Busca avançada



Criar

História

“Mais importante que o Flamengo, só minha filha”

História de: Maria Kramer Botelho (Terezinha)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/06/2019

Sinopse

Flamengo. Infância. Mulheres torcedoras. Torcida. Amor ao time. Dedicação. Rio de Janeiro. Futebol.


Tags

História completa

P/1 - Bom dia. A gente começa sempre perguntando para os nossos entrevistados o nome, local e data de nascimento. 

 

R – Meu nome é Maria Kramer Botelho, mas no Flamengo todos me conhecem como Teresa.

 

P/1 - Qual a data do seu nascimento e local?

 

R – Cinco de março de 1930.

 

P/1 - O nome dos seus pais?

 

R – Alcebíades do Nascimento Botelho e Teresa Kramer Botelho. 

 

P/1 - Por que você se chama Teresa, se seu nome não tem Teresa. 

 

R – Porque minha mãe tinha o nome de Teresa e eu pequenininha dizia: “Se  minha mãe é Teresa, eu sou Teresinha.” Mas como Teresinha não ficou, depois de velha ficou Teresa. (risos)

 

P/1 – Você poderia dizer a origem de seus pais?

 

R - Meu pai era português e minha mãe americana.

 

P/1 - E você sabe por que eles vieram para o Brasil?

 

R – Não. Meu pai veio antes. O motivo foi o filho dele, que até já foi entrevistado por vocês. E foi dono do Jornal do Comércio. Então meu pai e meus irmãos vieram todos pra América. Minha mãe morava aqui, meu avô era austríaco radicado nos Estados Unidos e depois de uma certa época ele veio para cá, já casado com a minha avó, que era portuguesa. 

 

P/1 - E você conheceu seus avós?

 

R - Não. Minha avó, não. Conheci meu avô materno. E meus avós paternos, todos os dois portugueses, eu fui a Portugal e os conheci. 

 

P/1 - E aqui no Rio, você morava onde Teresa?

 

R – Morava em Botafogo, na Rua Pinheiro Guimarães. 

 

P/1 - Você lembra dessa casa?

 

R - Lembro. 

 

P/1 – Como era?

 

R – Eu nasci, casei, minha filha nasceu lá e agora ela é _____ um laboratório.  Nós vendemos pra eles. 

 

P/1 – E como é que era a casa?

 

R – Era um casarão muito grande, com frente para uma rua, fundos para outra.  Tinha muitos cachorros sempre na casa. Era uma época boa, em que a gente vivia melhor... Que podia... Não tinha esse perigo que existe hoje. Qualquer pessoa que batesse à porta, entrava. Era diferente. E nessa rua morava também nosso técnico eterno, que é o Carlinhos. Conheci o Carlinhos menino. 

 

P/1 – E como era o entrosamento entre os vizinhos?

 

R – Muito bom, porque nós moramos lá muitos anos, e tinha vizinhos também de muitos anos.Aquela disputa. Flamengo. Um é, outro não é.

 

P/1- Do que você costumava brincar quando criança?

 

R – Eu sempre fui meio rebelde. Sempre gostava muito de brincar com os meninos. Em casa tinha um quintal grande. Eu gostava mais de brincar com os meninos.Não era muito chegada à boneca, não. 

 

P/1 – E do que vocês brincavam?

 

R - As brincadeiras da época. Era barra-bola, piques, essas coisas. Acho que atualmente a garotada nem sabe o que é.

 

P/1 - E o que é o barra-bola. 

 

R – Uma espécie de… Ficava um grupo do lado de cá e outro grupo do lado de lá jogando a bola, arremessando a bola pra pegar a bola. Sei lá. Um vôlei, vamos dizer, sem rede. Um vôlei sem rede. 

 

P/1 - E como era a relação com os pais? Os pais aceitavam?

 

R – Tive pais maravilhosos. Eu fui filha única. Única neta por parte de pai. Meu pai tinha oito, sete irmãos. Eu era a única neta. Por parte de mãe eu era a única neta, com seis irmãos que minha mãe tinha. Então fui muito paparicada. 

 

P/1 – Faziam todas as suas vontades?

 

R – Faziam. E meu pai, português... Aliás, da família do meu pai, dos irmãos radicados aqui no Brasil, não tinha nenhum daquele outro time. (risos) Eram flamenguistas e tem um que ainda é vivo, que é Botafoguense. 

 

P/1 - E seu pai chegou ao Brasil, logo se entusiasmou pelo Flamengo... Como é que foi?

 

R – Meu pai remava pelo Flamengo. Ele remava pelo Flamengo. E eu vou ao futebol desde quatro anos, desde muito pequenininha eu ia aos jogos todos. Minha mãe era muito entusiasmada, meu pai era serião. Era um torcedor sereno, que não se manifestava. Minha mãe, não. Minha mãe se manifestava... Nós íamos a todos os jogos. Meu pai entrou pra sede do Fluminense e eu do Botafogo, para que nós pudéssemos acompanhar o clube na zona Sul. Em São Januário, não, porque era um ambiente muito complicado, um local diferente.

 

P/1 - Mesmo ele sendo de origem portuguesa, o Vasco...

 

R - Não. O que acontece é que os rubro-negros flamenguistas não são doentes porque não existe flamenguista doente. São saudáveis. São flamenguistas mesmo.  

 

P/1 - O seu pai então era remador do Flamengo.

 

R – Era remador do Flamengo. Em 1930, que foi o ano que eu nasci, ele já era sócio remido. Então, eu, desde que nasci, sou Flamengo. Nem tive opção. Graças a Deus.

 

P/1 - E sua mãe era também...

 

R – Flamengo, Flamengo. Eu não conheci, mas eles frequentavam o campo lá da Rua Paissandu. Eu tenho fotografias em casa com minha mãe de chapéu, toda

equipada. Era na rua Paissandu. 

