Busca avançada



Criar

História

''Mais fácil fazer um partido político no Brasil do que criar uma micro-empresa.''

História de: Leopoldo Garcia
Autor: Carolina Maria Fossa
Publicado em: 25/02/2021

Sinopse

Leopoldo começa sua história contando de sua família, descrevendo a atividade profissional dos pais e contando sobre os irmãos. Ele relata sobre o período que frequentou a escola e sobre as leituras que fazia na infância. Conta sobre as brincadeiras que fazia e sobre as doenças que teve quando criança e que possuem vacina hoje em dia. Ele volta a falar da experiência escolar, agora falando do colégio inteiro que frequentou e sobre as disciplinas que tinha, na qual a sua preferia era Biologia. Leopoldo começa a contar sobre a cidade de São João, onde ia aos finais de semana quando era jovem. Ele saiu de São João para fazer faculdade em Belo Horizonte na Universidade de Minas Gerais, onde fez Odontologia. Ele conta do momento em que questionou sua vertente religiosa e que participou do Movimento de Economia e Humanismo e como isso o levou a morar no Rio de Janeiro. Ele conta das perseguições que sofreu no iniciou da ''revolução'' e dos processos de tortura psicológica nos quais passou. Conta sobre o período de descoberta de petróleo no Brasil e do período em que Getúlio Vargas começou a implementar siderúrgicas no país. Ele conta que deixou de ter participação política ativa após 1964 devido a extinção dos partidos e contra sobre esse período e como se deu seu final. Ele relata sobre a mudança de profissão quando entrou para o grupo Aracruz e relata sobre o mundo da celulose. Ele conta sobre os estudos que fizeram para implementação do projeto de celulose no Espírito Santo e volta a explicar sobre o processo de produção de celulose, citando materiais, processos e também as questões de cunho mais burocrático. Conta sobre como a chegada da Aracruz na cidade trouxe oportunidades econômicas para seus habitantes. Leopoldo relata os avanços econômicos que acompanhou durante os anos de empresa e conta de suas experiências internacionais com ela. Conta sobre o prêmio Marcos Arenberg. Ele relata sobre o que a Aracruz representou em sua vida e em seguida começa a contar sobre seu casamento. Ele se lembra do momento em que saiu da Aracruz e se tornou consultor, onde chegou a trabalhar na China e conta sobre essa experiência. Fala de como foi importante resgatar a memória de Aracruz em sua entrevista, finaliza e agradece.

Tags

História completa

P/1: Eu queria que o senhor se apresentasse: falasse seu nome completo, a data e o local de nascimento, pra que a gente deixasse registrado. R: Meu nome é Leopoldo Garcia Brandão. Eu nasci em 14/02/1927, no sítio onde nascia o rio São Francisco, hoje chama Iguatama, no tempo em que eu nasci se chamava Formiga, em Minas Gerais. P/1: E qual o nome dos seus pais? R: Meu pai se chamava Marcelo Brandão, minha mãe (Decina?) Garcia Brandão. P/1: Eles nasceram em Minas também? R: Eles nasceram em Minas também. Um nasceu em 1880, e o outro em 1889. Os dois já estão no céu há algum tempo. P/1: A ascendência do senhor é espanhola? R: Não. P/1: Não tem espanhol? R: Que eu saiba, não. É português, com preto, com índio lá pra trás. Não sei. P/1: Qual era a atividade do seu pai? R: Meu pai hoje seria chamado de um homem de agricultura familiar. Era um pequeno sítio em que ele mesmo trabalhava pessoalmente. P/1: E o senhor lembra do sítio, do trabalho dele? R: Não, eu mudei desse lugar com 4 anos. Eu sei as histórias, mas eu não lembro, 4 anos pra 77, eu não lembro. P/1: E o senhor foi morar aonde? R: Meu pai queria morar num lugar mais pacífico que ele conhecia e é uma cidade chamada Patrocínio, com fama de bons colégios, e passava 15, 20 anos sem júri, porque ele queria criar os filhos num lugar que não houvesse violência. Onde eu nasci é violento até hoje. P/1: E o senhor teve quantos irmãos? R: Nasceram sete, sobreviveram cinco. P/1: Como foi sua infância? Conta um pouco. R: Foi ótima, tenho dois pais ótimos, tenho um irmão, 2 anos mais velho, uma outra irmã, 4 anos mais velha, outro, 5, um irmão 17 anos mais velho, esse eu quase não conheci porque era outra geração. P/1: E o senhor viveu na cidade de Patrocínio? R: Meu pai abriu uma loja de material de construção porque a prioridade dele e da minha mãe era educar os filhos. Então, pela experiência que ele tinha, olhou lá e estava faltando isso. Então ele abriu uma casa de construção e daí que ele custeou os nossos estudos até que nós começássemos a trabalhar. P/1: Vocês ajudavam o pai na loja? R: Alguma coisa, porque a gente estudava, né? E se a gente tirasse nota ruim levava bronca. Então tinha que estudar, vinha do colégio tinha que fazer os deveres. (riso) P/1: O senhor lembra da casa que você morava? R: Lembro, a casa foi demolida há pouco tempo. P/1: Como ela era? R: Era uma casa velha, de esquina, que ele reformou. No interior as casas tinham a parte comercial e residencial. Ele fechou a parte comercial, adaptou pra nossa família e morou até ele morrer, minha mãe morrer. E depois eu fiz uma casa pras minhas irmãs no local da antiga casa de comércio deles. E elas viveram lá até elas morrerem. Fiz a casa só pra elas morarem. Elas escolheram a louça, o azulejo, não sei o quê. Eram duas irmãs, eu queria que elas morassem com conforto, e elas viveram bem nessa casa grande, depois foram pro céu. Depois eu vendi a casa. P/1: Qual o nome delas? R: Uma chamava Rosa e a outra Emi. P/1: Como era a convivência familiar nessa casa? R: Era muito boa. Boa porque meus pais tinham muita fé e viviam trabalhando. Então o binômio era fé e o trabalho. Todo mundo trabalhava desde os 5 anos de idade. Todo mundo tinha tarefa, todo mundo tinha que trabalhar. Fazia parte da cultura da família trabalhar, então a gente fazia aquilo numa boa. P/1: Quais eram as suas tarefas? R: Você não conhece isso, você é urbana. Uma das primeiras é tirar pedra do feijão. Feijão quando vem da roça, no meio dos grãos tem umas pedrinhas. Então eu tinha que tirar pedra do feijão. (riso) Tinha cinco anos de idade quando comecei. (riso) P/1: E você gostava? R: Não. Não era das melhores coisas porque cada pedra que minha mãe achava é mais um (ninho?) de feijão. Então, eu tinha que fazer as coisas bem feitas. Aprendi desde sempre a fazer com atenção, prestar atenção. (riso) P/1: Mas é melhor do que carregar pedra? R: É, mas meus pais queriam que nós estudássemos. Como eles não foram à escola, nenhum dos dois, eles queriam que todos os filhos estudassem. P/1: O senhor se lembra da primeira escola, do primeiro dia de aula? R: Lembro, lembro. Porque antes de morar nessa cidade, no mesmo município moramos numa fazenda arrendada. E meu pai todo ano pagava um professor pra nós e pros vizinhos. Ele fez uma escola, um galpão lá com uns bancos, umas coisas. Naquele tempo, primeiro, segundo, terceiro e quarto ano é a mesma classe. Até hoje no Brasil tem milhares disso. Então vinha o professor da cidade – e eu não tinha idade, eu tinha 5 anos – eu ficava amolando pra ir pra escola, até que minha mãe falou: “eu vou pôr ele lá na escola, o senhor dê um susto nele, que ele não volta lá nunca mais.” Primeiro dia ele me deu uma reguada na cabeça. E nossa, eu saí, não chorei, cheguei em casa estufado, meus irmãos queriam bater nele e aprendi ali com 5 anos. Naquele tempo era um horror, né? Você aprendia com 10, 11, 12. P/1: De onde vinha essa vontade de querer ir pra escola? R: Porque eu era o mais novo, ficava sem fazer, né? Todos os meus irmãos na escola, aquela vizinhança toda na escola, e eu lá solto. Então: “eu vou pra essa escola, eu vou pra essa escola”. P/1: E nem a reguada tirou... R: Não, não, aquilo foi ótimo. Saiu água do meu olho, mas não chorei. (riso) P/1: O senhor lembra o nome dele? R: Lembro. Chamava (Alváro?) Teixeira. Morreu no hospício, eu soube. Acho que ele é meio doido mesmo.(riso) P/1: Dar reguada, né? R: Mas naquele tempo era assim. Você sabe o que é palmatória? Sabe não, né? P/1: Sei. R: É uma palma de madeira com uns buraquinhos com cabo. Então batia aquilo na mão da gente com tanta força que os buraquinhos saíam na mão da gente. Isso era normal, todas as escolas usavam. P/1: Você ficou com muitos buraquinhos na mão? R: Não, eu era esperto, eu me defendia bem. P/1: E o senhor começou a ler com 5 anos, e o que o senhor lia? R: Naquele tempo tinha um almanaque chamado Almanaque d’a Saúde da Mulher, do (Laboratório?) Xavier. (riso) Então chegavam os fazendeiros. “Moço, o senhor tem um filho que lê?” “Tenho, com 5 anos”, “Chama aí”. Eu ficava uma fúria, estava brincando e tinha que (ler?) porque eu sabia ler. Eles escolhiam uma página que eles tinham decorado porque eu não sabia ler também. O (Mário Veloso?) dizia “é isso, isso e aquilo”. Então eu lia, conferia com aquilo que tinha dito pra saber de verdade. (riso) Era muito chato. (riso) P/1: O senhor lembra do conteúdo? R: Era negócio de produtos farmacêuticos, mas era chato me interromper das minhas coisas de criança, descalço, pra ler pros vizinhos, né? P/2: Seu Leopoldo, o senhor brincava do quê? R: Olha, no meu tempo não tinha brinquedo fabricado, todos os brinquedos eu mesmo tinha que fazer. Naquele tempo não tinha indústria de brinquedo, não tinha nada. Quanto tempo tem isso? Então a gente fabricava os brinquedos da gente, fazia carrinho, fazia não sei o quê. Tirava o pau pra fazer a roda à mão, quer dizer, a gente se virava, né? E trabalhava também, sempre tinha que ajudar, tinha que trazer o leite não sei de onde, tinha que dar água pro porco, quer dizer, sempre tinha que ajudar. Mas não era assim estafante, não. Era coisa assim perfeitamente razoável. P/1: Tem alguma coisa assim que tenha marcado muito essa sua fase? R: Não, não. Nós em casa éramos muito unidos, né, então, aquilo era uma couraça pra gente. Eu me lembro de outra coisa. Vocês tomavam vacina de quê? P/2: Sarampo. P/1: Catapora. R: Eu tive todas essas doenças [e] eu me curei da seguinte forma: adoecia uma criança na região com qualquer doença que criava imunidade, nós todos íamos na casa daquela criança até pegar a doença. Estava vacinado. P/1: Que hoje em dia seria o certo, né? R: Eu vim tomar vacina grandão, porque pequeno era tudo assim. Catapora, bexiga, uns troços assim, a gente ia pra lá, tinha que brincar com o doente até pegar. (riso) P/1: O senhor teve caxumba também? R: Eu tive tudo. P/1: Tudo? R: A lista inteira. P/1: E me conte uma coisa, o senhor ficou morando em Patrocínio até quando? R: (suspiro) Até terminar o colégio que existia lá. Então fui pra São João Del Rey pra continuar. P/1: Você tinha quantos anos? R: 16. No dia em que eu fiz 16 anos eu viajei de Patrocínio a São João Del Rey, 40 horas de trem, mudava de trem, de bitola, eu fui sozinho, eu tinha 16 anos, já era esperto. P/1: Foi morar sozinho em São João? R: Fui estudar em um colégio interno. Quem morava fora do colégio estudava em colégio interno. P/1: Como foi essa experiência do colégio? R: Foi muito bom porque o meu irmão mais velho