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Maria Yefremov

História de: Maria Yefremov
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/11/2005

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História completa

Me casei em 1939, em Novi-Sad, na Iugoslávia. Um ano depois fomos ocupados pelos húngaros. Depois já não se podia mais trabalhar e já começou que os homens foram levados para trabalhos forçados. Na nossa cidade um grupo foi para a Rússia e desse grupo muito poucos voltaram. Meu marido se salvou desse primeira vez. Entretanto, no fim da guerra, já em 45, ele foi para Budapeste, na Hungria, e de lá para a Alemanha e, nesse caminho, mataram ele perto de Gratz, na Áustria.

Em 1944, quando o regime húngaro mudou, começaram a juntar e a deportar os judeus da minha cidade, de toda essa região e também da Hungria. Em maio de 44 nos levaram: a minha mãe, as duas irmãs e eu, além de uma filhinha de minha irmã, que tinha dez anos. Fomos primeiro para uma sinagoga e de lá para uma cidade de fronteira com a Hungria, Subotica, daí para uma cidade na Hungria, Boya, de onde chegaram os trens que nos levaram para a Áustria. Eram desses trens de carga, com vagões fechados, que tinham só uma pequena janelinha, não sei ser era para gado, para que serviam esse vagões. E lá entramos, uns sessenta ou quantas pessoas. Foi horrível. Nós viajamos uns dois, três dias, não me lembro ao certo.

De início não sabíamos o que nos esperava, só pensávamos que podia ser que fôssemos para um campo de trabalho. Sobre os campos de extermínio ainda não tínhamos ouvido falar.

Quando chegamos na Áustria, nos esperavam uns judeus que trabalhavam lá e que nos disseram para dar as crianças para os velhos. Não sabíamos do que se tratava. Ficamos numa fila: a minha mãe, a minha irmã mais velha, a menina, eu e a outra irmã, nós cinco. Na nossa frente estava o Dr. Mengele que dividia quem ia para a direita, quem ia para a esquerda. Ele mandou minha mãe, uma irmã e a pequena meninara para a esquerda; eu e minha outra irmã para a direita. Então minha irmã disse: “Eu não quero ir, eu não quero separar da minha mãe.” E ele disse:”À noite vocês se encontram. Avante vocês cinco!” E nós fomos com o grupo e entramos.

O marido de uma dessas irmãs também viajou conosco. Ele também foi para Auschwitz, mas ficou separado, um outro campo. Porque os campos eram divididos: A, B, C, D, e tinha arame farpado em cada parte. E algumas vezes ele aparecia. Ele trabalhavam num armazém, onde se dividiam as coisas. Por exemplo, tudo o que nós tiramos, tudo o que chegou com o trem, isso foi o levado num armazém e lá era tudo separado, os vestidos, os sapatos, todos os utensílios trazidos. E, às vezes, ele juntava alguma linha, alguma agulha, lençóis e fazia um pequeno pacote e jogava através do arame para a gente. Depois, quando saímos de Auschwitz, não soubemos mais nada desse meu cunhado.

Quando entramos no campo, fomos para uma sala e umas moças nos fizeram tirar tudo e nos disseram: “ Depois vocês vão vestir de novo suas coisas”. Só ficamos com a escova de dentes, na outra sala nos cortaram o cabelo. Isso que ficamos horríveis, sem cabelo, nós todas. Eram todas mulheres. Depois entramos numa grande sala onde tinha chuveiros e ficamos três ou quatro debaixo das torneiras, água! Que felicidade depois viajar não sei quantos dias, não sei quantas noites, chegar e poder tomar um banho. Foi triste que ficamos em cabelo, mas foi bom tomar banho. Depois saímos por outra porta e lá nos deram sapatos velhos, um vestido velho, grande ou pequeno, e entramos em C Lager e lá já tinha uns trinta prédios.

Um pouco mais longe estava o crematório, que à noite nós podíamos ver como saía fumaça, esse fogo descer da chaminé, esse cheiro de gente queimada. Quando chegamos no campo, soubemos o que eram esses fornos, porque umas moças da Polônia, que conseguiam sobreviver já há alguns anos, nos contaram tudo. No nosso alojamento a maioria era húngara. Todas judias.
Eu estava grávida de cinco meses quando me deportaram e sempre eu precisava me esconder para que não descobrissem. Mas fiquei tão magra que não dava mesmo para perceber e, dezoito de agosto, nasceu a menina. Nove meses certinho. Lá, nessa sujeira, nesses estábulos que foi o parto, uma parteira ajudou. Depois a responsável por nossa repartição disse que eu podia dar só uma olhada e, no dia seguinte, já levaram a criança ao crematório. Isso eles faziam com todos.