 

P/1 – Quais são suas primeiras memórias de assistir um jogo?

 

R – O primeiro tricampeonato do Flamengo, que eu tinha doze anos e eu me lembro que eu sentei numa… Foi na grade. E no meio da arquibancada tinha um local destinado aos sócios remidos, conselheiros, etc. E eram umas cadeiras tipo dessas cadeiras que fecham, tipo cadeira… Como é que eu poderia explicar? Cadeiras que fecham mesmo. E eu, na hora do jogo, eu subi na cadeira, botei o pé atrás e prendi a perna na cadeira. Mas foi a primeira emoção que eu me lembre. Depois dessa...

 

P/1 - Como era o estádio, a torcida nessa época. Você tem recordação de como era? O que elas cantavam?

 

R - Nós frequentávamos o Fluminense e todos lá sabiam que nós éramos rubro-negros. Todos. Nós almoçávamos lá no clube. Mas todos... O garçom era Flamengo também. E todos sabiam. Havia uma cordialidade, havia um respeito. Hoje em dia isso é impossível. Hoje em dia não existe. 

 

P/1 - E dentro do estádio, como era a convivência? Como é que eles se vestiam, eles iam já com a camisa do time, cantavam alguma coisa?

 

R - Olha... Eu nunca fui com a camisa do time até... Depois eu me casei muito nova e me separei muito nova. Aí depois eu passei a frequentar o Maracanã. No Maracanã eu ia de camisa do Flamengo. Eu era jovem, enfrentava muita dificuldade, ia de ônibus. Um dia nós fomos de ônibus e, quando chegou na Rua de Santana, tinha sumido a carteira de uma pessoa e foi todo mundo parar no distrito ali perto da praia da Igreja de Santana. Na hora de saltar, o comissário disse: “Não. A senhora pode ficar.” E os demais todos saltaram para verificar quem tinha batido a carteira. Mas era muito melhor. 

 

P/1 - E essa lembrança que você tem do tri? Você lembra de algum gol especial?

 

R - Gol do Valido. O gol do Valido, que foi contemporâneo do Zizinho. O Valido frequentou o Boca Maldita, que é um reduto dentro do Flamengo frequentado por dirigentes, beneméritos, sócios. E o Valido frequentava o recanto lá, que nós pusemos o nome, tem uma plaquinha. Você fez uma entrevista lá há pouco tempo, não fez?

 

P/1 – Fiz.

 

R - Então. Nós pusemos uma plaquinha do lado de fora: Recanto Flávio Costa. E a Boca, tem o nome do presidente da Boca, que é José Quintela. E eu sou diretora social da Boca. 

 

P/1 - Voltando um pouquinho à sua infância. Quando você ia ao estádio com o seu pai, a torcida cantava alguma coisa? Como é que era?

 

R - Cantava. Cantava. Eu me lembro. Tinha a charanga do Jaime de Almeida, que é o marido da Dona Laura. Falecido ele. A charanga cantava e os músicos cantavam o hino do Flamengo. Não cantavam o que se canta hoje. (risos) Que hoje em dia as pessoas esquecem de torcer por um clube para agredir o time contrário. É incrível. Mesmo a nossa torcida. Se preocupa em achincalhar o time adversário em vez de enaltecer o nosso clube. Eu acho errado. 

 

P/1- Nessa época, no seu começo como torcedora do Flamengo, tinha muitas mulheres nos jogos?

 

R - Poucas. Eu ia ao Maracanã sozinha. Eu ia com uma amiga e essa amiga estudava, trabalhava, não gostava de futebol. Então ela ia com um sacrifício sem tamanho. Um dia eu disse a ela: “Olha. Eu tenho que assumir. Se eu quero vir, eu tenho que vir sozinha.” Tinha um senhor que era contra regra da TV Rio. Ele tomava conta do placar do Flamengo, atrás do gol. Seu Américo, falecido. Aí seu Américo dizia pra mim: “Terezinha, vem que eu guardo seu lugar.” Porque o Maracanã enchia, ficavam pessoas entre os degraus. E ele: “Pode vir...” E como ele trabalhava na TV Rio, nós depois voltávamos pra Copacabana. Então, durante muitos anos, eu fiz isso. Mas ele faleceu. Essa minha amiga... Era muito sacrifício. Ela trabalhava no Fundão, estudava de noite naquela faculdade da Praça da República. Então, quando eu menos esperava, ela, sem gostar de futebol... Eu falei: “Olha, eu tenho que assumir. Ou eu vou sozinha, ou desisto.” Aí eu ia sozinha, por isso eu entrei na raça. Um dia eu queria ir a Campos e digo: “Como é que eu vou a Campos sozinha?” Estava eu e a ex-mulher do Godinho, que foi nosso campeão de basquete. Aí eu disse: “Telma, vamos lá numa dessas torcidas perguntar se nos aceitam, porque nós duas já coroas... Vamos ver se eles…”  Aí fomos lá e fomos a Campos. E depois ela desistiu e eu continuei. Aí fui a tudo: Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia, Argentina, Brasil de ponta a ponta... 

 

P/1 - Teresa, nessa sua juventude, como é que era o Rio de Janeiro? O que você gostava quando jovem e depois?

 

R - Quando jovem eu gostava muito de dançar.

 

P/1 - De dançar?

 

R - Gostava muito de dançar. Fora o futebol que eu ia sempre, eu gostava muito de dançar. Acho que, como a maioria das pessoas jovens, eu gostava muito de dançar. E eu dancei muito com um senhor... Nós nos reencontramos agora no Flamengo. Ele já era quase noivo da atual senhora dele, mas nos reencontramos agora, dez anos, quinze anos... Que é o Dálio Capitelli. É o Pato Rouco, delegado. 

