasci em Borda da Mata, Estado de Minas Gerais, no dia seis de novembro de 1952. Eu descreveria [meu pai] como um herói pra mim, uma pessoa que batalhou muito. Teve uma vida muito difícil, então tenho ele como um herói. Ele conduzia o gado, ia buscar em outras cidades. Enquanto ele ia buscar os gados, a minha mãe é que tomava conta de tudo. Somos em 20 irmãos, dez faleceram, alguns já com 12, 15 anos e dez sobreviveram. Então, desses dez que faleceram, eu conheci apenas dois, mas os outros dez, convivemos muito tempo. A gente trabalhava muito, ajudava muito a minha mãe. Ela deu muito pras mulheres, elas tomam iniciativa, se tiver que tomar uma decisão rápida, elas tomam... Eu gostava de tirar leite, não que ela exigia, é que a gente gostava mesmo, gostava de andar a cavalo, separava bezerro. Mas isso foi muito pouco tempo, porque com dez anos, eu já vim embora... Gosto até hoje, sou apaixonada pelas coisas da natureza. Subir em árvore, brincar de pique, andar descalça, nadar no rio, essas coisas, eu adorava.

 Quando eu era criança, devia ter uns nove anos, fui andar a cavalo, e a minha irmã tinha muita vontade de andar, mas ela tinha medo, e o que a gente fazia? Ela tinha que subir em cima da arvore para montar no cavalo, só que ela tinha muito medo, então quando não conseguia, às vezes, ela jogava pedra, espantava o cavalo, que era pra gente correr, ela ficava com raiva. E numa dessas travessuras, o meu pai viu. Ele tava vindo pra casa, morava longe, e do fundo do sitio, ele viu a gente. Eu tinha saído pra dar água pro cavalo, só que primeiro, fui andar... Ele chegou junto comigo e eu me espantei, porque ele era muito bravo, e fui descer do cavalo, machucou o meu joelho. Dei água pro cavalo, fiquei quietinha, fui pôr remédio, pus sal, amarrei um pano e fui cortar com o tesourão dele, de cortar a crina de cavalo, fui cortar e cortei as pontas dos dedos, eu não esqueço...

 A minha irmã mais velha era muito atiradona. Ela sentiu a necessidade de vir pra cá, vendo a dificuldade dos irmãos, a gente chegava até a passar fome, nessa época. Aliás, levantava de manhã, comia polenta doce; no almoço, polenta salgada; café da tarde, polenta doce e na janta, polenta salgada de novo. Estava muito difícil. Os meus avós já moravam em São Paulo no ABC. Ela veio, arrumou uma casinha, trabalhou, depois de uns cinco, seis meses, ela foi buscar a família. Aí nós viemos, a mãe e os filhos, o meu pai continuou lá. E aqui, a gente deu continuidade à vida... Ah, muito diferente! Foi muito engraçado, porque eu adorava ir nas feiras e ver as bancas de maça. Eu achava muito lindo aquilo lá tudo colorido, eu não conhecia. O máximo que a gente conhecia era uma laranja, um pé de chuchu, uma abobrinha. E aquelas maçãs eram muito lindas! Não pelo gosto, mas pelo formato da maçã. Isso me chamou bastante atenção...

 Eu me lembro, não sei se foi logo que eu vim, eu lembro que choveu muito, molhou meu calçado, saiu a sola e eu fui pra escola. Só que eu fui descalça e aquele dia eu me senti muito humilhada, porque a turma começou a fazer graça, tirar sarro. E eu fiquei muito chateada, porque eu não entendia! Pra mim era normal eu sair descalça e na cabeça deles: “Ai, ela é uma coitada, ela tá descalça”, porque a gente só tinha direito a um calçado, acabou aquele, você vai começar a comprar o outro. Então, eu me senti um pouco humilhada por esse motivo, por eu ter ido descalça na escola... É complicado quando você vem de uma cidade pra outra, a aceitação é difícil.

A gente ia pra escola, chegava, ajudava a minha mãe. Ela fazia coxinha, que a gente precisava sobreviver. Só o dinheiro da minha irmã não dava. A gente fazia as coxinhas durante a tarde; de manhã cedinho, quatro, quatro e meia, fritava os salgadinhos pra entregar nos bares. Entregava nos bares até às oito horas, voltava pra casa e começava tudo de novo... Com 17 anos, comecei a trabalhar fora, então foi uma ajuda melhor pra ela.

