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História

“Mangia che te fa bene!”

História de: Liviana Gianni Bernicchi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 28/06/2001

Sinopse

Da cidade histórica de Lucca, se recorda, saudosa, das festas, quando as ruas se iluminavam pelas lamparinas no interior da muralha; das andanças de bicicleta e das escapadas da igreja para ir ao cinema. O lado obscuro da cidade festiva e iluminada, porém, se revelava no autoritarismo fascista e na provável emergência da guerra, e é nesse cenário que Liviana e a família se encontram quando conseguem a passagem para o Brasil. Mesmo após a dura viagem de um longo mês em situação precária, é no Brasil que constrói sua vida, ao lado do marido, dos filhos e de sua paixão: a culinária. A entrevista de uma verdadeira mamma italiana é um mergulho na culinária, na cultura e na história dos imigrantes italianos em São Paulo.

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História completa

P/1 – Dona Liviana, por favor, eu gostaria que você dissesse o seu nome completo, local de nascimento e a data de nascimento.

 

R – Liviana Gianni Bernicchi, nata a Lucca, Ponte a Moriano em 21 de agosto de 1927.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – Giuseppe Gianni e Maria Apolonia Gianni.

 

P/1 – A senhora conheceu os seus avós?

 

R – Sim.

 

P/1 – E como é que eles se chamavam?

 

R – Da parte de mama era Egisto e Caterina. Da parte de papa, era Hercília... Ah! Elisa e Stephenson... Não sembra nome, mas era nome. Meu bisnono foi mezzo matto. Ha messo il nome do filho de Stephenson. Stephenson, o inventor da máquina a vapor, né?

 

P/1 – Ah, é?

 

R – É.

 

P/1 – E o que é que a senhora tem de lembranças deles, dos seus avós?

 

R – Muita, muita. Porque, inclusive, os maternos eu deixei vivo os dois, quando vim para cá. Fui a primeira neta dos dois lados, fui super paparicada pelos quatro.

 

P/1 – Imagina! Eles moravam na casa de vocês?

 

R- Não, não. Os paternos moravam bem perto, os maternos também não era longe, uns quatro ou cinco quilômetros.

 

P/1 – A sua família era toda de Lucca?

 

R – Toda de Lucca. A família do pai é oriunda de Siena, porque já o meu bisnono era de Siena. Mas tudo ali, em Lucca.

 

P/1 – Eu queria que a senhora descrevesse Lucca na sua infância.

 

R – Na minha infância?

 

P/1 – É.

 

R – Na minha infância... Bom, Lucca... Você sabe que Lucca é a única cidade – acredito eu que seja a única – que tem ainda a cidade etrusca, que ainda tem as muralhas inteirinhas em volta da cidade. É uma maravilha perché ainda são super conservadas. Você sobe nas muralhas, tem um passeio lá em cima, tudo embaixo de plantas, e dá volta, mesmo, na cidade. Porque era no tempo quando brigava cidade com cidade e tinham as pontes levadiças, essa história toda, você sabe, história. Então ela conservou as muralhas inteiras. Eu morava fora de Lucca, por isso que falei se teria também lugar... Ponte a Moriano é fora de Lucca, na cidade histórica, entendeu?

 

P/1 – Entendi.

 

R – E naquele tempo, tanto escola como a vida todinha era fora da cidade. Depois, quando eu acabei o primário e comecei o Normal, aí o Normal tinha que ser feito em Lucca, dentro, na cidade histórica.

 

P/1 – E sua casa?

 

R – Como o meu pai era diretor financeiro de uma fábrica de juta, muito grande, nós tínhamos casa dentro da fábrica, que era um jardim imenso... E a entrada da fábrica, que era muito comprida, ao lado da entrada tinha apartamento para os diretores. Era lá dentro, e eu vivia meio que afastada do resto das crianças, das outras casas, porém junto com as crianças que viviam lá, que eram filhos dos outros diretores.

 

P/1 – E era só de diretores ou de operários também?

 

R – A casa não, casa de operários tinha muitas lá fora, fora desse jardim. Atravessava a rua, lá tinha casa de operários. Tinha bastante, inclusive, porque dizem que quando foi fundada essa fábrica, esse lugar quase não tinha moradias. Então, quem construiu a fábrica, para ter gente que trabalhasse, construía a casa e dava de graça para o pessoal trabalhar na fábrica.

 

P/1 – E a senhora chegou alguma vez a entrar numa casa dos operários?

 

R - Sempre, sempre.

 

P/1 – Era muito diferente da sua casa? Bem menor?

 

R – Não era tão pequena. Eram bem mais simples, lógico. No chão era piso de cerâmica, aqueles quadradões. Entrava-se pela cozinha. A sala era atrás, imagina! Entrava-se pela cozinha talvez porque não tinha água encanada. No meio desse casarão grande, que era forse que nem um prédio enorme de quatro andares, tinha uma fonte no meio onde todo mundo ia buscar água de balde.

 

P/1 – E na casa de vocês, tinha água encanada?

 

R – Jorrava o dia inteiro, porque bombeava da fábrica, lá em cima, e quando estava cheio o nosso depósito ela caía no tanque fora de casa, no terraço e, do tanque, voltava lá embaixo, para a fábrica. Então ela era contínua.

 

P/1 – Ah! Era um sistema que deixava a água rolando?

 

R – É, contínua.

 

P/1 – Entendi.

.

R – E a gente não pagava nada, nem aluguel, nem luz, nem água, nem horta – que a gente tinha uma horta boa –, nem madeira para queimar no inverno, na lareira.

 

P/1 – E a senhora é filha única ou tem irmãos?

 

R – Não, tenho dois irmão.

 

P/1 – Dois irmãos.

 

R – Um que fez entrevista comigo, que mora perto de mim, e tenho um 11 anos mais novo, que mora em Catanduva.

 

P/1 – E como eram as brincadeiras de infância?

 

R – Bom, como qualquer criança, acredito eu. Claro que não havia televisão, mas as brincadeiras eram muito gostosas... Assim, de pular corda, de jogar bola, brincava de boneca, fazer casinha, todas essas coisas.

 

P/2 – Mas tem alguma que a senhora lembre especialmente, que a senhora gostava mais?

 

R – Sabe o que acontece? Na minha idade, lá dentro dessa fábrica tinha dois meninos, um, dois anos, os dois dois anos mais velhos. Então eu fazia geralmente o que eles faziam, porque eles eram dois e eu era uma. Eu subia nas árvores, jogava bola, andava de patinete... Porque havia um terraço comum de 55 metros lá em cima, tudo com tijolo, então, a gente brincava muito lá, nós. Depois lá era tempo de Mussolini, e ele tinha muito medo das fábricas, então tinha um jardim de infância sustentado pela fábrica muito, muito bom, com cada professora que era uma coisa!

 

P/1 – A senhora começou seus estudos lá?

 

R – Lá.

 

P/1 – Com quantos anos a senhora foi para esse jardim?

 

R – Acho que três anos!

 

P/1 – Novinha...

 

R – Três, quatro, porque era embaixo, era só descer e ir junto com os filhos dos operários.

 

P/1 – Como se fosse uma creche?

 

R – É, só que não dormia nem dava comida, não era bem uma creche.

 

P/2 – Não dava comida?

 

R – Não.

 

P/1 – Lanchinho vocês levavam de casa?

 

R – Não me lembro. Talvez desse, acho que sim.

 

P/1 – E a senhora continuou nessa escola por quantos anos?

 

R – Até o primário. Aí no primário, com seis anos, começava lá.

 

P/1 – Foi lá que a senhora foi alfabetizada, então?

 

R – Lá, certo!

 

P/1 – E a senhora se lembra da sua professora de primário?

 

R – Sim, lembro, foi sempre a mesma.

 

P/1 – Ah, é? Como é que ela se chamava?

 

R – Giuseppina Tadei.

 

P/1 – E como é que ela era na escola? Era rígida?

 

R - Não, ela era mocinha, era bárbara, ela. Eu a adorava!

 

P/1 – Delicada?

 

R – Delicadíssima. Foi super bom, ela era muito boa como professora, não como pessoa. Muito boa. Saí de lá sem problema nenhum para fazer exame para entrar no Normal, e passei sem problema nenhum.

 

P/1 – A senhora que escolheu fazer o Normal?

 

R – Não, eu detestava. Meu pai que escolheu. (riso)

 

P/1 – A senhora queria...

 

R – Eu falei: “Graças a Deus que eu vou para o Brasil e não preciso ser professora!”

 

P/1 – A senhora gostaria de ser o quê?

 

R – Ah, alguma coisa relativo a trabalhar num escritório, administração de empresa, coisa assim, porque eu adorava matemática. E eu nunca comprei um livro de matemática, você acredita? Só com o que a professora explicava, pra mim já bastava. E com criança eu era um fracasso. No último ano, quando levavam para a gente dar aula pra ver como se comporta uma professora numa classe, meu Deus, parece que eles sabiam que eu não gostava de dar aulas, viraram todos uns capetinhas.

 

P/1 – A senhora tinha medo de alguma coisa?

 

R – Não medo, eu fazia sem gosto.

 

P/1 – Não era vocação?

 

R – Não era vocação, o meu pai exigiu. Cheguei a me matricular noutro curso com o meu tio mais novo. O meu tio mais novo – que ainda está vivo aqui no Brasil – era bem mais novo do que o meu pai, tinha 14 anos mais do que eu, ele me levou. Quando o meu pai soube, quase matou os dois. Na hora de bater... Não, eu nunca apanhei do meu pai, estou brincando, mas ele ficou super nervoso.

 

P/1 – O seu pai tinha expectativa de que os seus irmãos fizessem algum curso específico, como ele queria que a senhora fizesse o Normal?

 

R – Não. Um tem seis anos, o mais novo do que eu, o outro onze, quer dizer, chegamos aqui, o pequeno ainda estava no primário, o outro estava começando o ginásio. E aqui eu acho que mudou a cabeça dele, não sei... Talvez porque era filha mulher, e ele dizia que a mulher não trabalhava em escritório.

 

P/2 – E qual foi o outro curso que a senhora se matriculou junto com o seu tio?

 

R - Instituto técnico. Aqui seria o que?