Eu sempre sonhara que iríamos ficar livres até o dia do parto, que eu iria ficar com a criança. Entretanto, quando eu vi que ainda estávamos lá e que a guerra não terminava, já fiquei feliz em ficar sem a criança.

O que é que eu podia fazer? Eu estava tão magra, sentia uma fome horrível; a gente fica sem noção, fica meio bobo. E o que poderíamos fazer com uma criança? Não podia, não podia ficar. Isso que a minha irmã, que estava sempre comigo, disse que ela já estava aliviada que eu tinhsa me livrado da gravidez, da criança. E que a gente ou pode morrer por causa criança ou ficar viva, sem ela.
Nos sentíamos tão apáticas. Precisávamos levantar cedo para ficar na fila, eles faziam isso a cada dia, ficávamos entre essas repartições, entre esses blocos para o zählappell, para a contagem, zählen significa contar em alemão. A mulher mais velha, a blockälteste, nos reunia do lado de fora, mil mulheres, cinco em cada fila. Então o alemão entrava para contar: “um, dois, três, quatro...”

Em cinco minuto ele contava todas.

Não sei para que era tão importante contar se o número estava certo, quando no outro lado, eles matavam milhares. Era um modo de sofrimento, porque precisava levantar cedo e ficar no frio, horas na fila, em pé. E depois eles traziam o chá. De cada cinco, eles davam um panela com chá, uma tomava uns golinhs, outra alguns golinhos, terceira, quarta, quinta... de novo a primeira. Depois entrávamos.
Não tinha tempo, não tinha aonde passear, não tinha grama, não tinha uma flor, não tinha cois alguma que nos interessasse sob essa cerca. E de noite de novo o zählappell. Nós estávamos tão cansadas que não dava nem para pensar.

O parto foi dezoito de agosto, que nunca me esqueço na minha vida, e em outubrom fomos levados ao trabalho. Tomamos banho, recebemos vestidos e entramos num trem que nos levou para perto de Kracov, uma pequena aldeia na Polônia. Lá construíamos barreiras contra tanques. Trabalhamos mil mulheres fazendo esses grandes buracos. E depois, dormíamos num barracão. Estávamos sempre cercadas por arames farpados, e tinham os wehrmacht, os alemães que tomavam conta. Sempre cercadas, não podíamos fugir, não podíamos pensar. Cada uma recebia o seu pedaço de pão, um pedaço de margarina e para o almoço eles traziam, porque trabalhávamos, alguma coisa um pouco melhor, uma batata cozida com algum pedacinho de carne. Só que para dividir não dava, ao contrário, nessa situação, a gente fica muito egoísta, só pensa em si...

Tínhamos sempre muito medo, porque se estivéssemos muito magras os alemães levavam. Nunca se podia saber, eles entravam com caminhões e esvaziavam uma repartição, que eles chavam bloco, escolhiam as mais magras e já se sabia para onde elas iam. Nunca sabíamos se amanhã não iríamos entrar neste transporte.

Ficamos nesse campo de trabalho até os russo chegarem perto. Ouvíamos à noite, o barulho de rojões. Entretanto, quando os russos conseguirem se aproximar mais, os alemães nos levaram para um campo que se chamava Grosrosin. E de lá para Belsen. E Belsen foi a maior tragédia, muita gente estava morrendo de tifo e de fome.

Quando, já nos últimos dias, os alemães souberam que os ingleses estavam chegando, fugiram. Ficaram ainda alguns soldados, mas não tínhamos mais forças para fugir. Emagrecemos, sentíamos frio, estávamos cheias de piolhos, doentes e fracas. E, cada dia, tirávamos dos quartos não sei quantos mortos de fome. Íamos até o lixo para juntar e comer cascas de beterraba que tinham sobrado da comida.
Quando voltei para Iugoslávia, soube que meu marido estava morto, que meu irmão estava morto, que eu já não tinha mais ninguém a esperar. Fui para a minha cidade dormir na casa de uma amiga da minha mãe. No outro dia fui para uma aldeia perto onde estava uma prima que havia chegado alguns meses antes, e que me chamou para morar com ela até que eu me recuperasse.

Quando me recuperei, recomecei a vida. Sentia-me como uma nova nascida. Comecei a trabalhar para o governo, conheci meu segundo marido, que não era judeu, e me casei.

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