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História

Mais próximo do consumidor

História de: Roberto Anuel Ventura
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/06/2020

Sinopse

Conta sobre sua infância na Vila Mariana e suas experiências anteriores à Avon. Comenta sua carreira e as funções que exerceu na empresa. É viúvo e tem dois filhos.

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História completa

 

P/1 – Bom dia!

 

R – Bom dia! 

 

P/1 – Vamos começar com o senhor falando o nome completo, local e data de nascimento. 

 

R – Roberto Anuel Ventura. Nasci em São Paulo, longe, faz tempo. Vinte e seis de dezembro, quase natalino, de 1939. 

 

P/1 – Qual é sua atividade atual? 

 

R – Sou consultor. Acho que todo mundo que se aposenta vira consultor, né? 

 

P/1 – E qual o nome dos seus pais? 

 

R – Nelson Ventura e Iansi Naarias Ventura.  

 

P/1 – E qual que a atividade profissional deles? 

 

R – Comerciantes. 

 

P/1 – Eles tinham... 

 

R – Tinham lojas. 

 

P/1 – De quê? 

 

R – Lojas de artigo de presente, utilidades domésticas. 

 

P/1 – Eles trabalhavam juntos nessa loja? 

 

R – Sim. Eram duas lojas, cada um ficava um pouco numa loja e na outra. 

 

P/1 – E eram próximas? 

 

R – Hum… Não. Uma era em Vila Mariana, outra no Itaim.  

 

P/1 – E qual é a origem da sua família? 

 

R – É uma mistura, uma mistura latina. Eu tenho, por parte de pai, filho de francês com português. [Da] parte da minha mãe, espanhol com italiano.  

 

P/1 – Que mistura boa.  

 

R – Tudo latino. 

 

P/2 – É, bem latino. 

 

P/1 – E o senhor tem irmãos? 

 

R – Uma irmã, oito anos mais nova. 

 

P/1 – Vamos falar um pouquinho da sua infância. Onde o senhor morava? 

 

R – Nasci na Vila Mariana. Praticamente quase minha vida toda, até casar, foi na Vila Mariana. 

 

P/1 – E o senhor lembra da casa como era? 

 

R – Lógico. 

 

P/1 – Então fale um pouquinho sobre isso. 

 

R – A casa já foi porque hoje passou o metrô por… Foram destruídas, as duas casas em que eu morei. Morava na Rua Dona Júlia, próximo do que é hoje um colégio ali, chamado Marechal Floriano, um pouquinho pra cima. E hoje está passando o metrô. E uma segunda casa em que eu morei, na [Avenida] Lins [de] Vasconcelos, mais ou menos na mesma altura. Também está destruída hoje, porque passou o metrô por cima. Mas naquele tempo realmente era supertranquilo, inclusive, numa rua bem próxima passava bonde.  

 

P/1 – E como era o cotidiano da sua família na sua infância?  

 

R – Era supertranquilo. Meu pai trabalhava, ia pra loja; minha mãe também. Lembro que eu fiquei… Quando criança, passava muito tempo com minha avó. Ficava na casa dos meus avós e praticamente ficava... Isso aos quatro, cinco anos. Adorava ficar, até praticamente sete anos, aí já não deu mais, porque você começa estudar mais fortemente. Saiu do prezinho e já entra no primeiro primeiro ano. 

Mas era supertranquilo. Pra vocês, que são muito jovens, se você falar de tempo que você podia jogar bola na rua, andar de bicicleta e não tinha perigo de nada, de acidente, de bandido, de assalto... Era muito tranquilo. 

 

P/1 – Ah, então o senhor gostava de brincar na rua. O senhor tinha muitos amigos? 

 

R – Todo mundo ia pra rua. 

 

P/1 – É? 

 

R – É. 

 

P/1 –E era tranquilo o bairro? 

 

R – É. Você tinha uma televisão... Pra começar, no começo não tinha nem televisão, aí começou uma televisão que era incipiente. Você imagina o mundo hoje, pensa, o mundo sem televisão, sem computador? O que você tinha era cinema, você tinha um teatro, mas não era muito mais do que isso.  

 

P/1 – E dessas brincadeiras, qual era sua favorita? 

 

R – Eram várias. Primeiro, andar de bicicleta. Nós tínhamos um clubinho na rua e esse clubinho… Nós tínhamos dois times, um time de basquete e um time de vôlei. Essa era nossa atividade. Um timinho até que razoável, que fazia as competições com os colegas e com outras turminhas. Era superdivertido. 

Nós tínhamos na rua, e essa é até uma história muito curiosa, um terreno baldio, grande, que nós ajeitamos pra fazer um minicampinho. Tinha uma árvore, tinha a nossa sede pra fazer os nossos jogos. E tinha um campinho pra jogar vôlei.
Um dia começaram a construir. E você imagina o que que a garotada… Nós éramos uma turminha, uns doze, mais ou menos. "Vamos fazer uma greve contra a construção desse prédio. Nós vamos ficar sentados na frente. Não vamos deixar entrar ninguém, nenhuma máquina, alguma coisa." Uns fedelhos, uns caras pequeninos. Porque aquilo era uma afronta. 

Imagina, aquele terreno não era nosso, nem sei de quem era o terreno, mas nós tínhamos certeza de que íamos conseguir impedir a construção. 

Nós não conseguimos. (risos) Hoje saiu um laboratório lá, chama Sanitas. Chamava-se Sanitas, hoje eu não sei como chama, mas deve estar lá até hoje.  

 

P/1 – E acabaram com seu campinho.  

 

R – Acabou com nosso jogo. 

 

P/1 – E o senhor tem outras lembranças marcantes da sua infância? 

 

R – Várias. Uma coisa que naquele tempo eu não gostava muito: minha mãe adorava música clássica e meu pai não gostava, então o companheiro pra sair, pra ir à noite ao teatro era… Sempre minha mãe me levava. Você imagina um garoto de doze anos, dez anos, por aí, botar uma gravatinha, um paletozinho e ir pro Teatro Municipal assistir uma ópera. Detestava. Achava horrível, porque não estava próprio pra aquela idade. 

Isso, de uma certa forma, me ajudou bastante porque hoje eu adoro música clássica, então, lógico, é tudo uma questão de educação. Se eu não tivesse passado por essa fase, provavelmente hoje eu não gostaria, não sei. E hoje, realmente, cultivo e lembro bastante. 

Lembro das vezes que eu ia pro teatro e no teatro eu dormia. (risos) Porque chegavam dez horas da noite, dez e meia, ainda [estava] passando. Eu lembro que eu dava minhas cochiladas. E cada vez que eu ia, eu não gostava muito, não.   

 

P/1 – E o senhor lembra de alguma peça em especial? 

 

R – Lembro. Lembro várias. Acho que a mais sofrida foi Madame Butterfly. Eu acho que essa não é uma peça própria pra criança. As mais esfuziantes, as mais comunicativas, essas sim. Essas, sem querer, você fica desperta e fica olhando. 

 

P/1 – O senhor falou que começou estudar com sete anos. 

 

R – É, a gente faz… Normalmente se entrava na escola [com essa idade]. Hoje se entra um pouco mais cedo. Acho que comecei com seis anos, no prezinho. E depois, com sete anos, que é única... Que você é admitido no primeiro ano. E foi aí que eu comecei. 

 

P/1 – E o senhor lembra da escola, como era? Fale um pouquinho. 

 

R – Sim. A escola era praticamente em frente à minha casa, chamava Marechal Floriano. E era ainda… Chamava Grupo Escolar. 

 

P/1 – O senhor lembra da professora, dos amigos? De alguma coisa assim? 

 

R – De alguma coisa de amigo, sim. 

Todo mundo diz que lembra da primeira professora. Realmente, eu não lembro da minha primeira professora, não. Não foi marcante pra lembrar. Lembro de outras professoras, de outros professores, mas da primeira professora não lembro. 

Devia estar no segundo ou terceiro ano primário. Lembro de uma professora que foi muito marcante; ela tinha uma presença, inclusive era uma pessoa que tinha uma vivência muito boa. E ela conseguia fazer com que a classe ficasse quieta, coisa que era muito difícil, com um bando de garoto. E só de entrar o _______, sem brigar. Só conversando e na postura que realmente ela dava. Eu tenho boas memórias dela. Até o nome dela eu lembro, Geni.   

 

P/1 – E era um colégio, não era misto? 

 

R – Era misto. 

 

P/1 – O senhor ficou nesse colégio até que série? 

 

R – Fiquei até a quarta série. Na quinta série - tinha quinta série nessa altura - fui pro Colégio Marques de Cezana. 

 

P/1 – E essa mudança de colégio, como foi? 

 

R – Drástica, porque eu saí de um colégio que… Não é que era tranquilo. Este colégio, inclusive, era um colégio… Eu não sei se municipal ou estadual - acredito que estadual - e o ensino nessa altura era muito bom. Você saía com uma base muito boa. E fui pro colégio Marques de Cezana. Não teve muita diferença no sentido educacional, mas na disciplina, muito, porque ou você é totalmente… Não aberto, mas você não tem gerência nenhuma no outro. Eu entrava de manhã, às oito horas, no colégio e saía às cinco. E o tempo todo sendo vigiado por padres. 

O irmão marista, não sei se vocês sabem, eles... Lógico, deve ter mudado. A única coisa que eu não faria mais é colocar meus filhos num colégio de padre. Mas, se entrava no colégio, se rezava um terço todinho, todo dia. Eram duas dezenas de pé, três dezenas sentado, mas rezando o terço. Você imagina quem sai e já pega esse tipo de coisa. Quero dizer, todo dia. E depois uma aula de catecismo. Era uma aula, quarenta e cinco minutos de aula de catecismo. 

Tinha seus lados curiosos. Já um pouquinho maior, você tinha uma aula de catecismo onde se falava de Adão e Eva. E depois você tinha uma aula de Geografia onde você falava sobre a origem do homem, sobre Darwin e sobre outras coisas. E aí você levantava e falava: "Professora, que é que eu faço? Se cair na prova eu falo que foi Adão e Eva ou é a teoria de Darwin? Que é que eu faço?" Então, isso… Eu [me] chocava bastante, porque os padres tinham uma disciplina realmente. Bom, eu nunca fiquei ajoelhado em milho, mas de cara pra parede, muitas vezes.   

 

P/1 – E o senhor ficou lá até concluir?  

 

R – Fiquei até... Muda um pouquinho, porque antes você tinha cinco anos de primário, depois quatro de ginásio e depois mais três de científico. No segundo ano de científico eu saí e fui pra outro colégio. 

 

P/1 – Então o senhor se formou em outro colégio. 

 

R – Sim. 

 

P/1 – Mas era da mesma linha? 

 

R – Não, aí já era mais tranquilo. 

 

P/1 – E depois disso o senhor realizou outros cursos? 

 

R – Ah, foram vários cursos. [Ao] mesmo tempo que a Avon… Naquela altura, a Avon… Sempre foi, lógico, uma companhia americana. Ela chegou no Brasil e tinha um critério totalmente diferente. Eu tinha só trabalhado em duas empresas. 

 

P/1 – Com quantos anos o senhor começou a trabalhar? 

 

R – Com 21.  

 

P/1 – E onde foi, o senhor lembra?  

 

R – Lembro. Fiz um estágio na Kibon, que naquela altura era uma companhia americana, Anderson Cleyton. Depois fiz estágio, não fui trabalhar logo em seguida. Depois, com 21, fui pra Max Factor, fiquei cinco anos trabalhando na Max Factor. Depois da Max Factor eu fui pra Avon. 

 

P/1 – E o senhor conhecia a Avon já? 

 

R – De nome, sim. 

 

P/1 – E como o senhor começou a trabalhar lá? 

