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História

Márcia Caldas: pelos direitos das mulheres

História de: Márcia Caldas
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/07/2021

Sinopse

Apresentação do entrevistado; origens da família. Breve descrição da atividade dos pais. Infância na Vila Ercilia, parte central da cidade de São José do Rio Preto. As brincadeiras de rico-trico, salva-pega, betcha dentre outras, nas ruas de terra do bairro. A convivência com os irmãos e o primeiro emprego ainda na infância. As experiências adquiridas no mercado de trabalho, desde pacotes de presentes num bazar, até atendimento ao público num banco e posteriormente, no comércio em supermercados. A entrada para o Sindicato dos Comerciários e as mudanças de cargo que a levaram a vice-presidência, sendo uma das poucas mulheres a ocupar o cargo. A entrada para a política onde se tornou vereadora, lutando pelo direito das mulheres. A participação nas legislações e direitos dos trabalhadores, dialogando com empresas a fim de garantir empregos na pandemia. O aprendizado em sua trajetória profissional e pessoal, bem como, o trabalho duro e o legado deixado para novas mulheres que virão.

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História completa

          Meu nome é Marcia Regina Rodrigues Caldas Fernandes, e eu nasci em São José do Rio Preto no dia 14 de agosto de 1960. O meu pai é Manoel Rodrigues Caldas. Ele veio de Caetité ainda jovem, e começou a trabalhar na Estrada de Ferro Araraquarense. O meu pai foi ferroviário por toda a sua vida, chegando a maquinista e se aposentando com mais de 40 anos de trabalho dentro da estrada de ferro. A minha mãe é uma mulher simples, dona de casa. Ela era costureira e também fazia bolos de casamento.

          Eu tenho muitas recordações da minha infância. Sou a única mulher de cinco filhos. Mas eu nunca fui tratada como a princesinha de casa. Todos tinham obrigação, todos tinham que ajudar a arrumar a cozinha, varrer o terreno de terra batida, tinham que ir para a feira para pegar verdura que sobrava, para a gente poder dar para as galinhas. Tivemos uma infância maravilhosa, brincando na rua, brincando de rico-trico, salva-pega, jogando betcha. E tudo o que os meninos faziam eu fazia também.

          Eu tenho a felicidade de morar na mesma casa até hoje. Moro na Vila Ercília, que é um bairro próximo do centro, do lado da Igreja São Benedito. Fomos criados todos dentro da igreja, como coroinha, meus irmãos tocavam instrumentos - a gente tinha uma banda dentro da igreja.

          Eu comecei as minhas atividades profissionais trabalhando de empregada, na minha infância. Ganhava um dinheirinho, e esse dinheirinho era tudo pra minha mãe, pra ajudar na despesa da casa. Aí eu fui trabalhar no Bazar Alice, dentro do meu bairro mesmo. Dona Alice era muito exigente, mandava fazer tudo de novo sempre que achava qualquer erro. A Dona Alice Daher foi uma pessoa muito importante, porque hoje eu digo para os funcionários que as pessoas mais importantes na minha vida foram as que mais exigiram de mim, porque me fizeram ser essa mulher que eu sou hoje. Depois, eu fui trabalhar na Drogasil, registrada. Foi meu primeiro emprego registrado, com 16 pra 17 anos. Era uma farmácia grande, bonita, e eu fui trabalhar no pacote porque, graças a Deus, eu tinha aprendido a fazer bons pacotes no serviço anterior.

          Mas lá na Drogasil, sempre passava o gerente do Unibanco. Ele ia lá e falava assim: “Oh, Marcia, eu gosto muito do seu atendimento. Quando você fizer 18 anos, eu quero que você vá trabalhar no banco. E o banco era na esquina. Aí eu entrei no Unibanco e fiquei lá por cinco anos. Depois eu fui para o Banco Francês e Brasileiro, como secretária do gerente, mais uns quatro anos, e comecei a trabalhar no comércio, numa refrigeração. Um desafio, porque eu entrei lá, e o pai do dono falou assim: “Oh, você vai trabalhar direto com o Zé Alberto, mas ninguém aguenta ele. Não sei se você vai ficar muito tempo”. (risos) Fiquei por quatro anos. Já em 1988, eu entrei no Atacadão, quando eu tinha acabado de me casar. Eu entrei lá e estou funcionária do Atacadão até hoje, mas estou licenciada para o sindicato - eu me afastei. E vim para o sindicato em 2009.  

