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História

Maria, uma mulher guerreira

História de: Maria Magalhães Sobral
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 09/04/2014

Sinopse

Maria nasceu em Itamaraju, na Bahia, e mudou-se para São Paulo com sete anos, em busca de melhores condições de vida. Em São Paulo, aprendeu a ler, escrever e trabalhar. Constitui família e atravessou inúmeras dificuldades para manter sua família unida e recomeçar a vida em cada nova morada. Hoje, é moradora do condomínio do Jardim Silvina, e considera-se uma mulher guerreira, que superou tudo com muita perseverança e fé.

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História completa

Maria Magalhães Sobral, nasci em Itamaraju, Bahia, no dia 17 de abril de 1971.

A minha infância não foi muito boa, não, porque meus pais não tinham muitas condições de dar o alimento pra gente. Eu ia estudar, voltava pra casa, não tinha nenhum alimento pra se alimentar, nem de noite, nem meio-dia.

Aí, eu tive vontade de vir pra São Paulo, porque aqui tem minhas primas, minha irmã. Sabe como é criança que põe um negócio na cabeça, né? Falei: “Aqui eu não quero ficar”. Eu peguei e falei assim: “Eu quero ir pra São Paulo, que eu quero ficar com a minha irmã. Lá tem alimento pra eu comer”. Eu sem querer falava essas coisas com a minha mãe. Eu ficava triste. Chegava da escola: “Mãe, tem comida?”. Ela dizia: “Não tem, não, minha filha”. Aquilo me doía por dentro.

Aí, eu vim pra cá, com sete anos. Vim com a minha prima. Eu morei na casa do meu tio. A minha irmã ia trabalhar, eu ficava lá com o meu tio. Aí, eu comecei a estudar na escola... Fiz a primeira série na escola do Farina, a escola Clóvis de Lucca. Do Farina, eu vim pra cá.

Ah, quando eu cheguei, achei tudo bonito. Apartamento, que na Bahia, onde eu nasci, não tem esse monte de apartamento. Eu achei muito legal o lugar. Eu era muito levada também, tinha vez que eu não queria ajudar a minha tia, a minha tia me falou assim: “Olha, você veio pra cá, mas você vai ter que me ajudar”. Aprendi até secar a louça, que eu não sabia. Aí, comecei a aprender as coisas domésticas, foi muito legal.

A minha tia me ensinava a ler, ela falava assim: “Maria, um dia você vai aprender a ler”. Falei: “Não vou, não, tia”. Eu chamo ela de tia, porque era a esposa do meu tio. Ela falava assim: “Um dia você vai aprender a ler. Nem que eu não esteja aqui, você vai aprender a ler qualquer dia. Você vai entrar na escola e tal”. Aí comecei... Pus isso na cabeça. E aprendi a ler na primeira série.

Depois, minha irmã comprou uma casa aqui no Silvina. Eu rodei bastante. Do Farina, vim para o Silvina, depois morei numa casinha sozinha e Deus, e trabalhava. Nunca trabalhei, aí comecei a trabalhar, comecei a gostar do trabalho. Eu fui babá. Cuidei da neta da minha ex-patroa. Cuidei de bastante criança.

Minha irmã falou assim: “Aqui, você vai ter que trabalhar”. Eu falei: “Tá bom”. Depois, eu comecei a trabalhar com uma pessoa muito querida, que até hoje ela vai a minha casa. É uma pessoa que me ajuda até hoje. Eu comecei a cuidar da netinha dela, ela falou assim: “Maria, aonde você for, eu te acho”. Eu fui morar no Oleoduto, ela me achou, me achou aqui no Silvina também.

Eu conheci meu esposo, que veio de Pernambuco também. Eu fui morar lá na Vila São José, depois nós compramos um terreninho lá no Oleoduto. Aí, começamos do nada também. Sofri bastante, mas Deus deu a vitória.

Morar no Oleoduto era péssimo, acontecia que entrava água nos barracos. Meu barraco tinha quatro cômodos enormes. Muito bom. Meu barraco, eu não tinha que falar do barraco. E ruim só era a enchente. Entrou enchente umas três vezes. Quando foi a última vez, aí foi destruindo tudo. Na frente do meu barraco tinha um pé de árvore enorme, nesse dia, tirou até esse pé de árvore.

Eu tinha as crianças pequenas, meu esposo fez duas pontes e dois portões, por causa do rio. Mas mesmo assim, a água nesse dia tirou até a ponte. Aí, foi acabando com tudo. Minha sorte também foi a vizinha que me ajudou a tirar as crianças. Eu falei: “Olha, comida deixa pra lá”. Nesse dia, eu tinha só um pacote de arroz no armário. Eu tinha comprado um armário, pus na parede, a água derrubou o armário da parede, acabou com tudo. Eu falei assim: “O importante são minhas crianças”. Eu tinha quatro filhos já nesse tempo. Eu peguei, falei: “Olha, filho, o importante é tu tirar as crianças de dentro de casa; e o resto, deixa pra lá”.