 

R – Olha, foi supercurioso, inclusive. Nesse local que a gente morava, um dos meus amigos, o pai dele era diretor da Colgate/Palmolive. Isso há muito tempo, bem antes de eu ter trabalhado na Max Factor, inclusive. Esse é um fato curioso, relacionado com a Avon. Um dia a gente estava na casa dele, um bandinho de garotinhos, com quatro ou cinco lá. "Vou fazer isso, vou fazer aquilo. Não posso porque não tenho dinheiro. Esse negócio de mesada, tá me faltando dinheiro. O meu pai não me dá o dinheiro que... A mesada não tá aguentando mais aquilo que é meu gasto." Aquela conversa de garoto. "Acho que eu vou começar a trabalhar." 

Nós estávamos numa sala e o pai dele, o Senhor Jurandir, na outra sala mas, lógico, escutando a conversa da garotada. "Pô, é mesmo, né? Pô, acho que eu vou começar a trabalhar." Eu estava com dezoito anos, por aí. Ele chamou e falou: "Escuta, vocês estão falando que querem começar a trabalhar. Tem uma empresa que está começando aqui no Brasil, eu sei que eles vão precisar de gente. É excelente. Lá nos Estados Unidos é uma empresa muito boa, grande. Chama-se Avon. Ela vende de porta em porta." "Sai pra lá, seu Jurandir. Que é isso, de porta em porta? Esse negócio de porta..." Na cabeça da gente passava o quê? A gente só sentia que passava a venda de filme, o cara vendendo aspirador, uma escova; que o cara batia na porta, a mulher atendia, o cara não queria entrar. O cara botava o pé na porta e fazia falar. "Vou trabalhar numa empresa dessa? De jeito nenhum." 

Isso passou ______, passou mais. Depois de um tempo, comecei a trabalhar na Max Factor, fiquei cinco anos. Fui convidado pra ir pra Avon e a língua paga, né? (risos) A gente falava: "Não quero essa empresa"; acabei indo pra lá e é uma empresa excelente. 

 

P/1 – E como surgiu esse convite? 

 

R – Creio que foram indicações de alguns fornecedores. O gerente de suprimentos naquela altura era um inglês, que veio da Gessy Lever, chamado Michael Smith. O Mike convidou pra ir lá conversar e na primeira conversa ele falou: "Tá ok. Tá contratado". "Para um pouquinho. Como assim? Eu não..." Ele falou: "Pode passar no Departamento Pessoal, porque eu quero ficar com você." Mas creio que já tinha... Depois, conversando com ele, já tinha indicação de alguém lá que tinha falado, alguma coisa nesse sentido.  

 

P/1 – E qual foi sua primeira impressão quando chegou lá na Avon? 

 

R – Eu trabalhava e fui fazer praticamente a mesma coisa que eu fazia na Max Factor. Eu fui pra Avon e achei que [em] quinze, vinte dias já estaria dominando. Nada disso, a Avon é uma companhia totalmente diferente. Pelo sistema de venda, do sistema porta a porta, ela [era] muito mais dinâmica. 

Dentro da parte que eu trabalhava, em suprimentos, existe uma frase que diz: "A falta de produto é um palavrão." Quer dizer, você não pode deixar faltar um produto, porque é uma venda que você não vai atender. E não atendendo uma venda, a casa cai. Diferente de uma empresa que vende pra um comércio, porque tradicionalmente um comércio tem estoque e ele faz pedido pra uma indústria não quando ele terminou, quando ele está terminando. Até que a indústria faça a entrega pro comércio, existe um lapso de tempo aí. E no caso do porta a porta, não. Quando a pessoa perde é aquilo, não existe estoque, intermediário nenhum. Nessa altura, a política, a companhia e o sistema, [eram] totalmente diferentes. 

Demorou um pouquinho pra fazer uma adaptação ali, pra sentir.  

 

P/1 – Em que ano foi isso, que o senhor começou a trabalhar na Avon? 

 

R – Foi... Bom, praticamente 66 porque eu entrei no fim de 65, mas aí você tem estágio, tem alguma coisa. Mas praticamente, início de atividade mesmo, foi em 66.  

 

P/1 – E a sua primeira função lá? 

 

R – Foi como comprador. 

 

P/1 – Comprador, isso na [Avenida] João Dias? 

 

R – Na João Dias ainda. 

 

P/1 – Explique pra gente um pouquinho como era essa função de comprador.  

 

R – A Avon na João Dias era o primeiro prédio. Muito curioso, não sei se alguém já contou pra vocês aqui. Era uma linguiça. Ela tinha vinte metros de frente por quase setecentos metros de comprimento, então você imagina que tinha uma coisa pequena na frente e um corredor enorme que você ia andando, andando, andando e tinha até um trenzinho que fazia uma locomoção da frente até o último, que era o almoxarifado, lá atrás. Quando tinha visitas, alguma coisa, o pessoal botava esse trenzinho pra fazer o percurso porque realmente era bastante comprido. 

A parte de compras é uma necessidade que existe, a explosão de uma necessidade, do pessoal que faz o planejamento. E você tem que comprar. Parece fácil você falar: "Não, eu quero comprar e todo mundo quer vender." Óbvio, mas não é tão fácil assim. Toda profissão tem os dois lados. Sempre que a gente está nela, a gente vê que não é tão fácil como a gente pensava. Mas foi um tempo bastante agradável. 

A Avon nos Estados Unidos já tinha algumas embalagens diferenciadas daquilo que existia no Brasil. No Brasil, até a entrada da Avon, duas empresas de cosmético imperavam aqui: uma era Helena Rubinstein e outra, Max Factor. Eram as duas grandes empresas ______. Existia outras pequenas marcas ou mesmo marcas que hoje praticamente não estão mais no mercado, mas as embalagens eram incipientes; a indústria ainda não estava formada, o pessoal fazia coisa de não boa qualidade. O Brasil não estava ainda preparado pra receber. E a Avon já tinha um critério de qualidade muito exigente. 

Nessa altura, a gente pedia pra fornecedores tentar reproduzir aquilo que eram as embalagens americanas e o pessoal não conseguia, porque não tinha tecnologia. Nós passamos a receber várias dessas tecnologias através de relatórios, de mapas, de desenhos, alguma coisa. E a Avon propiciando que a gente fosse [pra lá] -  funcionários Avon, eu inclusive. Ia pra os Estados Unidos, visitava os fornecedores, pegava um pouquinho desse conhecimento e tentava entregar gratuitamente esse conhecimento para os fornecedores, no sentido que eles aprimorassem a fabricação. Trazendo um desenho: "Olha, faça o molde dessa maneira." Esse tipo de material, plásticos inclusive… Eram pouquíssimos os tipos de plásticos. E o Brasil era muito fechado, era muito difícil você importar, era praticamente proibido. 

Passa depois um tempo, ainda na João Dias, onde, pelas dificuldades econômicas brasileiras, houve praticamente um encerramento de importações, então você não importava matéria-prima. Você não podia importar nada e tinha que se virar com o que tinha aqui. Esse era o grande desafio, porque você tinha que pegar um fornecedor, no caso de matéria-prima, trazer alguém dos Estados Unidos que fosse um bom técnico de desenvolvimento, colocar junto pra ensinar esse fornecedor aqui no Brasil a reproduzir uma matéria-prima no padrão de qualidade que a Avon queria naquele momento. 

Foi uma fase muito difícil porque quem vende, e o pessoal tem na cabeça, quer ganhar dinheiro. Ele não quer aprimorar muito, não quer fazer uma evolução, então ele passa. No dia que ele entendeu que se fizesse um progresso ele passaria a ter um pouquinho mais de venda, não só prá Avon, mas pra outras empresas também, aí a coisa começou a melhorar um pouco. Mas foi um período muito negro, muito difícil, nessa fase do Brasil. 

 

P/1 – O senhor se lembra de algum produto específico em que aconteceu isso? Alguma embalagem? 

 

R –Ah, vários! Tem muito. _____, em plástico. Em plástico, o pessoal… Um molde é muito difícil tentar, em palavras, explicar sem um desenho. Uma tampa, por exemplo. Dentro da tampa tem uma rosca. Essa rosca tem que ser... Eu não sei se vocês conhecem, estou falando com a máquina e falando com vocês. Pra você fazer qualquer peça plástica, você tem que fazer uma parte de metal e essa parte oca do metal é onde vai ser injetado o plástico quente. Ele entra numa temperatura bastante alta, resfria, passa uma água gelada circulando em torno e aquilo faz um resfriamento, então forma a peça. Só que pra tirar essa peça onde tem a rosca não dá pra você puxar, porque a rosca está... Tinha até algumas pessoas que faziam puxando isso; quando o plástico estava quente ainda puxava essa rosca. Lógico, a rosca interna não saía perfeita, saía meio torta. Na hora que você ia colocar no frasco uma entrava, outra não entrava. 

Outro processo é fazer com que essa parte de dentro, onde forma a rosca, gire e aquilo extraia girando, porque não danifica essa rosca do plástico. Isso era muito curioso porque o pessoal fazia uma corrente de bicicleta com uma manivela e o operador, na hora que abria, ficava girando aquilo com a mão, com uma corrente de bicicleta. Imagine isso. Se você conta isso hoje, onde tudo é automatizado, computadores, e você tem aberturas automáticas, você dá risada. Mas realmente era uma ________. Você olhava e via o cara numa corrente de bicicleta dando a volta pra tirar a rosca dessa tampinha. 

Tem vários casos realmente muito curiosos. A parte de embalagem, na hora que você entra, como [se] faz vidro, como [se] faz plástico, é realmente fantástico. 

 

P/1 – Porque as embalagens eram muito sofisticadas, não é? 

 

R – Pra aquela época, sim. Inclusive, as embalagens de um tempo atrás, da Avon, eram mais sofisticadas. Não em tecnologia, mas em design. Eram mais do que hoje, porque se vendia muito uma coisa que chamava-se decanters, que eram... O perfume era o mesmo, mas um era um passarinho, outro era uma boneca, outro um... Vendia-se muito disso. Foi [uma] pena, inclusive é uma lástima que isso aconteceu um dia: a Avon tinha um espaço interno, um quarto muito grande, onde [se] guardava uma mostra de cada uma dessas embalagens. E um dia, por necessidade de espaço, destruiu-se tudo isso. Foi um pecado, porque se fez coisas lindas, em vidro. Se fazia bailarina, se fazia carrinhos, se fazia revólveres, um monte de objetos que eram embalagens de perfume. Lindas, mas muito sofisticadas, difíceis. Lamentavelmente, isso não ficou na história. Ficou eventualmente em alguma fotografia, alguma coisa, mas pouquíssimas foram guardadas.    

 

P/1 – Depois de comprador, o senhor foi pra que área? Qual é sua trajetória? 

 

R – Tem uma sequência. De comprador você passa pra supervisor, que chama-se sênior, que é um supervisor de compras. Depois de supervisor passei pra gerente de compras. Fui pra vendas, fui ser gerente de vendas. Fiquei um tempo em vendas. 

Aí houve uma necessidade premente porque houve uma confusão, mandaram embora o gerente de compras naquela altura. Eu voltei pra compras, pensando que ia ficar pouco tempo, só pra voltar e voltar pra vendas. Acabei ficando muito mais tempo como compras. Nessa altura chamava-se Compras e Desenvolvimento, então você comprava e tinha uma equipe que desenvolvia. [Em] todo desenvolvimento você tem engenheiro, tem pessoas que fazem os desenhos, os mapas, e acompanha o desenvolvimento das embalagens e dos produtos. Quer dizer, é o nascimento do produto. 