 

 P/1 - Você dançava onde? Vocês saíam pra dançar?

 

R - É uma história triste. (risos) Porque eu dançava no Botafogo e no Fluminense. 

 

P/1 - Tinha uma vida social muito grande no Clube Fluminense, né?

 

R – Exatamente. Era um nível bom. Então era o clube que eu frequentava. Era o Fluminense. Na época tinha muito baile de formatura. Término de ginásio já era formatura. Grandes orquestras.

 

P/1 - Quais orquestras?

 

R - Orquestra do Chiquinho, que era uma orquestra de músicos da Rádio Nacional. A orquestra era um apanhado de músicos de grande categoria, inclusive Paulo Moura; o irmão dele, Waldemar de Moura; esse menino que morreu agora, o Baden. Todos eles faziam parte da orquestra do Chiquinho. Eram grandes músicos, músicos da Orquestra Sinfônica Brasileira. Mas o Chiquinho juntava aquele grupo, quase sempre os mesmo, e eles corriam o Brasil todo. Era uma grande orquestra. 

 

P/1- E o que tocavam?

 

R - Tudo. Tudo. Tudo de um modo geral. Na época era boogie-oogie, que não existe mais. Samba, blues, bolero... Tudo. 

 

P/1 - E em relação às festas de Carnaval, que também eram conhecidas? 

 

R - As quentes eram as do Botafogo. Botafogo e as do Iate. O Carnaval no Iate era muito animado. E essas festas de formatura eram em vários lugares. No antigo Cassino Atlântico... Em vários lugares. 

 

P/1 - E a escola Teresa? Você estudou onde? 

 

R – Eu estudei no Sacré Coeur de Marie até o quinto ano primário. Depois eu estudei um ano no colégio inglês, na praia de Botafogo. Colégio Aldridge, mas ele acabou porque foi a época da guerra. Ele acabou. Aí, eu fui para o Anglo Americano. Aí saí das freiras para um colégio misto, super moderno na época. Foi o primeiro colégio que tinha piscina, quadra de vôlei, quadra de basquete, ginásio... Era uma beleza.

 

P/1 - No Sacré Coeur a disciplina era muito rígida com as irmãs?

 

R – Eu era muito garota. Nem posso falar se era rígido ou não, porque oito anos, nove anos, não dá pra você… Você não tem noção. 

 

P/1 - E por que você saiu do Sacré Coeur?

 

R - Saí do Sacré Coeur porque eu cortei minha perna num arame farpado e meu pai achou um absurdo, ficou indignado que num pátio de um colégio tivesse um arame farpado no meio de um...Era um coqueiro, uma palmeira, sei lá, e embaixo tinha um arbusto. E pra segurar esse arbusto tinha arame farpado. Aí eu passei por lá, dei um lanho na perna fundo, muito fundo. Aí meu pai ficou indignado com as freiras e me tirou de lá. 

 

P/1 – E os seus colegas eram os companheiros de baile, depois, no Anglo Americano?

 

R – Eram. Eu tive muitos colegas de Anglo Americano. Depois a gente se perde, porque eu casei muito cedo.

 

P/1 - Você conheceu seu marido onde?

 

R - Meu marido morava no mesmo bairro que eu morava. Na esquina da minha rua. Eu morava na Pinheiro Guimarães e ele morava na General Polidoro. Nós éramos um grupo grande, todos nascidos ali ou criados ali há muitos anos. E eu namorava um outro rapaz, que hoje em dia é casado. Hoje ele é casado. Terminamos o namoro e eu, pra fazer raiva a ele, namorei o meu marido. E foi um namoro e noivado relâmpago. 

 

P/1 - Quanto tempo?

 

R - Nós começamos a namorar em novembro e casamos em junho. Hoje em dia não é tão relâmpago. (risos) Hoje em dia se desmancha um casamento em um mês. Não é tão relâmpago. Mas, na época, era relâmpago.

 

P/1 - E qual era a profissão dele?

 

R - Ele trabalhava no comércio. 

 

P/1 - Vocês permaneceram em Botafogo, casados?

 

R – É, meu pai tinha uma casa, que eu tenho até hoje, na Pinheiro Guimarães e nós reformamos a casa e fomos morar lá. 

 

P/1 - Ele era seu companheiro de torcida do Flamengo?

 

R - Muito pelo contrário, por isso durou pouco o casamento. (risos) Muito pelo contrário, o casamento durou o tempo que minha filha quase que nasceu. Eu me separei logo depois. E para mal dos pecados, era ainda botafoguense. (risos) Hoje ele é falecido, eu sou viúva, mas durou muito pouco, muito pouco. Ele era de temperamento muito diferente do meu. Eu era muito moleca, ele era muito sisudo. Não podia dar certo. E não deu. 

 

P/1 - Quanto tempo vocês ficaram casados?

 

R – Nós passamos casados mesmo foi dois anos. Nem isso. E era com minha mãe, que não tinha mentalidade de brasileira, até porque não era. Eu levava uma vida de uma moça solteira que tinha uma filha. 

 

P/1 – E você voltou a morar com seus pais?

 

R - Voltei a morar com meus pais. Eu fiquei assim meio deslocada, porque a maioria das minhas amigas ou eram noivas, ou eram recém casadas. Então havia um certo constrangimento. Aí eu me apeguei ao futebol mais ainda. E outra coisa que até podia esquecer um pouco, isso foi o jogo. Eu jogava muito. 

 

P/1 - Cartas. 

 

R – Cartas. 

 

P/1 – O que você jogava?

 

R – Tudo. Pontinho, pif-paf, na época. Era um grupo de senhoras, e cada semana era na casa de uma. Então era pif-paf. Depois do pif-paf era pontinho, buraco. Enfim, isso… Mas o Flamengo era sagrado. Podia estar jogando o que fosse. Na hora do jogo, eu ia pro jogo. 

