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História

Mais que um curso de informática, um curso para a vida

História de: Katiana Vanderley da Silva
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Publicado em: 05/05/2020

Sinopse

Katiana foi para o Rio de Janeiro e coordenou a CDI no estado, tanto na capital como nas cidades da Baixada Fluminense. Com uma equipe de apenas duas pessoas inicialmente, conseguiram manter o projeto nas mais de 100 escolas. Em 2003, ampliaram a equipe e puderam melhorar a administração.

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História completa

P1 - Katiana, bom dia. Você poderia começar falando o seu nome completo, local e data de nascimento?

 

R - Meu nome é Katiana Vanderley da Silva. Nasci em 1º de março de 1970 em Natal, Rio Grande do Norte. 

 

P1 - Katiana, você poderia nos contar um pouco da sua trajetória profissional e da sua entrada no CDI [Comitê para a Democratização da Informática]?

 

R - Eu fiz o meu ensino médio cursando formação geral. Então era um período para estar no último ano, período para estar definindo a carreira que eu queria seguir. E aí optei por serviço social. Fiz a faculdade, fiz o período de estágio, dois anos em uma instituição que trabalhava com adolescentes em situação de risco no Rio de Janeiro. Esses adolescentes participavam de um programa de trabalho educativo. E aí conclui o meu período de estágio. Logo em seguida, na verdade, eu terminei em dezembro e em março eu estava fazendo estágio no CDI. Iniciei trabalhando no CDI como estagiária, 20 horas. E já estava nesse período próximo de terminar a faculdade. Era uma universidade pública e tem problemas de greve freqüentes. Então era para eu terminar a faculdade em junho, mas terminei em outubro. E nesse período eu logo depois passei para assistente de projetos sociais. Foi mais ou menos no período de criação do CDI Rio de Janeiro. Eu iniciei trabalhando na matriz e, quando foi criado o do Rio de Janeiro, aqui em agosto de 2002, eu vim para cá como assistente. Então já estava com um tempo menor de dedicação à faculdade e estava dando para conciliar. Fiquei como assistente de projetos até o finalzinho de 2003, quando fui promovida à coordenadora. Foi, para mim, um desafio porque a minha experiência profissional era estágio, onde tinha a supervisora do meu lado o tempo todo. Passei à assistente, tinha a minha coordenadora, que ficava responsável pelo gerenciamento da equipe e, de repente, me vi sendo coordenadora. Foi um desafio. Eu estou no aprendizado, mas eu acho que de conhecimento do trabalho do CDI eu tenho bastante a contribuir. Nesse período que eu fiquei como assistente, muito do dia-a-dia de visitar as escolas, de fazer relatório, de conhecer bem a unidade deles, facilitou eu estar assumindo essa função de coordenação da área de projetos sociais. Hoje, na equipe, somos eu e mais duas pessoas. E a gente tem conseguido conduzir o trabalho. São 104 escolas de informática e cidadania aqui no Rio de Janeiro. E aí abre um leque de possibilidade de trabalho.

 

P1 - Quando você entrou aqui no CDI, você focou aqui nesse período da transição, da formação da regional. Como é que estava a área de projetos? Como é que foi essa transição também de regional?

 

R - É, estava muito precária porque éramos duas pessoas para estar cuidando de 109 escolas, naquela época. Se não estou enganada era por aí. Então, de qualquer forma era um trabalho bastante complicado e era uma demanda grande de escola e não tinha equipe para dar conta desse serviço. Era um trabalho muito superficial. A gente via os problemas e não tinha pernas para conseguir resolvê-los. E então que a gente teve a contratação, em 2003, de mais duas pessoas na equipe e, com isso, teve uma mudança de intervenção junto às escolas de informática. 

 

P1 - Quais eram os principais problemas que vocês tinham nessa época?

 

R - O principal era a ausência do CDI nas escolas de informática. A gente realizava uma visita por ano praticamente. Então, esse distanciamento do dia-a-dia, do cotidiano da EIC [Escola de Informática e Cidadania] prejudicava muito o nosso trabalho. Por mais que a gente se esforçasse, não atenderia à demanda das escolas de informática. 

 

P2 - E que tipo de problemas isso refletia nas EICs?

 

R - Uma série de fatores. Distanciamento das escolas. Problemas que são problemas que se a gente estivesse mais próximo deles, poderiam ser sanado, como gestão de equipe, gestão de recursos, a captação, divulgação de projetos. Coisas que, com um pouco mais da presença do CDI, a gente conseguiria sanar. Nessa época, a gente tinha problema de escolas que simplesmente sumiam. E a gente tinha que pegar a kombi e ir lá no endereço porque a gente ligava e não conseguia falar com ninguém, mandava telegrama e não tinha retorno. Então, eu acho que isso é um pouco do reflexo desse distanciamento do CDI. Ficou mais ou menos um ano assim, porque quando eu estava lá no CDI matriz, acho que naquela época ainda não tinha muito bem a definição, né? Cuidar das EICs daqui do Rio de Janeiro e cuidar da rede era muito trabalho. Então, alguma área ficava vazia, não tinha como atender. A Raquel se voltava um pouco mais para os regionais, junto com a Lucília e eu ficava com um pouco do Rio de Janeiro, cuidando e fazendo as visitas de acompanhamento. A Lucília também fazia bastante, né? Porque era assistente lá no CDI.

 

P1 - Quais foram as mudanças com a criação do CDI regional?

 

R - A gente começou a estar mais próximo, fazer visitas de acompanhamento. Isso quando a gente conseguiu contratar mais pessoas na equipe. E isso foi em 2003. 2002 foi o ano crítico, digamos assim. Em 2003, a gente conseguiu mais pessoas na equipe, a gente passou a visitar três vezes, algumas escolas receberam quatro visitas ao longo do ano. A gente começou a desenvolver as oficinas locais. Que é um evento que a gente realiza em uma determinada área geográfica e convida mais nove para estar discutindo aquele problema daquela região específica. E incentivar que eles comecem a trabalhar em rede, que eles comecem a trocar experiências. Então, a oficina local foi um evento bastante interessante para estar desenvolvendo isso. E a gente deu continuidade esse ano, só que a gente está vendo algumas mudanças necessárias e então, está aí buscando o caminho que mais atende as necessidades das escolas.