          Na verdade, eu entrei no mundo sindical quando me convidaram, a primeira vez, para ser secretária em 1990. De lá pra cá, fui secretária, depois fui tesoureira, fui subindo na diretoria, mas sempre atuando na minha empresa, no Atacadão. Sempre muito ativa, eu fazia a ponte entre a empresa e o sindicato. Se a gente tinha algum problema, tinha que resolver, porque nem o trabalhador poderia ser prejudicado, nem a empresa. Aí, em 2009, quando eu já estava esperando que a empresa fosse me dispensar, o nosso presidente, o Marco Antônio Pereira, sofreu um infarto fulminante e veio a falecer. Então, o presidente da federação na época, o Luiz Carlos Motta, que hoje também é deputado federal e presidente da federação e da confederação, me chamou e disse assim: “Marcia, hoje nós vamos fazer a vontade do Pereira. Ele sempre falava que, se um dia ele não estivesse no sindicato, você seria a pessoa certa pra assumir”. Pra mim foi um choque, uma surpresa. Mas eu aceitei e vim como vice-presidente. E quem assumiu a presidência foi o diretor jurídico, que era vice-presidente, o Doutor Miltermai.

          O Doutor Milter é uma pessoa de leis, inteligentíssimo, mas não gosta muito de conversar com as pessoas, não é nada comercial. Ele estuda demais, sabe muita coisa, defende muito bem, representa os trabalhadores nas causas trabalhistas, mas ele não era nada comercial. Então, eu comecei a fazer essa parte política do sindicato: visitar as empresas, sair fora, reunião em São Paulo, em Campinas, em Brasília. Depois, passou um ano e meio, a gente trocou as posições. Aí ele falou assim: “Eu fico como vice e você fica como presidente”. Pra mim foi uma avalanche. É difícil quando você pensa num sindicato de 90 anos, que nunca teve uma presidente mulher. O mundo do trabalho é um mundo difícil, de negociações difíceis. É um mundo que tem muitos homens. Hoje, graças a Deus, a gente tem mais mulheres. Para você ter uma ideia, nós temos 13 mulheres, nós somos 72 sindicatos no estado de São Paulo, filiados ao Fecomerciários, e nós temos 13 mulheres! Então, é um avanço, é uma coisa muito boa.

          Na época, o presidente Motta viu em mim uma pessoa disponível para representar, e eu tive a oportunidade de viajar bastante em negociações do mundo do trabalho. A UNI também, que é um sindicato internacional ao qual a gente também é filiado, proporcionou muita coisa, muita visão: eu fui pra Bruxelas, fui para a Argentina, fui para a África, fui a vários países conhecer o trabalho lá, conhecer o mundo sindical. E a gente viu também que o Brasil é referência do sindicalismo, das leis trabalhistas. Eu vi muito sofrimento em outros lugares. Nós estivemos no Walmart, nos Estados Unidos, e você vê aqueles senhores num depósito sem ventilação, sem água potável, é quase trabalho escravo. E aí a gente olha para o Brasil e fala: “Puxa, nós temos convenções que protegem o trabalhador”. Nós temos uma segurança do trabalho que também vê a saúde do trabalhador, o quão importante é.

          Então, tudo isso me deu muita força. Dessa forma, eu também fui eleita diretora da federação e logo peguei uma secretaria que me encantou, que é a Secretaria da Mulher. Nós chegamos a reunir 3 mil mulheres. Mulheres trabalhadoras, mulheres empoderadas, naquele sentido de buscar conhecimento, de estar junto na luta. Eu fiquei por seis anos como Secretária da Mulher. Nós tínhamos os eventos muito bem organizados. A palestrante, um médico para falar da saúde, mulheres que venceram na vida, mulheres da beleza, mulheres do comércio, vários depoimentos. Eu tive uma felicidade muito grande de poder estar com mulheres de todo o estado, porque eram mulheres do estado de São Paulo inteiro e inclusive de outros estados também. E até de fora do Brasil.

          Fui também conselheira do Senac. Tive que pedir a baixa, porque eu fui vereadora por quatro anos aqui em Rio Preto: 2017, 2018, 2019 e 2020. E as reuniões coincidiam com as sessões, terça-feira.

          Quando eu era vereadora, foi colocado o horário livre no Plano Diretor da cidade, pelos próximos dez anos. Tinha um parágrafo que estabelecia horário livre do comércio, de acordo com a liberdade econômica. É uma luta que a gente tem muito grande no mundo sindical, porque o horário livre vai precarizar ainda mais a vida dos trabalhadores, a vida das mulheres. Pois o trabalhador é a parte mais fraca nessa hora. Se o patrão chegar e falar: “Oh, hoje eu vou ficar até oito da noite”, você vai ter que ficar. Eu preciso do emprego. Então, quando a gente fala em geração de emprego, a gente precisa ter regras. O horário pode ser livre, pode abrir seis horas da manhã e fechar meia-noite, mas tem que ter regras: qual é o turno que vai trabalhar? Como é que ficam os estudantes, as mães com filhos, as mulheres?

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