Busca avançada



Criar

História

Mais do que um emprego, uma família

História de: Noêmia de Aquino Rufino
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/12/2004

Sinopse

Noêmia nasceu em Monte Carmelo em 1953 e mudou-se com a família para Uberlândia em 1964, em busca de uma escola melhor para ela e os irmãos. Com 15 anos entra na CTBC, balanceando o trabalho com os estudos. Foi telefonista por um tempo, depois passou para o financeiro, até tornar-se secretária executiva do presidente da empresa, Seu Alexandrino. Por ser nova, a relação que estabeleceu com o chefe foi extremamente paternal, ele lhe ensinou diversas qualidades, e os dois tinham muita intimidade, para além do sério trabalho. Com o falecimento de Alexandrino, Dr. Luiz, seu filho, ocupa seu cargo, e Noêmia torna-se a sua secretária. Viveu diversos momentos da empresa, e ficou amiga de muitas pessoas por lá, considerando a equipe da CTBC sua segunda família. 

Tags

História completa

P/1 - Bom dia, Noêmia.

 

R – Bom dia.

 

P/1 - Eu queria para início de conversa que você nos dissesse, por favor, o seu nome completo, o local e a data do seu nascimento.

 

R – Meu nome é Noêmia de Aquino Rufino, eu nasci em Monte Carmelo, Minas Gerais, e a data de nascimento é cinco de fevereiro de 1953.

 

P/1 – E o nome do seu pai e da sua mãe?

 

R – João Tomás de Aquino Rufino e Sarah Balbino de Aquino.

 

P/1 – Você conheceu seus avós?

 

R – Somente um, só o avô paterno, aliás, avô materno, que é Daniel Caballero Vidal, ele era espanhol e veio para o Brasil, minha mãe nasceu no Brasil. Dos filhos dele a brasileira é a minha mãe. 

 

P/1 – Você sabe um pouco da história desse seu avô materno?

 

R – Sei, sei sim. Meu avô, ele morava na Espanha, ele até era casado na Espanha, tinha um filho, e na época da guerra, na época do Franco, era uma ditadura muito grande naquela época, e ele se sentiu muito oprimido, a vida na Espanha  era muito difícil e ele resolveu então vir para o Brasil. Conta minha mãe que ele, porque ele foi convocado para a guerra, veio como desertor. (risos) Inclusive minha mãe falava que ele veio vestido de mulher, pra conseguir embarcar, porque não conseguia. Ele veio, primeiro ele chegou no Rio, ficou algum tempo no Rio, depois foi para São Paulo, morou algum tempo em Belo Horizonte e de Belo Horizonte mudou-se para Monte Carmelo. Lá em Monte Carmelo ele conheceu a mãe da minha mãe. A mãe da minha mãe já era viúva, já tinha cinco filhos e ele casou-se, casou não, eles passaram a morar juntos, porque ele era casado, tinha deixado a família, e teve a minha mãe dessa união. Meu avô viveu conosco muitos anos, até quando a gente veio de Monte Carmelo para Uberlândia ele ainda era vivo. Ele faleceu aqui em Uberlândia. Ele faleceu no ano de 1971. Aqui em Uberlândia, na casa onde a gente morava, na antiga, antigamente a rua chamava-se Buenos Aires, hoje ela chama João Naves de Ávila (risos). E  depois de um certo tempo que meu avô estava aqui em Uberlândia, veio o meu tio, que era o irmão da minha mãe que tinha ficado lá, veio, morou algum tempo conosco aqui, ele ficou acho que cerca de uns dez anos mais ou menos, depois ele retornou, morou algum tempo na França, hoje ele já é falecido, dos irmãos da minha mãe somente ela hoje é viva. O resto, todos já faleceram. 

 

P/1 – A atividade do seu avô qual que era?

 

R – Meu avô era construtor. É... não sei se você conhece aqui a Romaria, Água Suja, onde o pessoal sempre vai a pé, todo o ano...

 

P/1 – Sim.

 

R - Então, aquela igreja lá foi o meu avô que começou a construção. Ele era construtor, ele era até um construtor, na época dele, ele era assim bem... Tinha idéias muito avançadas, de estrutura, de engenharia, assim, porque ele conseguia fazer verdadeiras obras. Uma das especialidades dele era a construção de igrejas mesmo. Não sei se é por causa da Espanha que é um país muito católico, tá? (risos). E veio com essa experiência de lá.

 

P/1 – E os seus pais, a atividade dos seus pais qual era?

 

R – Meu pai era mecânico, ele nasceu em Oliveira, mudou-se para Monte Carmelo, onde ele conheceu minha mãe. Minha mãe era muito nova quando casou com meu pai, minha mãe tinha 15 anos. Com 16, 17 ela já tinha família (risos) constituída. Casou-se, minha mãe sempre contava que ela saiu de um colégio interno, que naquela época usava-se muito as filhas irem para um colégio interno, saiu pra se casar com o meu pai. E meu pai naquela época não mexia com mecânica, mexia com fazenda e eles se mudaram então. De um colégio interno foi direto pra uma fazenda (risos), transformação muito grande. Mas sempre foi uma mulher muito batalhadora, trabalhou muito, assim muito família, e lá nessa fazenda que eles começaram a vida deles, ela sempre foi muito inteligente, começou a dar aulas para as crianças, para os filhos dos agregados da fazenda, tinha até uma família de japoneses que ficaram muito amigos, e ela começou a dar aula ali, quando voltaram pra Monte Carmelo ela deu aula muito tempo, ela dava aula para adultos à noite. E interessante, eu, por exemplo, dei aula muito tempo e eu sempre perguntava pra ela: “Como a senhora conseguia numa sala de aula, dar aula do primeiro ao quarto ano todos juntos, na mesma sala?” (risos). Então ela conseguia fazer esse trabalho, porque tinham pessoas de diversos anos escolares, eram adultos que estudavam à noite. E ela conseguiu desenvolver isso muito bem, pelo tempo que a gente morou em Monte Carmelo. Depois, mudamos para Uberlândia, foi no ano de 1964, meus irmãos já eram crescidos, Monte Carmelo era uma cidade muito pequena, já tinha que procurar escola melhor. Aí resolvemos mudar para Uberlândia. 

 

P/1 – Eu queria que você, por favor, me contasse um pouco mais sobre Monte Carmelo, você, quando nasceu já viviam na fazenda ou já estavam na cidade?

 

R – Não, não, já morávamos na cidade.

 

P/1 – Como era essa casa da sua infância?

 

R – Meu avô, devido à origem dele, assim, na Espanha era tudo muito pequeno e em Monte Carmelo o que não faltava era terra, então a casa que a gente morava era muito grande, uma verdadeira casa de fazenda, só que na cidade (risos). Era enorme, mesmo, minha casa era muito grande, era de assoalho, eu era muito pequenininha, eu tinha até medo de sair do quarto para ir na cozinha à noite tomar água (risos), devido ao barulho que fazia de você pisar nas tábuas. Mas uma infância maravilhosa, eu tenho assim umas recordações muito bonitas, porque a nossa família sempre foi muito família, a minha mãe sempre muito zelosa, muito cuidadosa, meu pai também, a nossa casa era muito grande, tinha muita fruta, então a gente vivia muito livre, muito solto. A cidade pequena, você podia brincar  na rua, então a gente brincava muito na rua, tinha muito vizinho, eu estou falando e está me vindo uma imagem muito bonita da época, que a gente brincava muito na rua. E a nossa rua era muito larga, muito grande, e naquela época, há 40 anos atrás, como a minha cidade é pequena, é uma cidade muito agrícola, e o pessoal lá tinha muito gado, então eles transportavam o gado, em vez de colocar em caminhões, eles transportavam o gado passando dentro da cidade( risos). Então a minha rua era uma rua de passar os gados (risos) e sempre quando a gente escutava: “vem a boiada!”, saía todo o mundo para ver a boiada passar. Era muito interessante, muito bonito, porque hoje você nem vê isso mais.

 

P/1 – Quantos irmãos?

 

R – Nós somos cinco filhos, quatro irmãos, eu tenho dez sobrinhos, do meu lado tenho um filhinho só, minha mãe tem onze netos, e do lado do meu marido são três sobrinhos.

 

P/1 – Essas brincadeiras de rua, que brincadeiras eram?  Você se lembra delas?

 

R – Ah, me lembro muito bem, a gente era muito amigo, foi uma infância muito boa, muito bem vivida, muito feliz, muito alegre, éramos muitas crianças, a gente brincava, a minha casa era muito grande, tinha muita árvore, muito pé de manga, então a gente brincava muito. Menina gosta de brincar de casinha, casinha de boneca, essas coisas, e a gente brincava em cima do pé de manga, as casinhas nossas era em cima do pé de manga, fazia o forrinho com as folhinhas novinhas, de bananeira, a gente picotava com espinho de laranjeira, fazia desenhos nos forrinhos para por na casa (risos). Já brincou disso Cleide?

 

P/3 – Ah, muito.

 

R - Brincávamos de boneca e, eu me lembro naquela época, era o Natal, e minha família é católica, meu avô era muito católico, então meu orgulho, meu avô era assim uma pessoa muito bonita, muito bem vestido, muito alinhado, e meu orgulho era ir à missa com o meu avô dia de domingo, porque ele usava sempre um chapéu preto assim todo... Ele tinha o cabelo branquinho e usava um chapéu preto, e no Natal a gente colocava o sapatinho na janela para o Papai Noel trazer o presente. E nesse Natal eu ganhei da minha mãe uma boneca, e a boneca era muito bonita, só que as bonecas eram de papelão. E no outro dia de Natal a gente foi brincar, naquele entusiasmo, e choveu muito e eu esqueci a boneca na chuva e a boneca desmanchou  todinha (risos). Tivemos até que fazer o enterro da boneca (risos). É uma lembrança assim muito boa daquela época mesmo. 

 

P/1 – E a escola, Noêmia? A sua primeira escola foi lá em Monte Carmelo mesmo?

 

R – Foi, a minha primeira escola foi em Monte Carmelo, o grupo se chamava Grupo Escolar Dona Sindá. A coisa mais interessante, porque a escola ficava numa praça e a praça tinha uma igreja, e a escola era muito pequena para agrupar o número de alunos. E a minha sala de aula era na sacristia da igreja. (risos). Então a gente gostava muito de ir pra sacristia porque existiam quatro festas anuais. E a época das festas a gente não tinha aula. (risos). Então todo o mundo queria ir pra sacristia pra ter aquela semana de recesso. Foi muito interessante. 

 

P/1 – Você lembra da primeira professora?

 

R – Lembro. Minha primeira professora se chamava Doralice. Era uma professora espetacular, só que ela teve uma experiência de vida muito ruim, porque o marido dela era gerente de um banco, e o banco na época chamava-se Banco da Lavoura e eles tinham um Gordini, naquela época que o nome dele era até, se não me engano, Baratinha, Joaninha, alguma coisa assim, o apelido do carro. E eles foram fazer uma viagem para Belo Horizonte, tiveram um acidente, e nesse acidente o marido dela morreu e ela teve uns cortes muito grandes e ficou cega. Então ela deixou de dar aula. Mas é uma professora que eu me lembro assim muito, muito, muito. Foi minha primeira professora lá.

 

P/1 - Foi ela quem te alfabetizou?