 

P/1 – Curso técnico?

 

R – Seria contador.

 

P/2 – Contador?

 

P/1 – Contabilidade?

 

R – Contabilidade, certo.

 

P/1 – E a senhora interrompeu esse curso...

 

R – Não, não cheguei nem a fazer, cheguei em casa e meu pai liquidou.

 

P/1 – E a sua mãe trabalhava fora de casa?

 

R – Não, nunca.

 

P/1 – Sempre em casa?

 

R – Sim.

 

P/1 – Era ela que preparava o almoço da família?

 

R – Sim, sempre.

 

P/1 – E o que a senhora lembra, de gostoso, que ela preparava?

 

R – Ela cozinhava muito bem, muito bem mesmo. Porque do lado da minha mãe, já a minha nona era uma cozinheira excelente. Do lado do meu pai tinha um restaurante e depois, quando chegamos aqui, toda a família sempre teve restaurante. Aquelas comidas da nona eram demais!

 

P/1 – Imagino!

 

R – A da minha mãe também, ela cozinhava super... Por exemplo, coelho com polenta eu faço, as minhas filhas também fazem. Mas o da minha mãe tinha um toque diferente que ninguém chega lá, não sei por quê.

 

P/1 – O que tinha de diferente?

 

R – Não, eu faço igual, eu sei fazer. Mas as minhas filhas mesmo acham que o da nona era melhor.

 

P/2 – E como é que é um coelho, como é que se faz um bom coelho?

 

R – Um bom coelho? Bom, antes tem que saber escolher o coelho. Eu não sei se posso fazer propaganda, mas o Carrefour tem os melhores coelhos.

 

P/2 – Tudo bem (riso).

 

R – Inteiro, porque se você compra de bandejinha, o coelho, em geral, vem ou perna ou osso, só. Eles põem um pedacinho bonitinho em cima e você não sabe o que tem embaixo. Se você comprar o coelho inteiro, você pica em casa, aí você deixa com água e vinagre...

 

P/2 – Água e vinagre?

 

R –... De molho, pelo menos umas três, quatro horas, com um punhado de alecrim fresco. Depois você lava de novo e deixa escorrer bem, secar bem e tempera ele com sal, pimenta, alecrim e alho.

 

P/2 – Refoga antes?

 

R – Não, tempera. Deixa temperado e depois de umas duas horas põe no azeite e deixa dourar devagarzinho, antes dele soltar aquela água e tudo. E quando está outra vez no óleo, que tirou aquela água, que secou aquela água, aí você põe tomate e a azeitona preta.

 

P/2 – Então só depois que secou a água é que se acrescenta o azeite e o tomate?

 

R – Não, não precisa acrescentar mais azeite, já está no azeite. Eu digo quando não tem mais água, quando você vê o azeite no fundo da panela é que você acrescenta o tomate.

 

P/2 – Está certo.

 

R –... E a azeitona preta. Aí vai jogando água quente. Se você gostar, antes de colocar o tomate, pode colocar um pouco de vinho e deixar evaporar, aí você coloca o tomate em seguida.

 

P/1 – O vinho dá um gostinho especial?

 

R – Um gostinho especial, é.

 

P/2 – E que vinho que é, um vinho italiano, com certeza?

 

R – Não, não necessariamente.

 

P/1 – Vinho tinto?

 

R – Vinho tinto. E eu que detesto vinho, olha que italiana fajuta!

 

P/1 – E a sua mãe, naquela época conseguia comprar o coelho limpinho?

 

P/2 – Ah, é? Já vendia...

 

R – Ah, claro, ainda mais [que] lá se usava muito coelho.

 

P/2 – Mas e aqui no Brasil, quando ela chegou já tinha?

 

R – Tinha, tinha gente na Água Branca que criava coelho. A gente ia descobrindo.

 

P/2 – Mas eram italianos que criavam?

 

R – Italianos, italianos.

 

P/1 – Para dar sequência à sua vinda de lá para cá: a sua família lá na Itália era de religião católica, não?

 

R – Católica.

 

P/1 – E vocês iam à missa?

 

R – Sempre. Meu pai era super católico, e naquele tempo tinha o vespro, era uma reza à tarde, no domingo. E tinha cinema.

 

P/1 – E como é que era?

 

R – Tinha cinema no centro, sempre passava filmes, sempre bom, e nós tínhamos que ir à reza, porque o meu pai exigia que a gente fosse na reza, e não podia ir no cinema.

 

P/1 – Todos os dias?

 

R – No domingo, domingo...

 

P/1 – E era dentro da cidade ou fora?

 

R – Eu morava fora, não te falei?

 

P/1 – Ah, mas a igreja que vocês iam...

 

R – Ah, era pertíssimo de casa, perto de casa.

 

P/2 – Agora me diz uma coisa: o cinema era perto da igreja?

 

R – Não, era tudo a pé, dava para fazer tudo a pé.

 

P/2 – Agora, a senhora chegou a...

 

R –... A fugir da igreja para ir ao cinema?

 

P/2 – Sim (riso).

 

R – Eu cheguei a ir. Sabe que naquele tempo... A igreja aqui também acho que era assim, os homens ficavam de um lado e as mulheres de outro.

 

P/2 – Certo.

 

R – Então, como eu era mulher, ia como meu pai até a porta da igreja. Meu pai entrava pela porta dos homens e eu entrava pela porta das mulheres. Me enfiava e sentava sempre no finzinho e, quando era hora de ir no cinema, tchau.

 

P/2 – E voltava antes da igreja acabar?

 

R – Não, não, não dava. Ele sabia que quando terminava a reza eu podia ir ao cinema, só que, mesmo correndo, eu sempre pegava o filme começado.

 

P/2 – Entendi.

 

P/1 – Então a senhora ia antes?

 

R – É.

 

P/2 – A senhora saía na metade, ou a senhora saía antes da missa começar?

 

R – Não, não, quase no fim, quando faltava... Inclusive eu ia de bicicleta, eu não ia a pé. Lá eu andava muito de bicicleta.

 

P/2 – Para ir mais rápido, também?

 

R – Para ir mais rápido.

 

P/2 – Certo.

 

P/1 – E no cinema, que tipo de filme a senhora gostava de assistir?

 

R – Ah, romântico. Eu era a mocinha, água com açúcar.

 

P/1 – Tem algum especial que a senhora não esquece nunca?

 

R – Não lembro agora. Para falar a verdade, não lembro. É gozado que às vezes ainda passa por aqui, na Rai [Cinema], com artistas daquele tempo.

 

P/1 – E quem eram os seus artistas prediletos?

 

R – Alida Valli e de homem Amedeo Nazzari, Fosco Giachetti. Bárbaros!

 

P/2 – Tem algum diretor italiano que a senhora ainda lembra, da sua época?

 

R – De diretor eu gostava muito do marido da Sophia Loren, Carlo Ponti. Bom, muito bom. Agora, temos lá um que faz o maior sucesso, que é o Fellini.

 

P/2 – O Fellini também, mas qual é o que a senhora mais gosta?

 

R – Agora temos também o Benigni, de “La Dolce Vitta”, que Nossa Senhora, fez um sucesso extraordinário!

 

P/1 – A senhora foi assistir “A Vida é Bela”?

 

R – Claro.

 

P/1 – Bonita?

 

R – Muito.

 

P/1 – É lindo. A senhora veio para cá com 18 anos?

 

R – Sim.

 

P/1 – Antes disso, lá na Itália, a senhora deixou muitos rapazes apaixonados? Como é que era, tinha paqueras?

 

R – Não. Gozado, naquele tempo, com 18 anos ainda éramos bem infantis. Tinha paquera, lógico, a gente ia ao cinema não era para ver o filme, não é? (riso).

 

P/1 – E o pai da senhora era muito ciumento?

 

R – Demais, demais mesmo.

 

P/1 – Como é que era para conhecer o moço? Você tinha que...

 

R – Ele ia junto.

 

P/2 – Ele ia junto?

 

R – Ele ia junto, sabe por quê? Ele era dessa fábrica, estou falando do tempo do Mussolini, que era tudo isso, todas as fábricas tinham que ter um dopo lavoro, um pós-trabalho onde os funcionários pudessem ter atividades esportivas, tudo isso. Tinha palestra, essas coisas. O meu pai era diretor daquilo, aí todos os domingos, feriado prolongado, ele organizava passeios para fora de bicicleta ou mais longe, de ônibus, a todo lugar. Ele era um desportista mesmo, escalava montanhas, tudo isso. Eu comecei com ele desde pequena a fazer isso, então depois, que eu era moça, os moços e as minhas amigas, íamos todos juntos, e ele ia atrás também, porque ele gostava disso e me controlava sempre.

 

P/1 – A senhora lembra do posicionamento político dele, como é que ele era em relação ao governo?

 

R – Ao governo ele era pela democracia, mas ele não era fascista.

 

P/2 – Então ele não era a favor do Mussolini?

 

R – Tinha que ser, era obrigatório, tinha que usar farda nos desfiles, porque era obrigatório.

 

P/1 – E como é que era a farda?

 

R – De homem?

 

P/1 – É.

 

R – Era calça preta, aquele paletó que chamavam de sariana. Espera, o que seria aqui? Aquele com cinto, com bolsos grandes, com chapa, como chamaria?

 

P/1 – Como um casaco de general?

 

R – Isso, isso. Tudo preto: camisa preta, gravata preta e boné com a viseira dura, tipo militar. O meu mesmo, de giovane italiana, era saia pregueada preta, camisa branca de mangas compridas, um distintivo grande do fascio, do Mussolini, meia três quartos branca e sapato preto.

 

P/1 – E em que ocasiões a senhora tinha que vestir esse uniforme?

 

R – Em todas as festas.

 

P/1 – Pátrias?

 

R – É, políticas.

 

P/2 – E a senhora gostava?

 

R – Não.

 

P/2 – Mas a senhora lembra de algumas dessas festas, como elas eram?

 

R – Eram maravilhosas, muito bonitas. Nossa, ensaiavam corais estupendos! Muito bonitos! Mas tudo o que é obrigado eu não gosto muito.

 

P/1 – A senhora lembra de algum hino, alguma música da época?