 

P/1 - E como se chama sua filha?

 

R – Vera Lúcia. Está tão fanática quanto eu. Quando o Flamengo joga, fica com o pé frio, mão gelada.

 

P/1 - Já é genético. 

 

R – É. (risos)

 

P/1 – Você ia então aos jogos e a partir daí você passou a ir com frequência aos jogos. 

 

R – Eu ia sempre. Não perdia e não perco. É muito difícil eu perder um jogo do Flamengo. 

 

P/1 – A década de 1950 é uma década importante para o Flamengo em relação ao futebol, em que o Flamengo é campeão, não é isso?

 

R - É.

 

P/1 – Você frequentava os outros jogos, dos outros esportes?

 

R - Não. De uns vinte anos pra trás é que eu passei a frequentar basquete, vôlei, remo... Se o Flamengo disputar bolinha de gude e se conciliar, eu vou. Qualquer coisa que o Flamengo participe me entusiasma, me apaixona. 

 

P/1 – Me conta um pouco, como é que é essa paixão...

 

R - Só a uma outra pessoa que seja Flamengo você pode fazer essa pergunta, porque ela pode sentir o que eu sinto. Quem não for Flamengo não pode sentir e não entende. É indescritível. É paixão. Paixão. Eu ontem fui fazer uns exames, eco de stress, único e exclusivamente. Eu não tenho nada que me atrapalhe. Eu tenho ajuda razoável, vivo modestamente, mas vivo bem. Tenho uma filha maravilhosa. Não tenho problema nenhum. Meu problema é Flamengo. Tudo o que é vinculado ao Flamengo me estressa. Se eu vejo uma coisa que, a meu ver não esteja certo, me irrita. É isso. Ontem fui fazer esse negócio, estou toda picada. 

 

P/1 – Então o exame foi bom porque o Flamengo ganhou, não? O resultado... Você foi estratégica. Foi no médico no dia que o Flamengo ganhou. 

 

R – O rapaz era flamenguista e ele disse: “Eu tenho catorze anos de profissão e geralmente eu acerto a veia de primeira.” E a minha ele custou muito a acertar, a veia. Foram quatro picadas. Ele riu: “Vai ser bom porque vai ser quatro a zero.”  Não foi, mas ganhamos. Menos mal. 

 

P/1 – Nessa década de 1950, quando você viu o tri, você estava no estádio?

 

R – Vi, vi. Eu vi todos. Esse último também, que foi super emocionante, porque houve época em que o Flamengo jogava e você tinha mais do que certo, tinha quase certeza da vitória. Podia haver um acidente de percurso, uma coisa qualquer. Mas ultimamente, não. Ultimamente o coração fica na boca. Então, esse último tri foi demais. Foi demais...

 

P/1 – Nesses anos 1950, por exemplo, como foi a reação dos torcedores com a morte do Gilberto Cardozo? Foi uma comoção. Como os torcedores viveram?

 

R - Foi. Nos anos 1950, propriamente, nessa época, nessa chave, ou eu ia sozinha... Eu não tinha assim… Eu não frequentava o clube, apesar de sócia. Então o meu relacionamento com torcida era… Não tinha. Só relacionamento fora do Flamengo. Eu tinha muitas amizades. Que aí eu sabia, aquela gozação de quem é de quem não é Flamengo.

 

P/1 – E, nessa época, tinha algum jogador especial que tenha te marcado?

 

R - Leandro. Não de 1950, mais pra frente. Leandro. Chamava-se Leandro. Pra mim, o maior jogador na posição dele. É uma pessoa… Eu nunca tive ídolos, nem mocinha, nem artistas de rádio, cinema, sei lá. Nunca tive isso. Mas Leandro, eu tinha uma afinidade... Era como se ele fosse o filho que eu não tive. Eu queria um bem... Ele era meio levado, volta e meia estava envolvido em probleminhas, e eu sempre ao lado dele. 

 

P/1 - Quando ele começou a jogar no Flamengo?

 

P/1- Não me pergunte datas, eu não sei nada. Data e placar eu não sei. Ele jogou na fase do Zico, Andrade. Lico, um grande jogador que o Flamengo teve. Adilio... Adilio lanchou comigo quinta-feira passada, lá na Boca Maldita. Vocês precisam conhecer o Boca Maldita. Nós fazemos um chazinho lá toda semana. Vamos lá um dia. 

 

P/1 - Claro. Eu conheço já o chá das cinco. 

 

R - É uma coisa assim, muito simples, com poucas pessoas, na faixa de quinze pessoas, mas é muito gostoso. É só Flamengo. O assunto é só Flamengo. 

 

P/1 - Conta um pouco o que é Boca Maldita, por favor, Teresa. 

 

R – Boca Maldita foi fundada há dezessete anos. Foi fundada para falar mal dos jogadores. Aquele jogou bem, aquele jogou mal. Aí passou o falecido Evan Drummond: “Vocês malham demais. Parece a boca maldita.” E aí ficou Boca Maldita. E lá se reúnem conselheiros, beneméritos, grandes beneméritos. São pessoas de alguma importância pro clube. Flavio Costa ia muito lá. O falecido Valido, que fez o gol do tricampeonato e outros mais. Hoje se reúnem aos sábados de manhã, tem um refresquinho, um sanduíche e um refrigerante. E quintas feiras é um chazinho. 

 

P/1 - Você está desde a fundação?

 

R – Não. Eu fui pra Boca há uns oito anos. 

 

P/1 – Por que você foi?