 

R – Foi. Foi ela quem me alfabetizou. E eu tinha a letra muito pequenininha, escrevia muito fino, muito leve e ela falava: “A sua letra parece um mosquitinho, aumenta a letra que eu não consigo enxergar” (risos). E depois passei, quando teve o acidente, mudamos de professor, passamos para uma outra professora, a dona Vera. Muito bonita, eu admirava muito porque ela era muito bonita, muito nova, muito bonita, eu fiz até o terceiro ano nessa escola. Depois nós mudamos, viemos para Uberlândia, eu fiz o 4o ano na Escola Honório Guimarães, que funcionava antigamente ali na Benjamin Constant, e a diretora da escola era a Dona Lygia Bedê Cavalcante, e a minha professora era a Clezilda. Até a Clezilda já faleceu, teve um problema de câncer e faleceu, muito nova ainda. E terminei o primeiro ciclo, antigamente chamava primário. E eu me lembro exatamente, porque eu gosto muito de ler, e um dos hábitos que eu tenho muito grande é a leitura. Quando terminei o quarto ano eu ganhei de minha professora e da diretora, que era a dona Lygia, o primeiro livro que eu li, que foi Os Miseráveis de Victor Hugo, e depois eu fiquei pensando eu tão nova, né, já começar com Os Miseráveis.

 

P/1 – Noêmia, qual foi o motivo da mudança de Monte Carmelo para Uberlândia?

 

R – O motivo é porque a gente já estava, meus irmãos já estavam na fase escolar, meu irmão, por exemplo, já estava fazendo o Segundo Grau, em Monte Carmelo ainda não tinha, ele teve que vir. Primeiro veio meu irmão, depois veio minha outra irmã, então a família ficou separada. Então meus pais resolveram que seria a melhor hora para mudar para Uberlândia para dar continuidade aos estudos do que ficar a família dividida. Ficavam dois aqui e três lá. (risos). Então resolveram, e mudamos para cá.

 

P/1 – Seus pais, seu avô...

 

R – Meus pais, meu avô e o interessante é porque minha casa era muito grande lá e quando mudamos pra cá mudamos pra uma casa pequena, bem compacta, e meu avô estranhava muito, ele já estava assim começando na senilidade, começando a ter problema de, tenho impressão de que devia ser uma esclerose, alguma coisa assim, e ele falava: “Não, mas essa casa é muito pequena, não tem lugar nem pra se andar” (risos), a comparação dele. E daí, depois de uns dois anos ele veio a falecer aqui. Aí ficamos, até hoje. Moramos nesta casa muitos anos, até os filhos casarem, cada um pra sua casa, e minha mãe mora lá até hoje. 

 

P/1 – Onde é que ela fica?

 

R – Aqui na João Naves, minha mãe mora, que eu tenho uma irmã solteira, a minha mãe mora com a minha irmã, porque eu perdi meu pai tem sete anos.

 

P/1 – E seu pai, a atividade dele aqui em Uberlândia?

 

R – É, não, aqui ele passou a ser... meu pai tinha uma sabedoria muito grande, muito inteligente, ele passou a ser mecânico de refrigeração. Ele montava câmaras frigoríficas nos frigoríficos, que na época tinha muito frigorífico aqui, então ele era um especialista mesmo nessa área. Trabalhou muitos anos, até se aposentar. Aposentou, mas meu pai vivia muito bem a vida, ele gostava muito, ele foi sempre muito, aquela pessoa que está de bem com a vida mesmo. E minha mãe, nessa época, ela começou a trabalhar, ela foi trabalhar em um hospital, através de uma tia minha que trabalhava, e ela foi ser enfermeira, ela foi enfermeira por 25 anos, até se aposentar também. Hoje ela é aposentada, e foi enfermeira nesse tempo todo. E aí a gente foi crescendo, fomos crescendo, cada um já foi começando a trabalhar, minha irmã começou a trabalhar na CTBC, através de uma irmã por afetividade da minha mãe, não irmã de sangue, ela era vizinha nossa, mas elas foram criadas juntas, então a gente considera como se fosse irmã da minha mãe, e ela já trabalhava na CTBC, ela era da época do Sr. Tito Teixeira, que é a Maria Ramos, alguém já deve ter falado sobre ela. E a Maria Ramos vinha desde a época do Tito. Quando o Sr. Alexandrino comprou, ela trabalhava lá e surgiu uma vaga, minha irmã se candidatou e começou a trabalhar como telefonista. Eu comecei uma experiência em um consultório médico, do Dr. Vittório Capparelli, eu trabalhei acho que uns seis meses, e surgiu uma vaga na CTBC, e a Maria Ramos falou: “Não, se candidata e vamos entrar, vamos ver se você consegue.”

 

P/1 – Que idade você tinha?

 

R – 15 anos. (risos). Foi quando eu entrei na CTBC. Eu tinha 15 anos. Eu era a mais nova funcionária de lá. Então era assim, todo mundo tinha aquele carinho comigo, que eu era muito novinha, bonitinha. (risos). Na época eu era bonitinha.

 

P/ - E seus pais estimulavam essa idéia de uma menina tão nova ir trabalhar fora de casa? 

 

R – É, lá em casa a gente sempre foi assim muito aberto, e também pela necessidade, né, nós éramos cinco filhos, morando fora, a vida da gente muda um pouco, e eu sempre fui, assim, muito independente desde pequena, então eu queria trabalhar e, apesar de eu ser muito nova, tinha que trabalhar, fui trabalhar. E não me arrependo de jeito nenhum, muito pelo contrário, aprendi muito, comecei a estudar à noite, passei a trabalhar lá na CTBC, junto com a minha irmã também, só que, apesar de trabalhar junto, a gente nem... porque eram setores diferentes.

 

P/1 – E era possível conciliar esse trabalho com o estudo?

 

R -  Era, era sim. Engraçado que Uberlândia hoje é uma cidade muito grande e eu trabalhava na CTBC aqui na João Pinheiro, 620, aqui na sede atual, eu estudava à noite no Colégio Estadual. Lá hoje chama-se, o apelido dele é Museu, que fica lá naquela praça. Não tinha ônibus e a gente fazia isso tudo a pé. E sem problema nenhum. A gente saía da escola às dez horas da noite, voltava a pé, aquela turma de estudantes, não tinha violência, não tinha problema nenhum. E sempre foi assim, aquela turma muito boa de amigos, até as pessoas que trabalhavam também foi diversificando, na CTBC já foi entrando muita gente nova também, da minha época, e constituiu-se uma verdadeira família, que tem gente que é da minha época até hoje. E não tinha problema de conciliar não. Isso foi até eu me formar (risos).

 

P/1 – Eu queria que você descrevesse então como era o teu trabalho, o local onde você trabalhava nessa idade de 15 anos na CTBC.

 

R – É... a gente começou ali na João Pinheiro, tinha o andar térreo e tinha o primeiro andar. No primeiro andar ficava o que antigamente chamava-se posições, hoje eu nem sei como que é, então, as telefonistas ficavam todas naquelas mesas. Atrás da mesa tinha um espaço, que tinha uma mesa muito grande e a gente ocupava esse lugar. O que era o nosso trabalho? A telefonista fazia ligação, aquela ligação tinha a duração, e aquela duração era anotada num papelzinho que eles chamavam de bilhete. Então era o bilhete e ela anotava a cidade, o número do telefone que a pessoa falou, o número do tempo que a pessoa falou, para o local que falou e tal, e ia juntando, passava para a encarregada dela, juntava aqueles pacotinhos e passava pra nós. O que a gente ia fazer? Chamava-se tarifagem. A gente ia colocar o valor da ligação naquele bilhete. Então a gente fazia, tinha que olhar quantos minutos a pessoa falou, quanto que ia ser cobrado da pessoa. Então fazia aqueles pacotinhos para ser cobrado depois do assinante.

 

P/1 – Fazia a conta ali na hora?

 

R – Fazia! A gente tinha uma calculadorazinha, só que era manual, mas você tinha uma tabela que você usava. Essa tabela era nacional. Me parece que o órgão na época já era regulamentado, acho que era Dentel, isso mesmo, chamava-se Dentel. Você tinha uma tabela, até três minutos você tinha um valor X, a partir de três minutos era escalonado. Vamos supor, se até três minutos você pagasse um real, se você falasse três minutos e trinta já era 1,20, então já era escalonado, você seguia aquela tabela. E você ia colocando esse valor, depois você somava o pacotinho, colocava-se uma fita naquele valor, separava por números de telefones para depois cobrar na conta de telefone de cada um. Aí a gente mandava para o setor de faturamento. 

 

P/1 – Seu trabalho era coordenar esse processo?

 

R – Não, era fazer mesmo. Quem coordenava era a Maria Ramos. Eu trabalhava com ela. Nós éramos cinco, acho que éramos cinco que trabalhávamos, era eu a Yolanda, a Jacira, e a Maria Ramos. É, nós éramos quatro. Nós é que fazíamos esse trabalho. Daí, desse trabalho, que era bem manual mesmo, era feito assim. Você colocava o valor, depois ia na maquininha de somar, fazia o trabalho, colocava o elastique, somava. Aí a gente mandava para o setor de faturamento, que ia faturar. Daí desse trabalho o grupo começou a investir e comprou-se umas máquinas, uma das primeiras empresas de computação, que chamava-se Datamec, não sei se você já ouviu falar da Datamec.

 

P/1 – Não, não.

 

R - A Datamec comprou a Sirsen, essas máquinas de computação. E essas máquinas elas eram novidade. Então nós fomos treinadas. Foi aí que a gente foi chamada para ser treinada para trabalhar nessas máquinas. O que a gente fazia? Continuava-se o pessoal fazendo o pacotinho do bilhete, mas aí eu já passei para uma outra função, eu já ia digitar esse valor. Só que não era digitar, era como se fosse uma máquina de somar grande, você punha só os números. E ela tinha uma fita, e essa fita ela ia furando, sabe? Ela ia furando. Então vinha aquele rolo de fita.  Aí, naquele rolo de fita impresso, tinha também tudo o que você somava, como se fosse uma fita grande na máquina de somar. Então dava aquela, chamavam de crítica, então você tirava, depois conferia, fazia aquele pacotinho, e mandava pra São Paulo, para essa empresa, Datamec, para ela processar. Era o mesmo processo da loteria esportiva, antigamente, que era furadinha. Processava-se aquilo, vinha uma outra fita, de onde era cobrado do assinante. Quer dizer, já foi melhorando o sistema.

 

P/1 – Nesse momento você estava disposta a continuar na companhia, era uma coisa que você gostava?

 

R – Estava, engraçado. É... o grupo parece, o que o pessoal fala, é uma cachaça, você bebe e quer continuar bebendo (risos), sempre, sempre. E a gente via, desde nova, desde essa época, a gente via a oportunidade de crescimento, via que eram pessoas que tinham visão muito grande, porque naquela época, o Sr. Alexandrino, uma pessoa com a visão que ele tinha, ter enxergado esse negócio de telecomunicação, você vê, ele pensou muito além. E ele tinha uma sabedoria muito grande, que ele foi expandindo. Eu me lembro, quando eu entrei na CTBC, era a CTBC e algumas empresas, não era tão grande, depois foi-se, o que ele chamava de encampar, aí ele começou a comprar Uberaba, Ituiutaba, Orlândia, aquela região ali da Alta Mogiana, então começou a expandir. Então a gente foi assim, crescendo junto com a empresa. Antigamente era muito pequenininha, a gente conhecia todo mundo. Todo mundo era muito unido, muito junto. Eu trabalhei, na época a gente trabalhava lá embaixo, até a gente começou a trabalhar em uma casa ao lado, que começou a primeira expansão, foi uma casa que eles compraram do lado. A gente trabalhou nesta casa muito tempo. Daí dessa casa, começaram a fazer o segundo escritório, que era no segundo andar. Aí colocou-se a administração todinha nesse segundo andar. Daí eu comecei, eu fui, assim, eles tinham certos, antigamente chamavam-se departamentos, tinham poucos funcionários, então eles pediam alguns de outros departamentos  emprestados. Nessa época a Adelaide, ela era – antigamente chamava-se chefe – chefe do departamento de pessoal. Aí ela pediu se podia mandar alguém para ajudar na época de fazer a folha de pagamento, que era uma época muito difícil porque era feito tudo manual. E a Maria falou: “Olha Noêmia, vai lá para ajudar a Adelaide”. Eu fui, a Adelaide gostou muito do meu trabalho e todo o mês ela me chamava para ajudar. Até que uma vez, ela me chamou e não deixou eu voltar mais (risos). Aí fiquei trabalhando com a Adelaide, era no segundo andar. E no segundo andar ficavam todos os escritórios. Então eram dividido, tinha as divisões, a gente ficava, assim, naqueles quadradinhos, a metade era de..., esse material que parece aquelas folhas de...

