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História

Manaus, São Paulo, Índia

História de: Juily Manghirmalani
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/08/2021

Sinopse

Mudança brusca de Manaus para São Paulo. Vivência e crescimento na Santa Cecília. Escola, predição pelas artes e esportes. Diferenças culturais regionais e exteriores. Relação com o corpo e a sexualidade na adolescência. Interesse em cinema, curso de design e faculdade de audiovisual. Vivência na faculdade e participação em diversas produções internas. Coletivo Lumika de cineastas LGBTs. Bollywood e volta às suas origens. Família indiana e relações culturais. Dificuldade de trabalhar com audiovisual durante a pandemia.

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História completa

P/1 - Vamos começar com a primeira pergunta, a mais básica: seu nome completo, a sua data de nascimento e onde você nasceu. 

R - Eu me chamo Juily Jyotsna Seixas Manghirmalani. Nasci [no] dia 25 de janeiro de 1990, em Manaus, Amazonas.

P/1 - E qual o nome dos seus pais, Juily?

R - Minha mãe se chama Elizaide Seixas Manghirmalani e meu pai se chama Raju Gangaram Manghirmalani.

P/1 - Você tem irmãos?

R - Tenho. Eu tenho uma irmã um ano mais nova que eu, chamada Dayna Disha Seixas Manghirmalani e o meu irmão, que é seis anos mais novo, chamado Parnad Patrick Seixas Manghirmalani. São nomes bem grandes, né, parágrafos de nomes. (risos)

P/1 - Você nasceu em Manaus. Seus pais eram de Manaus mesmo ou eles vieram de outra cidade?

R - A minha mãe é de Manaus, toda minha família materna é de lá, mas o meu pai é indiano. Ele migrou pra Manaus quando tinha cerca de 23, 24 anos, nos anos 80, e começou a trabalhar lá; se fixou e ele conheceu minha mãe de uma forma muito engraçada até, pelos meus tios. Aí eles casaram e depois, quando eu nasci, em 1990… Quando foi em 1992, ele veio morar em São Paulo e quando se estruturou aqui, ele trouxe a família toda. Mas eu nasci lá e vim pra cá com quase sete anos.

P/1 - E me conte um pouco sobre a sua infância. Você tem lembranças da sua infância em Manaus?

R - Olha, é muito engraçado, porque quando você é uma pessoa que emigra você tenta entender os dois universos, o qual você foi criado e depois o qual você está começando a se estruturar, se colocar como pessoa. Manaus e São Paulo são cidades muito diferentes culturalmente. Por mais que eu tenha lembranças de Manaus, acho que foi tanta informação nesse estado de formação que eu estava tendo - que era o começo dos sete anos, começando a escrever e ler - que eu acho que comecei a sobrepor muito a minha vivência em São Paulo à [de] Manaus. Afetivamente eu tenho grandes memórias com a família, mas da cidade, em si, eu só fui ter memórias melhores quando voltei pra visitar.

P/1 - E da sua infância em São Paulo, você se lembra de onde você morava, de onde você passou parte da sua infância?

R - É engraçado, porque em São Paulo eu sempre fiquei no mesmo bairro. Eu mudei de prédio mais de uma vez, mas sempre fiquei na Santa Cecília, ali no Centro, então São Paulo, pra mim, era aquele bairro por muitos anos. Depois eu fui realmente me apropriando da cidade, começando a ter mais autonomia, mas por muitos e muitos anos a minha infância foi ali. 

Eu lembro bastante, acho que eu vivia muito numa... É muito engraçado, porque quando você se muda e você começa a entender como funciona… Em Manaus era muita casa, eu vivia andando de carro; em São Paulo eu estava em prédio, andava muito a pé e aí a minha vivência era basicamente ir pra escola, tinha meu núcleo de amigos fixos e depois uns pequenos eventos, tipo umas academias que eu fazia atividades físicas e tudo o mais, mas eram basicamente esses dois núcleos. Então, a minha infância foi basicamente entender o Centro da cidade [de] São Paulo.

 

P/1 - Do que você gostava mais de brincar quando era criança, Juily?

R - Eu amava qualquer coisa que tivesse muita adrenalina; se eu estivesse correndo, se eu estivesse pulando, nadando, eu estava feliz. E eu sempre fui muito dos esportes. Quando, enfim, eu cheguei em São Paulo, minha mãe me colocou pra fazer natação, balé e atividades de quadra. E qualquer coisa que eu estivesse correndo, eu estava feliz, era isso. (risos)

P/1 - Você tinha algum sonho de infância?

R - Nossa, que pergunta boa! Ah, acho que não. Quando eu era… Um sonho real, que realmente fosse possível, não, mas eu queria muito que as pessoas tivessem superpoderes, bizarramente. E eu queria muito, em profissão, ser professora de balé, mas isso nunca ia acontecer, não tem como. (risos) Na minha vida, hoje em dia, eu não consigo dar uma pirueta mais, mas eram duas coisas que eu queria. (risos)

P/1 - Você gostava de ouvir histórias quando era criança?

R - Sim, sempre gostei. História, pra mim, na verdade, é como a gente cria o imaginário. Pelo menos quando eu era muito pequena e estava me criando, meus pais me colocavam pra assistir muito desenho japonês e eu lia muitas fábulas. Eram sempre universos muito fora da realidade do que é a vida humana e eu achava isso muito, muito legal. Depois, só em São Paulo que eu fui entrar mais em contato com os super-heróis americanos. Mas eu sempre gostei muito de ouvir histórias e ouvir dos outros, ainda mais quando eu vim pra cá e comecei a crescer. 

A minha família materna ficou toda em Manaus; a paterna está espalhada pelo mundo e é de origem indiana, então não tem ninguém aqui. Quando eu fui crescendo, eu acho que ouvir histórias era o que me aproximava de todos eles -  do que estava acontecendo na vida dos meus primos em Manaus, qual é a história da construção da Índia, era o que me fazia ter um lugar de pertencimento, então história sempre foi algo que me completou muito.

 

P/1 - Seu pai te contava histórias da Índia, antes de vir pro Brasil?

R - Meu pai é uma pessoa um pouco ausente e tem uma certa dificuldade com a língua. Ele tem uma certa dificuldade com o ser pai, num sentido mais próximo, um pouco mais do que é a nossa expectativa do que é ser pai e mãe numa cultura brasileira. Dentro da cultura indiana, ele faz o papel dele muito bem: ele está lá sempre provendo, ele está sempre ocupado como está a minha vida, em geral, mas ele não é uma pessoa ativamente próxima, então ele contava algumas coisas, mas ele estava muito mais preocupado se eu estava indo bem na escola. O que eu mais sabia vinha das minhas tias ou da minha mãe. Acho que, dentro da cultura indiana, quem passa a cultura pra frente é a figura da mãe, então meu pai não se colocava nesse lugar. Ele contava uma coisinha ou outra, mas não muito.

P/1 - E entrando na sua vida escolar, Juily, quais são as primeiras lembranças que você tem de ir pra escola?