 

R – Eu fui pra Boca mais pra fazer companhia a uma amiga. Eu ia pra lá e as pessoas serviam um biscoitinho, uma coisa. A Boca era muito fechada. Eu me sentia constrangida de estar lá e não ter uma outra participação. Sempre que eu entrava aqui, pensava: “Eu estou vindo aqui só pra comer biscoitinho.” Aí entrei pra lá e há quatro anos eu sou diretora social. Mas aí eu abri. Então agora tem pessoas que vocês já devem ter entrevistado. Eduardo, que pra mim é um garoto. Eduardo, o Martins... Enfim. Porque lá as pessoas tornam-se sócias e tem um custo. Não sai nem a dez reais por mês. Ajuda a fazer sanduichinhos, mas é simbólico. Porque, na realidade, quem põe a mão no bolso é o nosso presidente, o Quintella, que já foi entrevistado por vocês. Ele faz, no Dia das Mães, uma festa muito bonita pra mãe funcionária do clube. E agora, no sábado, nós temos a festa do pai funcionário. Então os funcionários se inscrevem e participam de um sorteio. Então, o prêmio maior é bicicleta. Temos cinco bicicletas. E o resto é ventilador. Dia das Mães é mais fácil. Ontem ele ainda disse pra mim: “Teresa, estou com muita dificuldade de comprar presente pra homem. Eu estou comprando pra pai, eu vou comprar faqueiro, ventilador... Porque pai tem casa, tem família.” “É isso mesmo.” Então ele comprou. Todos os funcionários, até uns dias atrás, tínhamos cento e poucos inscritos. Todos levam alguma coisas, ou tem os prêmios menores que a boutique também nos oferece. Tem meião, tem uma porção de prêmios menores. Mas tem muito premio grande. Grande que eu digo é ventilador, liquidificador, renovador de ar... E o máximo são as bicicletas. 

 

P/1 – Teresa, voltando um pouquinho sobre a época do Leandro. Como é que surgiu essa… Você lembra de quando você...

 

R – Olha. Eu o admirava muito como jogador. E, na época, o Jorge Helal foi presidente. Eu me dava muito com o Jorge Helal porque ele me dava muita cobertura. Eu ia a todos os jogos. Nessa altura eu já ia a todos os jogos fora do Rio,sozinha. Então ele me hospedava. Nós temos um funcionário, Jair Andrade, que até hoje é funcionário nosso e que fazia essa parte. Hoje tem supervisor, um monte de gente. Lá era o Andrade que fazia isso sozinho. Era hotel, passaporte, transporte. Então eu sabia que o Flamengo ia jogar em Goiânia. Eu dizia: “Jair, reserve a minha passagem.” Aí ele reservava a minha passagem e o meu hotel. Então, a vantagem que eu tinha é que eu pagava o que o Flamengo pagasse. Flamengo pagava, vamos dizer, o hotel era cem reais e o Flamengo pagava setenta. Eu pagava setenta. O avião era... Enfim, eu ia a todos as viagens. Como eu fazia? Quando o ônibus saía, pegava um táxi atrás do ônibus. Quando chegava no estacionamento, no ônibus já diziam, avisavam que eu fazia parte da delegação e que era pra eu entrar, aí eu entrava. Aí eu ficava onde a diretoria ficasse. Isso eu fiz muitas vezes. Muitas vezes. Eu nem sei dizer quantas. Fui a Bolívia, fui ao Chile, fui ao Paraguai, fui ao Uruguai, fui a Argentina, Brasil, quase todas as capitais e a Itália.

 

P/1 - Você ia como torcedora ou você acabava ajudando na infra do time do Flamengo.

 

R – Não. Como torcedora, simplesmente. 

 

P/2 - Já ocorreu, por exemplo, um jogo onde você fosse uma das pouquíssimas torcedoras do Flamengo? 

 

R – No início da década de 1950, eu era muito jovem, e dizem que era mais razoável. Aí eu entrava no Maracanã sozinha, eu de mulher e papapa. Era assobio, era isso, era aquilo, porque não era comum mulher ir ao Maracanã, especialmente sozinha. Agora, não. Agora é tudo normal. Mas na época não era não. Na época era mais complicado, mas isso a gente faz por muito amor. 

 

P/1 - Tem alguma história de viagem que você tenha feito, que mereça ser contada?

 

R – Muitas.  Quando o Flamengo foi campeão, campeão do mundo, nós fomos à Cobreloa, no Chile. Éramos eu e Dona Laura, a mulher do James de Carvalho, e mais cinco pessoas, cinco rapazes. Nós fomos daqui pra Campinas de ônibus. De Campinas nós fomos a uma cidade do Mato Grosso, acho que é Cuiabá, nós fomos de trem. De lá fomos até Santa Cruz de la Sierra, fomos naquele trem da morte. Já ouviu falar? Eu botei o pé... Muito calor, verão... Eu botei o pé em cima da janela do trem. Quando eu quis botar no chão, não tinha espaço. Não tinha espaço, as pessoas viajavam no teto do trem. Aí nós fomos até Santa Cruz de la Sierra. De lá nós íamos para La Paz, de ônibus, mas caíram umas barreiras e nós pegamos aquele Lloyd Aéreo Boliviano. Aí fomos de avião para La Paz.  Um avião cheio de índios, cheio de chulas, mas elas muito mal cheirosas. Lá nós fomos. 

 

P/1- Ver o Flamengo?

