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História

Mais que um presente

História de: Gilberto Aparecido Nascimento Teixeira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/06/2005

Sinopse

Infância em Itaquera. Convivência familiar. Escola. Mudança para o Jardim do Quarto Centenário. Trabalho como vendedor de geladinho e pastel. Grupo Sérgio. Demissão. Ingresso na Natura como consultor de beleza. Faculdade. Sustentabilidade. São Paulo Fashion Week. Carreira de empreendedor. Conquistas e aprendizados. Valor da diversidade e da memória.

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História completa

 

P/1 – Bom, Gilberto, a gente vai começar a nossa entrevista. Eu vou pedir para você falar de novo seu nome completo, o local e data de nascimento.

 

R – Bom, meu nome é Gilberto Aparecido Teixeira, eu nasci em São Paulo, capital, em janeiro de 1967. Já com trinta e oito anos, dia nove de janeiro.

 

P/1 – E o nome dos seus pais?

 

R – Minha mãe se chama Zenólia de Jesus Teixeira e meu pai se chamava João Teixeira Sobrinho.

 

P/1 – E em que seu pai trabalhava, você se recorda?

 

R – Vagamente. A relação do meu pai, minha e dos meus irmãos com o meu pai durou muito pouco tempo porque ele foi embora muito cedo. Mas eu lembro que logo que ele partiu, ele trabalhava numa fábrica de vidros, é, de segurança para caminhões, ônibus, essas coisas e também na fábrica de brinquedos Estrela, na época.

 

P/1 – Ah, era na Estrela?

 

R – A gente ganhava bons presentes quando a gente era garoto.

 

P/1 – Que bacana! E que bairro que você passou sua infância aqui em São Paulo, Gilberto?

 

R – É uma parte, a primeira infância foi numa cidade da Grande São Paulo: Ferraz de Vasconcelos; logo depois, na idade pré-escolar, eu e meus irmãos, nós morávamos em Itaquera, já com meu pai falecido; depois, é, já na pré-adolescência a gente estava morando ali no bairro de Aricanduva. Então, a vida inteira na Zona Leste, Grande São Paulo.

 

P/1 – E como é que era Itaquera nessa fase que você era criança?

 

R – Ah, era muito bom, né? Porque a gente era muito livre, né? As crianças eram muito livres, minha mãe trabalhava na época, a gente tinha os vizinhos que olhavam por nós, na falta do pai. E a gente ia para escola sozinho, voltava sozinho, era muito livre. Era diferente do que é hoje, o que eu lembro da infância, era muito livre mesmo.

 

P/1 – Parecia uma cidade do interior?

 

R – Ah, sim!

 

P/1 – Descreve pra gente.

 

R – As ruas eram de terra, muito mato, no caminho para escola a gente atravessava campos que tinham plantação de abóbora em terrenos abandonados. Às vezes, às vezes a gente até olhava antes de ir para escola se tinha abóbora, para na volta da escola a gente trazer para casa. (risos) Aquela abóbora que a gente tinha visto na hora que a gente foi. Então, era um cenário de interior, de chácara, assim.

 

P/1 – E vocês brincavam na rua? Do que que vocês brincavam?

 

R – Ah, brincava muito de pega-pega, de esconde-esconde, de rodar pneu, carrinho de rolemã, essas coisas de criança. Então, é, era brincadeira de criança, não era nada de brincadeiras tecnológicas que nem tem hoje, eram brincadeiras de rua mesmo.

 

P/1 – E vocês vinham para o centro da cidade de São Paulo? Assim, vocês costumavam vir para alguma ocasião ou vocês ficavam mais em Itaquera mesmo?

 

R – Itaquera. Muito raramente, vir para o que a gente chamava de cidade, na época, era raro. E minha mãe não tinha carro, né? Os meios de transporte eram difíceis. Então era um acontecimento quando a gente vinha para o centro.

 

P/1 – E quando vinha? Era de ônibus, de metrô ou trem?

 

R – Na época não tinha metrô, então, a gente vinha de ônibus, acho. E era uma viagem longa também. E eu lembro que logo, a gente ainda molequinho, a gente, nós viemos conhecer a Praça da Sé que era uma sensação, né? Aquela coisa...

 

P/1 – O que você lembra da Praça da Sé? Não tinha o metrô ainda, né? Ou já tinha na Praça da Sé?

 

R – Tinha metrô mas acho que ele não chegava até onde ele chega hoje, era muito reduzido. Então, para gente era novidade aquelas praças que tinham chafarizes e tudo mais, era muito inédito. Tipo, eu lembro que, você perguntando agora, a gente lembra, assim, que era, foi bacana, foi muito legal. E a gente jogava moedinha, eu lembro que a gente fez esse exercício, jogar moedinha para fazer desejo naquela fonte da Praça da Sé porque a gente tinha visto na TV e para gente era, era um ritual de boa sorte, talvez, então...

 

P/1 – Bacana! E vinha, passava o dia, como é que era? Passava o dia, almoçava em algum lugar, tomava lanche em algum lugar?

 

R – Tomava um lanche em algum lugar, aquelas pastelarias chinesas, triste, mas que assim, para gente estava ótimo, era uma diversão e estando com os pais, com os irmãos e passeando, para gente era tudo maravilhoso.

 

P/1 – E me fala, assim, dos seus irmãos, quantos eram? Quantos são, como é que era a convivência de vocês na casa?

 

R – Hoje nós somos em cinco irmãos, eu mais quatro, na época eram eu e mais três. Minha mãe teve um relacionamento do qual surgiu minha irmã mais nova, a Glaucia. Ah, e a gente tinha tarefas divididas dentro de casa, minha mãe saía para trabalhar, ela era operária da indústria de tecido, rádio e TV, ela trabalhou para Philco-Ford muitos anos na época, e foi o primeiro emprego dela depois de ter ficado viúva. Então uma viúva, imigrante do interior, não tinha formação para trabalhar em outra atividade, enfim, foi com isso que ela sustentou a gente ao longo de toda vida. E a gente tinha tarefas divididas dentro de casa, a minha irmã mais velha, a Fátima, era que era nossa mãezinha, ela cuidava da gente, ela que fazia as coisas... (choro)

 

P/2 – Com quantos anos?

 

R – Doze. E o irmão mais velho cuidava de outras partes da casa e eu, eu me lembro que a minha parte era... (choro)

 

P/1 – Quer tomar uma água?

 

R – Era cuidar dos quintais e dos banheiros, um molequinho. Então é um segredo gente. (risos)

 

P/1 – E a Fátima era brava?

 

R – Não, não era nada. Fátima era, ela era severa. Hoje e gente tem uma relação assim, muito bacana, assim... Mas na época ela cumpriu o papel direitinho de disciplinar a casa, de deixar tudo em ordem, tal... E minha mãe era sozinha, enfim, quando ela chegava em casa tinha que estar em ordem, limpa, os filhos tomado banho, enfim, essas coisas...

 

P/1 – É, e me fala uma coisa, vocês tinham hábitos religiosos? Vocês tinham que ir à missa lá em Itaquera? Vocês iam em alguma igreja lá?

 

R – Não, não tínhamos, não tínhamos hábitos religiosos. É, eu acho que minha mãe, ela, ela pelo histórico de vida dela que antecede aí nesses anos todos, ela abdicou dessa parte por livre e espontânea vontade! (risos)

 

P/1 – E me fala, assim, da sua escola. Onde que você estudou? Qual era a professora que você mais gostava?

 

R – É, eu lembro direitinho da primeira escola, foi a escola municipal Brigadeiro Haroldo Veloso, também em Itaquera. E era uma escola maravilhosa, eu lembro que dentro, bem estruturada, muito limpa, as salas eram confortáveis e é uma lembrança muito boa. Essa escola, ela existe, ela existe ainda, não faz muito tempo eu estive lá por perto para matar a saudade!

 

P/1 – E tinha algum professor que você gostava mais?

 

R – A minha primeira professora, se eu não me engano, chamava Maria de Lurdes, eu não vou lembrar o resto do nome, e lá eu estudei dois anos. Logo depois nós saímos do bairro de Itaquera para outro bairro. Então, nessa escola Brigadeiro Haroldo Veloso, eu estudei só a minha primeira série e segunda série primária. Logo depois nos mudamos, nos transferimos de bairro, então a gente não lembra de mais professores.