Eu fui trabalhar numa fábrica de peças pra carro, pra caminhão. Era um trabalho até meio sujo... Eu trabalhava com rebites, tinha que rebitar as peças. Inclusive quando eu entrei, a turma se surpreendeu, porque era a primeira vez que trabalhava mulher nessa produção, e eu fui uma delas. Eles ficaram muito surpresos, porque as mulheres estavam dando mais produção do que os homens (risos). Os homens não gostaram, porque achavam que a gente ia atrapalhar eles... Não tive problema. A única coisa é que eu era muito infantil, de vez em quando aprontava as minhas, coisa de moleca. A gente tinha umas caixas altas, grandes, que colocava o material e era um espaço grande, de várias caixas. E eu subia em uma e ia pulando de uma em outra. Então eu era chamada muita atenção por esse motivo, eu me atrevia de vez em quando, mas acho que o meu trabalho talvez superasse essa molequice minha. E eu fui aprendendo, fui pegando o jeito, fiquei lá um bom tempo...

 No ABC tava tendo muita violência, o meu irmão morava aqui, meu filho veio pra cá arrumar um serviço, e nós acabamos vindo também. Hoje, nós já temos a economia solidária. A gente formou o grupo de geração de renda, onde começou a fazer os trabalhos. É um grupo, mas eu faço o meu trabalho, você faz o seu. E depois, a gente busca os espaços pra venda... Comecei com o Fórum de Mulheres, com as feiras, fundamos a Colmeia Azul, fui embora pra Sorocaba, morei quatro anos lá. Voltei, e estou retomando... Colmeia Azul, já faz 14 anos que a gente vem trabalhando, já é uma associação emancipada.

 Eu fui buscando alguns elementos da natureza, gosto de trabalhar com a fibra da bananeira, bagaço de cana. Hoje a gente trabalha com a semente, é um trabalho ecologicamente correto. Eu procuro respeitar a lei da natureza, eu nunca vou lá e apanho a semente quando eu quero, a gente tem que esperar a árvore chorar. A árvore chora quando ela derruba sementes. A gente só vai colher a semente quando ela tá no chão, colhe uma faixa de 60 a 70% das sementes, deixa o restante para que a natureza se incumba do seu novo ciclo de vida, tanto o alimento para os animais, como para novas árvores, pra manter aquilo que a gente precisa. Porque o objetivo não é colher hoje e fazer o hoje, o meu objetivo é ter sempre, não só pra mim, como pras outras pessoas, produtos que a natureza traga e que a gente vai ter sempre em abundância... Eu sou muito autodidata, fiz um curso, onde aprendi a mexer um pouco com a semente... me ajudou bastante, apesar de eu já fazer isso desde criança, só amadureceu algumas ideias, talvez tava adormecido, a gente teve que acordar.

 O meu maior sonho? É impossível! Eu queria que tivesse menos desigualdade. Eu acho que o mundo é complicado, mas pra minha família, eu agradeço, porque eles me deram muito pra ser o que eu sou hoje. Agradeço ao Zé Moreno, à Dona Amélia, que é a minha mãe, a Romilda, minhas irmãs, a minha família, meu marido, meus filhos. E para os artesãos, eu queria que eles tivessem uma vida digna, que eles pudessem ter a casinha deles, que eles pudessem ter um salário digno pra chegar em casa, dividir com os filhos, com o marido. Eu sei que é meio impossível, mas a gente tá lutando... Eu acho que a gente chega lá, sim. É uma grande coisa que tá acontecendo na nossa vida, a Economia Solidária tem que fazer parte do Brasil inteiro, do mundo inteiro... Acho que é buscar um meio melhor para o trabalho: sem patrão, mas eles têm que ser artesãos organizados. Porque não é só o fazer, eu vou lá, eu faço, vou num lugar pra vender. Não! Eu acho que eles têm que se organizar, e a Economia Solidária ajuda muito isso... Se tiver bastante gente, eu acho que vai ser uma causa muito bonita e eu quero tá aqui pra ver essa causa.  

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