Busca avançada



Criar

História

“Maria, vamos fazer hora extra?” Eu digo: “Vamos!”

História de: Maria José Souza de Jesus (Maria Madeira)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/10/2014

Sinopse

Maria Madeira conta como transformou sua vida por meio da arte em madeira e do acidente que teve com a serra elétrica, quando machucou a mão. Com a participação do marido e filho e com o apoio dos amigos, continuou sendo uma fazendo sua arte e sendo uma artesã reconhecida.

Tags

História completa

Meu nome é Maria José Souza de Jesus, nasci em São João Batista, em Santa Catarina, no dia 19 de março de 1970. Meus pais são agricultores e tem os gadinhos deles. Dos meus sete anos em diante, eu também já trabalhava na roça e plantando fumo também. Eu ia à frente da junta de boi puxar lenha, puxar a carroça de fumo. Trabalhava meio período e estudava meio período, assim nós fazíamos. Depois, com 11 anos eu passei a trabalhar numa olaria, trabalhei até os 14 anos numa cerâmica de tijolo comum. E quando fiz 14, eu peguei registrado numa sapataria, até os 18 anos. A gente estudava de manhã, trabalhava à tarde, e à noite a fazia tarefa da casa, brincava. À noite a criançada se reunia e brincava no terreiro da casa da mãe... Com 18 anos eu vim pra Joinville. Eu trabalhava fora, limpava a casa, arrumava a bicicleta que eu ia trabalhar. A minha mãe também é assim, então acho que puxa da família. Eu trabalhei seis anos na Fiação Joinvillense.

Quando ele chegou, que ele foi pra rua, eu nunca esqueço, chegou de cabeça baixa, e disse assim: “Mãe, eu fui pra rua”. Eu falei: “Mas tu não nasceu lá dentro. A gente vai se virar com o dinheiro que tem. A gente economiza até tu arrumar emprego de volta”. Eu tinha o meu menino que frequentava a Ecos em aula de violão, aí fizeram o convite para as mães participarem do artesanato... De tanto ele insistir, eu fui. Cheguei lá, na época eles davam duas peças pra gente pintar, uma ficava para o projeto e outra trazia. Eu gostei de pintar... “Deixe-me levar uma caixinha de chá, uma cestinha pra ver se eu consigo fazer?”. Ela falou: “Mas tu tem a madeira?”. Eu digo: “Tem uma marcenaria perto de casa, o Alessandro pega retalho lá”. Porque ele pegava pra inventar os brinquedos dele. Eu com ele, com uma serrinha de serrar ferro, a gente tirou o desenho, cortou, aí minha mana trabalha com sapataria, fui lá, trouxe cola, comecei com a cola de sapataria. “Ah, filho, e agora pra lixar?”. “Mãe, nós temos aquele ventilador velho, vamos cortar as pás”... E nós fizemos a lixadeira. Ali a gente fez e levei pra ela: “Maria, mas não foi tu que fez isso aqui”... Quando [meu filho] viu que começou a dar lucro, ele me comprou uma serra tico-tico, porque é manual, é mais fácil de fazer os recortes. Eu: “Mas eu quero uma lixadeira”. Nós corremos atrás, eu fiz a minha lixadeira. Comprei um motor, ele foi ao mecânico, arrumou dois mancais, fez a roda pra botar a lixa, a gente comprou caibros, fez uns pés e montou. Como eu trabalhava em sapataria, eu tinha uma noção de como eram as lixadeiras, mas não era assim. Meu marido disse: “Não vai dar certo”. Eu digo: “Vai”. Tá até hoje a nossa lixadeira.

Todo mundo pergunta: “Maria, onde tu fez um curso pra tu fazer tuas peças?”. Eu digo: “Eu não fiz curso nenhum, eu faço das minhas ideias”. Eu trabalhava só com retalhos, nós pegávamos na marcenaria. Depois, o meu menino trabalhava ali, ele trazia de Kombi pra mim... Hoje, eles reformaram todo o meu ateliê, me deram a serra circular. Em contrapartida, a gente divulga a Whirlpool, filmando, falando do Consulado da Mulher, esse é o nosso papel pra eles.

