Busca avançada



Criar

História

Mar e terra: percurso profissional de um petroleiro

História de: Ivo Barcelos Assunção
Autor: Ana Paula
Publicado em: 16/12/2021

Sinopse

Ivo nos conta sobre seu ingresso na Petrobras, ainda nos idos de 1978. Trabalhou embarcado por período curto e conseguiu, por ser sua preferência, permanecer o restante da trajetória profissional, em terra. Nos conta com orgulho, como através de seu trabalho, casou e criou seus filhos. Vivenciou o processo de ampliação da empresa e os avanços nas áreas ligadas ao petróleo.

Tags

História completa

Memória da Bacia de Campos Realização Instituto Museu da Pessoa Entrevista de Ivo Barcelos Assunção Entrevistado por Cláudia Fonseca Macaé, 02 de junho de 2008 Código: MBAC_CB006 Transcrito por Winny Choe Revisado por Cristiane Pessôa da Cunha P/1- Então, eu queria começar a entrevista com você dizendo pra gente seu nome completo, o local e a data de nascimento. R - Meu nome é Ivo Barcelos Assunção, nasci no dia 13 de dezembro de 1954 em Resende, estado do Rio de Janeiro. P/1- E você, qual é a sua formação Ivo? R - Eu estudei engenharia química na Ufrj [Universidade Federal do Rio de Janeiro], entrei em 1973 até 1977 por aí quando fiz o concurso para a área petroquímica da Petrobras. Fiz o Cenpeq [?] em 1977, fui aprovado e fui contratado na empresa em 03 de abril de 1978. P/1- No Rio, é isso que você estava me dizendo, né? R - Foi, eu fiz o curso na própria Ilha do Fundão, no finalzinho que foi ali na Cinelândia, acho que foi naquele hotel, tem um hotel antigo ali. E agora diversificaram, acho que é Serrador, não? Ali tinha um hotel que fizeram umas salas de aula, terminou o curso em três meses só. P/1- O que te deu vontade de ir para essa área petroquímica? R - Olha, eu sempre gostei e tinha a intenção de trabalhar numa empresa como a Petrobras, na empresa privada, que nos dava uma certa garantia de emprego e desenvolvimento profissional. Então, como estudante, achava que trabalhar numa empresa dessa estirpe seria um troço muito importante para nós. E aí, eu e meus colegas vimos lá um ano antes, a Petrobras montou duas salas, uma da área petroquímica e uma da área de refinaria e processamento. A gente ficou meio na dúvida, porque tinha de escolher. E ficamos pensando e tal, apesar da área petroquímica ter menos vagas, a gente preferiu, achamos que tinha mais perspectiva de futuro, de desenvolvimento maior e assim foi feito. A gente fez um planejamento de estudo das matérias que faltavam, das matérias para o concurso, pegamos o que caia o que não caia e fizemos um planejamento de curso. Para minha felicidade eu fui aprovado e fizemos esse curso em 1977, na Ilha do Fundão, na área petroquímica. P/1- Esse a gente que você fala é um grupo de amigos, é isso? R - É, são estudantes, a garotada aqui da faculdade, a gente via aquela salinha ali, imaginando logo uma perspectiva de desenvolvimento de carreira e de oportunidade. P/1- Só você entrou do seu grupo de amigos? R - Não, entramos vários ali, o pessoal da universidade federal é muito estudioso e aí tenho muitos colegas até hoje, tudo daquela época. Eu tenho vários até hoje, tanto na refina como na petroquímica. P/1- E aí você ficou no Rio um tempo? R - E eu passei e ao término do curso eu fui para o Cenpes [Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação Leopoldo Américo Miguez de Mello], aí do lado e fui fazer estágio na Fabor, ao lado da Reduc [Refinaria Duque de Caxias], que tem aí um polozinho petroquímico, petroflex e nitroflex. Eu fiquei ali cerca de um ano, treinando na área operacional, via unidade, acompanhava o pessoal da engenharia, todo um acompanhamento. Ao término desse ano eu fui para o Cenps e lá fiquei 4 anos. Aí começou a desenvolver essa área de petróleo. Começaram a descobrir os primeiros poços da Bacia de Campos e tal, então estavam procurando pessoas para trabalhar nessa área de petróleo. Aí me pegaram lá do Cenpes e eu fui para Salvador