 

R – Se vier o meu marido, ele te canta todas.

 

P/1 – Ele sabe tudo.

 

R – Eu não sei cantar, ele se lembra de todas, ainda.

 

P/1 – E canção de infância, a senhora lembra? Cantigas de roda, essas coisas?

 

R – Mais ou menos.

 

P/1 – Não quer cantar um pedacinho?

 

R – Não, não, ainda mais hoje, a garganta está coçando.

 

P/1 – Aí vocês vieram em que situação?

 

R – Nós viemos... Acabou a guerra e começou a chegar carta daqui para lá. Demoravam muito as cartas, porque iam de navio, e tinha poucos, inclusive. Navio italiano nenhum ainda, só navios brasileiros que funcionavam naquele tempo, então começou a vir carta daqui, e nós começamos a mandar carta pra lá, dizendo que nós estávamos lá com a casa toda quebrada, sem comida, sem roupa, sem nada. Aí meus tios, pela Cruz Vermelha, começaram a mandar pacote para lá.

 

P/1 – Os tios daqui?

 

R – Daqui, porque da família do meu pai todos os irmãos já estavam aqui.

 

P/1 – A senhora sabe quando eles vieram e por que eles vieram para cá?

 

R – Sei. Um tio meu que começou, era marido de uma tia, e ele foi contratado pela Rhodia da Itália, que abriu uma fábrica em São Bernardo ou Santo André. Como ele era um super mecânico, ele veio contratado pela Rhodia. Estava ele e minha tia, sem filhos, porque eles nunca tiveram filhos. Quando estava prestes para explodir essa guerra lá... Eu tinha dois tios solteiros, aliás, um era viúvo, ficou quase nada casado, moços. Como eles podiam muito bem ser chamados para prestar serviço militar, então meu avô, lá na Itália, que era pai dos dois, que tinha bar e restaurante... E o bar comprava o vinho das terras do genro do Mussolini, que era lá perto a casa de campo dele. Eles compravam todo o vinho dele. Então, por meio desse genro do Mussolini, conseguiu passaporte para os meus tios virem embora. Eles vieram com o último navio de lá, e depois explodiu a guerra.

 

P/1 – Mas nessa época, logo antes da guerra, estava proibida a saída?

 

R – Não estava proibida, mas já não tinha mais navio, não tinha mais condições, porque já era a guerra, estavam planejando tudo, estava para explodir. Tanto que, quando eles estavam no navio, vindo para cá, explodiu. Uma semana, 15 dias depois, chegou carta de chamada para prestar serviço militar.

 

P/1 – E a sua família não cogitava sair antes da guerra?

 

R – Não, de jeito nenhum. Meus tios nunca, porque estavam super bem, trabalhavam numa empresa de construtora. Nossa Senhora, ganhavam super bem!

 

P/1 – Eles não imaginavam que podiam ser afetados pela guerra?

 

R – Não, de jeito nenhum! Nem o meu pai nunca pensava.

 

P/2 – E depois, com todas as consequências da guerra?

 

R – Pois é, a fábrica todinha destruída. Mas não deixaram um metro sequer, uma máquina inteira, nada. Então, pensamos: “Até se refazer...”, a gente nunca pensou que pudesse ser tão rápido. Deu uma reviravolta tremenda, com a ajuda dos americanos que mandaram o dinheiro para lá a fábrica se ergueu num instante.

 

P/1 – A mesma fábrica?

 

R – A mesma fábrica.

 

P/1 – Aí o seu pai não quis voltar?

 

R – Não, não quis.

 

P/1 – E como é que foi essa vinda para o Brasil?

 

R – Trágica!

 

P/1 – Trágica? (riso)

 

P/2 – Por quê?

 

R – Pensa que... Viemos em dez, porque até o meu avô que estava morando em frente à gente, que tinha restaurante, bar, que eu te falei, e tinha um filho que morava com ele, com a mulher e com os dois filhos... Eles todos também quiseram vir, não quiseram ficar lá sozinhos, então viemos em dez. Já pensou? Num navio que transportava brasileiro, Almirante Alexandrino. Diziam que aqui ele antes transportava banana pela costa e depois começou a transportar soldados, pracinhas, e a gente veio com esse navio. Calcula você.

 

P/1 – Em que ano vocês vieram, depois da guerra?

 

R – Em 46.

 

P/2 – Quanto tempo durou a viagem?

 

R – Trinta e um dias, porque telegrafamos do navio para os meus tios irem para o Rio [de Janeiro] pegar a gente, porque nós estávamos morrendo de fome.

 

P/2 – Fome?

 

R – Eu desci com 42 quilos.

 

P/1 – Mas vocês não chamaram...

 

R – Morreram crianças, no navio.

 

P/2 – Por que, não tinha comida?

 

R – Não tinha nada. Lá em Gênova, quando saímos, tinha bastante coisa, mas, na metade da viagem, antes, quebrou a geladeira, apodreceram todas as carnes, toda a comida foi jogada ao mar. Os banheiros não funcionavam mais, eram coletivos, porque eram disputados!

 

P/2 – Meu Deus!

 

R – Pensa que viagem!

 

P/1 – Aí vocês chegaram a aportar no Rio de Janeiro, desembarcar?

 

R – Sim, sim, porque tinha gente que desembarcava realmente lá. Então deixamos todas as malas e meus tios vieram com dois carros, pegaram a gente e depois foram pegar as malas quando o navio chegou a Santos.

 

P/1 – Entendi, pouco depois o navio conseguiu chegar.

 

R – Levou mais seis dias para chegar em Santos.

 

P/1 – Nossa! E no Rio de Janeiro vocês chegaram a andar pela cidade ou ficaram só no porto?

 

R – Não, chegamos e dormimos lá.

 

P/1 – Em que lugar vocês dormiram?

 

R – Na Atlântica. Chique, né? (riso)

 

P/2 – E como foi?

 

R – Achei maravilhoso! Já a chegada, quando o navio estava chegando na baía do Rio e chamavam de noite _________, e aquele Cristo ali em cima todo iluminado, ai que o pessoal chorava feito não sei o quê! Como nós choramos!

 

P/1 – Vocês acharam lindo?

 

R – Maravilhoso! Até hoje tenho uma paixão tremenda pelo Rio.

 

P/1 – Qual a primeira coisa que a senhora viu no Rio de Janeiro?

 

R – O Cristo, de longe!

 

P/1 – E a senhora lembra quem foi a primeira pessoa com quem a senhora conversou?

 

R – No Rio, com os tios. O navio estava ainda atracando, os tios estavam lá embaixo e começaram já a falar. Eu tinha meu tio que vinha conosco, que seria irmão do meu pai. Ele fumava muito, não havia nem mais cigarro no navio, então a primeira coisa foi: “cigarro!”. Eles pegaram e jogaram o maço de cigarros no navio, acredita? Alcançaram!

 

P/1 – Aí ele fumou...

 

R – Ai, que delícia! (riso)

 

P/1 – E o que a senhora sentiu, qual foi o impacto de chegar no Brasil? Como é que a senhora sentiu isso?

 

R – Bom, eu adorei.

 

P/1 – A senhora gostou da ideia de mudar?

 

R – Ah, eu gostei!

 

P/1 – Por quê?

 

R – Muito, muito. Talvez por causa de ser professora. Foi uma saída bárbara, espetacular (riso).

 

P/2 – Aí no que a senhora foi trabalhar?

 

R – Aqui em nada, nada, porque está aí está outra vez a história: eu tinha feito quatro anos de francês com uma francesa mesmo, então eu falava francês como o italiano. Para mim, não fazia diferença nenhuma. Conhecia todos os vocábulos e tinha feito italiano por sete anos com uma italiana severíssima. O meu italiano era perfeito. Mais sete anos de latim. Então, no Banco Francês e Italiano, o diretor perguntou para o meu pai se não queria que eu trabalhasse lá, porque estavam precisando de uma tradutora. O meu pai não deixou, porque mulher não podia trabalhar num escritório.

 

P/1 – Seu pai era severo, então?

 

R – Não era demais?

 

P/2 – E aí?

 

R – Aí, para não ficar em casa, eu fiz amizade, aqui na Água Branca, com uma família de Lucca que tinha venda, naquele tempo era venda, um empório, e tinha uma filha da minha idade que fazia corte e costura. Eu inventei de fazer corte e costura só para poder sair um pouco de casa, porque senão... Ninguém me entendia. O que eu fazia o dia inteiro?

 

P/1 – A senhora não falava o português ainda?

 

R – Aprendi logo, logo, porque eu tinha lido lá, na Itália, todos os livros da Adelí, uma escritora para mocinha. Era uma escritora da água com açúcar. E, quando cheguei aqui, a mulher do meu tio, que era bem mais nova do que ele, tinha todos esses livros em português. Eu peguei os livros, li em português. Eu já sabia a história, então em três semanas, acho, já entendia tudo.

 

P/1 – Mas falava ainda com...

 

R – Falava até hoje, porque falo sempre, italiano.

 

P/1 – E quando a senhora chegou no porto e ouviu aquelas pessoas falando em português?

 

P/1 – Fica quieta, porque aí é que foi um desastre (riso). Sabe por quê? Antes de sair de lá, em Gênova mesmo, eu falei assim: “Eu quero um livro para saber pelo menos as palavras principais, para saber alguma coisa de português. Chego lá numa terra que eu não sei falar nem obrigada e nem por favor?” Aí eles me deram um livro. Sabem o que era? Um livro em espanhol. Eles pensavam que aqui se falava espanhol! Quando cheguei aqui, vi que tinha aprendido tudo errado (riso).

 

P/1 – E aí, a senhora se comunicou com alguém? “Buenos dias!”

 

R – Não. Eu cheguei... Cheguei a falar. Porque quando eu cheguei na Avenida Atlântica para dormir, eu precisava de toalha, e cheguei a falar, foi aí que eu percebi que não era a língua que eu estava aprendendo.

 

P/2 – Mas eles entenderam a senhora, quando a senhora pediu a toalha?

 

R – Ah, não me lembro...

 

P/2 – Como é que é toalha em italiano?

 

R – Asciugamano.

 

P/2 – E como é que é toalha em espanhol?