 

P/1 – E Gilberto, qual era, como era seu uniforme nessa época, tinha uniforme?

 

R – O uniforme, se eu não me engano, era shortinho vermelho e camiseta básica branca.

 

P/1 – Era.

 

R – Era, acho que era isso, ou era shortinho azul, não lembro...

 

P/1 – Legal! E aí você saiu, vocês foram para outra escola?

 

R – Sim. 

 

P/1 – Vocês mudaram, né?

 

R – Mudamos para o Jardim do Quarto Centenário, região do Aricanduva que é onde eu moro hoje. Então, a gente trocou de escola, enfim...

 

P/1 – Aí, o que mais mudou, assim, o que mais sentiu de mudado de Itaquera para o Jardim do Quarto Centenário?

 

R – Eu acho que a adaptação a novos amigos, quando a gente muda assim, a gente, muda do lugar onde você mora, do boteco de comprar pão você precisa aprender, do açougue onde você precisa comprar carne, então você precisa aprender. Então, tem essa lesão temporária, mas a minha natureza, eu me adapto bem à mudança, então não foi muito difícil não.

 

P/1 – E era mais urbanizado?

 

R – Ah, sim. Já era mais urbanizado, está valendo um aquém de um nível adequado de urbanização mas já tinha uma urbanização assim, alguns pontos de ônibus eram mais próximos, a gente andava menos por uma condução, enfim, não era asfaltado também, mas para quem nunca tinha visto asfalto, aquilo também não fazia diferença. (risos)

 

P/1 – Que ótimo! E Gilberto, conta do seu primeiro emprego? Você era bem novinho, né?

 

R – Eu era bem novo. Já foi nesse bairro que eu moro hoje e foi uma atividade para ajudar de alguma forma. Minha mãe era sozinha, então a gente sentia a necessidade de ajudar de alguma forma. Então, eu vendia geladinho, refresco, aquelas bebidas coloridas que vêm de saquinho em porta de escola.

 

P/1 – E como você arrumou esse trabalho?

 

R – Ah, uma moça, uma moradora da região, ela oferecia isso para os moleques, enfim, era uma forma de ela ter também um bom negócio. Então, a gente, tinha vários molequinhos e que vendiam na porta das escolas e que no final do dia a gente trazia o que não tinha sido vendido e fazia acerto com ela do que vendeu, enfim, era, esse foi o meu primeiro emprego.

 

P/1 – E como é, como é que era, você lembra assim, como é que você chamava as pessoas para comprar o geladinho, o que que você falava? Você lembra disso?

 

R – Ah, eu não lembro, acho que eu falava o preço, acho que eu mostrava o produto, talvez, eu não me lembro.

 

P/1 – E já ________________________ as pessoas gostavam de comprar.

 

R – É, naquela época o pessoal via aquele isopor pendurado no ombro de um molequinho, já sabia o que tinha lá para vender. Então, às vezes, elas perguntavam quanto custava. Que sabor tinha. E a gente vendia assim.

 

P/1 – Bacana! E o que que você fazia com o dinheiro que você ganhava? Você lembra?

 

R – Uma parte eu deixava para comprar coisas que eu precisava na escola, caderno, lápis e tal... Mas umas coisas, eu ouvia minha mãe em casa reclamando que precisava de algumas coisas, de sabão, que a gente gastava muito a roupa... Então, a gente procurou colaborar com essas coisas!

 

P/1 – Legal! E aí, isso foi... Você tinha onze anos?

 

R – É, por volta dos onze, doze anos.

 

P/1 – E depois você foi fazer o quê?

 

R – Ah, depois eu fui trabalhar na feira, na feira eu trabalhei bastante tempo vendendo pastel. Bom, lá eu tinha o slogan do pastel...

 

P/1 – Ah, é?

 

R – Será que eu lembro? “ Agora é dez, agora é dez, pastel agora é dez, é dez, é dez!” 

 

(risos)

 

P/2 – Então era dez e pouco o pastel?

 

R – Oi?

 

P/2 – Era dez?

 

R – Eu acho que quando a gente abaixava o pastel, né? Então...

 

P/1 – Final da feira?

 

R – Final da feira, a gente já criava esse slogan para...

 

P/2 – Para vender tudo.

 

R – Para vender tudo. Isso faz muitos anos.

 

P/1 – Que bacana!

 

P/2 – Você tinha que idade?

 

R – Eu acho que na feira vendendo pastel eu devo ter ficado dos doze, doze, onze, para os quinze mais ou menos. A gente não conseguia emprego, né? Não tinha idade para trabalhar. Então, era uma forma de ajudar, uma forma de a gente ter alguma, algum dinheirinho.

 

P/1 – Bacana! E aí, depois você foi fazer o quê?

 

P/2 – E sempre estudando, né?

 

R – Sempre, sempre estudei, sempre...

 

P/1 – Isso sua mãe fazia questão.

 

R – Hum, não que ela fizesse questão, mas eu achava importante para mim e para o meu futuro e então sempre estudei. Nessa transferência dessa atividade informal de vender pastel na feira, para uma pastelaria, que aconteceu por volta dos quinze, dezesseis anos, foi o primeiro ano que eu tive um problema escolar. Que eu não tinha motivação para continuar, uma época que a gente estava se descobrindo, a gente, né? Muitos conflitos pessoais, então naquele ano, no final do ano eu desisti, de livre e espontânea vontade de parar de estudar. Mas no ano seguinte eu retomei e continuei até hoje a estudar. Então, eu fui trabalhar para uma empresa de pastéis, uma pastelaria de rua, dessas que tem em bairros comerciais, na Penha, chamava, o nome do letreiro eu não lembro, mas eu lembro que o nome oficial era: “ _______ pastéis!”. E lá, eu fiquei trabalhando sete meses. Trabalhava das seis da manhã até às, desculpa, das sete da manhã até às cinco da tarde.

 

P/1 – Às sete horas da manhã já abria para vender pastéis ou era outra atividade?

 

R – Não, para limpar, para preparar o trabalho do dia, para deixar tudo em ordem. Acho que abria efetivamente às oito, para os clientes, para os fregueses abria às oito da manhã.

 

P/1 – Já tinha cliente nessa hora?

 

R – Ah, já, pouco, bem pouquinho mas tinha, em especial de segunda-feira, quem não tinha ido para casa no domingo passava para comer um pastel. (risos)

 

P/2 – E você já sabia disso?

 

R – Já, a gente já sabia, né? Pelas roupas que as pessoas usavam, a gente falava assim: “Essa pessoa não está indo trabalhar! Ela está indo pra casa!”.

 

P/1 – Ai, que ótimo! Aí, lá você ficou oito meses?

 

R – Sete meses.

 

P/1 – Sete meses. Aí, você foi demitido? Você falou que foi um trauma....

 

R – Pois é, eu achei que estava sendo o máximo, mas não estava, fui demitido.

 

P/1 – E o que que eles alegaram? Você lembra?

 

R – Não lembro. Mas na época era uma empresa pequena, tinha muitos conflitos entre os funcionários, entre o dono. E adorei que eles me demitiram, hoje! (risos) Estou brincando seu Agostinho! (risos) Mas é, foi bom porque talvez, né, quando a gente sofre essas instabilidades, acaba arrumando um jeito para arrumar outra saída. E naquele momento, acho que foi importante ter acontecido isso.

 

P/1 – Que bacana! E aí, você foi fazer o quê?

 

R – Aí, eu fui trabalhar numa empresa que, talvez muitas pessoas tenham ouvido falar, porque aquilo foi um sucesso na época. Fui trabalhar numa das empresas do Grupo Sérgio, pizzaria que era, nossa, era moda, era chique! O Grupo Sérgio era uma sensação. As pessoas esperavam o final de semana para ir para o Grupo Sérgio, então, a gente trabalhava muito lá.

 

P/1 – Muito público, né?

 

R – Muito grande, faziam filas na porta, muita gente. A pizza, acho que foi a empresa que provavelmente tornou a pizza o prato mais popular de São Paulo, do Brasil. Que é, assim, vendia muita pizza, era uma coisa impressionante.

 

P/1 – Assombrosa!