R - Ah, na verdade eu lembrava muito do uniforme e do caminho e da mochilinha. Aquele cheiro de material novo, aquele cheiro de plástico - gente, era a melhor parte! Todo o começo de ano era isso: escolher o seu material. 

Eu lembro muito de quando cheguei em São Paulo, de ter uma facilidade, uma afinidade com os temas mais de artes ao todo. Lembro muito [de] como eu era uma criança muito tímida; eu tinha muita dificuldade de me inserir, porque eu tinha outro sotaque, tinha outra compreensão de mundo, era muito fora do padrãozinho e a minha professora me colocava me exaltando, assim, nesse lugar de arte. Falava assim: "Nossa, você desenha muito bem. Nossa, olha como você sabe usar cor” e tal"... Essa pequena valorização, lá atrás, nos meus sete anos, fez com que a minha vida inteira eu me interessasse por arte e hoje em dia realmente é [com] o que eu trabalho, basicamente. Mas eu era essa criança meio artística, sabe? É disso que eu lembro, inicialmente.

 

P/1 - Tinha alguma matéria que você gostasse mais, algum professor? Algum evento no seu ensino fundamental, que você lembra até hoje e que marcou bastante?

R - Ah, só umas vergonhas alheias, enormes. (risos) De matérias eu gostava muito de Artes e de Educação Física, exatamente as duas coisas que eu ia muito bem, e Inglês, acho que também pela criação do meu pai e [porque] todo mundo da minha família paterna fala muito inglês; era a minha matéria, meio [que] tinha facilidade, mas não era do que eu gostava. E o meu colégio tinha uns saraus, umas coisas assim, atividades que uniam todo mundo e eu achava que arrasava, mas se eu olho pra trás, falo: “Gente, ainda bem que a gente não vivia...” Eu não vivia na época da rede social do jeito que é hoje. Se tivesse Instagram, Jesus, a humilhação era eterna, sabe? Então, sou bem feliz que mal tem fotos. (risos)

P/1 - Você falou sobre esse impacto de São Paulo, de você ser uma criança tímida. Você sentiu o seu desenvolvimento em São Paulo, depois que você chegou aqui, com sete anos. Você estranhou muito, tudo? Você teve alguma dificuldade de se adaptar?

R - Pessoalmente consegui entender as atmosferas e essa diferença de ter saído de um estado pra o outro [e] tudo o mais, mais rápido que meus irmãos, mas se paro pra pensar numa estrutura familiar, eu acho que a gente teve muita dificuldade, sim.  Em Manaus, é engraçado, porque por parte de mãe estava lá toda a minha família materna, várias atividades com primos, com tios; a minha casa nunca estava vazia. Existia muito amor, muito afeto e era a mesma língua, a mesma expressão afetiva existia o mesmo sotaque, os mesmos desejos, a mesma culinária, gastronomia, do mesmo jeito que existia a comunidade indiana da onde meu pai veio quando ele imigrou, então eu tinha também as vivências indianas e as visões de pessoas indianas, corpos indianos, cheiros, indumentária, roupa. 

Quando eu vim pra São Paulo, eu fui inserida numa classe média alta que em Manaus eu não pertencia. Lá eu era uma classe média, média-baixa, porque tanto minha mãe quanto meu pai ascenderam economicamente. Quando você olha pra família, você vê que a estrutura é de uma classe mais baixa. Eu cresci assim, num lugar muito mais humilde, muito mais corpóreo, enfim, e aí eu cheguei em São Paulo. Primeiro que todo mundo aqui tem uma... Na escola que eu fui inserida, todo mundo era branco e tinha um histórico de imigração do que é São Paulo: portugueses, italianos, espanhóis. E todo mundo já era de uma classe desde criança, então era outra relação com o mundo, tinha outra relação com os pais - e o sotaque, a comida, os trejeitos, tudo isso influencia muito. Quando você vem como sendo a pessoa mais diferente da situação… 

No meu colégio só existia uma série por ano, não era supergrande, e cada salinha tinha, sei lá, vinte a trinta alunos no máximo, porque era um colégio pequeno. Eu era a única pessoa, até então, não branca; eu era, até então, a única pessoa que tinha outro sotaque, que tinha outra estrutura familiar, que não tinha um pai que falava português, que tinha questões assim, e aí eu entrei num lugar que todo mundo parecia a Turma da Mônica e eu não era, sabe? Foi um pouco isso, eu tive uma certa dificuldade, mas acho que tenho passabilidade mais branca, então também tive inserções mais fáceis. 

A minha irmã, que tem uma pele mais escura, que era uma pessoa muito mais tímida, muito mais sensível do que eu na época, sofreu muito mais e ela sofreu várias formas de racismo e outras coisas. Presenciar isso na pessoa que é o meu igual e é um ano mais nova, eu também peguei pra mim, então fui criando pequenos traumas. Mas também é isso, sabe? Como eu tive muita sorte de ter uma professora que me colocou num altarzinho, nessa parte de arte, que me fez olhar pra lugares diferentes, eu comecei a arranjar formas de comunicação do qual eu não precisasse da aprovação daquelas crianças. A minha irmã não, então eu foi um processo meio difícil de chegar em São Paulo e entrar em São Paulo como parte… [Eu] me apropriar da cidade, enfim, da cultura, mas eu acho que em dois, três anos de vida aqui as coisas ficaram bem melhores. 

 

P/1 - Algo que não tinha te perguntado antes: qual a atividade dos seus pais, Juily?

R - A minha mãe se formou em Biblioteconomia e passou em concurso público lá em Manaus. Trabalhou a vida inteira no Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária] que trabalha com reforma agrária. Quando conseguiu a transferência pra São Paulo, ela trabalhou mais fortemente como gerente de projetos; nisso, ela pegou a melhor fase do PT, então trabalhou bem ativamente com assentamento de reforma agrária, quilombolas. Foi bem legal.

O meu pai é formado em Engenharia, como muitos indianos. Quando chegou ao Brasil, ele começou a trabalhar com tecnologia, com comércio, mas quando veio pra São Paulo, ele se fixou em comércio exterior, até hoje.

 

P/1 - Certo. E avançando um pouco na sua vida escolar, indo pro ensino médio, o que mudou nesse período? Você já estava adolescente, talvez você tenha mudado de escola, os gostos foram mudando; me conta como foi essa sua fase de adolescência. 

R - Quando comecei a me compreender um pouco mais como mulher e comecei a ter a parte de menstruação, de sentir o corpo crescer e toda adolescência chegar e as meninas começarem também a ter outras relações - meninos e meninas pararam de ser só brincadeira e começaram a ser adolescentes -  eu comecei a me sentir um pouco fora de novo, porque foi quando comecei a ter questões com a minha própria sexualidade. Todo mundo ali, até então... Hoje a cultura é muito mais aberta sobre essa temática, mas nos anos - quando era? - 2003, 2004 ainda não era tão fácil esse assunto. Eu não me sentia pertencente à heterossexualidade que todo mundo ali expressava ter e eu era muito mais, eu me sentia muito mais perto dos meninos. Eu era mais moleque, gostava muito de atividades físicas, não era muito ligada a me arrumar, a ter certas preocupações com o meu físico. Eu gostava, na verdade, era disso, da adrenalina, da brincadeira, da loucura. Eu não era uma pessoa tão preocupada com as... No começo, com o que as meninas, na época, estavam se preocupando. 