 

R – Você sabe que não me lembro?

 

P/2 – Não é mantel?

 

R – Mantel? Eu acho que sim, manta, mantel, não me lembro mais. Mas eu adorei que fosse o português, eu gosto muito mais do português do que do espanhol. Ainda mais o português falado em São Paulo, eu acho lindo.

 

P/2 – Por quê?

 

P/1 – Tinha alguma palavra que em português a senhora achasse bonita, diferente, engraçada?

 

R – Engraçada e diferente tem esse “puxa vida”.

 

P/1 – “Puxa vida?” Mas por quê? (riso).

 

R – Porque “puxa la vida?” não sei se posso falar. Mas, quando cheguei aqui, todo mundo ia às casas. Essa minha amiga que fiz amizade, essa mocinha me levava em tudo que era aniversário, casamento, para eu sair um pouco. Então, em todo lugar que eu ia, me pediam o alfabeto em italiano: “Fala o alfabeto em italiano.” Eu começava a falar. Aí, num certo ponto, todo mundo dava risada. Não entendia por que. Demorei para entender por que davam risadas, “o que é que tem de engraçado?”.

 

P/2 – E quem foi que lhe disse o que é que é?

 

R – Essa minha amiga. Ela me deixou falar bastante, eu paguei bastante mico. (riso).

 

P/1 – E por que a senhora achava o português de São Paulo mais bonito que o português do Rio?

 

R – Talvez porque é mais aberto, é mais... Tipo italiano. Tem muito italiano aqui em São Paulo, na Água Branca. Meu Deus do céu, todo mundo me entendia!

 

P/1 – Todo mundo entendia a senhora?

 

P/2 – Mesmo sendo brasileiros?

 

R – Minha mãe morreu sem entender português.

 

P/2 – Morreu?

 

R – Morreu. Você sabe que naquele tempo, a Rua Coriolano, onde eu fui morar, não tinha nem asfalto, era de terra, e vinha verdureiro vender verdura de manhã. Era português, o homem. Minha mãe pedia tudo em italiano e ele não entendia ela. Um dia ela falou para ele: “Você é burro mesmo, os portugueses são burros. Mas verdade, você é burro mesmo, afinal, quantos anos você está aqui e ainda não aprendeu a falar italiano?” Ela queria que o homem aprendesse italiano por causa dela (riso).

 

P/2 – E o que ele respondeu? Ele entendeu que ela o estava chamando de burro?

 

R – Não. Eles eram super amigos.

 

P/1 – A senhora disse que tinha bastante italiano na Água Branca?

 

R - Muito, muito, muito mesmo.

 

P/1 – Como é que era a convivência entre a comunidade italiana?

 

R – Vocês sabem que eram muito amigos, porque naquele tempo toda a vida do bairro era praticamente na praça da igreja, era aí que se encontravam as mocinhas à noite, com os namorados, com os paqueras, na praça da igreja. Era gostoso, muito gostoso, porque eram bastante os filhos de italianos, os netos.

 

P/1 – Como é que se chama essa igreja? Ela existe, ainda?

 

R – É San Giovanni Vianney, é na Clélia. Porém eu não me casei lá.

 

P/1 – Não?

 

R – Não, porque eu comecei a frequentar a igreja da Pompéia, por causa da língua, para me confessar. O padre lá não me entendia, então, eu comecei a ir na igreja da Pompéia e tinha padres italianos. Então eu quis que o padre que me confessava me casasse, casei na Pompéia.

 

P/1 – Hoje a senhora ainda se confessa em italiano?

 

R – Na igreja de italianos, sim.

 

P/1 – A senhora ainda mantém essa prática?

 

R – Para mim é mais fácil, entendeu? Ainda porque o meu marido só fala italiano comigo, e eu só falo italiano com ele. Agora, com a associação a gente fala só em italiano, lá dentro.

 

P/1 – E é como se estivesse lá na Itália?

 

R – É. Eu faço palavra cruzada em italiano, não sei fazer em português. Eu faço muitas, e encontro sempre.

 

P/2 – E onde a senhora compra palavras cruzadas?

 

R – Ah, tem sempre ali no Siciliano, “La Settimana Enigmmistica”.

 

P/2 – Agora, uma pergunta: e como foi que a senhora conheceu o seu marido, se o seu pai era tão duro?

 

R – Espera aí. Meu pai, quando – coitado! – quando veio aqui, ele queria, ele pensava, sonhava ainda morar lá na Itália. É lógico, com a idade dele, ele pensava que um dia... O medo dele era que eu casasse com um daqui, que eu ficasse aqui e ele fosse embora. Então, quando esse meu marido começou a vir em casa, ficar amigo da família... Mas ele estava noivo e não estava... Não tinha problema nenhum, era compromisso para amizade. Aí ele, com mais... Porque vieram muitos moços, naquele tempo, porque tinham acabado a escola, tinham se formado, talvez algum faltasse ainda para se formar, um ano, dois, vieram embora sem trabalho, sem nada. Vinham embora porque lá não tinha mais emprego, as fábricas estavam todas destruídas. Quem tinham parente aqui... Porque naquele tempo era preciso uma carta de chamada. Não se podia vir assim, por querer, só alguém que garantisse o trabalho aqui. Então, naquela venda lá da Água Branca, naquela praça desses italianos, eu encontrei o meu marido lá. Porque ele era do lugar, do lugarejo mesmo, de Lucca, mesmo, mas fora da cidade histórica, de onde era essa gente. Então ele trouxe uma carta dos parentes de lá para essa gente. Eu estava lá, com essa minha amiga e encontrei ele, aí ele começou a frequentar a nossa casa. Mas a minha mãe tinha muita pena desses moços que vinham sozinhos, que não tinham família, então chegava a Páscoa, convidava sempre três ou quatro. No Natal a mesma coisa. Então era tudo em um esquema de amizade, de amor à terra, de pena dessa gente.

 

P/2 – Aí o seu pai ficou feliz, então, porque a senhora conheceu um rapaz da mesma cidade?

 

R – É claro. Depois... Imagina, demorou mais de um ano que ele estava...

 

P/2 – A senhora disse que ele estava noivo na Itália?

R – Estava noivo. Imagina, com ele saí, fui comprar relógio para mandar de presente para ela. Por amizade mesmo, só. Depois a mãe dele começou a escrever para ele que ela começou a sair com outro, que ele estava perdendo tempo, então ele brigou. Ainda ficou um tempão... Aí é que começamos a namorar.

 

P/1 – E a senhora já nem pensava?

 

R – Nem pensava, mesmo. Te juro!

 

P/1 – A senhora falou da Páscoa, do Natal, que a sua mãe convidava esse jovens. Como é que era? Descreva uma Páscoa de vocês.

 

R – Nossa?

 

P/1 – É, de vocês.

 

R – Era igual à vossa: um almoço de Páscoa, com comida bem típica italiana, é óbvio.

 

P/1 – Que tipo de comida?

 

R – Com ravioli, capeletti in brodo, ou ravioli ao molho, frango assado, carne recheada, essas coisas. E sobremesa era aqueles docinhos divinos, maravilhosos.

 

P/1 – O capeletti in brodo é aquele que tem o caldo?

 

R – Com caldo que a gente faz em casa.

 

P/1 – A senhora sabe fazer esse também?

 

R – Claro!

 

P/1 – Vamos lá, mais uma. Pode passar a receita (riso).

 

R – Você tem máquina de fazer massa?

 

P/1 – Não, não tenho.

 

R – Então como é que você vai fazer a massa?

 

P/1 – Passa a receita, porque aí a gente...

 

P/2 – Pelo menos do caldo, a gente compra o capeletti pronto.

 

P/1 – Não, não pode. É heresia?

 

P/2 – Então conta.

 

P/1 – Ah, mas a minha tia tem uma máquina, dessas de fazer massa.

 

R – Ah, tem? Então, faz uma massa: compra-se 300 gramas de farinha, faz um buraquinho no meio, põe dois ovos inteiros, um pinguinho de água – porque se for feito apenas com o ovo endurece muito rápido e não fecha os capeletti – quando se faz tagliatelli, lasanha, usa-se apenas ovos. Quando se faz com recheio, coloca-se um pouquinho de água, umas duas colheres de água. Aí se amassa bem e abre-se a massa naquela máquina, faz aquelas tiras e corta tudo em quadradinhos de, mais ou menos, quatro por quatro; põe-se o recheio no meio e dobra-se. Faz-se o quadradinho, dobra-se a pontinha, fica um triângulo. Aí, vira-se assim e assim e fica capeletti, um chapeuzinho.

 

P/1 – E o recheio é do que?

 

R – O recheio é de carne assada refogada, uma bistequinha de porco e se mói tudo junto, sem gordura nenhuma. Escorre-se bem o óleo, passa-se um papel para tirar todo o óleo e junta com mortadela. Isso precisa mesmo no capeletti, porque o capeletti é de Bologna, a receita tem origem na Bologna, por isso leva mortadela e umas duas fatias de presunto, tudo junto. Aí, numa tigela se junta ovos – conforme a quantidade –, os dois ovos, bastante queijo ralado e noz moscada.

 

P/1 – Uma pitada de noz moscada?

 

R – Certo.

 

P/1 – Hum, que delícia! E o caldo?

 

R – E o caldo é o de carne. Quem gosta, faz meio a meio, carne e frango, eu não gosto muito.

 

P/2 – É aquele caldo ralo, né?

 

R – Caldo caldo, líquido, mesmo. Põe-se água para ferver. Quando a água ferve, põe-se uma cenoura, duas costas de salsão daqueles bem grossos e uma cebola, na qual enfia-se um cravo.

 

P/2 – Para quê?

 

R – Dá um gostinho no brodo. Um cravo enfiado na cebola, põe tudo junto lá dentro. Quando ferve, se põe a carne.

 

P/1 – Só põe a carne quando ferve?

 

R – Só quando ferve. Aí, quando começa a ferver de novo, se faz aquela espuma, se tira com a espumadeira, abaixa-se o fogo e deixa-se cozinhar bem baixinho. Ah, os tomates, eu me esqueci! Desculpe! Dois tomates sem pele, sem semente, inteiros. Depois tem que coar esse brodo e deixa-se cozinhar por uma hora.