 

R – Assombrosa! Era assim, muita gente, filas e não tinha o número de pizzas, pizzarias que você encontra hoje. Delivery de pizza que você liga e pede, imagina! Pizza era uma coisa, é, que quem fazia na época e tinha notoriedade era o Grupo Sérgio. E foi numa dessas empresas que eu fui trabalhar, lá eu fiquei onze meses.

 

P/1 – E você fazia o que?

 

R – Lá eu atendia um balcão. Lá eles tinham um serviço de venda por pedaço, e esfiha, e eu atendia esse balcão. E tinha uma sorveteria também na entrada, na entrada da loja tinha uma sorveteria e lá a gente atendia também na sorveteria, onde tinha mais movimento.

 

P/1 – E você ficava, estava pegando fogo ali!

 

R – É, pegava fogo.

 

P/1 – E aí, quando que a Natura surge na tua vida, assim?

 

R – A Natura, ela vai surgir alguns anos depois, logo depois que eu saí dessa pastelaria e fui trabalhar numa empresa. E nessa empresa eu fiquei quatro, cinco anos. Mas do quarto para o quinto ano, eu descobri a Natura e uma funcionária dessa empresa onde eu trabalhava que me apresentou o catálogo. Na época um catálogo fininho, quatro páginas, frente e verso, era um folderzinho. E lá eles tinham um produto que eu comecei a adquirir. Na época, a gente adquiria com dificuldade, a Natura naquela época era um produto caro. Mas eu lembro que assim, eu não comprava muita coisa desse gênero, mas desodorante, eu gostava de bons desodorantes. Então, eu usava um desodorante da marca que era Atmos. E eu comprava na época da, dessa vendedora que trabalhava nessa empresa, Maria (Alclair Maiane?). No Natal daquele ano eu tive a intenção de fazer presentes para minha família com produtos da Natura. Então eu escolhi o que eu daria para minha mãe, o que eu daria para os meus irmãos, o que eu daria para os meus amigos mais próximos, e eu fazia questão que fossem produtos Natura porque eu já tinha criado uma identidade com a marca. Quando eu fui fazer o levantamento de quanto aquilo ficaria, ficaria assim, impagável, não dava para eu comprar. Aí, eu tive a ideia, falei assim: “Poxa vida, se eu comprar direto da Alclair, e se eu comprasse direto da fábrica?”. Era o raciocínio que eu tinha, talvez pudesse ser mais econômico. Aí, eu liguei no 0800 da empresa e procurei lá como é que eu fazia para comprar direto. Aí, me informaram que não vendia direto, só através de uma consultora de beleza. Aí, eu desliguei o telefone um pouco triste, né? Porque o meu plano não ia dar certo. Mas passou algumas horas, eu pensei: “Por que não me tornar um consultor de beleza?”. E aí, eu liguei no dia seguinte e disse que queria ser um consultor de beleza Natura! E aí, me deram a instrução de como eu faria, eu morava ainda na Avenida Brasil. E aí eu fui lá, depois do meu expediente nessa empresa, levei os documentos que me pediram e chegando lá uma pessoa me atendeu e estou lá até hoje! (risos)

 

P/1 – Conta pra gente como é que era essa casa na Avenida Brasil? Parece ser uma casa tão bonita, né?

 

R – Ah, era uma casa muito linda.

 

P/1 – Um casarão, né? Um sobrado?

 

R – Um casarão. Quando eu cheguei, eu fiquei na frente da casa, era uma casa que, que, é, imponente, muito chique! E eu via pelas janelas, que tinham muitas flores e mulheres muito bem arrumadas circulando pela casa, foi quando eu pensei: “Entro ou não entro?” (risos)

 

P/1 – “O que que eu estou fazendo aqui?”

 

R – “O que que eu estou fazendo aqui?” Mais aí, eu falei assim: “Não, eu já estou aqui, agora eu vou! (risos)”. Quando eu entrei, quando eu perguntei pela pessoa que estaria esperando para me atender, ela não estava, ela tinha deixado uma outra moça para me atender. E essa pessoa me atendeu, Áurea o nome dela, e acho que ela está na empresa até hoje. E eu senti que a Áurea falou: “Esse negócio não é para esse rapaz!”; eu de certa forma senti que talvez ela tivesse, ela tivesse pensado isso, mas eu fui até o final. Eu preenchi todos os dados, e entreguei meus documentos e fiquei aguardando um novo contato da promotora que deveria ter feito contato comigo e esse contato não aconteceu. E enfim, acabei resolvendo meus presentes de Natal de outra forma. Naquele ano 1986, é, no dia 24 de dezembro, chegou um Sedex na minha casa e era um Sedex grande, com material grande que incluía catálogo Natura, tabela de preço, manual do produtos e eu não pensei que eles fossem ter utilidade na minha vida, mas tiveram.

 

P/2 – Quando você recebeu você não achou que tinha...

 

R – Eu não achei que fosse ter utilidade, porque os presentes já estavam resolvidos.

 

P/2 – Era só para receber os presentes...

 

R – É, mas quando eu comecei a ler o material e ver os produtos, é, me despertou um encantamento, eu acreditava em tudo o que estava escrito. E aquilo fornecia subsídios bastante fortes para eu sair e oferecer os produtos. Meu primeiro pedido para Natura aconteceu no dia 17 de janeiro, eu lembro que nesse ano a gente estava tendo um problema de desabastecimento no país, a gente estava com...

 

P/1 – Era o plano Collor, Sarney?

 

R – É, não sei.

 

P/1 – Aqueles congelamentos?

 

R – É, dos congelamentos. Então, a gente estava tendo problema de carne, problema de automóvel e também nos cosméticos. E eu tive uma venda excelente, excepcional para quem não tinha recebido o treinamento e não tinha se proposto a abraçar essa atividade como primeira atividade. E aos finais de semana eu saía mesmo, com aqueles catálogos debaixo do braço, oferecendo para as pessoas, e elas não sabiam o que era Natura. Natura naquela época era, é, ninguém sabia o que era.

 

P/2 – Você tinha que contar?

 

R – Você tinha que contar a história do que era, um desodorante “Sr N” na época, ou um sabonete de erva doce na época. Então, isso era o trabalho do consultor na época. Não, na época a gente não falava de um conselho, a gente falava de um produto que estava aparecendo e o que era. Enfim, no meu primeiro pedido tinha cento e dezessete produtos vendidos e a Natura naquela época não tinha, é, é, oportunidade de penetração, era um produto caro, comprar Natura naquela época era, assim, difícil, né? Hoje ela é uma marca democrática, ela está em todos, em todas as faixas econômicas e sociais, mas naquela época era difícil. O meu pedido foi quando começou o problema, porque eu fiz o pedido de cento e poucos produtos e veio pela metade, veio trocado porque a empresa também estava passando por uma fase de estruturação muito grande. Então, foi isso ____________ o comecinho.

 

P/1 – E quando chegou a caixa, assim, você lembra?

 

R – Ah, é muito bacana, até hoje, até hoje assim, quando chega caixa você vai abrir, ver os produtos, ver as novidades, produtos que você não viu ainda, e testar, e mostrar para um colega, mostrar é muito interessante. E adorava na verdade, né? Lembrando bem agora, quando chegava aquela caixa assim, era uma vibração, tirar os saquinhos, né? Na época não era saquinho, era serragem, era papel amassado. Hoje evoluiu, tem outros recursos para mandar um produto. Mas sabe, quando abria o produto por produto, abria a tampinha, sentia a fragrância, lia o rótulo, via a bula, admirar a caixinha e saber que depois você ia estar entregando o produto para alguém e que talvez tivesse a mesma felicidade de você de estar recebendo aquela caixa, era uma delícia.

 

P/1 – Você lembra da sua primeira venda, Gilberto?

 

R – Impossível! (risos) Não lembro.

 

P/2 – Esses cento e dezessete?

 

R – Não, não lembro...

 

P/1 – Mas você vendeu bem de cara, né?

 

R – Muito bem, muito bem...

 

P/2 – Eram cento e dezessete amigos e relacionamentos?

 

R – Pois é, é verdade, contando que são, talvez uma pessoa tivesse comprado dois ou mais produtos, mas de qualquer forma eram muitas pessoas que eu tinha que acessar para ter um pedido desse tamanho. Mas eu lembro que aquela sensação, que o material que chegou às minhas mãos não ia ter utilidade, durou uns dois, três dias. Depois eu tinha certeza de que eu podia fazer alguma coisa, dali e como já tinha tido alguma experiências comerciais...