 

R – Ver o Flamengo. Exclusivamente, não dá tempo pra mais nada. Chegamos no hotel, o falecido Jorge disse pra mim: “Você é terrível. Você é terrível.” E eles davam uma máscara por causa da altitude. Eu, por coincidência, fui com uma amiga agora a uma joalheria. Ela foi comprar um anelzinho, uma coisa simples, e a menina que me atendeu começou a falar e tal. Aí eu abro minha carteira, tem Flamengo por todos os lados. Ela me disse: “A senhora devia ter conhecido meu tio.”  Eu disse: “Quem era seu tio?”  Ela disse: “Meu tio era locutor, Jorge Cury.” Eu digo: “Mas conheci muito. E tive a honra de entregar a ele o último troféu que ele ganhou. Numa festa da torcida Jovem ele ganhou um troféu e fui eu que entreguei a ele.” E ela é filha do Ivon Cury, e ele, Jorge Cury. No ano anterior, eu queria entregar um troféu a ele. E aí a Laura : “Não. Quem vai entregar sou eu. Quem vai entregar sou eu.” E nesse ano que ele faleceu, quem entregou o troféu fui eu.

 

P/1 - E como era o seu relacionamento com a imprensa, como o Jorge Cury?

 

R – Ótimo. Ótimo. Até hoje eu me dou muito bem. Tenho fotografias com José Carlos de Araújo, com Washington Rodrigues. Adorava. Meu ídolo na imprensa, se é que pode-se dizer. Não era ídolo, mas uma pessoa que eu gostava de paixão. Danilo Bahia, que era  rubro negro, um Rubro-Negro autêntico. E outros mais. Mas esses eu conheço mais. 

 

P/1- E com os atletas? Com os jogadores? Você tinha contato com eles? Tinha conhecidos?

 

R - Tinha. Tinha. Claro. Zico até hoje me chama de tia. Ele foi a uma recepção lá no Flamengo com os japoneses e eu estava sentada numa mesa bem afastada dele. Ele ofereceu pra Patrícia Amorim um leque E daí a pouco ele falou com o irmão dele: “Olha lá minha tia.”  E mandou me entregar um leque. É uma pessoa que, onde me vê, me trata com muito carinho. Ele, o Júnior, o Andrade, o Adinho... Não tenho nem o que falar. É Hors Concours. Agora está muito mais difícil porque os jogadores não criam vínculos. Um dia está aqui, outro dia está ali, outro dia está lá. Aliás, a gente fica com raiva porque esse já jogou aqui, outro já jogou lá, outro saiu daqui e foi pra lá e depois volta...

 

P/1 - Você guarda uma entrada de futebol? Alguma fotografia, bandeirinha, Alguma coisa assim? Você tem álbuns?

 

R - Eu tenho muitas camisas do Flamengo e atualmente eu não tenho mais, porque eu tinha antigamente podia usar. Agora, eu não tenho museu como nosso amigo Eduardo tem. Eu não vou comprar uma camisa pra não usar. Mais uma camisa, não dá. Mas tenho camisa do Júnior, camisa dele, camisa do Leandro, camisa de um jogador, foi a primeira camisa que eu ganhei, do Luis Alberto. Ele era goleiro do Flamengo, depois ele foi pra Arábia. Eu ficava envergonhada de pedir camisa. Não ia pedir de maneira alguma. Um dia nós estávamos conversando e eu disse: “Eu não peço camisa de jeito nenhum. ” “Mas eu vou lhe dar.” Aí me deu uma camisa. E também com o Mozer. Tenho tanta fotografia com o Mozer, Adalberto. Tinha aquele pessoal da antiga... 

 

P/2 - Você falava, por exemplo, quando um jogador não estava numa fase muito boa? Você dava um puxão de orelha? Você falava, conversava com ele?

 

R - Não, porque é a tal história: são fases. Eu acho que a pessoa, quando está trabalhando, procura fazer o melhor. Se não faz o melhor é porque não pode.  Você está trabalhando aqui, você está dando o seu máximo. Se não ficar muito bom, é porque você não pode fazer. Então eu acho que não é por aí. 

 

P/1 - Você entende de tática de futebol?

 

R - Eu, com 71 anos, vendo futebol. Vamos dizer 65. Vendo, tinha noção, tem que entender alguma coisa. Senão, “orelhinha de burro”. Não dá pra não entender. Tem que entender. Entendo sim. De futebol eu acho que entendo. Quando eu vejo um jogador, eu brigo quando apontam um jogador e dizem: ”É craque, é isso.” Pessoas que também acham que entendem. Como eu acho que entendo também, dizem: “É craque.”  Eu digo: “Não é.”  Aí daí há pouco: “Tá vendo? Eu não disse que não era?” Muitas vezes eu acerto. Erro também, mas acerto muito mais do que erro. 

 

P/1 - Vocês, na Boca Maldita, sempre discutem os jogos?

 

R – Claro. Temos um grupinho. A finalidade é justamente essa. 

 

P/1 - E quanto às qualidades do Leandro, já que é um jogador que você admira. Tecnicamente, o que você acha?

 

R – É o maior jogador na posição dele de todas as seleções, de todos os tempos do Flamengo. Ele é o único que é unanimidade. Em todas as seleções ele está. Ele também era um jogador completo. 

 

P/1 - Qual a posição dele?

 

R - Ele foi lateral. 

 

P/1 - E qual é a qualidade que você destacaria? Era uma pessoa que jogava tanto na defesa como no ataque?

 

R – Na defesa. Agora, ele infelizmente parou muito cedo porque ele tinha... Não é artrose, é... É artrose. Ele tinha um problema no joelho, em ambos os joelhos. Ele ia jogar e, quando ele saia do jogo, na maioria das vezes sentava com dois sacos de gelo nos dois joelhos. E ele parou muito cedo. Hoje está bem, tem uma pousada em Cabo Frio, está muito bem casado, tem duas filhinhas crescidas e agora teve uma menininha, que deve estar fazendo um ano. 

 

P/1 - Você mantém contato com ele?