 

P2 - Que tipo de temas, questões que vocês tratam? Você pode dar um exemplo?

 

R - Sim. A gente iniciou, a primeira rodada, primeira rodada porque em cada área, esse ano teve três oficinas. Então, na primeira rodada, a gente fez um espaço de apresentação. A equipe, cada equipe da EIC, o educador e o coordenador, apresentava a sua instituição, os trabalhos que ela oferecia, os serviços, o público atendido, os problemas e telefone, contato. Em um segundo momento, a gente procurou identificar com eles quais eram os principais problemas, quais os pontos fortes, os pontos fracos, que oportunidades isso poderia trazer. Que problemas essas fraquezas poderiam trazer para o funcionamento dele. E, a partir daí, eles desenvolverem um plano de ação. Mas só que a gente foi ousado demais. A gente já queria que eles começassem a trabalhar em rede desde o primeiro dia de encontro. O que a gente depois avaliou é que não é bem por aí. Mas eles começaram a desenvolver um plano de ação e, eu posso dizer que das 11 áreas que a gente tem, 10 falavam que a necessidade era a captação de recursos, seja para remunerar educador, seja para investir na estrutura da EIC, fazer upgrade nos equipamentos de rede, internet. Então, acho que quase todas, as 10 regiões optaram por estar falando sobre isso. E a ideia é que eles fizessem um plano de captação juntos. Só que o que é que aconteceu? Se marca encontro não compareciam, né? E aí o grupo ficava desmotivado. Dos 10 só compareciam duas para essa reunião, onde a gente não participava. E gente explicava para eles como era feito o plano de ação e eles marcavam uma reunião posterior com o responsável que ia fazer. Então, comparecia dois e desestimulava o grupo. E o trabalho em rede é difícil. Você não bota na cabeça das pessoas, as pessoas tem que ter esse sentimento de rede para desenvolver alguma coisa. E aí não deu muito certo esse plano de captação em rede. A gente teve uma região que falou: "Olha, Katiana, a gente não quer dar continuidade à esse trabalho em rede. A gente já tem contato de todas as formas, então se a gente sentir necessidade a gente faz essa troca. Mas trabalho em rede a gente não quer porque o grupo é comprometido com os compromissos firmados". Então, acabava sendo uma atividade desagradável porque não contava com a participação. E aí, nesse momento, na terceira rodada, a gente estava falando com eles sobre captação de recursos. A gente convidou a equipe de desenvolvimento institucional da matriz e vai falar sobre esse assunto. A gente vai convidar as escolas. Devido ao número grande de EICs que a gente tem no Rio de Janeiro, então a gente continua a divisão por áreas e cada  uma serão três dias. A gente vai distribuir essas 11 áreas em três dias. E aí a gente não vai mais cobrar esse trabalho deles. A gente vai esperar que isso aconteça naturalmente. Tem algumas coisas que deram muito certo, que foram bastante interessante. Escolas que tinham alunos com problema de aprendizado, com defasagem escolar, a outra que já oferecesse serviço de apoio escolar. Então estavam encaminhando alunos para fazerem o curso utilizando a rádio comunitária da outra EIC para divulgar o projeto social que eles tinham, emprestar educador porque aquela EIC perdeu todos os educadores. Então tem aí umas trocas interessantes. Teve um grupo que promoveu o dia a inclusão digital na baixada fluminense, no princípio de Nova Iguaçu. Então tem coisas bastante interessantes que deram certo. Mas a gente não pode forçar a barra. Foi uma avaliação nossa, de que isso aconteça porque a gente quer, mas não, tem que ser porque eles querem. O fato de ter essa troca já torna o trabalho em rede. E eles vão amadurecendo ao longo do tempo. Só que muitas vezes a gente tem problema de ausência, convida todo mundo e chega lá só tem duas ou três pessoas. Porque de repente a atividade não atende ao perfil da instituição, por exemplo, como os órgãos públicos. O órgão público não tem tanta facilidade de captar recurso assim porque ele depende de uma série de outros fatores que impedem essa coisa mais imediata. Como acontece em uma comunidade. Não sei se você entrevistara a Sônia. Então, a organização da Sônia, tem  muito mais autonomia para ir buscar esse recurso, fazer um projeto, garantir o funcionamento da EIC. Então, a gente está em um caminho aí de buscar atividades porque, de fato, essas organizações têm um perfil um pouco diferenciado. E, por mais que se tenha um convênio com alguns órgãos públicos, esse convênio não atende todas as necessidades. A gente precisa trabalhar muito com um pouco da boa vontade, do interesse, do tempo dessas pessoas. Então, é buscar um caminho para desenvolver esse trabalho. E a ideia é que esse espaço que a gente chama de oficina local seja um espaço de capacitação. Que a gente possa oferecer ferramentas para desenvolver um trabalho. Acho que a gente conhece bem as necessidades das escolas, os problemas. Eles já conhecem bastante. Então não tem porque a gente discutir um problema que eles têm em mente. Porque antes a gente tinha um pouco desse trabalho, né? Que é procurar identificar as estratégias. Então, a ideia é que a gente ofereça capacitações, chamando alguém para falar de comunicação no terceiro setor, o que é que eu faço quando eu recebo um parceiro, o que é que eu devo abordar, o que é que eu divulgo do meu projeto? Que casos eu posso aceitar? Então a ideia é que a gente tenha subsídio para isso. Mas, nessas oficinas, é importante lembrar que sempre eles é que apresentam as necessidades. Não é nunca ___________ porque eu achei que ia ligar _______________ ___________________ _____________________, sei lá, a história do terceiro setor. É sempre uma necessidade que eles apresentam. Então a gente vai procurar. De repente, pode surgir a necessidade de um cursinho de elaboração de um projeto. Então, eu vou tentar buscando e, se a gente não tiver pessoas com conteúdo para oferecer curso aqui no CDI, a ideia é que a gente busque pessoas de fora mesmo. Procurando trazer essa pessoa para a nossa realidade. Porque nem sempre o que a gente confia à pessoa de fora, é bom. Porque a pessoa fica com um discurso muito distante da nossa realidade. Então a gente é um pouco, eu diria, chato de trazer alguma pessoa de fora para não estar muito distante do nosso discurso.