 

P/1 – E o capeletti depois?

 

R – Deixa-se cozinhar nesse caldo.

 

P/1 – Que delícia!

 

R – Ah, se eu soubesse [teria] trazido todas as receitas que eu publico no jornal.

 

P/2 – A senhora publica receita no jornal?

 

R – Toda semana tem uma.

 

P/2 – Preciso receber esse jornal.

 

R – Toda a vez que sai jornal tem uma receita minha, e toda típica de Lucca.

 

P/1 – Já que a gente está falando de comida, tem alguma comida que a senhora tenha estranhado aqui, que a senhora olhou e que nunca tinha visto?

 

R – A feijoada.

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Até hoje é muito feia.

 

P/2 – Ah, é feia?

 

P/1 – A senhora já comeu alguma vez?

 

R – Não, não consigo.

 

P/2 – Mas já tentou?

 

R – Tentei. Sabe o que é? Não é pela feijoada. Vocês me desculpem. É que eu não gosto da carne de porco cozida com feijão, isso já vem da Itália, porque, no inverno, fazia aquele minestrone. A minha mãe fazia aquele minestrone, e lá, como o inverno é muito frio, costumava mesmo pôr pedaços de carne de porco para cozinhar no feijão, na sopa de feijão. Era sopa, né? Aquele caldo. Eu já não tomava aquele caldo porque tinha gosto daquela carne, e talvez por causa disso que eu não goste de feijoada, porque eu adoro feijão com arroz.

 

P/2 – Então a senhora não gosta de porco com feijão?

 

R – Com feijão. E depois, feijão preto é muito feio. Eu como muito com os olhos, tanto que tenho um cunhado na Itália, um irmão do meu marido, cego, que quando falo isso ele morre de rir. Coitado! Ele fala: “Então eu não comeria nunca, se tivesse que comer com os olhos!”.

 

P/2 – E a senhora se lembra da primeira vez que comeu essa combinação, arroz com feijão?

 

R – Sim, lembro.

 

P/2 – Isso não tem lá na Itália, arroz com feijão?

 

R – Não, não. Agora, quando vou lá, o que é que eles me pedem? Arroz e feijão!

 

P/2 – Ah, é?

 

R – Eu levo daqui porque o arroz lá é diferente, né? Você viu aquele arroz italiano que faz risoto, aqui?

 

P/1 – Escuro?

 

R – Não, branco mesmo, que faz risoto.

 

P/2 – Mas fica empapado.

 

R – Fica papa, não fica solto. Então levo o arroz e o feijão e faço lá.

 

P/2 – E que cor é o feijão que a senhora leva? O marrom?

 

R – Não, o roxinho. Eu gosto. Vocês sabem que um dia eu fiz bastante e convidei todos, a família do meu marido são todos de lá, são bastante. Então eu fiz um panelão de cada. Mas eles comeram, comeram e comeram e sobrou um tico. Aí, como eu fiz na casa do meu irmão, onde eu fico, que a casa é grande, é enorme, de noite a minha cunhada falou assim: “Tem brodo, vou pôr uns capeletti...” – eles têm sempre pronto na geladeira – “e vocês vão comer o quê?” “Mas escuta, não sobrou arroz e feijão?”, “Não, não sobrou.” Aí vou lá na cozinha, ela estava lá com a panelinha, tinha esquentado o resto, comendo. Não dava para todo mundo! (risos).

 

P/2 Só dava para ela.

 

R – Como eles gostam, adoram!

 

P/1 – A senhora falou uma coisa, uma coisa importante que eu queria frisar. O brodo, o capeletti in brodo é entrada, não é?

 

R – É o primeiro prato.

 

P/1 – Não é o prato principal?

 

R – É o primeiro prato. O prato é sempre primeiro e segundo.

 

P/1 – O brodo, então, é o primeiro prato?

 

R – No lugar da macarronada. Depois da macarronada ele é o segundo, na Itália.

 

P/2 – Que aqui é a carne.

 

R – A carne, o frango, o coelho, o que for, é o segundo. Quando se faz capeletti não se faz macarronada.

 

P/1 – Então, voltando para o arroz e feijão, eu queria que a senhora contasse como foi a primeira vez que a senhora comeu arroz com feijão. Como é que foi?

 

R – Foi na casa da minha tia – casada com meu tio –, que era nascida aqui, mas era filha de lucchesi, de Lucca. É ela que fez e, por sinal, ela não cozinhava muito bem. Não devia ser aquela coisa, mas eu adorei. Ah, a farofa, como eu gosto!

 

P/1 – A senhora não conhecia também? O que a senhora achou quando conheceu a farofa?

 

R – Adorei muito. Até hoje gosto muito.

 

P/1 – Quer dizer que frango com farofa é uma coisa...

 

R – Aquele frango recheado com farofa não gosto.

 

P/1 – Não gosta?

 

R – Não gosto. Gosto daquela que sai sequinha, que fica biscuit. Sabe aquela que fica toda sequinha?

 

P/2 – Mas a senhora come frango com farofa sem ser dentro?

 

R – Não, não. Eu já não gosto muito de frango assado.

 

P/1 – E farofa doce ou salgada?

 

R – Tenho cinco mil receitas. Às vezes eu fico dois meses sem repetir comida.

 

P/2 – Todas de cabeça! Que fantástico!

 

P/1 – E a farofinha, doce ou salgada?

 

R – Salgada, com azeitoninha, um pouco de bacon.

 

P/1 – Essa a senhora incorporou nas receitas?

 

R – Sim, sim. Por exemplo, amanhã é dia da faxineira: é dia de arroz, feijão, farofa e carne.

 

P/2 – E a senhora faz seu feijão com o que, só com louro, sem carne?

 

R – O feijão, cozinho ele só com louro, depois faço o tempero à parte, com azeite, porque o meu feijão fica demais! Azeite, cebola, um pouquinho de bacon, bastante cebola ralada e um dentinho de alho. Refogo, depois esmago um pouco de feijão lá dentro e jogo lá.

 

P/2 – Isso é bom!

 

P/1 – Dona Liviana, vamos falar um pouquinho dos bairros onde a senhora morou quando a senhora chegou no Brasil?

 

 R – Quando eu cheguei fui morar no meu tio, esse que chamou a gente, naquela super casa, maravilhosa, lá na Avenida Aclimação.

 

P/1 – Ele já tinha certo poder aquisitivo?

 

R – Muito, ele era muito rico. Tinha restaurante, te falei?

 

P/1 – Não, mas a senhora já contou isso na outra entrevista.

 

R – Ele fazia pizza, a caixa, então ele ganhou muito dinheiro com isso. Ele era um bom (restaurantero?), muito bom, entendia de comidas, estudava as receitas. Tadinho, é vivo, mas é muito velho. Foi um ótimo dono de restaurante.

 

P/1 – E quando vocês foram para a Água Branca?

 

R – Daí a gente começou a procurar casa, porque, lógico, a gente não ia ficar na casa dos outros. Mas era super difícil achar casa naquele tempo, então, andando, saía todos os dias. Achei essa casa na Água Branca, na [Rua] Coriolano.

 

P/2 – Quem achou?

 

R – Eu, com a minha tia, a mulher desse meu tio, porque saíamos sempre juntas para procurar casa. A minha mãe ficava lá, fazia comida, essas coisas para ela. Ela gostava, aproveitava que era mocinha também, casou super nova.

 

P/1 – Vocês procuraram como? A pé, pelo bairro?

 

R – Não, sempre com jornal.

 

P/1 – Com jornal...

 

R – É claro, nem chegamos por placas “aluga-se”, não dava tempo. Esvaziava uma casa, já tinha quem quisesse.

 

P/1 – E por que vocês escolheram a Água Branca?

 

R – Porque a única casa boa que valia a pena para nós era essa casa. Foi essa, aliás. Era nova, boa, era muito boa, a casa.

 

P/2 – Era asfaltada, a rua?

 

R – Não era não.

 

P/2 - Tinha luz?

 

R – Tinha fraquinhas, aquelas que têm aqueles pratos com a lâmpada embaixo.

 

P/1 e P/2 – Sei.

 

R – Era assim, né?

 

P/1 – E quando chovia, sem o asfalto?

 

R – Eu vou te contar, atravessar a rua era...

 

P/1 – Era barro ou era...

 

R – Barro, barro, barro mesmo. Era só uma quadra da Clélia que já era toda com paralelepípedo, mas aquela quadra era duro.

 

P/2 – E alagou, chegou a alagar?

 

R – Não. Era um lugar que não alagava nunca, era muito bom. Não era lá em baixo, era mais perto da igreja.

 

P/1 – A senhora falou que a casa era boa, né?

 

R – Era muito boa, era um sobrado. Mas era um apartamento embaixo e outro em cima. O nosso era embaixo e tinha um belo quintal atrás, tinha jardim na frente. Em cima era tipo apartamento e morava um casal, ele era calabrês e ela era de Veneza, veneziana, então os dois italianos, aí que foi a beleza.

 

P/1 – E dividiam a cozinha?

 

R – Não, não, um apartamento em cima e um embaixo, não tinha nada em comum, nem entrada. Super bem feita.

 

P/1 – E quantas pessoas da sua família foram morar lá?

 

R – Eu, meu irmão, meu pai e minha mãe. Meus irmãos, dois, meu pai e minha mãe. Eram três quartos, sala com uma bela cozinha grande e um banheiro grande. Quando descíamos, embaixo tinha um porão enorme.

 

P/2 – E o que aconteceu com o seu avô? Onde ele foi morar?

 

R – Meu avô foi morar com o filho que veio junto conosco e que sempre morou na Itália, ele morava com esse filho. Eles foram morar no Cambuci, eles acharam casa lá.

 

P/1 – E deu para comprar essa casa?

 

R – Não.

 

P/1 – Aluguel?

 

R – Meu pai nunca comprou casa aqui porque ele dizia que voltaria para a Itália. E morreu aqui, coitado.

 

P/1 – O sonho dele era voltar para a Itália?

 

R – Depois não. Depois, quando nos viu casando aqui, ele nem queria mais voltar. Mas aí já não tinha nem mais ânimo de comprar uma casa. Para que? Só ele e minha mãe. Nunca comprou casa.

