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História

Maracatu: a brincadeira de Mestre Zé Duda

História de: José Bernardo Pessoa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/09/2008

Sinopse

Em Alto do Peba – AL, próximo a foz do Rio São Francisco, observamos um rico encontro da cultura popular nordestina amparado pelos mestres Griôs do estado de Alagoas, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Foi lá que conhecemos o mestre Zé Duda, ou José Bernardo Pessoa, mestre de maracatu desde os dez anos. Ele se orgulha de nunca ter ido à escola e aprendeu, pelo próprio caminho, a poesia que carrega na ponta da língua. É um homem que samba qualquer assunto. Fizemos imensas cirandas com mestre Zé Duda, pequeno e franzino, ao centro, chamando todos a cantar o refrão. E, durante o encontro da regional Ventre do Sol, pudemos conferir essa habilidade de mestre, com a qual ele nos presenteou todos os dias. Já de manhãzinha, estava ele lá, sentado na varanda, pitando um cigarro que duraria até o café. E, com aquele semblante tranqüilo e confiante, de quem teve que brigar muito para ser que o se tornou, mestre de maracatu, Zé Duda nos dava um sereno bom dia. Mas o que mais impressiona no mestre Zé Duda, é o quanto ele representa a Ação Griô, mesmo quando ele a subverte, recusando-se a entrar na sala de aula, ou participar de alguma atividade. A sua ferramenta de criação é apenas a oralidade, sua poesia já é cantada e seu aprendizado é de quem por muito tempo escutou, com atenção; é de quem acredita no seu próprio mestre e leva consigo o legado dele. Neste vídeo, Zé Duda narra o ciclo da sua história com o maracatu. Conheceu a brincadeira ainda menino e, nos conta com emoção, o prazer de se deparar, já mais velho, com uma infância semelhante a dele.

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História completa

A minha infância em Buenos Aires (mas essa não é Buenos Aires lá de fora, é daqui do interior mesmo) foi muito boa. No começo até que eu pensei que não. Mas graças a Deus, quem pensa em Deus tudo tem. Sempre eu tive o sonho de alguma coisa. Eu nunca saía de casa porque eu era privado, a minha mãe não deixava. Me deram o tempo para estudar, eu não quis. Não quis. Lutaram para mim estudar, eu digo: "Eu não quero aprender ler." "O que é que você quer?" Eu digo: "Eu não quero nada." Foi depois botei na cabeça de acompanhar maracatu. Mas ela não deixava eu sair de casa para ir olhar maracatu.

 

Mas um dia e teve um maracatu distante da minha casa e eu fui dormir. Quando eu acordei uma faixa de 10 horas da noite eu vi tocando, a zuada pelo mundo. Eu abri a porta devagarzinho, saí, fechei, joguei a chave por baixo, fui embora. Quando eu chego no maracatu estavam dois mestres sambando. Cheguei entre um e outro fiquei. E ali só saí quando terminaram de manhã. Eu decorei tudinho no juízo. Quando eu cheguei em casa estava tudo brabo me procurando, porque eu não estava em casa. A rede estava armada mas eu não estava. Aí me procurando, aí vou chegando. Já com medo de apanhar. Porque a véia era malvada para mim. "Você estava aonde?" Eu digo: "Eu estava no maracatu." "Sozinho?" Eu digo: "Não, estava meio mundo de gente e eu estava no meio." "Isso é bonito?" Eu digo: "É bonito e eu sei cantar." Aí disse: "Sabe nada, meu filho." Eu digo: "Eu sei, eu sei cantar." E fiquei com aquilo no juízo: "Eu sei cantar o maracatu." Pela tarde lá nesse lugar ia ter maracatu novamente. Tomei um banho, tomei um cafezinho, me deitei mas não pude dormir, choqueado. Pedindo a Deus que chegasse meio-dia para eu ir para lá. E pedindo a Deus ela deixar eu ir. Pai, deixa eu ir." Ele disse: "Eu quebro o galho, vá-se embora." Quando eu fui saindo ela me freiou: "Prá onde?" Eu digo: "Eu vou para o maracatu." Ela disse: "Ó o dedinho." "O pai deixou." Ele disse: "Vá." Eu disse: "Graças a Deus, meu Deus." Eu fui embora.