 

P/2 – Podia ter um negócio?

 

 R – Vendendo outras coisas, e ele podia ser um complemento de renda para uma atividade que eu já desenvolvia. E essa foi a ideia, transformar aquela oportunidade de negócio em um complemento de renda, eu nunca pensei que seria minha única renda. (risos)

 

P/1 – Como é que você começou a formar sua clientela, assim, de amigo, como você foi ampliando a sua clientela?

 

R – Ah, é, são os vizinhos, as pessoas mais próximas, e os colegas de escola. Na época cursinho, eu já paguei o cursinho em 1980, não no começo de, não a faculdade inteira, eu paguei com a lucratividade com o negócio que eu tinha da Natura. Na faculdade, quando algum amigo de faculdade fazia pedido ao invés de você falar: “Vou entregar na faculdade, não, eu vou entregar no seu serviço, no seu trabalho, ou na sua casa!”; porque quando você ia entregar para ele no trabalho ou na residência, era a oportunidade de acessar novos possíveis clientes, então essa foi uma estratégia que eu usei no começo.

 

P/1 – Você que pensou isso?

 

R – É, eu que pensei isso, porque, é, talvez, não sei de onde eu tirei, mas eu percebi que para os colegas de faculdade ao invés de entregar na própria faculdade onde eu ia encontrar à noite, não, eu podia entregar de dia no local de trabalho ou na residência, acessando novos potenciais compradores ou ao contrário, é, clientes que eu atendia no trabalho, podia estar criando possibilidade de entregar na residência. E lá conhecer as irmãs daquela consumidora, ou os familiares, ou os vizinhos, que deu certo! (risos)

 

P/1 – Quando você começou, essa época 1986, 87, 88, quais produtos mais conhecidos, que mais vendiam da Natura?

 

R – Bom, tem um produto que continua muito famoso até hoje, com uma imagem de um produto muito antigo até, que é o “Sr N”; na época desodorante “Sr N”.

 

P/1 – É, né?

 

R – E “Chronos”, na época ela era, hoje ela é uma linha de produtos antissinais, mas na época ele já existia. Ele era um produto único, ele era um produto de uma categoria superior de combate aos sinais do tempo também, mas era um produto, era um produto muito antigo. E nós tínhamos umas colônias que faziam muito sucesso, essas colônias que nós temos até hoje, as colônias “ Musk”, que hoje tem uma família grande de colônias, mas ela era famosa, vinha numa embalagem muito interessante que era aquela, um potinho, tipo um cofrinho que juntava a parte de baixo e a parte de cima e o perfume vinha dentro.

 

P/1 – Ah...

 

R – Aquele tubinho de correio que às vezes vem junto, sabe? Feito de papelão? Vinha naquela embalagem. E um produto da época que eu lembro, eu lembro também era de erva doce, era linha Sève; a linha (“ Perena”?); a linha (“ Somer”?), não é desse tempo, você não vai lembrar. Linha (“ Somer”?); de produtos para tratamento do corpo, é, os produtos antiqueda de cabelo também tinha, tinha L’Arc en Ciel; que era maquiagem na época.

 

P/1 – A linha de maquiagem da Natura...

 

R – A linha de maquiagem da Natura, não tinha esse nome, era uma outra marca chamada L’Arc en Ciel. Então, eu lembro bem, era cor de vinho as embalagens da maquiagem.

 

P/1 – É, né? Eu também lembro!

 

R – Você lembra? (risos) Você é antiga também, hein? (risos)



P/1 – Gilberto ___________ com você. Nessa época, a Natura já trabalhava com refil? Ou quando que começa com refil?

 

R – Não, já começa como refil “ Sr N”...

 

P/1 – Nessa época?

 

R – Nessa época.

 

P/2 – _________________________.

 

R – Sim, é, hoje 2005, nós estamos, vinte anos de estrada em refil. (pausa) Vinte anos.

 

P/1 – O que que você acha, assim, por que é importante trabalhar com refil? É bom? É bacana? É bom para o bolso? É bom _________________ ? O que que você considera importante?

 

R – Eu acho que é fantástico você poder oferecer refil, tanto de embalagem que a gente joga fora é, é desnecessário e é um prejuízo para natureza, você ter que estar subtraindo material para uma embalagem que não tem utilidade, eu acho que tudo tinha que ter refil, tudo, tudo... (risos) Reciclar ao máximo, e eu reciclo até calçado, calçado eu só jogo fora quando não dá mais. (risos)

 

P/1 – Mas e na sua venda assim, você fala da importância do refil? Que é importante, para os teus clientes? Como que você trabalha essa...

 

R – A gente fala do refil, mas é uma cultura longe de estar ainda plenamente estabelecida. Então, o cliente, quando ele faz uma opção por um produto que tem refil, o grande apelo para ele é o econômico. Então, o que leva um cliente a comprar um produto que tem refil é a possibilidade de ele fazer economia financeira. Ele não percebe as diversas economias que ele faz quando ele compra um produto que tem refil. Que ele vai agredir menos a natureza, que ele vai obrigar a indústria a subtrair menos material, que pode ter numa embalagem mais simples. Então, mas eu acho que de qualquer forma é uma forma de mostrar que o refil é uma coisa legal, que o refil é uma coisa bacana.

 

P/1 – Bacana isso! E todo material da Natura é feito em papel reciclado também, é isso? As sacolas, é isso também?

 

R – É, eles têm um avanço incrível nessa área de embalagens. Eu participei de um treinamento recente, a fim de desenvolver um trabalho para Natura aí no “Fashion Week”, e eu me lembro bem, a Natura, ela usa hoje um material nas embalagens que se chama “reciclato”, “reciclato” não é um material reciclado cem por cento. Quando você coloca a bobina, a bobina na máquina para cortar e fazer o papel do tamanho que você precisa, parece que sobram aparas do lado, é papel virgem e só que não tem utilidade porque está sendo a sobra. Então parece que as sacolinhas da Natura usam setenta por cento desse “reciclato”, misturado com vinte e cinco de papel reciclado. Aí sim eles fazem o material da sacolinha, eu acho que é isso?

 

P/1 – Ah, mas a gente, eu nunca tinha ouvido falar disso, é, nas entrevistas que a gente fez eu não tinha ouvido falar disso ainda.

 

R – É, mas a concepção toda dela nesse caminho do ambiente, é, autossustentável é fantástico, está bem a frente, bem evoluída.

 

P/1 – Isso ajuda as vendas?

 

R – Ajuda.

 

P/1 – Ou é um argumento para você vender, como é que é isso?

 

R – Eu acho que ajuda no, quando você mostra que você está, que você é parceiro de uma empresa legal. Eu sou parceiro de uma empresa legal, que pensa, que pensou, que está pensando em coisas que daqui a pouco vão ser muito importantes. Então, ela está ensinando a gente a pensar coisas que, e está multiplicando uma informação muito importante, a gente não tem mais lugar para guardar lixo no mundo. Então, se cada um fizer um pouquinho, a gente vai ter um futuro melhor para os filhos, para os sobrinhos, para os amigos, para todo mundo. E ser parceiro de uma empresa legal como a Natura é, ajuda. Porque até para o bem estar da gente, você é, é, enfim, você ser honesto com o seu cliente final, eu não preciso mentir nada e levar informação de valor para esse cliente é muito bacana. Eu acho que isso, quando você compra um produto Natura, você sabe que ela faz tudo o que ela faz, você fica feliz ou deveria ficar. (risos) Porque se você compra um produto mais barato, só que de outra empresa, concorrente nosso, não desmerecendo mas a gente sabe que não tem uma prática ambiental tão consistente, mas e daí? Como que ela está tratando a água dela, como que ela está tratando a comunidade local? Como que ela está dispensando o ar naquela fábrica? Como que ela está produzindo as embalagens? Tudo bem, o produto está saindo mais barato no seu bolso mas e para o todo? Então, essa preocupação eu não preciso ter, porque a Natura, ela, eu sei bem o que eu estou falando. Porque a gente visita, a gente conhece, ela tem uma prática ambiental muito correta.