Depois, você vira um pouco refém disso, porque aí começa: "Mas de quem você gosta? Nossa, mas você não se veste, você não se arruma que nem as outras meninas.” Então, começa a rolar meio [que] uma exclusão e por um tempo eu me enquadrei muito nesse personagem, então eu me fechava muito, eu não... Qualquer tipo de vaidade eu meio que rejeitava e aí comecei a ficar muito mais próxima das pessoas que eram os outsiders do colégio, os nerdzinhos, os que não combinavam com nada. Aí entraram pessoas negras, que também entraram pro meu grupo, entraram pessoas nordestinas, pessoas que não conseguiam, de novo, [se] integrar tão facilmente naquela classe média branca. Depois foi engraçado porque, com quatorze pra quinze anos essa questão da sexualidade aflorou e foi quando eu me assumi pra minha família e eu comecei devagarzinho a me assumir meio bi -  ainda não falava lésbica, na época, pros meus amigos do colégio. De repente, todos eles, das cinco pessoas... Cinco não; das sete pessoas, cinco não eram heterossexuais, então isso também fazia com o que a gente se encontrasse nesse lugar de não pertencente. Foi muito engraçado, mas isso já foi no colegial. Eu já estava no segundo pro terceiro ano, aí eu já estava mais assumida. (risos) Engraçado.

 

(15:57) P/1 - E em relação à escola, você acha que mudou também a sua percepção em relação aos estudos? Você continuou trilhando a ideia também de outsider, no sentido de "o meu negócio é arte, continua sendo arte"? Conte como foi essa sua relação...

R - Não, sempre foi arte. Eu não era uma pessoa muito boa de nada de Exatas. Era triste, porque eu fazia todas as recuperações, todas as aulas de suporte e ainda assim eu era muito ruim em Exatas. Era uma das tristezas da minha família, porque a cultura indiana é muito próxima, muito apegada a você ir muito bem em todas as matérias, mas principalmente Exatas. Acho que eu me dedicava mais nisso… Eu sempre fui uma pessoa meio das artes no geral - não só da arte manual, arte plástica; eu gostava muito de audiovisual, desde muito jovem, aí eu era aquela pessoa que tinha... Como que é? Hoje em dia tem a Netflix, antigamente tinha locadora. Eu era a pessoa que basicamente tinha um plano mensal na locadora, porque eu alugava o tempo todo filmes. Os caras já chegavam, os meninos que trabalhavam lá, assim: “Chegou um filme tailandês maravilhoso, que você vai gostar”, sabe? Que criança é essa que com treze anos está vindo assistir filme coreano, sei lá? E era assim, eu sempre gostei muito, então eu acho que estava nesse lugar. 

Eu passava o dia inteiro da minha vida editando clipes e vídeos em casa. Eu gravava meus irmãos e amigos, depois chegava em casa e ficava editando-os o dia inteiro. Também teve isso. Ao todo, eu tinha mais afinidades com artes do que com o colégio e as matérias tradicionais; acho que eu nunca fui muito boa nisso, apesar de ter a imagem de nerd e tentar bancar essa imagem. Nunca tive muito interesse também com estudos, tanto quanto era exigido pela minha família, porque meus pais exigiam muito que eu fosse bem, por causa de tudo isso: eles cresceram economicamente, eles não querem filhos que falhem, que tenham questões em lugares que são tão importantes e caros a eles, então, eu e meus irmãos, a gente tentava batalhar muito pra manter essa estrutura que os meus pais pediam, mas estudar na escola, ainda mais escola do ensino fundamental, ensino médio, eu não gostava tanto, não.

 

P/1 - Nessa época do ensino médio você já tinha ideia que você queria se formar em audiovisual?

R - Não. Eu morava ali na Santa Cecília, no final da [Avenida] Angélica e lá no comecinho, perto da Paulista, ou inverso, não sei, mas na outra ponta, existia a Escola Panamericana de Artes e Design e eu achava aquele prédio tudo na vida. Comecei a ir lá e entender como funcionavam os cursos. Quando eu tinha acho que dezesseis [anos], eu comecei a fazer Design lá. Achava que ia ser designer gráfico e era isso. Quando comecei a fazer, percebi que, na verdade, não ia conseguir manter aquela estrutura de vida, mas eu achei muito legal ter essa formação. 

Quando estava no último ano, eu não sabia ainda para onde seguir. Eu queria muito fazer Psicologia na época, mas achava que era uma profissão [em] que eu não ia ser bem aceita -  não sei porque Cinema eu achei que seria, mas enfim. Nisso, uma amiga minha falou assim: "Cara, tem um curso chamado Audiovisual. Você já é uma pessoa que edita vídeos pra todo mundo, você é uma pessoa que está toda hora preocupada com uma câmera e tudo o mais, porque você não pensa nisso, aí você se profissionaliza em edição?" Falei: "Nossa, parece uma ótima." Não era o nome Cinema, Cinema é assustador; você pensa assim, cinema no Brasil não dá em nada. E aí eu falei: “Audiovisual parece interessante.” Mal sabia eu que a gente ia ficar tão refém de celulares, né?

Fui nessa. Meu pai, de primeira, não aceitou muito, não amou muito a ideia, mas uma hora ele falou assim: "Vai. Se você tem habilidades e interesse, nada melhor que isso." 

Chegou lá no final e a última coisa que eu faço hoje é edição. (risos) Pelo menos foi onde eu me capacitei, foi muito legal e, como a gente conversou logo no começo, a questão de histórias é uma coisa muito cara, muito importante pra mim. Eu achava que no audiovisual ia poder dar voz às pessoas que não têm voz ou até essa relação que eu tinha, de me sentir muito única e muito... Não único no sentido [de] especial, mas [de] falta de amparo, de referência, que me faltava ao redor. Eu falava assim: "Nossa, talvez eu possa falar, eu possa receber pessoas que precisem falar e fazer documentários" e fui muito nessa onda, mas aí o capitalismo, né? Não consegui bancar tantos sonhos e projetos que eu gostaria, mas trabalho numa área que realmente me completa nesses lugares, então eu acho que deu tudo certo nisso.

P/1 - E me conta como foi esse processo de você fazer um vestibular, entrar e de repente você pensa: "Bom, tô aqui dentro, é isso." Como foi a faculdade, pra você? Como você se sentiu? 

R - Eu estava me formando e aí eu falei assim: "Eu vou fazer audiovisual", mas não tinha ainda pensado em que lugares eu tentaria. Eu fiz a Fuvest, mas já sabendo que não existiam muitas chances de passar, porque é um dos cursos mais concorridos e aí eu fiz a prova do Senac e eu mais uma universidade - não lembro se foi a Faap, talvez tenha sido. Mas aí no primeiro semestre, eu meio que… Passei no Senac, eu acho, só e mais outro lugar, mas falei assim: "Deixa eu tentar mais, deixa eu ver se é isso que eu quero." 