tinha estudado lá e era médico, era um sujeito brilhante. Então eu tinha imagem dele que ele estudioso, competente e tal. Então eu associava essa imagem ao período que ele estudou nesse colégio. Então pedi pra ir pra lá, pra estudar interno 2 anos, porque achei que seria bom pra mim, e foi muito bom. Aprendi a administrar tempo, aprendi a fazer as coisas em dia. Colégio de padre franciscano holandês, era dureza. Única coisa livre era fumar. Você fumava dentro da sala de aula. O resto era tudo proibido. Mas tinha que sair do colégio todo sábado e domingo. Era obrigatório passear na cidade. Tinha muito esporte, muita piscina, muito futebol, muita coisa. Era um colégio muito bom. P/1: O senhor lembra as disciplinas que tinha? R: Lembro, porque tinha um holandês desse tamanho, padre (Bertrando?), que era diretor, ele visitou as classes todas na primeira semana que nós estávamos lá levando os professores de português e matemática. “Esse aqui é o professor Assis, esse aqui é o professor (Borão?). E eles têm a instrução de ser absolutamente rigorosos com vocês. Se vocês não aprenderem português e matemática, não adianta tirar 10 nas outras matérias porque vocês vão perder o ano. Quem não souber se comunicar por escrito e oralmente muito bem, e ler e entender não tem chance na vida. Então tem que aprender a língua nossa. E quem não souber ter raciocínio exato a fazer as contas, entender por que quatro vezes dois é oito e tal, também não tem nenhuma chance na vida. Então essas duas matérias são as mais importantes. Olha, vocês estão autorizados a dar zero pra quem não fizer as coisas certas”. Ele foi de classe em classe e cumpriu isso. Eu aprendi português, aprendi aritmética, as coisas básicas a gente aprendeu quando era pequeno. E o meu filho que estudou no São Bento era a mesma orientação. O diretor chamava a gente todo princípio de ano e “vou rigorizar cada dia mais o português e a matemática”. Pelas mesmas razões que eu vi em 1973, qualquer coisa. P/1: São Bento é “ora et labora”, trabalho e oração. É dedicação mesmo. R: Então é uma coisa que eu acho que foi muito boa. E depois eu fui profissional muitos anos. Quando eu trabalhei na Aracruz tinha pelo menos 100 pessoas dirigindo o estágio. A metade não sabia nem ler, nem escrever. Doutorado em solo, doutorado em não sei o quê, mas escrevia coisa que ninguém entendia. Eu tinha que reescrever. “Mas era isso que eu queria escrever.” “Você não sabe escrever, rapaz?” E não sabe. As gerações mais novas – agora com a eletrônica – perderam o hábito de entender um texto. Ler tudo rapidamente, aquele negócio verde nos olhos, não entende nada. Lê e não interpreta, não entende o sentimento, a intenção que o autor quis transmitir. Naquela geração se não entendesse levava zero. P/1: Das disciplinas, a sua preferida qual era? R: Era biologia. Naquele tempo já existia física, química e biologia separados. Eram três matérias separadas. P/1: O que te ensinavam na biologia? R: Tudo; ensinava a classificação de plantas, insetos, de mamíferos, répteis, rapinas e etc. Era gente preparada. Esses padres holandeses não designavam professores sem competência. Eles se preparavam, às vezes não sabia bem o português, chegava da Europa recentemente, mas sabia as matérias mesmo. Eles tinham uma dificuldade na biologia, porque como eles eram europeus até traduzir aquilo pra realidade brasileira do ponto de vista biológico é outro mundo. Holanda, aquela porcaria daquele tamanho, nosso país grande, quer dizer, era o reverso da cultura original. Mas eles eram muito esforçados e eram obrigados a fazer curso, os colégios não brincavam não. Os professores eram preparados mesmo. Eram professores não remunerados. Era padre franciscano, obrigação de pobreza, então não tinha mercenarismo, tinha que aprender. P/1: Era dedicação mesmo. R: E eles faziam tudo pra gente aprender também. Quem não aprendia porque era realmente burro ou era muito rebelde. O sujeito normal aprendia perfeitamente. Esses colégios mais antigos, o colégio São João Del Rey disputava com o famoso Colégio (Cará?) de Minas, só que o (Cará?) era pra ser padre. Colégio Santo Antônio era rico, então tinha uma filosofia diferente, mas em níveis eles ficavam fazendo competição um com o outro. P/1: O senhor lembra dos seus amigos dessa época? R: Lembro. Há pouco tempo nós nos encontramos quando fizemos 50 anos que saímos de lá. Tinha morrido só um. P/1: Puxa! E como foi esse encontro? R: Tem gente que eu não via há 50 anos porque eu saí de Minas, então eu perdi o contato. Praticamente todos eles ficaram em Minas, né? Mas era engraçado, a gente lembrou de coisas da gente, a memória voltou. Foi muito interessante. Ficamos dois dias juntos lá em São João Del Rey. P/1: Que delícia! R: É. P/1: O senhor disse que era obrigatório sair no fim de semana pra cidade. R: Era. Era um colégio muito grande, muito bem instalado, acho que eram 700 alunos. Naquele tempo era um mundo, 700 alunos é uma creche, hoje. Mas naquele tempo era muita gente. Então, era obrigatório sair porque eles queriam que a gente aprendesse a conviver com a sociedade. Então a gente ia ao cinema, ia no bar, ia não sei aonde, ia jogar sinuca, o que existia naquele tempo. Então eles faziam questão que a gente saísse daquele confinamento e fosse conviver com a realidade, com as pessoas da rua comuns e tal. P/1: Bem aberto a educação, né? R: Era obrigatório sair. Só não saía se estivesse doente, se não tinha que ir pra rua duas vezes por semana. P/1: O que o senhor lembra de São João dessa época? R: Você conhece São João, né? P/1: Não. R: É uma cidade muito interessante. É uma cidade que tinha uma tradição musical enorme. Toda casa que você passava tinha gente tocando piano e flauta, e o povo muito acolhedor com a gente. A gente andava de uniforme aquele tempo. “Vem tomar um café aqui”, quer dizer, a cidade tratava a gente muito bem. Era uma cidade cheia de obras de Aleijadinho, tinha um repositório artístico muito grande que influía na cidade. Uma cidade cordial também, não tinha violência, não tinha nada. Nunca vi um caso de violência em 2 anos, nem nada. Então a gente era muito bem tratado na rua e em qualquer lugar que a gente passasse e se a gente parasse perto de uma casa [diziam:] “vem tomar um cafezinho aqui; tem um pão de queijo aqui”. Quer dizer, a gente era meio incorporado pela cidade. Eu acho que foi uma experiência muito boa, do ponto de vista humano. A gente não conhecia as pessoas, mas a gente estava uniformizado do colégio e nós éramos muito bem tratados. E alguns professores convidavam a gente pra ir na casa deles mesmo em dia de semana. O professor de português, por exemplo. Havia um interesse maior por um certo “Dom Casmurro”. Então ele levava a gente pra casa dele e fazia uma espécie do que hoje chama workshop. Era um debate, um cafezinho feito em meia hora, o biscoitinho tirado de um forno de lenha e a gente conversava e ele explicava a figura; eu lembro que nós soubemos que ele era preto naquela ocasião, depois que ele fundou a Academia, que era casado com a Dona Carolina e tal. Quer dizer, ele humanizava a literatura que a gente lia. Era muito interessante. Abria um pouco a cabeça da gente. P/1: O senhor gostava de ler? R. Gostava e gosto. P/1: O que o senhor lia assim? R: Tudo, eu li até hoje tudo. Eu leio cinco coisas ao mesmo tempo, em paralelo. Eu leio em diagonal. Ouviu falar em leitura dinâmica? Isso começou em 1957. Eu fiz uns dois cursos dessa história. Eu leio rapidamente e as coisas que me interessam eu marco, e eu volto e eu estudo aquele pedaço. Faço isso sistematicamente com n coisas que eu estou estudando. Todas as coisas que eu tenho interesse, eu me aplico a elas, compro livro, busco material e tal, e quero entender e telefono e pergunto, visito as pessoas, quer dizer, eu sou viciado em leitura. O meu instrumento de absorção é a leitura. Não gosto de televisão, tenho preguiça daquelas chatices, daqueles anúncios. Eu vejo “Futura”, “Discovery”, as coisas assim. Esses negócios assim eu não agüento. A quantidade de anúncios imbecis, né?, seção __, faz favor! É uma burrice geral desses anúncios, Deus me livre! P/1: Seu Leopoldo, nesses passeios nos finais de semana dava pra dar uma paquerada nas meninas em São João? R: Dava. A maioria tinha namorada. Eu era muito pobre, muito modesto, eu tinha uma certa timidez, porque São João Del Rey não era uma cidade pobre, era uma cidade razoavelmente rica, né? Então eu não estava interessado naquilo. Eu estava a fim de estudar. Porque como aquilo era concentração da minha família eu não queria perder ano, eu queria seguir aquilo em seqüência. Eu nunca perdi ano, nem nada, porque eu via os meus pais com aquele esforço e eu queria corresponder aquilo. P/1: E quando o senhor saiu de São João? R: Fui pra Belo Horizonte, fiz vestibular, passei direto, fui o segundo colocado da Universidade de Minas Gerais naquele ano, sem cursinho, sem nada. E este diretor grandão que eu falei e o professor de matemática e português, foram assistir as minhas provas, e ficaram bastante satisfeitos que eu tirei 9 e 10 em tudo. Eram várias provas, o vestibular não tinha esse negócio de cruzinha. Era discursinho e oral. Você fazia as provas escritas, sentava na banca e respondia a uma porção de perguntas. P/1: O que o senhor prestou? R: Nem me lembro mais, isso foi em fevereiro de 1945. Mas tinha biologia, tinha física. Eu estudei odontologia. P/1: Odontologia? R: É, porque era o curso mais curto que existia naquele tempo, e eu queria logo liberar meus pais da obrigação de me custear, né? Eu disse: “depois eu mudo”. E mudei depois. P/1: Mas o senhor fez o curso inteiro? R: Fiz inteiro e trabalhei 10, 11 anos. Eu tenho 5, 6 cursos, mas o curso que uso mesmo é Administração. P/1: E quando o senhor veio para o Rio de Janeiro? R: Eu fui de Minas pra São Paulo. Eu sou católico, houve uma fase que eu era católico por hereditariedade, depois em 1950 eu passei um ano inteirinho tentando questionar-me e questionar as (dúvidas?). Encontrei amigos muito inteligentes e eles me ajudaram muito e as minhas dúvidas desapareceram. Então, de 1950 pra cá, eu sou convicto por minha conta. E a Igreja Católica tinha muito movimento naquele tempo. Tinha a Ação Católica, depois foi tudo pra cadeia depois, tudo preso por (“comunista”?). Mas tinha uns movimentos internacionais, um deles eu pertenci, chamava-se Movimento de Economia e Humanismo. Era um padre francês que era marinheiro antes de entrar no Convento e ele criou um grupo muito grande, questionando a economia capitalista naquele ano, 1952, 1953. Ele dizia que se a economia não fosse humana, não atendesse às necessidades da humanidade, ela ia fracassar. Então era uma proposta de responsabilidade social da economia com a qualidade de vida da humanidade. Era um negócio revolucionário e é até hoje. E ele tinha toda razão. Nós estamos vendo aí coisas quando a economia não atende os países, o próprio sistema capitalista vai embora. Porque a revolução vira tumulto, vira bagunça