 

P/1 – E tem essa transparência de passar isso para vocês.

 

R – Transparência absoluta para qualquer pessoa que queira conhecer, que queira sentir, que queira conhecer a nossa fábrica e ver como isso funciona na prática, conhecer os mecanismos que ela emprega, os mecanismos fabris; é fantástico, eu nesse aspecto sou apaixonado.

 

P/1 – E Gilberto, assim, essa linha que ajuda essas comunidades, né? A ter esse desenvolvimento sustentável que você tinha falado, da linha “Ekos”, né?

 

R – Ah, isso é...

 

P/1 – O que você gosta?

 

R – É, eu amo, né? É o máximo!

 

P/1 – Tem algum produto, assim, que te chama a atenção, que você sabe que potencialize uma comunidade assim...

 

R – Sei, sei, sou fã da linha. Então a gente estuda, eu conheço um pouquinho. Bom, da linha “Ekos” eu gosto de quase tudo, sabonetes eu amo, óleo, shampoos, hidratantes. E não é amar só para uso e nem só para vender, mas é sabendo do bem estar que eles geram para várias pessoas: pra mim como vendedor, para o cliente como usuário e para pessoas que eu vendo, estão se beneficiando de recursos que estão voltando para ele de alguma forma. E sabendo que é melhor a Natura estar lá e cuidar de todo esse processo, porque está sendo feito de uma maneira ambientalmente correta. Então, as populações, elas subtraem, aquela região, aquele biosistema, aquele ecossistema, comporta o que vai garantir a sua renovação sem prejuízo das espécies nativas. E isto também garante uma melhor qualidade de vida para essas populações que, quem pensou nisso? É o máximo!

 

P/1 – Tem alguma comunidade, assim, que te chama atenção, que trabalha com determinado produto que te chame mais atenção? O que que você...

 

R – É, a gente não tem, a gente conhece dos vídeos e das entrevistas que são feitas com essas pessoas lá. Mas tem uma comunidade a de Ui...

 

P/1 – Iratapurú.

 

R – Iratapurú, que é onde a Natura traz acho que é a castanha do Brasil, talvez ______ branco, que é, aquele é um exemplo que, tem para ser seguido por muitas empresas, de uma forma ou de outra.

 

P/1 – E uma parte da venda, da renda desses produtos é revertido para comunidade.

 

R – Para comunidade, é que a venda dos produtos alimenta esse sistema. Então, é uma cadeia muito bem pensada. Quando eu vendo, eu garanto a minha subsistência, garante seu bem estar e você garante a permanência dessas populações lá de uma forma digna.

 

P/1 – Você trabalha isso com o seus clientes? Assim, quando eles compram o produto, eles sabem que estão ajudando, no fundo, uma comunidade?

 

R – Eu não perco uma oportunidade, porque para mim é uma satisfação poder falar disso, porque isso amplia o valor do produto, é, de uma maneira incrível. E tem pessoas que gostam de saber, que têm curiosidade e tal.

 

P/1 – Eles se tornam fiéis à linha?

 

R – Muito mais. E quando elas sabem de toda essa prática, elas valorizam muito mais a marca, os produtos e até o atendimento que a gente dá. Porque elas observam: “Puxa, você conhece, você gosta...”.

 

P/1 – Que legal! É vamos, eu já sei, né? Você, é, a sua renda principal é da Natura, o seu trabalho como consultor, né? Mas você também presta outros serviços para Natura, no São Paulo Fashion Week. Eu queria que você falasse um pouquinho disso, como é que surgiu esses eventos?

 

R – É, a gente faz algumas coisas. Participei, a Natura, ela tem algumas participações no São Paulo Fashion Week e dessas participações da Natura eu já contribui com duas. É, são os relacionamentos que gente faz também dentro da empresa, né? As pessoas que conhecem o trabalho da gente e conhecem a seriedade que a gente desenvolve e sabe que a gente gosta, que a gente faz com amor, então convida para gente dar a nossa contribuição em algum pedacinho desses projetos que são muito bacanas.

 

[pausa]

 

P/2 – Estava falando do Fashion Week...

 

P/1 – Ah, é. Então, a gente estava falando do Fashion Week, né? O que que você fez exatamente nessas produções que você trabalhou.

 

R – Então, nessas edições, a Natura, ela disponibilizava para os profissionais da moda, os modelos, as modelos, fotógrafos, enfim, as pessoas que circulavam numa _______________, uma área que antecede a sala de exibição, de desfiles, onde as pessoas se arrumam, tal... Ela disponibilizava lá massagistas, a fim de cuidar do bem estar dos modelos, das modelos e das pessoas que trabalhavam. E eu coordenava essa ação, uma vez que são muitos camarins, muitas pessoas circulando...

 

P/1 – Um frenesi danado!

 

R – Um frenesi danado, era gente entrando, gente saindo e modelos que, às vezes, passam o dia inteiro participando de desfiles, e desfila para aquele estilista de manhã, depois não faz nada à tarde, vai fazer um desfile às nove horas da noite e se alimenta mal. Então, elas acabavam usufruindo esse serviço que a Natura patrocinava nos camarins e elas adoravam, né? Era assim, muito bacana, a gente só ouvia coisa boa.

 

P/1 – Bacana, né?

 

R – Muito bacana.

 

P/1 – E essa coisa do São Paulo Fashion Week cresceu também no Brasil, né?

 

R – No Brasil e está ganhando assim, o que a gente ouve quando a gente participa, é que ele era o quinto evento mundial de moda e está alcançando uma, a posição de quarto maior evento de moda no mundo. E a organização do São Paulo Fashion Week tem uma previsão de em dois anos ele ser o maior evento de moda do mundo. É, atrás de Nova York, Paris e São Paulo, a gente tem hoje Paris e Milão, que o São Paulo Fashion Week já tem um nível de importância, talvez, é, maior ou igual.

 

P/1 – Olha! E a Natura estando presente?

 

R – Eu acho que traz uma contribuição importante pela empresa que é, com cara de Brasil. E isso para ela também é bacana porque ela está trafegando numa mídia que são pessoas que formam opinião, que gostam de novidade, que gostam do que é bom, do que é bonito, o que que é esteticamente belo. E ela está envolvida com o São Paulo, está envolvida com o São Paulo Fashion Week, eu acho bem interessante.

 

P/1 – Tá. Falando assim da sua região que você trabalha, né? Como é que, que região que você está, né? Como é que chama o seu setor? Quem é a tua promotora?

 

R – É, o meu setor, é um setor criado recentemente, recentemente não, talvez uns três anos, mas para cobrir a necessidade especial de um grupo que se dedica exclusivamente à atividade de consultoria de beleza, que são os empreendedores.

 

P/1 – Cem por cento Natura, assim?

 

R – É, Cem por cento Natura. Tem pessoas que não fazem dessa atividade um complemento de renda mas sim o seu...

 

P/1 – Próprio negócio.

 

R – Próprio negócio. Então, no grupo de empreendedores a gente tem uma analista de mercado que é hoje a Rita Alves, que dá todo um suporte para esse grupo e conduz as nossas reuniões, estabelece as nossas estratégias de crescimento e tal, e seria equivalente a promotora nos outros setores. E a gente não é um grupo muito grande, é um grupo pequeno, talvez com duzentos consultores, consultoras e consultores Natura. E o principal diferencial é esse, é, todos encaram essa atividade como uma atividade de negócio. 

 

P/1 – É, quando e como se deu esse seu ingresso nesse grupo de empreendedores?

 

R – É, o meu ingresso no grupo de empreendedores, ele acabou acontecendo um pouquinho antes do grupo existir.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Porque eu tinha uma promotora e na época eu sentia que o negócio Natura, para mim, já estava chegando no limite. Porque eu não tinha mais como crescer, eu já dedicava uma grande parte do meu tempo para esse negócio e já encarava como uma atividade profissional mesmo, e eu achava injusta a relação da empresa comigo, de me tratar como se fosse um vendedor que tivesse o mesmo resultado que os outros, não tivesse uma preocupação em conhecer tanto quanto eu conhecia na época, de estar o melhor consultor. Então eu achava que tinha que ter um reconhecimento por essa parceria, que era um diferencial para empresa ter um profissional como eu era na época. E aí, eu fui falar com a minha promotora, pedi que ela me desse essa oportunidade de conversa junto com a gerente dela, na época a (Solange Horta e a Sonia Senamo?), gerente. E aí, elas me ouviram e a Sonia, gerente de mercado na época, ela falou: “Olha Gilberto, essa necessidade que você está sentindo a gente, a Natura já identificou, é, vai começar a acontecer um projeto para contemplar essa sua necessidade, que deve estar acontecendo nos próximos meses. Eu vou te pedir pra ter um pouco mais de paciência, tal...”. Então, diante dessas perspectivas que ela me deu, eu continuei no negócio. Então, participei de uma pesquisa de profundidade para estabelecer o rumo do setor empreendedor e então eu estou com o setor empreendedor antes dele existir.