Eu não sei se você sabe - dentro de uma estrutura, o pessoal de marketing é o pessoal que bola, que fala a necessidade do que é que é lançado no mercado e joga essa ideia pro pessoal de desenvolvimento. “Eu quero exatamente isso aqui. Eu quero um produto nessas características." Às vezes até fala: "Olha, é aquele produto que existe nos Estados Unidos", então vai buscar a mostra que já existe, um desenho. Esse pessoal de desenvolvimento, então, parte pra fazer adaptação para o mercado brasileiro, criando desenhos, especificações. 

A coisa é um pouco complexa, até você chegar nessa fase. E isso vai pra Compras. Compras, então, entra em contato com os fornecedores pra que isso seja desenvolvido. Isso funciona tanto na cosmética como na indústria automobilística como na indústria de alimento, qualquer indústria. Geralmente é Marketing, passa pra Desenvolvimento, o Desenvolvimento passa pra Compras. E Compras vai fazer, colocar esse produto dentro da empresa. Produz e aí vem o pessoal que vende. 

 

P/1 – O senhor pode falar um pouquinho pra gente de cada etapa, quais as responsabilidades… Como seria essa sua evolução dentro da Avon? O senhor já explicou bem pra gente o que fazia um comprador. Depois o senhor foi pra gerente. 

 

R – Fui pra gerente. De gerente, a coisa, de uma certa forma, é igual, a única coisa é que você continua comprando e tomando conta de outras pessoas. Quero dizer, fica organizando. Você tem uma equipe de pessoas. Você tem o comprador, você tem o supervisor de compras e depois você tem o gerente. Você tem uma pirâmide como qualquer organização, qualquer organograma que você tenha. E a parte de gerente, logicamente, é a pessoa que é responsável total, por qualquer ato que aconteça - não só no sentido de trazer os produtos em si, [como] solicitador, mas no sentido de organização, de verificação, de organizar o organograma todinho, o budget da companhia. Você tem que pensar sempre um ano na frente; tem que se programar e dizer o que você vai gastar, o que o departamento vai gastar durante o próximo ano. Você fecha o ano e você faz um orçamento pro próximo ano. 

Em tempos de inflação, realmente é um pouco difícil. Hoje está tranquilo, quero dizer, relativamente tranquilo com a inflação entre quatro a 6%, mas nós já tivemos uma inflação de quarenta a 80% ao mês, não é ao ano não. E você tem extrapolar isso pra saber o que é que você vai pagar, o produto seis meses na frente, oito anos na frente; como fazer a sua projeção de gasto também um ano pra frente. Lógico que você erra, mas quanto mais se aproximar, melhor pra companhia. 

Nessa projeção, uma coisa que você faz [é] uma projeção do que vão custar aqueles produtos. Você tem que imaginar que aquele produto… Primeiro [imaginar] o que vai acontecer com o país, quer dizer, alguém vai te dar uma direção. Você tinha um comitê interno da companhia, onde você sentava com uma pessoa de contabilidade, uma pessoa da parte econômica e se decidia mais ou menos o que seria a inflação. Era um chute, uma bola de cristal sem névoa dentro. Baseado naquilo você fazia, extrapolava, pra saber quanto ia custar cada produto, seja um mês na frente. E cada um é diferente porque um é baseado em… Importado é baseado no dólar, outro é baseado no euro, outro é baseado nisso; um é só a mão de obra, outro é mão de obra mais alguma coisa. Uma vez feito isso, se faz uma projeção, então se falava: "Olha, essa tampa vai custar daqui a seis meses, ela deve estar custando X. Esse cartucho, assado. Essa matéria prima tanto, o álcool tanto. Isso aqui." Cada componente em si, "o perfume, tanto". 

Se você errasse pra cima, colocasse mais alto, esse preço ia no folheto de vendas e provavelmente você não ia vender nada, porque estaria com o preço muito acima do tamanho do bolso da pessoa que estava naquele momento. Pra você fazer um folheto, você tem que fazer com muita antecipação, não é do dia pra noite. Não é um jornal, que você faz hoje e você sai amanhã. Você tem que tirar fotografia, você tem que fazer um monte de coisa e botar um preço. Se você errar pra baixo, a companhia perde dinheiro e sua cabeça rola. Quer dizer, sua cabeça rola se for pra baixo e se for pra cima. Você tem que ficar o mais próximo possível do acerto. Lógico, nem sempre você está acertando, mas quanto mais próximo você ficar da meta, daquele ideal, sua chance de sucesso [está] ali.  

 

P/1 – E teve alguma vez que a inflação superou as metas de vocês? 

 

R – Várias.  

 

P/1 – E como vocês conseguiam resolver isso? 

 

R – De duas maneiras: uma, muito ruim porque você tinha que obrigar o fornecedor a vender por um preço abaixo do que ele queria. E com todo rigor, quer dizer, fazendo com que ele diminuísse. A companhia diminuía o lucro, o fornecedor diminuía o lucro, todo mundo diminuía um pouco o lucro. E se perdia, muitas vezes se perdia. Quer dizer, se lançava, se jogava o produto praticamente no mercado pra você ficar com o produto, pra não perder o mercado. 

Eram situações, mas felizmente foram pouquíssimas situações que você tem uma diminuição muito grande da margem de lucro. Foram raríssimas as vezes, mas aconteceram. 

 

P/2 – Eu queria falar um pouquinho sobre vendas. O senhor não falou mais sobre compras. [Em] vendas, o relacionamento era diretamente com quem? Compras era com o fornecedor; [em] vendas o relacionamento era com as revendedoras? 

 

R – É. Eu vou só te falar de compras, que você tinha perguntado e ficou na cabeça pra te colocar um fato realmente curioso dessa fase muito difícil. Eu lembro até o nome do produto, porque isso foi... Pra você fazer uma importação… Vocês, as três já usaram rímel. Na hora que você coloca, hoje tem vários outros produtos, mas um grande produto pra você fazer pra que esse rímel não seque, não cheire, nada. Isso é um derivado de petróleo e é um produto que acho que eu vou morrer e nunca vou esquecer o nome. Chama-se Ansco Mineral Spirits e é importado dos Estados Unidos; não tinha, a tecnologia brasileira não conseguia desodorizar e fazer isso ficar inerte e sem potencial cancerígeno, zero de potencial cancerígeno. Você tem que selecionar todas as partículas, as moléculas desses, é um líquido derivado praticamente do querosene. Você tem que eliminar a cabeça, o meio, pra que ele não... Ficar totalmente inerte, não te fazer irritação nenhuma, não te dar esse poder cancerígeno, absolutamente nada. 

Isso era importado dos Estados Unidos e toda importação que você fazia de derivado de petróleo você tinha que fazer via Petrobras. A Petrobras ficava no Rio de Janeiro e ela tinha cotas. Como tudo era proibido, a Petrobras tinha uma cota e você tinha que importar via Petrobras. 

A Avon [tinha] uma venda muito grande desse produto, que era máscara para cílios. Nós tínhamos um pedido colocado com a Petrobras e um dia a Petrobras falou: "Olha, eu estou aqui com muito pedido. Eu quero que todas as companhias que estão fazendo a solicitação venham pra cá. Nós vamos fazer uma reunião e delimitar as cotas." 

Eu fui a pessoa [que foi] pro Rio de Janeiro. Numa sala, eu não esperava tantas pessoas. Um monte de pessoas, acho que tinha umas 15 pessoas de empresas daqui de São Paulo e do Brasil todo, que também estavam com a mesma situação - não pedindo esse Ansco Mineral Spirits, mas pedindo outros produtos. De medicamento, outro pra indústria automobilística, outro pra isso… Eu, coordenador naquela altura, falei: "Bom, eu tenho X pra importar e vou ter que fazer esse X com vocês, então quero saber aqui quem é mais urgente.” Um levanta a mão [e diz]: "Olha, eu sou do Laboratório X e meu produto é um medicamento. Se eu não importar isso, vai ficar sem o medicamento. Muitos pacientes vão ter problema." E você? O outro levantou: "Bom, eu sou da indústria automobilística. Você imagina que sem esse produto eu não vou poder passar, a produção de carro vai parar." Eu falei: "Caramba, o que é que eu vou falar nessa altura? Porque está todo mundo... Um precisa daquilo, outro precisa daquilo. Eu vou dizer que vai pra um cosmético pra pintar os olhos de uma mulher? Os caras vão morrer de rir." 

Naquela altura, a Avon estava ensaiando os primeiros passos de exportação. Nós exportávamos pro Paraguai, pro Uruguai. Eu falei: "Olha, só me resta falar da exportação." "E esse produto, pra que é?" "Bom, esse produto nós vamos fazer pra exportação. Nós estamos exportando pro Paraguai, exportando..." "Ah, é pra exportação, é? Ah, que legal! Quantos vocês precisam aí? Duzentos quilos?" "Não, eu precisava de quinhentos quilos." "Tá bom, então trezentos quilos." Não lembro bem o valor, três mil quilos, qualquer coisa assim. "Está aprovado." Quer dizer, [foi] uma troca de palavras que realmente dá certo. 

Quando eu voltei do Rio de Janeiro e o pessoal falou: "Como é, conseguiu?" Falei: "Bom, consegui pelo menos uns três mil quilos do produto." Mas na minha cabeça passava:  "E se eu... Curiosamente, se eu tivesse falado que aquilo era pra pintar os olhos, que é que teria acontecido?" 

Eu vou continuar falando sobre um desafio e esse é realmente muito curioso, na parte de compras ainda, no sentido de buscar, de fazer com que se entregue a mercadoria. Nessa fase, que foi muito difícil, de Brasil, existiam muitas greves. Foi o começo de muita greve. Isso era novo pro Brasil, porque normal não é. O Brasil não estava acostumado com greve. De repente, começa a pipocar greve. O pessoal fazia greve por qualquer coisa. "Ah, vamos fazer greve pro aumento de salário, vamos fazer greve pra isso, pra botar mais água no refeitório." Sei lá, começou a estourar greve. 

Uma delas aconteceu num fornecedor chamado Lanzara, que fazia cartuchos. Ele fazia os cartuchos... Bom, você imagina, fazer toda a embalagem e faltar o cartucho; você não pode entregar o produto. O produto todo pronto lá dentro, no almoxarifado. Só que os caras fizeram greve, o caminhão não podia retirar. Aí eu fui lá com mais pessoas da companhia. "Olha, pelo amor de Deus, deixa sair o produto". Falando com a pessoa, os encarregados do sindicato, da greve. "Não, não pode, estamos [em] greve. Não sei de jeito nenhum." Falei: "Tem que dar um jeito. Você tem que ter alguma ideia pra alguma coisa." 

Eu tinha uma verba, como compras. Você pode gastar uma verba pra transporte, alguma coisa. Aí eu vinha voltando, passei na [Avenida] Lins de Vasconcelos, onde ___________. Eu vi um pronto socorro e uma ambulância na porta. Falei: "Ah, é isso." Parei, fui lá e contratei a ambulância. 

Falei: "Preciso retirar um negócio lá dentro." "Não pode." Falei: "Tem uma pessoa que está passando mal lá dentro, vamos lá entrar e a gente traz." Entramos dentro da empresa com a ambulância, com sirene ligada. A gente entrou. Falei: "Tira a maca, põe, enche a ambulância de cartuchos, mas pelo menos aquilo que eu preciso." E de novo saímos com a sirene buzinando; o cara: "Bom, está levando pro hospital". Estava realmente levando, eu ficaria hospitalizado se não fizesse essa entrega. (risos)

São insights, fatos que acontecem que... Isso aconteceu comigo, mas acontecia com vários outros colegas que trabalharam lá. Você tem que se virar e arranjar uma maneira de conseguir pegar, realmente, alguma coisa. Sei que lá nos Estados Unidos alugaram até helicóptero pra retirar também mercadoria dentro de uma empresa de greve, que é exatamente pra não faltar a mercadoria. 