 

P/1 – De fórmica?

 

R – Não, não é fórmica, aquele outro que faz aquele barulho, assim, e a metade para cima era vidro. Então você estava aqui você via todo mundo que estava trabalhando.  Ficava-se assim, no começo você entrava e ficava o arquivo central que era a Daura, depois ficava a dona Ilce com o Sr. Walter. O Sr. Walter é o irmão do Dr. Luiz, eu trabalhei com ele na época. Depois éramos nós do departamento pessoal, depois ficava a engenharia, o Dr. Luiz ficava de frente para a gente, assim numa salinha, depois tinha o setor jurídico, depois tinha o faturamento, e no fundo a contabilidade. Então era, se resumia todo mundo ali, todo mundo se conhecia, a gente tinha festas assim maravilhosas. Em baixo, no primeiro andar, ficavam as telefonistas com o Sr. Athayde, que era o gerente da época. E no primeiro, no subsolo, onde tinha o caixa, que as pessoas iam pagar as contas de telefone, ficava o Sr. Alexandrino e o caixa, e o PS, que é o Posto de Serviço, que o pessoal que não tinha telefone ia fazer ligações. 

 

P/1 – Como era o Sr. Alexandrino, qual foi o primeiro contato que você teve com ele. Você lembra?

 

R – Lembro. O Sr. Alexandrino era uma pessoa assim... é... muito.... Vamos dizer assim, era uma pessoa assim que sempre, aquela pessoa que sempre que  você olhava pra ele, você tinha aquela sensação de respeito. Então sempre impôs assim aquele respeito muito grande. Você olhava pra ele e tinha aquela sensação de respeito. Então sempre impôs assim aquele respeito muito grande nas pessoas. Cabelo branquinho, mas muito simpático, ele trabalhava em baixo e Dr. Luiz e o Sr. Walter em cima. Mas muito assim, sempre cumprimentava todo mundo, conversava com as pessoas, e sempre assim aquela, você via aquele ar de sabedoria mesmo, que ele era uma pessoa muito... Tinha uma sabedoria incrível, sabe? Aprendi muito, mas muito com ele. Ele foi um verdadeiro pai para mim. Eu era muito nova, eu te falei, né? E tive assim, a oportunidade de trabalhar mesmo, lado a lado dele por muito tempo. Trabalhei com ele mais de dez anos. Então eu tive assim um aprendizado muito grande, conhecimento da vida mesmo, eu aprendi muito com ele, sabe? 

 

P/1 – Podia dar um exemplo aí desse tipo de didatismo no trabalho?

 

R – Aí eu tenho que avançar muito tempo. Quando eu comecei a trabalhar com ele... Construiu-se, depois aquele prédio lá na Industrial, não se você conhece, é onde a gente trabalha hoje. E a maioria dos escritórios migraram para lá, quer dizer, já era um passo, que o grupo já estava aumentando cada vez mais. E eu continuava no departamento de pessoal ainda, trabalhava lá. E pra dirigir o grupo veio um diretor de fora, esse diretor era o Sr. Wilson, ele até já faleceu. Wilson Costa, ele era de Ribeirão. Ribeirão fazia parte da CTBC na época. E o Sr. Wilson veio para trabalhar e ele começou na diretoria, e passados uns tempos ele me convidou para trabalhar com ele, porque eu já o conhecia da época que eu trabalhava no departamento de pessoal porque eu fazia a folha de pagamento de todos os funcionários. Era em uma máquina de escrever manual. E a gente visitava muito as regionais, porque a gente é que ia fazer o teste para admitir as pessoas naquela cidade. E ele quando veio, que assumiu a diretoria, ele me chamou para trabalhar com ele. E eu tinha, assim, medo. Por que eu tinha medo? A gente tinha aquele respeito muito grande, o Sr. Alexandrino, ele chegava no corredor todo mundo corria, ficava com medo (risos). O Dr. Luiz também era assim, extremamente inteligente, mas a gente tinha, eu particularmente, tinha medo de chegar perto dele, porque ele era muito diferente do que ele é hoje. Então o Sr. Wilson me chamou pra trabalhar com ele. E tem uma pessoa que eu gosto demais na empresa, que é o meu mentor, que é o Geraldo Caetano. Então eu cheguei para o Geraldo e falei: “Geraldo o Sr. Wilson está me chamando pra trabalhar com ele e o que eu faço?” O Geraldo falou : “Vai! Você não tem que pensar. Você tem que ir”. Eu falei: “Vou Geraldo?” Ele falou: “Vai, você vai sim, você tem condições para ir, vai tranquila”. Mas eu falei: “Mas eu não conheço nada, não sei nada, eu morro de medo do pessoal de lá.”(risos) E ele falou : “Não, você vai, não tem que pensar, você vai.” E fui trabalhar. Engraçado que eu não tinha assim contato com o Sr. Alexandrino e teve assim uma reciprocidade muito grande, porque ele parece que gostou muito de mim. E o Sr. Alexandrino tinha uma deficiência visual e a gente tinha que ler tudo as correspondências para ele. Então a gente passava duas, três horas na sala dele, lendo para ele. E aquilo a gente foi adquirindo uma relação muito boa de confiança, foi desenvolvendo aquilo. E ele me tomou como se fosse uma filha. Então ele sempre me orientava,  me dava conselho, “Ah, você faz isso, você não faz, você vai fazer isso, você não vai”. E existia aquela relação de pai pra filho. Eu me lembro muito bem de um dia que eu estava passando muito mal e eu fui ao médico, e cheguei e ele falou; “ Uai, mas o que foi que aconteceu?”. Falei assim: “Ah, eu não sei, acho que eu almocei, comi alguma coisa que me fez mal, passei muito mal”, tinha passado mal mesmo. Ele falou :”Olha, minha filha, vou te falar uma coisa, comidinha de casa, arroz bem feitinho, o chuchu verdinho, abobrinha batidinha, não faz mal pra ninguém” (risos). Então, assim, ele sempre dava esse tipo de conselhinho assim, pra gente: “Olha, você não faz isso, você faz isso...” Eu me lembro quando eu passei no vestibular eu contei pra ele, ele achou aquilo ali uma beleza muito grande, por eu ter conseguido com o meu próprio esforço, ter estudado muito, passei numa Universidade Federal, trabalhava o dia todo, e ainda era nova, porque eu entrei na Universidade nova, eu tinha acho dezenove anos, não me lembro. (risos). Então ele ficou todo satisfeito na época que eu passei, e ele sempre me orientava. “Ó, precisa estudar, o estudo é o conhecimento...” Naquela época ele já falava isso para mim. “...é uma coisa que ninguém tira de ninguém”. (choro) Eu até me emociono muito quando eu falo dele, porque ele foi um verdadeiro… Um pai para mim. Até na orientação da escola, na orientação do trabalho (suspiro).

 

P/1 – Essa relação de confiança de leitura de correspondência pessoal já é um dado determinante nesse tipo de convivência, não é? 

 

R – É, realmente, sabe? Então, a gente sentava para trabalhar, para ler, por exemplo, via-se, o Sr. Alexandrino ele sempre gostou muito de trabalhar com controle, ele gostava muito de ter o controle, ele achava que, ele sempre falava uma frase que nunca esqueço, assim: “ Quem engorda o porco é o olho do dono” (risos). Então, ele sempre fazia questão de ter o controle, de ter o caixa mesmo da empresa na mão dele. E a gente lia, chegava as folhas de pagamento, ele fazia questão de assinar o cheque, que ia pagar os funcionários. E a gente falava pra ele: “Ó, Sr. Alexandrino, essa aqui é a folha de pagamento de Aparecida do Taboado, deu tanto”. “Ah, quantos funcionários nós temos lá?” Temos tantos.” “Ah, você sabe, Noêmia, quando nós fomos para Aparecida do Taboado ...”, aí ele ia me contar a história de como aconteceu Aparecida do Taboado. Ele falava: “Eu tinha um jeep, eu dormi muitas e muitas vezes num jeep, porque a gente tinha que abrir as estradas para passar as linhas, e as linhas tinham que passar os postes, então a gente não tinha como chegar na cidade, não tinha hotel, a gente tinha que dormir no próprio carro para no outro dia bem cedinho continuar esse trabalho. E  ele estava sempre muito perto, muito junto, então, cada cidade que a gente ia falando era uma história que ele ia contando da vida dele, da história dele, como que nasceu aquela cidade, como que foi a conquista, como que ele conseguiu comprar aquela cidade. Tinha cidade que ele chegava não tinha telefone, como é que as pessoas iam acreditar que eles iam instalar telefone numa cidade daquele jeito, então ele falava: “o que valia ali era o fio do bigode”. Era a palavra dele, e ele honrava muito a palavra dele. Então ele mesmo ia para a frente de trabalho para conseguir levar – chamava-se linha física – a linha física até aquela cidade para conseguir falar. Então, quando inaugurava-se, quando falava-se no primeiro telefone, ele tinha que estar ali presente para a pessoa ver que aquilo que ele prometeu ele estava cumprindo. Ele fazia muita questão dessas coisas. E são fatos assim que ele contava e que aquilo tudo a gente via o tanto que a pessoa dedica por uma empresa. A vida dele era aquela empresa. Então ele fazia questão de chegar cedinho, ele era um dos primeiros que chegava, ele sempre falava comigo: “Olha, horário é horário. Você tem que fazer o seu trabalho dentro do seu horário. Não adianta ficar aqui depois do horário, se você não deu conta de fazer dentro do seu horário, não é depois do seu horário que você vai conseguir fazer” (risos). Então ele falava: “O que é de direito, é de direito.” Então chegava assim cedinho, ele era bastante enérgico. E era engraçado porque a nossa sala, a porta da nossa sala ficava de frente para cantina e o pessoal gostava muito de tomar café, tomar água, e ficava ali fazendo aquela boquinha ali na porta da cantina. E a minha mesa era bem assim de frente. Então ele chegava, passava na minha  mesa e ia pra sala dele, a sala dele era de frente. E a coisa mais interessante, assim, ele chegava, conversava com a gente e falava assim pra mim: “Noêmia, vai lá fora, o pessoal está tomando café ali, está todo mundo parado, fala para o pessoal ir trabalhar!” (risos). Aí eu chegava na porta e olhava, eu via era o diretor que estava ali na porta eu pensava, como eu ia chegar no diretor (risos) e falar “vai trabalhar!” (risos). Aí eu chegava e dava uma olhadinha e falava alguma coisa, falava para o pessoal: “O Sr. Alexandrino já chegou” (risos). Aí ele me chamava lá: “Você falou com o pessoal?”. “Falei” (risos). 