 

P/1 – Precursor.

 

R – Um pouquinho.

 

P/1 – E me fala uma coisa, é, como é que, o que que mudou? Você passando a ser empreendedor, não só no relacionamento mas assim, no que que potencializou o teu negócio? Assim, vamos dizer...

 

R – É, o setor empreendedor hoje, ele tem alguns ajustes para serem feitos, mas efetivamente hoje eu me sinto privilegiado, por um prazo diferente, uma taxa de remuneração diferente, por um tratamento diferenciado e por ter um canal livre de comunicação. Porque com o grupo reduzido e com as mesmas necessidades, a gente interage melhor um com o outro, né? Eu estava, antes de existir o setor empreendedor, eu estava num grupo, onde as pessoas eram muito diferentes de mim, as necessidades delas eram outras. Então, eu, na hora de falar alguma coisa, eu era uma andorinha só, então, era mais difícil. Hoje não, quando a gente sente uma necessidade, a gente vai validar no grupo, é, uma necessidade geral.

 

P/1 – Que bacana!

 

R – Então, é mais fácil a empresa estar conduzindo a estratégia para contemplar esse grupo, do que isoladamente.

 

P/1 – Como é que funciona, assim, na prática? Você tem seu escritório? Você tem... Como é que funciona, assim?

 

R – O meu dia a dia.

 

P/1 – É.

 

R – Eu tenho um escritório montado na minha casa, eu não tenho sala. Então, eu moro numa casa grande e a minha sala seria o meu escritório. Eu tenho uma assistente, a Sonia Luciano, que cuida de tudo pra mim. Ela conhece todos os produtos, ela manipula bem o computador, o telefone, ela faz pedido, ela planeja os nossos pagamentos, depósito em conta, então, ela me dá uma assistência em todos em toda a atividade.

 

P/1 – E você trabalha com estoque?

 

R – Tem um estoque para pronto atendimento, embora hoje com o portfólio Natura do tamanho que ele é, é praticamente impossível você ter tudo, né? Mas assim, daqueles produtos que a gente sente que o cliente pode pedir na hora ou que a gente vai vender mais, até produtos que você sente que gera, que oferece oportunidade de negócio, a gente estoca para fazer negócio mesmo, porque esse é o papel do empreendedor.

 

P/1 – Vale a pena. Quais são os produtos que mais saem, assim, que você...

 

R – É uma pergunta desafiadora.

 

P/1 – Seu líder de vendas?

 

R – Mas vamos falar de hidratante, pra generalizar também, e perfumes; hidratante e perfume.

 

P/1 – São os que mais saem... Que bacana! E a tua clientela, ela não está só no seu bairro, ela é ampliada? Como é que é?

 

R – Ah, isso também é um problema que eu preciso equacionar também. Tem uma, a minha clientela, ela é bastante dispersa, tem uma dispersão geográfica muito grande e na cidade que a gente vive não dá mais para trabalhar assim, tem cliente em todos os bairros, de todos os perfis.

 

P/2 – Como que você entrega isso?

 

R – Eu entrego pessoalmente.

 

P/2 – Em todos os bairros?

 

R – Em todos os bairros. (risos) Não, Deus, eu vou equacionar, porque não é possível. Eu tenho cliente em todos os bairros e de todo padrão socioeconômico, clientes que compram pouco, que compram muito...

 

P2 – Aí, você faz uma agenda, um dia você vai para uma região, outro dia você vai para outra região...

 

R – Exatamente. Quando eu vou para aquela região, eu tenho um roteiro que eu sei que se eu for nesse cliente, o próximo tem que ser este porque eles são vizinhos. Então, já fiz um exercício mental, né? De quem eu tenho que visitar perto de quem. Para você não perder viagem porque o custo de você andar em São Paulo é muito alto.

 

P/1 – É, e como que você leva? Você vai de carro, você vai de metrô, você tem uma valise específica? Como é que é isso?

 

R – Tenho, tenho uma mala especial que me acompanha no carro, né? Porque, quando eu chego num prédio, eu preciso subir os andares e é lá que eu transporto meu material...

 

P/1 – De rodinha?

 

R – De rodinha.

 

P/1 – ________________ também faz isso. (risos)

 

R – Essa mesmo.

 

P/1 – Um livro, né? Mais pesado. (risos)

 

R – Tenho também algumas sacolas, tenho a minha mochila que é onde eu trago meu material de calculadora, tamanho de pedidos, catálogo e tal... E eu sempre tenho muitos produtos para pronta-entrega e basicamente eu trabalho de carro, é uma forma de atender que eu estou avaliando seriamente, pretendo mudar em breve e abrir mão de andar de carro. É verdade.

 

P/1 – Bacana!

 

P/2 – Mas e aí? Qual seria a forma?

 

R – Aí, eu pretendo daqui a algum tempo, não muito tempo, morar perto de uma estação de metrô e fazer muito uso de metrô e quando possível do transporte coletivo e quando for possível de transporte particular, táxi, essas coisas...

 

P2 – Diminuir algumas distâncias?

 

R – Eu sinto que eu vou ter uma economia de tempo e de recursos financeiros muito grande. O carro, hoje na cidade de São Paulo, está ficando impraticável, exorbitante e eu não consegui parar para fazer esse estudo na ponta do lápis, mas a minha percepção é que eu vou ter um economia muito grande.

 

P/2 – O empreendedor é meio isso, ele é um empresário naquele...

 

R – Naquele negócio, é, ele busca novas formas de escoar produtos, ou formas de escoar maior quantidade, ou formas de trazer maiores resultados. Tanto que, um empreendedor, para ele continuar dentro do segmento, ele tem uma participação mínima para ele continuar dentro do grupo. Então, naquele período, é medida a participação dele, a participação tem que ser daquela para mais. Então, ele tem que ter um volume de comprometimento, de negócio que garanta a parceria dele com a empresa dentro do setor empreendedor. Do contrário...

 

P/2 – Ele acaba saindo?

 

R – Ele acaba saindo do setor empreendedor e sendo um consultor Natura, como todos, como ele foi antes do setor empreendedor. Uma outra exigência que a Natura sempre faz é que ela, é que o consultor empreendedor não se dedique a outras marcas de cosmético também, uma vez que ela despende recursos para qualificar essa mão de obra, ela não gostaria de ter talvez esse recurso...

 

P/2 – Dividido...

 

R – Dividido com outras empresas. Porque o conhecimento que ela entrega para o consultor empreendedor está sendo dividido com uma concorrente. Talvez, estrategicamente não é interessante para empresa.

 

P/1 – Mas você chegou a vender outra marca? Não, você sempre...

 

R – No meu caso nunca.

 

P/1 – Ah, legal! E me fala uma coisa, você, né? O que você mais gosta de consumir da Natura? (pausa, risos) Tudo!

 

R – Cláudia, olha, eu usei o sabonete, sabonete, hidratante, shampoo, condicionador, o sabonete esfoliante da linha “Faces”, o hidratante de “Chronos”, o protetor solar, o desodorante, a colônia, o desodorante para os pés, hoje todo da Natura. Então...

 

P/1 – Mas tem alguma linha que você gosta mais, assim, algum perfume que você goste mais? Não necessariamente...

 

R – Depende do dia, às vezes você quer uma colônia mais dia a dia, às vezes você quer um perfume. Então, eu gosto dos sabonetes, amo. Não sei, eu não consigo responder... (risos)

 

P/1 – Desculpa... (risos) É, se você fosse traçar um perfil da sua clientela, assim, é ela é muito...