até que a economia se ajuste à tarefa ética da economia, que é atender às necessidades humanas. __ e continuo fiel a isso. E esse movimento tinha uma empresa em São Paulo, com um nome complicadíssimo: Sagmacs, Sociedade de Análises Gráficas e Mecanográficas Aplicadas aos Complexos Sociais. E essa empresa tinha um contrato com a Fao, com a Unesco, pra fazer uma pesquisa no Estado de São Paulo e eles não estavam conseguindo fazer. Começava, parava, eram 11 pessoas. E esse contrato era pra fazer um levantamento da vida econômica de todos os municípios do Estado de São Paulo daquela época que tinham menos de 2 mil habitantes pra ajustar o calendário escolar à vida econômica. Então depois disso não havia aula na época do plantio, não havia aula na época da safra, porque as crianças tinham que trabalhar. E não era só por pobreza, é porque não tinha mão-de-obra suficiente, como Cuba hoje. Corte de cana, tudo mundo vai cortar. É a mesma situação, não mudou quase nada. Eu consegui fazer o trabalho, era um contrato de 12 meses, consegui fazer em 9. Eu sei trabalhar junto com as pessoas, sempre soube. Eu não sou o dono da verdade, tem a minha, mas a minha tem que fazer parte da verdade com os outros. Eu sou um sujeito que aprendi a lidar com as pessoas respeitando as pessoas. Isso ajuda muito. E terminou o trabalho e eu tinha ficado conhecendo em Minas ainda o Francisco Clementino de Santiago Dantas, ele foi Ministro do Exterior, e foi Ministro da Fazenda do Jango, do governo pré-golpe. Ele estava em São Paulo pra um evento, eu era solteiro, e os assessores dele me acharam. “Você tem que vir pro Rio, vir pro Rio.” Ele era um sujeito fascinante, naquela altura da vida, falava nove línguas fluentemente. E avisaram que ele ia ficar cego, ele prendeu o __.Era um sujeito com personalidade, uma coisa excepcional. Um homem com uma visão, a gente chamava ele de professor porque ele estava sempre ensinando pra gente. E eu vim pro Rio a pedido dele, fui ser assistente dele no Ministério de Relações Exteriores, sem falar uma palavra de inglês, depois no Ministério da Fazenda, fiquei 6 anos bastante ligado a ele, foi o maior curso que eu tomei na minha vida, depois ele morreu com 54 anos, com câncer. E veio a revolução, eu fui demitido, escondi uns __ e fui pra luta e tal. Depois entrei numa empresa chamada Ecotec, de dois professores. E essa empresa criou a Aracruz. P/1: Voltando um pouco nesse período, antes da gente entrar de fato na Aracruz, o que o senhor quis dizer com “fui pra luta”? R: Fui pra luta, porque quem não era do lado da revolução ficou parecendo leproso pelado. Não era só leproso, era leproso pelado. Com a falta de caráter geral do país. Amigos pessoais meus encontrava no corredor, e “como vai”, “como vai”, quando olhava assim, tinham sumido, entravam no banheiro. Porque a perseguição no início da revolução era terrível. E era perseguição que se fazia aceitando denúncias, então teve muita delação, falta de caráter e aquilo virou um pânico! Vocês são crianças não sabem o que é isso. Eu fiquei não sei quantos dias respondendo a um coronel desse tamanho que queria que eu fosse comunista e corrupto. “Como? Eu fui (chumbado?) em outra linha, eu não sou isso e tal”. Mas ele fazia as mesmas perguntas. Era um processo de tortura mental, no fim ele se convenceu que (caiu um?) adversário que não é nem comunista nem corrupto. Fui cair na mão de um adversário que não é nem preto nem anão, porque ele tinha 2 metros e era burro feito (alemão?). “O senhor é muito atrevido!” “Não. O senhor é preto?” “Não.” “O senhor é anão?” “Não.” “Então pra mim faz o mesmo sentido.” “Eu posso te prender”. “Eu sei que o senhor pode fazer tudo.” “Vai embora se não eu te prendo.” (riso). Era bravo o negócio, foi barra pesada. P/1: E a história da Petrobras? R: Quando eu era jovem, houve um movimento, talvez tenho sido o primeiro movimento popular sem classe no Brasil. Popular no sentido de todas as classes. Havia uma faixa militar apoiando, havia ex-Presidente Artur Bernardes, que era um mineiro nacionalista apoiando, havia intelectuais, tinha um jornalzinho chamado “O Debate” e o centro naquele momento chamava “O petróleo é nosso”. Todas as companhias petrolíferas – a Esso naquele tempo chamava (Standard Oil Company?) – elas provavam que geologicamente nós não tínhamos petróleo. E a gente insistiu e isso foi crescendo no tempo do governo Dutra. E o Getúlio foi eleito, ele tinha sido deposto. Foi eleito no lugar dele o Ministro da Guerra, chamava Ministro da Guerra naquele tempo, o Enrico Gaspar Dutra, sujeito de Cuiabá, um mato-grossense. No fim dele, o Getúlio foi eleito maciçamente, assim: avalanche popular. Porque ele tinha criado carteira de trabalho, férias. Antes de Getúlio não tinha nada, trabalhar era escravo. Ele, apesar de fazendeiro, tinha criado toda a CLT, que existe até hoje. Então ele mudou o destino do Brasil. E ele era muito hábil, era um baixinho esperto. Por exemplo, um fato: os aviões americanos não tinham autonomia pra ir pra Europa jogar umas bombas e voltar. Não tinha tanque, consumia muito combustível. Então os americanos queriam a doação de um pedaço da quina do Brasil no Rio Grande do Norte, chama-se Seixas, é o ponto mais leste do Brasil, está lá até hoje. E o Getúlio disse que não. Depois queriam comprar . “O Brasil não está à venda.” O Roosevelt veio ao Brasil, ele tinha meningite e encantou-se com o baixinho. O baixinho falou: “Olha, nós vamos apoiar, mas não é vendido, nem doado. Tem uma lei...” E leu pra ele o artigo do comodato, nós cedemos por uso gratuito do tempo que for necessário e cederam a base aérea de Natal, que hoje é Universidade. E o Roosevelt ficou encantado. “Mas tem um preço.” “Qual é o preço?” [Getúlio] tirou um tijolo [e disse:] “Quero construir uma siderúrgica no Brasil. Nós somos um país agrícola, sem aço não tem industrialização. Nós temos tudo pra fazer aço aqui.” “Mas o Brasil...” “O Brasil tem”. “Mas quem é que fez o trabalho?” Abriu a porta e mostrou, era o chefe de assessoria econômica do Roosevelt. (riso). Nasceu a CSN dessa negociação. Isso no primeiro mandato. No segundo mandato dele, ele criou a Eletrobrás, a Petrobrás. Quer dizer, ele construiu o arcabouço de um país pro próximo século, isso na década de 50. P/1: O senhor era getulista? R: Naquele tempo era muito controvertido porque tinha um partido chamado UDN, que era um partido intelectualizado, que professores universitários estavam todos nele, que achavam que ele era ditador, tinha uma história de ditadura naquele tempo, quer dizer, todo mundo era escravo naquele tempo. O que é liberdade pra você que não tem carteira de trabalho, não ganhar nada? Quer dizer, não existe isso. Esse valor é um valor burguês, né? Hoje no Brasil, o que é liberdade pra um sujeito que cata papel, cata lata? O que é liberdade pra ele? É arranjar um jeito de comer. Só. E não ser preso, não ser espancado. Havia uma campanha muito grande, a imprensa toda era contra ele, mas ele, do ponto de vista social, eu achei que ele é um sujeito importante. Eu sabia, sentia o que ele estava fazendo. Eu não era getulista por razões políticas, mas por razões sociais -- que é a toda a minha origem. P/1: Que é a origem da família, origem da educação... R: E da minha militância na Ação Católica foi toda voltada pra isso. Os valores com os quais eu nasci e foram cultivados ao longo da minha vida e são até hoje. P/1: Qual era o nome do padre da Ação? R: Padre José Lebret, Movimento de Economia e Humanismo. Ele era francês, trabalhava no porto, era carregador de produto, de saca de porto. Ele era forte. Depois foi ser padre. Ele era um sujeito muito interessante. Veio ao Brasil várias vezes, tivemos relações assim muito próximas. Ele era um homem com uma calma, uma modéstia, mas tinha uma visão do futuro, uma do mundo, que os livros dele hoje estão atualizados. De vez em quando eu lá à minha estante, você abre __ e está lá até hoje. Não cumpriram, não fizeram quase nada, mas acho que são os princípios que existem até hoje. Nenhuma liderança responsável em nenhum país hoje, aceite que a economia não atenda à necessidade da população. E isso ele lançou há 50 e tantos anos atrás. Era um precursor, com uma espécie de visão. Tem pessoas iluminadas que vêem mais que os outros. Tem pessoas iluminadas, ele era um sujeito iluminado. E a Ação Católica, e a Igreja Católica daquele tempo era um lado reformista, um lado que queria mudar as coisas, pelas mesmas razões que o padre Lebret. As coisas eram articuladas. Foi um período muito interessante, e a gente lia muito, estudava muito, fora do currículo escolar e se debruçava, a gente reunia, discutia, quer dizer, é um período de construção de mentalidade. P/1: A Ação, ela influenciou a Juventude Católica, a Juc? R: Tinha a Juc, Joc, Jec e Jic, e. Tinha um arcebispo em Belo Horizonte, que era sergipano bastante idoso, me chamou lá um dia e disse: “Olha, não tem Joc aqui. Você vai ser o Presidente.” “Mas que isso? Eu sou dentista.” “Você é dentista, mas você vai gastar seu tempo de graça.” Eu falei: “É verdade”, e eu fiquei 3 anos (pelejando?) e deixei estruturado. Eu fiz esse exercício de encontrar lideranças e identificar pessoas com potencial, ensinar elas a se organizar e tal. E a Joc passou a existir em Belo Horizonte quando eu (estava?) lá. E isso pra mim foi um lado extraordinário porque foi uma coisa de continuidade, porque ideologicamente, vamos dizer assim, a minha origem era essa. Só que na linguagem de hoje eu era camponês. Aquilo era urbano. É muito diferente a vida rural e a vida urbana, até hoje é muito diferente. Quem não souber distinguir... Nosso setor não entendeu que tinha 95% da população chinesa que era rural. E fez uma opção rural. E deu certo. Agora fica aí gente querendo fazer a revolução rural com 17% de população nos campos! Espera aí, tem que ter um certo senso da realidade! No mundo existe esses fiascos, né? P/1: Durante os anos mais pesados depois de 1964, o senhor teve participação política? R: Não, porque os partidos foram extintos, não havia __ nenhum, não havia nada. Os militares executaram de fato o Brasil. Tinha uma parcela muito bem intencionada, mais preparada; e tinha uma parcela muito cruel, com a mentalidade de perseguição, todo mundo era comunista, todo mundo tinha que ser preso, ser torturado, fuzilado, houve muito sofrimento. Muito sofrimento, muita tortura, muito exílio. Os que conseguiram fugir fugiram, Betinho fugiu. Betinho era um pouco mais novo do que eu, nós tínhamos uma relação muito fraterna, ele sempre foi doente, ele tinha hemofilia, saía sangue de todo lugar, ele sempre tratou o Betinho com uma afeição. Ele era um sujeito genial. Foi o primeiro sujeito que falou seriamente em fome no Brasil. E era um jovem. P/1: O senhor teve amigos que foram presos da Ação? R: Muitos, muitos sumiram, desapareceram, depois a gente soube que tinham morrido. Tinha militar que tinha um avião com (ecosonar?), que era um instrumento de navegação e identificava cardume de