 

P/1 - Você se referiu a uma pessoa desaparecida prematuramente, com a qual você havia trabalhado anteriormente também, que é o Sr. Walter Garcia. Queria que você falasse um pouco dele, como era a sua relação com ele, como era a convivência com ele, e como era a pessoa Walter Garcia. 

 

R – O Sr. Walter era assim uma pessoa extremamente é... educada, sabe? Como eu admirava o Sr. Walter, assim muito educado, muito fino, ele é completamente, assim, o contrário do Dr. Luiz, que sempre foi assim muito expansivo, extrovertido. O Dr. Luiz, por exemplo, se você fala 100 ele já está pensando em mil. O Sr. Walter, não. É aquela  pessoa que ia com calma, devagar, ponderado. O Dr. Luiz não, ele já é de visão lá na frente. Então o Sr. Walter, muito educado, muito atencioso, fazia questão assim de... uma coisa assim que eu admirava muito, sempre admirei muito, lógico, é a educação das pessoas. E eu ficava encantada de eu, uma simples funcionária que tinha lá, chegava, porque ele assinava também os cheques de pagamento, eu levava pra ele assinar, ele acabava de assinar e olhava pra mim : “Muito obrigado!” E eu achava isso muito interessante (risos). E ele era muito fino, muito carismático, o pessoal gostava muito dele, muito calado, ele ia lá só à tarde. E ele gostava de assinar os cheques sempre com a mesma caneta. Ele tinha uma caneta tinteiro, a cor da caneta era assim um lilás bem escuro, sabe? E ele assinava direitinho, então a gente via a cor da tinta e já sabia que era a assinatura dele. Era uma característica dele. Eu tenho a impressão que eu devo ter trabalhado com o Sr. Walter o quê, uns quatro anos, mais ou menos, eu não me lembro precisamente a data em que Sr. Walter morreu. Ele gostava muito de pescar e de aviões, tanto que o hangar do grupo chama Walter Garcia, em homenagem à ele. Ele subia às tardes e ficava lá olhando os aviões chegarem. Ele gostava mesmo. E ele ficava com a dona Ilce, os dois ficavam na mesma sala. Ele vinha à tarde, assinava, fazia o trabalho dele e voltava. Porque ele ficava mais na Intermáquinas, que era empresa da linha segmento de automóveis. 

 

P/1 – Voltando adiante de novo, onde nós estávamos com o Sr. Alexandrino, nesse momento o grupo já tem uma expansão mais sensível, visível, não é?

 

R – Muito, muito grande.

 

P/1 - Como foi acompanhar isso próximo do centro de decisão? Quer dizer, aquela menina de 15 anos agora já está com um olhar um pouco mais...

 

R – Foi. Era uma coisa assim muito, porque na época, por exemplo, assim, o Dr. Luiz deve ter se referido à isso, a gente, a CTBC era por concessão. E essa concessão renovava sempre de dez em dez anos. Então quando aproximava-se a época do vencimento da concessão era aquele caos, não é? Tinha que correr e correr e resolver, e nossa, era assim. E o Grupo foi crescendo, crescendo, e eu me lembro quando houve a aquisição da Telettra, que foi no Rio, uma das grandes  empresas que foram incorporadas na época, depois veio a Bull, então foi um crescimento muito grande e eu, por felicidade, eu sempre acompanhei muito de perto isso. Até a gente estava num evento nessa semana do Family Business,  que trata da corporação mesmo, dos acionistas, e a gente estava lembrando o primeiro Prodex que foi – Prodex é um programa que existe, que é o programa  de desenvolvimento do executivo, nós já devemos estar no vigésimo – se não me engano, há vinte anos atrás. Você vê o tanto que o pessoal lá, principalmente o Dr. Luiz, era uma pessoa de muita visão, que ele já idealizou um programa que fosse cuidar para a perenidade dos executivos, para que ele acompanhasse aquela evolução que estava tendo. Porque explodiu, assim, explodiu mesmo. Aí foi a compra da Norte, da ABC Norte, foi a expansão do Táxi Aéreo, foi a ATI no Rio, foi a Dados, começou a fazer a empresa de fibra óptica em Campinas, entrou na concorrência, ganhou a concorrência, então foi assim, parece que foi tão rápido, que parece que foi da noite para o dia, mas não foi,  lógico que teve um tempo. Mas a explosão foi muito rápida e tudo foi assim muito grande, a CTBC aumentando, aí foram incorporadas outras cidades, abriu escritórios em Brasília, no Rio, São Paulo, em Belo Horizonte, tinha a empresa de Belo Horizonte também. No sul teve uma época que começou uma fábrica, entrou nesse ramo de calçados, tinha a Trading no Rio, então foi assim uma explosão muito grande. E tem uma coisa assim que eu lembro, que quando eu comecei a trabalhar, eu te falei que eu tinha medo demais (risos), e eu tinha medo porque o Dr. Luiz era muito bravo, (risos) e eu morria de medo de chegar na sala dele e eu tinha que ir na sala dele, e eu tinha que conversar com ele. Eu conversava com ele mas eu não olhava para ele. Eu conversava para baixo assim, eu olhava para baixo (risos). Eu não conseguia encará-lo de jeito nenhum, porque eu tinha medo, eu falava: “se ele gritar comigo eu não saio da sala”. Mas graças a Deus, tem vinte anos que trabalho com ele e ele nunca gritou comigo. (risos)

 

P/ 1 – Você sentiu-se mais à vontade com o Sr. Alexandrino que com o Dr. Luiz? 

 

R – Era. Era mais à vontade. O Dr. Luiz, ele era assim, muito, muito positivo. O Sr. Alexandrino não, ele já, eu tenho a impressão que era por causa da diferença de idade, o Sr. Alexandrino já era uma pessoa que já tinha vivido muito. O Dr. Luiz estava começando, porque o Dr. Luiz estava começando na empresa, começando assim, o Sr. Alexandrino já tinha, quantos anos o Sr. Alexandrino devia ter? Uns 60 e poucos, o Sr. Alexandrino morreu com 80 e cinco, não me lembro... Então, o Dr. Luiz estava no início, estava com aquela energia toda, então eram  completamente diferentes, né? E tinha o Sr. Wilson no meio ali, que equilibrava (risos). E uma das primeiras missões que o Dr. Luiz me deu na época, logo que comecei a trabalhar com ele, ele falou para mim assim: “Eu estou indo para a Alemanha, a Sra. programe a minha viagem”. Eu falei: “Meu Deus”, como é que, eu não falava inglês, eu não tinha, a gente não tinha uma agência de turismo por trás, eu não sabia nem como é que se fazia uma passagem aérea, porque eu não tinha esses conhecimentos, eu vim de um outro tipo de trabalho, eu mexia com folha de pagamento, de fazer cálculo, essas coisas, então eu vim trabalhar numa coisa assim mais administrativa diferente, completamente diferente, eu não sabia nem... Ainda mais uma passagem internacional, como é que eu vou fazer, meu Deus. Mas eu falei: “Não, mas eu tenho que dar conta, eu tenho que fazer”. Então foi a minha primeira prova de fogo. Aí liguei para dona Ophélia. Dona Ophélia é a esposa dele. Falei: “Dona Ophélia, eu tenho que fazer uma viagem pra ele amanhã e não sei nem por onde eu começo (riso). O que eu faço, me ajuda aqui, como é que eu falo com o hotel, que tipo de hotel?” (risos) Aí ela falou: “Você  vai fazer isso, isso, o tipo de hotel é assim e tal”. E o Dr. Luiz ele é uma pessoa como eu te falei, ele pensa muito na frente, então por exemplo, ele não é de sentar com você e falar assim: “Olha, eu quero fazer isso, eu quero ir para tal lugar, eu quero fazer isso, depois isso eu faço”. Não. “Eu vou para tal lugar e quero passar em tal lugar e tal, então o resto você que coordena”. Aí a dona Ophélia que me ajudou. Dona Ophélia foi uma pessoa, assim, que me ensinou mesmo, como é que eu ia fazer essa viagem. Eu lembro direitinho que aí fiz a viagem direitinho e na época era telex, você tinha que passar telex para os hotéis. Passava e quando vinha a confirmação aquilo para mim era uma vitória, (risos). E para falar, para você ligar para o hotel, que dificuldade, não tinha como, era a coisa mais difícil. Aí que você via a necessidade não é? Daí eu comecei a fazer inglês, comecei, eu falei “ não, eu tenho me estruturar para esse novo desafio meu, que é completamente diferente”. E eu lembro direitinho, quando ele saiu de viagem, a Dona Ophélia depois me contava, que ele chegou em tal lugar e ele olhou, a Dona Ophélia falou “Olha, agora nós temos que fazer isso e isso.” Chegava em outro lugar, “Olha, agora é isso e isso”. Aí ele falou para ela: “Como é que você sabe disso tudo?” Ela falou: “Não, é porque a Noêmia falou tanto para mim que eu sei tudinho, agora eu sei como que faz”. Então quando ele chegou de viagem, ele chegou para mim e falou assim: “Olha a viagem deu certo, a senhora está de parabéns.”(risos) Então aquilo para mim foi como se fosse um diploma que eu tivesse conseguido. (risos). 

 

P/1 – Sei, sei. Como se deu essa transição de uma pessoa alocada em um departamento de pessoal para uma função de secretária executiva.

 

R – Foi um desafio muito grande, porque até então o Dr. Luiz nunca tinha tido uma secretária (risos). Ele nunca tinha tido uma assim, exatamente, então foi um trabalho, mas ele é uma pessoa muito aberta, ele é uma pessoa muito receptiva, ele é um educador, então por isso é que eu te falo que eu aprendo, todo o dia eu aprendo com ele. E nós fomos desenvolvendo um trabalho junto, nós passamos a conhecer. Tanto ele passou a me conhecer como eu passei a conhecê-lo. Então eu me lembro de uma época, como eu te falei, eu nunca tinha sido secretária, eu não conhecia, eu não sabia nada. Para você ter uma idéia, o telefone... a gente que trabalhava num departamento, vamos dizer assim, você tinha uma função menos importante, lógico todas as funções, mas eu falo assim escalonamente, você tinha uma função menos importante num setor, você pensava, eu vou lá na diretoria, aquilo era assim, era uma coisa, nossa hoje eu conversei com o Sr. Alexandrino, então aquilo era coisa para a gente extremamente importante aquilo. Quando eu fui trabalhar na diretoria, o telefone da diretoria era diferente do telefone da minha sala e eu não sabia nem como é que funcionava o telefone ali da sala. E foi um aprendizado muito grande. O Dr. Luiz sempre teve uma vida muito dinâmica, trabalhava, viajava demais, extremamente... viajava muito. Só voltando, que eu lembrei de uma passagem muito interessante, mas muito doída. Eu trabalhava no departamento de pessoal nessa sala que eu te falei que a gente via todo mundo e me voltou isso porque eu achei muito, eu lembro que eu tinha voltado do almoço, a gente tinha horário certinho para voltar do almoço, eu tinha voltado, sentei na minha mesa e eu ficava de frente para ele, a sala dele ficava assim e a minha de cá, ficava de frente para ele. E eu lembro direitinho que ele pegou o telefone, conversou, conversou um tempo no telefone, pôs a mão no rosto e chorou. Chorou muito, chorou muito mesmo. E nisso a Adelaide, que era a minha chefe, chegou também viu ele chorando, chegou na sala dele e perguntou para ele: “O que aconteceu?” Aí foi quando ela voltou eu falei: “O que aconteceu que ele tá chorando tanto?” Ver um homem daquele chorando, ela falou: “Não, ele acabou de ver o resultado do exame do irmão dele”. Então, (choro) foi um fato que eu lembrei agora, mas que me marcou muito, porque ver um homem daquela autoridade, que a gente, sinceramente eu tinha medo de chegar perto dele, e vê-lo chorando assim, eu pensei, aquele homem também chora, não é? Eu lembrei disso agora. Aí foi quando ele ficou sabendo da doença do irmão dele, que tinha câncer, e logo depois de alguns meses o irmão dele veio a falecer. 