 

R – Feminina, basicamente acima dos trinta anos, basicamente com o segundo grau completo, acho que só, chega.

 

P/1 – Tá ótimo! E novos clientes, como é que você faz pra...

 

R – Ah, hoje em dia está difícil, tem muita gente vendendo Natura. É, eu desenvolvi uma estratégia recente para captação de novos clientes que não deu muito certo. Eu não fui ainda muito a fundo para descobrir o motivo, mas talvez te contando a experiência, né? Eu tenho uma moradora num edifício bacana, de padrão bom. Aí, eu pensei: “Poxa vida, eu venho aqui nesse prédio, eu atendo só a Marilena. Eu poderia aproveitar para atender mais pessoas, aproveitar minha visita. Considerando ainda que, esse edifício, ele não fica longe da minha casa e baixa dispersão geográfica, eu poderia atender rápido, diferente de bairros que eu atendo tão longe...”. Isso geraria um ganho para mim com custo de entrega, e para o cliente que esperaria menos tempo para ter o produto. Então, tudo pensado vamos à ação. Eu escrevi um e-mail explicando para Marilena qual seria a ação no prédio e pedindo a parceria dela. E qual seria a parceria dela? É, entregar para mim uma relação com o nome das moradoras, nome e sobrenome, ponto. E a partir daí, eu estaria dirigindo uma cartinha personalizada para cada moradora, informando que: “eu já atendo aquele prédio há anos, que a Marilena do apartamento X já é minha cliente há tanto tempo, que eu gostaria de estar apresentando os meus serviços para você”. E para estimular essa pessoa a efetivar o seu pedido mais rápido, eu estava fazendo uma oferta de um presente, tal... Aí, eu apresentei a ideia para Marilena e aguardei, essa lista não veio. Aí, apresentei a ideia pra Patrícia Godói, não veio...

 

P/1 – De outro prédio?

 

R – De outro prédio para ver, porque isso gera uma confiança na moradora, comprar de uma pessoa que atende há muitos anos naquele prédio, uma pessoa que já compra e tal... Eu ainda não fui ao fundo dessa experiência para descobrir porque que a Patrícia e a Marilena não responderam os meus apelos, quando eu tiver resposta eu te falo. 

 

P/1 – E pela Internet, você tem...

 

R – Muito pouco.

 

P/1 – Muito pouco.

 

R – Muito pouco. Teve um época na minha vida, eu morei na Paulista e eu senti que tinha, ah, mais atividade chegando para lá pela Internet. Acho que pelo perfil da região.

 

P/1 – Ah, tá...

 

R – Hoje é muito fraco.

 

P/2 – Você acha que essa coisa da Internet funciona então dependendo da região em que você está atuando?

 

R – É, eu tenho a sensação que sim, que ela pode ser mais eficaz para um padrão de consumidor que tem menos tempo, interado com essas novas tecnologias, que acredita mais nessa ferramenta, do que com pessoas que prezam mais o relacionamento “face to face”; cara a cara, que prefere talvez, ou que não goste de comprar pela Internet. E eu hoje esteja numa região que talvez isso aconteça. Então, os negócios para mim na Internet são bem...

 

P/1 – Poucos...

 

R – Poucos.

 

P/1 – É, o que que você assim, já conseguiu conquistar ao longo desses anos, assim de sonhos pessoais, sonhos materiais...

 

R – Ah, muitas coisas, né? Assim, antes de responder a tua pergunta, a maior conquista de todas essas são os relacionamentos que a gente constrói, conheço muita gente bacana, muita gente, muito conhecido, gente bacana que conhece a gente, é uma riqueza que não tem preço, essa não dá para gente colocar valor, mas assim...

 

P/1 – O teu relacionamento com as pessoas?

 

R – Teu relacionamento com as pessoas, muitas pessoas bacanas e...

 

P/1 – Você está falando assim, lá fora você acaba sendo um amigo?

 

R – É, assim, você não consegue mais dividir, quem é seu cliente, quem é seu amigo. Porque todo amigo é um cliente e todo cliente vira um amigo. Então tem uma hora, que ele começa como cliente, aí a importância como cliente vai caindo ou a importância como amigo vai aumentado. Aí, chega uma hora que eles, você não sabe mais quem é amigo, quem é cliente, todos são amigos e todos são clientes. Então a maior riqueza desses dezoito anos de atividade é, ah, esses relacionamentos que a gente tem. Agora, de bacana assim, eu viajei bastante, viajei bastante o Brasil, conheci bastante o Nordeste, bastante o Sul, o interior do Brasil eu conheci bastante. Estive fora já, do país, é, uma vez, pretendo voltar.

 

P/1 – Para onde você foi?

 

R – Eu fui para, ah eu fui a Buenos Aires. Mas agora eu estou fazendo francês, eu quero ir para Europa.

 

P/1 – Para Paris?

 

R – Para Paris.

 

P/1 – Que é onde a Natura está com a primeira loja.

 

R – É, eu quero conhecer um pouco da Europa, né? Passar um tempo lá que eu acho que é importante para o ser humano, para gente formar a nossa identidade, valorizar o que é nosso, tem que conhecer o que tem lá fora também. Então, viajei bastante, estudei bastante, me formei em Administração de Empresa, fiz especialização em Marketing Direto, fiz um curso de línguas bom, que isso são patrimônios que ninguém tira.

 

P/1 – Com certeza!

 

R – Já morei muito bem também, tive uma fase muito boa, de morar bem, de aproveitar o que a cidade oferece de cultura, de passeio, de tudo. Então tudo isso, né? Tudo isso tem uma riqueza para mim.

 

P/1 – Que veio com o seu trabalho.

 

R – Que veio com o meu trabalho de consultor de beleza da Natura.

 

P/1 – É, prêmio da Natura. O que você já recebeu de prêmio, assim, que foi marcante, que foi importante para você além de ser empreendedor?

 

R – Ah, eu acho que a Natura me deu uma viagem com direito a acompanhante e foi uma viagem para o Rio de Janeiro, foi uma viagem muito agradável, muito gostosa, uma lembrança muito boa, amigas que estiveram nesse passeio já há muito anos estão entre nós, já, há poucos dias no encontro anual, nós estávamos falando nessa viagem, foi muito boa. Um prêmio importante e bacana. E tantos outros, como eletrodomésticos, TVs, aparelhos de som...

 

P/1 – Visita vip...

 

R – Ah, a visita vip foi um máximo, né?

 

P/1 – Conta, como é que é?

 

R – Ah, aquilo é um sonho, quem não é consultor da Natura há quinze anos, acho que vale a pena ser consultor por quinze anos.

 

P/2 – Deve chegar lá?

 

R – Para viver esse três dias que você vive como um príncipe, né? Com todos os mimos, todos os cuidados, toda preocupação, né? Toda a dedicação, todo carinho, todo conforto, toda atenção. Pensaram em tudo nos mínimos detalhes, sabe? No jantar, no reconhecimento na última noite, quando te entregam os broches de quinze anos, é uma noite muito especial. E numa noite que, é, num período de três dias, encontrar pessoas que fazem o que você faz pelo Brasil todo. E pessoas do Norte, do Sul, do Brasil inteiro, do interior, das capitais, das praias, mulheres e homens, jovens e velhos, e com pessoas que tivessem terminado o primeiro grau e pessoas catedráticas, negros e brancos, e louros. E estarem todos envolvidos numa mesma atividade é incrível. Num dos almoços e olhando essa mesa e observando essa diversidade, é encantável, é incrível.

 

P/1 – Isso é o Brasil!

 

R – Isso é o Brasil.

 

P/1 – O que que você acha que tem de bonito, assim, no brasileiro?