 

P2 - São 11 regionais?

 

R - São 11 áreas. É porque a gente dividiu o Rio em zona norte, sul, baixada. 

 

P2 - Está certo. Contando 9 EICs cada oficina.

 

P1 - 10 EICs. 

 

R - É. Esse número não é um número fechado não. 

 

P1 - Mais ou menos.

 

P2 - Em média.

 

R - Como a nossa proposta inicial é estar discutindo ali, localmente, a gente não queria chamar muitas pessoas porque senão fica complicado fazer um trabalho em grupo. Mas aí, com esse formato de capacitação, eu já consigo juntar, dependendo do número de escolas, três áreas, quatro áreas.

 

P1 - É isso que eu ia perguntar. Tem uma articulação entre as áreas, uma articulação do regional em si?

 

R - Ah, sim. Tem. E isso acontece no encontro das escolas de informática e cidadania. No encontro das EICs, que a gente chama. Então todo mundo se encontra. 

 

P1 - Tá. E qual é a periodicidade disso?

 

R - Esse ano a gente só realizou uma vez. Mas a gente está ainda repensando se vai ficar nesse formato. Uma vez ou duas vezes ao ano. A nossa ideia, na verdade, é investir mais nesses pequenos espaços. O encontro seria mais um momento social, de rever as pessoas, de troca. Na verdade, não muita troca porque é muita gente. São cento e  poucas pessoas, 200. Seria mais um encontro social. E, aproveitando também, para oferecer alguma capacitação, discussão. 

 

P2 - Não sei se você falou, eu não prestei atenção. Mas qual é a periodicidade dessas reuniões?

 

R - Ah, de três em três meses. É esse período porque é o número que a gente consegue completar todas as áreas. A gente estava fazendo um oficina local por semana. 

 

P1 - Vocês passaram o ano inteiro fazendo?

 

R - Um ano inteiro de oficina local.

 

P2 - E as oficinas, o objetivo das oficinas seria qual? Você poderia dizer? Eu estou insistindo muito nisso, porque me parece que é um formato particular aqui do Rio, que vocês desenvolveram. E isso, com certeza, vai ser um exemplo.

 

P1 - É isso que eu queria perguntar. Quando surgiu, como surgiu e de onde vem essa ideia para essa solução?

 

R - A gente tinha uma escola que era em um município muito distante aqui do Centro. E que a grande necessidade dela, o grande problema era ter recursos para mandar essa pessoa vir fazer o curso.

 

P2 - Ficava onde?

 

R - Em [Itiguá?] , que é um depois de Nova Iguaçu. Bem distante. E que tem até dificuldade de transporte na região. Então ele falou: "Olha, eu tenho espaço aqui e eu queria muito que o CDI viesse até aqui oferecer algum curso. Se a capacitação vem aqui utilizar nosso espaço duas ou três vezes, oferecer o curso para as escolas aqui da região.". E a gente ficou com aquela sugestão em mente. Foi quando a gente pensou em fazer a oficina local. A gente fez uma em 2002, mesmo com todo aquele cenário de escassez de membros da equipe. A gente fez uma oficina local na Mangueira que a gente adotou esse modelo de apresentação. Aí ficou uma, teria o encontro posteriormente. Só apareceram duas escolas. Então o grupo não achou necessário fazer reunião. E aí em 2003, a gente retomou fazendo oficina, mas como uma coisa mais experimental. E esse ano é que a gente teve um investimento maior. Ano passado acho que foi uma oficina por região só. Porque é, na verdade, um evento que está em teste. Que está em processo de construção e a gente está buscando o melhor caminho. E a ideia inicial, assim, foi mudando muito, né? Então, a gente tinha, aí fizemos essa primeira rodada com a apresentação da instituição. Em um segundo momento, a gente fazia o seguinte, meio em uma tarde, isso de duas às seis. De  duas às quatro a gente falava de projetos e de quatro às seis a gente falava da área pedagógica. Então, nesse período da área pedagógica, eles fariam um projeto em cima do que foi implantado anteriormente. Qual é a principal dificuldade do grupo? Ah, é captação de recursos? Então vai todo mundo para o computador desenvolver o projeto utilizando a proposta pedagógica do CDI. Só que era uma loucura porque em duas horas não se constrói um projeto dentro da proposta do CDI com um grupão. Então a gente fazia um espécie de duplas para construir esse projeto. Mas o tempo acabava prejudicando muito a nossa a atividade porque a gente tinha que falar de toda a proposta pedagógica do CDI. E aí, esse ano a gente iniciou, identificando, fazendo um raio x de cada área, e aí deixou eles desenvolverem e passarem para a gente o que é que eles queriam que fosse trabalhado. Lógico que a gente tem uma questão pedagógica muito complicada aqui no Rio de Janeiro que não são todas as escolas que tem uma proposta pedagógica. Tem algumas que tem resistência, algumas porque o educador não se capacitou, enfim. Tem um leque aí de motivos para não aplicarem a proposta pedagógica. A gente sabe que tem uma necessidade pedagógica, mas eles não vão levantar isso. Para eles o que é mais gritante é o dinheiro mesmo. É a necessidade de recursos. Então a gente vai falar da área pedagógica quando eles apresentarem a demanda. E se isso não surgir? A gente vai virar para eles e, a ideia nossa era: "Você está divulgando, abrindo uma proposta muito interessante, mas você está aplicando mesmo a proposta pedagógica?". Já vai perguntando para eles para ver se eles estão desenvolvendo aquilo ali, se divulgaram os seus projetos da sua captação do discurso lá do parceiro. Mas aí a gente já repensou e vai ser um espaço mesmo de capacitação. E a ideia é que ano que vem tenha um momento para que a gente possa oferecer oficinas temáticas, oficinas pedagógicas, oficinas de conteúdo técnico. Para atender aí esse buracos dos educadores nessas oficinas. E aí a gente não sabe muito bem que formato. A gente já tem alguma ideia, mas precisa sentar mesmo e construir isso.