Fiz três, seis meses de cursinho e foi ótimo, porque eu percebi que, na verdade, o que eu aprendia na escola era muito defasado do que normalmente as pessoas [que] estavam competindo no mesmo nível, [tinham] um nível muito diferente do meu. Foi bem interessante. Foi um tempo meio também de não ficar tão presa à uma rotina da qual eu já estava há muitos anos, que foi o colégio. 

Na metade do ano de 2008 eu entrei no Senac, em Audiovisual vespertino, que era também outra coisa. Nossa, eu fui estudar do outro lado da cidade. Era um curso à tarde e eu fazia de manhã Design, não tinha me formado ainda; fazia de manhãzinha na Angélica e pegava cinquenta bilhões de transportes públicos pra chegar no Senac à tarde e saía de lá à noite. Era bem puxado, mas foi muito bom.

Uma das coisas ruins, só, foi que normalmente as pessoas que cursam esse horário não são pessoas que estão tão de cabeça no processo, enquanto as pessoas da manhã pareciam pessoas muito talentosas, muito a fim, muito sagazes; queriam, enfim, ingerir tudo o que era possível, enquanto a [turma] da tarde era muito acomodada. Percebi que, de novo, eu não cabia naquele grupo, e comecei, desde o segundo semestre, a tentar falar com a coordenação. Falei: "Vocês não fazem projeto de integração? Eu não posso fazer tipo [um] estágio nos semestres superiores, ou conhecer as pessoas? Porque a galera da tarde mal se fala." Tinha intervalo e cada um ficava num canto, eu achava muito chato isso e nesse lugar eu era muito mais nerd de verdade; eu queria aprender tudo, fazer tudo. Nisso, eu tive sorte da coordenação me colocar em contato com pessoas da manhã, que foram muito legais e precisavam de assistentes. aí me colocaram em cinquenta mil projetos e deu muito mais certo. Pelo menos eu fiz o curso que eu gostaria de ter feito, sabe, porque realmente a galera da tarde era muito vagal.

 

P/1 - Como você acha que esse processo do curso, o aprendizado que você teve, esses projetos que você fez, acabaram influenciando no seu caminho profissional? 

R - O ensino superior te dá um pouco mais de independência. E mais, eu acho que ele te inicia num processo de autoconhecimento também. A escola, pelo menos até o tempo que eu cursei - não sei se hoje é diferente… Mas a gente era muito igual, todo mundo tinha que ter o mesmo desenvolvimento. As pessoas não tinham uma diversidade ali, não existia um facilitador de habilidades diferentes no meu colégio. Quando eu entrei na faculdade, todo mundo ali era um gênio sozinho, todo mundo ali era diferentão, todo mundo ali tinha conhecimentos especiais. 

Quando você faz uma faculdade de Comunicação, uma faculdade que trabalha com narrativa, com imagem, com aparatos técnicos e tudo o mais, eu acho que te abre um universo, que [é] a criação, e o que antes parecia que era diversão é um método de trabalho. Isso foi muito bom, porque eu entrei em contato com Filosofia, que era uma coisa que eu sempre tive [interesse] naturalmente, mas quando comecei a entender historicamente momentos e fases, entender pessoas grandes e quais são os pensamentos de feministas, por exemplo, que eu só entrei em contato com teorias feministas na faculdade, no colégio não tinha tido... Foi uma coisa que, nossa, dá um clique na sua cabeça. Você sai de uma caverna e fala: "Nossa, o mundo é outra coisa, [diferente] do que eu imaginava”. 

Trabalhar com histórias e poder falar histórias que nunca foram vistas e estar ali, discutindo personagens… A faculdade me acrescentou muito como ser humano e também me fez pensar que eu posso ajudar o mundo de alguma outra forma, que possa ser mais artística; [quanto à] comunicação, acho que eu sempre tive esse lugar em mim. 

Quando eu estava no quinto pro sexto semestre [e] tinha uns vinte anos, tinha um grupo mais velho; eram pessoas meio jogadas, de semestres mais velhos, que queriam abrir um coletivo LGBT e eles sabiam que eu já falava dessa pauta há muito tempo, aí eu entrei e a gente formou um coletivo chamado Lumika, na época. A gente ganhou vários prêmios e a gente ganhou editais pra produzir coisas. Isso foi me fazendo criar mais autoconsciência e ao mesmo tempo querer colocar no mundo coisas que eu achava que eram mais conscientes. Foi bem legal, isso abriu muitas portas pra quem eu sou hoje.

 

P/1 - Você acredita que as pautas, tanto as pautas feministas, LGBT, como também a questão da sua ascendência indiana, você foi também colocando isso no seu trabalho, o máximo que você podia?

R - Olha como é louco, né? Hoje em dia essas pautas de intersecção de gênero, raça, classe, sexualidade, eu acho [que] pelo menos no meu universo está cada vez mais palpável, está muito mais fácil de acessar. Na minha geração, com vinte anos, eu entrei nesse mundo através da sexualidade. Como era uma coisa muito latente pra mim, eu falava de coisas LGBT, eu precisava sair do armário o tempo todo; eu precisava que as pessoas soubessem quem eu era, muito jovem, mas sem consciência política daquilo. Eu fui criando isso durante a faculdade e aí vieram as noções de gênero - que hoje em dia é o contrário, as pessoas têm noção de gênero muito antes do que qualquer outra coisa; é bizarro, é até engraçado mesmo. Veio o gênero e só quando eu já estava terminando a faculdade que eu vim ter noção de questões raciais. Até então, eu era aquela pessoa que me enquadrava numa branquitude confortável, mas eu não me colocava etnicamente. Eu sabia, obviamente, eu falava pra todo mundo: "Olha, eu sou de Manaus, tenho esse sotaque, meu pai é indiano, eu tenho essa fisionomia", mas eu não me compreendia assim, parte de uma outra raça. Então, pra mim só veio ser uma questão política, com 23, 24, depois que eu tinha me formado.

P/1 - E de onde surgiu, Juily, o seu interesse por Bollywood?

R - (risos) Lá na faculdade, como eu estava falando, eu era uma pessoa que não me dava muito bem com a galera da tarde, que era a minha turma. Quando a gente começou a fazer os projetos e os semestres etc, eu não consegui entrar naquela vibe deles. Eles eram muito lerdos, ou muito acomodados; eu era uma pessoa que já queria fazer coisas mais profissionais. 

Quando chegou o TCC, a gente tinha duas opções: fazer um curta metragem ficcional ou documentário, ou fazer uma monografia. Nisso, eu falei: "Nossa, vou passar um ano trabalhando com pessoas que eu não gosto e fazer um projeto que não vai ser do jeito que eu quero." Eu já estava sofrendo com a ideia de passar um ano trabalhando com a minha turma e nisso, falei: "Ah, acho que eu vou fazer uma monografia." 