Você queria saber um pouco sobre vendas? Vendas é uma parte fantástica na Avon. Não sei se já contaram como funciona. Quer dizer, eu tenho que… Como eu te falei, uma coisa é falar pra uma máquina que alguém já sabe de cor e salteado o  que vai aparecer, mas vocês três aqui talvez não saibam. 

A Avon tem a revendedora. A revendedora não é funcionária Avon. Hoje são um milhão e cem mil pessoas; isso é um exército. No tempo em que eu estava na Avon, estava perto de 450, quinhentas mil, mais ou menos, quando eu era gerente de vendas. A Avon tem esquema. Tem um diretor de vendas, tem dois gerentes chamados de Diretores Regionais, naquela _______, que hoje mudou um pouco. Depois você tinha a promotora, que é uma gerente de vendas de campo. Ela não trabalha aqui em São Paulo, ela trabalha em cada espaço e são quinhentas pessoas no Brasil todo, ou 550. Do Rio Grande do Sul até ao Amapá é coberto com essas pessoas, elas é que têm o contato com as revendedoras. 

A revendedora não tem praticamente um contato direto, a não ser via telefone, via comunicação. Mas normalmente o contato dela é via essa pessoa, que é uma representante legal, oficial e funcionária da Avon, que se locomove. 

O que faz essa pessoa? Essa pessoa tem que fazer a admissão desse pessoal que está querendo ser revendedor. Não admissão no sentido de funcionário normal, trabalhista, mas admissão de papéis, pra saber... É um cadastramento, praticamente. E ela se torna, então, uma revendedora. 

O nome "revendedora" diz: "É a pessoa que revende um produto que já foi revendido pra alguém." A Avon vende para a revendedora e a revendedora revende. Dentro da política brasileira, existe, logicamente, um lucro que ela aufere e esse lucro está inserido dentro do catálogo. O cliente final, quando vê o produto, está vendo aquele preço final; existe já a margem da pessoa, porque ela compra ligeiramente mais barato do que isso. E por leis brasileiras, inclusive, a Avon, como a Natura, ela faz um acordo com cada estado e faz o recolhimento de imposto que essa pessoa deveria estar pagando. Em nome da pessoa que está lá na Bahia, que está lá no Ceará, a Avon faz o recolhimento para o estado do Ceará, para o estado da Bahia, para a Paraíba. A Avon não é a única, tem outras companhias fazendo. E isso faz com que a operação todinha seja muito legal. Quer dizer, não existe [questão] legal que vai contrariar as leis brasileiras. 

A função do gerente de vendas é ter um contato com essas pessoas, que são as gerentes regionais ou promotoras de venda, e fazer a equipe. 

O que você quer em vendas? Você quer cada dia vender mais, então existem várias divisões no Brasil. São, hoje… Realmente eu não sei, não tenho o número, mas deve ser quinze divisões diferentes - no meu tempo eram nove divisões. Você tem nove colegas iguais a você e cada um querendo fazer vendas melhor do que o outro. Quer dizer, não só os desafios, porque em cada caso de venda você tem as premiações, os desafios, e você quer aquele progresso. Você quer sempre fazer alguma coisa um pouquinho acima do que aquilo que você julgaria que seria possível fazer. O ideal está sempre assim: uma cenoura pendurada um pouco mais alto do que você consegue alcançar. 

E o gerente de vendas, ele faz o quê? Uma coordenação de vendas de um determinado território. Eu, pessoalmente, comecei a trabalhar no Rio Grande do Sul. Eu tinha uma divisão que chamava Jaraguá; ela fazia uma parte do Rio Grande do Sul, o estado todinho de Santa Catarina e uma parte da capital de São Paulo. Tinha três espaços de venda, onde eu tinha pessoas que faziam contato com as revendedoras e você fazia todo esse "auê", realmente, pra vendas. 

Depois eu fui... Saí da Jaraguá, fui fazer um treinamento no gerente do Paraguai. A Avon abriu as vendas no Paraguai; não tinha fábrica, eram produtos exportados pra lá. Passei um tempo treinando o pessoal de vendas do Paraguai, fiquei trabalhando um bocado de tempo lá. 

Voltei pra cá, pra São Paulo, pro Brasil. Nessa altura, fui ser gerente de vendas em Minas Gerais. Fiquei um tempo em Minas, depois fui aquilo que é chamado gerente regional - que hoje é um cargo diretor - que é ser gerente dos gerentes regionais. Tinha o gerente da região Sul, do Rio de Janeiro pra baixo e do Rio de Janeiro, Minas Gerais pra cima. Eu fui da parte do Sul. De Minas Gerais pra baixo eu tinha vários gerentes que coordenavam esse grupo. 

Vou continuar falando, você quer alguma coisa de vendas? Alguma pergunta?  

 

P/1 – Está ok, pode continuar.  

 

R – O que é “vendas”? Você tem que motivar pessoas. Quando você vende um cosmético... Quando você vende um carro, você vende um medicamento, você praticamente está vendendo um produto. Quando você vende um cosmético, você vende um sonho. Atrás de um cosmético você tem que vender um sonho. Quando você compra um perfume, você tem toda aquela mise-en-scène que você precisa levar; quando você vende um batom, você está vendendo um sonho pra pessoa também. É um sonho de ficar mais bonita, ficar mais perfumada, mais alguma coisa. São vários produtos que o produto em si é um sonho junto. Quando você trabalha com venda de produto e venda de sonho, você precisa fazer aquilo ficar bonito, dourar a pílula, motivar as pessoas e fazer a pessoa... 

Você imagina o que é uma pessoa que trabalha sozinha no interior do Rio Grande do Sul, que não tem contato com a companhia. Você imagina, vocês aqui. Todo dia você vem pra cá, conversa com as pessoas, o que está acontecendo aqui você está sabendo de... Se cai um gato aqui do telhado, na hora que você entrou tem alguém te falando: "Olha, caiu um gato aqui do telhado." A pessoa que está longe não tem contato com a empresa. Ela precisa ter uma motivação de levantar, sair da casa dela; ela não tem ninguém, não tem relógio, não tem cartão de ponto pra marcar. Se ela sai da casa às oito horas e sai às dez, ninguém está vendo. Quer dizer, o resultado do trabalho dela é ela que vai fazer, então você precisa coordenar uma equipe e fazer esse pessoal trabalhar no sentido não só da responsabilidade, mas no sentido motivacional, pra que essa pessoa ame aquilo que faz, que a pessoa curta aquilo que está fazendo. 

"Tá chovendo cântaros, que é que eu faço? Ah! Vou dormir mais um pouco, não tem ninguém me olhando. Vou ficar mais um pouco. Mas tem uma atividade que eu podia estar saindo e fazendo alguma coisa." Quer dizer, você tem que enfrentar. Você tem inundações, você tem enchentes, frio; você vai pro Sul, tem geadas, tem neve. Você tem que fazer a pessoa sair de casa. Você tem um calor violento no Nordeste que é insuportável, quarenta graus, 42. Já peguei 42 graus em Bangu. É horrível. Você fala: "Nossa, vou ficar dentro, no ar condicionado". E você tem que fazer a pessoa sair e visitar outras pessoas. Então, isso o que é? É motivação. Você faz a pessoa... Quer dizer, não é só a responsabilidade de fazer, mas é levar alguma coisa pra pessoa, motivando a pessoa através de telefonemas, comunicação por e-mails, por bilhetes, por alguma... Fazendo com que aquela pessoa [se] sinta perto de você, perto da empresa. 

Esse é o elo, praticamente, que é a razão do gerente. Então o gerente faz, senta com a pessoa e faz um objetivo. Os dois juntos traçam um objetivo. Qual vai ser teu objetivo de vendas, o que você vai fazer, como você vai, se vai tirar férias, se não vai - nesse período, qual vai ser sua atividade. E aí é feito, sacramentado, um compromisso. Esse compromisso é cobrado, obviamente, mas não é só cobrado, ele tem que ser motivado também. Essa é a parte mais importante do que você simplesmente cobrar. Se a pessoa de vendas ficar só cobrando você ganhar, praticamente [tem] um inimigo lá atrás, porque você vai sentir que alguém está te cobrando de uma atividade que você fala: "Pô, o cara não está aqui. O cara não sabendo que está chovendo aqui ou que está quente ou que está inundado aqui, me fazendo cobrar alguma coisa." Mas na hora que você está… Faz com que aquilo... Você está junto com a pessoa, mesmo que em pensamento, ali a pessoa fica diferente, a pessoa cresce naquela altura e vai fazer aquela função. 

Essa é a parte muito bonita de venda, porque você faz uma equipe. Você trabalha com pessoas longe, mas perto. É difícil isso, né? Longe e perto. É longe fisicamente e o coração muito perto. A imagem e a cabeça, o ideal, realmente muito perto. 

Deu pra fechar?   

 

P/1 – Seu Roberto, o senhor falou que enfrentou muitas dificuldades nessa sua trajetória. O senhor quer citar alguma pra gente, contar um pouquinho sobre isso? 

 

R – Ah, várias. A pior delas na Avon... Durante um tempo eu fui trabalhar com novos negócios. O que é que são novos negócios? A Avon vai lançar bijuteria e eu fui a pessoa indicada pra ir aos Estados Unidos verificar os fornecedores, como se fazia bijuteria, quais as especificações, pra depois vir lançar a bijuteria no Brasil. 

É uma coisa que ninguém conhece, não tem ninguém preparado. Você tem que ficar buscando os fornecedores e falando: "Olha, o que eu quero é isso aqui. É uma bijuteria com esse tipo de banho, com isso aqui diferente, essa liga, com alguma coisa.” Isso foi normal. A pior delas foi um dia que o gerente geral me chamou, o presidente da companhia me chamou e falou: "Olha, nós vamos sair com..." Sabia que a gente tinha dentro dos objetivos sair com lingerie.   

 

P/1 – E quem era na época? 

 

R – Quem era o presidente? João Maggiore. Ele me chamou e falou: "Olha, você vai ser o encarregado pra lançar lingerie aqui". ________ imaginei, falei: "O que é que eu vou fazer? Eu não conheço absolutamente nada de lingerie". Você vê lingerie ali, o máximo que eu fiz na vida era tirar lingerie, nunca pôr lingerie. (risos) 

Comecei a trabalhar com lingerie. [É] lógico, contratamos pessoas que eram do mercado de lingerie, foram trabalhar e começamos o lançamento. Mas essa foi uma das minhas piores fases dentro da Avon, porque o tipo de fornecedor de lingerie é muito imediatista. Por tipo. Quer dizer, não que eles... Não vou falar que eles estão errados. É que desde que saiu ______ eles vivem com aquilo. São imediatistas. No caso de Avon, você contratava: você tem que fotografar uma peça, desenhar, saber o que você quer e essa peça vai sair seis meses à frente. Hoje você já faz um acordo com ele, no sentido: "Olha, eu vou querer esse sutiã, esse ____, isso aqui, isso aqui, isso aqui." Você vai pro estúdio, fotografa aquilo, faz todo o layout. Quando chegar na hora, um pouco antes de seis meses, ele vai ter que te entregar a peça, naquele preço combinado, pra você vender. Ele fala: "Olha, lamento, o mercado mudou e eu prefiro vender toda a minha produção pra loja X que está me comprando, pro Wal-Mart. E eu não tenho peça pra você." O que é que faz? Dá vontade de... (risos) De matar o cara, sabe? Porque isso é um antiprofissionalismo. Porque não é possível, você fez um compromisso e aquele pedido é um pedido de compras oficial, aquilo é um contrato. Na lei brasileira, na hora que você faz um pedido com alguém, aquilo fica registrado, assinado e aquilo é um contrato. Você pode judicialmente entrar com uma ação contra eles. Você fala: "Olha..." Ele fala: "Pode fazer o que você quiser. Pode entrar judicialmente. A justiça vai demorar cinco anos, dez anos e isso não acontece nada. Até aí já mudou, já tenho outra empresa."