 

P1 - Das oficinas participam o pessoal do pedagógico ou só é a área de projetos mesmo? 

 

R - Ah sim. Eles sempre estão presentes. Porque sempre surge alguma demanda pedagógica. Por mais que o tema seja captação de recursos, surge, por exemplo, a necessidade: "Olha, eu não consigo apresentar a proposta pedagógica porque eu trabalho com crianças.". Aí tem alguém do pedagógico para responder, para fazer alguma observação que achou que no discurso ficou uma coisa muito gritante, né? É lógico que não dá para desenvolver muita coisa porque o período é muito curto. A gente quer que tenham momentos específicos para isso, para atender a essas necessidades. 

 

P2 - Quando você entrou, como eram estabelecidas as relações com as EICs? Que critérios, parcerias existiam e como ficou agora? Quer dizer, como foi mudando? 

 

R - Quando eu entrei aqui, a gente tinha três seleções ao ano de projetos. E a gente sempre recebe um número muito grande de projetos, de pessoas interessadas. Praticamente não mudou muita coisa no grau de exigência de implantação de EIC. Só que hoje a gente está sendo mais exigente, mais cauteloso na questão do educador, do perfil da instituição, do público que vai atender, porque a nossa proposta pedagógica, os educadores não são formados para trabalhar com crianças. É aplicável a gente tentar, mas às vezes não dá certo. Mas aí o educador tem que ter muito desenvolvimento para desenvolver essa proposta com as crianças. Não mudou muita coisa. Mas a gente está pensando em reformular algumas coisas que a gente verifica que precisam ser mudadas. Por exemplo, antes a gente não exigia o conteúdo técnico do educador, que ele soubesse informática. Hoje a gente já exige que ele tenha conhecimento de informática para ser educador, porque a gente avaliou que leva quatro meses para ele aprender informática. Porque chegava muita gente aqui que tinha dificuldade de usar o mouse. E a nossa capacitação é de quatro meses, 90 horas. Então, essa pessoa, em quatro meses ela tinha que aprender informática e dar aula, e conhecer essa proposta pedagógica do CDI. Então acabava ficando um buraco em muitos casos. Depois, para conseguir mudar esse cenário deu um pouquinho de trabalho. Hoje a gente já exige que o assistente de manutenção, a gente já quer fazer uma seleção mais criteriosa, porque muitas vezes a EIC manda o assistente de manutenção, ele se capacita e não volta mais à EIC. Então a gente já quer mudar algumas coisas, a gente já tem uma aula inaugural onde a gente apresenta, tem uma carta compromisso onde ficam claras todas as regras do jogo. Porque chega no final: "Ah, eu não sabia que eu ia trabalhar voluntariamente na EIC. Eu não sabia que eu ia receber só uma ajuda de custo. Ah, eu não sabia, eu não sabia". "Porque receber o certificado só depois de formar uma turma e participava de um evento pedagógico?". Isso tudo é falado. Então, a gente criou esse documento com a ideia de: "Está tudo muito claro. Você deseja ser educador, você vai ter que aceitar essas regrinhas".

 

P2 - E os termos desse documento são…? Você poderia explicar quais são os termos desse documento?

 

R - A gente exige que esse educador seja realmente comprometido. Por exemplo, ele entra sabendo que ele vai fazer a capacitação durante quatro meses e vai participar de acompanhamento pedagógico. Que faz parte desse processo de capacitação. Ou quinzenalmente, ou semanalmente, não sei como é que está atualmente. Atualmente está semanalmente. Mas não sei se vai dar continuidade ou se os encontros serão quinzenais. Que ele tem que formar pelo menos uma turma na EIC e participar de acompanhamento pedagógico para depois receber o certificado do CDI, de educador do CDI. Porque se a gente identificar que essa pessoa não tem o perfil para ser educador do CDI, você pode solicitar a saída desse educador. Porque muitas vezes vem gente para cá que não tem o menor perfil e a gente tem que ficar com essa pessoa até o final do curso, sabendo que ela não vai ser aproveitada para a EIC. Só que isso é muito bem estudado. Para a gente chegar a esse ponto de tirar educador da capacitação, todas as possibilidades já foram esgotadas. É sempre o último caso. Porque ele precisa ter, pelo menos, 75% de presença no curso. Isso é uma coisa óbvia, mas muitas vezes a gente tem problema de falta de educador na capacitação, que acaba perdendo essa vivência de aula que é importante para a gente. O coordenador vai informar de todo o processo, de todo o desempenho desse educador na capacitação. E esse coordenador  é responsável pela vinda, pela participação desse educador durante o curso. Então são coisas que são óbvias, mas que a gente fez questão de escrever para que não houvesse um mal entendido.

 

P2 - Aí o educador assina se comprometendo.

 

R - O educador, o coordenador e, se estiver presente, o presidente, o coordenador geral da instituição.

 

P2 - Isso vale para toda a rede CDI ou toda...?

 

R - Aqui no Rio de Janeiro está assim. Eu não sei como é que está isso aí na rede. Porque a gente tinha muito problema de capacitar educador e no final ele não dar aula. Algumas expectativas que não eram atendidas, que a gente já sabia desde o início mas que ___________ ______________.

 

P1 - Você poderia explicar mais ou menos, para a gente, um panorama dos projetos? A que público esse projeto atende? 

 

R - Você diz quais projetos?

 

P1 - O dos projetos em geral. As EICs. Que tipos de EICs têm, que áreas de atuação?

 

R- É, a gente tem algumas EICs em alguns ________________, em instituições comunitárias, em ONGs. ONGs grandes, né? De grande reconhecimento na sociedade. ONGs pequenas, que respondem nesse processo de buscar o melhor conteúdo para se trabalhar, a gente tem vários perfis. Mas a gente fala da captação de recursos mas não necessariamente ela resolve o problema da EIC. Às vezes a EIC tem recurso, atende todas as necessidades mas não acontecesse uma boa gestão, não há interesse nesse educador em aplicar a proposta pedagógica. Então tem várias particularidades aí que a gente tem que lidar no dia-a-dia.