Cheguei para a minha professora, na época, que coordenava isso e falei: "Olha, eu passei quatro anos estudando audiovisual e cinema aqui, cinemas mundiais e eu não vi nada de cinema indiano, que é o maior produtor mundial, junto da Nigéria. Como é possível a gente falar da França, dos Estados Unidos, da Europa o tempo todo e até Japão e a gente não falar da Índia, sabe? Eu acho que tenho um pouco a contribuir." Ela, na hora, não achou muito interessante, porque eu nunca fui a pessoa da escrita, nunca fui a pessoa da pesquisa, mas falou assim: "Tá, se é isso que você quer se formar, como uma pessoa acadêmica, então beleza, vou te indicar um professor" e aí foi um padrinho pra mim o Maurício. Ele é uma pessoa de cultura brasileira e me ensinou todos os caminhos pra entender cultura, principalmente o cinema, como um construtor cultural e social. Eu entrei pra pesquisar Bollywood porque era o que eu tinha mais acesso, até então eu estava muito mais imersa no cinema de massa. Depois, só, que eu fui entender mais de cinema de arte, cinema de diáspora, cinema feminista indiano, mas até então eu estava pensando mais no cinema de massa, que é Bollywood.

 

P/1 - No que você acha que isso acabou influenciando você, posteriormente? Você teve que fazer esse mergulho pra entender e quem saiu, depois?

R - O mais louco de tudo que a gente faz na vida é que, na verdade, qualquer decisão que você toma, você está tomando por você mesma. Quando eu comecei a estudar Bollywood eu entendi, tanto mais a história do meu pai, tanto mais a história da minha família indiana, que era engraçado, porque eu escolhi filmes… Eu queria estudar Bollywood toda, que é uma indústria enorme, aí o meu professor, que já é uma pessoa bem mais sábia, falou assim: "Vamos falar sobre personagens da diáspora, que passam pelo que você passa?" E aí eu fiquei assim: "Nossa, legal." Não coloquei assim, eu não pensei o que eu realmente significava aquilo, mas o fato de ele me fazer estudar personagens que conviviam com duas culturas, personagens que cresciam num lugar mas tinham dentro de casa outra forma de pensamento e entender como... Mercadologicamente foi muito legal  estudar cinema indiano, mas também entender a questão do sujeito, da construção da subjetividade; foi incrível.

Eu saí do meu TCC, [em] que eu estudei basicamente personagens da diáspora em Bollywood, muito mais completa, muito mais coerente com o que eu pensava da minha própria vida. Foi muito legal, foi bem terapêutico. Na hora que eu entreguei meu TCC, a galera da banca virou e falou assim: "Você está entregando um mestrado, então o melhor a fazer é seguir pra carreira acadêmica, porque o tema é muito rico e ninguém estuda cinema indiano no Brasil. Acho que é um dever social seu." Eu falei: "Nossa!" 

Eu fui e fiz isso, sabe? (risos) Falei: “Então, vou fazer um mestrado.” Mas aí a vida muda, né? Eu acho engraçado, porque eu só queria me formar. Queria entregar um trabalho legal, um trabalho condizente com todo o meu processo dentro da formação do bacharelado e eu era uma pessoa que… Mano, eu competia com os meninos de outro semestre, [de]  quem fazia mais TCCs. A galera faz o seu TCC e mais dois ou três como assistente pra se formar e eu tinha feito mais de dezesseis TCCs. Eu era uma pessoa realmente muito focada. E eu queria muito - eu fazia todas as funções, fazia todos os semestres, não importava quem era; eu queria muito trabalhar, ter experiência, e no final me formei com uma monografia. Falei: "Cara, então acho que eu fiz a melhor versão do curso, tanto de experiência profissional de set, quanto de pesquisa.” 

O mestrado veio muito mais no lugar de avançar nesse lugar de cinema indiano, que ninguém estudava. Quando eu apresentei um projeto de pesquisa, eu passei no mestrado com o projeto que era ainda sobre Bollywood, o cinema de massa, mas no tempo entre eu começar a cursar… Eu comecei a entrar em contato com o cinema de arte e aí entrei em contato com o cinema feito por mulheres da diáspora indiana. Aquilo fez um ‘puufff’ na minha cabeça, porque me fez mais ainda entender o que eu era como ser humano, o que que a Índia estava passando politicamente e o que é essa polifonia de tipo pessoas que produzem dentro do seu país e pessoas que produzem fora. Aí eu entendi a censura na Índia, enfim, comecei a entender essas hipocrisias e discrepâncias de uma cultura que também é muito, muito neocolonizada. Foi muito louco.

 

P/1 - E me conta um pouco sobre esse processo do mestrado. Você acabou se aprofundando nesse cinema ligado mais a mulheres. Você acha que conseguiu seguir essa direção, partindo em relação ao que você tinha feito no seu TCC, ou você acha que as duas coisas se complementam?

R - Eu acredito que o meu mestrado e o meu TCC [se] complementam bastante, mas comecei a aprofundar muito mais em questões minhas, coisas que eu precisava responder. Acho que cada um fez o seu papel, tanto na minha vida quanto pra pesquisa brasileira. 

O TCC era uma coisa muito mais generalista, sobre como é a formação da indústria, quais são as décadas, quais foram as importâncias das coisas, enquanto o mestrado era politicamente mais ativo. Tinha as questões de como a religião é tão forte e caracteriza as relações entre gêneros, entre expectativas, por que existe uma heterossexualidade tão compulsória, ou porque que a gente entende o mundo de uma forma orientalista, como é vista a Índia no Brasil ou fora, no ocidente. 

Eu entrei em contato com teorias mais pesadas e com as pesquisas dessas diretoras. Eu estudei basicamente uma só, [que] chama Deepa Mehta e a Trilogia dos Elementos, que são três filmes [em] que ela estuda, ela aborda… É ficcional, ela aborda três épocas políticas muito fortes na Índia, que são a pré-independência, o momento da independência e o pós-independência, em relação a mulher, mas uma mulher mais classe média. Na verdade, eu não sei dizer muito, mas não é uma mulher que é um senso comum; não tem muito um recorte de classe, mas [a abordagem é] muito relacionada [a] como a religião conduz a vida dessas pessoas. Como elas se tornam alguém que está sempre ali, em detrimento de uma religião, e como essa religião é muito patriarcal. Tudo isso foi me aprofundando, não só no que eu já pesquisava - porque eu sempre fui muito mais da teoria, eu gosto muito de estudar teoria -, do que qualquer outra coisa e o mestrado me formou uma pessoa mais profunda nisso, nesses lugares. 

 

P/2 - Juily, depois da sua pesquisa sobre o cinema indiano, isso influenciou de alguma forma a maneira como você conversa com a sua família. A cultura ficou mais forte em você?

R - Entender historicamente o que aconteceu com a Índia, entender quais foram as coisas que levaram meu pai a emigrar, porque ninguém abandona o lugar que você cresceu, o lugar que você entende como casa, gratuitamente... Então entender que não foi... 