 

P/1 – A senhora falou que os vizinhos eram italianos também? Como é que era, no bairro, essa coisa dos imigrantes?

 

R – Ah, tinha muito, muito mesmo, muito mesmo. Talvez por isso eu não tenha aprendido português direito.

 

P/1 – E era mais italiano?

 

R – Italiano, mais italiano. A Água Branca era 90%. O filho italiano era um ________, a vizinha do lado também era filha de calabrês. Depois, tinha outra história: a Água Branca tinha a fábrica Matarazzo, e todos os italianos vinham trabalhar nela. E todos lá da fábrica tinham que aprender italiano, sabia?

 

P/1 – Não!

 

R – Até os portugueses falavam italiano.

 

P/1 – Dentro da Matarazzo?

 

R – Da Matarazzo.

 

P/1 – Nunca ouvi falar disso.

 

R – Então é por isso que só se falava italiano.

 

P/1 – Alguém da sua família foi trabalhar na Matarazzo?

 

R – Não, ‘não’ porque logo o meu pai começou a trabalhar no restaurante com o meu tio e os meus irmãos eram pequenos.

 

P/1 – E a senhora foi trabalhar?

 

R – Não, não.

 

P/1 – A senhora falou que não... A senhora ficou ajudando?

 

R – Depois fiquei noiva do meu marido, aí casei e fui morar em Pinheiros, na Rua Pinheiros. Ele tinha casa de carnes lá, então foi lá que eu trabalhava, porque eu ficava no caixa para ele.

 

P/1 – Tá. Os seus irmãos foram estudar?

 

R – Se formaram aqui.

 

P/1 – E eles estudaram na Água Branca também?

 

R – Não, o mais novo fez o primário no Dante Alighieri.

 

P/1 – No Dante?

 

R – No Dante. E o mais velho já fez o ginásio no Campos Sales, na Lapa. Se formaram os dois: o mais velho é advogado e o outro é químico. Por isso ele está em Catanduva, porque o Matarazzo abriu uma fábrica de café solúvel em Catanduva, junto com uma firma suíça, então mandou ele e a esposa – que também é química – como diretor daquela fábrica. Estão lá até agora.

 

P/1 – Ele mudou para o interior?

 

R – Ele mudou para lá e ficou, depois criou a família lá. Você vê como são as coisas, ele não voltou mais para São Paulo, está aposentado agora e está lá, com os filhos lá. O que vai fazer?

 

P/1 – Quantos anos a senhora ficou na Água Branca?

 

R – Espera aí. Eu fui morar lá em 47, porque cheguei ao Brasil no fim de 46. Fiquei meses no meu tio, fui morar em 47 lá, me casei em 54.

 

P/1 – Quase dez anos.

 

R – Sete anos.

 

P/1 – E tinha festas, bailes?

 

R – Muitas, muitas.

 

P/1 – E quais eram?

 

R – Porque os casamentos eram todos feitos nas casas naquele tempo, com chope, com pernil, eram assim os casamentos. De sábado, sempre, casavam todos de sábado. Aí, na rua, numa casa ou outra tinha sempre festa, ou aniversário ou casamento. Tinha muita festa. Festa de São João na rua: naquele tempo faziam fogueira na rua.

 

P/1 – E vocês traziam algumas coisas lá da Itália para fazer essas festas? Tinha comida italiana?

 

R – Não, não, não...

 

P/1 – Vocês iam na festa brasileira?

 

R – Brasileira, sim.

 

P/1 – E vocês gostavam?

 

R – Gostávamos, sim. Aquele sanduíche de pernil gostoso...

 

P/1 – Sanduíche de pernil não tinha lá?

 

R – Não, chope também.

 

P/1 – Aí no casamento italiano tinha essas coisas?

 

R – Tinha, casamento mais popular, é óbvio. Quando casou uma amiga minha já foi num buffet, tudo isso.

 

P/1 – Aí era mais chique.

 

R – Casamento assim era de operário. Da fábrica Matarazzo eram todos assim, no fundo do quintal.

 

P/1 – E tinha dança, também?

 

R – Sempre, sempre.

 

P/1 – Que tipo de dança?

 

R – Ah, que coisa ótima! Naquele tempo era bolero, tinha muito bolero.

 

P/1 – E festa típica italiana a senhora chegou a ir, aqui em São Paulo, nessa época aqui em São Paulo?

 

R – Não, não.

 

P/1 – No Brás, no Bixiga? Vocês não iam?

 

R – Não, não, nunca! Nunca, nem agora. Engraçado, porque lá na Itália somos muito regionalistas, sabia? Até para comida, tudo, são muito regionalistas.

 

P/2 – É, por exemplo, numa região não se encontra tudo o que se encontra na outra?

 

R – Não, não, de jeito nenhum.  Agora um pouca mais, mas antigamente... Eu vim embora e não sabia o que era pesto. E pizza? A primeira pizza... Porque o navio saiu de Gênova e parou em Nápoles. Em Nápoles comi a primeira pizza, eu nunca tinha comido pizza em Lucca.

 

P/2 – E como foi quando a senhora comeu a primeira pizza em São Paulo?

 

R – São Paulo é o rei da pizza! Porque olha, põe o italiano no bolso.

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Eu acho. Muito boa, [melhor] a daqui que a de lá.

 

P/1 – Macarrão não?

 

R – Não. Precisa ser um restaurante italiano muito bom. Assim mesmo eu fui comer domingo num restaurante, Risoteria. Você conhece?

 

P/1 e P/2 – Não. Conheço o risoto.

 

R – Não, o restaurante se chama Risoteria.

 

P/2 – Aonde é?

 

R – É na Manuel da Nóbrega, caro pra danar. O risoto dele é realmente extraordinário, tem um monte de tipo de risoto, muito bom, mas o meu marido não estava com vontade de risoto porque eu tinha feito risoto um dia antes, então ele pediu macarrão. Coitado, ele deixou no prato!

 

P/2 – Sofreu com o macarrão?

 

R – É.

 

P/2 – Perto da senhora...

 

R – Realmente, macarrão no restaurante... Fazem bem onde faço esse jantar nosso, da nossa associação, a gente faz num flat. Me deixam entrar na cozinha, eu vou lá e dou a receita pro chefe, vou ver como está, mando apurar mais, mando pôr mais tomate, toda essa história. Aí sai bem.

 

P/2 – E esse jantar que a senhora faz é o que? Jantar da associação?

 

R – Sim, a gente faz três por ano. A gente faz um no aniversário de quando foi fundada a nossa associação, o outro faz na véspera de Natal, e outro, que é agora no fim de agosto porque em setembro é a festa na cidade de Lucca, é o padroeiro da nossa cidade – que, aliás, é uma super festa. É uma coisa que vale a pena ser vista, porque pensa, uma cidade etrusca que não pode nem mexer num tijolo externo, não pode fazer nada, é tudo tombado, eles apagam todinhas as luzes da cidade e tudo o que é janela.

(Fim da fita)

 

P/1 – Então, retornando, gostaria que a senhora falasse da festa.

 

R – Em setembro, no dia 13 de setembro é festa de nosso padroeiro, Volto Santo, que seria o rosto de Cristo. Depois te conto a lenda, que é muito bonita e vai muita gente daqui. Então a gente faz essa festa em agosto, no fim de agosto para o pessoal aproveitar o nosso jantar e depois ir para a Itália assistir a festa, porque a festa é uma procissão maravilhosa. Apagam toda a Lucca, a cidade dentro da muralha é todinha apagada e toda iluminada com lamparina. Sabe aquele copinho com óleo? Tem já próprio, prontos, nos arcos de todas as torres, porque tem muita igreja em Lucca. Todas as janelas têm a volta toda com ferro onde estão as argolas onde cabem o copinho da lamparina já com óleo, e tudo pronto. E na hora da procissão os bombeiros vão lá e acendem tudo aquilo, e fica todinha iluminada só com as lâmpadas.

 

P/1 – Que lindo!

 

R – É estupendo! Depois vem toda a gente da época, aqueles que atiravam flechas, todos vestidos... Aquelas músicas, nem te digo como, as bandas que têm lá. Depois, você sabe, [Giacomo] Puccini é de Lucca. Puccini, aquele famoso, é de Lucca. Então Lucca é uma cidade que sente muito a música. Tem cada banda extraordinária! Na procissão vai muito estrangeiro, fica cheio de estrangeiro, vai todo mundo lá assistir a procissão. A lenda do Volto Santo? Está na nossa catedral. É um Cristo, uma cruz de ébano, acho que de mais de dois metros, e toda esculpida em madeira preta. Ébano, né. E dizem que foi feito este Volto Santo, na Trácia na Grécia Antiga, e o tal de [Edmundo Francisco] Nicodemo, que era um escultor famoso, queria fazer esse Cristo imenso, mas quando chegou no rosto ele não conseguia fazer, todo dia fazia e de noite quebrava. Dava uma martelava, quebrava e dizia que esse rosto não era digno de um Cristo. Uma noite ele, desesperado, pediu ajuda a Deus: “Eu não consigo!”. Diz a lenda que, quando acordou de manhã, o Cristo estava pronto. E realmente, ele tem uns olhos que eu não sei te dizer como, para todo lado que você vai da catedral parece que eles te olham.

 

P/1 – Te acompanham...