 

R - Mantenho. Eu telefono pra ele. Natal, aniversário dele, é sagrado. Eu não deixo de dar uma palavrinha. E fico até emocionada, porque quando eu liguei pra ele no Natal do ano passado, a mulher dele disse: “Puxa, Dona Teresa, ainda falamos na Senhora, porque Leandro ainda usa uma medalhinha que a senhora deu pra ele.” Ela disse e eu acredito. Quero muito bem a eles. Torço por ele como se torce por um filho, uma pessoa que a gente quer muito bem, apesar de não ter um relacionamento com ele. Quando vejo, telefono, mas não tenho relacionamento. Mas torço por ele como se ele fosse da minha família, uma pessoa muito chegada. 

 

P/1 - E seu pai? Ele tinha um ídolo no Flamengo?

 

R – Não. Meu pai era muito fechado. Assistia ao jogo caladinho. Não tinha, não. Que eu soubesse, não. Minha mãe era mais esportiva.

 

P/1 - E você no campo? Você participa, grita? Você se manifesta?

 

R – Manifesto, sim. Não vaio jogador do Flamengo de maneira alguma, mas eu me manifesto. Não fico estática. Eu vibro, eu pulo. E quando eu fui pra Raça, a Raça foi a primeira torcida que assistia aos jogos em pé. A Raça assistia aos jogos em pé, pulando. E eu, coroa, estava lá em pé também. 

 

P/1 - Vamos falar um pouquinho das torcidas que você participou. A primeira foi a Raça?

 

R – Foi. 

 

P/1 - Porque você se uniu a uma torcida organizada?

 

R – Porque eu fui a Campos, tinha um jogo em Campos, eu queria ir a Campos, não tinha companhia e fui à Raça. 

 

P/1 – E a recepção?

 

R – A recepção foi uma maravilha. Na época, o presidente da Raça era o Cláudio, um rubro negro, e quando o Cláudio se afastou eu fui pra Jovem, que o falecido Miltinho, o grande rubro-negro, morreu muito jovem. Ele tornou-se um amigo meu porque eu comprei um carro, o Miltinho é quem dirigia meu carro. Me levava pra todo canto. Fomos pra Bahia de carro e todo o Brasil. Mas ele faleceu cedo. 

 

P/1 - E como é que era a Raça, qual a característica dela? Tinha faixa? Dizeres? 

 

R - Íamos lá pra casa e nós fazíamos bandeirinhas com cola de farinha à noite inteira. Nós varávamos a noite inteira de sábado pra domingo fazendo bandeirinha. Foi muito bom. Uma época muito boa. 

 

P/1 - Tinha alguma...

 

R – A garotada, a maioria da garotada era simples, mas pessoas educadas, pessoas respeitadores. Então foi uma época muito boa.  Depois eu fui pra Jovem e aí a Jovem já começou a degringolar, como se diz. 

 

P/1 - Então, como é isso? Você acompanhou essa coisa da violência que acabou acontecendo nos estádios. Você acompanhava isso? Você fazia parte de torcidas onde tinha violência?

 

R - Não. Eu não cheguei. Antes de eu sair, já o negócio estava… Quando o negócio começou a ter briga entre a Raça e a Jovem, você ia pro estádio e tinha uma outra... Eu deixei de usar a camisa por isso. Eu saia com uma camisa e a torcida do outro clube já te hostilizava. Aí eu: “Não dá mais.” Aí eu subi. Fui pra Especial e estou na Especial até hoje. Tem uns quinze anos, talvez. Mais ou menos isso. 

 

P/1 - Você tem cadeira?

 

R - Não. Eu, até uns dez anos atrás, o Flamengo sempre me dava uma cadeira especial. Andrade, Jorge Helal, o Veloso, o Kleber. Até a última gestão do Edmundo, que eu fui diretora social do Edmundo. Então, como diretora, eu tinha direito à especial. De lá pra cá, eu compro e vou com minha filha. Sempre no mesmo lugar.

 

P/1 - Dá sorte?

 

R – Eu acho que dá sorte porque eu tive tantas vitórias ali. As derrotas eu esqueço. 

 

P/1 - Teresa, como é que se deu essa oportunidade com os dirigentes? Foi acompanhando, viajando com o time?

 

R - Acompanhando, porque eu participava muito, ia aos treinos. Quando você ________________ muito, muito uma pessoa, você termina se relacionando. Especialmente... Não todos. Você vai, dá um palpite, quem jogou mal, jogou bem, assim, assado, e vai havendo esse entrosamento. Hoje em dia eu me relaciono muito bem com a maioria das pessoas que estão no Flamengo

 

P/1 - E hoje em dia você é conselheira? Diretora social?

 

R - Sou conselheira, sou emérita, eu tive esse privilégio na gestão Kléber Leite. Ele me deu o título de emérita e fui, pela primeira vez na história do clube, embora não tenha vencido, pela primeira vez uma mulher foi numa eleição, candidata a presidente de poder. Eu fui candidata à presidência na assembleia geral pela primeira vez na história do clube.

 

P/1 - E qual foi seu primeiro cargo?

 

R - Conselheira. Eu já participei de vários conselhos do Flamengo, eleita. Atualmente eu não sou nata. Mas eu fui quando o Flamengo tinha um conselho, que agora é o Conselho de Administração e na época era... Esqueci agora. Era o que é hoje o Conselho de Administração, era um conselho muito restrito. Éramos trinta conselheiros e eu era a única mulher do conselho. Então, o presidente dizia: “Agora nós vamos chamar a conselheira.” Ou para hastear a bandeira, ou para descerrar a bandeira. Eu já me levantava porque não tinha outra. Era só eu.  Então eu não perco uma reunião do conselho. Pra mim é sagrado. 

 

P/1 - E qual a regularidade dessas reuniões?

 

R – Geralmente é para acerto de contas, tem reuniões extraordinárias como, por exemplo, foi o programa da ISL, que tem que passar pelos conselhos. O conselho final é o deliberativo e é o que realmente homologa. Para eleição de presidente, depois vem... Sei lá, quantas eleições são por ano? Umas seis ou oito. 