 

P/1 – A que você atribui ao fato de ser você a assumir essas funções, talvez a proximidade do Sr. Alexandrino, quer dizer, por que você?

 

R – (risos). Não sei, assim, eu acho assim, que eu te falei, eu conhecia o Sr. Wilson, ele me chamou para trabalhar com ele e até então eu não tinha um relacionamento com ninguém. Engraçado que logo que eu comecei, a gente desenvolveu assim um trabalho grande, eu te falei de afetividade, eu acho assim, eu me identifiquei muito com o Sr. Alexandrino, o Sr. Alexandrino se identificou muito comigo, foi uma relação de pai e filha mesmo. Ele era assim, de um carinho muito grande, para você ter uma idéia, eu gosto demais da Dona Maria. Dona Maria é a esposa dele. A Dona Maria é uma pessoa maravilhosa mesmo, nossa, de uma sabedoria incrível. E um dia eu tinha ido na casa dela e ela tem uma casa, você conhece a casa dela, muito bonita e estava cheia de rosas, e eu falei: “Nossa, Dona Maria, eu gosto tanto de rosas, uma das flores preferidas que eu gosto é rosa e petúnia.” Tudo bem, fui embora e passados uns dois dias, o Sr. Alexandrino chega lá com um raminho de rosas e petúnia que a Dona Maria tinha mandado pra mim. Então eu achei assim tão, você vê, o dono da empresa que eu trabalhava, chegar com um raminho de rosas que a esposa tinha mandado para mim, isso era uma coisa muito afetiva. 

 

P/1 -  São atitudes, não é, que acabam...

 

R – São, sabe, são coisas assim que você não esquece nunca. Quando ele ficou doente, por exemplo, que eu ia visitá-lo, toda a vez que ele me via ele segurava na minha mão, acho que ele lembrava do tempo que ele trabalhava, ele chorava muito, sabe? Então às vezes eu até pensava, nossa eu vou, eu gostava muito de visitá-lo lá, mas eu ficava com aquela dor, porque ele ia lembrar muito e ia chorar muito, não é? E chorava mesmo, sabe? Segurava na mão da gente, tanto que quando ele passou mal, por exemplo, eu sempre fiz parte das coisas boas e das coisas também... Quando ele passou mal, por exemplo, a Dona Maria ligou para a Dona Ophélia, a Dona Ophélia ligou para mim: “Noêmia me ajuda a localizar o Luiz rápido e um médico rápido, porque o Sr. Alexandrino não está bem”. O Dr. Luiz estava numa convenção na fazenda e eu tive que correr, localizá-lo. Localizei o médico também, o Dr. Dayton, graças a Deus consegui o Dr. Dayton que é um médico, assim extremamente humano, amigo, ficou com ele até o último dia dele, ficou uns cinco ou seis anos com ele. Então foi uma felicidade muito grande ter achado o médico certo na hora certa. E são vínculos que vão se criando ao longo dos anos e acho que isso vale mais do que qualquer coisa.

 

P/1 – Eu queria também localizar um personagem que você mencionou e que teve um papel muito importante na consolidação desse Grupo que foi o Sr. Wilson Costa, que inclusive segurou algumas situações muito críticas, não é, me conta um pouco dele, descreve, já que a gente não pode entrevistá-lo...

 

R – Mas pode entrevistar a esposa dele. O Sr. Wilson é uma pessoa maravilhosa. O Sr. Wilson pela época em que ele viveu, foi uma pessoa que conduziu o grupo muito bem, era uma pessoa extremamente, ele era muito centralizador, ele era extremamente centralizador, tudo tinha que passar na mão dele, mas com isso, ele sabia de tudo o que acontecia dentro do grupo. Uma pessoa que dava muita oportunidade às pessoas, muito amigo, muito aberto, você podia chegar, você podia conversar, ele te aconselhava, te dava as diretrizes, te ensinava a trabalhar, como você fazia, como não. Eu, por exemplo, que te falei, quando eu comecei, eu não sabia de nada, eu recorria à ele, porque eu tinha uma confiança muito grande nele. Eu já o conhecia de outras épocas, então ele sempre me orientava, “você faz isso com o Luiz, você age assim com o Alexandrino, com a família assim”. Então ele sempre ia dando aquelas dicas muito boas para a gente. Extremamente profissional, uma pessoa assim, que deixa a pessoa crescer. Um dos fatos que eu admiro no Dr. Luiz é essa característica que ele tem. O Dr. Luiz, ele te impõe responsabilidades, mas ele te deixa trabalhar. Ele deixa você crescer, não fica ali te cercando, te tolhendo, não, ele te bota uma coisa na mão e você vai resolver. Ele quer saber do resultado. E isso é muito importante para o seu crescimento profissional, para o seu aprendizado, então quando, por isso que eu te falei, quando eu mudei, assim, que eu passei para trabalhar na diretoria, que eu vi o tanto de oportunidades que você tem, o que você pode melhorar, o que você pode fazer, foi aí que eu comecei a estudar inglês, que eu comecei a procurar outras coisas. Eu lembro que a gente trabalhava com uma máquina de escrever e a máquina de escrever, a gente ia fazer uma carta, e era justamente na época da Conceição, e a carta tinha assim quatro páginas, por exemplo, e você tinha que colocar com o carbono, você batia porque tinha que ficar uma cópia para você, a gente não tinha xerox ainda naquela época (risos). Aí você batia com carbono. Aí a carta estava prontinha, bonitinha e tal, você levava para ele, não, vamos corrigir essa linha aqui, aí o que você tinha que fazer? Você tinha que bater a carta todinha de novo, porque não tinha como você adaptar a carta. E o Dr. Luiz tinha chegado de uma viagem e ele falou assim para mim, ele me chama de senhora, até hoje: “Isso está muito difícil para a senhora, porque onde já se viu a senhora ter que bater essa carta tudo de novo, não, vamos melhorar, vamos dar um jeito de comprar um computador.” Eu pensei: “Um computador, meu Deus!” (risos).     “Vamos comprar um computador, a senhora vai para São Paulo, faça um curso, e vai comprar um computador”. Então vamos nós para São Paulo fazer um curso (risos). Até uma colega minha que trabalhava comigo, a Ivone, fomos, a Ivone foi para São Paulo, fez o curso, eu fiz o curso em São Paulo e começamos a trabalhar no computador. Aquilo para nós era a coisa melhor do mundo, você podia errar e corrigir sem ter que... E de repente ele chega de uma outra viagem “Olha, vi um equipamento fantástico em tal lugar”. “O que foi Dr. Luiz?”. “É um documento que você passa aqui e ele sai lá em São Paulo”. “Que documento é esse Dr. Luiz?” “Chama fac-símile”. (risos). Eu falei: “Nossa!”. O fac-símile, ele ficou doido para comprar e veio o fac-símile para nós. Era um pretinho assim, mas você tinha que colocar o papel, então a pessoa de lá falava: “Vou passar um fax para você”. “Quantas páginas?” “São quinze páginas”. Então você tinha que colocar quinze folhinhas, toda hora a máquina, a máquina ia queimar quinze folhinhas. Lembra desse fax, Cleide?

 

P/3 - Lembro. 

 

R - E ele queimava, ele queimava a letra, e ficava aquele cheiro de tinta, mas tudo assim, você vê a visão dele, a tecnologia, ele se preocupava em trazer tecnologia para a gente, para a gente melhorar o trabalho. E o Sr. Wilson também, ele apoiava muito a gente nisso, e vai conhecer, e vai procurar saber e sempre: “Não, você tem que ler revista, e jornal”. Então, tinha muito apoio e o Sr. Wilson segurou uma fase muito importante no grupo que foi a transição, e a gente sofreu, assim, eu já passei por duas grandes crises do grupo. Uma foi muito dolorosa, que foi quando o Sr. Mário veio, o Sr. Wilson entrou num processo de depressão, ele ficou doente, então ele foi afastado, ele foi afastado não, ele teve que se afastar, e o Dr. Luiz, da noite para o dia, teve que assumir tudo, assim, foi de repente...

 

P/1 – Foi também na época do desaparecimento do Sr. Alexandrino, não é?

 

R – Foi, o Sr. Alexandrino afastou, porque estava doente, logo depois o Sr. Wilson. Então o Dr. Luiz ficou com tudo na mão dele. Ele tinha o pai dele, tinha o Sr. Wilson, ele tinha dois braços para ajudar. E de repente ele ficou só, foi quando ele constituiu, que existe até hoje, que é o chamado de Comitê. Comitê de Diretoria, que hoje as decisões são tomadas em Comitê. Existem as pessoas que fazem parte do Comitê e essas decisões são tomadas ali. E isso o quê? Foi da época, ele chegou e falou: “Fulano, você, você, vamos sentar aqui e vamos reunir, vamos tocar a empresa (risos)”. 

 

P/1 – Como é que foi esse momento de viver esse olho do furacão aí, confusão...

 

R – A gente ficou assim apreensivo, não é, como é que vai, o que vai acontecer, o que não vai, mas o Dr. Luiz, ele é uma pessoa que eu admiro muito, porque ele foi de uma força muito grande, mas muito grande mesmo. Então ele tomou conta da situação, e determinou as pessoas, e um dia ele chegou numa dessas reuniões, e falou para o pessoal: “Olha, eu conversei com o Mário, e eu estou querendo trazer o Mário para vir e dar uma administrada, e tomar conta do grupo, e vamos ver o que nós vamos fazer”. E quando o Sr. Mário veio, então foi uma transformação muito grande, e a força dele foi muito grande, porque você colocar uma pessoa dentro da sua casa, para administrar a sua casa, não é muito fácil. Então a humildade dele, a força de vontade dele em aceitar tudo isso, na hora certa, na hora que precisava, então ele foi de uma sabedoria, de um poder de desprendimento, de aceitação muito grande. 

 

P/1 – Como é que ficou a Dona Noêmia nessa situação, porque perdeu a referência do Sr. Walter, perdeu a referência do Sr. Wilson, perdeu a referência do Sr. Alexandrino e o Dr. Luiz vai viajar e agora temos uma pessoa chamada Mário Grossi comandando a empresa. E a senhora?

 

R – Não, mas nunca perdemos assim o fio não, nunca perdemos assim não. Embora o Dr. Luiz tenha ficado dois anos nos Estados Unidos, mais um ano no Rio, a gente sempre tinha o contato direto. Eu continuei do mesmo jeito, ele vinha esporadicamente, a gente despachava ou no escritório ou na própria casa dele, eu ia, e a gente mantinha contato, o vínculo nunca separou.

 

P/1 – A senhora não se reportava ao Mário Grossi? 