peixes e jogava o sujeito ali em cima. P/1: Isso aconteceu mesmo? R: Acontecia, foi muito bravo o negócio. Aos poucos, tinha um general chamado Ernesto Geisel que chegou à conclusão que tinha que devolver o poder aos civis. E assumiu isso e durante o mandato dele, demitiu o Ministro da Guerra, demitiu o Chefe da Casa Militar, demitiu o Comandante do 3° Exército Militar de São Paulo, por tortura, destruiu aquela máquina brava, só errou indicando o sucessor: o João Figueiredo, que era um sujeito despreparado, mas ele conseguiu montar o esquema de entregar o poder aos civis pacificamente. Foi uma coisa dificílima. Você, de dentro do sistema, se convenceu que estava errado, que os militares não foram feitos pra reinar e enfrentou todas as dificuldades, e deixou o país com um regime de liberdade. É um negócio assim excepcional. É um homem de grande valor. Hoje falam muito mal dele. Eu o conheci bastante. Depois que ele saiu do governo, eu tive relações de trabalho junto com ele, é um sujeito que queria um Brasil melhor, não era um patriota atrasado, ele era alguém que queria um Brasil melhor e sabia, porque ele era engenheiro, tinha sido presidente da Petrobras, na juventude quando era tenente tinha sido Secretário de Finanças do Estado do Nordeste, quer dizer, ele conhecia a realidade brasileira como ela é: diversificada. Então era um sujeito com visão de futuro, rompeu o acordo militar Brasil-Estados Unidos. Já imaginou, naquele tempo?! São atos corajosos, ele era brasileiro mesmo. Tinha força de liderança, porque ele era militar, mas tinha feito várias atividades civis, então ele enriqueceu. [Era} de origem alemã, de origem protestante – naquele tempo protestante ser Presidente da República era uma ameaça. Não tinha esse negócio chamado evangélico. Era protestante, que foram as religiões que surgiram quando a Igreja Católica estava muito corrupta, muito podre. O Lutero, o Calvino, tal, protestaram e criaram outra visão cristã muito saudável, muito importante. Agora é uma coisa meio complicado, dinheiro misturado; essas outras não. Presbiteriano, luterano, calvinista, acho que são oito, [com] gente de muito valor. Geisel era luterano. Ele mudou a história do Brasil, quer dizer, ele reinseriu o Brasil num regime de liberdade, pela força da convicção e da liderança dele, pela competência dele de desmanchar os grupos radicais. P/1: Transição lenta e gradual. R: Mas fez a transição. Importante é que ela foi feita – e pela força dele. Evidente, havia muito movimento, mas isso era periférico em termos de poder. O poder era militar. E ele de dentro do poder, assumiu a tarefa pública de restituir o poder o regime democrático, não é bem democrático, nós temos liberdade, mas não temos democracia. Esse negócio está meio esquisito. Nunca aceitei que tem que ter um partido organizado, cada um tem que ter a proposta de poder. Então você escolhe entre as propostas... Nós temos 36 partidos, quer dizer virou confusão. Mais fácil fazer um partido político no Brasil do que criar uma micro-empresa. É. Eu conheço uma pessoa que em uma semana fez um partido político, estudou direitinho, ganhou tempo na televisão... (riso). __ Mas o Brasil é melhor que tudo isso, tem condições naturais que nenhum país isoladamente tem, e tem um tipo de gente que nenhum lugar do mundo tem. Nós somos o país em que houve a mais demorada e a mais profunda miscigenação, cruzamento de raças. Nós somos todos híbridos, todos os brasileiros são híbridos. Examina a sua vida que você tem 3, ou 4 origens diferentes. Todos nós temos. Nós somos híbridos. Nas leis genéticas, tinha um cara chamado Mendell, de 1300 – que foram revogados até hoje: quando você cruza dois indivíduos da mesma espécie diferentes, o F1, era do caráter mais forte dos pais, isso é chamado rigor híbrido. Nós todos somos híbridos. Por isso que brasileiro tem essa facilidade de aprender, de mudar de profissão, de se virar, isso é hibridização genética, que cria uma mentalidade aberta. Nós não temos medo do novo, vocês são jovens, vocês não tem medo do novo, medo do futuro; quer dizer, isso é rigor híbrido, é espetacular. Não tem nenhum lugar do mundo que eu vi isso. P/2: Senhor Leopoldo, falando desse rigor híbrido, mudar de profissão, como foi essa decisão depois de deixar a odontologia e partir pra novos desafios? R: Esse convite pra São Paulo era um convite assim; essa empresa estava com dificuldades porque tinha prazo pra cumprir contrato; então me fez uma proposta assim: “ganhar 50 mil dólares por mês” hoje, um negócio do gênero. Eu era jovem, solteiro e tal, o que eu tinha a perder? Nada, né? Então eu fui, não só porque eu pertencia ao grupo – essa é a razão básica – mas porque a oferta material era estonteante. No final de 9 meses eu tinha mais dinheiro do que o que eu tinha juntado em 10 anos de dentista. Então houve assim uma hibridação entre coincidência de visão e eles precisavam dar conta disso e eu consegui dar conta. E daí pra frente eu mudei várias vezes. Já mudei quantas vezes? Agora só cuido de bicho e planta. Meu interesse central é uma reserva do Pantanal de 106 mil hectares. Eu estou há 5 anos metido até o pescoço nessa história e está funcionando felizmente bem. É muito difícil você preservar um pedaço que era uma zona de degradação, tentar reconstruir naquele pedaço um ambiente mais próximo possível ao natural, pra que os animais e plantas possam se desenvolver bem é muito difícil. Mas eu estou conseguindo. P/1: E como foi essa entrada no mundo da celulose? R: Eu fui trabalhar nessa empresa chamada Ecotec, que era do Professor Cafu e do Professor Antônio Dias Leite, dois professores. E essa empresa criou, inventou, concebeu a Aracruz e eu fiz parte do grupo dentro dessa empresa. Ela estava muito bem, queria crescer, tinha contrato suficiente, era um pessoal que dinheiro não era o mais importante pra eles, então abriu um espaço e se constituiu um grupo inteiro do qual eu fiz parte desde o início pra criar no Brasil uma indústria de celulose. Com o seguinte raciocínio: os líderes dessa atividade do mundo, não tem sol. Madeira é fruto da fotossíntese, é a energia solar radiante, numa superfície livre chamada cromossomo, converte essa energia radiante do sol em biomana. Isso é que é madeira. Feijão, arroz, mandioca, é tudo a mesma coisa. Então, como nós tínhamos uma condição excepcional do ponto de vista natural, nós poderíamos ter um poder de competição e se verificava nas curvas de demanda e nas curvas de produção que havia um espaço e nessa concepção planetária é que se inventou a Aracruz, que era um projeto pra produzir e disputar o mercado externo – e está aí produzindo 2 milhões de toneladas por ano e vendendo 99% pro mercado externo, qualquer coisa assim. Quer dizer, a concepção originária é essa e isso foi feito nessa empresa. Eu nem estava aqui no Rio quando eles me escolheram diretor. “Mas espera aí, eu não sou do lado dos militares, eu sou trabalhista, como é que eu posso ser?” “Se vira.”(riso) Minha vida sempre foi assim: sempre andei em um cabo de aço sem rede por baixo. Andei sempre desafiado e eu era danado. E (é uma adrenalina danada?), você tem que enfrentar situações difíceis. Eu conhecia o Espírito Santo superficialmente, fui pra lá com 33 mil reais no bolso e um caderno pra escrever e fui tentar produzir isso na prática. P/2: Por que o Espírito Santo? R: Nós estávamos olhando vários lugares e terra você só compra de alguém que quer vender. Eu tenho experiência grande. Eu comprei terra a vida inteira. Então uma companhia chamada Companhia Ferraz de Vitória tinha mudado o processo de (siderurgia?) de carvão vegetal pra eletricidade e tinha uma área de 15 mil hectares na cidade de Aracruz, que estava à venda. Um amigo pessoal meu trabalhava no (BNDES?) nessa companhia falou: “Tem lá e tal”; eu fui lá, visitei, abri o mapa pro professor Cafu e o Dias Leite; o Cafu é capixaba, e o Dias Leite casado com uma senhora do Espírito Santo. Então eles tinham muita familiaridade com o Espírito Santo. Quando eu mostrei e tal, o professor Cafu é libanês, aquela competência oriental, ele pôs os dedos assim e começou a listar as vantagens: localização – perto de um porto, então podia ter um porto próprio. O clima, tinha juntado curva de clima, curva de solo, tinha feito todo um arsenal. Então eles começaram: “Realmente, tem que ser aqui.” E entraram numa negociação com a Companhia Ferraz de Vitória. Compramos aquilo por pedaço simbólico, porque estavam loucos pra ficar livres daquilo. E compramos 15 mil hectares. 15 mil hectares em 1966 é um montão de terra, hoje já tem 300 mil. Mas você tem que analisar as coisas na época. E aí nasceu. Não foi incentivo, não foi política, não foi nada. Foi uma decisão racional, evidentemente estimulada por uma área grande que estava à venda. Nós tínhamos olhado o Vale do Paraíba, tinha andado inclusive no Espírito Santo numa parte montanhosa; isso era perto da praia, perto da costa. Então a decisão foi tomada por eles e eu era um auxiliar. Mas por eles por razões lógicas, por razões econômicas, social e geográfica. E como eles eram de lá e sabiam que o Espírito Santo tinha uma das melhores misturas de raça do Brasil: italianos, alemães, pretos e índios. Não existe nenhum capixaba burro. Não há a menor possibilidade de se achar um capixaba burro. Capixaba é extremamente inteligente. E eu fui pra lá sozinho, sem dinheiro, sem nada, um carro emprestado e montei a primeira equipe só de capixabas, com alguns critérios: eu queria um de cada tendência: tinha um católico, tinha um protestante, um espírita, tinha um preto, quer dizer, eu queria uma amostra do Espírito Santo, mas tinha que estar em torno de 10 anos mais novo do que eu, pra poder continuar. E essa equipe começou comigo e eu saí deixando essa equipe lá. Foi realmente um negócio extraordinário. Não tinha experiência, então dois engenheiros florestais do Espírito Santo, um estava na Bahia, outro estava em Minas, eu recrutei. E fui a São Paulo e contratei um engenheiro com 30 anos de (tarimba?) de plantar eucalipto e ele me trouxe três homens de campo, três irmãos (fenícios?). Então essa foi a força. A ignorância é igual ao entusiasmo, nós fomos começando a trabalhar, é uma pobreza na região. O município não tinha água, luz, telefone. Não tinha juiz, promotor, era um negócio assim: 2 mil pessoas, uma sede, era uma miséria terrível, 12 carteiras de trabalho assinadas. Só. Não tinha nada. Um negócio assim... Primeira vez que nós fizemos exame de fezes, 97% tinha mais de 3 bichinhos. Era tudo assim. Era uma miséria, um sofrimento danado. P/1: Como era o nome da empresa que antecede a Aracruz Florestal? R: Ecotec, a única consultora antiga do Brasil. Ecotec, Economia e Engenharia, eu nem sei o sobrenome, mas Ecotec todo mundo sabe. Do Cafu e do professor Dias Leite. A empresa era grande, chegava a ter 60 pessoas, naquele tempo era enorme. E fazia estudos. P/1: Os estudos de viabilidade foram todos feitos por vocês? R: A Ecotec entregou um documento escrito e