 

P1 - Por exemplo, as EICs da área prisional, da área do presídios. Quais são os problemas que aparecem, que eles trazem, como é que vocês tratam as oficinas locais dessa EICs? Tem como participar dessas oficinas? Quem são os educadores?

 

R - Nessas unidades prisionais, não houve convênio, não houve repasse de verba do estado para o CDI. Foram montadas bem no início do CDI, quando ________ não existia. A equipe de lá, os educadores, são os próprios presos. Os próprios internos. E, para a gente, o coordenador é sempre um funcionário do presídio. Ou agente ou coordenador educacional dessa unidade. A gente convida sempre coordenador, né? Mas ele nunca vem porque tem um trabalho de plantão, tem os dias e horários para ele estar lá. Então, a gente não conta muito com a participação deles nos eventos. Os educadores a gente não tem como pedir, porque eles não podem sair de lá. Mas a gente está pensando também, em desenvolver alguma atividade dentro da unidade para que possa atender as necessidades deles. Porque eles ficam muito distantes. Se o coordenador não vir, eles não têm ideia do que é que acontece no CDI. Na visita realizada uma ou duas semanas atrás, eles assim, meio que: "Pelo amor de Deus, CDI! Vem aqui fazer uma mesa redonda. Aproxime essa relação". A gente percebe o interesse neles muito grande de desenvolver o projeto bem. Mas muita coisa acaba sendo impedida por causa da realidade deles. Então, se a gente quer capacitar o grupo, a gente tem que ir lá. Tem que deslocar alguém para estar lá tantos dias, em determinado horário para oferecer o curso e, como um presídio é um lado… 

[Pausa] 

R - ... Então, que um grupo de presos de uma unidade vá para a outra. Então, a gente realizou isso ano passado. Funcionou. Mas a gente percebe que eles precisam de um pouco mais de capacitação. Sentir um pouco mais a presença do CDI para atender as necessidades.

 

P1 - O presídios são _____________ ___________________ Gomes.

 

R - O ____________ funciona, né? Ele acontece. Eles são um pouco autodidatas, né? Porque a gente acaba não tendo como dar tanta assessoria à eles. Então, muitas coisas que tem lá hoje é porque eles construíram sozinhos. Teve uma contribuição do CDI nesse sentido, mas muita coisa é porque eles foram mesmo atrás de conteúdo para dar aula. 

 

P1 - Talvez falar um pouco do projeto Morro do Silício. Qual é a finalidade do projeto?

 

R - O projeto Morro do Silício  já acontecia quando eu entrei no CDI. E o objetivo dele é a capacitação profissional e empreendedorismo ecológico. A ideia é que pudesse criar nessas comunidades, espaços de geração de renda e de negócios. Então, essas escolas receberam equipamentos novos, toda a estrutura necessária. Inicialmente foram cinco escolas, cinco escolas faziam parte desse projeto do Morro do Silício. Então tinha gravador de cd, webcam, impressora a laser, scanner, e, a princípio eles receberiam qualificação para desenvolverem esses negócios, trabalhar um pouco com a linha do empreendedorismo. Então, se capacitaram nas capacitações aqui no CDI, para que pudessem passar para as escolas. 

 

P2 - As escolas que você diz são as EICs, né?

 

R - As EICs, isso.

 

P1 - Além desse aporte tecnológico mais avançado, digamos assim, teve uma mudança na pedagogia? Teve uma adequação pedagógica à essa linha de empreendedorismo?

 

R - A ideia era assim. Eu me recordo que a gente ofereceu um curso de Excel para empreendedorismo. Que a ideia é que eles utilizassem a ferramenta para desenvolver os seus negócios. Ao invés de ficar anotando em um caderninho, eles utilizassem a tecnologia que tem, né? Mas eles fizeram o curso aqui e não replicaram isso para as escolas. Uma coisa que eu avalio é que o perfil das escolas para desenvolver esses projetos é que foi um pouco complicante. A gente tem uma escola que conseguiu avançar muito nesse sentido, que foi a escola Morro dos Macacos, do centro comunitário [Lídia de Saltos?]. Eles conseguiram engatinhar para mandar bem aquele projeto. Criaram espaço _____________ onde ______________ cobrando um real a hora pelo acesso à internet. Começaram com essa coisa de prestação de serviços à comunidade, criaram uma cooperativa de prestação de serviços na área tecnológica, bem como nas outras áreas também de administração.

 

P2 - Baseado  no que essa cooperativa tecnológica? 

 

R - Essa cooperativa Morro dos Macacos é prestar serviços, por exemplo: suporte técnico às empresas, capacitações para grupos. Dando suporte tecnológico mesmo para as empresas e gerar renda para aquelas pessoas. Porque quem compõe essa cooperativa, a ideia existe para aproveitar aquele aluno da EIC, para estar de alguma forma, inserindo essa pessoa no trabalho, para gerar renda. Porque o que eles identificaram lá é que os alunos com um curso de informática, mas que não tinham grande chances de inserção no mercado de trabalho porque não tinham escolaridade exigida, porque eram discriminados quando falava que morava no Morro dos Macacos. Então, quer dizer, tem uma série de fatores que impediram a entrada, a inserção deles no mercado de trabalho. Então, a ideia é que essa cooperativa possa absorver os ex-alunos da EIC.

 

P2 - E como está sendo o resultado dessa cooperativa? Tem pouco tempo? Quanto? 

 

R - Tem pouco tempo. Já deve ter mais de um ano. O processo inicial ficou muito nessa coisa de legalizar a cooperativa. Eles, acho que conseguiram já registrar, legalizar a cooperativa. Porque muitas vezes esbarravam nisso. Precisavam de CNPJ e formar legalmente. Então, eu lembro que eles já ofereceram curso de capacitação para a equipe. O grupo é um grupo de pesquisas do estado aqui no Rio de Janeiro. Então eles ofereceram essa capacitação para esse grupo de funcionários público. E uma das pessoas que ofereceram curso, hoje é funcionária de lá. Não sei se continua ainda, mas logo depois foi contratada para ficar dando suporte de informática à empresa. Foi uma coisa positiva. E empresa procurou o CDI para organizar essa capacitação. Foi uma coisa assim bastante interessante. E eles estão aí buscando, né? É essa coisa de iniciar. Tem um mercado aí que tem bastante essa mão de obra, empresas e tudo e eles ainda estão buscando aí essas prestações de serviços, esses trabalhos, procurando desenvolver para gerar renda para os componentes da cooperativa.