 

R – Não, sempre à ele. O Mário tinha a secretária dele. Lógico, que eu sempre a ajudava. Sempre convivi muito com o Sr. Mário, ajudava muito o Sr. Mário, mas a minha ligação direta sempre foi com ele, nunca desvinculamos.

 

P/1 – Fala um pouco do Sr. Mário Grossi e esse período que ele passou aqui. O seu trabalho era próximo à ele?

 

R – Era junto. Nós ficávamos todos juntos. Todos juntos. Tinha a sala do Sr. Mário, a sala de reuniões no meio e a do Dr. Luiz e nós ali no centro. Sempre trabalhamos muito juntos. O Sr. Mário é uma pessoa extremamente inteligente, uma pessoa extremamente, que ensina muito, então a gente aprende demais com o Sr. Mário, extremamente exigente, enérgico também, aquela pessoa que te bate, mas te bate ensinando, sabe? Então foi uma fase, assim, que o grupo passou por essa transformação. Muitas pessoas do relacionamento saíram do grupo, muitas pessoas saíram da empresa, umas porque não se adaptaram à nova cultura, houve toda uma transformação, nós passamos por um processo de aprendizagem, nós éramos uma empresa extremamente familiar e passamos por uma empresa, assim, mais, como é que eu vou dizer? Não profissional, mas com uma outra conotação, então tivemos todo um aprendizado, foram anos e anos de investimento mesmo em cursos, treinamentos, para que houvesse esse aprendizado que resultou até hoje. Então essa cultura de aprender, e de cada dia aprender mais, acho que isso vem desde a época do Sr. Alexandrino, vem perpetuando e culminou também com o Sr. Mário. Porque o Sr. Mário desenvolveu essa parte assim, como eu te falei, o Dr. Luiz sempre surgiu com coisas novas e fazia questão que a gente aprendesse e buscasse aquilo também, e o Sr. Mário desenvolveu muito esse trabalho. Fala, assim, uma parte dolorosa, porque muitos companheiros da gente saíram e a gente pensava: “Será que agora o próximo sou eu?” Então você vive também aquele momento de insegurança, muitas pessoas passaram por fases difíceis, mas reconstruiu e tomou uma direção graças a Deus muito boa também, profissionalizou muito.

 

R – Nesse período que o Dr. Luiz estava fora, e que mantinha contato contigo, ele pedia informações sobre o cotidiano da empresa assim, ele...

 

R – Às vezes sim, mas existia, por exemplo, o Sr. Mário sempre passava todas as informações para ele, então ele sempre perguntava: “Como é que está aí? O que está andando? O que está acontecendo?”. Então a gente sempre dava esse feedback para ele, e ele vinha esporadicamente, ele não ficava muito tempo, ele passava no máximo dois meses, não mais do que isso, e sempre vinha, e quando ele vinha, tinha-se a reunião, mostrava-se tudo para ele, como estava andando, o que estava acontecendo, o que não estava, e fora as informações que a gente mandava também via correio, ou alguma coisa que...

 

P/1 – É razoável supor que o seu trabalho nessa época diminuiu um pouco?

 

R – (Risos). É, diminuiu um pouco. Diminuiu assim em termos. Porque além de eu trabalhar com ele, eu também trabalho com a família dele. Porque é uma família que eu considero como a minha família também, porque eu conheço os meninos desde pequenos e hoje já estão com os filhos, já estão com os netos dele, também desde pequenininho, então assim, a gente já faz parte daquele cotidiano, então eu também trabalho com a família toda, qualquer suporte que eles precisam eu faço com o maior prazer, ajudo com o maior prazer. E fora disso, também eu ajudava nas coisas do Sr. Mário. Às vezes, nesse ínterim, a minha colega que trabalhou comigo saiu de licença para dar à luz e eu fiquei com o Sr. Mário, porque teve uma época que eu trabalhei com os dois. Logo que o Sr. Mário veio, eu trabalhei com os dois muito tempo.

P/1 – Então eu retiro a minha pergunta sobre o seu trabalho ter diminuído.

 

R – (Risos) Eu fiquei com os dois muito tempo. Engraçado, você está falando isso, é uma transformação muito interessante que a gente vê nisso. Quando eu fui trabalhar com o Dr. Luiz, o Sr. Wilson trabalhava numa sala bem grande e ele tinha vários diretores junto com ele. O Dr. Luiz ficava numa sala e o Sr. Alexandrino numa outra, e ficava eu e a minha colega Ivone, que a gente trabalhava junto. Atrás de nós ficava o Oswaldinho ou o Alex, que eram, o Celso Machado, porque uma época eu trabalhava com o Celso Machado também, ficava, que era uma sala dividida ao meio, então a gente atendia a todos, eu e ela atendíamos a todos ao mesmo tempo. Então era praticamente uma média de catorze pessoas ao mesmo tempo. Mas todo o serviço era centralizado na gente, para passar para eles. Então a gente que abria toda a correspondência da empresa, porque eu te falei que o Sr. Wilson gostava de ver tudo, então, toda a correspondência da empresa a gente abria, passava para o Sr. Wilson, ele olhava todinha, depois que a gente mandava para os outros setores. Era assim, o volume de serviço era extremamente grande. Depois, houve, quando o Sr. Wilson afastou, a gente mudou de sala, construiu uma sala nova, eu passei a trabalhar somente com o Dr. Luiz e a Ivone somente, não, eu fiquei com o Dr. Luiz e o Sr. Mário. Um período só os dois. Então, de catorze eu passei pra dois. (risos). Então já diminuiu bastante. Mas, diminuiu em termos, porque aí já tem outro tipo de, por exemplo, a nossa atividade hoje é muito diferente da de antigamente. Hoje você tem novo tipo de responsabilidade, você tem outro perfil. Então eu passei a trabalhar com dois, eu trabalhava muito, porque o esquema de trabalho do Sr. Mário, ele é assim: o Sr. Mário chegava às 7 horas na empresa e saía 10, 10 e meia, todos os dias, de domingo a domingo (risos). Ele não saía nem para almoçar. Às vezes num dia que ele era convidado pra almoçar. Mas era todos os dias de domingo a domingo.

 

P/1 – E vocês lá também acompanhando?

 

R – E nós lá acompanhando, com exceção do final de semana, mas esporadicamente no sábado a gente ia. Então eu chegava às 7 e meia da manhã e saía às 9, 9 e meia da noite, ainda bem que eu não tinha filho nessa época (risos). Então, é extremamente desgastante. Eu trabalhava numa média de 15 horas por dia. Não saía para almoçar, a gente fazia um lanche lá, então era diretão. Aí o Dr. Luiz chegou e falou: “Ô Mário, você precisa arranjar uma secretária para você porque senão, daqui uns dias, vai ficar eu e você sem secretária, porque a Noêmia não vai aguentar”. Realmente, né? Aí foi quando veio a Ivone. Aí o Sr. Mário perguntou: “Com quem que você gostaria de trabalhar e tal”. E eu falei: “Não, eu gosto muito da Ivone, nós já trabalhamos juntas, porque a Ivone, quando separou, a Ivone foi trabalhar com o Geraldo e eu fiquei sozinha com os dois. Aí eu falei: “Não, então vamos chamar a Ivone”. Aí o Sr. Mário chamou a Ivone, gostou muito dela, a Ivone ficou com ele e eu fiquei com o Dr. Luiz. Aí eu pensei pôxa, de catorze eu passei para dois e agora para um, não é? (risos).

 

P/1 - A vida melhorou?

 

R - Melhorou muito, melhorou muito, e mudou-se também o tipo de serviço. Nós já não abríamos toda a correspondência do grupo, já houve uma descentralização, cada um fazia o seu, então já começou a mudar completamente, diferente. Mas o nível de responsabilidade muda também. Porque aí você vai ter outro tipo de responsabilidade, que não era aquela. Então a sua responsabilidade vai mudando, de acordo, o que eu te falei, antigamente eu ia para a máquina, eu fazia o telex, hoje eu já não faço isso mais, a gente nem tem isso mais. O meu executivo, o Dr. Luiz, por exemplo, ele é uma pessoa extremamente solta, ele mesmo entra no e-mail dele, ele mesmo responde, sabe, então assim é uma total desvinculação...

 

P/1 – Nesse período de trabalho acirrado, de 12 horas, 15 horas por dia, e a vida pessoal como é que ficava?

 

R – Só no final de semana (risos). Mas eu, graças a Deus, tenho um marido extremamente compreensivo, então ele sabe que o meu trabalho era assim, e ele conhece muito a minha pessoa, a família, a empresa que a gente trabalhou, então sempre houve uma aceitação por parte dele.

 

P/1 - Você o conheceu na empresa?

 

R – Não, ele trabalhava fora. Eu o conheci...

 

P/1 – O nome dele, por favor?

 

R – Oswaldo Rufino Júnior. Eu o conheci porque, o Dr. Luiz é uma pessoa assim extremamente carismática, como eu te falei, e eu particularmente admiro muito, e ele é sempre convidado para ser paraninfo de turmas de formatura. E ele foi paraninfo de uma turma de pós-graduação, na qual o meu marido estava presente e eu o fiquei conhecendo lá. Então, sempre eu que organizo essas coisas assim, mas eu nunca vou, mas essa, como foi uma coisa muito rápida que a gente programou, e eu fiquei, eu sou extremamente preocupada, eu sou extremamente exigente com as coisas que eu faço e eu falei: “deixa eu ir lá ver se está tudo coordenando”. Quando eu fui, ele estava presente...

 

P/1 -  Aqui em Uberlândia?

 

R - Aqui em Uberlândia, eu não o vi, mas ele me viu (risos). Ele trabalhava numa empresa na rede ferroviária, ele é engenheiro, ele trabalhava numa rede ferroviária em Araguari, trabalhou muitos anos lá. Agora, recentemente, no ano passado, ele mesmo disputou uma vaga no grupo aqui, na Engeredes, uma empresa nova nossa, por mérito dele, ele mesmo, ele está trabalhando lá e agora transferiu para cá (risos). Então tem um ano que ele está no grupo agora.

 

P/1 – E vocês se casaram quando?

 

R – Nós nos casamos em 1994, e ele morava e trabalhava em Araguari e vinha sempre. Aí nós nos casamos e ficamos: “Como é que faz? Nós vamos morar em Araguari ou em Uberlândia?” Aí ele falou para mim: “Como eu tenho horário para sair e você não tem, nós vamos morar em Uberlândia, porque você pegar essa estrada à noite é muito difícil”. Aí eu falei: “Tudo bem”. Aí optamos por morar em Uberlândia e ele ia todo o dia e voltava, ele fez isso quase dez anos.

 

P/1 – Bota compreensivo nisso, não é?

 

R – Bota compreensivo nisso (risos). Depois, eu tenho um filhinho de um ano e meio, depois de muito sacrifício, a gente conseguiu um nenezinho lindo, maravilhoso, e aí ele falou: “Ah não, eu quero ficar mais perto, porque depois de tanta luta...” Ele ia de manhã e voltava só de noite, que convivência ele vai ter? Nenhuma. Foi quando ele resolveu vir para cá. E agora, graças a Deus, está tudo bem.

 

P/1 – A Dona Ilce nos contou que o Sr. Alexandrino era mestre em convocar as pessoas para trabalhar aos sábados, aos domingos, fazer viagens, vender telefone pelas cidades, isso acontecia, quer dizer, era outra realidade, mas com você também era comum esse tipo de convocação?

 

R – Com o Sr. Alexandrino?

 

P/1 – Com o Sr. Alexandrino ou com o Dr. Luiz...