Eu acho que existe muita romantização sobre a imigração e quando eu entendi que não foi uma emigração, simplesmente assim: “Ah, resolvi mudar de país”, que nem se eu quisesse fazer intercâmbio hoje… Não, foi uma imigração por motivos econômicos, por sobrevivência, por melhor qualidade de vida.  Entendi o quanto todos eles abdicaram de muita coisa pra poder dar apoio e suporte aos filhos que eles ainda teriam um dia. Eu antagonizava muito a relação que tinha com meu pai e quando eu comecei a entender melhor a história, entender os processos, entender os movimentos, inclusive feministas, foi quando eu comecei a humanizar todo esse processo familiar. 

Eu sempre tive muita proximidade com os meus primos da minha geração, mas eu não tinha tanta proximidade com os adultos, com os tios, enfim, gente mais velha, os avós. Quando eu comecei a estudar bastante essas questões mais teóricas, históricas, sociais, foi quando eu realmente comecei a falar: "Nossa, talvez eu esteja sendo muito mais mimada e arrogante do que eu achava" e aí eu comecei a me dar muito melhor [com eles]. Hoje, da minha família daqui do Brasil, eu sou a pessoa que tem a melhor relação com qualquer pessoa indiana, de todos os lados - por mais que eu seja a mulher dos trinta anos que nunca casou, eu não procriei ainda, tenho milhões de tatuagens, falo que eu sou bissexual, às vezes lésbica. Eu digo assim: “Eu sou o que eles não conseguem entender como realidade”, mas sou a pessoa que mais corre atrás, mais está junto, mais viaja, mais vê se eles tão bem, sabe? Acho que existe uma licença poética na compreensão do que é essa realidade, que é tão dura. 

E é muito louco, antes eu exigia muita coisa do meu pai, numa esfera do que seria um pai brasileiro, do que eu estava acostumada a ver pelos meus amigos ou até pela minha família materna e meu pai não podia me oferecer nada daquilo. Depois de um tempo eu entendi que, na verdade, o meu acesso à subjetividade vem nessa geração, veio na minha geração. Meu pai tem várias questões e ele nunca vai tratar, nunca vai lidar [com elas], porque a vida inteira ele só se preocupou em sobreviver, só se preocupou em pagar contas, em dar oportunidades melhores pra gente. Por mais que hoje ele faça parte de uma elite, ele não tem, ele não foi construído pra refletir sobre si e nem sobre o que ele colocava no mundo. Eles são pessoas direitistas, pessoas que só pensam em dinheiro. Hoje em dia me faz muito mais sentido do que eu só ficar exigindo uma empatia, uma paternidade, uma relação que ele não pode me dar, porque ele nunca teve essa estrutura; nem ele teve isso, nem ele teve um pai assim. 

Acho muito interessante conseguir se compreender num contexto histórico e o mestrado me deu muito isso, com certeza.

 

P/2 - E seus irmãos, também se aproximaram da cultura?

R - Olha, os meus irmãos são engraçados, porque eles meio que vão assim: surfam na minha onda. Hoje em dia não mais - a gente está bem adulto, todos os três - mas enquanto eu era adolescente, se eu gostava muito de uma coisa, eles iam porque, sei lá, estavam lá fazendo nada e nisso, como eu cheguei... Eu tive uma viagem de quinze anos [e] fui visitar a minha família estrangeira. Passei um tempo nos Estados Unidos e um tempo na Nova Zelândia, onde eu tenho tios. Quando eu voltei, eu voltei assim, gente, Índia pra tudo: todas as músicas, todas as danças, todos os filmes, toda a roupa, o gosto pela comida, tudo. Eu abri uma caixinha de Pandora, [foi] muito louco, e aí a minha irmã foi na onda. 

A minha irmã tem muito mais uma relação com o corpo e um desenvolvimento artístico com o corpo que eu tenho assim: gosto de dançar, gosto de fazer atividades físicas, mas não sou a pessoa mais bonita fazendo isso. A minha irmã não, ela tem a sensibilidade, ela tem... Ela se comunica bem com o corpo e, com o tempo, ela foi percebendo a mesma coisa que eu: que existia uma defasagem de intercâmbio cultural. Enquanto eu entrei de cabeça com pesquisa, com cinema - hoje eu dou várias aulas de cinema indiano -, ela começou a fazer isso com dança. Ela foi se aperfeiçoando em dança e hoje em dia dá aula de dois tipos de dança indiana e estuda danças clássicas. 

O meu irmão, não. (risos) O buraco é um pouco mais fundo ali. Do mesmo jeito que eu consegui mais ou menos dançar na chuva de ser uma pessoa fora da normatividade, do conservadorismo que a Índia meio que pede pras mulheres e ainda assim conseguir ter uma boa relação com a minha família  - apesar de que quanto mais envelheço, mais acho que isso vai mudar… Mas a questão do meu irmão… Ele é um menino jovem, também não heterossexual e foi incumbido uma responsabilidade de ser o homem da família, de ser o detentor do sobrenome, da linhagem. Ele, que sempre foi uma pessoa muito sensível, muito “’feminina”, entre muitas aspas, se assustou muito com a Índia. Ele meio que rejeita tudo, a não ser a comida, porque é maravilhosa, (risos) mas ele rejeitou todo o resto. 

 

P/1 - Mudando de assunto, Juily, me conte como foi a sua entrada no mercado do audiovisual, a sua atuação. No que você trabalha hoje em dia?

R - Tá. Eu entrei no mercado audiovisual por duas vias. Uma foi nesse momento que eu comecei a sair com a galera mais velha; comecei a fazer estágios pequenos, em pequenos curtas, em pequenas assistências. Não era nem estágio, porque não era considerado. As meninas que já estavam no mercado de trabalho, na área de produção de arte, produção de objetos, que é dentro do guarda-chuva da direção de arte e cenografia, começaram a me indicar pra pequenas atuações no mercado e aí eu fiz alguns freelas bem pequenos - de fazer sets, conhecer diretores de arte, entrar um pouco nesse mundo, mas eu era muito jovem e não sabia se eu queria arte mesmo. Tanto que, quando eu entrei no audiovisual pra estudar, eu me dei muito bem com produção. Era a pessoa que ajudava a organizar o circo de montar um set e direção também, porque eu acho que sempre tive essa aptidão por narrativas alternativas, mas arte não era o meu lugar. Só que, como foi o que foi aparecendo pra mim e eu estava querendo entrar pro mercado, foi o que eu fui fazendo. 

Em paralelo, eu estava nesse coletivo, o Lumika, que era de pautas LGBT e depois  de gênero também. Comecei a trabalhar bastante com essas pautas, mas pro mercado de editais. Então, em 2011, 2012 e 2013 a gente ganhou editais diferentes, do ProAC de São Paulo e do Ministério da Cultura nacional e aí a gente produziu pesquisa, documentários e ficções baseados nesse nicho. Nisso eu consigo dizer que tive inserção nesse lugar de editais, de festivais, de falar publicamente desses assuntos. Foi bem legal, enquanto [inserção no] mercado mais de competição, capitalista, desses de fazer projetos grandes, de trabalhar com TV, cinema, comercial.  