Essa foi uma fase, pra mim, muito difícil. Você vendo ações certinhas, bonitinhas, confiáveis. Fornecedores de vidro, de plástico, de cartões, de matéria prima, confiáveis, e de repente você pega um grupo de pessoas que não são confiáveis. Foi realmente difícil.  

 

P/1 – E as principais alegrias? 

 

R – Ah, todo dia, quase, tinha uma. Só o fato de você encontrar, falar "bom dia" pras pessoas. Foram várias, não dá nem pra enumerar aqui, porque eu vou ficar aqui uma semana falando. Mas graças a Deus…

Bom, o fato de você ficar... Eu trabalhei nessa outra companhia durante cinco anos, antes da Avon, e confesso para você que eu achava que a cada cinco anos eu ia ter de mudar de companhia porque você vai, chega uma hora que você começa… A companhia não era tão grande, era uma companhia de umas oitocentas pessoas, mais ou menos. Não mais que oitocentas pessoas, então a chance de crescimento é menor e você fica mais tempo fazendo a mesma coisa que você está fazendo. 

Eu estava realmente saturado de estar trabalhando naquela companhia e ela tinha passado por dificuldades econômicas, então na minha área você comprava, o cara não pagava, a companhia às vezes não tinha dinheiro, atrasava, era muito difícil. Eu estava desgastado, aí saí e fui para Avon, mas achei que cinco anos era o tempo máximo que eu ia ficar trabalhando em cada companhia. 

Fui para Avon e fiquei. Se você somar os dois tempos entre antes de se aposentar e continuando, eu fiquei trinta anos na Avon. Felizmente fui trocando de atividade, então em cada atividade nova você praticamente tem uma nova empresa, quer dizer, totalmente diferente. Isso faz com que a coisa não fique monótona para você. 

Por outro lado, é muita alegria, porque se não fosse alegria eu não teria ficado todo esse tempo lá. 

 

P/1 – O que o senhor considera a sua principal realização na empresa nesses trinta anos? 

 

R – É difícil, é um tipo de pergunta um pouco difícil. Quer dizer, o que de realização... Ter saído vivo de lá. (risos) Saído com vários amigos! E ter saído ainda sendo respeitado. 

Praticamente é isso, ter convivido o tempo com todos os amigos que ainda… A quantidade de "ex" amigos de lá, a quantidade de "ex-Avon” que existe no mercado de cosméticos é muito grande. Todas as companhias têm "ex-avonianos" e me dou muito bem com eles. 

 

P/1 – E como era o relacionamento na época? 

 

R – Fantástico. Nós tínhamos uma coisa que até hoje o pessoal fala: nessa parte de... Não é em vendas, porque em vendas era um pouco difícil esse tipo, a gente tinha outro tipo de __________. Mas nessa parte que eu trabalhei, em suprimentos, nós tínhamos… O happy hour das sextas-feiras era sagrado, então [na] sexta-feira você saía, todo mundo falava: "Não vou para casa." Nós tínhamos um barzinho que a gente ia, tomávamos um choppinho, batia papo e se falava: "Olha, não vamos falar de negócio, aqui está proibido falar de negócio. Vamos falar de futebol, vamos falar de outras coisas". Iam homens, iam mulheres também; ia um grupinho que praticamente era cativo para a sexta-feira. Isso fazia uma aproximação de pessoas muito grande, porque você acabava enxergando a pessoa não só como aquele profissional que chegava e você fazia com que ele cumprisse determinada tarefa. Você enxergava também o outro lado dele: o lado pessoal, o lado engraçado, o lado mais choroso. Você enxergava a pessoa de outra maneira, você batia papo com a outra pessoa como um ser humano; você o olhava como profissional e como ser humano. Isso era muito bacana, esse tipo de convivência. 

Curiosamente agora, inclusive, mês atrás estava caminhando no Ibirapuera. Encontro uma pessoa e falamos: "Vamos tentar reunir aquela turminha que ia no Ilhabela?" O Ilhabela era um barzinho que tinha lá na João Dias, isso no tempo mesmo da João Dias. "Vamos [nos] reunir?" E eu tentei catar então… 

Você mencionou o Freude, que passou aqui; Freude era um deles. Você lembrou um nome aqui que também vou tentar contatar. Nós estamos tentando contatar pra tentar resgatar esse encontrinho das pessoas lá, nesse tempo. 

É muito bacana você olhar a pessoa como profissional, mas olhar a pessoa como ser humano também… Ele, como ser humano, pode estar precisando de alguma coisa, às vezes de uma palavra amiga por uma perda que teve ou outro qualquer motivo, por um problema financeiro que ele está precisando, então a pessoa faz uma quotização, ajuda naquele momento como ser humano. Isso realmente é muito bacana. 

 

P/1 – Senhor Roberto, o que a Avon representava para os funcionários? 

 

R – Olha, não sei se representava ou representa ainda. Representa uma companhia sólida, uma companhia... Hoje se percebe uma pequena mudança em relação ao passado, não é que é saudosista, mas como a companhia era menor você praticamente conhecia todas as pessoas. Você tinha um contato muito grande com pessoas de outros departamentos e pessoas que não tinham, às vezes, relação direta de trabalho com você. Mas você conhecia a menina que fazia a embalagem, você conhecia a assistente de algum outro departamento, você tinha contato com várias outras pessoas porque cruzava frequentemente com as pessoas. 

Hoje, a Avon é uma companhia que tem em vários locais e de 1500 a 1200 funcionários que eram no passado, hoje são quase quatro mil, então é um pouco diferente, é muito difícil você falar “o passado” e “hoje”. São companhias não diferentes, mas são estruturas geográficas diferentes. A pessoa que está em Osasco hoje tem pouco contato com a pessoa que está aqui em Interlagos, com a pessoa que está fora, que está na Bahia. São espaços diferentes. 

 

P/1 – O senhor tem algum caso pitoresco para contar pra gente que aconteceu lá? Que o senhor presenciou ou ficou sabendo? 

 

R – Tem. Em vendas tem um fato supercurioso. Um colega nosso, que lamentavelmente já morreu, Chandor. Quando se começava a trabalhar em vendas - isso eu fiz também - você faz um estágio. Embora eu já conhecesse a companhia - já tinha trabalhado na companhia vários anos na parte de suprimentos - na hora que entrei em vendas precisava entender o que era vendas da Avon. 

Naquela altura, a Avon pedia que você se tornasse uma revendedora. Hoje existem revendedores oficiais; naquele tempo não existia, eram só mulheres. Você tinha todo o material, recebia e tinha que sair para fazer vendas. Fazia a sua venda e ia receber o produto como se fosse uma revendedora, então você passava um estágio tendo uma campanha, fazendo exatamente aquilo, que era para entender como era o mecanismo. E você tinha um espaço geográfico para atuar que não era próximo da sua casa, era bem longe da sua casa, exatamente para você enfrentar a pessoa falar não, falar tudo, quer dizer, as dificuldades normais. 

Esse amigo nosso foi para esse espaço geográfico que foi delimitado para fazer a venda. Olha, é muito difícil porque você imagina um homem bater numa porta e dizer "sou revendedor da Avon", né? (risos) Bom, ele saiu e começou; parou o carro, pegou o material dele. A primeira porta era muito difícil, então ele ia, chegava e voltava, ia e voltava, não conseguia criar coragem. Ele falava: "Não, nessa rua não, eu vou na rua do lado aqui" e foi. Ele ficou com o carro parado e dando volta a pé. Uma pessoa de uma casa o viu se movimentando e falou: "Esse cara, acho que está querendo roubar alguma casa por aqui." O cara bem vestido e tal, mas... Telefonam para a polícia e imediatamente chega uma viatura da polícia: "O que é que o senhor está fazendo aqui?". "Não, eu vou vender." "Falaram-me que o senhor já esteve naquela rua ali. O senhor foi em alguma casa?" "Não, não fui ainda." "O senhor trabalha onde?" "Na Avon." "O senhor tem algum documento?" "Não, não tenho nenhum documento. Estou começando na Avon agora e não tenho nenhum documento ainda." "O senhor trabalha na Avon mesmo?" "Trabalho." "Olha, vamos fazer uma coisa. Nós vamos até a delegacia porque o senhor está com um queixa." "Pelo amor de Deus, o senhor não está vendo? Eu não sou ladrão." E o cara bem afeiçoado, altão. "Então nós vamos ligar para a sua empresa e verificar. Qual é o telefone?" "Não lembro, estou começando agora, eu não tenho." 

Imagina, o cara nunca foi numa delegacia, estava na delegacia apavorado. Pegaram esse telefone, ligaram para a Avon. O delegado liga: "É da Avon? Muito bom dia, o senhor tem revendedor homem?" "Não, senhor. Só mulheres." "Obrigado. O senhor vai ficar preso." "Mas como? Pelo amor de Deus, deixa eu ligar para..." 

Passou um tempo. Ele começou a botar a cabeça no lugar e ligou para casa, fez a casa ligar para a companhia, a companhia ligou para lá. Mas nesse tempo ele ficou umas cinco horas dentro da delegacia - não preso, mas na delegacia. 

Esse é um caso fantástico, mas realmente aconteceu. Não tinha revendedor. Quer dizer, ele não mentiu, nem a telefonista também mentiu. Mas realmente existe um monte de fatos curiosos. Tem inúmeros. 

Tem coisas engraçadas... No tempo de vendas, uma das políticas da Avon era fazer com que a promotora - naquela altura, gerente de vendas - ela não podia usar calça comprida, ela tinha que usar saias. Então não se permite, você tinha lá... O pessoal do Rio Grande do Sul num frio do capeta e não podia usar, porque você imagina uma pessoa no Rio de Janeiro botar uma saint-tropez branquinha, barriguinha de fora e sair como promotora de vendas pra vender. Vai na casa da pessoa, quer dizer, não pega bem essa imagem. Porém uma calça comprida, decente, principalmente no inverno, eu pessoalmente não via nada demais. E as promotoras, naquela altura, do Rio Grande do Sul pediam: "Pelo amor de Deus!" "Não pode." 

Eu fui falar com o gerente geral naquela altura e falei: "Olha, tem situações que são deprimentes lá, você imagina." Então [foi] o caso de um... Eu consegui vender essa ideia pro presidente da companhia, que ela realmente me passou. Ela me falou: "Olha, estava indo..." Ela era de Caxias e Caxias tem uma outra cidade que eu não recordo o nome agora, que é muito frio, superfrio. E ela indo nessa estrada, uma estrada ruim, pedaço de terra, fura o pneu. Ela fala: "Seu Roberto, o senhor imagina eu trocando pneu com uma saia assim. Você imagina o frio que estava entrando. Eu fazendo aqui assim e trocando pneu, suja. A gente tem que botar uma calça que pelo menos suja, mas aumenta um pouquinho mais." 

Eu contei essa história pro presidente. Ele falou: "Pô, você sabe que é uma coisa que eu não tinha pensado." Então, temporariamente e durante o inverno, as promotoras... Falei: "Você me dá isso por escrito", porque você tinha por escrito que não podia. 

Isso era um dogma que a companhia tinha, que hoje deve ter caído em desuso. Mas realmente você precisa, às vezes, [de] um fato desse pra motivar uma pessoa a fazer a alteração de um procedimento que a companhia tem.  