fazer um curso, agora já para área de produção de petróleo, uma especialidade um pouquinho diferente. Então fiquei lá um ano, casei e fui pra lá. Já tinha namorada e aí fiquei lá um ano e pouco estudando, o menino mais velho nasceu lá, e na escolha de vagas eu achei por bem vir pra Macaé, porque aqui é mais perto da minha origem, Rio de Janeiro e tal. Era melhor pra mim então. Tinha vaga em Salvador, Mossoró, Espírito Santo e em São Mateus. P/1- Aí você veio pra cá em que data mais ou menos? R - Aí eu vim pra cá. Cheguei aqui em agosto de 1982 mais ou menos. P/1- Ainda tava bem no começo? Á área, o prédio? R - Não tinha nada, aqui ainda estava entrando em experimento as primeiras plataformas. Algumas SS (Plataforma semi-submersível) estrangeira tinha muita gente de fora, muito gringo. Só tinha o módulo provisório de garoupa, que era um antecipado que fizeram assim pra começar a produzir né, já estavam as 7 primeiras plataformas em projeto, com sócios construindo estaleiros e tal e tinha uma das plataformas produzindo, mas assim início né, é sempre um pouco precário. P/1- Você teve um impacto assim "nossa será que eu escolhi bem isso aqui"? R - Olha eu cheguei aqui e nunca tive vínculo com Macaé. Eu cheguei aqui porque eu tinha que trabalhar e aqui era perto, pra mim aqui cidade do interior, deixei a mulher com o garoto no Rio e fiquei aqui procurando uma casa para morar e tal. Fim de semana ia pro Rio e aos poucos arrumei um apartamentinho ali, mobiliado porque eu não tinha móvel, não tinha nada. Botei a mulher ali com a criança e fiquei trabalhando aqui. Aí fui embarcar, eu não queria, mas acharam por bem que eu fosse. Ai tudo bem, vamos lá. Mas não fiquei muito não, fiquei cerca de um ano só embarcado. P/1- Eu ia te perguntar por que um engenheiro de processamento embarcado, o que você fazia? R - Não, mas a parte operacional, o engenheiro, a plataforma, antigamente não. Hoje em dia você pega, só tem um engenheiro da manutenção, da operação e da prática. Antigamente não, você tinha das utilidades, tinha da produção de petróleo, tinha gás, tinha elétrica, tinha vários engenheiros que comandavam seus operadores e equipe que não eram gerais. Tinha operadores das utilidades elétricas, tinha operadores de utilidades de sistema, tinha operadores de gás, tinha operador do óleo, era cada dentro de uma especialidade. P/1- Hoje não tem mais isso? R - Não, hoje os operadores são gerais, hoje você tem operadores que entram na empresa, faz concurso e formação multidisciplinar então não tem mais "eu sou só de elétrica, eu sou só de gás", hoje em dia o operador é de plataforma. P/1- Isso é melhor, pior? R - Olha depende, isso tem seu lado bom e seu lado ruim. O lado bom que eu vejo é porque você flexibiliza seu grupo, sua equipe, cada um cobre a área do outro na ausência e tal. Por outro lado, o que eu acho ruim é o lado que você perde um pouco a especialidade do negócio. Por exemplo, se você mexer numa utilidade elétrica, o cara tem que saber bem sobre eletricidade, não é qualquer um que chega lá e "a mexe aqui", ali é um troço muito perigoso, põem em risco a vida de todo mundo que tá ali, então no início, houve um pouco de pressão contrária a isso, mas começou a fazer esse tipo de treinamento, então pegava pessoas que trabalhavam com sistema, água, ar comprimido, os sistemas de incêndio de maneira geral de utilidades e começou a treinar no óleo, no gás, na parte elétrica. Então, você formou uma equipe que hoje, o operador de sistema mexe na eletricidade, eles são assim bem flexíveis. Mas naquela época você pegar, por exemplo, gente nova que está entrando na empresa e você treinar é uma coisa. Você pegar aqueles que já tem 10 anos trabalhando numa área e querer que ele vá desenvolver outra, já é uma outra conversa. P/1- É diferente. Daí você ficou um ano embarcado? R - Um ano embarcado, mas eu não gosto. Quer dizer, não gosto, a gente é profissional e tem de trabalhar em qualquer área, mas eu prefiro