 

R – Isso é uma lenda. Mas depois olha como é que foi parar em Lucca. Começaram a brigar as cidades, porque todos queriam essa cruz. Então resolveram colocar essa cruz em um barco, num navio, e deixar ele no mar, quando parasse, era daquela cidade. Ele veio parar em Viareggio, perto do mar, mas na praia perto de Lucca. Parou em um lugar que não era porto, não era nada, só tinha mangue. Então parou lá e aí chamaram as autoridades. E para quem vai dar? Porque Viareggio é uma cidade do mar, Lucca é pertíssimo, 20 quilômetros, e Pisa também, super perto. Bom, começaram a brigar porque todo mundo queria, então puseram em um carro de boi e veio parar em Lucca, e ele foi colocado na catedral. Só que a catedral não era essa, era São Frediano. Inclusive é uma igreja maravilhosa que, na frente, na fachada, tem um mosaico mouro que é a coisa mais linda. Fizeram aquela festa toda, de noite fecharam a igreja e quando levantaram, depois, um dia depois, o Cristo não estava mais lá. Ficaram preocupados, procurando, procurando, e acharam numa horta de uma casa. Algum malandro fez isso! Colocaram na igreja e... Isso deve ter acontecido umas duas ou três vezes seguidas. Então calcularam que ele queria ficar lá, construíram essa catedral nova para ele. A Catedral é São Martino, e no meio da catedral fizeram uma redoma enorme, de uns dois metros, toda em ferro batido, foi Civitali que fez, que era um gênio para isso, é uma renda aquilo. Ele está lá, e lá ficou. Aí todo mundo começou a pedir graça e a rezar por ele, porque achavam que era uma coisa de Deus. Então as pessoas começaram a pedir, as pessoas que precisavam para doença, para tudo, a fazer oferendas. Antes disso, quando fizeram a festa de inauguração dessa igreja, fizeram para ele – porque ele é todo de madeira – uma sainha da cintura para baixo, de veludo, mas toda trabalhada em ouro, e na cabeça uma coroa que tem pedras preciosas de monte. E aqui na frente tem como que uma gola toda em veludo, toda trabalhada em pedras, põe essas coisas só quando é festa. E no pé um chinelinho tipo holandês, em ouro maciço. Dizem que foi lá um pobre que não tinha o que comer e tinha um violino. Ele falou para o Cristo: “Eu não tenho nada para te dar, só vou te tocar uma música, porque é a única coisa que eu posso te oferecer.” Dizem que ele tocou uma música, jogou o sapato para o violinista. Ele ficou com isso na mão, correu para a sacristia e falou: “Olha o que está acontecendo! Vocês vão pensar que eu roubei!”. Eles não acreditaram, é lógico: “Como...”. Foram lá, colocaram o sapato, mas ele não cabia mais no pé, caía, então eles fizeram como um cálice de ouro para segurar esse sapato que não fica mais no pé dele. Aí fizeram donativos no mesmo valor do sapato e deram para esse violinista, porque o Cristo queria dar o sapato para ele se livrar de dívidas.

 

P/1 – Dona Liviana, e a festa que vocês preparam aqui no Brasil pela associação?

 

R – Pela associação fazemos um jantar, mais para se ver, mais para se encontrar. A gente sempre convida o cônsul ou o vice-cônsul, que é a nossa autoridade máxima. É um jantar comum, sempre tem música, tem baile, tudo isso.

 

P/1 – E onde fica a associação?

 

R – Na Rua Turiassú, na frente do mercado Sé, perto do Palmeiras, e tem placa... Aula de italiano, tudo isso.

 

P/1 – A senhora sabe desde quando está construída essa associação?

 

R – Há uns 23 anos. Antes ela era no escritório do nosso presidente, na cidade, na Rua 24 de Maio, estamos aí há uns cinco ou seis anos. Fizemos festa no Museu do Imigrante dos 20 anos da nossa associação. Você não acredita na festa, uma coisa extraordinária! O meu irmão, que é bom para isso, organizou e preparou tudo. Veio trenzinho a vapor... Sabe aquele trenzinho que trazia os imigrantes quando chegavam de Santos? Quando eles chegavam de Santos paravam na estação Bresser, então eles eram todos levados para a Casa do Imigrante. Lá eles davam comida, tomavam banho, dormiam até ele achar alguém que os quisesse para trabalhar nessas fazendas. Então o trenzinho funciona, ainda. É bom ir lá. Por que vocês não vão de domingo? Chegou o trenzinho com bastante gente, moço, moça, vestido com roupa da época. Desceram do navio e o coral do Clube Esperia cantando música italiana. Cantaram aquela música América, América... É muito bonita! É do imigrante. Desceram do trenzinho e foram a pé lá no pátio, que é maravilhoso, o jardim desse museu é lindo. E um padre italiano de Lucca, padre Viani, rezou a missa de cima de um baú dos antigos imigrantes. Não quis nem toalha nem nada, só o baú. Na hora do ofertório mandamos para o céu mil pombos correio, uma revoada de pombo assim, estupenda! E no fim da missa mil bolas brancas, verdes e vermelhas foram para o céu. Depois, com as bolas, fizemos uma bandeira imensa e uma bandeira brasileira com as cores do Brasil e mandamos as duas juntas.

 

P/2 – Que lindo! As duas bandeiras subiram com as bexigas?

 

R – Sim, com as bexigas. Foi uma coisa extraordinária! Foi muito bonito!

 

P/1– E essa festa aconteceu há cinco anos, então?

 

R – Não, há três anos.

 

P/1 – Como é o nome da associação, mesmo?

 

R – Lucchesi Nel Mondo.

 

P/1 – Então, voltando à história dos bairros, a senhora morou em Pinheiros quando se casou? Na rua Pinheiros?

 

R – Na rua dos Pinheiros.

 

P/1 – E ficou quanto tempo por lá?

 

R – Dez anos. Mais ou menos isso, acho que nem isso. Depois fui para a Padre Tomás, ali atrás do Palmeiras. Do prédio se via jogar no campo do Palmeiras, se houvesse jogo. Havia uma janela, uma sacada e mais o vitrô enorme da sala dando tudo lá no campo. Já pensou? Meus dois irmãos com todos os amigos... Caía a minha casa quando tinha jogo.

 

P/1 – Por quê? Todo mundo é palmeirense?

 

R – Todos.

 

P/2 – Ia todo mundo lá para assistir ao jogo de graça?

 

R – E quando, pela primeira vez, o Pelé jogou lá? Foi uma loucura! Não dava conta de servir água, refrigerante...

 

P/2 – A senhora tinha de servir?

 

R – Eram todos os amigos, o que é que você acha? (riso)

 

P/1 – E todo mundo vai ao Parque Antártica?

 

R – O meu irmão, esse que mora em São Paulo, que veio fazer entrevista comigo outro dia, ele vai todo dia, porque ele frequenta mesmo o Palestra, do Palmeiras. Ele faz natação lá, faz ginástica... Porque ele teve problema de coração.

 

P/1 – E a senhora, frequenta?

 

R – Não, parei. Depois que casaram as meninas, depois que eu vim morar na Avenida Sumaré, parei de ir.

 

P/1 – A senhora ia?

 

R – Eu ia por causa das meninas, porque elas nadavam muito lá. Era uma beleza quando eu morava lá na Padre Tomás. Quando estava o almoço pronto, eu botava uma toalha na sacada e elas sabiam que era para subir para almoçar.

 

P/1 – Elas olhavam lá de baixo e já subiam?

 

R – Sim, elas aproveitaram muito aquele clube.

 

P/2 – E quando elas casaram a senhora mudou de novo?

 

R – Não, eu mudei antes de casar a mais velha, delas se casarem. Eu comprei esse da Avenida Sumaré. Eu vi nascer esse prédio, gostei desse lugar, comprei e mudei.

 

P/1 – Aí já é um apartamento?

 

R – Apartamento. Lá também era apartamento, mas era muito maior.

 

P/1 – É Perdizes, agora?

 

R – Perdizes.

 

P/1 - E o outro era Lapa, Pompéia?

 

 R – Eu não sei o que é lá.

 

P/2 – Lá é Pompéia.

 

R – Palmeiras é Pompéia?

 

P/2 – Lá eu acho que é Água Branca.

 

P/1 – Que lembrança mais forte a senhora tem da Água Branca, desse período?

 

R – De quando, de solteira?

 

P/1 – Não, de casada.

 

R – De solteira eu morei na [Rua] Coriolano.

 

P/1 – Onde a senhora conheceu o seu marido, onde frequentou aquela praça e tinha todos os amigos italianos?

 

R – E todos me convidavam. Eles adoravam aquela italianinha. Os filhos e netos adoravam vir falar italiano, todo mundo me entendia.

 

P/1 – Como é que é essa história? Eles juntavam os filhos e os netos para ouvir?

 

R – Eles se juntavam muito naquele tempo, ou num sítio ou na casa deles, se juntavam muito mais do que agora. Eu acho que agora a televisão tirou isso. A gente se comunicava mais antigamente do que agora.

 

P/1 – E a senhora ficava falando italiano para eles?

 

R – Nossa, e como! Eles adoravam!

 

P/1 – E eles ficavam fazendo perguntas?

 

R – Uh! E como...

 

P/1 – Em português ou italiano?

 

R – Em português. Era bom porque eu respondia em italiano. Era ótimo, eu entendia eles... Da escola, todo tempo que eu tinha estudado lá, comparavam os cursos, tudo isso, que aliás é muito mais puxado do que aqui...

 

P/1 – Lá?

 

R – Muito mais, muito mais. Eu não sei por que tanto.

 

P/1 – A senhora sentiu essa diferença?

 

R – Logo que cheguei... Porque uma tia minha que havia feito o Normal... Imagina, na minha época tinha pouca diferença entre eu e ela.

 

P/1 – Como a senhora media essa diferença?

 

R – Nas traduções que ela tinha feito do latim, que ela tinha feito do francês, da gramática, da literatura. Então “Nossa Senhora!”, ela não sabia de nada, no latim ela era zero.

 

P/1 – E a escola que a senhora estudou na Itália era de graça?

 

R – De graça, todas as escolas eram de graça para todo mundo. Até no tempo da guerra, eu te falei, o genro do Mussolini tinha uma casa de campo lá perto, então eles fugiram de Roma e foram para lá. A filha do Mussolini foi para essa casa, e o filho dela estudava conosco. Ele estava numa classe de uma prima, o Fabrizio.

 

P/2 – A senhora chegou a conhecer ele?

 

R – Claro! Mas até o genro do Mussolini, ele passeava de charrete, passeava com os meninos, falava com todo mundo, era super simpático. Aquele que o Mussolini mandou matar. Mandou matar o pai dos netos dele.

 

P/2 – Mandou matar o genro?

 

R – A filha dele fazia unha e arrumava cabelo na minha cabeleireira.

 

P/1 – Dona Liviana, o que a senhora está achando de morar no bairro que a senhora mora hoje, depois que a senhora saiu da Água Branca e foi para Perdizes? A senhora não sentiu muita mudança?