agrupou 11, ou 12 investidores que ficaram com o projeto. Partiu da idéia, gerou, discutiu, analisou, optou, decidiu e entregou pros investidores. P/1: O senhor conheceu nessa época o senhor Lorentzen? R: Conheci, ele era um dos 11 investidores. P/1: E como é que foi o contato de vocês? R: Não tem nada de especial. O que tem o senhor Lorentzen? P/2: Conta mais um pouquinho sobre a Aracruz Florestal. R: Em 1972, 5 anos depois, já tinha 26 mil hectares de floresta plantada, construída, considerada extremamente bem sucedida e isso animou as pessoas que tinham dinheiro a organizar uma empresa industrial pra fazer uma fábrica de celulose, você sabe, é chamado de capital intensivo. Gasta muito dinheiro. E a fábrica, ajudada por esse espírito, foi dimensionada pra mil toneladas por dia – era um escândalo, a maior do Brasil naquela época era 300 toneladas por dia. Então nós fomos considerados os animais exóticos, nós não éramos do meio, né? Não éramos do ramo. Pouquíssimas pessoas do meio me ajudaram. P/2: O senhor podia voltar um pouquinho e explicar pra gente a escolha do eucalipto e o uso final do eucalipto? R: Tinha várias discussões, isso foi longo, a gente ouviu muita gente. Fomos pra São Paulo, fomos não sei aonde, ouvimos naquele tempo tinha o Instituto Nacional do Pinho. Nós tínhamos bons ouvidos, né? A gente ouvia todo mundo. A celulose de fibra longa que vem dos pinhos, que são madeiras que tem também madeira de clima frio, ela tem características próprias. Agora a celulose de fibra curta, naquele tempo quase não era conhecida, mas no Brasil já havia uma experiência muito boa, de altíssima qualidade de fibra curta, que é o eucalipto. A fibra do eucalipto é curta. São características genéticas. Então um dos raciocínios é o seguinte: até agora nós não entendemos absolutamente nada disso. Nós vamos começar completamente ignorantes. Vamos bater de frente com os EUA, Canadá e Escandinávia, que só trabalham com fibra longa? Não é muito inteligente. Porque nós não saímos meio de lado, quando eles descuidar nós estamos lá na frente. E o ciclo, a velocidade de crescimento é espetacularmente maior. Não há nenhuma árvore que cresça na velocidade do eucalipto no mundo. Tem umas 700 espécies de eucalipto, 5 mil hibridações no mundo, está em 63 países no mundo e, portanto, é bastante conhecido. P/2: O senhor pode descrever que descobertas foram feitas com o eucalipto no Aracruz no Brasil? R: É o seguinte: ele veio pra gerar madeira pra alimentar as máquinas pra estrada de ferro, que era uma locomotiva movida a lenha. Desmataram, como eles não tinham mais onde desmatar, tiveram que plantar. Depois a siderúrgica Belo Mineira adotou o eucalipto como fonte de carvão vegetal pra fazer aço e ferro. Essas são as linhas históricas. Depois a indústria de celulose de papel de São Paulo, praticamente, Suzano, Klabin etc., começaram lá, principalmente a Suzano, do (Marcos Ferrer ?), pai dos dois que estão lá, que morreu há pouco tempo, foi pros EUA com toneladas dessas madeiras pra um laboratório, ficou meses lá pesquisando e chegaram à conclusão que podia dar um produto muito bom. Isso foi a fase heróica, a fase histórica. Então a Suzano, Marcos (Ferrer?) pessoalmente, apoiado pelo pai deles, senhor (Lenon?) Ferrer, ele teve um papel definitivo porque ele fez uma inovação tecnológica. Isso acontece quando você tem uma base científica, dessa base você tinha novos processos de produção, então você inova a tecnologia. A tecnologia é o correr de informação entre a ciência e a prática, entre a ciência e a produção. E isso nos influiu muito, porque nós compramos, desenvolvemos e compramos as amostras dos papéis, nós mudamos as amostras da celulose pra Suécia, dos Estados Unidos, nós fizemos um certo grau de análise global pra ver se aquilo é um produto muito bom. Do outro lado, você corta uma árvore muito boa pra produção com 7 anos de eucalipto, e de pinho, o mais novo que você consegue, mesmo no Brasil, é 12 anos. E o eucalipto dá várias árvores com o mesmo tronco. Hoje se colhe quatro vezes com o mesmo tronco. Você corta o tronco e brota, brota, brota. O pinho você corta e tem que começar tudo de novo. Vários problemas envolvidos. E tinha esse problema estratégico: isso nós podemos ter no Brasil, pelas características ambientais. Naquele tempo não falava em ecologia, em nada, pelo solo que tem o Brasil, se nós podemos ter um produto definitivo e de boa qualidade, por que não esse e não o outro que nós não temos a mesma força de competição? Não foi uma decisão difícil, foi a mais difícil decisão do projeto: opção de pinho e eucalipto. Porque tinha pinhos no Brasil também. O Brasil tinha pinho chamado araucária, planta excepcional. Acabaram com ela quase tudo, mas é um tipo espetacular de pinho, espetacular. É uma madeira extraordinária, tem muito lá no Sul. Mas foi toda desmatada e já se plantavam os pinos de origem americana, canadense etc. No Sul do Brasil é frio, se adequa mais as plantas de lugares frios, que a planta não vive em ambiente hostil à natureza dela. Se plantar uma planta tropical no frio, ela morre simplesmente, se plantar uma do frio em lugar quente, ela também morre. Ela não fala, mas sabe agir. P/2: O dr. Ernane falou de um processo de muda que ele tentou explicar, mas falou “fala com o senhor Leopoldo, que ele sabe explicar”. R: Isso é muito simples. Nós tínhamos quando começamos – vou só te dar o número, a matemática é importante – a madeira que você produzia no hectare – o hectare, você tem idéia, é um quadrado de 100 por 100, são 10 mil metros quadrados – dava 5 a 6 toneladas de celulose hectare/ano. Você (conta?) __, mas a conta que você faz é em hectare/ano, porque é vivo e está crescendo. E nós, erradamente, usamos as sementes que estavam disponível no Brasil, que vieram do Sul da Austrália, que sobe a lacerda do Rio Grande do Sul. Nós não sabíamos nada disso. Sabia ecologia naquele tempo? Não tinha noção de nada, era completamente desconhecido. E nós desconfiamos dessa história e tinha um professor da Fao, que é um italiano naturalizado argentino, que é o professor (Golfair?), que é o chefe da missão da Fao no Brasil. Fui a ele. “Professor, pelo amor de Deus, vamos lá comigo.” Levei ele lá comigo, e “você tem que trocar o sangue”. “Trocar o sangue? Mas eu não sou médico do hospital. O que é trocar o sangue?” “Você tem que trocar o material genético. Tem que ter um material genético, um aparelho 17 no Espírito Santo, mais próximo ao Equador, isso está na página 32.” Não tem jeito, e a fábrica caminhando e as árvores doentes, com fungos e vírus. Nossa, eu fiquei em pânico! Eu era diretor florestal. E falei: “E agora?” Surge um monstro com 4 mil metros de madeira por dia e não tem madeira. E aí ficamos extremamente, assim, meio em pânico, e é quando você reage. No ideograma chinês o desenho de crise é o desenho de solução, o desenho de ameaça é o desenho da oportunidade. Naquela língua deles lá que a gente não sabe. Já estive lá várias vezes e não sei uma palavra. E aí nós ficamos em pânico e fizemos algumas movimentações que __ e tínhamos internamente um engenheiro da área, (Kiemi Kiori?), que era um geneticista, hoje acho que é a geneticista mais competente do mundo ocidental. A nossa equipe tinha uma base bastante sólida, mas nós nos cercamos de todo mundo. Nós fizemos um consórcio internacional com a nossa competência e com a ajuda muito fraterna do professor (Golfai?), e mandamos uma delegação ao Norte da Austrália, onde ninguém tinha coletado semente e depois mandamos ao Timor, no tempo em que era colônia portuguesa, depois virou colônia da Indonésia. E trouxemos de lá uma espécie chamada (ourofila?) e trouxemos do Norte da Austrália. A Austrália tinha um banco de sementes de eucalipto tropicais. E começamos a testar. Você plantava, quando a árvore chegava a uma certa altura, você no laboratório contaminava um pedaço de casca com doenças; abria a casca da árvore, aplicava e se ela não morresse é porque ela era resistente. Então nós encontramos essa espécie chamada (ourofila?), testamos em tudo que é maneira. A Isalc vinha e testava pra nós, nós éramos abertos, nós não éramos os donos da verdade, nós queríamos ouvir os outros, nós queríamos aprender. Então chegamos à conclusão que os grandes – grandes porque crescem muito –; os do Norte da Austrália – que também eram resistentes – e cruzamos os dois: chama-se (ourigrande?) mundial. E ao mesmo tempo fizemos uma bateria de teste sob todos os aspectos. Por exemplo, eficiência metabólica. É o seguinte: você tem árvore que gastou 100 kg de adubo pra produzir uma tonelada de madeira, e árvore que você gasta cinco. É mais eficiente. Ela tem um metabolismo melhor. Eram 14 critérios pra aprovar um clone. O que é clone? É o indivíduo que você quer duplicá-lo. Chama-se genes, naquele tempo não mexemos no DNA de nenhuma planta. Nós simplesmente multiplicamos, chama-se a própria propagação vegetativa. Aqueles escolhidos nós multiplicamos. Então era um processo de produzir muda sem semente. Você pegava um galhinho dessa planta, cortava, ela brotava, pegava o galhinho, plantava esse galhinho e virava uma árvore. Sei que esse salto, nós passamos em pouco tempo de cinco a seis toneladas de celulose por hectare ano, a 10 e 11, quando eu deixei a empresa com esquema pra 15. Já chegou até 18. Porque nós selecionamos a seleção da seleção. Não alteramos o DNA, não tem o gente, não tem transgênico, não tem nada disso. É simplesmente a seleção natural. Nós usamos a tecnologia que dava tempo de produzir a tempo da fábrica. Porque o processo antigo sempre dava pra sementes, pega o pólen de uma árvore, vai ao pólen de outra, mistura, põe no saquinho pra não alterar, colhe aquela semente, planta, você só podia testar quando ela tivesse 5 anos, senão, não. Nós tínhamos pouco tempo, quando nós saltamos do processo tradicional de hibridação evolução por plantado por semente, saltamos pra usar estas árvores excepcionais dentro do mundo que nós tínhamos, mais os híbridos que nós inventamos pra atender à fábrica. E a explosão de produtividade foi de tal maneira que nós ganhamos prêmios no mundo inteiro por causa dessa história. Deu uma sacudidela, né? E absolutamente sadias. Nenhuma adoeceu, porque eram todas testadas previamente uma a uma. __ se adoeceu, você tem a seleção natural, era analogicamente a mesma coisa. Então isso deu um salto. P/1: Então a origem da Aracruz é a Aracruz Florestal, era o plantio do eucalipto, era só isso? R: Não, no início tinha a terra, tinha tudo. P/1: E o estudo é a viabilidade dessas mudas? R: É; isso aí foi trabalho da Aracruz, estudo da viabilidade econômica, trabalho da Ecotec. P/1: Pra criar um grande plantio... R: Pra sair da ameaça de que as sementes disponíveis no Brasil não eram adequadas ao nosso clima, está aí o 17. É um problema ambiental, ecológico, porque naquele tempo ninguém sabia o que era isso. Mas esse velho que morreu com 90 e poucos anos há pouco tempo – eu fui até pouco tempo no enterro dele na Argentina – falou: “você vai ter que trocar o sangue, senão não tem jeito” e ele me explicou direitinho, e eu ficava assim sem piscar. Roberto (Gofair?), esse senhor nos deu uma aula básica do que era genética, do que era ambiente e tal e nós aceitamos – porque era muito lógico -, ele tinha muita capacidade de persuasão e fizemos um esquema de trocar o sangue. Nós saímos de uma origem genética, que não é adequada ao nosso ambiente e fomos no mundo – pegamos o globo e riscamos onde é que tem eucalipto e fomos um por um dos países naquela faixa do mundo todo buscar material genético. E esse (ourigrande?) é um sucesso mundial, salvou a (Jair?) da falência, é o que está sendo tratado na China, quer dizer, é um híbrido espetacular. Deu uma qualidade de papel excelente, boa pra cidade, muita maciez pra escrever. Ele é tão bom de opacidade que você pode imprimir dos dois lados do papel em (gravatura?) baixa e dá papéis de fralda de criança, esse negócio é complicado. Sempre que tiver fibra grande com fibra curta na fraldinha do bebê, fica tudo assado o menino; e são produtos caríssimos. Então a Aracruz vende a celulose dela pra papéis de alto valor, por isso que ela tem facilidade de ganhar dinheiro e um produto de muito boa qualidade, que pode ser usado finalmente em produtos de mais valor ainda. Você pega um saco de um quilo de papel higiênico. Você pagou quanto por quilo? Porque é um produto especializado, que tem características e tal. Foi um desafio, uma aventura, um risco. A fábrica caminhando: 10 mil pessoas trabalhando! E as árvores morrendo. (riso) P/1: Como foi essa decisão de criar a fábrica de celulose? R: Em 1972, por acaso, 72 investidores da Aracruz Florestal se transformaram em acionistas da Aracruz Celulose e criou uma empresa em abril de 1972. E todos os 72 investidores da Aracruz Celulose se converteram em acionistas, e investidores da Aracruz Florestal, se converteria a investidor da Aracruz Celulose. P1, Bom, isso já transcorremos... R: 5 anos de atividade de campo, que o ano anterior, de 1976, foi de estudos aqui no Rio de Janeiro, na Ecotec. A empresa Aracruz Florestal foi criada, se não me engano, no dia 25/1/1967. E a empresa Aracruz Celulose foi criada em 24/4/1972, cinco anos de intervalo. P/1: Como foi a participação do senhor na criação da fábrica? R: Não deram o registro da empresa pra vocês não? P/1: Deram, mas queremos ouvir a história do senhor. R: Não. Pede a certidão. Está lá escrito: fundador Leopoldo Garcia Brandão, que eu era um articulador do negócio todo, todo mundo conhecia a mim. P/1: Como era esse trabalho do senhor? Quais eram os desafios que o senhor teve? R: Eu tinha 16 desafios pra cinco dedos.(riso) Quer dizer, estava lá e aqui, pra lá e pra cá. Eu ficava lá, eu era chefe, e aqui eu era parte, né? P/1: Lá o senhor era o diretor florestal? R: Não, aqui eu era o diretor florestal da Aracruz Celulose e membro do Conselhão, lá eu era o Diretor Superintendente da Aracruz Florestal. Eu era o único não acionista, eu tinha sido fundador. Então, eu tinha o mesmo voto que o Walter Moreira Salles, da Souza Cruz, o Lorentzen; o meu voto valia o mesmo. P/1: Como era essa composição desse trabalho nesse início, seu Leopoldo? R: Era complicado, porque nós tínhamos um sócio sueco naquele tempo. Chamava (Abili Roud?), chamado (know-how park?) Essa história de ficar falando inglês, né? Eles tinham 2% porque eles tinham uma fábrica de celulose em Portugal, em Figueira da Foz. Então era o único grupo europeu que tinha experiência com celulose de eucalipto e se associou à Aracruz com 2% e tinha muita controvérsia. Cultura escandinava é muito diferente da nossa. Eu tinha muita dificuldade, assim, visão cultural. Mas prevalecia a visão brasileira, nós éramos atrevidos, nós brasileiros ali dentro éramos muito atrevidos, porque nós estávamos convencidos de que estávamos certos, e a história provou que estávamos certos. Eu que era da parte florestal, que era a mais difícil, desafiadora, eu tinha um círculo de amigos pra tudo quanto é canto que me ajudavam e aí ao longo do tempo, dentro do setor de celulose de papel do Brasil, eu também tinha amigos mesmo e muito sábios. Eu via sempre, eu fui muito ajudado. P/1: Quem eram os seus amigos? R: Por exemplo: Horácio (Cercasqui?), que foi diretor do Klabin até morrer, que vendia papel. Ele era presidente da Associação Brasileira de Celulose e Papel, me telefonava, era meu amigo pessoal. O Horácio Klabin, que era presidente da Klabin, me ajudou assim... Morreu cedo, todos os dois morreu cedo. Eu tinha pessoas que estavam 20, 30 anos no ramo e me ajudaram pessoalmente, além de eu recorrer a eles, tomavam a iniciativa de me ajudarem. Eu tinha uma retaguarda de apoio tecnológico e apoio de experiência muito grande. P/1: O senhor participou das compras da floresta do Vale do Rio Doce? R: Essa coisinha que comprou agora? Isso é um sítio. (riso) P/1: Não, lá atrás. R: Pois é, era um pedaço de terra em linhagem, tem 38 mil hectares, isso é um sítio, não tem importância nenhuma. Eu comprei todas as terras da Aracruz. P/1: Como era o processo da compra, principalmente tem o entorno, né? Tem a comunidade local? R: Não, a pobreza do Norte do Espírito Santo era uma pobreza assim arrasadora, geográfica. É aquele território que tinha terra, mas não tinha renda, então as pessoas pressionavam a gente pra comprar, punham amigos no meio e tal, queriam vender. Quando vendiam, davam uma festa. Aquilo não produzia nada, não dava lucro, nós ocupamos um vazio econômico, nunca interrompemos uma atividade, nunca compramos uma fazenda, nunca compramos uma lavoura. E tinha havido uma decisão do Banco Central de erradicação. Os cafés de origem africana chamada (Cunelon?) foram erradicados maciçamente. E a única coisa que dava algum dinheiro era o café e eles pagavam caríssimo pro pessoal arrancar. Recebeu, arrancou, o que fazer com esse abacaxi? Então a gente era procurado intensamente. Então a gente não queria comprar por razões de localização, de topografia, tínhamos um conjunto de critérios, né? Era uma dificuldade pra recusar, porque as pessoas punham amigos do meio, punham maçonaria no meio, os padres no meio, era um negócio assim complicado. P/1: E vocês enfrentaram dificuldades junto a algum grupo, comunidade? R: Não, nunca destruímos comunidade, nunca interferimos em comunidade, de jeito nenhum. Nós não tínhamos uma razão pra mexer com a comunidade, tinha vazio pra nós comprar; por que chatear os outros e ser chateado? Não tinha nenhuma razão lógica, nenhuma razão de bom senso. Então, não existe essa história. Não fabricamos favela, nem nada. Você vai na cidade Aracruz que eu encontrei com 2 mil habitantes, está com 70 mil habitantes – e não tem uma favela. Isso é um exemplo e um lucro. P/2: Essa visão que o senhor teve da comunidade de Aracruz antes e depois da instalação da floresta e da fábrica? R: É o seguinte: eu tinha um esquema de trabalho muito rigoroso comigo mesmo, eu trabalhava umas 80 horas por semana. Vocês não sabem o que é isso, vocês são jovens. Quer dizer, eu trabalhava tudo que eu tinha de obrigação com a empresa e trabalhava de (25% a 30%?) do meu tempo pra comunidade, em nome da empresa e com alguns critérios. A empresa não era paternalista, não era assistencialista, não queria ser dona de nada, mas era parceira. Isso em 1967, eu tinha um sujeito trabalhando comigo anos a fio, só por isso ele era um gerente das minhas relações com a comunidade. Só isso que ele fazia. P/1: Como era o nome dele? R: (Ovídio?) Luiz Moreira, está vivo ainda hoje, genial, modestíssimo, escuro, mas um gênio, figura humana. Ele era protestante. Naquele tempo ser protestante era um escândalo. E o (Ovídio?) era o meu homem e detectava todos os problemas. Então, assim: tinha ma comissão enorme pra eu financiar a eleição de início?). Negativo. “Bonito, que seja eleito, mas eu não ajudo. Ajudo educação e saúde”. Eu tinha duas prioridades marcantes: não tinha hospital, não tinha médico, fui atrás de um médico no Ceará, contratei um médico, fui ao governador e [disse:]: “Se eu arranjar um médico, o senhor nomeia pro posto de saúde?” “O posto de saúde está vago há 5 anos porque ninguém quer ir pra lá”. “O médico está aqui.” A empresa pagava, o posto pagava, depositava o dinheiro e era assim. E quando eu deixei a Aracruz tinha um hospital de 60 (leitos?), mas eu não aceitei que a empresa fosse dona. Tinha um padre alemão, um santo lá, Guilherme (Schmidt), a casa dele que era posto assistencial. “O senhor organiza aí uma obra da comunidade, eu ajudo. Mas a empresa não quer ter hospital, não quer mandar no hospital, não quer nomear ninguém.” E ele fazia sempre em parceria. “Ah! está faltando um telhado”, “telhado o que é que precisa?” “madeira e telha”, “vocês são carpinteiros? Vocês fazem que eu dou a madeira e a telha.” “Está faltando não sei o quê”, era assim: mano a mano, corpo a corpo. Não tinha juiz. Comarca antiga. “Não tem juiz como?” “Chama o governador.” O primeiro governador, (Cristiane?) Dias Lopes, era muito inteligente, porta aberta pra mim. Eu não pedia favor a ele, eu pedi pra ele que o Estado funcionasse. “O que você precisa?”, “Que o Estado funcione.” “O que é isso?” “Pro senhor tenha juiz, tenha promotor, tenha delegado, a professora na escola pública, porque eu preciso que o Estado funcione lá, tenha posto médico. É o Estado, o Estado tem obrigação de prover a justiça, a segurança, a educação, a saúde”. Ele achou aquilo meio esquisito, ele tinha um bigodaço, magrelo, devia pesar 50kg, “esse sujeito deve ser louco”. Depois eu vi que não era __ e nos que nos ajudou muito. Nossa relação com o governo era muito às claras. Nós não tínhamos nem dependência, nem interferência. Recíproco. Tínhamos uma relação de empresa privada com o governo, qualquer governador. E na política local, que era muito complicado, 2 ou 3 meses antes da eleição, quando eu achava que estava devendo com os candidatos, eu almoçava com todos eles juntos e repetia o mesmo discurso: “aquele que for eleito tem o nosso apoio. Nossa prioridade é educação, saúde. Não damos dinheiro pra campanha. O veículo da empresa que vai fazer campanha, mas a gente não se mete com política. E isso a gente ganhava o respeito também, que era transparente. Respeitavam, mas tínhamos recíproco, que era muito importante. Então convivi com a política de qualquer tendência esses anos todos, eu não tive um conflito político. Depois que eu saí é que tiveram aquelas confusões. P/1: E a inauguração da fábrica de celulose em 1978, como foi isso? R: Os regimes militares exigiam das empresas que tinham uma ata unânime, indicando uma pessoa pra ser interlocutor. Eu fui indicado. Os abacaxis era tudo comigo. E era o General Venturini, (Galili?), que era do Espírito Santo, que era o Chefe da Casa Militar do Presidente Geisel, que inaugurou. Era muito difícil porque eles fizeram a lista de contato e “não pode convidar isso, não pode convidar aquele”, e era complicado. Tudo passava pelo crivo de segurança. Era