Quando eu entrei no mestrado, em 2014, eu fiz uma pausa gigante. Fui morar em São Carlos, [no] interior de São Paulo, e fiquei lá dois anos, fazendo mestrado. Eu ia e vinha porque eu estava fazendo um dos documentários e gostava de fazer umas coisas menores aqui. Eu namorava na época, então eu ficava voltando, mas em 2017 foi quando eu voltei pra São Paulo de vez, voltei a trabalhar e aí fui muito mais pro setor de arte, porque depois que o tempo passou e eu fui amadurecendo eu vi que eu tinha muito conhecimento disso. Eu sabia os lugares que tinha que ir, eu sou boa de produção, sempre fui boa de produção, mas eu setorizei pra produção de arte e objetos e até hoje é o que paga as minhas contas. 

Eu não sei ainda se eu olho pro futuro e penso: "Nossa, vou ser uma diretora de arte", porque até hoje não acho que é o lugar que eu mais amo estar no audiovisual, mas tenho qualidades nesse setor e tenho esse olhar atento à estética, então eu estou indo, eu me dou bem nessas áreas. É por aí que eu estou agora, mais do que os outros, que eram mais ligados à produção e direção. 

Teve um tempo na minha vida, entre 2017 e 2018, que eu fiz uma dupla com um amigo meu, também da faculdade, e a gente dirigia videoclipes, mas focados em gênero e sexualidade também. A gente dirigiu clipes de umas pessoas bem legais - Alaska Thunderfuck do RuPaul, a gente já dirigiu Jaloo, Mateus Carrilho, fez umas propagandas focadas em pautas LGBT pro Google. Foi bem legal, bem legal mesmo mas, infelizmente, são trabalhos que a gente tem que colocar mais numa seara nossa... A gente tem que colocar mais num lugar de trabalhos que... Como posso falar? Que você desenvolve, mas não tem retorno financeiro. É um trabalho mais afetuoso, um trabalho... Eu acho que quando você trabalha com música e clipes nunca tem muito dinheiro envolvido, enquanto trabalhar com cinema, TV e propaganda, você consegue bancar sua vida, então eu ficava nesses dois. 

A minha carreira como direção, que é uma carreira que eu gosto muito, é mais independente, mais tímida, enquanto a minha carreira como produtora de objetos e arte é mais expressiva. Eu faço projetos bem maiores.

 

P/1 - No que esse período de pandemia afetou o seu trabalho, Juily?

R - O audiovisual, na verdade, é um trabalho em equipe. Quase todos eles requerem uma união de vários setores, dentre eles: edição, som - não a captação, mas principalmente a mixagem. Direção, ‘produção’ entre aspas, são setores que conseguem fazer home office. O meu, produção de arte e objetos, requer rua o tempo todo, requer negociação o tempo todo, requer fornecedores ativos, requer a equipe necessária: a direção de arte, produção, assistentes, contrarregras, ajudantes. São pessoas. 

Afetou muito em falta de estrutura, a gente não conseguia ir pra rua, a gente não conseguia mais... Foi o setor que mais foi abdicado por um tempo. As pessoas começaram a fazer lives, projetos à distância, começaram a fazer tudo, mas não existia um pensamento de arte, inicialmente. 

O meu setor de arte foi um dos que mais sofreu, logo no começo. Muitos lugares fecharam, muitos fornecedores que a gente tinha na manga, que se você precisasse de qualquer coisa você sabia onde achar, não existiam mais, faliram. Foi muito triste também. E os preços das coisas ficaram muito mais caras, matéria prima ficou muito cara. Muitas vezes coisas que eu produzia de olho fechado eu tive que orçar e caçar, coisas que eu não achava fazia muitos anos. E teve isso de você ter que ir pra rua, de ter que entrar em contato, de ter que aglomerar. Logo que voltou um pouco o mercado, eu já estava na [Rua] 25 de Março de novo, inclusive eu peguei covid trabalhando. É um setor que, dentro do audiovisual, em si, talvez seja um dos mais arriscados, dentro de uma pandemia. (risos) 

Foi muito pesado, no começo. Ainda bem que eu tinha uma grana guardada, mas eu fiquei sem trabalhar [por] uns quatro meses e foi muito ruim pra saúde mental, claramente, pra todo mundo. Depois voltou. 

O bom é que é um mercado que aquece muito rápido e [em] que, hoje em dia, a gente é muito viciado. Acho que todo mundo é muito viciado em audiovisual e o mundo tem utilizado do audiovisual pra tudo: pra venda, pra... A gente virou marca, né? O ser humano virou uma marca, então a gente está no Instagram sempre, lá postando, as lives foram o que salvaram muita gente. Netflix, os streamings são os que estão mais bombando agora, inclusive sendo muito produzido no Brasil. Ele reaqueceu rápido, pelo menos. (risos) 

 

P/1 - Então, vamos pro bloco final de perguntas, Juily: quais são as coisas mais importantes pra você, hoje em dia?

R - Gente, que pergunta é essa: “As coisas mais importantes pra Juily hoje em dia?" (risos) Meu Deus, que difícil! 

Olha, aos 31 anos, eu acredito que seja... Esses dias eu estava conversando com uma amiga sobre isso. Tudo na vida leva a gente ser quem a gente é hoje; por mais que sejam coisas muito pequenas elas já estão lá, já existe aquela semente e um dia você consegue olhar com um vislumbre melhor o que sempre te machucou, o que sempre te agregou e tudo o mais. 

Sempre fui uma pessoa muito ligada a questões sociais - [de] me entender uma minoria, me entender frágil, me entender sem representatividade - e tudo foi fluindo pra eu buscar isso e querer isso melhor pro mundo. As coisas mais importantes pra mim são justiça, liberdade, direitos humanos, democracia, noções políticas. Hoje em dia, ser um ser humano que não se entende político é um problema. E eu acho que a gente está vivendo uma fase do mundo que existe a retomada de um pensamento conservador que não pode existir, pela liberdade, pela existência da diversidade que existe no mundo. Ser essa pessoa que tem tantas layers de compreensão de universo, de culturas, de sexualidade, de gênero, me faz ser uma pessoa que quer muito que o mundo seja mais empático. É muito injusto o mundo que a gente vive, ele é um lugar muito difícil pra muitas pessoas e eu não consigo continuar vivendo nele se eu não estiver contribuindo pra essas pessoas. Então, pra mim, as coisas mais importantes são, realmente, ter autonomia, liberdade, subjetividade, tudo isso que eu já falei agora. Enquanto eu puder contribuir de alguma forma, seja no meu trabalho, seja causas, ONGs, coisas que eu posso colaborar, sei lá... 

É isso: não consigo dormir feliz se eu não souber que pelo menos… Nem que eu esteja ajudando uma pessoa por vez, ou tendo conversas e trocas e vendo que as pessoas... Não quero me colocar nesse lugar de tipo detentora da verdade, ou salvadora da pátria, ou Jesus Cristo do século XXI, mas eu queria muito que existisse mais a comunicação, que existissem mais formas de conscientização dos seres humanos, porque é isso: a gente tem tudo na mão, mas a gente não sabe usar, sabe? 