Nesse dia que começou essa enchente, a sorte que tava todo mundo acordado, era de dia. Se fosse à noite, ia morrer muita criança, muito idoso. Quando a chuva vem forte, é rapidinho. E aí, virou aquela bagunça, entrou um monte de lama, água, rato também, por causa do brejo. No outro dia, foi aquela luta, fui ferver as roupas das crianças, que eu tinha bebê ainda: três pequenos e um novinho. Eu fui lavar aquelas roupas, falei: “Eu não vou jogar essas roupas fora, eu vou lavar tudinho”. Eu tinha um cesto cheio de roupa limpa, a água virou tudinho, sujou tudo com xixi de rato, peguei e fui lavar. E comida, eu falei: “Olha, creio que Deus vai preparar o alimento para as crianças, tal”. E foi certinho. Depois eu ganhei a cesta básica. Colchão não molhou. Só o meu colchão que tinha molhado; os das crianças, o do beliche não molhou, não. Depois veio gente ajudar, dar colchão, lá sempre tinha ajuda. Dar cobertor, roupa, quem perdeu roupa, aparecia alguém pra ajudar.

Depois desse lugar, eu vim para o alojamento aqui onde é a Nova Naval, era um barraco também. No alojamento foi outra dificuldade. Chegamos ao alojamento, também não tinha paz, os vizinhos um não respeitava o outro, tinha bastante rato também nos forros, era bastante sofrimento.

O alojamento ficava ali mesmo onde é o apartamento. Era o alojamento da José Fornari. Também tinha gente que ficava estressada porque não conseguia dormir, muito barulho. O que um falava de um lado, o outro ouvia do outro, coisas que a pessoa não queria ouvir. Aí, eu ficava pedindo a Deus: “Ah, Deus, quando eu vou sair desse lugar?” Foram bastantes anos. Quando foram pegar meu nome e falaram: “Dona Maria, a senhora vai para o aluguel”, eu falei: “Ai, que bom!”. Aí, eu comecei a ficar mais feliz, porque a gente ia para o aluguel, ia ter um pouco de paz. Quando fomos para o aluguel na Vila José, foi melhorando.

Eu pagava 150, era só um cômodo, um barraquinho também, no fundo da casa de uma amiga do meu esposo. Nós só pagávamos isso aí porque a mulher conhecia a gente, aí ela fez esse precinho pra gente. Mas a prefeitura começou a pagar pra nós na outra casa, que foi da Duarte Murtinho, eram 300 e pouco, 315, que a prefeitura depositava o dinheiro, a gente ia lá, pagava, até sair o apartamento.

Quando eu entrei, o primeiro dia, eu comecei na entrada do apartamento: “Ah, meu Deus do céu, que bênção, parece que eu tô sonhando”. E foi muito bom.

Agora, eu lembro que eu falei pra ele assim: “Ah, meu filho, agora tá bom, que tem o quarto de vocês, tem o da mãe, tem a nossa sala, tal. A lavanderia é um pouco apertada, mas ajuda bastante. A cozinha é comprida, mas é boa também”. Já tem azulejo na minha cozinha. Todo mundo que entra, fala assim: “Ah, Maria, que linda a tua casa, tal”. Eu falo: “Obrigada, gente. Obrigada”. E a minha cozinha é flores douradas, azulejo dourado assim, as flores. Até o filtro eu comprei combinando com o azulejo da parede. O pessoal, tudo isso nesses detalhes, o povo falou assim: “Nossa, Maria, não é que tá combinando tudo!”.

O que mudou mesmo? A minha vida. Primeiramente, moradia, minha vida, e meu esposo também, que quando eu o conheci, ele não era evangélico. Ele era ex-alcoólatra. Como eu era da igreja, eu comecei a pedir a Deus que o convertesse, libertasse da bebida, tal. Comecei buscando, pedindo a Deus, pedi muito mesmo. Sofri bastante com as crianças pequenas, ele bebia, mas depois que ele se converteu, aí foi outra história.

Quando eu tive o Alexandro, eu tive aquela doença que dá na hora do parto, que a pessoa fica assim fora de si, não lembra que tá na terra, tal. Fiquei com essa doença na hora do parto, tal, mas depois Deus me ajudou, que eu voltei pra mim de novo. Assim, o jeito de falar, parecia que eu tava no mundo da lua. Depois, o médico gritou bastante comigo, aí eu voltei, aí eu vi que alguma coisa tava acontecendo. Foi de repente também. Depois disso, eu comecei a ficar com depressão. Aí, eu pus na minha cabeça que eu ia operar, não ia querer mais filhos, por causa da minha saúde. Eu fiquei com pressão alta por causa desse problema. Até medicamento eu tomava, agora não tomo mais, fui liberta desse medicamento. Depois disso aí, minha filha, eu falei: “Olha, vou operar”. Falei: “Olha, filho, se você não quiser operar, eu vou operar por causa da minha vida, porque eu não quero arriscar a minha vida nunca mais”. Ele disse assim: “Você que sabe”. Eu falei assim: “Então, esse vai ser o último. Você tá bebendo muito e eu não quero mais filho, também não quero arriscar a minha vida. Esses quatro estão bons”.

Nossa, eu fui uma mulher guerreira. Muita gente falou assim: “Maria, você é uma mulher guerreira. Que se fosse meu esposo que chegasse bêbado em casa, eu ia meter a porrada nele”. Eu falei assim: “Não, como eu sou uma mulher sábia, da igreja, tal, eu não vou fazer isso com o meu esposo. Não vou pegar pau, bater nele, ficar xingando”. Eu falei: “Deixa que um dia Deus vai mudá-lo”. Foi certinho. O que eu falei, eu lembro até hoje, eu falei: “Um dia Deus vai transformar ele, ele vai ser outra pessoa”.

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