muito complicado. Mas a gente de boa fé e querendo trabalhar, o cara tem alguma credibilidade, então correu tudo bem. Tinha 600 pessoas na segurança __. P/1: E do Geisel. R: É. Aquela estátua grande branca. (riso) P/1: Mas qual foi o impacto dessas fábrica, em termos de tecnologia, de avanço, pro desenvolvimento da indústria? R: Se for discutir impacto, tem que geografizar-lo: impacto local, impacto regional, impacto nacional, impacto internacional, impacto econômico, social, impacto tecnológico, impacto sociológico e de mercado. Muita gente não acreditava que nós conseguíssemos (deter?) aquela quantidade, porque aquela fábrica era muito grande pra época. Tem 1700 metros de comprimento. É muito grande. Então mexeu com toda a comunidade do setor, não só no Brasil, e internacionalmente também. Então havia resistências, havia dificuldades, não foi fácil não. Não foi morro abaixo, foi uma coisa morro acima. E tinha que vender barato a primeira partida pro sujeito testar e nossos técnicos iam pra lá ensinar eles a testar, pra fazer o papel de celulose que eles não conheciam e foi um trabalho assim construído corpo a corpo. P/1: A pasta começou a ser desenvolvida aqui em cima de intercâmbios...? R: Você sabe de onde vem a celulose de papel? Você pega uma árvore, tira a casca dela, pica, chama cavaco. Seleciona pra não ter pólen, nem nada, leva pra um panelão, que tem 60 metros de altura, chamado caldeira, ali você cozinha e solta tudo. A madeira tem fibra e uma liga que liga essa fibra chama lignina. Então quando você solta, você tem um processo que separa e isso tem um processo. Tem todo um equipamento moderníssimo, e você separa as fibras e separar a lignina. A lignina é energia e você faz 60%, 70% da energia que você precisava da fábrica. Então retornava, isso era queimado para gerar energia. E os 30% você comprava naquele tempo, hoje está 100%. E essa fibra vai ser lavada, tratada, selecionada, até quando estiver no ponto certo, você prensa a fibra e vira um papelão. Isso é celulose. Quando esse papelão, você faz n papeis, n produtos. Você vai fazer papel (cuchê?), você está escrevendo aí no papel que é substância mineral (ambiental?). Mas a base é fibrosa, todos os papéis são assim. Papéis de madeira, você pode fazer de bagaço de cana, pode fazer de uma porção de coisas, mas papeis de madeira, esse é o processo básico e isso é um negócio complicado. Consome uma quantidade de energia, a pressão nas caldeiras, freqüentemente naquele tempo havia acidentes no mundo todo. Hoje está tudo mais seguro, né? Todo o processo industrial hoje tem seguranças e contra-seguranças, dupla segurança... P/1: Automação? R: Não, nem isso. Os materiais, as ligas metálicas, melhoraram muito. P/1: Como foi a trajetória do senhor dentro da Aracruz? O senhor foi o diretor florestal na antiga Aracruz florestal, depois o senhor teve todo esse papel importante, que outros cargos... R: Eu não sei se eu tive um papel importante, eu tinha uma certa experiência que eu vivia intensamente os problemas da empresa. Então eu conhecia toda a empresa por dentro e tinha relações externas com o Brasil e no exterior. Porque com essa história de trocar o sangue eu andei quase o mundo inteiro atrás de material genético, de tecnologia. A gente pediu ajuda, pagava o que era preciso, ganhava e tal. Então eu acabei tendo uma experiência muito grande. Eu nasci em Minas, né, mineiro é jeitoso, eu fui juntando os pedaços, mas não tinha nada excepcional. P/1: Desses experiências internacionais, dessas buscas que você fez, o que foi mais marcante do que isso? R: Nós freqüentamos o Congo, que tinha uma experiência dessa tecnologia única do mundo. Então fomos pra lá e (Laplastic?) que era um francês muito inteligente, nos acolheu muito bem, nos ensinou tudo, veio nos visitar, ficou entusiasmado... Então nós fizemos um intercâmbio muito grande com a África. Tivemos com o Haiti, tivemos com vários estados dos Estados Unidos, lá em Portugal, mas eles não faziam isso. Só os africanos é que estavam lá na frente. Nós conseguimos correr mais do que eles, então nós catamos onde era possível nos ajudar. Nós sabíamos o que nós queríamos, mas nós não sabiam fazer, “vamos aprender”. Então foi assim um negócio difícil. P/1: Pioneiro mesmo? R: O negócio-risco, e tinha que solucionar o problema pro qual não tinha solução disponível, tinha que inventar soluções. Uma coisa é teoria, fazer uma mudinha por semana, outra coisa é a nossa empresa [que] chegou a produzir 40 milhões de mudas clonadas. E começou em 1973. P/1: Quem eram os clientes? R: Nós fazíamos só pra nós. P/1: Vocês faziam pra vocês, depois veio a fábrica? R: Nós fazíamos pra plantar nossa floresta. Na área florestal. Agora celulose, sempre o diretor comercial era um europeu, que vinha do setor de celulose e papel da Europa pra poder conhecer os nomes das pessoas por dentro. P/1: Trabalhar com o senhor (Classau?)? R: Sim, ele foi por alguns anos diretor comercial. Ele que trabalhou comigo, eu sou mais antigo.(riso) Você já falou com ele? P/1: Sim. R: Ele está em Londres, né? P/1: Agora ele está. P/2: Seu Leopoldo, o que foi o prêmio Marcos Arenberg? R: Isso que eu relatei pra vocês de maneira descontraída e sem preocupações metodológica assustou todo mundo. O Nobel era dono da pólvora, ele criou a lista de prêmios, mas não criou nada de florestas neste meio. E o Arenberg era inimigo, competidor dele, então ele criou um prêmio só pra madeira, só pra floresta. É o Nobel dele. Então eles examinaram 14 países, 14 projetos e encontraram no nosso um avanço e uma provocação, em uma linguagem assim, a gente deu uma “sacudidela”. “Como produz 50 metros cúbicos de madeira por hectare/ano, se aqui nós produzimos dois?!” A nossa comparação é essa: 50 aqui e dois lá na Suécia. E chovia de (branco?) pra discutir, ia lá medir, cortava o disco da árvore pra ver e tal, quer dizer, demos uma sacudidela. E essa fundação chegou à conclusão que o nosso projeto tinha uma importância sob vários aspectos. Tínhamos provocado uma imolação nessa área mundial, na medida que você atende uma demanda de madeira com floresta plantada, você cria condições para preservar a floresta nativa. Então havia um aspecto tecnológico, econômico, mas havia um aspecto ambiental. Não sei se vocês conhecem a madeira do Brasil? 60% da madeira consumida no Brasil é do desmatamento, sem nenhuma razão porque nós poderíamos ter 100% de floresta plantada. Floresta é que nem lavoura, você planta café, planta mandioca. É uma lavoura, é o uso da terra normal, mas no Brasil é uma tragédia. E já era tragédia naquele tempo. Naquele tempo era pior, 80%. Então os dois parâmetros deles é o avanço que nós conseguimos foi importante em nível mundial e ao mesmo tempo esse avanço abriu caminho pra você atender à demanda de madeira com floresta plantada e preservar a mata nativa. Essa foi a razão. P/2: Essa relação de coexistência de uma Mata Atlântica e essa floresta plantada em Aracruz, o senhor podia contar pra gente como foi feito esse trabalho? R: A coexistência é o seguinte: nós nunca desmatamos nada. Nunca comprei uma terra que tivesse mata. Além disso, todas as inclinações com entornos feitos dentro dos rios foram absolutamente preservadas e nós enriquecemos essas áreas -- hoje chamadas de áreas de (preservação permanente?) – com plantas nativas e frutíferas pra aumentar a oferta de alimentação pros pássaros, que era inimigo da formiga. Então ficamos 14 anos trabalhando em um projeto de controle biológico pra formiga, sem usar agrotóxico. E conseguimos com essa linha. Você sabe o que é tanajura, sabe não? É a formiga rainha, ela (voa?), faz um buraco e ali vai reproduzir uma família, um novo formigueiro. E o bem-te-vi, por exemplo, pássaro de bico aberto, ele pega tudo no ar, que aquilo é caviar. Eu já comi muito tanajura, é uma delícia. Quer dizer, nós plantávamos alimentos para os pássaros da região que eram inimigos dos nossos inimigos. Quando o ciclo se completou e nunca mais usou agrotóxico. P/2: Esse projeto era inédito, pioneiro? R: É absolutamente pioneiro. Naquele tempo achavam que eu era louco, maluco, eu já sofri todo tipo de carimbo, era um negócio complicado. A gente tinha certeza que estávamos certos, estávamos baseados na Lei da Natureza. A Lei da Natureza pe mais forte do que qualquer livro, qualquer parecer, qualquer “paper”, como se fala no mundo científico. Quem faz o “paper” acha que o mundo vai mudar, só porque está no papel; não é assim. Era muito difícil esse trabalho. PAUSA R: Eu sou uma pessoa falante, não tenho magos, não me preocupo com o que passou... P/2: É ótimo. P/1: Eu ficaria horas com o senhor, mas sei que o senhor tem netos e é prioridade, né? R: Tenho dois netinhos gêmeos. P/1: Toda essa experiência de perceber a técnica do plantio, do desenvolvimento tecnológico das celuloses, desperta a paixão pelo papel? O senhor é um colecionador de papel? R: Não, não. Isso não é um problema específico, o que eu fiz é um método de trabalho, você procura , todos os outros problemas e tenta encontrar a melhor solução para causa do problema. Por exemplo, lá na reserva do Pantanal, eu tive 16 quilômetros de raio no centro da reserva no período seco. Deu um incêndio. Custamos a apagar, apagamos. Agora, estou articulado com o (Impe?) lá no Cachoeira Paulista, eles estão medindo a série histórica de raios. O Pantanal tem 70% dos raios do Brasil e estão também me ligando um pessoal de fora do Brasil, da Inglaterra, não sei de onde, pra ver se eu posso fazer uma linha de pára-raios no chão pra reduzir o problema do raio. Tem uns pára-raios que não tem radiação nuclear, mas tem aquele pára-raio de espeto causa câncer. O de hoje é espiral. Qual é a causa do incêndio? É o raio. Eu posso evitar o raio? Não posso. O que eu posso fazer pra evitar as conseqüências do raio? É ver se eu posso organizar uma captura daquela energia pra que ela não se perca. É um método de trabalho. Qual era a causa dos nossos produtos? O nosso material genético, as nossas sementes vinham de um ambiente frio, que nós estávamos no aparelho 17, então a causa era o sangue que estava errado. Tem que trocar o sangue. Então fomos atrás naqueles locais do mundo e trouxemos o material genético e começamos a trabalhar aqui no Brasil e foi um grande sucesso mundial. Quer dizer, é uma metodologia você saber usar os avanços científicos pra tirar deles métodos de trabalho novos __. Essa é uma metodologia que eu uso continuamente. Já fiz isso com cana-de-açúcar, já fiz isso com várias coisas diferentes, com café. Você pode usar porque o centro da energia de tudo é o sol. Você trabalha com o sol, toda biomassa é sol. Tem que aprender a trabalhar com sol pra cana que você está produzindo. Produzindo madeira, produzindo mandioca, produzindo feijão, arroz, café, o que você quiser, é uma concepção de metodologia de trabalho. P/1: O que representou pro senhor essa experiência na Aracruz? R: Eu trabalhei de quase 40 até 62 anos lá, é a parte biológica que você está no pique. E eu