trabalhar em terra. Eu acho que a vida pra mim, no meu perfil, é mais interessante. P/1- E você conviveu com muita gente? Com os gringos, com muita gente de outros lugares? R - Gringos nem muito, mas por exemplo, a parte de petroleiro, de 1982 pra cá, houve nesse caso a época que iniciou as atividades, com maior intensidade. Então entraram as plataformas de ____, Namorado, Garoupa, Anchova, nesse caso aí tinha um setor de operação, de pré-operação, pegava e dividia, entendeu? Eram 7 plataformas sem ninguém. Você pega, treina as pessoas e tornar aquilo ali rotina de operação com engenheiros, técnicos e toda equipe da plataforma. Então tem todo um trabalho de treinamento, de visão da equipe, de ver o perfil das pessoas que se adaptam melhor. P/1- Mas você conheceu gente do Brasil inteiro então? R - Ah, sim. P/1- E como era o relacionamento, era bom? O pessoal tinha um sotaque único? Como era isso? R - Não, não, tinha gente de todo lugar. Tem gente que gosta como eu, de trabalhar em terra, tem outros que só gostam de trabalhar no mar, depende de cada um. O cara mora lá no Rio Grande do Sul, a família mora lá, pra ele é ótimo. Vem aqui, trabalha aqui e vai pra casa dele. P/1- Tem muitos assim. R - Muitos, tem gente que mora até no estrangeiro, Miami, tem uns que moram e trabalham essa quinzena e volta. Morando aqui o cara vai de avião para os Estados Unidos e você tem uma cortesia, fica uma passagem um pouco mais barata e o cara percebe, assim. Cada um no seu estilo, se adaptando de acordo com as circunstâncias que são... P/1- É lógico, Ivo, e o seu maior desafio desses anos de petroleiro? R - Olha, desses anos de petroleiro o meu maior desafio é contribuir para a equipe, tentando aprender um pouco mais, procurar me desenvolver e ajudar o crescimento da empresa. Eu sempre falo até que eu tenho orgulho de ser petroleiro, porque pra mim isso aqui foi a minha vida, entendeu? Então nunca me deixou rico, mas também não me deixou pobre. Me deu condições de criar os meus filhos direitinho, uma vida digna com o meu trabalho e tal. E eu digo isso pra todo mundo, então nesse caso é uma satisfação e se eu puder eu boto meus filhos também como petroleiros, porque eu acho que é um trabalho assim interessante. P/1- E a alegria? A maior alegria de trabalhar dentro da empresa? R - Dentro da empresa? P/1- Sem contar os filhos e a esposa. R - Não, a maior alegria é o convívio que a gente tem com as pessoas, que a gente aprende, com cada um que nos ensina uma coisa diferente, a gente passa também um pouco o relacionamento cordial que sempre existiu entre, hoje em dia está um pouco mais gigantesca, mas antigamente eram poucas pessoas, então a gente tinha mais convivência familiar, dava uma festinha de aniversário, era na casa do outro e tal. Trazia as mulheres, as crianças tinha mais relacionamento, hoje em dia está um pouco mais individualizado, porque já teve um crescimento. Então isso aqui era assim uma cidade pequena, de pouca gente e tinha muita, pra encontrar o que fazer a gente fazia festinha, vamos lá na casa do fulano vai ter uma festinha tal, o outro no fim de semana. Então a gente tinha assim alguns relacionamentos extra trabalho, com as pessoas das famílias se relacionando. P/1- E uma história, um causo? R - Aqui teve vários casos, a parte de acidentes tem vários casos. Desde o acidente de enxofre eu acompanhei, não trabalhei no caso mais eu estava aqui e vi vários colegas trabalhando. P/1- Mais alguma história engraçada que você lembre, algum fato pitoresco que tenha acontecido? R - Assim especificamente eu vejo vários fatos, a história de trote adicional de primeiro embarque. P/1- Como é que é? R - O cara pega a pessoa novata que não tem ainda um grande conhecimento e falam uma série de coisas, prometem, o cara vai lá e a turma sacaneia ele. [risos]. P/1- Mas o quê? Me conta. R - Os caras prometem, diz pra eles assinarem um papel pra ganhar adicional de primeiro embarque e o cara vai lá: "onde