 

P/1 – E quem era esse presidente que a deixou usar calça? 

 

R – Vinícius Bueno. Quer dizer, não só ela, mas todas durante o inverno estavam autorizadas a... Isso era uma coisa curiosa, porque, lógico, você não estava [lá], elas usavam. Esse negócio de “está escrito” alguma coisa… Você acha [que] no inverno do capeta lá, abaixo de zero, no Rio Grande do Sul, elas não usavam? Só que se você cruzasse com elas, elas tinham que sair correndo e se esconder porque não podiam mostrar que estavam de calça. Tipo umas coisas absurdas, né? 

 

P/1 – O senhor trabalhou com mais de um presidente, então, na Avon? 

 

R – Sim. Trabalhei com três presidentes. 

 

P/1 – Com Vinícius... 

 

R – Com Vinícius, com João Maggioli e com Ademar Serotti. 

 

P/1 – O senhor ficou bastante tempo, né? 

 

R – Sim. E quando entrei na Avon ainda existia outro, que chamava Moss. Era no tempo da João Dias. Ele não ficou muito tempo, porque logo depois passou pro Bueno, mas quando entrei na companhia era o Moss, então eram quatro. 

 

P/1 – Vamos falar um pouquinho de família? O senhor tem filhos? 

 

R – Dois homens, Rodrigo e Ricardo. Embora eu tenha dois filhos, dois homens, não tenho netos. 

Um está casado hoje, mas mora em Belo Horizonte, trabalha na Duratex. Ele é gerente pra parte de Minas Gerais, Distrito Federal, Brasília e Goiás, na parte de chapas pra Duratex. O outro trabalha na Mabra aqui em São Paulo e temporariamente está morando comigo. 

Não tenho muito o que dizer de filho, quer dizer, filho é filho. A gente gosta muito, está lá, mas é diferente de companhia. Se eu começar a contar as coisas de filho... Eu sempre tentei me policiar no sentido de não falar muito de filho, porque meus filhos eram pequenos; antes de ter filhos, eu detestava quando chegava a pessoa e falava assim: "Ai, você não sabe que bonitinho. Meu filho fez 'ah!'. Meu filho falou 'papai' hoje. Olha a fotografia." São coisas que são muito boas pra pessoa que está tendo; você pode contar isso pra sua avó, pra avó do nenê, pra sua mãe, pra sua tia, porém são coisas que não vão estar perto de você. 

É a mesma coisa que um cara [que] faz uma viagem. Quando ele volta, ele volta com um álbum de fotografia desse tamanho. Ou pior ainda, um tape. Fala assim: "Olha, vem pra cá assistir." Uma hora de filme, o cara subindo em camelo, descendo de camelo e você não sabe o que fazer, porque fotografia você ainda faz rápido, né? (risos). Mas a fita não dá, um vídeo não dá pra você fazer. 

São coisas que eu acho que a gente tem que se policiar pra não ficar falando muito, porque é desgastante, é chato. Concordam? 

 

P/1 – Então, vamos voltar a falar de Avon. 

 

R – Não, eu posso falar o que você quiser saber, que idade tem, como está, onde está, que faz, o que fizeram. Tudo bem, sem problemas. A única coisa que eu acho que não... 

 

P/1 – Vamos voltar pra Avon, então.  

 

R – Sou viúvo. Desde o tempo que namorei, fiquei com minha esposa. Se ela não tivesse morrido, estaria com ela hoje. Foi um casamento muito perfeito. 

Ela morreu de câncer. Foi muito rápido, desde que descobriu até que ela faleceu foram praticamente três meses. É uma coisa desgastante. 

A gente passa por momentos que você espera. Eu tinha me programado na vida… Eu tinha uma diferença de idade, ela era seis anos mais nova do que eu, então você sempre se programa, primeiro por ser homem; segundo, por mais... Ela era super-regrada, porque fazia muito ioga, chegou a ser professora de ioga. Não comia carne vermelha, não bebia, não fumava, era regrada. Jogava tênis três vezes por semana. Dava aula de ioga quase todo dia. Tinha um espaço, era terapeuta, era nutricionista, quer dizer, fazia tudo bonitinho. Eu achei que ela ia morrer com 120 anos e eu ia morrer antes. 

Você, na vida, se prepara pra tudo aquilo de fazer um negócio de vida, se prepara todinho, faz a procuração, deixa tudo... Achando que você vai morrer primeiro. Ela, lamentavelmente, morreu primeiro e você não está preparado pra isso, mesmo porque, na hora que você sabe, é diferente de você ter uma doença muito demorada. Quer dizer, você passa e... Realmente é um baque, é uma trombada que você vai, pior do que cair um avião em cima. Realmente é uma coisa muito forte, muito desagradável. Mas passou. 

 

P/1 – Qual era o nome dela? 

 

R – Ira. Ira Silvia. 

 

P/1 – Então vamos voltar pra Avon. A Avon tem esse sistema de venda direta. Pro senhor, qual é a importância desse sistema? O que é que valoriza isso? 

 

R – Olha, é um processo muito dinâmico, muito direto. Logicamente, já devem ter te contado como foi o nascimento e porque que a Avon começou a fazer venda porta a porta. 

Existia uma pessoa chamada David McConnell, que já deve ter falado. Esse David McConnell vendia livros e naquela altura, nos Estados Unidos - você imagina cento e quase quarenta anos atrás - era muito difícil vender. Primeiro, a pessoa não tinha muito contato com as pessoas. As pessoas trabalhavam muito. O horário de trabalho das pessoas era mais pesado do que hoje. Trabalhavam sábado, inclusive, então o horário de lazer das pessoas, em casa, era muito pequeno, do homem, do chefe de família. 

A mulher, coitada, era sempre afastada um pouquinho. A mulher não dava muito palpite ali porque o homem que levava, ele que ganhava dinheiro, ele que tomava conta do dinheiro, machista. Era muito fechado. Muitas vezes, ele tinha que ter contato com o homem e ele não conseguia. 

Naquele afã de querer fazer, ele começou a fazer umas amostrinhas de cosméticos, de perfumes. Dava pra pessoa e falava: "Olha, marca com o seu marido [no] domingo ou marca à noite, pra ver." Quer dizer, pra ser simpático. E começou a ver que essa amostrinha que ele estava dando era super _______. A pessoa recebia aquilo como... Ele falou: "Eu acho que estou na profissão errada. Eu vou trocar os livros por cosméticos." E aí fundou uma empresa chamada California Perfume Company e passou a vender. 

Pra mulher, era muito difícil trabalho. A mulher, naquela altura, ou ia ser uma doméstica ou ia trabalhar numa empresa de costura, dentro duma fábrica. Mas o cargo de direção, um cargo um pouco superior na hierarquia de trabalho, naquela altura, era muito difícil. Ele conheceu uma senhora que chamava Mrs. Albee. Mrs. Albee tinha ficado viúva e estava no desespero total porque precisava trabalhar, mas também não queria trabalhar. E ela começou a ser ajudante dele, a revendedora dele, pra ajudar nesse sentido. Ele, no sentido de ajudá-la e ela, ajudando. Houve um crescimento e ela foi a primeira mulher, que inclusive hoje é cultuada na Avon com uma estatueta - não sei se alguém já apresentou, se vocês já viram lá na Avon. Todo lugar tem umas estatuetas da Mrs. Albee. Quer dizer, é uma roupa daquele momento que se usava, não que a pessoa saía trabalhando com aquela roupa.

Esse sistema porta a porta permitiu [que] onde você não tem uma grande fonte de comércio, você fazer uma penetração. Os países onde que a Avon tem maior penetração: Estados Unidos, Japão, México e Brasil. Hoje, praticamente, o Brasil é o segundo país no mundo, só abaixo dos Estados Unidos, em penetração, em termos de vendas. 

Você tem muito espaço ainda, é confortável você fazer uma compra via catálogo. Primeiro, você tem que confiar no produto. Vai ser difícil se amanhã aparece alguém vendendo um produto aqui que você nunca viu na vida, mesmo que esteja num folheto muito bonito, muito bem fotografado e fala: "Compra esse perfume", sem que você sinta. Ou: "Compre esse creme ou isso aqui, que isso aqui faz alguma coisa." Se você não tem indicação de alguém ou você não viu uma propaganda muito bem construída pra te fazer chegar a esse produto, fazer esse link com esse tipo de produto, você simplesmente… Pode até estar barato, você não vai comprar. 

A companhia, fazendo isso, tendo a credibilidade que ela tem, tendo essa penetração e tendo essa pessoa, que muitas vezes é amiga de outras pessoas... Essa pessoa, então, é que vai te convencer a comprar aquilo. Ela vai te explicar que aquele produto serve pra aquilo e tem esse tipo de característica. Muitas vezes ela tem uma amostra; mesmo que ela não tenha uma amostra, ela está sendo a pessoa que está passando a imagem pra frente. Praticamente é a mesma coisa quando você vai numa loja onde tem uma demonstradora de uma companhia e você vai conversar. Se a pessoa é simpática, se a pessoa caiu no seu agrado, você, provavelmente, vai comprar aquele produto porque a pessoa conseguiu lhe passar uma imagem, naquela altura. Mesmo você, às vezes, chegando em casa e falando: "Pó, esse produto não foi exatamente aquilo que ela me passou". mas você comprou. Quer dizer, a importância é isso. 

O sistema de venda direta é excelente, porque a pessoa é uma demonstradora também. É ela que vai lhe levar. O fato dela chegar em você, porque ela é sua conhecida ou tem um relacionamento, você sabe quem é a pessoa. E depois, a própria companhia, hoje, já tem um nome; no passado, quando começa, você não tem, então você precisa ser levado por alguém, realmente, pra fazer essa... 

Existe essa facilidade da venda porta a porta, de você penetrar em países onde o comércio tradicional não é forte. Se você pegar país como a França, a venda porta a porta lá é um pouco difícil. É mais difícil, porque existe muita venda, a França é pródiga em perfumes; tem uma boa parte de cosméticos e a parte de comércio tradicional lá é muito forte. O sistema porta a porta é um sistema muito eficiente, principalmente pra países onde o comércio tradicional não é muito eficiente. 

 

P/1 – Na sua opinião, qual a importância da Avon para a disseminação dos produtos de beleza entre as mulheres? 

 

R – Foi muito grande. Eu acho que a Avon foi um divisor que aconteceu pra uma série de produtos. Hoje, o homem que não usa desodorante só pode ser aquele cara que fica jogado na rua. É inadmisível que uma pessoa não use desodorante. Isso é um fato novo. Se você voltar a 35, quarenta anos atrás, o homem era meio machista, ele achava que passar um sabonete embaixo do braço já era suficiente. Era difícil. Se você pensar que o cara ia passar um protetor solar, alguma coisa… "Pelo amor de Deus, que é isso? Chega. Isso não é próprio pra mim." É só pegar o histórico de vendas de determinados produtos. Antes da Avon existiam aqueles produtos e uma gama assim. Por que? Primeiro, era só onde existia uma venda concentrada. E onde existia uma venda concentrada? Eu não vou falar nome de empresas aqui, mas existiam algumas famosas aqui como Mappin, Sloper e uma série de coisas, mas era só no grande centro. Então quem morava na Penha, por exemplo, tinha que vir à cidade, praticamente, pra fazer uma compra; era onde tinha as melhores oportunidades de compra, os lançamentos. 

Imagina a pessoa que mora lá em Codó, no Maranhão, que mora em Chapecó, que mora em Xaxim. Não tem. Hoje é um pouco difícil, agora muito tempo atrás era praticamente impossível. Existia a farmácia, única, que vendia aqueles produtos. E a farmácia se preocupava em vender medicamento e alguma coisa só de cosmético. Era muito difícil. 