 

P2 - São quantos os componentes da cooperativa?

 

R - Mais de 20 pessoas. Eu acho que tem um número mínimo para formar uma cooperativa. Da última vez que eu conversei com o Leandro, ele me falou desse número que iniciou a cooperativa. 

 

P2 - Por que é que chama Morro do Silício? Se refere à um morro só? São vários?

 

R - Isso foi do Ricardo, né? Ricardo _____________, que é coordenador aqui do Rio de Janeiro e que coordenava esse projeto também. Que é um pouco de alusão do vale do Silício, né? Então ele colocou Morro do Silício. Na verdade, o nome do projeto é Rio Informática. Mas aí teve esse nome que pegou.

 

P1 - Pensei que era um oficial, Morro do Silício. 

 

R - Não, não. 

 

P2 - Envolve quantos morros? E quais?

 

R - Não são todos em favelas. A gente tem um em Nova Iguaçu, que é a baixada Fluminense, que é uma comunidade de baixa renda, uma no Morro dos Macacos, outra em uma favela em _____________ ________________, outra no Morro do São Carlos, outra no Estácio, só que essa foi fechada. E a outra na Candelária, que é uma comunidade que faz parte da Mangueira. Foram os lugares que eles escolheram. O  que talvez não tenha favorecido um pouco o projeto é o perfil das instituições. No Morro dos Macacos, o projeto vai muito bem. Em Santa Rita não vai tão bem assim. Eles não conseguiram chegar a esse ponto de geração de renda. Eles prestam serviços, mas é uma coisa muito voltada para eles. Eles não tiveram esse enfoque de fortalecer aquela comunidade, de procurar essa questão de gerir, de criação de negócios, de geração de renda. A gente tem o Centro Cultural da Candelária, que no início atendia toda a comunidade, mas que foi implantada uma unidade de Faetec, a Faetec é um pólo de capacitação, qualificação do Governo do Estado, que ofereceu curso gratuito, gratuidade no ônibus. Então, isso acabou esvaziando a EIC. Pensando em um público jovens e adultos. Então hoje, lá na Candelária, eles têm um atendimento muito voltado para crianças, adolescentes, que ainda não está nessa fase de gerenciar, de criar negócio, de pensar em uma formação profissional, porque eu acho que eles atendem, não sei, até 14 ou 15 anos. Então, não é ainda muito foco. Então o projeto acaba se perdendo um pouco lá. Ficou muito na questão dos equipamentos. Eles estão lá, já que não tem muitos alunos da comunidade para formar turmas, eles estão utilizando a EIC no horário de trabalho. Porque eles atendem ao público da instituição, com espaços de prestação de serviços. Então, tem um ex-aluno lá que criou um software, de controle de saída do __________. E que doou para a eles. E eles conseguem administrar  o ____________ com esse software que eles têm. Então, já tem mais de três anos que eles estão com pessoas capacitadas. Então, a EIC tem conseguido gerar um renda para manter não só a EIC, mas também contribuir um pouco com o funcionamento da instituição. E aí tem gravação de CD, digitação de trabalho, o próprio acesso à internet. Então, eles estão conseguindo com faro diferenciado dar motivo à continuação desse projeto. A gente tem um grupo lá de Parada de Lucas que acabou perdendo esse perfil também. Há um grande número de atendimento, mas de crianças e adolescentes que é o público-alvo da instituição. Então, não dá muito para você ter esse tipo de discussão. Eu acho que é muito importante neste projeto avaliar o perfil porque se não você não consegue desenvolver o projeto. E essas pessoas, essas EICs aí dos equipamentos que tem muita estrutura, tiveram também capacitações. Então, tem a _____________ ______________, que está paralisada. Tiveram cursos de rede, montagem e manutenção e ética profissional do CDI. Porque a ideia é que eles pudessem aplicar isso na EIC, mas isso acabou não acontecendo. Teve curso de Excel e empreendedorismo. Teve um curso de aprender e entender, que é um curso do SEBRAE de empreendedorismo, mas ficou muito para o educador da EIC. Eles não compartilharam com os demais membros da comunidade. Então, eu acho que o projeto acabou se perdendo nesse sentido. Essas escolas elas tinham um acompanhamento mais especial. Eu estava acompanhado esse projeto, frequentemente desenvolvendo, criando estratégias para que isso acontecesse. Mas numa parte, que não é só de esforço meu, o perfil da instituição, muitas vezes, acabava impedido o desenvolvimento desse projeto. Então, para algumas escolas, ficou muito a questão dos equipamentos. E também tem uma outra questão que é a proposta pedagógica nossa. Em alguns momentos conflitava porque o educador, a ideia é que ele exponha o tema que ele vai trabalhar, que faça um pesquisa na comunidade. E a forma como é oferecida aqui no CDI o curso de Excel para empreendedorismo, que para a gente era uma vantagem trabalhar com isso, acabou direcionando que era para a geração de negócio, para administrar o seu negócio. Então, esses alunos, em alguns momentos conflitava e esse curso de Excel para empreendedorismo não mais foi oferecido porque a gente estava tentando adaptar ou ainda mais aproximá-la da nossa proposta. Agora tem também o curso de mídia digital que entra um pouco em um projeto, mas ele é um dos braços do projeto. Porque as comunidades possam fazer filmagem, divulgando o que é que tem de interessante. Então o projeto tem  o perfil da instituição, hoje eles me ligam para perguntar: "Katiana, e a nossa TV e o vídeo, quando é que vão chegar?". Não ligam para perguntar: "Olha, a gente está querendo montar uma ______________ de determinada ferramenta". Ficou muito a visão do equipamento, infelizmente.