que assina?" Crente que... e faz uma festa e recepção... assim, é muito calorosa, o pessoal do mar eles trabalham, eles ficam mais com o pessoal embarcado do que com a família e isso ai de repente tem muita coisa a ver. A pessoa vai meio na inocência, não conhece e eles fazem brincadeiras e tem diversos trotes mais tudo saudável. E aí cria mais amizade, mais calor de equipe para trabalhar em conjunto. P/1- Você passou por um trote desse ou não? R - Não, porque eu também fiquei pouco tempo e quando fiquei eu já tinha 4 anos, já tinha uma idéia do que era. P/1- Já sabia né? R - E antes de ir pro mar, eu já tinha um ano e seis meses de terra. Então já era, já tinha ouvido falar, conversava com as pessoas e já tinha uma ideia, assim. Mas eu fiquei lá um ano, trabalhei em (Shernia?) Isso foi em 1983, por aí, 1984. P/1- O que vocês faziam para se divertir? R - Aqui? P/1- Lá na plataforma. R - Lá na plataforma a diversão... esse início é um trabalho mais pesado do que eu acredito que seria hoje. Naquela época estava tudo entrando em operação, era uma perspectiva muito grande de você ver, conseguir tomar conta da situação, começar a produzir petróleo, alavancar a produção. Então o trabalho era incessante, trabalhava dia de semana, de fim de semana, à noite... P/1- Não tinha nem tempo pra lazer. R - Não, e era até bom porque você ficar no meio do mar confinado, sem sua família por perto, você tem que trabalhar mesmo, você tem que ter coisa pra fazer e não ficar pensando bobagem, olha o mar, olhar longe, entendeu? Você tem que ter atividade profissionais principalmente e o relacionamento cordial com toda a equipe. P/1- Mudou muito, Ivo, da época que você entrou para agora essa questão de equipamentos? Como foi essa evolução tecnológica? R - Olha, as plataformas mudaram a parte de projeto. Hoje em dia tem umas plataformas mais atualizadas, mais modernas. Hoje em dia, você controla a produção por terra, antigamente você não tinha nada disso. Você não tinha computador direito, telefone era mais difícil, fax era, entendeu? Era tudo mais complicado. P/1- Hoje é tudo ao mesmo tempo, tudo on-line? R - Era tudo mais devagar. Pra você fazer o embarque da turma você já tinha que ligar "base 60". Aí falava igual rádio e o cara não ouvia direto: "Que? Mas quando?"Ee é radar, então isso acontecia muito, hoje em dia não. Entra no sistema e faz tudo. P/1- Muito mais fácil. R - É, agora [risos]. P/1- [risos] Ivo, o que você acha sobre esse projeto de contar a memória da bacia por meio dos trabalhadores? R - A isso aí eu acho muito interessante, viu. Eu vejo que hoje em dia, com o avançar dos tempos, eu sinto uma política da empresa de dar mais valor ao empregado, que o cara se sinta bem, com vontade, trabalhar com vontade que ele se sinta querido dentro do processo, dá mais atenção ao funcionário como era antigamente. Antigamente, era oi e tchau. Aqui não, eles estão interessados nesse trabalho que vocês estão fazendo, já procura se você quiser fazer um contato você já tem, se você quiser já tem vários canais, que você tem mais cuidado com o trabalhador, vamos dizer assim. P/1- Isso é bom né? R - Lógico que é. Eu por exemplo, não gosto de trabalhar com um chefe autoritário, me cobrando, eu prefiro que o cara me deixe à vontade. Não é que eu vou abusar da intimidade, não é isso. Eu quero me sentir relativamente tranqüilo e como se tivesse ali cordialmente. Eu não digo nem amigo, bom relacionamento, colega de trabalho, lógico eu não vou tirar a chefia de ninguém, mas deixando mais a vontade a gente trabalha com mais tranqüilidade e acredito que os resultados são melhores. P/1- Com certeza. Então tá bom Ivo obrigada pela sua entrevista, valeu. R - Qualquer coisa que precisar, vocês sabem onde me encontrar. P/1- Tá ótimo, muito obrigada. R - Muito obrigado pra você. P/1- Só um pouquinho. ------------------------------------- Fim da entrevista ------------------
Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+