Com a entrada da Avon, esses mercados onde era difícil a penetração começaram a ser visitados pelas pessoas. As pessoas passaram a ter - e o mais importante: a revendedora recebia um treinamento inicial. Naquela altura, a Avon começou… Existia uma coisa chamada portfólio, que a pessoa recebia. Ela pagava, mas pagava a preço de custo: um creme, um desodorante. Eram três ou quatro, não lembro bem os produtos, mas era um creme nutritivo, uns produtinhos e uns frasquinhos de perfume, um frasquinho de base, onde ela praticamente demonstrava aquilo. Então, ela fazia uma iniciação. A primeira pessoa era ela. Ela, que até então nunca tinha tido um contato muito mais perto de um produto nesse sentido, passou a ter. Na hora que ela teve, ela se contentou. Lógico que ela usou, as filhas usaram, as vizinhas usaram, as parentes que estavam ali por perto usaram. Ela começou a disseminar aquilo e começou. 

Isso foi uma alavancagem. Você imagina uma penetração: uma pessoa sensibiliza quantas? Vinte? Trinta? Cinquenta? Isso fez com que pessoas que não estavam habituadas a usar determinados produtos passassem a usar. 

Esse foi o grande mérito da Avon. E das companhias, depois que surgiram, porta a porta, pra fazer essa disseminação. Antes era assim: a pessoa, pra querer comprar, ela tinha que ir visitar. E naquele momento que a Avon começou, ela passou a ser visitada pela pessoa [da Avon]. Querendo ou não querendo, ela estava recebendo. Muitas vezes ela comprava pra: "Ah, vai. Eu vou comprar pra ajudar", mas acabava gostando. Nesse comprar pra ajudar, acabava usando e repetindo, que é o mais importante. Graças a Deus. 

 

P/1 – Qual a sua visão sobre as ações sociais da Avon? 

 

R – Elas são bastante e eu acho que a Avon não faz alarde daquilo que faz tanto quanto deveria fazer. Tem companhias que fazem uma coisa muito pequena e fazem uma publicidade desse tamanho. Não quero aqui ser anti-ético e mencionar nomes de companhias, mas existem várias companhias que usam de uma série de subterfúgios e nomes e nichos de atuação que são relativamente pequenos em termos de doação, de desprendo de dinheiro colocado nesse tipo de coisa), mas eventualmente coloca mais dinheiro na publicidade do que fez do que praticamente no ato, na ação de ter feito. 

Isso eu tenho comentado sempre com a pessoa da Avon, continuo ainda conversando. Eu acho que a Avon tem que ser um pouquinho mais aberta nesse sentido. A Avon começou uma campanha muito forte, não só aqui, internacionalmente, sobre o câncer de mama. Ela compra equipamentos, faz doação de equipamento, faz campanhas anuais; ela vende, ela devota. Quer dizer, não só o fato de ela entregar dinheiro pra esse tipo de atividade, mas ela leva essa imagem,através das revendedoras. Pro "toque", pra "se toque", tudo aquilo. Quer dizer, você imagina, você está levando isso pra um milhão e cem mil pessoas. Isso já é um contingente de gente, imagine se esse milhão consegue colocar isso pra três pessoas na frente, não mais do que três pessoas; você já está colocando pra três milhões de pessoas. Quer dizer, são ações muito grandes, nesse sentido de estar colocando, e pouca gente sabe disso. 

Recentemente, eu vi outra companhia, exatamente sobre o câncer de mama, fazendo um grande alarde, que fez, que colocou. E eu conhecendo a história da Avon, de tudo que o Instituto Avon faz, com o Lírio Cipriani, fazendo toda aquela campanha; praticamente é uma coisa meio velada, porque a Avon é, mais ou menos, low profile nisso. Ela fica meio quieta, não quer fazer muito alarde. Eu, pessoalmente, acho que não tem que fazer muito alarde, mas também que sair um pouquinho do espaço, tem que se mostrar um pouquinho mais. O pessoal precisa saber o que está sendo feito. Não acima do que está sendo feito, mas pelo menos aquilo que está sendo feito. Essa divulgação é muito importante. 

Fora isso, existe uma série de ações. Eu sou voluntário num asilo de senhoras. São pessoas que não têm capacidade, então é um grupo de pessoas que levam o asilo, um asilo muito bem montado, superlimpo. A Avon já contribuiu várias vezes com isso, com prendas, com alguma coisa. Então, imagina, esse é um que eu tenho contato e sou voluntário; existe outro monte que a Avon faz doações. Isso não aparece. Isso é uma coisa um pouco fechada, não existe uma coisa dirigida. 

Você pega a companhia que faz uma bandeira daquilo que está fazendo e aparece em todos os jornais. De uma certa forma, isso ajuda um pouquinho a melhorar a credibilidade da companhia, porque você fala: "Pô, essa companhia está fazendo alguma coisa." Você associa uma imagem que a pessoa fez alguma coisa, que está lá. 

Nesse ponto, eu acho que a Avon devia sair um pouquinho da toca e ir mais um pouco mais pra frente. 

Mas é muita coisa. É muita coisa mesmo. 

 

P/1 – Na sua opinião, qual a importância da Avon para a história dos cosméticos? 

 

R – É muito grande. Se você falar a história do cosmético internacional e aqui... Vamos nos ater a Brasil, pra ficar mais fácil. Existem uns dois ou três livros falando sobre perfume - um da Renata Ashcar, que fala sobre a história do perfume aqui, e ela menciona vários que são alguns lançamentos da Avon. Existe perfume da Avon que acho que a mãe de vocês um dia deve ter usado: um chama-se Topázio, outro Toque de Amor. Já ouviram falar disso? Carisma. Esse Topázio é um perfume baseado, um pouco, em perfume francês, um pouco derivado. É um perfume muito forte, mas é um perfume que marcou época. 

Hoje, se você olhar no mercado, você tem tudo. Você tem uma abertura total. Você vai em qualquer esquina e você compra um produto importado. Mas se você olhar, há um tempo atrás, você não tinha essa possibilidade, então esses perfumes marcaram época naquele tempo. Foram lançamentos que não existiam, então foi uma coisa que foi de encontro a um anseio, a uma necessidade que a pessoa tinha, de ter uma coisa diferente do que simplesmente uma lavanda, do que alguma coisa que o pessoal usava naquele tempo, de ter um perfume diferente. 

Se você falar: "Pô, esse perfume está ultrapassado." Talvez esteja, mas não totalmente, porque ele não conseguiu sair de linha ainda. Cada vez que a Avon tenta tirar o perfume de linha alguma coisa acontece, o perfume continua lá em linha, ainda. Então, existe um grupo de pessoas que tem. O fato de você ter lançado isso nessa altura - altura, quando eu falo, [é] há trinta, 35, quarenta anos, faz com que fosse um divisor. Que fosse alguma coisa que vem contribuir pra, realmente, uma abertura.  

 

P/1 – Qual o fato mais marcante que o senhor presenciou ao longo desses seus anos todos na Avon? 

 

R – Quando você tem muitos é difícil você eleger qual o melhor. A mesma coisa é você perguntar: "Qual é o cantor preferido? Qual é a música preferida?" É difícil, porque se você tivesse pouquíssimos, é mais fácil. Se tiver três, você fala: "Bom..." Mas tendo vários... 

Fato marcante, realmente, é difícil. Você precisaria ter perguntado isso uma semana antes pra [eu] ficar uma semana procurando alguma coisa realmente mais marcante do que outras, então se você fala, você vai deixar outras pra trás. Realmente, é difícil. Se eu lembrar de uma coisa que sobressaiu muito, daqui a pouco eu te falo. 

 

P/1 – Vou fazer uma mais difícil agora. E os maiores aprendizados de vida? 

 

R – Ah! Esses foram muitos. Comecei entender o que é Brasil... Bom, primeiro, profissionalmente, eu cresci muito na hora que comecei participar de tecnologias que não existiam pra mim até então e não existiam pra muitas pessoas aqui no Brasil. Você ia aos Estados Unidos, via aquilo que estava sendo lançado, que havia uma defasagem. Naquela altura, havia defasagem de dez anos na frente. E você trazia coisas que... 

Quando eu falo isso, parece que o negócio é difícil. Você imagina, sem internet, sem grandes comunicações. Hoje você aperta um botão, vai buscar o que você quiser. Naquele tempo, você não tinha isso. Pra você se comunicar, tinha um negócio chamado telex. Telex era uma fita que saía assim, você não podia falar muito porque era um telegrama. Ou telefone... Nossa Senhora! Cada vez que a gente ia falar com os Estados Unidos, você se preparava o dia todo pra falar. Primeiro, no sentido de ser audível, porque não era muito boa a comunicação. Segundo, seu inglês, às vezes, não era compatível com o inglês que você precisava num telefone, que aqui faria ____________, sabe? Era muito difícil, então você se virava muito em telex, que era mais barato. 

Naquela altura, a companhia tinha uma máquina de telex, que ficava ligada, mas todo mundo podia usar aquela máquina e era limitado o seu tempo pra usar. E tinha uma operadora de telex - quer dizer, você fazia a mensagem, ia pra operadora. [Ela] falava: "Está muito grande esse texto.” Aí você tinha que dar uma reduzida no texto.

Você não tinha grandes conhecimentos, aí você ia pra lá. E a Avon te arranjava visita pra vários fornecedores, onde eles estavam fazendo o que era de melhor, mais avançado, àquela altura. Primeiro, você babava, de falar: "Que coisa bacana!" Mas você vinha com aquela imagem, tentava vender essa imagem, trazendo o que você conseguia: fotografia, impressos, desenhos, alguma coisa daquilo que era a nova tecnologia. 

Nesse ponto eu cresci muito. De saber como é feito um plástico, como é feito um cartão impresso, como é feito um vidro, o metal. Você tem participação nisso tudo. Como metaliza uma coisa. Isso é fantástico, porque é o nascimento das coisas. Eu só vou te fazer um paralelo: quando eu comecei a trabalhar, eu queria saber como [se] fazia plástico, antes de ter tido essas oportunidades de ir aos Estados Unidos pra verificar. Entrei em contato com a companhia de plástico e falei: "Olha, quero ver como vocês fazem o plástico, aqueles espaguetinhos pra fazer a peça plástica.” O cara falou: "Olha, são duas fábricas. Uma está em Cubatão e outra está aqui em São Bernardo. Em Cubatão a gente faz o polímero e em São Bernardo a gente faz o poliestireno." Pra mim, aquilo era tudo grego. Falei a mesma coisa que vocês aí: "Um polímero, um poliestireno, que é isso?" Então: "Não, eu quero conhecer as duas." "Ah, mas é difícil, porque pra saber [sobre] o polímero, aquela fábrica é cheia de coisa. Tem dias pra visitar." 

Dois meses pra frente eu consegui marcar um dia pra visitar essa fábrica. Saí de São Paulo, fui pra Cubatão. Fui visitar todo entusiasmado, “vou ver como faz o polímero pra fazer o plástico”. Você entra, o cara te dá um sapato diferente, um avental, capacete, te tira o cinto, tira o relógio, tira isqueiro, tira tudo. Você já está preparado, você é um astronauta. E você entra: "Legal, hoje vou ver como se faz um polímero." Aí você entra, você vai vendo canos, canos, canos…. Bú! Acabou a fábrica. 

Onde faz? E o cara explicou: "Olha, aqui faz, aqui cataliza, aqui faz isso, aqui faz aquilo." Só vi cano, porque tudo é feito dentro de canos. 

Eu saí de lá frustrado. Falei: "Nossa senhora. Saí aqui pra ver alguma coisa e não vi nada." Vi sair um líquido lá, aquilo era o polímero que o cara fazia. Eu olhei pra aquilo e falei: "Bom, pelo menos..." Mas não entendi nada. 