 

P/1 - E quais os seus sonhos pro futuro, Juily?

R - Queda do Bolsonaro, começando por aí. (risos) Eu quero muito, muito, muito ver essas histórias únicas não sendo mais únicas, tendo mais mulheres em locais de poder, mais pessoas que são consideradas minorias étnicas, ou ver pessoas... Eu queria que o mundo fosse mais igualitário. Pro futuro, eu seria muito feliz sabendo que a diversidade é, na verdade, essencial e que ela tinha que ser mais apreciada do que julgada. Se eu pudesse morrer sabendo que o mundo está melhor, eu ia ficar muito feliz. (risos)

P/1 - Tem alguma coisa que não aconteceu… Que a gente não tocou no assunto, nessa conversa de hoje, que você gostaria de falar?

R - É que eu falei tanta coisa! Eu falei de gênero, de raça, da minha família. Eu não sei, tem alguma coisa que ficou faltando, pra vocês?

P/1 - Não, não ficou. É que, às vezes, algum momento que foi importante pra você, alguma coisa que você queria dizer, de repente não apareceu na sequência do que a gente foi conversando, então por isso a gente sempre pergunta. Às vezes acontece, às vezes a pessoa fala: "Nossa, tinha uma coisa superlegal que eu queria falar e não falei."

R - Ah, que tem uma coisa só que eu falei muito rápido e que a gente não entrou, mas é porque vocês não... Vocês tinham que ter a minha biografia pra saber que aconteceu, mas eu posso só falar?

P/1 - Pode, claro.

R - Tá. A gente estava conversando sobre essa formação da pessoa e da criança e do adolescente, da escola. Uma das coisas que foi uma mudança de chave muito grande na minha vida, tipo de abrir o mar e mudar tudo, foi eu ter tido essa viagem de quinze anos. Meu pai… Culturalmente, aqui em São Paulo, no Brasil, existe essa festa de quinze anos pras meninas que é bem, bem bizarro, mas meu pai falou assim: "Você quer ter essa festa ou quer fazer outra coisa?" E ele ia viajar já pra Nova Zelândia, pra encontrar o meu tio, discutir coisas da minha avó, aí eu falei: "Não, eu quero viajar pra Nova Zelândia. Afinal, sou super fã do ‘Senhor dos Anéis’", louca. 

Eu fui, só que, chegando lá, Senhor dos Anéis foi tão pequeno. Eu acho que entrei realmente numa compreensão de família de cultura indiana, de entender as minhas primas também como parte da diáspora. Na minha cabeça - uma adolescente ainda muito criança, com quatorze anos no Brasil, que não falava tanto inglês, então não se comunicava tanto com eles - eu os imaginava da forma mais orientalista, inclusive. Eu tinha uma imagem muito distante da Índia e dessas pessoas.  

De repente, convivendo com eles, entendendo como a minha família se organizava, um afeto que era muito forte… Por mais que eu fosse miscigenada, por mais que eu fosse de um país que tem morais complexas pra eles, por mais que eu fosse muito menininho naquela época, fosse muito mais masculinizada, existia um afeto tão grande, uma naturalidade na cultura; existia um lugar tão bonito que quando voltei pra São Paulo e pra minha vida, meu cotidiano, eu voltei com uma chave muito mudada. Eu falei: "Cara, eu quero muito que a Índia entre na minha vida." E foi nessa fase que eu comecei a me aproximar da cultura indiana, loucamente. Comecei a estudar, comecei a querer saber da língua; foi quando eu comecei a querer entender o cinema indiano e tudo isso foi acarretando tudo que eu sou hoje, muito bizarramente. 

É isso. Tudo parte de uma questão não só de pertencimento, que eu acho que é o meu dilema de vida, como também de afeto: o que te agrada como afeto? O que que te corresponde como afeto? A parte de Manaus estava muito concretizada, mas da Índia ainda era muito mística pra mim e, depois disso, virou parte do meu dia a dia, virou parte de quem eu sou. Por muito tempo, inclusive, tive uma fase em que eu namorei homens, porque eu achava que, se casasse com um cara, eu podia me aproximar da família indiana melhor. Mas aí foi muito engraçado porque, depois de muito tempo, eu já tendo a minha persona consolidada dentro da família, eu já sendo a filha de quem eu sou, já sendo a pessoa que faz o que eu faço, eu virei uma referência pras minhas primas mulheres, num lugar muito bom, de uma pessoa que fala o que pensa, que levanta as bandeiras, que não tem medo. Aí eu falei: "Gente, eu sou isso pra elas. Na verdade, eu estou bancando uma heterossexualidade que não existe.” Foi quando eu comecei a me assumir pra todo mundo assim, meio bi, meio lésbica, por um tempo; agora isso virou uma coisa mais aberta, eu não coloco uma bandeira muito grande, mas eu pude sair com mulheres e abertamente pra elas e pra eles, pra minha família indiana, porque ganhei um lugar de fala que elas não tinham coragem de ter na época, porque a estrutura lá fora era muito mais forte, porque aqui eu tenho muito menos comunidade indiana - no Brasil tem uma comunidade muito, muito pequena. 

A influência da Índia vem do que eu quero, do que eu aceito e eu consigo barrar; elas não, elas têm uma comunidade muito forte, têm uma família muito mais presente, mãe e pai indianos. Pra elas era muito mais difícil ter liberdade de expressão e às vezes elas não conseguiam nem quebrar a bolha de um casamento arranjado, de divórcio, coisas que, pra gente, já é muito outro lugar, é outra compreensão de amor e afeto. 

Uma coisinha pequena, que você nunca dá nada, muda sua vida inteira. Então, foi muito legal isso.

 

P/1 - Indo pra última pergunta, Juily: o que você achou? Como você se sentiu de contar a sua história pra gente, hoje?

R - Cara, eu nem sei o que dizer, na verdade, porque já não sou uma pessoa que se abre tanto sobre como me criei, qual é a minha cabeça. Eu utilizo muito mais pra dados: "Ah não, por que falta imigração? Ou por que a miscigenação ou questões de raça?”, mas eu acho que eu nunca me abri numa conversa pra algo assim, pra um projeto desses, [em] que o que importa sou eu, não meu contexto histórico, só. Achei muito engraçado, vou passar mais um bom tempo pensando: "Nossa, devia ter falado isso, eu acho que eu não devia ter falado isso.” 

A gente não está pronta pra se abrir nunca, mas ainda bem que eu fiz muitos anos de terapia. (risos)

 

P/1 - Bom, então eu agradeço muito, em nome do Museu, sua participação, Juily. Foi incrível, foi muito bom.

R - Obrigada a vocês. Estou tímida ainda, mas estou muito feliz. Nossa, na hora que a Grazi me mandou mensagem, eu tive um treco, eu falei: “Gente! Calma! Isso é muito legal! O que é isso?” Eu fiquei muito, muito feliz. (risos)




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