usei esse pique biológico com toda energia que ele tem. A gente nasce, cresce, reproduz e morre, todo ser vivo é assim. Então eu usei isso e não tenho tristeza, não tenho mágoa, não tenho queixa, eu fiz o que foi possível. Muitas vezes intuitivamente, mas eu sempre soube me cercar de gente, com as equipes extraordinárias e os amigos. Até hoje eu tenho muitos, os mais variados do mundo. São forças, né, e são energias que emanam pro seu objetivo e cria força. Não é você que faz, é a somatória das equipes, dos amigos que fazem você desenvolver a solução – muitas vezes inédito, como nós fizemos. Então, representou isso. Quer dizer, é uma oportunidade que pouca gente teve, de enfrentar múltiplos desafios anos e anos seguidos; eu sou muito bem casado, tenho 41 anos de casado, caso uma vez por ano com a minha mulher, então isso é uma força. Chego em casa e ela tomava conta dos filhos, não tinha como fazer. P/1: Como foi que o senhor a conheceu? R: Ela é mineira também. Conhecemo-nos jovens na Ação Católica. P/1: E daí veio a paixão dela pela teologia? R: Não, foi mais tarde. Nós tínhamos feito a combinação de quando os filhos fossem muito pequenos, ela ficaria cuidando só daquilo. Eu não tinha dinheiro, eu tinha que ir à luta pra sustentar a família. Ela era advogada e trabalhava, mas aí quando ficou grávida com 8 meses, parou e ficou uns anos cuidando dos filhos. Quando ela quis voltar, eu estava num regime revolucionário, e nós éramos todos revolucionários esquerdistas, então advogado esquerdista, não tem jeito. Então ela foi estudar Filosofia. E lá o professor falou que estudar Filosofia __ era (pra intelectuais?). “Você não tem que estudar Filosofia, tem estudar Teologia”, então passou pro curso de Teologia, passou, fez o curso, fez mestrado, doutorado, lecionou e tal. Foi assim, pra mim, com a mão de Deus, né? (riso) P/1: Como é o nome da sua mulher? R: Margarida. P/1: O que você faz hoje? R: Eu depois que saí da Aracruz eu fui consultor. Mas fora do Brasil e fora do Brasil. Trabalhei na China, trabalhei na Malásia, trabalhei em Singapura, trabalhei em Costa Rica, trabalhei em Honduras, trabalhei na Argentina, no Paraguai e assim por diante. E no Brasil também. Até hoje têm algumas empresas que ficam insistindo comigo pra eu ser consultor também. Consultor do meu tipo é o seguinte: eu não ligo pra operação, eu discuto conceitos estratégicos e tento propor uma harmonização de conceitos estratégicos que levem à solução. Eu não operador, eu não diretor de nada, nada de reunião, não quero saber.... Então estou no Pantanal e no Sesc. Sesc, uma associação antiga, com 50 e poucos anos e o diretor do Sesc é um capixaba, nós somos amigos desde a década de 70, (Edvaldo?) Santana, um engenheiro, um professor de Física há 22 anos, ele é um comerciante, mas não é nenhum comerciante idiota. Então me convidou quando me apresentava no CNC, que ele preside (no Conama?), Conselho Nacional do Meio Ambiente, o parlamento ambiental do Brasil, um troço perigosíssimo, é acima de tudo isso. Ele vota as resoluções e os outros têm que cumprir. E eu falava com ele muitas vezes eles não estavam certos, que o setor produtivo estava omisso e era uma coisa importante, então um dia me chamou lá, as 9h da noite: “você vai ficar satisfeito, compra um pedaço do Pantanal.” Eu falei: “ótimo.” “Então vamos comprar 10 hectares”, “Que isso, __? 10 hectares é um sítio no Pantanal. Tem que comprar 1%”. E fez as contas lá e [disse:] “1% são 140 mil hectares”. Ele tem fazenda, ele sabe o que é terra. “Mas tem que ser grande.” Eu expliquei pra ele que os mamíferos têm que ter uma área mínima pra circular, chama território, ali cada macho domina as fêmeas, deu assim uma explicação. “Como é que você sabe essas coisas?”, “Eu sei essas coisas todas.” E aí surgiu o projeto e eu era consultor eventou. Mas chegou uma certa altura, ele falou: “você larga tudo e vem cuidar disso. Faz 5 anos eu estou cuidando disso e com muita satisfação. É muito difícil, é um desafio brutal você preservar. Você luta contra a cultura da região: cultura do fogo, de matar os animais, quer dizer, toda a cultura da região é exatamente o oposto. Você não pode dizer ao sujeito que ele está errado, você não tem o direito de julgá-lo, eu tenho que tentar mudar a cabeça deles sem antes dizer que ele está errado. Então eu criei todo ferramental. Vocês precisam ir lá: tem um centro de preservação ambiental, tudo em multimídia, 300 metros quadrados, vocês fazem o curso ali sobre o Pantanal. Tem cinco computadores, escolhe o mamífero, escolhe o peixe, escolhe o inseto, escolhe o que você quer ver em português e inglês pra aprender os estrangeiros também e depois tem outro bloco, tem dois formigueiros vivos e uma coleção de insetos que já está em (1500?) até chegar a 2000. E você sai senta no laboratório __ e entra num borboletário pequenininho, tem 300 metros quadrados de chão e mais um metro de altura. E aí eu preciso de 1500 borboletas vivas, mas só que ela vive um mês só. Eu preciso produzir todo mês 1500 borboletas. Então você entra naquilo, elas pousam em você, no fim eu tenho certeza que: “Puxa vida! Eu tenho que preservar”. Então não dou uns conselhos, não sou padre, não sou pastor, não julgo ninguém, entendeu? (riso) Então tem todo ferramental de conscientização ambiental em torno dessa reserva e lá dentro tem tudo quanto bicho que você imaginar. Então você via lá e vê os bichos e acessa às páginas, onça pintada tem mil e pouco, __ e anta, aranha, jacaré, cobras, sucuri, capivara, veado e __. P/1: O senhor hoje se considera um humanista-ecologista? R: Eu acho que a natureza é parte da humanidade, talvez não viva sem a humanidade. Os dois são absolutamente interligados, quando você destrói a humanidade, você está destruindo a natureza e elas são inseparáveis, (xipófilos?) imaculados, eu chamo assim, e tudo decorado pela cabeça, é absolutamente ligado. Mas é difícil a batalha ambiental, porque tem o capitalismo pregador, tem o sujeito sem escrúpulos, mas tem muita gente boa. As pessoas boas a quem você apresenta a proposta e explica, imediatamente fala “o que eu posso fazer pra ajudar?” Quer dizer a reação normal da pessoa é engajar-se de consciência, quer dizer o cidadão consciente é ambientalmente consciente. Pra mim se o cidadão não for consciente não é um cidadão atual. Podia ser há 30, 20 anos atrás. Quer dizer trabalhar com ambiente é m desafio e esse projeto internalizou o Sesc toda a discussão ambiental. Não sei se vocês têm idéia do tamanho do Sesc, ano passado ele atendeu 3 milhões e 500 mil pessoas. P/1: Temos idéia. Trabalhamos com o Sesc. R: De lá de São Paulo? P/1: E daqui também. R: E desses 3 milhões e 500 mil pessoas, 63% ganham menos de três salários mínimos, então o Sesc é um fator de inclusão dessas pessoas a valores, a cultura, educação e saúde e eles não tinham dinheiro pra comprar. Então é uma abertura social. Milhões por ano! Isso não é brincadeira, não é fácil fazer, vai fazer! P/1: O que o senhor acha da Aracruz está pensando nesse resgate da sua história? R: Não acho nada. Eu não sei nem porquê. Eu estou aqui por questão de cordialidade. O Carlos, do meu tempo, mandou uma carta, que não só uma outra pessoa escreveu, todo esquisito; e eu nunca fiz isso, eu nunca assinei cartas pelos outros, eu sempre assinei depois de botar o nome. E pedi que fizessem isso, vocês me telefonaram, eu sou profissional, eu vivo do trabalho, vocês vivem do trabalho, eu sei que eu tenho uma contribuição, porque eu fiz parte dessa luta toda, 22 anos, não são 22 dias, então eu estou aqui no espírito de conversar minha filosofia de vida. Não dependo da Aracruz, não devo nada a ela, não tenho nenhuma dívida com ela, ao contrário, acho ela que tem dívida comigo, eu não sou cobrador, não tenho nada com isso. Ela está com a vida dela, eu estou com a minha. P/1: Mas o senhor gostou de conversar com a gente? R: Não! Não sei o que você vai fazer! Eu acho que meio tumultuadamente que eu transmiti a vocês a experiência de uma equipe que teve capacidade de enfrentar e vencer desafios muito difíceis. Do Brasil, no Brasil e para o mundo. Porque o que nós fizemos teve e tem repercussão no mundo inteiro. No capitalismo, vocês são muito jovens pra essas coisas, o capitalismo é um sistema de competição, de __. Quando um avança, se o outro não conseguir destruir, ele dança também. Então é um sistema complicado, eu trabalhei, eu sei o que é, eu sofro com isso. Estou do outro lado, mas eu sei como é que funciona e é um sistema plástico, no sentido de flexível. Se fosse bem usado as características do capitalismo, ele melhoraria o mundo em pouquíssimo tempo, mas entra o egoísmo, aí, então... P/1: O senhor tem algum projeto que o senhor quer fazer? R: Não. O que eu estou fazendo, eu costumo dizer que estou fazendo pros meus netos, porque é um trabalho de longo prazo. Você começa do zero, você tem que fazer cerca, eu desmanchei 309 quilômetros de seca dessa história, eu não podia deixar um buraco porque os bichos (botavam o pé) e quebravam, eu não podia deixar um pedaço de arame farpado porque machucava. Era um trabalho que eu tinha pra coordenar complicadíssimo. Eu tenho convênios com nove universidades do Brasil, faz parcerias pra pesquisas que eu preciso conhecer, quer dizer, eu sei juntar gente, então sempre pro lado que eu for tem um monte de gente, parcerias e associações, isso é a força, eu sei que isso é a força e tem gente que não faz. Vocês conhecem as universidades brasileiras, está cheia de greve, de confusão, dilacerada com cada greve que surge, depois de um ano não se fala mais, eu conheço tudo isso. As estatísticas do Rio de Janeiro, de São Paulo, do Rio Grande do Sul, do Paraná, do Mato Grosso, evidentemente, Brasília. São os Estados onde eu tenho cooperação. Então eu estou fazendo o meu trabalho dificílimo, mas está caminhando, tem coisas extraordinárias, eu vou dizer uma coisa: tem uma planta que ninguém sabia, ela tem uma ação antiviral e inibe 87% do vírus da herpes. Herpes é um inferno, não sara, é recorrente, volta nos lugares que é mais inconvenientes, e também inibe 67% da gripe, da (influenza?), que é a mãe das gripes. Isso ninguém sabe, nós é que sabemos, então tem coisas assim que nós estamos aprendendo extraordinárias. O conhecimento pertence à humanidade, né? Eu não acredito em patente, essas coisas. Todo conhecimento é a conquista da humanidade para a humanidade. P/1: Então, seu Leopoldo, eu agradeço o senhor duplamente: pelas pesquisas pra resolver o problema da herpes; eu vou ficar muito feliz. R: Está em linha, qualquer hora brota aí. P/1: Depois, por o senhor ter vindo aqui, estar conosco essas duas horas, que foram muito gratificantes. R: Não tinha nada que agradecer, eu estou aqui nesse espírito. Quer dizer, vocês são profissionais, receberam um trabalho pra fazer, eu sou parte desse trabalho, então achei que era meu dever ético ajudar, colaborando com quem está trabalhando. P/1: Obrigada.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+