 

P2 - Fora o grupo ____________ que trabalha com mulheres também, vocês tem algum outro grupo formado por mulher, mães de família, fugindo um pouco o perfil?

 

R - Antes de responder essa sua pergunta, a gente inseriu mais três escola depois, como o Morro do Silício, para receber verba para que esses equipamentos tenham a mesma estrutura. Foram de outras organizações. A gente tem a [UNERGE?], que é associação de mulheres também. Tirando essa, eu acho que não tem nenhuma outra. Agora, você tocou nessa questão, né? Eu tenho percebido, eu não sei qual é o fato de você com esse assunto de terceiro setor, que as organizações têm perdido um pouco daquele perfil de mobilização, de _________________ de direitos, de organizações ___________ de mulheres e têm se voltado muito para a prestação de serviços. Eu acredito que a _____________ seja uma delas. Tem uma associação de milhares. Eu não percebo muito essa coisa, né? Para mim fica muito mais evidente, eu só vou lá para saber da EIC, mas é lógico que a gente acaba perguntando alguma coisa. Mas eu tenho percebido que as instituições, as organizações sociais do terceiro setor, estão se voltando muito para a prestação de serviços. É o curso não sei de quê, é o cursinho, é a creche. E aquele papel do educador, que tinha antes, não tem mais. E até mesmo porque somos parceiros e a gente tem que se ater a todo mundo. Então, você acaba correndo o risco de não questionar alguma coisa de alguém, de algum órgão, de alguma instituição, para não ficar mal diante dos demais. Não sei se é um impressão só minha, se é um tendência, não tenho dados comprobatórios disso. Mas essa é a percepção. A gente percebe isso nos projetos que a gente recebe aqui no CDI. Fazemos parte do Conselho Municipal de Saúde. Organizações que trabalham nessa área. Eu não percebo essa mobilização.

 

P2 - Depois da entrevista é que a gente pode conversar sobre isso.

 

[RISOS] 

 

P1 - Teria alguma experiência que você destacaria no CDI, da EICs que eu estou falando. Qual da EICs mais se destacariam? Quais as EICs mais originais, de destaque?

 

R - A gente tem  alguns casos, alguns exemplos que eu acho marcantes. Atende à nossa expectativa de proposta pedagógica. A gente tem um escola em Santa Cruz, que é dentro de um órgão público, que desenvolveu um projeto. Os alunos identificaram que os estudantes não estavam conseguindo, estavam sendo prejudicados na escola por conta do ônibus não parar, não permitir a sua entrada pra fazer o seu trajeto até a escola. Então faltavam, perdiam trabalho, perdiam prova. Chegavam atrasados e eram barrados pela diretora. E eles identificaram isso. Fizeram conta do direito que eles tinham tanto eles, quanto os idosos e os deficientes físicos, e falando que muitas vezes, a postura que o adolescente tem de chutar o ônibus, de brigar com o motorista, reforçava a postura do motorista de não abrir a posta. De não garantir o direito deles. Achei bem interessante porque eles geralmente colocam só um lado, né? E aí eles fizeram um abaixo assinado, conseguiram trezentas e tantas assinaturas e fizeram só de estudante. E conversaram com o sub-prefeito, falando dessa necessidade e  ele se comprometeu. E em um próximo momento, essas empresas têm um ônibus, chamado Ônibus da Liberdade. Isso acontece na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Um local que tem muito problema de ônibus. E esse ônibus é só para estudante para fazer o trajeto de casa para a escola e vice-versa. E o sub-prefeito se comprometeu, em uma próxima renovação de garantir  a passagem do ônibus naquela região. Então, eu acho que isso é uma coisa muito boa porque você tem resultado. Pode ser que não aconteça. Mas já é um processo de reflexão desses alunos, de repente, de buscar o direito e de saber trabalhar com esse direito que ele tem. Não é xingando o motorista, não é chutando o ônibus que ele vai resolver alguma coisa. A gente tem alguns projetos desenvolvidos em sala de aula. E a gente tem, em certos casos, uma pessoa que é ________________. É uma área que ela atua, que faz parte do complexo ______________. E lá é uma organização pequena, de pessoas que são muito pobres e não conseguem pagar mensalidade. Mal têm dinheiro para ______________. Então, é manter o curso gratuito, né? Tem um ou outro que paga. Mas trabalha muito mais, eu quero isso do que como ter dinheiro. E ela sempre está motivada a buscar apoio. E o que falta fazer é a gente orientar a coordenadora para buscar nos lugares certos. Porque dificilmente uma organização como a dela vai conseguir um projeto aprovado na Petrobás. Então assim, tem pessoas que tem uma dedicação muito grande, né? Tem uma EIC também nossa, que fica na _____________ na Ilha do Governador, que tem um coordenador que tem um dedicação extrema. Porque ele faz parte da igreja e trabalha com coração, com sentimento. É uma pessoa super dedicada. Mas a escola de informática e cidadania trouxe alguns outros projetos para a instituição. Então, quer dizer, serviu para toda essa instituição também. E aí, quando o aluno falta, ele vai na casa do aluno para perguntar por que é que ele não veio. ________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Então acabou prejudicando o projeto, a mas parece que ________________ __________________ e ele está construindo ______________ muito presente, e são poucos os projetos que são desenvolvido na comunidade e quando tem, é prejudicado por um fator externo, que não tem com interferir, que é a violência. Então a violência aqui no Rio de Janeiro, lógico que em alguns outros lugares, mas para a gente é muito grande porque muitas vezes não pode sair da EIC, não pode ter aula, não pode, não pode, não pode. 

 

P2 - E o horário da noite também.

 

R - E acabam excluindo. Então é complicado. A gente não tem como interferir. O poder de trabalho com esses jovens é de buscar algumas alternativas.

 

P2 - Katiana, tem alguma coisa que a gente não perguntou que você gostaria de falar?