 

R – Não, nenhuma coisa. Agora, de Pinheiros, bastante. Achei que não ia mais me acostumar na Água Branca. Dessa vez o contrário, acho que não moraria mais em Pinheiros.

 

P/2 – Por quê? Como é que foi em Pinheiros?

 

R – Não sei, foi ótimo, mas era outra época. A Rua Pinheiros era estritamente residencial, as minhas filhas ficavam nas calçadas brincando. Agora é tudo comércio, acho que eu não moraria mais lá.

 

P/1 – Eu queria que a senhora descrevesse como é que é um dia corriqueiro na sua vida, um dia do seu cotidiano?

 

R – Meu Deus, agora você me pegou! Corro tanto que não sei o que eu fiz de noite. Eu faço tudo em casa. Eu não tenho empregada, porque eu adoro a minha casa, eu adoro cozinhar, adoro limpeza, passar roupa, tudo, e tenho só uma faxineira que faz o grosso. Fora isso, eu sei costurar. Te falei que fui num corte e costura? Então, costuro para as meninas. Não faço mais roupas, mas reformo elas todinhas, então tenho sempre montanha na máquina. O dia passa assim, voando.

 

P/1 – E as suas filhas casaram?

 

R – Casaram.

 

P/1 – Elas têm filhos?

 

R – A mais velha, que é casada com o diretor da Gazeta Mercantil, tem duas moças: uma de 20 anos e a outra de 17. Ela trabalha no jornal O Estado, ela é coordenadora do grupo de jornalistas recém-formados. Não sei se você sabe que o jornal O Estado dá todo ano seis meses de curso grátis para os melhores jornalistas que se formaram naquele ano e, de lá, sai jornalista especializado. O melhor de todos já tem emprego garantido. Ela coordena esses cursos, ela fez faculdade de jornalismo. E a mais nova iniciou Belas Artes. Quando pensava ir para a Itália fazer curso de restauro de móveis antigos, encontrou o marido dela e não fez mais nada.

 

P/1 – A mais nova tem filhos também?

 

R – Tem dois. Tem uma filha de 15 anos e um menino de 13.

 

P/2 – E a senhora corre para cima e para baixo...

 

R – Para cima e para baixo. Quando essa mais nova, que viaja muito: “Mãe, eu vou viajar uma semana com o meu marido, vem para cá”, tranco a casa e vou para a casa dela, porque não acho justo os filhos ficarem longe da mãe e da casa deles, fecho a minha casa e vou para a casa dela.

 

P/2 – E o marido da senhora está vivo?

 

R – Está, ele até já fez entrevista.

 

P/2 – Fala o nome dele.

 

R – Élvio Bernicchi

 

P/1 – E ele está aposentado?

 

R – Está aposentado. Mas também trabalha bastante, porque é síndico de dois prédios, e briga o dia inteiro. Italiano gosta de brigar, né? Mas me ajuda muito, também. Hoje, por exemplo, está levando o menino da filha na aula de tênis porque o motorista dela se operou, ele está ajudando também.

 

P/1 – E qual o principal hobby da senhora, dona Liviana?

 

R – Cozinhar. Quando eu estou na cozinha, eu esqueço que o mundo existe, é o maior prazer, acredito eu.

 

P/1 – Qual é a receita que a senhora gosta mais, que lhe dá mais prazer?

 

R – Gosto de tudo, mas eu gosto mesmo é de doces, adoro fazer doces.

 

P/1 – Ensina um doce para a gente, porque a senhora deu só de salgados.

 

R – Eu sei, mas é meio difícil, meus doces são complicados.

 

P/2 – Não tem um simples e gostoso?

 

R – Ah, eu não gosto.

 

P/1 – Tem que ser complicado.

 

P/2 – Então passa aquela receita do licor de limão.

 

R – Limoncello. É feito com limão italiano, siciliano. E agora, será que eu me lembro? Eu fiz uma vez, fiz bastante, porque, quanto mais fica, mais fica gostoso, e não fiz mais porque é até raro achar esse limão aqui. Aqui em São Paulo é raro.

 

P/2 – Toda vez que a senhora quiser pode vir aqui.

 

R – Obrigada, agora eu sei. E ele dá só uma vez por ano, não é como aquele outro limão que dá muito, ele dá só esses meses. Então pega, lava bem seis ou sete limões – esses são pequenos –, até oito limões bem amarelos, lava bem lavado. Depois tira com uma faca que corte bem só a casca amarela, não vai fundo, não pega o branco, só a parte amarela, e põe num pote de vidro com um litro de álcool de cereais. Na farmácia Drogasil você encontra.

 

P/2 – Ah, tem lá para vender esse álcool de cereais?

 

R – A melhor de todos é a Drogasil. Aí deixa sete ou oito dias de molho, o limão fica branco e o álcool fica amarelo, e todo o gosto fica no álcool. Você tira essas cascas, joga fora e junta a calda que se faz, e agora eu não me lembro da quantidade de água e de açúcar... Se faz uma calda e se junta nesse álcool e deixa uns dias sem usar. Depois se guarda na geladeira e serve gelado depois das refeições. É um ótimo digestivo. Depois eu te passo a quantidade de açúcar, que eu não me lembro mais.

 

P/2 – É uma calda rala de açúcar?

 

R – É uma calda rala de água com açúcar.

 

P/2 – Ah, não vai suco de limão na calda?

 

R – Não, não, é só da casca. Tentei fazer com outro limão aqui, mas não presta.

 

P/2 – Não é difícil, não é?

 

R – É super fácil. Eu, inclusive depois que cheguei, fui ao Bertazzoni e encontrei litros italianos de vidro, tudo em alto relevo, e limões. E aquela tampa em cima, hermética... Comprei um monte. Assim, em um Natal eu fiz um monte de limoncello e presenteei todo mundo com aquilo.

 

P/2 – E não gastou dinheiro em nada.

 

P/1 – Deixa eu perguntar uma coisa para a senhora: qual que a senhora acha que é a sua principal qualidade?

 

R – Cozinheira. (risos)

 

P/1 – A vida toda marcada por...

 

R – E bom papo, também! Eles acham, pelo menos (riso). Olha, cozinheira posso falar, porque o que sou requisitada! Não fazem jantar se eu não estou aqui, sabiam?

 

P/1 – Tem que estar a sua presença, que jóia! A senhora tem algum sonho que a senhora gostaria de...

 

R – Acredito que não, realizei todos, graças a Deus!

 

P/2 – A senhora voltou para a Itália, já?

 

R – Voltei muitas vezes para a Itália já.

 

P/2 – Como foi a primeira vez que a senhora voltou para lá?

 

R – Sabe que eu fui para a Itália antes... Quando o meu marido tinhas os pais vivos e eu tinha as filhas pequenas, mandava só ele para lá, eu nunca ia. Nunca fui, porque não queria deixar as filhas com ninguém. Ele ia ver os pais, ficava 15, 20 dias e voltava. Depois, quando eu casei as duas filhas que eu comecei a ir. Aí eu ia todo ano, ou a cada ano e meio.

 

P/1 – Nossa, então a senhora veio em 46 e só voltou para lá em...

 

R – Espera... Em 85, 83, acho, a primeira vez.

 

P/2 – Nossa, 20 anos depois! E como foi essa emoção de pisar na terra?

 

R – Foi grande, mas não tanto. Eu me adaptei super bem aqui. Como, por exemplo, para o meu marido. Talvez porque eu vim com a família aqui, deve ser isso, estão todos aqui, eu não ia morar lá de novo. Você acha?

 

P/2 – Entendi.

 

R – Foi super emocionante rever a minha cidade, é obvio, onde estudei, tudo isso. Mas eu sou bem controlada nisso. Meu marido diz que tenho pouco coração, talvez seja isso (risos).

 

P/2 – Por que a senhora não chorou?

 

R – Não (risos). Ele, cada vez que vai, chora (risos).

 

P/1 – Dona Liviana, agora, para encerrar, a senhora tem alguma questão?

 

R – Não.

 

P/2 – A senhora continua indo para a Itália?

 

R – Agora já faz uns três anos que a gente não vai... Não, dois anos e meio. E também porque já visitamos a Itália inteira, todas as ilhas, conhecemos tudo da Itália, fizemos toda a França, toda a Áustria, toda a Suíça, tudo. Estamos velhos também agora. Pegar um navio agora e ficar uns dez dias passeando é muito melhor.

 

P/2 – A senhora pega navio?

 

R – Pego navio. Todo ano, no meu aniversário de casamento, em fevereiro, eu passo num navio.

 

P/1 – Dona Liviana, para encerrar, eu gostaria que a senhora dissesse o que a senhora achou da experiência de ter contado a sua história.

 

R – Achei bárbaro! Espero que vocês aproveitem bastante e que seja um sucesso grande o vosso trabalho e que fique para a cidade de São Paulo. Acho que São Paulo deve muito, ainda mais para os italianos. Não deve?

 

P/2 – Com certeza.

 

P/1 – Metade dessa cidade, sei lá.

 

R – É claro, né. Eu acho que tudo, qualquer cantinho lembra um italiano, não é mesmo? É um pintor, um escultor, um simples pedreiro.

 

P/2 – Até uma comida, qualquer restaurante tem sempre uma macarronada (risos).

 

R – Isto, isto. Esse português gostoso que se fala aqui deve muito ao italiano.

 

P/1 – Dona Liviana, não tem nenhuma briga entre italiano e chinês para saber qual é a origem do macarrão?

 

R – Do macarrão. Existe, realmente.

 

P/1 – O que a senhora acha?

 

R – Eu acho que ela é realmente do Japão.

 

P/2 – Da China.

 

R – Da China, eu acho que sim.

 

P/2 – Eu também acho.

 

P/1 – Mas aquele molhinho especial...

 

R – Aí em cada lugar você vê a pizza, a daqui é melhor do que a da Itália.

 

P/1 – Tá bom então, dona Liviana, a gente queria agradecer a sua presença.

 

R – Obrigada. Desculpe o meu português.

 

P/2 – Imagina, foi maravilhoso!

 

R – Falta prática, porque em casa eu falo muito pouco...

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