R – Não, não, isso às vezes acontece, já participei muito de reuniões aos sábados, aos domingos, e isso até hoje às vezes acontece, é uma coisa assim normal, não é nada assim fora do normal não. Eu tenho a impressão que na época da Dona Ilce era completamente diferente, porque era a época que estava começando, então realmente saíam muito, trabalhavam muito, o Sr. Alexandrino mesmo já me contou, eu te falei, dormia até dentro do caminhãozinho dele para estar cedinho no local, para não ter problema, e aquilo era de domingo a domingo mesmo. Mas com o Sr. Mário, ele trabalhava, a gente não. A gente ia até na sexta-feira mesmo à noite, esporadicamente a gente ia sábado ou domingo, quando tinha alguma reunião assim. Agora, o Dr. Luiz não, ele já é mais...

 

P/1 – Organizado?

 

R – É, mais organizado. Mais organizado assim, de trabalhar muito, extremamente, na semana, mas ele gosta muito do final de semana com a família dele, na casa dele, e a fazendinha dele, essas coisinhas dele. Ele tem esse lado de lazer com eles lá. O Sr. Mário, eu acredito que é porque o Sr. Mário não tinha uma família aqui. O Sr. Mário morava aqui e a família dele em Paris. Então, o que ele vai fazer? Trabalhar. (risos)

 

P/1 – Ele costumava tirar férias?

 

R – Tirava. Final de ano ele sempre tirava férias, Natal, ele ia tipo dia 20, voltava lá para o dia 10 de janeiro, porque é um mês. Assim, mas tirava férias e ia umas duas vezes ou três no primeiro semestre, umas duas no segundo, mas questão assim de uma semana, no máximo. 

 

P/1 – Você se referiu anteriormente a esses processos de renovação de concessão. E houve em 1988, 1889, que foi uma crítica, uma renovação crítica que foi resolvida na undécima hora.

 

R – Foi.

 

P/1 - Como é que foi o teu trabalho nessa confusão toda, isto é, nesse momento tão crítico, que foi resolvido nos 44 minutos do segundo tempo.

 

R – Foi. A gente trabalhava muito, era uma tensão muito grande, olha, vou te falar, até promessa a gente fazia (risos).

 

P/1 – É mesmo? Me conta isso.

 

R – Até promessa a gente fazia, e fazia promessa, e rezávamos, e fazia até corrente de oração. Porque o grupo, a gente tem esse sentimento que ele também é nosso, então aquilo lá é como se fosse da gente. A gente via o sofrimento, assim, das pessoas que estavam na linha de frente ali, trabalhando mesmo e pelejando, e a gente sempre gostaria de agregar alguma coisa, então a gente sempre, eu te falei, o que a gente podia ajudar, com trabalho, em ir rezando, e o que a gente podia fazer de melhor. Teve uma época dessas concessões, essa última agora, a anterior, eu me lembro, estava numa época extremamente difícil da concessão, e na época o presidente da Telebrás era o general Alencastro, uma pessoa dificílima de convivência, o Dr. Luiz tinha assim brigas homéricas com ele, porque uma pessoa muito centrada e não tinha essas perspectivas, não imaginava que hoje, por exemplo, poderia ser tudo privatizado. E o Dr. Luiz sempre com aquela visão muito grande e tentando, e ele aquela pessoa muito centrada e não queria mudar, e era muito difícil, e eu me lembro, o Dr. Luiz tinha saído de viagem, ele estava em Paris e o advogado nosso lá de Brasília ligou e falou: “Eu preciso localizar o Dr. Luiz agora”. E a diferença nossa com Paris era de cinco horas. E eu falei: “Bom, agora aonde vou localizá-lo?” Era noite, eu falei: “Bom, então eu vou localizá-lo, eu tenho uma missão, que eu tenho que descobrir onde esse homem está”. E consegui localizá-lo num restaurante em Paris (risos). Então, assim, foi o ponto chave, porque precisava dele, no outro dia ele teve que vir embora para vir assinar a coisa da renovação. E graças a Deus conseguiu renovar. Teve essa outra também, e foi assim um trabalho, mas um trabalho intenso mesmo, mas com a união, com a colaboração de todo mundo ali, e a gente passou ali momentos críticos de ansiedade mesmo, sabe? Mas conseguimos, pela competência do grupo, porque o grupo, graças a Deus, é muito competente nessa área, uma coisa que o pessoal orgulha-se muito. Recentemente, por exemplo, com a aquisição da Tess, em Campinas. A Tess é parceria nossa com os suecos lá. E quando houve o afastamento do presidente da Tess, quem assumiu a direção dela foi um diretor nosso, que foi o Nelson, então isso prova que a competência existe dentro do grupo. Hoje o grupo tem uma marca, que é a marca dos talentos do grupo, que são preparados. Então as empresas de mercado visam muito os funcionários, associados do grupo por isso, porque existe essa marca de preparação, de competência, que ficou nesse trabalho desenvolvido por todo mundo.

 

P/1 – Desculpe, Noêmia, precisamos interromper. Nós estamos agora começando a preparar a lista para agendar para o ano que vem. Aí nós gostaríamos bastante de tê-la como consultora. Pode ser? 

 

R – Claro, o Sr. Carloto é uma pessoa também que tem muito...

 

P/1- Bom, continuando ainda nesse momento, na descrição desses momentos críticos, que na verdade foram críticos, mas suponho tenham sido muito didáticos, muito formativos...

 

R – Muito, muito...

 

P/1 - Quer dizer, o que se aprende num momento de tensão como esse, onde as pessoas estão completamente desarvoradas, enfim, mas ainda mantendo um objetivo...

 

R – É uma das principais características que eu acho, assim nesses momentos de crise é você nunca perder a calma, o rumo, nunca deixar o controle, né, como o Dr. Luiz bem fala, nunca deixar o controle do barco, ele sempre usa esse termo. O barco não pode navegar sozinho e tem que ter o comandante dando as direções. E esse comandante tem que estar sempre ali, você tem que ter calma, tem que acreditar. Uma das principais causas também é você acreditar. E o pessoal nosso, graças a Deus, sempre acreditou, acreditou muito. Acreditou que sempre é possível, sempre se pode fazer e sempre fizeram, tanto que, uma coisa maravilhosa que nos aconteceu foi quando ganhamos a concorrência no Rio, nós disputamos nada mais nada menos que com Roberto Marinho. E...

 

P/1 – E o Bradesco...

 

R - E Bradesco. Então você, eu acho que foi assim, o acreditar das pessoas, o acreditar que pode fazer e que sabemos como fazer. Acho que isso realmente é que vale a pena demais. É você querer.

 

P/1 – Você lembra desse dia, da conquista da ATL no Rio? 

 

R – Lembro. Lembro muito bem. Nossa! 

 

P/1 – Como é que foi esse dia?

 

R – Lembro muito bem, foi assim, um grito de vitória tão grande, porque o pessoal estava ali naquela angústia, naquela vontade de vencer, naquela vontade de ganhar realmente, naquela expectativa e naquela tensão, e telefonava: “Saiu”? “Não, não saiu”. “E que horas que vai sair?” (risos). “Vai sair daqui a pouquinho”. E o telefone tocava e a gente olhava para o visor do telefone, não, não era. E quando era, a gente já ficava correndo (risos). E quando realmente saiu, nossa, foi aquele grito mesmo (risos). E interessante que, dias antes de sair o resultado, nós tínhamos uma funcionária que trabalhou conosco na primeira fase do Grupo ainda, e depois ela casou-se, porque existiam muitas normas na empresa. Na época que eu entrei, por exemplo, mulher não podia trabalhar de calça comprida. Só podia de saia. (risos). Depois colocou-se uniforme, e aí a gente tinha dois uniformes. Um era um vestido azul, segunda, terça e quarta. E quinta e sexta, a gente trabalhava sábado também de manhã, era uma saia marrom e uma blusa, assim, bege clarinha com um blazer por cima. Depois ficou muito difícil, porque entrava muita gente, aí a cor do azul não achava a mesma cor, aí ficava aquela cor diferente, então vamos normatizar. Saia preta, blusa branca, um blazer preto, e sapato preto. Você não podia ir com sapato de outra cor, tinha que ser preto (risos). Então, se você chegasse na portaria, o Sr. Moacir, que era o famoso Sr. Moacir ou o Sr. Arcelino, vocês entrevistaram Sr. Arcelino?

 

P/1 – Não.

 

R - Se eles vissem que você não estava com o sapatinho preto você não podia trabalhar. Você tinha que voltar para casa para colocar um sapatinho preto, depois voltar para trabalhar. (risos) Então não podia. Você tinha o horário. Era sete e meia, se você chegasse sete e trinta e um, você tinha que voltar, você não podia trabalhar, você trabalhava só depois do almoço. Então, era bem assim normatizado. Então, a primeira conquista que a gente teve foi trabalhar de calça comprida, aí a gente podia trabalhar de calça comprida. Depois conseguimos que o sapato não precisava ser o preto. Podia ser azul, marrom, não podia ser um branco. Depois, com muito custo, conseguimos que o uniforme não fosse necessário. Mas aí tinha que ser com blusa de manga, de gola, a saia mais compridinha. Depois com o tempo foi passando. Hoje até existe um pequeno exagero aí, isso vai de cada um. 

 

P/1 – Você dizia a propósito da ATL.

 

R – Mas eu...

 

P/2 - Uma funcionária que começou a trabalhar...

 

R – Ah, é por isso que eu até lembrei disso. E ela trabalhou na época e ela casou, teve filhos e tal, depois ela passou por uma vida muito difícil porque ela desenvolveu um câncer. E antes, disso ela ainda trabalhava numa empresa do grupo que chamava Sucotrisa, das fazendas aqui, e o escritório era na fazenda próximo de Monte Alegre. E o trajeto era feito de Kombi e houve um acidente e ela afetou o rosto, ela quebrou o maxilar e ficou com uma cicatriz, assim, no rosto. Ela ficou muito angustiada, muito chateada com aquilo e tal, que ela era uma pessoa extremamente bonita, cabelo muito preto, os olhos muito verdes, naquela época que te falei que fazia-se festas existia até concurso, então tinha Miss Telefonista, Miss Simpatia, Miss Sorriso, e ela era muito bonita e até ela ganhou um dos títulos desses. E depois disso, acho que nessa angústia e tal, ela desenvolveu um câncer, e ela passou por dificuldades, lógico que financeiras também, mas mais dificuldades afetivas. E a irmã dela mandou uma carta para o Dr. Luiz, falando que ela sempre gostou demais do grupo e tal, que ela estava naquela fase assim muito afetiva e que ela gostaria que o Dr. Luiz pudesse dar uma ajuda para ela.  E o Dr. Luiz, uma pessoa extremamente, o coração dele é maravilhoso, chamou o Cícero, nosso diretor de talentos humanos, e chamou essa pessoa para trabalhar de volta. E o mais interessante nessa pessoa, eu estou falando dela porque eu a admiro muito, admirei muito, e ela tinha um câncer, um câncer evoluidíssimo, e ela foi desenvolver um trabalho lá na empresa, em que ela é que ia confortar as pessoas, e não as pessoas confortá-la. Então você vê a grandeza dela, não é? E uns poucos dias antes, ela desenvolvia lá um trabalho de Reik, ela era muito, assim, naturalista e um pouco esotérica também, e o pessoal ia lá, o pessoal que estava com ansiedade ou alguma coisa ia procurá-la, então em vez de a gente confortá-la, era ela que confortava a gente. E uns dias antes de sair o resultado ela chamou todo mundo e fez uma oração muito bonita, muito bonita mesmo, (choro) pedindo justamente para isso, que conseguisse, pelo esforço do pessoal e tal e daí uns três dias sai o resultado, ela ficou extremamente feliz, pela contribuição que ela deu, só que daí um mês depois ela morreu. (pausa - choro). Mas foram conquistas muito bonitas...