Aí fui visitar a fábrica de São Bernardo, onde pegava o polímero e fazia o plástico. Foi mais ou menos a mesma coisa. Entra o líquido e sai uns macarrõezinhos pequenininhos. Aquilo é o plástico, pra depois ser injetado. 

Toda essa fase, parar pra pensar, falar: "Pô, tem alguma coisa. Ou eu entro e vou tentar saber de fato, exatamente, o que está acontecendo..." Porque o fato de olhar superficialmente... Eu não vou entender nada. Estou vendo aquele monte de cano, pode ser que tivesse algum cano diferente - se eu entendesse, naquela altura - superespecial. Mas, pra mim aquilo foi cano, não foi nada diferente. 

Quando eu passei a ir pros Estados Unidos, aí você já tinha a necessidade de saber por que um cartucho sai de uma máquina, passa por uma luz chamada ultravioleta, UV, e já está pronto, que você pode em cima. E aqui ficava no ar, esperando secar durante dois dias, praticamente, pra você usar. Nossa, às vezes você está com uma pressa de querer aquele impresso; aquele impresso ia e ficava tudo empilhado. Só dois dias depois é que ia ser cortado pra fazer o cartucho. E você ficava esperando lá, soprando pra ver se fazia. Na hora que você sabe a necessidade e você vê o cara com a luz UV, fala: "Nossa, isso é o segredo de tudo." 

São tecnologias que várias delas eu vi como fazer. Ver fazer uma bijuteria. Fantástico. Desde o nascimento, como o cara faz com a cera. Faz com a cera perdida, depois vai indo. 

Essa foi uma parte gratificante que a Avon me proporcionou, pra que eu tivesse conhecimento e pudesse passar esse conhecimento pro pessoal.  

 

P/1 – O que o senhor acha da Avon estar resgatando a sua memória através desse projeto? 

 

R – Eu acho fantástico. Inclusive, há dois meses e meio atrás o Felipe fez um almoço de cinquenta anos, convidando as pessoas que trabalharam com a Avon. E nesse dia, inclusive, tinha - coisa muito difícil - quatro ex-presidentes da Avon. Dois deles sempre tiveram um pouco de desafeto, mas estavam presentes e a coisa foi muito serena. 

A Avon tinha ficado um pouco desassociada disso, desse contato com o pessoal que um dia ajudou a Avon nesse período de crescimento, que não foi período do Felipe, que não [foi o] período do pessoal que está hoje lá, mas é um período que passou. É um período baseado na história desse pessoal que passou; teve uma certa importância, porque ajudaram a Avon chegar no dia de hoje. E o Felipe, eu acho que ele teve hombridade, teve uma visão de chamar uma parte desse pessoal, pelo menos. Acho que ele vai fazer com vários outros, outros encontros também, no encontro de cinquenta anos da Avon Brasil. 

Foi muito bacana porque a importância pra esse pessoal foi, talvez, um pouco menor do que a importância dos funcionários que estão lá hoje, que não sabiam, de ver como é tratada a pessoa que um dia vai sair da Avon. Tem pedaços em que o pessoal entrava, a equipe toda batia palma e ninguém tinha preparado isso. Mas foi um ato que o funcionário que está lá, novo, sem conhecer muito essa história passada da Avon, [fica] sabendo que um dia, saindo, pode ser tratado da mesma maneira que a direção da empresa recebe um grupo de pessoas que já tinha passado pela Avon e já não estava mais. Acho que foi uma parte muito importante pro pessoal que foi convidado, mas também pro pessoal que não foi convidado, que é o pessoal que estava lá dentro. 

 

P/1 – E o que o senhor acha de estar participando desse projeto, através dessa entrevista? 

 

R – Eu espero que [em] alguma coisa eu possa ter contribuído. É difícil com palavras expressar e contar muita coisa, mas o que eu posso passar, vocês devem ter percebido e vai ficar registrado. Eu creio que eu não falei nada que fosse negativo contra a empresa, só positivo, porque com todo esse tempo eu só lembro de coisas positivas. Existiram negativas? Lógico, mas elas sumiram. Elas foram tão poucas e tão pequenas que sumiram no passado. Lembro de uma série de coisas positivas, que é a parte mais importante. É aquilo de bom que fica. 

O fato de estar hoje fazendo um depoimento… Se tivesse, logicamente, tido ideia mais ou menos do que seria, poderia até ter reunido alguma coisa e falar: "Puxa vida, eu preciso falar disso, falar daquilo." Mas tudo bem, eu acho que fazer a coisa espontânea vale mais do que uma grande preparação, não é?  

 

P/1 – O senhor tinha comentado que queria contar um fato pra gente. O senhor quer aproveitar e contar? Sobre sua experiência com a televisão? 

 

R – Já tinha até esquecido disso. Quando eu era jovem, ainda tinha um programa no canal sete e eram dois canais, em São Paulo, importantes: um era o canal quatro, outro era o canal sete. Não tinha Globo, não tinha nada. Eram esses dois só que tinha. E a gente ia frequentar... Eu tinha um amigo que era do canal sete e tinha um programa na hora do almoço chamado Programa Iane Júnior. Era um programa tipo Almoço com as estrelas, eram mesinhas, _______. A gente queria ir lá, porque lá estavam as meninas, paparicadas. Imagina, [um] garoto de dezoito, dezenove anos, que eu tinha naquela altura, você queria estar naquele meio. Eu não queria ser artista, mas queria estar naquele meio.

Naquela altura, eu fazia uma crônica social pra um jornalzinho de bairro, da Vila Mariana. Tinha um jornalzinho chamado Gazeta da Vila Mariana, onde eu escrevia uma crônica social. Crônica dos bailinhos, das coisas que aconteciam por ali. E esse amigo convidou. Falou: "Pô, você não quer fazer isso na televisão? Só que o dinheiro vai ser muito pouco." Falei: "Bom, eu não me importo, não quero nem ganhar nada. O fato de fazer pelo menos divulga alguma coisa." "Ah, então vai no primeiro dia." 

Naquela altura, no tempo de formação, a gente fazia teatro, isso tudo antigo. Quer dizer, eu já tinha ido pra palco, já tinha feito apresentação, então não é que eu tivesse vergonha de apresentar. [Da] primeira vez sim, porque na hora que abre a cortina, que você vê aquele monte de gente, os joelhos tremem, né? Depois você se enquadra e realmente vai indo. 

Bom, nesse programa do Iane Júnior, minha primeira apresentação era sentar numa poltrona muito bonita, eu todo de gravata, com blazer. Tô sentado, toda aquela encenação, vem o cara e faz a maquiagem. Você se prepara todo. "Quer ensaiar?" "Não. Pra que ensaiar? Não precisa." 

[O] que eu ia fazer? Eu tinha que pegar o convite, o convite era mais ou menos desse tamanho, mais ou menos assim. Eu segurava o convite aqui e falava sobre um acontecimento, sentado assim, bem tipo um cronista que tinha naquele tempo, que chamava Jacinto Ditones. O cara era... Com o blazer, assim. Eu tinha que segurar aquilo e fazer isso. 

"Ah, tá bom. Quer ensaiar?" "Não, não precisa ensaiar, pô. Que é isso? Eu vou falar, eu sei." O texto era desse tamanho. "Eu vou falar o que está aqui, apresentar. Tá tudo bem." "Tá tudo bem." 

Sento, a mulher vem aqui, tira o babador, arruma. E vem aquele mundaréu de gente, cinquenta pessoas ali na frente. Eu estou preparado. Naquela altura, você já vai ficando meio ansioso. Já começa a acender as luzes, porque até então estão poucas luzes acesas. Aí começa aquele monte de luz, você já começa a ficar meio cego e já começa a ficar no centro da atenção, aí falam: "Quando acender a luzinha vermelha..." Era direto, não tinha videotape. Era gravação ao vivo. "Tá legal."

Acendeu a luzinha e eu com o convite aqui. Eu senti que minha mão estava tremendo. Falei: "Vou segurar com as duas, porque é mais fácil." (risos) Segurei com as duas. No que eu seguro com as duas, eu comecei a botar aqui, só que… (risos). O convite está falando. E eu via um monte de cara, assim, pulando "aeeeeh", lá na frente. Eu olhava aqui mas não se entendia que o nego tava falando. E eles não podiam falar, porque estava ao vivo. Depois de um tempo que eu percebi porque todo mundo fazia assim. (risos). Aí eu peguei o _____, pus pra cá. Mas nossa, como foi difícil aquele momento. 

Apagou a luzinha vermelha e fiz: "Oh..." (risos) Essa foi a primeira experiência quando acende aquela luzinha vermelha, aquele monte de holofote. É diferente, né?  

 

P/1 – O senhor quer deixar mais alguma mensagem? 

 

R – A mensagem, se isso vai pro histórico da Avon: eu só tenho que agradecer esse tempo que eu trabalhei na Avon e da maneira como eu sou tratado, ainda, como ex-funcionário da Avon. Eu tenho um crachá, como ex-funcionário. Isso são pouquíssimas companhias que fazem. Com esse crachá eu passo na catraca e tenho entrada livre. Posso entrar, vou entrar na companhia, vou na lojinha fazer compras. Posso ir ao banco. Quer dizer, lógico, eu sou cerceado pra não ficar andando e passeando pela empresa. mas [para] determinados locais eu tenho isso.

Eu não conheço nenhuma companhia desse porte, desse tamanho, onde se tem esse tipo de atividade, que permite você, mesmo saindo da Avon, sem saber o que você está fazendo, de continuar participando dentro da empresa. Acho que é um voto de confiança que a companhia lhe participa. E é difícil você falar alguma coisa contra a companhia. Não existe um ato que você fala. 

Foi um fato curioso. Quando eu saí da Avon oficialmente, depois, teve algumas pessoas, advogados, que vieram falar assim: "Você já foi procurador da Avon?" Falei: "Um tempo, já." "Você já viajou muito pela Avon?" "Já." "Você não quer entrar com uma ação contra a Avon? Porque todo esse tempo de viagem, isso vai contar como tempo de serviço. E a Avon, provavelmente, acho que não te pagou esse tempo. O tempo de dormir no hotel, de ficar fora." Eu falei: "Não." A Avon te paga as oito horas ou aquelas pretensas oito horas - você trabalha dez, doze. Várias vezes eu passei a noite trabalhando até meia-noite, duas horas, porque já tinha responsabilidade. E nunca pensei em cobrar. Eu falei: "Não, isso não me passa na cabeça." 

Eu fui contratado pra uma determinada responsabilidade. Se eu não assumir que ia viajar e passar uma semana fora, o tempo que eu passei jantando, dormindo no hotel, não pode contar aquilo como tempo de serviço. O cara: "É, mas a gente entra. E depois, na negociação, sempre sobra um dinheiro." Lógico, ele quer um dinheiro pra isso, mas sei que uma ou duas pessoas só, graças a Deus, parece, pra companhia, fizeram alguma coisa sobre isso. Eu acho inadmissível uma companhia que te propiciou tudo aquilo, que você concordou com aquilo que estava fazendo... Eu nunca fui forçado a fazer alguma coisa, fui convidado a fazer. E você depois voltar atrás e falar: "Não, não é bem isso aqui não. Eu vou entrar contra a companhia, porque vocês estão certos ou estão errados", ou alguma coisa. 

Eu não tenho nada contra a companhia. O que eu posso falar é exatamente... É uma grande companhia. É uma companhia que, por ser grande, vai continuar por muito tempo. 

 

P/1 – Então, em nome da Avon e do Museu da Pessoa, nós agradecemos a sua entrevista. 

 

R – Obrigado a vocês.




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