 

P/1 - Quais são suas atividades como conselheira?

 

R – Eu fui do Conselho Consultivo, que agora é Administrativo, e do Conselho Deliberativo. Mas eu não falto a uma reunião. 

 

P/1 - Teresa, você foi também Diretora Social?

 

R – Na gestão do Edmundo Santos Silva. Mas a minha participação foi muito pequena, quase nenhuma, porque o vice presidente social, não dava muita participação pra gente. Mas fui. 

 

P/2 - Você deu essa contribuição. 

 

P/1 - O que representa pra você fazer parte dessas esferas de poder dentro do Flamengo?

 

R – Tudo o que diz respeito ao Flamengo me emociona, eu tenho interesse, eu gosto. E não faço mais porque não está ao meu alcance, mas tudo o que eu pudesse fazer pelo Flamengo, eu faria com o maior prazer. Determinadas coisas fogem ao meu alcance. 

 

P/1 - Há algum jogo, por exemplo, a que você não tenha podido ir e que te marcou muito por um ou outro motivo?

 

R - Não. Eu acho que fui a quase todos os jogos. Ontem, por exemplo, eu fiquei frustradíssima porque não fui. Fui fazer um exame e o médico me avisou que eu poderia sentir isso, aquilo, aquilo outro. E realmente me senti enjoada. E como era coração, eu disse: “Deus do céu. Eu vou pro Maracanã enjoada dessa maneira? Eu acho melhor eu não ir.” Então eu não fui. Mas eu não tinha como, eu nem tinha pay per view porque eu ia a todos o jogos aqui e então... Mas, há uma semana atrás, eu resolvi botar pay per view, porque agora no Brasileiro são vários jogos de times cariocas. Eu digo: “Quer saber de uma coisa? Vai que tenha um jogo fora, com teve sábado passado.” Só o pay per view para transmitir o jogo do Flamengo. Aí, então, eu assisti em casa. Mas é muito ruim. É muito ruim.  A gente não tem a mesma vibração, a mesma emoção. Não tem nada. 

 

P/1 - Você acompanha os jogos da seleção brasileira?

 

R - Não. Nem sou muito chegada. Prejudica muito o Flamengo... (risos) Agora mesmo, tiraram dois jogadores do Flamengo, o __-___e o _____. E o Flamengo está jogando desfalcado. Não gosto, não. 

 

P/1 - E hoje em dia? Como é o seu dia a dia? Como é que você divide o seu tempo? Quantas vezes você vai ao Flamengo?

 

R - Quinta, sábado e domingo. Sábado e domingo de manhã e quinta feira à tarde vou ao Flamengo. Isso fora os jogos de basquete e o que tiver. E futebol específico. Mais futebol. Fora isso, eu sou uma dona de casa. 

 

P/1 - Você mora onde?

 

R – Copacabana. Pertinho da Gávea. Um pulo. Você vai até a Lagoa num instante. 

 

P/1 - Você tem outras atividades? Você gosta de ir à praia?

 

R - Eu gosto. Até gosto muito de praia, mas não encontro tempo pra ir. Meu tempo fica muito limitado porque eu sou dona de casa. Então, nesses espaços que sobram, eu tenho que fazer as coisas de casa. 

 

P/1 - O Flamengo é prioridade?

 

R – Prioridade. Mais que o Flamengo, só minha filha. Minha filha em primeiro lugar. Depois o Flamengo. 

 

P/1 - Ela é solteira?

 

R - Solteira. Minha companheirona. Agora ela vai… Ela foi uma vez ao Maracanã, no tempo que eu ia de arquibancada, e houve uma briga. E nessa briga eu fui protegê-la e nós duas rolamos uns dois degraus. Ela nunca mais quis ir ao Maracanã. E eu continuei indo. Depois eu fui pra Tribuna e ela relutou ainda muito tempo. Mas agora não perde um jogo. Vai a todos. 

 

P/1 - Quantos anos ela tem?

 

R – Ela já tem 38 anos. É uma grande companheira. Lá no Flamengo, modéstia à parte, não tem quem não goste dela. Ela é muito meiga, um doce de pessoa. Eu sou suspeita, mas eu falo. 

 

P/1 - E ela também agora comparece aos jogos?

 

R – A todos. Todos.  Participa de tudo. 

 

P/1- Participa da Boca Maldita?

 

R – Participa. Ela que toma conta do livro de frequência da Boca. Nós temos um livro de frequência dos sócios, dos convidados. Ela toma conta do livro de frequência. É isso aí. 

 

P/1 -  A gente está encaminhando pro final e a gente costuma perguntar para os nossos entrevistados o que eles acham desse projeto memória do Flamengo e o que achou de ter deixado esse depoimento aqui pra gente.

 

R – Olha. Eu acho maravilhoso. Eu acho que o Flamengo merece ter um museu com as suas memórias, porque o Flamengo não é uma empresa. Ele é um clube, movido a amor, à paixão. Então, a gente tem que conhecer as pessoas que nos antecederam e que fizeram do Flamengo essa coisa maravilhosa que ele é. E eles não podem ser esquecidos. E a outra pergunta que você fez?

 

P/1 - O que você achou de ter deixado esse depoimento?

 

R – Me emociona e eu me sinto muito importante por vocês lembrarem de mim. Eu fico agradecida. 

 

P/1 - Você gostaria de deixar uma mensagem para os torcedores do Flamengo?

 

R – De pronto, assim, o que eu posso dizer? Amem o Flamengo cada vez mais.

 

P/1 e P/2 - Muito obrigada, Teresa! 

 

R – Eu que agradeço a vocês. Desculpe alguma bobagem que eu tenha falado. 

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+