 

R – A diversidade, na nossa, assim, não tem, não dá para dizer porque a gente é uma mistura muito grande. E é um disparate em todos os sentidos, social, econômico, e eu acho que esse caldeirão de diferença, essas diferenças fazem o brasileiro ser o que ele é, e essa criatividade para encontrar as grandes saídas, são as grandes sacadas e criam diversas possibilidades para você ser feliz de um jeito ou de outro. Então aqui você, ou é num lugar ou no outro, você tem tudo. Então, a diferença é essa diversidade toda. E São Paulo acaba sendo um marco disso, a diversidade que você tem aqui é uma coisa incrível, é uma loucura de distâncias em tudo o que você vê, em tudo o que você pode encontrar em qualquer civilização, você vai ver aqui. É, de tudo, de tudo, de limpeza, de sujeira, de muita gente, de pouca gente, de muito chique, de muito simples, de tudo, é incrível. E eu, isso eu sou convicto em dizer, se eu pudesse dizer, transformar São Paulo numa única palavra, seria essa: “Diversidade!”. É uma distância muito grande em tudo, não dá para dizer nada linear dessa terra. (risos)

 

P/1 – E falando assim dos conceitos que a Natura tem, dos valores que a Natura tem, qual que te chama mais atenção? E qual que você traz mais para o seu dia, assim?

 

R – A transparência.

 

P/1 – Uma coisa que a gente falou no começo.

 

R – A transparência, porque é mais fácil você se comunicar quando a gente consegue falar e ouvir, né? Então, a gente exercita isso todos os dias, com o cliente, com e empresa que você trabalha. Natura é uma coisa engraçada, a gente fica emocionado assim, mas passa. Porque ela me ensinou muitas coisas, não só ganhar dinheiro e trabalhar, e conhecer gente, mas eu vou levar algumas coisas que são importantes mesmo, como ser humano. Então a gente se emociona mesmo.

 

P/1 – Então a transparência é uma delas, tem outros valores que você...

 

R – Aí, tem outros que a gente vai exercitando com conhecimento, né? Criatividade, e tem uns que eu não lembro também...

 

P/1 – Que bacana! (risos)

 

P/2 – O que que mudou depois que você conheceu a Natura, depois que você começou a trabalhar na Natura? Um antes e depois.

 

R – Eu assim, efetivamente a Natura colocou na minha mão a oportunidade de eu, de eu me realizar como pessoa. Porque eu tive todas as ferramentas boas que ela colocou na minha mão, eu acreditei e fui. Então, ela foi importante para transformar talvez a minha, ah, o meu futuro, né? Eu tive um meio de praticar o meu negócio e garantir uma receita para me manter, a minha família e pagar a minha faculdade. Então, isso trouxe uma diferença para mim, hoje eu sou uma pessoa diferente, talvez, naquela época, eu fosse um moleque, né? Que brincasse na rua livremente e não tivesse tido essa trajetória...(choro) Eu poderia estar fazendo outras coisas com colegas que hoje, ou talvez não tivesse tido a mesma sorte.

 

P/2 – Ela trouxe uma mudança para vida social, familiar, econômica...

 

R – Social, econômica, uma estabilidade nesse, vamos dizer, uma estabilidade mesmo, econômica.

 

P/1 – Gilberto e a sua família, ela se envolve com a sua atividade? A sua mãe, seus irmãos...

 

R – É, sempre que eu preciso, assim, né? Eu procuro assim, como eu acredito que cada um tem sua própria história, eu procuro respeitar isso, né? E vou criando a minha própria história. Mas, às vezes, e gente, tem circunstâncias que são os mais próximos que acabam ajudando. Sexta-feira, quinta-feira agora, véspera de feriado de Sexta-feira da Paixão, uma cliente ia viajar, eu estava longe, precisava fazer uma entrega e quem foi fazer a entrega? Minha mãe.

 

P/1 – Que bacana!

 

R – A minha irmã me ajuda, manipulação de materiais quando a gente precisa e outra também, levam o catálogo para as colegas verem, para fazer venda, isso também ajuda. Se envolvem sim.

 

P/1 – Que bacana! Eu queria que você falasse, teve uma entrega grande que você fez no final do ano, tem até uma foto ali. A foto está, é uma foto cheia de caixa, é uma caixa que coube na foto?

 

R – É.

 

P/1 – O que foi aquele volume enorme?

 

R – Uma empresa me contatou, eles queriam fazer uma surpresa para o Dia da Secretária. Eu já tinha feito alguns trabalhos assim, uma empresa vai falando para outra. Então é, Dia Internacional da Mulher e Dia da Secretária, sempre me chamam para fazer alguma, uma oficina de maquiagem, alguma coisa assim. Então, mas naquele caso específico uma empresa, a Klabin, uma fornecedora de papel e celulose para, devido à prática ambiental da Klabin, ela é uma das empresas que fornecem alguns materiais. E eles escolheram produtos Natura para homenagear as secretárias nessa data. E ali você viu muitas caixas porque elas já estavam todas embaladas, a gente; e eu me comprometi com a pessoa que manipulou a operação por parte da Klabin, a entregar tudo separado por destino. Eles têm destino no Paraná, eles têm destino em São Paulo, no Rio, em Alagoas, e já manipulado, pronto para o correio. Então, são muitos volumes porque cada um era para um Estado diferente.

 

P/1 – Bacana! foi uma operação de guerra, quase...

 

R – Foi.

 

P/2 – Você tem uma empresa funcionando, né? Com tudo isso?

 

R – É uma empresa, mas tudo funciona muito na criatividade, sabe? As necessidades aparecem, você mobiliza recursos para aquilo acontecer.

 

P/2 – Mas tem saída de empresa...

 

R – Tem, tem saída de empresa. (risos)

 

P/1 – Se você fosse dar uma dica para um consultor novo, assim, o que que você falaria para ele?

 

R – Para um consultor novo?

 

P/1 – Que está começando, assim...

 

R – Para acreditar no negócio que ele tem nas mãos, que é um negócio bom, que é um negócio que pode mudar a vida dele. Que ele acredite, que ele se envolva com carinho, que ele está do lado de uma empresa legal, que os recursos estão disponíveis, para ele procurar esses recursos e se precisar de mim...

 

P/1 – Tá legal! Se você fosse fazer um autorretrato seu, como que o Gilberto se define?

 

R – Puxa! (risos) Posso pensar, posso responder no próximo episódio? 

 

P/1 – Pode! (risos) Adorei essa!

 

P/2 – Está quase acabando...

 

P/1 – Não, mas tudo bem. Jú, você quer fazer mais alguma pergunta?

 

P/2 – Na verdade, é só ratificar uma, mas essa ficou assim... Quais foram os aprendizados que você tirou ao longo dessa carreira na Natura, você falou vários, mas quais foram os mais importantes, aprendizado que você tem nesses dezoito anos de Natura?

 

R – Eu aprendi muita coisa, não gente, eu aprendi a falar, eu aprendi a entrar em lugares que talvez eu não tivesse entrado se não fosse essa atividade, a conversar com pessoas que talvez não tivessem me dado essa atenção se não fosse essa atividade.

 

P/2 – Mudou sua visão de mundo?

 

R – Ah, sim, ah, sim. Toda pessoa tem um valor, assim incrível, tem pessoas que têm muito valor e não são importantes, tem pessoas que são muito importantes mas não tem valor nenhum, e tem pessoas que são muito importantes e têm muito valor e não se veem assim... (risos) E tem outros que não são, mas se acham. Então, a gente tem que ser muito flexível, porque cada pessoa que aparece na sua frente é de um jeito e você precisa dar oportunidade para essa pessoa falar, para você conhecer e interagir com essa pessoa, porque a gente não conhece ninguém e ninguém conhece a gente, quase. (risos)

 

P/1 – Bárbaro! E o que que você achou de ter dado essa entrevista para o projeto Memória Natura, assim, de ter contado a sua experiência de criança lá em Itaquera brincando, tudo; esse olhar para trás, esse olhar para sua trajetória, olhar para sua história, como é que foi isso para você?

 

R – Preservar o passado da gente é uma coisa que ajuda a gente a construir o futuro, né? Então, a gente só sabe para onde a gente vai quando a gente sabe de onde a gente veio. Então, ter isso claro para mim, de onde eu vim e como eu era na minha infância, na minha adolescência, na minha pré-adolescência e hoje eu já sou um homem com quase quarenta anos. Então, tudo isso tem um valor para mim que ajudou a formar a pessoa que eu sou. E ter abordado tudo, embora no meio de muita emoção, vocês viram, é uma experiência muito rica e eu gostei muito de ter participado dessa entrevista.

 

P/1 – Que bom! Nós também gostamos muito, nós também... E em nome da Natura e do Museu da Pessoa a gente agradece, que foi riquíssimo mesmo. Obrigada Gilberto.

 

R – Obrigado.   

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