 

R - Acho que não. Bom, para fazer um panorama geral das EICs aqui do Rio de Janeiro, a gente tem que romper parceria com a rede. Não estávamos, estávamos muito fora do modelo e não desejavam dar continuidade, não desejavam adotar esse modelo hoje. A gente está muito  mais exigente com os parceiros das escolas, com as parcerias do CDI. Como o CDI se originou em 1995, passou por muito tempo sem um trabalho muito bem compactado, né? E hoje a gente já tem uma experiência desenhada, já tem maturidade, já tem condição de fazer um _____________, de buscar uma qualidade maior para esse trabalho. Uma criação voltada em cima desse trabalho. Então a gente está sendo mais exigente nas escolas, quando não há possibilidade, a instituição não quer a gente como parceria, quando a gente procura resgatar o histórico de tocar essa EIC, né? Para estar justificando o rompimento de parceria. Geralmente __________ ____________ e então a parceria recomeça. _____________ ________ não consegue mais desenvolver o mesmo trabalho, como no caso de São Carlos. Teve um momento lá muito bom de funcionamento, mas depois mudou para um EIC onde não conseguiu se modificar. Tinha cursos gratuitos diversos em uma comunidade, quando a comunidade já não estava indo na EIC. A equipe já estava desmotivada, não tinha educador capacitado, as pessoas estavam cheias de dificuldades. Então, tinha uma série de problemas que não permitiam mais o fortalecimento do trabalho lá. Então, a gente conversou. Fez ____________, mudou esse trabalho, a equipe, a forma de trabalhar, desenvolvendo atividade coletiva com educador da equipe. À noite o educador _____________ ______________ _______________ ____________, quer dizer, não era mais o momento daquela comunidade de desenvolver um projeto. Eu sei que talvez, muitas pessoas continuam excluídas digitalmente, mas não dava para fazer uma estrutura daquela para ficar fechada. Então a gente estava com um trabalho ____________ __________________ ____________ ____________________ ___________, ter uma qualidade mínima para orientar o nosso trabalho. É um pouco da coisa de que: "Ah, se eu estou fazendo alguma coisa para alguém, e essa pretensão que a gente consegue ________________ ___________". Então, a gente está procurando formas de fortalecer essas instituições para que o trabalho se mantenha lá que a comunidade reconheça aquele espaço como um espaço deles, onde eles podem usar para trocar informações. E que a EIC não se feche. Que a gente saiba o que acontece ali. A gente ________________ atendendo a comunidade, que as instituições procure. Uma coisa que a gente observava, é que eles cumprem ______________, eles não tem ideia _____________, ________________ _________________ chama uma pessoa que queira lançar um projeto de vocês? Qual foi o número de atendimento? "Ah, a gente já atendeu muita gente". Outra coisa é você responder: "A nossa comunidade é composta por tantos moradores, desses a gente acaba ___________ ______________. ... eles construírem a história deles, eles registrarem o trabalho que eles desenvolveram. Mostrarem para a sociedade o trabalho que foi desenvolvido. Conseguir apoio da comunidade para conseguir desenvolver o trabalho deles. Porque as organizações são pequenas, não tem muito recurso, aí é mal vista pela comunidade. Não consegue apoio, não dá pra funcionar. Então, a gente procura dar, trabalhar isso tudo. Essa questão... relatório, relatório, relatório. Porque a gente precisa dessas informações. A gente precisa do jeito que está aqui. Porque se a gente fez alguma visita, e já vou com o relatório preenchido, eu tenho mais tempo para fazer algum tipo de ______________. A partir do momento que eu tenho esse relatório, eu tenho uma hora de visita tratando ideias, tratando sugestões e construindo algo naquele local. Então, a gente cobra, né? Que a gente precisa disso, a gente cobra para que eles utilizem bastante o espaço do CDI, fez a oficina, fez a reunião da oficina local, percebe a necessidade de ter um tema. Só no CDI que a gente vai se esforçar para garantir _____________ ______________ _____________. E que hoje a gente quer que sejam outros, porque a gente já amadureceu o trabalho, a equipe da conhece o que dá e o que não dá certo e então a gente quer que esse trabalho seja fortalecido. Que não seja um trabalho qualquer, mas que seja um trabalho que possa ter algum tipo de impacto, de mudança na vida das pessoas. Que possa contribuir de fato. Que não seja mais um cursinho de informática, mas que seja um cursinho para a vida. Sei que o curso não vai superar todas as dificuldades que ele tem, mas a ideia é que ele _________ ______________ ____________. E eu ficou pensando, nesse período de eleição, tem muitas comunidades que tem aquele vereador que vai lá dar alguma coisa no período eleitoral. Se a gente percebe, se a gente já conseguiu aprender tantos porcento de moradores da comunidade, e aquela comunidade continua elegendo o cara que dá cesta básica, seja lá o quê, eu fico pensando se esse trabalho teve algum impacto, se teve alguma mudança 

[PAUSA] 

 

P2 - Vamos dizer agora o que é que você achou de prestar esse depoimento para o CDI?

 

R - Eu achei interessante, e que algumas experiências que a gente tem aqui, né? Que isso possa ser conhecido, apresentado às outras regionais, a gente tem espaço para isso, que é o encontro da rede, e outros espaços pela internet. Mas eu acho que quando a gente apresenta de outra forma, de repente, a gente consegue apresentar isso para algumas pessoa, para algumas regionais, para trocar experiências, né? A gente que já existe a algumas tempo aqui no CDI, a gente já tem bastante experiência aqui no CDI e, nada mais justo do que compartilhar com os demais que estão iniciando, que tem diferentes idades entre regionais. 

 

P2 - E a ideia do CDI de registrar também a história através dos depoimentos de pessoas da rede?

 

R - Eu acho primeiro, que é uma coisa riquíssima e outro que é uma coisa fundamental. Apresentar, mostrar essa história, que o CDI construiu, as mudanças que ocorreram, a maturidade do trabalho. Essa questão assim pioneira de estar buscando a inclusão digital, né? Coisa que em 1995 deveria ser totalmente avaliada como um absurdo, né? Mas que a gente já mostrou que dá certo, que produz mudanças sim. Então, registrar isso eu acho fundamental. É uma forma de não perder história. A gente não pode deixar a história, tem que dar continuidade à isso.

 

P2 - Então, em nome do Museu da Pessoa e do CDI, a gente agradece o depoimento, porque foi muito bacana. obrigada.

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