 

P/2 – Qual o nome dela?

 

R – Olívia. Ela trabalhou com a gente muito tempo, uma pessoa fantástica mesmo. Então assim, você vê o amor que a gente tem, não é, pela empresa, pelo grupo, pelas pessoas que trabalham e que trabalharam lá. (suspiro)

 

P/1 – Mais que justificado, não é?

 

R - É.

 

P/1 - Porque trata-se de uma relação de vida, mais do que uma relação funcional.

 

R – Muito. Muito mesmo. Então assim, eu acho que uma das características muito grandes da gente que trabalha nesse grupo aqui é isso, essa afetividade e esse amor que a gente tem pelo grupo. Eu acho que até vou chorar de novo (risos), mas tem uma coisa assim muito bonita, o ano passado, o que eu mais gosto de fazer é o meu trabalho, faço assim com o maior amor, o maior carinho, gosto extremamente da família, do grupo, das pessoas que trabalham lá, e esse tempo todo eu trabalho, eu trabalho com o Dr. Luiz direto, eu trabalho com ele há 20 anos. Vai fazer 21 agora. Eu nunca afastei muito tempo, a não ser de férias, 15, 20 dias. E quando eu saí para dar à luz no ano passado, eu falei: “Vou ficar quatro meses fora daqui”. Mas assim, pensando do lado do meu filho e do lado da empresa. Aí cheguei no último dia que eu fui, trabalhei até... Eu dei à luz numa terça feira, eu trabalhei até na terça da semana anterior, fiquei uma semana só antes de eu dar à luz. Aí cheguei na sala do Dr. Luiz e falei para ele: “Dr. Luiz, hoje é meu último dia. (risos). Estou saindo para dar à luz”. E chorei muito. Ele olhou, olhou falou assim: “Mas porque a senhora está chorando, a senhora vai cuidar do meu filho?” (choro e riso). Eu falei: “Eu sinto como se estivesse deixando um outro filho” Ele falou: “Não, mas agora quem está precisando é o seu filho. Os outros filhos a senhora vai deixar aqui”. E chorei e fui, fiquei. Depois voltei, e quando foi esse ano agora, ele fez um curso em Harvard, ele deve ter até falado, e esse curso de Harvard, ele ficava um mês, por três anos. E quando foi este ano encerrou o curso dele. Aí, quando ele voltou, foi a última turma, foi  a solenidade de formatura, aí quando ele voltou eu cheguei na sala dele e perguntei se tinha ido tudo bem, e ele falou para mim assim: “Engraçado, eu entendo exatamente o que a senhora sentiu quando a senhora saiu para dar à luz o ano passado”. Eu falei: “Porquê?” Ele falou assim: “A senhora acredita que na hora que eu terminei o curso, terminou a festa, no outro dia, eu fui lá para o meu quarto – porque eles ficavam na escola mesmo – tirei todas as coisas, limpei as gavetas, limpei tudo, coloquei dentro da mala, sentei, e olhei para o quarto, olhei para o jardim e eu chorei”. E ele, contando para mim, ele tornou a chorar, e ele falou assim: “Agora, eu entendo exatamente porque a senhora chorou”. (risos e choro). Eu falei; “É o sentimento que a gente tem”. 

 

P/1 – Não se trata mais de um presidente e de uma secretária, não é?

 

R – É muito tempo, né? E, graças a Deus, o relacionamento que eu tenho com a família dele é maravilhoso. O filho dele está no mesmo caminho, que é o Luiz Alexandre, uma pessoa maravilhosa, ele é um menino muito bem criado, muito educado, muito amoroso, a Ana Marta é outra também, muito bem criada, muito amorosa, assim, posso chamá-los até de amigos mesmo, são pessoas extremamente... é só Deus mesmo para guiá-los.

 

P/1 – Como é que é a sua rotina hoje, seu dia a dia? 

 

R – Hoje? Ah, eu vou de manhã, trabalho, faço meu trabalho no período da manhã, vou em casa almoçar, porque eu tenho um menininho pequenininho, eu acho que...

 

P/1 – Como é o nome dele?

 

R - João Daniel, é o nome do meu pai e do meu avô. Eu faço questão, porque acho que esse laço é muito importante, ainda mais na fase dele, que é muito pequeno, embora eu fique meia hora com ele, mas eu acho essa meia hora muito aproveitada. Volto, desenvolvo meu trabalho, tem dia que até seis horas, outro dia até sete, até oito, até cinco, depende do andamento. Porque eu trabalho muito em função do Dr. Luiz, se ele fica até oito, eu fico até oito, às vezes ele sai um pouco mais cedo, tipo seis, seis e pouquinho, terminou eu também saio. E é assim, tenho minha vida também, adoro ler, passear, ir ao cinema, adoro ir ao cinema, prefiro do que pegar um vídeo para ver em casa. Esse ir ao cinema acho muito importante. E é uma vida normal mesmo, (riso) nada de...

 

P/1 – Além da leitura e do cinema algum outro hobby?

 

R – É, gosto muito de viajar, por exemplo, de viajar, gosto muito de música, meu marido adora música demais, música lá em casa, meu menininho adora, porque desde que eu estava grávida ele já ouvia música. 

 

P/1 – E o que você mais escuta em casa?

 

R – A gente escuta, assim, muito clássico, e meu marido gosta de rock e eu gosto mais de música brasileira. Sou bem nacionalista. Eu falo para ele que lá em casa a gente tem extremos, ou é clássico ou é rock (risos).

 

P/1 – Essa convivência cotidiana com o Dr. Luiz , que já está mais do que cristalizada, depois desses 20 anos, ela ainda guarda momentos de tensão, críticos, momentos em que a Noêmia tem que dar aquele suporte que é decisivo numa determinada gestão, enfim, tem algum episódio que caracterize alguma coisa parecida com aquilo que você já passou tantas vezes?

 

R – Ah, não, sempre tem, sempre tem. Por exemplo, o Dr. Luiz ele me dá muita responsabilidade, assim, ele me dá muito poder de decisão, muitas coisas ele fala: “Não, a senhora mesmo resolve”, então assim, e às vezes a gente que é secretária, a gente tem, como é que descreve muito uma secretária, você é envolvida na decisão, às vezes você até tem vontade, às vezes você até toma alguma decisão baseada naquilo que você já desenvolveu. Às vezes em situações, a gente tem, existe uma confiabilidade muito grande, a gente faz parte, trabalha muito junto, faz parte das decisões, das angústias ali. Até outro dia ele até brincou muito, porque a gente estava fazendo um trabalho, e o telefone tocou, ele atendeu, e brincou: “Não, pode falar comigo que a Noêmia está muito ocupada”. (risos) 

 

P/1 – Ele mantém esse humor sempre ou é uma coisa episódica?

 

R – Não, ele tem, tem humor, ele tem, lógico, todo mundo tem o dia que ele está mais nervoso, mas a gente já conhece muito bem. O dia que eu sei que ele está mais agitado, mais nervoso um pouquinho, a gente deixa, não passa aqueles problemas chatos, não é? Você já conhece bem. 

 

P/1 – Você viveu situações, como você própria relatou, muito críticas, muito problemáticas na sua trajetória com o grupo, como você mesma relatou, especialmente nos últimos 20 anos desses 31 que você está aqui. Como é que você enxerga o futuro, tendo esse conhecimento, como é que você olha o grupo e a CTBC na perspectiva do futuro? Desse futuro que está à nossa frente. O que você vislumbra aí nesse horizonte? 

 

R – Para mim ou para o grupo?

 

P/1 - Para você e para o grupo. 

 

R – Eu acho assim que o grupo tem tudo para crescer, vai crescer, tem oportunidades, acho que o Brasil está sendo o país das oportunidades, porque está tudo nascendo, está tudo crescendo, e com o conhecimento que a gente tem, que a gente teve, eu acho que o grupo tem um futuro bom, muito bom mesmo. Cada dia são novos negócios que aparecem, a velocidade é muito rápida, você tem que estar à frente mesmo, porque senão você fica para trás, e eu acho que a gente tem que acompanhar, tem que se profissionalizar, eu, por exemplo, nunca me deixei, sempre me preparo, cada vez mais, ainda quero trabalhar por algum tempo (risos). Como diz o Luiz Alexandre: “Enquanto o papai e eu estivermos aqui, você vai ficando”. Brincando comigo, mas não por isso. Eu jamais descuido do meu treinamento, sabe? Eu sempre invisto em mim porque acho que você tem que, além de preparar para trabalhar numa empresa, você tem que preparar para a vida também. Porque hoje você pode estar numa empresa e amanhã estar em outro lugar, você não sabe sua vida com é que é, de repente amanhã meu marido recebe uma proposta boa e tenho que ir embora, então eu acho que você tem que estar preparado para a vida. E eu acho que as perspectivas são boas, eu acho que o nosso grupo ainda vai muito, mas muito longe ainda.

 

P/1 – Pessoalmente, que sonhos você acalenta, o que você espera ainda fazer na vida?

 

R – O que eu espero? Ah, eu espero tanta coisa boa (risos). Eu espero principalmente, assim, ver, porque tenho um menininho pequeno, espero ver ele crescer. Quero, se Deus quiser, acompanhar a trajetória da vida dele, quero melhorar cada vez mais o meu trabalho, eu como pessoa também, que acho que tem muita coisa que a gente tem que melhorar, a minha família, o meu marido, quero que ele também cresça cada dia mais, quero muito sonho bom, porque a gente nunca pode perder a capacidade e a vontade de sonhar, se não você se perde também para a vida. Então quero estar sempre sonhando com alguma coisa a mais...

 

P/1 – O que você seria capaz de dizer para uma pessoa que estivesse entrando hoje na CTBC ou no grupo e você fosse recebê-la o que você diria para ela? 

 

R – Eu diria o seguinte: “Prepare cada dia mais, porque o conhecimento é uma das coisas que ninguém tira de você”, o que eu aprendi com o Sr. Alexandrino. Invista em você, sonhe, pense grande, pense alto, comece a fazer, mas faça agora. Comece fazendo já. E lute sempre. Acho que seria isso, por aí.

 

P/1 – Muito bem, eu queria saber o que lhe pareceu ter dado esse depoimento tão sensível...

 

R – Foi muito bom para mim, eu lembrei muitas coisas boas e gostosas da nossa vida, do tempo que eu passei lá, fiz um retrocesso tão grande que comecei desde pequenininha, então eu lembrei de coisas, assim, que emocionam, de coisas boas, muita coisa, assim, que eu aprendi tanto, e pensei como o tempo passa rápido, não é? E eu parando aqui e pensando, já são 31 anos, é muito tempo, é muito tempo. (Risos). Foi muito bom, foi um reviver, sabe? Foi um reviver, um repensar, uma coisa que me fez um bem muito grande. Obrigada a vocês.

 

P/1 - A gente agradece. Muito obrigado.

 

R – Desculpa aí por ter chorado, eu choro muito. (Risos)

 

P/1 – Não tem nada a desculpar, foi por querer. Olha, foi muito legal, muito obrigado. 

 

R – O que eu puder contribuir lá, eu estou às ordens.

 

P/1 – Foi muito bom te ouvir sabe? Foi muito legal, muito bom mesmo.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+