 

Subi no tamborete, cantei maracatu até a hora de terminar. Cantei o que eu decorei do cara eu cantei todinho, que o mestre ele não sabia, foi uma valha para ele. Tinha um sargento lá na cidade, ele era muito encapetado. Se o cara soubesse cantar ciranda, maracatu, cavalo-marinho, coco-de-roda, coco-de-pandeiro, ele chamava. Não tinha dia. Podia ser segunda, terça, quarta, qualquer dia. Aí ele disse: "Eu vou fazer um maracatu para você." Eu digo: "Graças a Deus." Realizei porque o sargento que vai fazer. Ele arrumou um bombo lá, um terno de maracatu e eu comecei brincando. E fui ensaiando com o mestre, sambando com os outros mestres: pá, pá, pá, pá, depois passei a pronto. Quando eu passei a pronto eu digo: "Agora eu não tenho medo de mestre não. Agora é pé de parede mais eles. Seja o que seja." Aí eu digo: "O que é que eu faço? É fazer para mim. - eu digo - agora eu vou ver se o meu juízo dá." Botei o juízo para funcionar e foi a maior tranquilidade para mim. Eu segurei o baque. Segurei o baque e aí no dia que eu completei 10 anos meu presente de aniversário foi eu tirar um carnaval. Maracatu. O cara me entregou o maracatu pronto. 36 caboclo, acompanhado. Bonito todo. Aí disse: "O mestre é você." Eu desse tamanho. Que eu com 10 anos era do tamanho de jumento, pequeno. Tirei o maracatu.

 

Quando eu saí no domingo de oito horas do dia de casa, cheguei na quarta. Quando eu cheguei em casa ela disse: "Gostou?" Eu disse: "Gostei." Ela disse: "Foi o primeiro e o derradeiro que você brincou." Eu falei: "Por quê? Eu não morri." Ela disse: "Porque eu não quero que você brinque." Eu disse: "Meu pai do céu, meu Jesus, dá-lhe no juízo dela para ela deixar eu brincar." Aí o pessoal caiu para cima dela: "Dona Eulália, deixa o seu filho brincar. É um signo que ele trouxe e ninguém pode cortar."Foi uma promessa para São Severino para eu deixar de brincar. Mas que lá em casa, casa de taipa, a parede era capaz de ninguém ver a parede. Toda qualidade de retrato de santo tinha. Então tinha São Severino. Ela tramou tudinho, fez a promessa e foi pagar. Aí eu comecei a chorar escondido. Aqui, acolá, estava chorando. O povo perguntava: "O que é que tem Zé Duda?" "Nada não." Mas a língua engrossava porque eu não podia dizer o que era. E lá vem se aproximando o sábado, e eu tinha um ensaio de maracatu com outro mestre para dar no sábado. Quando chegou a sexta-feira, eu disse: "Agora eu vou ver." Aí o pessoal que brincava comigo: "Como é, a gente vai ou não vai?" Eu digo: "Vai." O pessoal tudo sabia. Eu fui. Quando cheguei lá sambei a noite todinha. Nada faltou no meu juízo.

 

Quando foi no outro sábado, de novo. Aí comecei a cantar e coisa, e ela lá. Com uma toalha grande enrolada no pescoço. Aí chegou bem perto de mim. Eu fiz um samba para ela. Eu disse: (CANTA) "Mamãe fez uma promessa para eu deixar de sambar. Abalando todo mundo conquistando o pessoal. Ralando o joelho pelo chão, só para me atrapalhar. Quando ela foi no altar chorando e acendendo vela. E o santo foi, gritou: 'velha deixe seu filho vadiar'." Ela botou a mão para cima e disparou no choro. Não pode me parar não. Aí eu disse: "Tá vendo quem tem fé em Deus o que é que faz? Agora, a senhora não pode me bater-me, e nem São Severino. Porque q senhora é devota dele e eu sou também. A senhora tem fé nele para parar de eu brincar, e eu tenho fé nele para ele aumentar para eu brincar." Aí ela liberou. Liberou e eu toquei a vida até hoje. Disse: "Se prestar eu fico, se não prestar eu saio." Que pena que eu já fiz 58 carnaval, agora em 2007.

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