[Tinha a serra Tico-tico e ganhei a serra circular] Ele disse: “Olha, mãe, é assim, assim”. E nós fomos trabalhando. Ela tinha proteção, mas quando é pra serrar madeira, ela trancava, aí nós tiramos a proteção. Eu tava fazendo os kits quebra caranguejo para a Festa das Flores. Eu tava cortando um taquinho de seis centímetros, ali serrando, meu menino montando mesa aqui e meu marido tinha ido comprar parafuso e porca para as mesas. E quando eu tava cortando os últimos kits, acho que faltavam dois, ele deu um trancão. A serra tava aqui, o sarrafo foi parar lá. Eu disse para o meu menino: “Filho, a mãe cortou um dedo”. Porque eu achei que era um dedo. Ele já correu, a Aline era pequenininha, tava ali fora na brita, ele pegou a fralda dela, estancou o sangue. Porque tu não sente nada quando corta o dedo... Eu disse para o meu marido quando eu peguei o raio X na mão: “Vê o tamanho do estrago”. Ele olhou e disse: “É, mãe, foram três dedos”. Chegou quarta-feira de manhã, já conseguiram a cirurgia. Eu fiquei oito horas na mesa de cirurgia pra reconstituir a mão. Ele disse assim: “Vai ficar só bonita, mas tu não vai mais poder trabalhar igual tu trabalhava antes”. Eu digo: “Mas seja o que Deus quiser”. A gente veio embora na quinta-feira de noite. Chegou segunda de manhã, a mãe brigava, porque eu tava toda enfaixada com tala, os pinos na mão, sentada ali na calçada, com a mão esquerda e com os pés terminando os kits. Eu aguentava os guardanapos com os pés e pintava com a mão esquerda. Eu pintei todos os 15, o meu marido levou as peças, vendeu todos. Quando eu cheguei no domingo lá na Festa das Flores, que eu dei uma voltinha lá... As meninas falaram assim: “Maria, tu é muito guerreira, porque se fosse outra, jamais ia fazer isso”. Pra mim, é gratificante, porque é difícil... eu já não conseguia mais pintar igual pintava antes.

Eu vou pra feira, chega lá, o fulano diz assim: “Maria, você não tem um porta-suco?”. “Eu não tenho, mas eu vou criar um porta-suco pra você”. “Maria, eu queria um puxa-saco assim, tu faz?” Então, o pessoal vai pedindo e a gente, através do que eles pedem, desenvolve. O meu menino mais velho faz o desenho, eu dou as dicas, ele faz no papel e a gente passa pra madeira. Assim, a gente cria... Teve uma senhora que me disse: “Maria, eu quero um puxa-saco, mas eu quero todo branquinho”. Eu falei: “Mas não tem graça. Eu vou te trazer um, não tenho pronto aqui, só comecei. Ele tem um telhadinho, uma varandinha na frente e uma janelinha”. Ela diz: “Perfeito. É isso aqui mesmo que eu quero, mas todo branquinho”. “Só que o telhadinho e a varandinha vou fazer um branco gelo, pra dar uma quebrada”... Você não pode deixar um cliente na mão. É difícil dizer: “Ah, eu não faço”. Chegou uma senhora esses tempos aqui em casa pedindo pra eu fazer um gabinete de máquina. “Eu tenho madeira, mas eu nunca fiz” “Ah, mas faz, faz. Eu já sou cliente tua há tanto tempo”. Meu marido disse: “Então nós vamos fazer”. Eu, meu marido e meu filho fizemos esse gabinete de máquina. Ela disse: “Ficou melhor do que se fosse comprado”. Outra trouxe uma cômoda antiga, que era de família, só que o cupim comeu toda, mas ela queria igual. Meu marido: “Nós vamos fazer”. Só que o puxador, quando ela puxava, trancava os dedos, e era para as meninas. Eu troquei o puxador por minha conta. Quando fui entregar: “Ah, Maria, mas eu não gostei, tu trocou o puxador”. Eu:... “qualquer coisa levo o mesmo puxador”. Outro dia, com calma, ela foi olhar: “Realmente, as meninas viviam com o dedo machucado, como tu botou ficou muito bonito”... Outro me pediu um porta-linguiça...

Esse nome Maria Madeira foi uma amiga minha: “O teu nome é Maria e tu trabalha com madeira, por que tu não bota Maria Madeira?”. “É legal”. Conversando com Lúcia, do Consulado: “Lúcia, o que tu acha do nome fantasia Maria Arte Madeira”. “Tá perfeito. Vai ser esse teu nome agora”. E ali ficou Maria Arte Madeira. É gratificante, a pessoa chegar assim: “Ah, tu é a Maria Madeira?”. Muitos me conhecem como Maria Madeira aqui em Joinville.

 Eu acho que artesão que é artesão tem que ter o espaço pra comercializar, mas também ter o tempo de produzir. E essa é a nossa briga, pra cada vez ter melhores lugares.  Meu sonho é construir outra parte ali, comprar uma máquina a laser. A criação é o artesanato.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+